Quem foi que soprou aqui?
Quem foi que soprou aqui?
Após varrer todo o quintal
As folhas recolhidas
Novamente se espalharam
Novamente ponho-me a varrer
O quintal de minha mente
E quem sabe sopre de novo
O sopro do meu coração!
O sopro do seu coração!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Altar da pressa
Galhos imensos
Hasteados ancestres se
entrelaçando como dedos
O calor incolor do sol
e um céu de clorofila
Mastreando o pescoço
feito árvore grandona
Ponteando surge o fruto
hora verde, hora maduro
hora verde, hora maduro
Altar da pressa.
Luminoso sinal.
Há quem olhe e pare
e há quem corra, só de ver
este fruto de olhar
Hasteados ancestres se
entrelaçando como dedos
O calor incolor do sol
e um céu de clorofila
Mastreando o pescoço
feito árvore grandona
Ponteando surge o fruto
hora verde, hora maduro
hora verde, hora maduro
Altar da pressa.
Luminoso sinal.
Há quem olhe e pare
e há quem corra, só de ver
este fruto de olhar
domingo, 27 de novembro de 2011
Pelas vias da incerteza
Muito me diz
Este silêncio opaco
Deixando um rastro
De quem passou por aqui
Em cuja incerteza
Ainda paira o fantasma
Do medo
De ser mais uma vez
Verdadeiro
Em todo seu instinto
Marcando a pele
O dente canino
De sempre desejado
Este silêncio opaco
Deixando um rastro
De quem passou por aqui
Em cuja incerteza
Ainda paira o fantasma
Do medo
De ser mais uma vez
Verdadeiro
Em todo seu instinto
Marcando a pele
O dente canino
De sempre desejado
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Numa sala da farmácia
Numa farmácia popular
Havia numa garrafa
De minha infância
Uma cobra verde.
Ela vivia naquela garrafa
Mergulhada no formol
Nunca saia de lá
Fingindo-se de morta
Sem se mexer
E de olhos redondos
Envidraçados.
Contemplava o mundo
Minha passagem por lá
Naquele laboratório
Em que o farmacêutico
Preparava
Suas beberagens
Pós para curar feridas
Marcadas na alma
Das mulheres pecadoras
Que amavam outros homens
Que amavam outras mulheres
Que amavam a si próprias
Suas calças de marca
Seus penteados endurecidos
Por laquê.
Havia numa garrafa
De minha infância
Uma cobra verde.
Ela vivia naquela garrafa
Mergulhada no formol
Nunca saia de lá
Fingindo-se de morta
Sem se mexer
E de olhos redondos
Envidraçados.
Contemplava o mundo
Minha passagem por lá
Naquele laboratório
Em que o farmacêutico
Preparava
Suas beberagens
Pós para curar feridas
Marcadas na alma
Das mulheres pecadoras
Que amavam outros homens
Que amavam outras mulheres
Que amavam a si próprias
Suas calças de marca
Seus penteados endurecidos
Por laquê.
Brinquedos atirados
Deixados ao relento
Os brinquedos não têm
Mais nenhum valor
Uma vez brincados com eles
São atirados ao relento
Até que a próxima criança
Chegue e brinque de novo
E quando a brincadeira perder a graça
De graça fica para quem encontrar
De novo
De novo começa a brincadeira...
Os brinquedos não têm
Mais nenhum valor
Uma vez brincados com eles
São atirados ao relento
Até que a próxima criança
Chegue e brinque de novo
E quando a brincadeira perder a graça
De graça fica para quem encontrar
De novo
De novo começa a brincadeira...
Abandonos irracionais
Abandonado num dia de chuva
O cachorro não sente saudades
De seu antigo dono
Que agora sem dono
Tem toda a liberdade de viver
Na vadiagem das ruas sem lei
E morrer a cada momento
De um dia para o outro
E ninguém sentirá sua falta
Que um dia
Existiu um cachorro
Que tinha um dono.
Quem seria o cachorro?
Quem seria o dono?
O cachorro não sente saudades
De seu antigo dono
Que agora sem dono
Tem toda a liberdade de viver
Na vadiagem das ruas sem lei
E morrer a cada momento
De um dia para o outro
E ninguém sentirá sua falta
Que um dia
Existiu um cachorro
Que tinha um dono.
Quem seria o cachorro?
Quem seria o dono?
Procura que não se cansa
Que palavra pode ser mais bela
Do que aquela que existe
Talvez seja aquela que precisa
Ser inventada
Na batida do coração
No sangue que circula
Percorrendo todas as artérias
Azuis e vermelhas
Oxigenadas
Carbonizadas
Nascidas
E morridas
No instante exato
Deste mesmo momento
Que não encontro
Palavra alguma
Senão o silêncio
Que contraria tudo
O que foi descrito
Num pergaminho
Perdido num mar
Que não existe mais.
Do que aquela que existe
Talvez seja aquela que precisa
Ser inventada
Na batida do coração
No sangue que circula
Percorrendo todas as artérias
Azuis e vermelhas
Oxigenadas
Carbonizadas
Nascidas
E morridas
No instante exato
Deste mesmo momento
Que não encontro
Palavra alguma
Senão o silêncio
Que contraria tudo
O que foi descrito
Num pergaminho
Perdido num mar
Que não existe mais.
domingo, 13 de novembro de 2011
Uma história não acontecida
Sem nada dizer foi-se
Numa ventania foi-se
Foi-se como isso tivesse importância
Como pudesse fugir
De um jogo de esconde-esconde
E assim refugiar-se num esconderijo
Bem longe
Como num dia apareceu
De surdina desapareceu
Apagando a cal impregnada
Numa lousa carregada de história.
Numa ventania foi-se
Foi-se como isso tivesse importância
Como pudesse fugir
De um jogo de esconde-esconde
E assim refugiar-se num esconderijo
Bem longe
Como num dia apareceu
De surdina desapareceu
Apagando a cal impregnada
Numa lousa carregada de história.
Passagem da banda
Ainda em minha lembrança
De uniforme branco
Uma banda andava pelas ruas
E tocava uma melodia
Todos saíam para ver
A passagem da banda
A passagem da vida
E a vida passou...
De uniforme branco
Uma banda andava pelas ruas
E tocava uma melodia
Todos saíam para ver
A passagem da banda
A passagem da vida
E a vida passou...
Uma estátua de pedra
Naquela praça em que passava
Uma mulher nua de pedra
Sorria pela eternidade
Sem nunca mudar sua expressão
Lá estava
Ela
Nunca falava
Nunca reclamava
Mas continuava a sorrir
Um sorriso de pedra negra
Podia ser amada
Podia ser desprezada
Não mudava o sorriso lindo
No canto da boca
E assim permaneceu por anos
Do mesmo jeito
Enquanto a praça envelhecia
Veio um trator e tudo derrubou
Carregaram a mulher de pedra
Quebrou-se um dos braços
Esfolou uma perna
Enquanto sorria
Como nada tivesse acontecido
Uma mulher nua de pedra
Sorria pela eternidade
Sem nunca mudar sua expressão
Lá estava
Ela
Nunca falava
Nunca reclamava
Mas continuava a sorrir
Um sorriso de pedra negra
Podia ser amada
Podia ser desprezada
Não mudava o sorriso lindo
No canto da boca
E assim permaneceu por anos
Do mesmo jeito
Enquanto a praça envelhecia
Veio um trator e tudo derrubou
Carregaram a mulher de pedra
Quebrou-se um dos braços
Esfolou uma perna
Enquanto sorria
Como nada tivesse acontecido
Em algum ponto da cidade
Os caminhos que cruzam
Minha cidade
Vão para todos os cantos
E para os cantos algum
Por mais que se caminhe
Não chegaremos jamais
A algum destino que seja
Pessoal
Por mais que tentemos
Tornar este caminhar
Um caminhar próprio
Será impróprio
Desejar um caminho que seja
Somente meu
Será teu também
Nenhum outro caminho existe
Além do próprio caminhar
Seja distante
Seja perto
Nunca sairemos do lugar
Em que sempre estaremos
Minha cidade
Vão para todos os cantos
E para os cantos algum
Por mais que se caminhe
Não chegaremos jamais
A algum destino que seja
Pessoal
Por mais que tentemos
Tornar este caminhar
Um caminhar próprio
Será impróprio
Desejar um caminho que seja
Somente meu
Será teu também
Nenhum outro caminho existe
Além do próprio caminhar
Seja distante
Seja perto
Nunca sairemos do lugar
Em que sempre estaremos
sábado, 12 de novembro de 2011
Canto da terra condenada
As ondas que varreram Fukushima
Ainda continuam varrendo
As margens desoladas do Pacífico
E os arrozais contaminados
Por anos não mais produzirão
Enquanto as usinas radioativas
Continuarem vitimando
As mulheres que não se casarão
E as crianças sem nada saber
Numa praia qualquer
Continuarão a levantar
Castelos de areia
Ajudados por Jizo
Para serem destruídos depois
Ainda continuam varrendo
As margens desoladas do Pacífico
E os arrozais contaminados
Por anos não mais produzirão
Enquanto as usinas radioativas
Continuarem vitimando
As mulheres que não se casarão
E as crianças sem nada saber
Numa praia qualquer
Continuarão a levantar
Castelos de areia
Ajudados por Jizo
Para serem destruídos depois
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Passarinhos
Passarinhos cantam invisíveis na árvore da praça
Só hoje parei para procurar
Mas só encontrei um passarinho
Que não sabe cantar
Só hoje parei para procurar
Mas só encontrei um passarinho
Que não sabe cantar
domingo, 6 de novembro de 2011
Pelas ruas de domingo
Sem se importar
Se hoje é domingo
Se isso realmente
Importasse
Dormia em seus trapos
O mendigo na rua
Abandonado por todos
Abandonado por mim
Que não pude nada fazer
Por isso fiz
Esta poesia
Para lembrar que havia
Um mendigo na rua
Um mendigo que dormia
Sem incomodar ninguém
Só eu me incomodava
Que havia
Um mendigo que dormia.
Se hoje é domingo
Se isso realmente
Importasse
Dormia em seus trapos
O mendigo na rua
Abandonado por todos
Abandonado por mim
Que não pude nada fazer
Por isso fiz
Esta poesia
Para lembrar que havia
Um mendigo na rua
Um mendigo que dormia
Sem incomodar ninguém
Só eu me incomodava
Que havia
Um mendigo que dormia.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Batidas cardíacas
Nem sempre a esperança
É uma solução
Cuja espera pode estender-se
Pela eternidade.
O arroubo das paixões
Uma vez derramado
Escorre imediatamente
Para o ralo.
É uma solução
Cuja espera pode estender-se
Pela eternidade.
O arroubo das paixões
Uma vez derramado
Escorre imediatamente
Para o ralo.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Uma vida inútil
Que de bom fiz nesta vida
Senão errar pelas esquinas
Para ver sombrinhas azuis
Subindo ladeira acima
Em dias que não havia sol.
Senão errar pelas esquinas
Para ver sombrinhas azuis
Subindo ladeira acima
Em dias que não havia sol.
Um ato de esquecimento
Sei que vou esquecer
Das linhas bordadas
Por Ofélia
Só não posso esquecer
Daquilo que alimenta
Este constante viver
Com gosto de veneno
E cor maravilhosa.
Das linhas bordadas
Por Ofélia
Só não posso esquecer
Daquilo que alimenta
Este constante viver
Com gosto de veneno
E cor maravilhosa.
De onde sopra o vento
Nenhum motivo para desespero
Quando uma apática indiferença
Possa causar danos incontroláveis
Mesmo assim o moinho de vento
Roda num leve soprar
Ao sabor salgado que sopra do mar.
Quando uma apática indiferença
Possa causar danos incontroláveis
Mesmo assim o moinho de vento
Roda num leve soprar
Ao sabor salgado que sopra do mar.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Silêncio cai devagar
Calar-se por momentos
É mais comprometedor
Do que todas as palavras ditas
Pois no não dito
Esconde-se aquilo que nenhuma
Palavra pode dizer.
É mais comprometedor
Do que todas as palavras ditas
Pois no não dito
Esconde-se aquilo que nenhuma
Palavra pode dizer.
Cidade passageira
Chovia naquela tarde
Incessantemente chovia
Pelas ruas desta cidade
Enquanto a vida passava
Passava urgente a mulher
Que perdia o trem
Era o trem que passava
Era também
Um tiro que passava
Um raio também
Veio a morte
Mas nada detinha
Daquilo que arrastava
E passava
Passageiro de passagem
Sem nunca se deter
Um instante sequer.
Incessantemente chovia
Pelas ruas desta cidade
Enquanto a vida passava
Passava urgente a mulher
Que perdia o trem
Era o trem que passava
Era também
Um tiro que passava
Um raio também
Veio a morte
Mas nada detinha
Daquilo que arrastava
E passava
Passageiro de passagem
Sem nunca se deter
Um instante sequer.
domingo, 30 de outubro de 2011
Via expressa
Adiante estava anunciando
Pare!
Alguns passaram
Sem respeitar a placa
Pare!
Por um momento
A vida parou
Para uns
Para mim a vida
Continuou
Indiferente o que dizia
Aquela placa
Pare!
Continuei parado
Por algum tempo
Sem que o mundo
Deixasse de girar
Um segundo sequer.
Pare!
Alguns passaram
Sem respeitar a placa
Pare!
Por um momento
A vida parou
Para uns
Para mim a vida
Continuou
Indiferente o que dizia
Aquela placa
Pare!
Continuei parado
Por algum tempo
Sem que o mundo
Deixasse de girar
Um segundo sequer.
Viagem sem destino
Não renego
Jamais
Uma vontade insana
De partir
Sem destino certo
Destino algum
Pode ser Kanchaka
Pode ser a Conchinchina
Que deixou de existir
Quero partir para lugar algum
Acima do Equador
Abaixo do Equador
Onde as mulheres não envelhecem
Mais
E oferecem seus colos
Para que os pássaros façam ninhos
E uma cachoeira caia
Para que os homens afoguem
Suas mágoas
Para continuarem a viver.
Jamais
Uma vontade insana
De partir
Sem destino certo
Destino algum
Pode ser Kanchaka
Pode ser a Conchinchina
Que deixou de existir
Quero partir para lugar algum
Acima do Equador
Abaixo do Equador
Onde as mulheres não envelhecem
Mais
E oferecem seus colos
Para que os pássaros façam ninhos
E uma cachoeira caia
Para que os homens afoguem
Suas mágoas
Para continuarem a viver.
Sem rastros sem saudades
Que pode ser mais ilusório
Do que o tempo passado
Como nada tivesse realmente
Acontecido
Como tudo tivesse realmente
Acontecido
E assim desaparecido
Como uma nuvem branca
Que neste momento havia
E se desfez
Como nunca tivesse realmente
Havido.
Que me importa
As evidências de uma suposta
Existência
Se não existe mais
Nem mesmo a lembrança
Que a cada momento
Mais opaca fica
E um dia chega
Em total amnésia
Do que foi um dia.
Do que o tempo passado
Como nada tivesse realmente
Acontecido
Como tudo tivesse realmente
Acontecido
E assim desaparecido
Como uma nuvem branca
Que neste momento havia
E se desfez
Como nunca tivesse realmente
Havido.
Que me importa
As evidências de uma suposta
Existência
Se não existe mais
Nem mesmo a lembrança
Que a cada momento
Mais opaca fica
E um dia chega
Em total amnésia
Do que foi um dia.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Em causa perdida
Era uma casa de secos e molhados
Era a casa de minha mãe
Em que me perdia nas prateleiras
Das garrafas de groselha
Perdia-me com tamanha vontade
Que nunca mais voltei
E perdido continuo
Misturando as letras
Dos rótulos
E enganando o tempo
De avançar.
Era a casa de minha mãe
Em que me perdia nas prateleiras
Das garrafas de groselha
Perdia-me com tamanha vontade
Que nunca mais voltei
E perdido continuo
Misturando as letras
Dos rótulos
E enganando o tempo
De avançar.
Noites de sonolência
Em minhas noites
Ainda me assombra
O homem preto
Carregando um saco enorme
Cheio de biscoitos.
Sua voz é rouca
E anuncia roucamente
Biscoito
Biscoito
Biscoito
Nunca comprei
Biscoitos dele
Nem sei se realmente gosto
De biscoitos
Mas ele insiste...
Ainda me assombra
O homem preto
Carregando um saco enorme
Cheio de biscoitos.
Sua voz é rouca
E anuncia roucamente
Biscoito
Biscoito
Biscoito
Nunca comprei
Biscoitos dele
Nem sei se realmente gosto
De biscoitos
Mas ele insiste...
Nada mais acontecia
Todos os dias
Naquela mesma hora
Duas velhas caminhavam
Em direção à igreja.
Todos os dias
Naquela mesma hora
Dois soldados montavam
Guarda na porta do quartel.
Sempre era a mesma coisa
Nada mudava
E por anos continuou assim
Por detrás daquela janela
Os olhos que espiavam
A rotina de sempre.
Um dia
Uma das velhas não passou
E criou-se um alvoroço
O que teria acontecido?
Os soldados levantaram armas
E apontaram
Até que a velha apareceu
E assim
Duas velhas passavam
Em direção à igreja.
Nada mudou na vida
Daquela cidade
Que nada acontecia
Senão a passagem
De duas velhas
Em direção à igreja.
Como sempre foi
E qualquer mudança
Não era bem vinda.
Naquela mesma hora
Duas velhas caminhavam
Em direção à igreja.
Todos os dias
Naquela mesma hora
Dois soldados montavam
Guarda na porta do quartel.
Sempre era a mesma coisa
Nada mudava
E por anos continuou assim
Por detrás daquela janela
Os olhos que espiavam
A rotina de sempre.
Um dia
Uma das velhas não passou
E criou-se um alvoroço
O que teria acontecido?
Os soldados levantaram armas
E apontaram
Até que a velha apareceu
E assim
Duas velhas passavam
Em direção à igreja.
Nada mudou na vida
Daquela cidade
Que nada acontecia
Senão a passagem
De duas velhas
Em direção à igreja.
Como sempre foi
E qualquer mudança
Não era bem vinda.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
As meninas das brincadeiras
Aquelas meninas com quem brinquei
Um dia
Onde andarão?
Terão crescido?
Não seria justo
Não seriam mais meninas
E que não brincam mais
E que esqueceram também
Que um dia
Brincaram também.
Em algum lugar neste mundo
Pode ser
Pode ser debaixo de uma folha
Oculto numa nuvem
Numa estrela
Em algum lugar neste mundo
Continuam brincando
E continuo brincando com elas
Que nunca cresceram.
Somente cresceu
Minha falta de inocência
Somente cresceu
Minha total intolerância.
Um dia
Onde andarão?
Terão crescido?
Não seria justo
Não seriam mais meninas
E que não brincam mais
E que esqueceram também
Que um dia
Brincaram também.
Em algum lugar neste mundo
Pode ser
Pode ser debaixo de uma folha
Oculto numa nuvem
Numa estrela
Em algum lugar neste mundo
Continuam brincando
E continuo brincando com elas
Que nunca cresceram.
Somente cresceu
Minha falta de inocência
Somente cresceu
Minha total intolerância.
domingo, 16 de outubro de 2011
As crianças levadas pelas ondas
Aquelas bonecas de madeira
Branca
Aquelas bonecas japonesas
Sem braços
Sem pernas
Que segredos esconderão?
Kokeshi ningyo
Assim se chamavam
Kokeshi ningyo
Foi assim que as conheci
Que serviam para enfeitar.
Bonecas de madeira
Bonecas de Miyagi
Que as altas ondas destruíram
Carregando casas
Carregando crianças
Carregando bonecas
Carregando kokeshi ningyo
De Miyagi.
Branca
Aquelas bonecas japonesas
Sem braços
Sem pernas
Que segredos esconderão?
Kokeshi ningyo
Assim se chamavam
Kokeshi ningyo
Foi assim que as conheci
Que serviam para enfeitar.
Bonecas de madeira
Bonecas de Miyagi
Que as altas ondas destruíram
Carregando casas
Carregando crianças
Carregando bonecas
Carregando kokeshi ningyo
De Miyagi.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Felicidade cruza a rua
Prestes a atravessar
A rua
Chega alguém
Que nunca vi
Que nunca mais verei
Em questão de instantes
Lança-me uma pergunta:
- Você é feliz?
Que direito ele tinha
De perguntar
Pergunta tão pessoal
Que resposta alguma
Foi devolvida
Só queria saber
Se alguém que cruzasse
Na rua
Era feliz
Apenas isso
Mas nada foi dito
E cada um foi para
Um lado
Como nada daquilo
Tivesse acontecido
Algum dia
Que importância tinha
Afinal
Se alguém era feliz
A rua
Chega alguém
Que nunca vi
Que nunca mais verei
Em questão de instantes
Lança-me uma pergunta:
- Você é feliz?
Que direito ele tinha
De perguntar
Pergunta tão pessoal
Que resposta alguma
Foi devolvida
Só queria saber
Se alguém que cruzasse
Na rua
Era feliz
Apenas isso
Mas nada foi dito
E cada um foi para
Um lado
Como nada daquilo
Tivesse acontecido
Algum dia
Que importância tinha
Afinal
Se alguém era feliz
E Nagasaki ficou
Tenho na sola dos pés
O solado que ficou
Das ruas de Nagasaki
Por onde andei e saudade
Ficou
Em Nagasaki ficou
Um pouco de mim
Das águas daquela cidade
Em que me banhei
Curei um pouco
De uma doença imaginária
Que de pouco a pouco
Novamente
Toma conta de mim
Mas quando me lembro
De Nagasaki
Durante a primavera
Chega-me um consolo
Soprado por um vento
Que venta de lá
Que venta em mim
O solado que ficou
Das ruas de Nagasaki
Por onde andei e saudade
Ficou
Em Nagasaki ficou
Um pouco de mim
Das águas daquela cidade
Em que me banhei
Curei um pouco
De uma doença imaginária
Que de pouco a pouco
Novamente
Toma conta de mim
Mas quando me lembro
De Nagasaki
Durante a primavera
Chega-me um consolo
Soprado por um vento
Que venta de lá
Que venta em mim
Nas águas plásticos do kingio
Numa esquina que
Jamais esqueci
Jamais voltei
Ainda existe
O vendedor de kingios.
Era naquela esquina
Num saco plástico
Quase a sufocar
Naquelas águas
Kingios nadavam.
Naquelas águas
Ainda
Os kingios continuam
A nadar
Como que o tempo
Não mais existisse.
Kingios coloridos
Dois kingios
Um casal de kingios.
Cheguei a pensar
Que o kingio era eu
Mas um dia
O kingio morreu
Cheguei a pensar
Que o kingio era eu.
Meu egoísmo foi tamanho
Que recusei-me a morrer.
Jamais esqueci
Jamais voltei
Ainda existe
O vendedor de kingios.
Era naquela esquina
Num saco plástico
Quase a sufocar
Naquelas águas
Kingios nadavam.
Naquelas águas
Ainda
Os kingios continuam
A nadar
Como que o tempo
Não mais existisse.
Kingios coloridos
Dois kingios
Um casal de kingios.
Cheguei a pensar
Que o kingio era eu
Mas um dia
O kingio morreu
Cheguei a pensar
Que o kingio era eu.
Meu egoísmo foi tamanho
Que recusei-me a morrer.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Um bolo na cara!
Nem sei que razão há
Irracional seria se houvesse
Alguma razão
Para se comemorar
Aniversários.
Após cinco décadas de vida
Metade de uma vida
Ainda se para
Para comemorar
Aniversários.
Ser lembrado causa
Constrangimento
Por estar mais enrugado
Menos sonhador
Mais próximo da própria morte.
Se for assim
Comemorar talvez seja
Comemorar o ano que foi
Sobrevivente das tempestades
Amorosas e reumáticas
Febres sem motivos
Físicos e espirituais.
Comemorar é ironia
Que não combina
Fora de tom
Que não tem rima.
Irracional seria se houvesse
Alguma razão
Para se comemorar
Aniversários.
Após cinco décadas de vida
Metade de uma vida
Ainda se para
Para comemorar
Aniversários.
Ser lembrado causa
Constrangimento
Por estar mais enrugado
Menos sonhador
Mais próximo da própria morte.
Se for assim
Comemorar talvez seja
Comemorar o ano que foi
Sobrevivente das tempestades
Amorosas e reumáticas
Febres sem motivos
Físicos e espirituais.
Comemorar é ironia
Que não combina
Fora de tom
Que não tem rima.
O Poder da palavra mítica
Da mesma forma que, no ato de Criação, a palavra divina do Ser Supremo veio animar as forças cósmicas que se acham estáticas, em repouso, a palavra humana anima, põe em movimento e desperta as forças que se encontram estáticas nas coisas.
À imagem da palavra do Ser Supremo, da qual é eco, a palavra humana põe em movimento forças latentes, que despertam e acionam algo, como ocorre quando um homem se ergue ou se volta ao ouvir chamar seu nome.
A palavra humana é como fogo: pode criar a paz, assim como pode destruí-la. Uma só palavra inoportuna pode fazer estourar uma guerra, assim como uma simples fagulha pode provocar um incêndio.
LOPES.Nei, Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos, Rio de Janeiro, Senac rio, 2005, p.31
À imagem da palavra do Ser Supremo, da qual é eco, a palavra humana põe em movimento forças latentes, que despertam e acionam algo, como ocorre quando um homem se ergue ou se volta ao ouvir chamar seu nome.
A palavra humana é como fogo: pode criar a paz, assim como pode destruí-la. Uma só palavra inoportuna pode fazer estourar uma guerra, assim como uma simples fagulha pode provocar um incêndio.
LOPES.Nei, Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos, Rio de Janeiro, Senac rio, 2005, p.31
Sabedoria popular será
Num muro
Da Praça Roosevelt
Numa pichação
Estava posto
“Viver é esquecer
Lembrar é sofrer”.
Mas pode se diferente
Poeta ausente
“Amar é perder
Viver é fingir”
Poeta fingidor.
Da Praça Roosevelt
Numa pichação
Estava posto
“Viver é esquecer
Lembrar é sofrer”.
Mas pode se diferente
Poeta ausente
“Amar é perder
Viver é fingir”
Poeta fingidor.
Um ipê amarelo mirrado
Acreditem
Como no ano passado
Como no ano retrasado
Como nos anos que passaram
Uma década se passou
E todo ano
Passado o ano
Novamente floresceu
No mesmo jardim
O pequeno ipê
Mirrado ipê
Sem presença
Quase oculto
Sem que ninguém notasse
Até que notei mais uma vez
O mesmo ipê
Com galhos delgados
Soltando na brisa
Uma flor hoje
Outra amanhã
Sem inundar nunca o jardim
De maneira discreta
Sem que ninguém percebesse
Que continua florindo
Ipês amarelos
De beleza imensa
Mais bela ainda
Do que todos os outros
Ipês amarelos floridos
Desta cidade.
Como no ano passado
Como no ano retrasado
Como nos anos que passaram
Uma década se passou
E todo ano
Passado o ano
Novamente floresceu
No mesmo jardim
O pequeno ipê
Mirrado ipê
Sem presença
Quase oculto
Sem que ninguém notasse
Até que notei mais uma vez
O mesmo ipê
Com galhos delgados
Soltando na brisa
Uma flor hoje
Outra amanhã
Sem inundar nunca o jardim
De maneira discreta
Sem que ninguém percebesse
Que continua florindo
Ipês amarelos
De beleza imensa
Mais bela ainda
Do que todos os outros
Ipês amarelos floridos
Desta cidade.
As paredes brancas de cal
Ainda que as paredes sejam surdas
Elas ouvem
Ainda que as paredes sejam mudas
Elas falam
Mas basta uma camada de cal
Para calá-las
Se enxergavam
Não enxergam mais
As paredes testemunham
A vida acontecendo
E vivem juntos
E juntos também morrem.
Elas ouvem
Ainda que as paredes sejam mudas
Elas falam
Mas basta uma camada de cal
Para calá-las
Se enxergavam
Não enxergam mais
As paredes testemunham
A vida acontecendo
E vivem juntos
E juntos também morrem.
O rosto de um outro
Nunca olhei para espelhos
que refletissem o meu rosto
que desgosto era me ver
e sem saber de quem era
aquele rosto.
Um rosto refletido
de alguém
não sei
de quem é o rosto.
De alguém com quem
nunca vou me encontrar
com quem nunca vou falar
nem tomar café no bar.
Ainda que seja assim
anda ao meu lado
aquele rosto
não muito familiar
um pouco antipático
como dissimulasse
um sorriso forçado
que nunca quis dar.
Um rosto que existe
para todo mundo
só não existe para mim
que carrego
como fosse alguém
totalmente estranho
sem nenhum caráter
sem coragem
sem dinheiro no bolso.
Não procuro por ele
não procuro por mim
que sem rosto
somente o espelho reflete
o que os outros vêem
sem saber
de quem é aquele rosto.
Talvez seja o rosto de todos eles
menos de mim
que não tenho nenhum
que possa ser visto por mim.
que refletissem o meu rosto
que desgosto era me ver
e sem saber de quem era
aquele rosto.
Um rosto refletido
de alguém
não sei
de quem é o rosto.
De alguém com quem
nunca vou me encontrar
com quem nunca vou falar
nem tomar café no bar.
Ainda que seja assim
anda ao meu lado
aquele rosto
não muito familiar
um pouco antipático
como dissimulasse
um sorriso forçado
que nunca quis dar.
Um rosto que existe
para todo mundo
só não existe para mim
que carrego
como fosse alguém
totalmente estranho
sem nenhum caráter
sem coragem
sem dinheiro no bolso.
Não procuro por ele
não procuro por mim
que sem rosto
somente o espelho reflete
o que os outros vêem
sem saber
de quem é aquele rosto.
Talvez seja o rosto de todos eles
menos de mim
que não tenho nenhum
que possa ser visto por mim.
Um tufão por aqui se foi
Como um tufão passou o tempo
E não deu tempo para salvar
O que estava na sala
Cujas paredes testemunhavam
Uma história
Que merecia ficar
Não ficou sequer
Uma pedra sequer
No mesmo lugar.
Quem ficou para contar
Não contará
Assim nada aconteceu
Continua acontecendo ainda
Em algum lugar
No fundo do mar
É a sereia que sabe
É o lobo marinho.
Naquelas águas visitarei
Naquelas águas visitará
Quando o tempo chegar
Com barbas brancas
E histórias para contar.
E não deu tempo para salvar
O que estava na sala
Cujas paredes testemunhavam
Uma história
Que merecia ficar
Não ficou sequer
Uma pedra sequer
No mesmo lugar.
Quem ficou para contar
Não contará
Assim nada aconteceu
Continua acontecendo ainda
Em algum lugar
No fundo do mar
É a sereia que sabe
É o lobo marinho.
Naquelas águas visitarei
Naquelas águas visitará
Quando o tempo chegar
Com barbas brancas
E histórias para contar.
sábado, 8 de outubro de 2011
A movimento do universo inteiro
A escolha é um relâmpago ⎯ eis o trovão
a chuva e
o estio
Do sol azul
também não quero nada
nada
Poesia é assim ⎯ qual o meu nome?
Palavras são vivas como o braço de uma cadeira e o que é vivo é não conhecer descanso
Nem prisão
❧
a chuva e
o estio
Do sol azul
também não quero nada
nada
Poesia é assim ⎯ qual o meu nome?
Palavras são vivas como o braço de uma cadeira e o que é vivo é não conhecer descanso
Nem prisão
❧
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Assim Cláudia caminhava
Cláudia claudicante
claudicava constantemente
e perdia a postura
toda a descompostura
até se levantar novamente
e novamente
continuar em frente
indiferente a tudo
que pudesse
por uma pedra
em sua andadura.
Por onde andava
deixava atrás de si
os homens enlouquecidos
de amor
que enlouquecidos
ficaram por ali
errando na vida
vivendo a vida
de todos os devaneios.
Com Cláudia aprendi
que claudicar
também é viver
sem padecer
um instante sequer
e rir
e chorar
e morrer a cada momento.
Se procurarem por ela
não acharão
em nenhuma estrada
perdida neste mundo
afinal ela sempre anda
na contramão.
Solitária em suas andanças
nenhuma companhia é melhor
do que a sombra companheira
que aprecia poesia
uma dose de cachaça fria
para espantar o tédio.
Claudicante caminha
sem retroceder
caminha
sem direção
caminha
onde o caminho leva.
claudicava constantemente
e perdia a postura
toda a descompostura
até se levantar novamente
e novamente
continuar em frente
indiferente a tudo
que pudesse
por uma pedra
em sua andadura.
Por onde andava
deixava atrás de si
os homens enlouquecidos
de amor
que enlouquecidos
ficaram por ali
errando na vida
vivendo a vida
de todos os devaneios.
Com Cláudia aprendi
que claudicar
também é viver
sem padecer
um instante sequer
e rir
e chorar
e morrer a cada momento.
Se procurarem por ela
não acharão
em nenhuma estrada
perdida neste mundo
afinal ela sempre anda
na contramão.
Solitária em suas andanças
nenhuma companhia é melhor
do que a sombra companheira
que aprecia poesia
uma dose de cachaça fria
para espantar o tédio.
Claudicante caminha
sem retroceder
caminha
sem direção
caminha
onde o caminho leva.
Primavera insana
Em tempos de primavera
o que comemorar?
Se a lagartixa de sempre
continua a defecar
no mesmo local
animal hibernal
que nada mais faz
do que viver no teto
nas trincheiras de madeira
uma vida guerrilheira
de uma causa perdida
pois nenhum sonho mais há.
Ninguém mais assobia
uma triste melodia
só para irritar
os bens de vida.
Ninguém mais dança
um bolero de Ravel
daquela cigana
que tinha o mundo.
Em tempos de primavera
o que comemorar?
- Um aniversário que ficou velho
que cansado preferiu parar.
Pelo menos estamos vivos
com dores por todo corpo
sobreviventes de uma acidente
nuclear.
o que comemorar?
Se a lagartixa de sempre
continua a defecar
no mesmo local
animal hibernal
que nada mais faz
do que viver no teto
nas trincheiras de madeira
uma vida guerrilheira
de uma causa perdida
pois nenhum sonho mais há.
Ninguém mais assobia
uma triste melodia
só para irritar
os bens de vida.
Ninguém mais dança
um bolero de Ravel
daquela cigana
que tinha o mundo.
Em tempos de primavera
o que comemorar?
- Um aniversário que ficou velho
que cansado preferiu parar.
Pelo menos estamos vivos
com dores por todo corpo
sobreviventes de uma acidente
nuclear.
Em tempos de esquecimento
Quem era você
não me importa mais
se o tempo passou
passou também a vassoura
pelos jardins da memória
não deixando sequer
uma folha atirada
ao relento.
Sempre te conheci
nunca te conheci realmente
nem sei mais seu nome
que também mudou.
Seu rosto mudou
em instantes
e nada mais
me parece familiar.
Fico-me a perguntar
em que momento parei
de sonhar
e todo o sorriso que havia
se desfez
como castelos de areia
levados pela água
salgada do mar.
não me importa mais
se o tempo passou
passou também a vassoura
pelos jardins da memória
não deixando sequer
uma folha atirada
ao relento.
Sempre te conheci
nunca te conheci realmente
nem sei mais seu nome
que também mudou.
Seu rosto mudou
em instantes
e nada mais
me parece familiar.
Fico-me a perguntar
em que momento parei
de sonhar
e todo o sorriso que havia
se desfez
como castelos de areia
levados pela água
salgada do mar.
Peregrino sem causa
Em cada esquina de minha vida
um pouco que seja
esqueci-me de quem era
e deixei amores
e deixei livros
que em minhas costas pesavam
mesmo assim eram minhas
as pernas
que doiam e caminhavam
por onde o caminho levava
e venci encruzilhadas
e perdi batalhas
e cada batalha perdida
nem sabia mais o que
realmente perdia.
Não era o que importava
se importava alguma coisa
além do que caminhar.
Não era a minha vida
perdida em andanças
cidade adentro
cidade afora
em vilas da periferia.
Era a vida daqueles
que não mais caminhavam
por cansaço talvez
por indigestão talvez
por desistência quem sabe.
Daqueles que caminham
estes ainda conseguiam ver adiante
o mundo desmoronando
sem que nada pudesse fazer
senão contemplar
o vento varrer o horizonte
de maneira lenta
acariciando a pele molhada
pela chuva de primavera
perfumada e doce.
um pouco que seja
esqueci-me de quem era
e deixei amores
e deixei livros
que em minhas costas pesavam
mesmo assim eram minhas
as pernas
que doiam e caminhavam
por onde o caminho levava
e venci encruzilhadas
e perdi batalhas
e cada batalha perdida
nem sabia mais o que
realmente perdia.
Não era o que importava
se importava alguma coisa
além do que caminhar.
Não era a minha vida
perdida em andanças
cidade adentro
cidade afora
em vilas da periferia.
Era a vida daqueles
que não mais caminhavam
por cansaço talvez
por indigestão talvez
por desistência quem sabe.
Daqueles que caminham
estes ainda conseguiam ver adiante
o mundo desmoronando
sem que nada pudesse fazer
senão contemplar
o vento varrer o horizonte
de maneira lenta
acariciando a pele molhada
pela chuva de primavera
perfumada e doce.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
A tristeza de viver
Num muro pichado
Um dragão pichado
Com garras de leão
Ganhava vida
E revirava os olhos
E saia à procura
De um herói
Que pudesse matá-lo.
Assim fez
Uma vez
Duas vezes
Outras vezes
Sem que encontrasse
Uma lança resistente
Uma espada cortante
Que pudesse matá-lo.
Não havia heróis
Nem anti-heróis
Que pudesse contar
Uma história simples
Com final feliz.
Um dragão havia
Numa velha pichação
Que envelhecia
Enegrecida pelo tempo
A graxa escura do tempo
Que também deixou
De existir.
E não havia
Quem pudesse matar
O dragão da pichação
Que desiludido
Continuou vivendo
Naquela parede
Sem chamar a atenção
Sem a chama da paixão
Indiferente a tudo.
Um dragão pichado
Com garras de leão
Ganhava vida
E revirava os olhos
E saia à procura
De um herói
Que pudesse matá-lo.
Assim fez
Uma vez
Duas vezes
Outras vezes
Sem que encontrasse
Uma lança resistente
Uma espada cortante
Que pudesse matá-lo.
Não havia heróis
Nem anti-heróis
Que pudesse contar
Uma história simples
Com final feliz.
Um dragão havia
Numa velha pichação
Que envelhecia
Enegrecida pelo tempo
A graxa escura do tempo
Que também deixou
De existir.
E não havia
Quem pudesse matar
O dragão da pichação
Que desiludido
Continuou vivendo
Naquela parede
Sem chamar a atenção
Sem a chama da paixão
Indiferente a tudo.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
A vida engraxando
Os meninos engraxates
Disputam sapatos
Para polir
Os meninos engraxates
Havia aos montes
Naquela praça
Brincavam de polir
Repicando na caixa
Na lata de graxa.
Quando cresceram
Os sapatos desapareceram
E os meninos engraxates
Tornaram-se parte apenas
De minha memória.
Disputam sapatos
Para polir
Os meninos engraxates
Havia aos montes
Naquela praça
Brincavam de polir
Repicando na caixa
Na lata de graxa.
Quando cresceram
Os sapatos desapareceram
E os meninos engraxates
Tornaram-se parte apenas
De minha memória.
Praça da Liberdade
Numa mesa de bar
Havia
Na Praça da Liberdade
Havia
Mulheres sexagenárias
Usando chapéu
Luvas longas nos braços pálidos
Misturando suas tristezas
Nos goles fartos
De uma cerveja doce.
Quem eram aquelas mulheres
Livres
Livres demais
Com semblantes orientais
Saídos de um filme
Surrealista
Demais.
Quando todos trabalhavam
Elas viviam intensamente
Numa mesa de bar.
Havia
Na Praça da Liberdade
Havia
Mulheres sexagenárias
Usando chapéu
Luvas longas nos braços pálidos
Misturando suas tristezas
Nos goles fartos
De uma cerveja doce.
Quem eram aquelas mulheres
Livres
Livres demais
Com semblantes orientais
Saídos de um filme
Surrealista
Demais.
Quando todos trabalhavam
Elas viviam intensamente
Numa mesa de bar.
A folha cai
Sem nada esconder
A folha que despenca
Ao final do inverno
Revela
A frente e o verso
O verso e a frente.
Que lado realmente
Revelamos?
Se fingimento fosse solução
Toda mentira seria sustentável
Suave é a mentira que agrada
Os bem educados!
A folha que despenca
Ao final do inverno
Revela
A frente e o verso
O verso e a frente.
Que lado realmente
Revelamos?
Se fingimento fosse solução
Toda mentira seria sustentável
Suave é a mentira que agrada
Os bem educados!
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Amigo de verdade
Era na praça da matriz
em que descobri meu primeiro
animal.
Era de estimação.
Era um sapo de cimento que
esguichava água pela boca.
Nunca me esqueci dele
meu primeiro amigo
que jamais me abandonou.
em que descobri meu primeiro
animal.
Era de estimação.
Era um sapo de cimento que
esguichava água pela boca.
Nunca me esqueci dele
meu primeiro amigo
que jamais me abandonou.
Que se deu com Graziela
Havia na terra em que nasci
Graziela
nem bonita era ela
nada tinha de interessante
senão o nome
Graziela.
O que teria acontecido com ela
nem sei por quê falar dela
mas ficou apenas a lembrança
de seu nome
Graziela.
Mas quando penso em
Graziela
retorna-me em instantes
um rosto comum
sem importância alguma
em sua vida sem importância
mas agrada-me simplesmente
dizer
Graziela.
Se Graziela não existisse
pelo menos ficaria o nome
que poderia ser de qualquer uma.
Prefiro que não seja de nenhuma
pois nenhuma pode se chamar
Graziela.
Graziela
nem bonita era ela
nada tinha de interessante
senão o nome
Graziela.
O que teria acontecido com ela
nem sei por quê falar dela
mas ficou apenas a lembrança
de seu nome
Graziela.
Mas quando penso em
Graziela
retorna-me em instantes
um rosto comum
sem importância alguma
em sua vida sem importância
mas agrada-me simplesmente
dizer
Graziela.
Se Graziela não existisse
pelo menos ficaria o nome
que poderia ser de qualquer uma.
Prefiro que não seja de nenhuma
pois nenhuma pode se chamar
Graziela.
Último clarão na Paulicéia
Quando a tarde chega devagar
por entre as alamedas
uma sombra do passado
também descansa por entre
bancos de metal que o tempo
deixou de devorar.
Mesmo que nenhuma presença
seja sentida
toda presença se faz necessária
para que a vida continue a vicejar
e nunca a alegria desapareça
daquele rosto comum
perdido na multidão.
Por onde quer que se vá
errando pelos meandros
das esquinas sujas
disputadas pelas prostitutas
e bêbados vagabundos
uma solidão estampada
nos gestos lânguidos
pelos desiludidos da vida.
Nenhuma esperança existe
suave esperança
dos que esperam
ajuda divina.
Se divino fosse seria
humanamente imperfeito
e São Paulo seria
a terra em que sempre vivi.
Ainda que desconheça as faces
que encontro pelas ruas
sempre as conheci
cumprimentei às vezes
não reconheci às vezes
em insípido desprezo.
Antes que a noite venha de vez
e a lua venha dançar uma valsa
que as casas de baile deixaram de ter
o que restou do amor
senão o testemunho dos muros
que se calaram para sempre.
Em nenhum outro lugar
sinto-me como aqui
Nunca saí daqui
em que plantei sonhos
que pensei serem realidades
foram com o vento passageiro
e também o tempo se foi
passageiro também
foram-se alguns amigos
que juntos sonhamos.
Desistiram da vida
e pararam de sonhar.
Por teimosia insana continuo
a sonhar com os amigos
que restaram
outros amigos que somaram
aos mesmos sonhos
sonhados por mim.
Esta cidade cabe dentro
de um mesmo sonho
que outros também sonham.
por entre as alamedas
uma sombra do passado
também descansa por entre
bancos de metal que o tempo
deixou de devorar.
Mesmo que nenhuma presença
seja sentida
toda presença se faz necessária
para que a vida continue a vicejar
e nunca a alegria desapareça
daquele rosto comum
perdido na multidão.
Por onde quer que se vá
errando pelos meandros
das esquinas sujas
disputadas pelas prostitutas
e bêbados vagabundos
uma solidão estampada
nos gestos lânguidos
pelos desiludidos da vida.
Nenhuma esperança existe
suave esperança
dos que esperam
ajuda divina.
Se divino fosse seria
humanamente imperfeito
e São Paulo seria
a terra em que sempre vivi.
Ainda que desconheça as faces
que encontro pelas ruas
sempre as conheci
cumprimentei às vezes
não reconheci às vezes
em insípido desprezo.
Antes que a noite venha de vez
e a lua venha dançar uma valsa
que as casas de baile deixaram de ter
o que restou do amor
senão o testemunho dos muros
que se calaram para sempre.
Em nenhum outro lugar
sinto-me como aqui
Nunca saí daqui
em que plantei sonhos
que pensei serem realidades
foram com o vento passageiro
e também o tempo se foi
passageiro também
foram-se alguns amigos
que juntos sonhamos.
Desistiram da vida
e pararam de sonhar.
Por teimosia insana continuo
a sonhar com os amigos
que restaram
outros amigos que somaram
aos mesmos sonhos
sonhados por mim.
Esta cidade cabe dentro
de um mesmo sonho
que outros também sonham.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
A falta de importância
Quando nada mais há
para se fazer
nada se faz senão
contemplar a vida continuar
sem se deter
um instante sequer
indiferente a tudo
que possa acontecer.
Eu posso gritar
posso também criticar
inclusive deixar de respirar
mesmo assim
indiferente a mim
aquilo que penso
nada disso parece
importar.
Mas o que importa?
se algo realmente importa
que de importante se faz
a custa do vento que traz
uma força que roda
com força
o roda-moinho
de uma página virada
do Don Quixote.
Quando nada mais há
para se fazer
pelo menos continuamos
a viver.
Viver apenas num sonho
sem se importar se existe
algo que seja importante.
Importante é deixar de lado
toda a importância
e com toda a falta de importância
possamos caminhar pelas trilhas
inventadas pelas nossas pernas.
para se fazer
nada se faz senão
contemplar a vida continuar
sem se deter
um instante sequer
indiferente a tudo
que possa acontecer.
Eu posso gritar
posso também criticar
inclusive deixar de respirar
mesmo assim
indiferente a mim
aquilo que penso
nada disso parece
importar.
Mas o que importa?
se algo realmente importa
que de importante se faz
a custa do vento que traz
uma força que roda
com força
o roda-moinho
de uma página virada
do Don Quixote.
Quando nada mais há
para se fazer
pelo menos continuamos
a viver.
Viver apenas num sonho
sem se importar se existe
algo que seja importante.
Importante é deixar de lado
toda a importância
e com toda a falta de importância
possamos caminhar pelas trilhas
inventadas pelas nossas pernas.
Se foi com a florada do ipê
Era primavera quando ela se foi
foi junto com a florada do ipê
imenso ipê amarelo.
Depois o ipê emudeceu
perdeu todas as folhas
ficou sem as flores
sem nada ficou.
Assim se foi...
Mas toda vez que chega
a primavera
de novo o ipê amarelo
amarela de novo
e amarelo fica
toda a rua amarelada
imenso tapete amarelo.
E aquela que se foi
não volta mais...
(amarelou)
Que me importa isso
se o importante é o ipê florescer.
Se ela não aparecer
fica a esperança
suave e ingênua esperança
que retorna toda vez
que o ipê florescer.
foi junto com a florada do ipê
imenso ipê amarelo.
Depois o ipê emudeceu
perdeu todas as folhas
ficou sem as flores
sem nada ficou.
Assim se foi...
Mas toda vez que chega
a primavera
de novo o ipê amarelo
amarela de novo
e amarelo fica
toda a rua amarelada
imenso tapete amarelo.
E aquela que se foi
não volta mais...
(amarelou)
Que me importa isso
se o importante é o ipê florescer.
Se ela não aparecer
fica a esperança
suave e ingênua esperança
que retorna toda vez
que o ipê florescer.
A lembrança que fica
Nas águas correntes banhei-me um dia
nas mesmas águas correntes banhastes um dia
não consegui um momento sequer
deter daquelas águas
que agora correm somente
nas correntezas de minha mente.
Nem por isso a tristeza me aflige
se não posso mais
usar daquela água
que se foi para sempre
desembocar no mar
e se tornar um imenso mar
com todas as águas derramadas
das lágrimas e lamentações
da lembrança que fica
adormecida fica
no fundo
no mais profundo
redemoinho
perdendo-se
enfim
num montículo de areia
que se forma
que logo se transforma
naquilo que sempre foi.
nas mesmas águas correntes banhastes um dia
não consegui um momento sequer
deter daquelas águas
que agora correm somente
nas correntezas de minha mente.
Nem por isso a tristeza me aflige
se não posso mais
usar daquela água
que se foi para sempre
desembocar no mar
e se tornar um imenso mar
com todas as águas derramadas
das lágrimas e lamentações
da lembrança que fica
adormecida fica
no fundo
no mais profundo
redemoinho
perdendo-se
enfim
num montículo de areia
que se forma
que logo se transforma
naquilo que sempre foi.
domingo, 11 de setembro de 2011
Perdidos apenas
Amigos de anteontem
Onde andarão?
Por um momento foram
Mesmos os caminhos tomados
Quem sabe os caminhos cruzaram
Depois descruzaram
Para não se cruzarem mais.
Amigos de anteontem
Onde andarão?
Quem sabe morreram
Quem sabe viveram por outras causas
Em terras distantes
Do outro lado do bairro
Desta mesma cidade que habito
Paulicéia enlouquecida
Pelos destinos mal traçados
Das amizades feitas
Depois desfeitas
Por não se interessarem mais
Pelas brincadeiras de antes.
Amigos de anteontem
Onde andarão?
Quem sabe:
Apenas em minha memória
Na memória dos outros
Esquecidos.
Onde andarão?
Por um momento foram
Mesmos os caminhos tomados
Quem sabe os caminhos cruzaram
Depois descruzaram
Para não se cruzarem mais.
Amigos de anteontem
Onde andarão?
Quem sabe morreram
Quem sabe viveram por outras causas
Em terras distantes
Do outro lado do bairro
Desta mesma cidade que habito
Paulicéia enlouquecida
Pelos destinos mal traçados
Das amizades feitas
Depois desfeitas
Por não se interessarem mais
Pelas brincadeiras de antes.
Amigos de anteontem
Onde andarão?
Quem sabe:
Apenas em minha memória
Na memória dos outros
Esquecidos.
sábado, 3 de setembro de 2011
Espelho de pedra
Não quero ser monge
monge com estilo
monge deste ou daquele tipo
Sou assim, assim sem princípios
que ao pegarem meus pés
agarrem os cabelos
monge com estilo
monge deste ou daquele tipo
Sou assim, assim sem princípios
que ao pegarem meus pés
agarrem os cabelos
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
A boneca sem braços
Deram-me de presente
envolta em papel celofane
uma boneca japonesa.
De madeira era ela.
Sem braços era ela.
Sem pernas era ela.
Chamava-se
Kokeshi ningyo.
Ela era dura
não servia para brincar
com as meninas.
Ela era sem braços
não servia para abraçar.
Sem pernas
não andava
mas estava sempre em pé.
Ereta ela ficava
sorrindo para todos
sobre um armário carcomido
pelo cupim.
Durante o tempo que ficou
no mesmo lugar
e o tempo passou
passou em revoada
as andorinhas de verão
e branca ficou a barba.
Mas aquela boneca
nunca perdeu a pose
nunca realmente envelheceu.
- Que raiva sinto disso!
envolta em papel celofane
uma boneca japonesa.
De madeira era ela.
Sem braços era ela.
Sem pernas era ela.
Chamava-se
Kokeshi ningyo.
Ela era dura
não servia para brincar
com as meninas.
Ela era sem braços
não servia para abraçar.
Sem pernas
não andava
mas estava sempre em pé.
Ereta ela ficava
sorrindo para todos
sobre um armário carcomido
pelo cupim.
Durante o tempo que ficou
no mesmo lugar
e o tempo passou
passou em revoada
as andorinhas de verão
e branca ficou a barba.
Mas aquela boneca
nunca perdeu a pose
nunca realmente envelheceu.
- Que raiva sinto disso!
Ao cavoucar fundo
Alguém em algum lugar
que ouço com vagar
o som de um instrumento
a perfurar a terra.
Quanto mais fundo fica
uma noite profunda fica
e quem me visita
são os cavalinhos do passado
montados pelos amigos
que se foram um dia.
Se foram e me deixaram só
com seus castelos de areia
a se desfazerem ao menor movimento
de uma onda rasteira.
Depois que a onda se foi
nenhum sinal apareceu
nem restaram as ruínas da destruição
como nada tivesse um dia
realmente existido.
Sem olhar para trás
cujos passos apagados
não retornam mais
o horizonte adiante
é largo demais
para uma existência rala
sem consistência
senão apenas
pelo aroma da primavera
que novamente encanta
os pés que se arrastam
errantes
em direção qualquer.
que ouço com vagar
o som de um instrumento
a perfurar a terra.
Quanto mais fundo fica
uma noite profunda fica
e quem me visita
são os cavalinhos do passado
montados pelos amigos
que se foram um dia.
Se foram e me deixaram só
com seus castelos de areia
a se desfazerem ao menor movimento
de uma onda rasteira.
Depois que a onda se foi
nenhum sinal apareceu
nem restaram as ruínas da destruição
como nada tivesse um dia
realmente existido.
Sem olhar para trás
cujos passos apagados
não retornam mais
o horizonte adiante
é largo demais
para uma existência rala
sem consistência
senão apenas
pelo aroma da primavera
que novamente encanta
os pés que se arrastam
errantes
em direção qualquer.
Tempos de friagem
Ao som que de fora invade a sala
a umidade visita-me desoladamente
enquanto as veias verdes das pernas
ressentem-se.
Por um momento em minhas orelhas
toda a água escorre em cachoeira
trazendo um frescor
em gotículas glaciais.
E assim nesta espera constante
o mundo para por instantes
e demorado se torna os movimentos
desta mão que se solta e levanta
e acalenta uma sombra que se desfaz.
Pelas frestas da janela uma luz opaca
mal clareia o canto em que nasço e morro
a cada instante
e cada vez mais
mais distante fico daquilo que pensei
saber um dia.
Nem mais reconheço mais a face
estranha que num espelho envelhecido
perdeu todo o encanto.
Desencantado procuro pela casa
um sinal que seja suficientemente claro
para que eu seja
mas acabo desenganado
pois nada existe senão
uma camada de poeira
largada acima da cama fria.
a umidade visita-me desoladamente
enquanto as veias verdes das pernas
ressentem-se.
Por um momento em minhas orelhas
toda a água escorre em cachoeira
trazendo um frescor
em gotículas glaciais.
E assim nesta espera constante
o mundo para por instantes
e demorado se torna os movimentos
desta mão que se solta e levanta
e acalenta uma sombra que se desfaz.
Pelas frestas da janela uma luz opaca
mal clareia o canto em que nasço e morro
a cada instante
e cada vez mais
mais distante fico daquilo que pensei
saber um dia.
Nem mais reconheço mais a face
estranha que num espelho envelhecido
perdeu todo o encanto.
Desencantado procuro pela casa
um sinal que seja suficientemente claro
para que eu seja
mas acabo desenganado
pois nada existe senão
uma camada de poeira
largada acima da cama fria.
domingo, 28 de agosto de 2011
Levado pelo vento errante
Ainda que procuremos fugir
Não fugimos das encruzilhadas
De nossas vidas
Que inevitavelmente
Há de acontecer
Sem nenhum desejo
Que assim pudesse ser
Como que a vida pudesse
Ser planejada?
Não fugimos das encruzilhadas
De nossas vidas
Que inevitavelmente
Há de acontecer
Sem nenhum desejo
Que assim pudesse ser
Como que a vida pudesse
Ser planejada?
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Para deixar lembranças
Foi numa velha árvore
Que escreveu o seu nome
A árvore cresceu
E o tempo passou
E tudo foi esquecido
Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Veio uma tempestade
E derrubou
E arrancou as raízes
Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Naquele momento
Era o melhor nome
Que ainda causa
Arrebatamento
Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Só pela emoção
De gravar na madeira verde
A ponta de um canivete
Como uma tatuagem
Foi numa velha árvore...
Que escreveu o seu nome
A árvore cresceu
E o tempo passou
E tudo foi esquecido
Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Veio uma tempestade
E derrubou
E arrancou as raízes
Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Naquele momento
Era o melhor nome
Que ainda causa
Arrebatamento
Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Só pela emoção
De gravar na madeira verde
A ponta de um canivete
Como uma tatuagem
Foi numa velha árvore...
Viver para esquecer
Em vão procurei por um amor
Não sabia contudo
Quanto mais procurava
Mais distante ficava
Assim parei de procurar
Esqueci-me do que procurava
E a procura esqueceu-se de mim
Até de mim esqueci
Enfim esqueci do próprio esquecimento
Nem ao menos soube-se depois
Quem procurava quem
Quem esquecia de quem
Nada havia
Nem lembranças
Nem esquecimento
Nem tristezas
Nem alegria
Apenas havia
Um grande silêncio
Que também foi
Esquecido
Não sabia contudo
Quanto mais procurava
Mais distante ficava
Assim parei de procurar
Esqueci-me do que procurava
E a procura esqueceu-se de mim
Até de mim esqueci
Enfim esqueci do próprio esquecimento
Nem ao menos soube-se depois
Quem procurava quem
Quem esquecia de quem
Nada havia
Nem lembranças
Nem esquecimento
Nem tristezas
Nem alegria
Apenas havia
Um grande silêncio
Que também foi
Esquecido
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
As lágrimas derramadas
Que valem as lágrimas
Se apenas valem
Um pouco
De potássio
Rejeitado pelos olhos?
Se apenas valem
Um pouco
De potássio
Rejeitado pelos olhos?
Foi assim que ouvi
Alguém assim disse
Numa canção antiga
Que a felicidade só existe
Bem acima
Acima das nuvens.
Alguém assim disse
Numa canção antiga
Que o amor só existe
Bem abaixo
Abaixo das nuvens.
Não se pode ter
As duas coisas...
Alguém assim disse.
Numa canção antiga
Que a felicidade só existe
Bem acima
Acima das nuvens.
Alguém assim disse
Numa canção antiga
Que o amor só existe
Bem abaixo
Abaixo das nuvens.
Não se pode ter
As duas coisas...
Alguém assim disse.
Alguém seguia um cego
Era um cego que seguia
Uma bengala
Arrastada ela seguia
Um cego
Que desconhecia
Onde ia
Se ia para algum lugar
Não se sabia.
Apenas seguia
Uma bengala
Era um cego que seguia.
Uma bengala
Arrastada ela seguia
Um cego
Que desconhecia
Onde ia
Se ia para algum lugar
Não se sabia.
Apenas seguia
Uma bengala
Era um cego que seguia.
Pouso Frio
noite profunda em Pouso Frio
enquanto a iluminação não vem
uma vela acesa para Deus,
outra para o diabo
***
meio-dia
a total ausência de pássaros
proclama o dharma
***
meia noite
o rugido da água
o riacho enxerga no escuro
***
em meio ao chiado do rádio
tudo parado nas marginais
as montanhas não param
***
toda madrugada
hora e meia de vigília
algazarra dos morcegos
enquanto a iluminação não vem
uma vela acesa para Deus,
outra para o diabo
***
meio-dia
a total ausência de pássaros
proclama o dharma
***
meia noite
o rugido da água
o riacho enxerga no escuro
***
em meio ao chiado do rádio
tudo parado nas marginais
as montanhas não param
***
toda madrugada
hora e meia de vigília
algazarra dos morcegos
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Negra estátua
Aquela imagem enegrecida do tempo
Exposta aos escapes automotivos
De pé na praça, pela eternidade
Olhando o mesmo banco por meia década
Deixa as pessoas irem e virem
Ao sabor do vento
Sem pará-las, questioná-las ou chama-las
Numa retidão sem igual
Sob um ninho em sua cabeça
Que comporta a mente mais serena que já vi
Exposta aos escapes automotivos
De pé na praça, pela eternidade
Olhando o mesmo banco por meia década
Deixa as pessoas irem e virem
Ao sabor do vento
Sem pará-las, questioná-las ou chama-las
Numa retidão sem igual
Sob um ninho em sua cabeça
Que comporta a mente mais serena que já vi
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Entre Sol e sombra
Caminho pela calçada
E torço para que haja mais lugares de Sol
Do que lugares de sombra
Assim posso esquentar meu sangue
Durante as passadas
Largas, imprecisas e cambaleantes
Antes de entrar para o ar condicionado
Que seca meus olhos
E torço para que haja mais lugares de Sol
Do que lugares de sombra
Assim posso esquentar meu sangue
Durante as passadas
Largas, imprecisas e cambaleantes
Antes de entrar para o ar condicionado
Que seca meus olhos
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Mendigo e a Virgem Maria
Ali estava
Prostrado diante da santa imagem da Virgem Maria
Amarrado aos trapos
Pés descalços e sujos
Conversava apoiado naquela carroça
Com um monte de papelão
Que pegou não sei de onde
Conversava com a estátua
Numa ou noutra realidade
não sabia qual
Que de certo não a mesma que a minha
Declamando poesias e amores hereges
Esperando uma resposta
Que veio somente como um eterno sorriso
Prostrado diante da santa imagem da Virgem Maria
Amarrado aos trapos
Pés descalços e sujos
Conversava apoiado naquela carroça
Com um monte de papelão
Que pegou não sei de onde
Conversava com a estátua
Numa ou noutra realidade
não sabia qual
Que de certo não a mesma que a minha
Declamando poesias e amores hereges
Esperando uma resposta
Que veio somente como um eterno sorriso
domingo, 31 de julho de 2011
Um amor efêmero
Muito breve foi a florada
Que animou minha vista
Por alguns dias
Que tingiu minha vista
De intenso rosa
E ficou cor de rosa
Minha vida.
Depois o que restou
Foi somente
Foi um rosa
Que não me sai
Diante da vista
Que continuou
Florescendo
Sem se importar mais
Do velho pé de ipê
Que foi esquecido
Numa bifurcação da esquina.
Que animou minha vista
Por alguns dias
Que tingiu minha vista
De intenso rosa
E ficou cor de rosa
Minha vida.
Depois o que restou
Foi somente
Foi um rosa
Que não me sai
Diante da vista
Que continuou
Florescendo
Sem se importar mais
Do velho pé de ipê
Que foi esquecido
Numa bifurcação da esquina.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Inventando a vida
Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo.
TODOROV.Tzvetan, A literatura em perigo, Rio de Janeiro: Difel, 2010, p.23
TODOROV.Tzvetan, A literatura em perigo, Rio de Janeiro: Difel, 2010, p.23
Dança em roda
Dançando uma roda aqui
Ao terminar a dança
Uma outra dança
Se dança alí
Em roda sempre
Em volta do umbigo
Em volta de um lago
Sem se cansar nunca
Ainda que a idade venha
Ainda que o sonho acabe
Ainda que as dores lombares
Venham
Continua-se dançando
Sem ver outra coisa
Repetindo mesmos passos
Na mesma cadência
Monótona cadência
Como nada mais tivesse importância
Senão o de continuar dançando
Ao som da ilusão
De que se um dia parar
As pernas parem de andar
E toda dança não passará
De um movimento
Sem nenhuma razão.
Ao terminar a dança
Uma outra dança
Se dança alí
Em roda sempre
Em volta do umbigo
Em volta de um lago
Sem se cansar nunca
Ainda que a idade venha
Ainda que o sonho acabe
Ainda que as dores lombares
Venham
Continua-se dançando
Sem ver outra coisa
Repetindo mesmos passos
Na mesma cadência
Monótona cadência
Como nada mais tivesse importância
Senão o de continuar dançando
Ao som da ilusão
De que se um dia parar
As pernas parem de andar
E toda dança não passará
De um movimento
Sem nenhuma razão.
Praça da matriz
Naquela praça de minha memória
Havia uma fonte com quatro sapos
De pedra
De suas bocas jorravam
Toda água benta
Da Igreja matriz
Em que banhei a minha alma
Mas descobri
Que alma não havia
Mas mesmo assim
Lavei naquele instante
As impurezas do mundo
Impregnadas então
Nas roupas negras
Das velhas em ladainha
Monótonas
Nas tardes de verão.
Havia uma fonte com quatro sapos
De pedra
De suas bocas jorravam
Toda água benta
Da Igreja matriz
Em que banhei a minha alma
Mas descobri
Que alma não havia
Mas mesmo assim
Lavei naquele instante
As impurezas do mundo
Impregnadas então
Nas roupas negras
Das velhas em ladainha
Monótonas
Nas tardes de verão.
Na contramão do movimento
Quando todos trabalhavam
Os carros cruzavam as ruas
E a viatura fazia a ronda
O sinal vermelho anunciou
Parar!
Todos pararam
E o mendigo de sempre
No viaduto de sempre
Continuou dormindo
Ao lado da mulher
Ao lado do cachorro
Sem se incomodar
Que o mundo parara
Naquele instante.
Os carros cruzavam as ruas
E a viatura fazia a ronda
O sinal vermelho anunciou
Parar!
Todos pararam
E o mendigo de sempre
No viaduto de sempre
Continuou dormindo
Ao lado da mulher
Ao lado do cachorro
Sem se incomodar
Que o mundo parara
Naquele instante.
De outros tempos
Em algum canto deste mundo
Ainda vive um menino
Numa sala de aula havia
Dois
Diferentes
Tão diferentes
E tão iguais
Suficientemente diferentes
Um era negro
Outro era eu
O negro chamavam Pelé
O outro chamavam japonês
Ainda que quisesse ser igual
Aos outros
Que comiam macarronada
Aos sábados
Nunca fui igual
Nem queria ser igual
Pois sabia usar hashi
Comer sushi
E não repartir com ninguém.
Ainda vive um menino
Numa sala de aula havia
Dois
Diferentes
Tão diferentes
E tão iguais
Suficientemente diferentes
Um era negro
Outro era eu
O negro chamavam Pelé
O outro chamavam japonês
Ainda que quisesse ser igual
Aos outros
Que comiam macarronada
Aos sábados
Nunca fui igual
Nem queria ser igual
Pois sabia usar hashi
Comer sushi
E não repartir com ninguém.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Catador de papelão
Empurrando carroça acima
Não desanima jamais
Carroceiro desta vida
Levando papel papelão
Carrega o mundo todo
Todos os pensamentos
Bandidos e mocinhos
Dançarinas de cabaré
Mulheres negras da igreja
Só não carrega mais
O sonho que se esvaiu
E caiu num ralo
E se foi
Em redemoinho...
Não desanima jamais
Carroceiro desta vida
Levando papel papelão
Carrega o mundo todo
Todos os pensamentos
Bandidos e mocinhos
Dançarinas de cabaré
Mulheres negras da igreja
Só não carrega mais
O sonho que se esvaiu
E caiu num ralo
E se foi
Em redemoinho...
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Redemoinho de sal
Que restaram dos campos de arroz
Quando as águas de sal
De um mar revolto pelas terras
Entraram
Levaram enfim uma multidão
De sonhos plantados
Das curvas das costas
Das mulheres que cantavam
Sucesso de uma colheita farta.
Veio a destruição
Em ondas gigantes
E a dor foi imensa
Que ainda pode ser ouvida
No silêncio das noites altas
Em que as crianças choram
Os adultos também
Também os cachorros e os gatos.
Prostrada Fukushima
Espera o sol esquentar
Alisando a pele das meninas
Para que esqueçam logo
Da água salgada
Que salgou toda a terra
Sem que um verme sequer
Fosse salvo.
Quando as águas de sal
De um mar revolto pelas terras
Entraram
Levaram enfim uma multidão
De sonhos plantados
Das curvas das costas
Das mulheres que cantavam
Sucesso de uma colheita farta.
Veio a destruição
Em ondas gigantes
E a dor foi imensa
Que ainda pode ser ouvida
No silêncio das noites altas
Em que as crianças choram
Os adultos também
Também os cachorros e os gatos.
Prostrada Fukushima
Espera o sol esquentar
Alisando a pele das meninas
Para que esqueçam logo
Da água salgada
Que salgou toda a terra
Sem que um verme sequer
Fosse salvo.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Ao cair da tarde
O chá um tanto morno
Não espanta o frio que percorre
As artérias das pernas
Que cruzadas
Descansam sobre a almofada.
Assim fazendo
Milhares de anos se passaram
E milhares de livros lidos
Sem que nenhum conhecimento
Fosse realmente adquirido
E assim sinto-me
Como o mais inútil
Dos mendigos
Que pelo menos
Não se envolveram
Com o sonho sinistro
Das ruas e casas de janelas fechadas.
Alguma palavra que escrevesse
Nenhuma certeza havia
Senão a de nada dizer
Do que uma palavra esquecida.
Ainda assim
Sem a esperança de dizer
Continuei escrevendo
Nas paredes descascadas
De uma casa abandonada
Quem sabe
Alguém pudesse passar por ali
E curiosamente
Ler e sorrir
De felicidade suponho
De ironia de minha angústia
Suponho.
Não espanta o frio que percorre
As artérias das pernas
Que cruzadas
Descansam sobre a almofada.
Assim fazendo
Milhares de anos se passaram
E milhares de livros lidos
Sem que nenhum conhecimento
Fosse realmente adquirido
E assim sinto-me
Como o mais inútil
Dos mendigos
Que pelo menos
Não se envolveram
Com o sonho sinistro
Das ruas e casas de janelas fechadas.
Alguma palavra que escrevesse
Nenhuma certeza havia
Senão a de nada dizer
Do que uma palavra esquecida.
Ainda assim
Sem a esperança de dizer
Continuei escrevendo
Nas paredes descascadas
De uma casa abandonada
Quem sabe
Alguém pudesse passar por ali
E curiosamente
Ler e sorrir
De felicidade suponho
De ironia de minha angústia
Suponho.
domingo, 17 de julho de 2011
Uma vida errada
Pelas ruas de minha vida
Perdi uma vida inteira
Por não juntar figurinhas
Como fazia minha vizinha.
Ao invés
Preferi caçar passarinhos
Perdi a vida inteira
Fazendo isso
Fazendo aquilo
Que não me convinha
Aquilo que convinha às convenções
Aquilo que dava taquicardia
E passei a sofrer
De rinite aguda
Que nos dias de inverno
Incomoda a alma inteira.
Conheci Rita
Que me colocou no mal caminho
Que se foi sem dizer adeus
E nunca mais escreveu
Mas ainda assim
Nunca mais saiu de minha vida.
Que seria de mim
Se não tivesse me perdido
Nesta vida!
Perdi uma vida inteira
Por não juntar figurinhas
Como fazia minha vizinha.
Ao invés
Preferi caçar passarinhos
Perdi a vida inteira
Fazendo isso
Fazendo aquilo
Que não me convinha
Aquilo que convinha às convenções
Aquilo que dava taquicardia
E passei a sofrer
De rinite aguda
Que nos dias de inverno
Incomoda a alma inteira.
Conheci Rita
Que me colocou no mal caminho
Que se foi sem dizer adeus
E nunca mais escreveu
Mas ainda assim
Nunca mais saiu de minha vida.
Que seria de mim
Se não tivesse me perdido
Nesta vida!
No lodo da civilização
Há muito me perturba
O homem de lodo anoitecendo
Nas beiradas do rio Amazonas
Como surgindo de um pântano
com seus olhos sem expressão
com seus braços de borracha
negros como a fuligem dos pneus
sem nada falar
falava em sua mudez
a falta de humanidade
dos homens da grande cidade
que não se importam
da boa amizade
dos velhos amigos
que envelhecidos
nada mais fazem
do que matar a saudade
de uma memória fugidia
que ainda resta na réstia
de uma vida
que valha a pena
Ser vivida.
O homem de lodo anoitecendo
Nas beiradas do rio Amazonas
Como surgindo de um pântano
com seus olhos sem expressão
com seus braços de borracha
negros como a fuligem dos pneus
sem nada falar
falava em sua mudez
a falta de humanidade
dos homens da grande cidade
que não se importam
da boa amizade
dos velhos amigos
que envelhecidos
nada mais fazem
do que matar a saudade
de uma memória fugidia
que ainda resta na réstia
de uma vida
que valha a pena
Ser vivida.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Cidade de Escher
A cidade se constrói
Na nossa frente
Como nas obras de Escher
Onde o chão é o teto
E o teto é as paredes
Altas e maciças de concreto armado
Que armam o cenário
No palco do dia-a-dia
Construindo e desconstruindo nossa visão
Do nosso próprio ambiente
Com suas possibilidades e limitações
Lógicas e paradoxais
Que encontramos na Avenida Paulista
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Estrangeiros da praça
Ao se passar por lá
Não passe jamais
No chão ainda manchado
Por um karma passado
Da esperança que se foi
Foi-se o sonho da esperança
Mas por aqui ficou
E criou raízes
Na Praça da República
Velho centro metropolitano
Cigano e baiano
Que pulsa num coração
Estrangeiro
Que daqui não mais sai
E ficou
Com todas as alegrias
Tristezas também
Assim sentiu-se um pouco mais
Parte desta terra
Que sopra ao entardecer
Suave brisa que esfria
A mente pesada.
Não passe jamais
No chão ainda manchado
Por um karma passado
Da esperança que se foi
Foi-se o sonho da esperança
Mas por aqui ficou
E criou raízes
Na Praça da República
Velho centro metropolitano
Cigano e baiano
Que pulsa num coração
Estrangeiro
Que daqui não mais sai
E ficou
Com todas as alegrias
Tristezas também
Assim sentiu-se um pouco mais
Parte desta terra
Que sopra ao entardecer
Suave brisa que esfria
A mente pesada.
Sono dos inocentes
Quando a cidade amanhece
Pela São João não amanhecem
Olhos que se recusam a ver
Ainda mergulhados num mundo
Mais claro do que a claridade
Do sol que ama invadir toda
A privacidade.
Pela São João não amanhecem
Olhos que se recusam a ver
Ainda mergulhados num mundo
Mais claro do que a claridade
Do sol que ama invadir toda
A privacidade.
terça-feira, 21 de junho de 2011
domingo, 19 de junho de 2011
Os olhos que procuravam
De uma janela espiava o mundo
Esperando que um dia
Viesse alguém bem afeiçoado
Que pudesse levá-la dali.
E assim esperou
Até que as rugas surgiram
Nem era tão bonita assim
E por fim apareceu
Alguém não tão afeiçoado assim
Mas era o que apareceu
Não a levou dali
E se instalou naquele lugar
E foi se ajeitando
E foi ficando.
De uma janela continuou
Espiando o mundo
Sem esperar que a felicidade
Pudesse entrar
Pela porta da frente.
Somente espiava
Para não perder o jeito.
Esperando que um dia
Viesse alguém bem afeiçoado
Que pudesse levá-la dali.
E assim esperou
Até que as rugas surgiram
Nem era tão bonita assim
E por fim apareceu
Alguém não tão afeiçoado assim
Mas era o que apareceu
Não a levou dali
E se instalou naquele lugar
E foi se ajeitando
E foi ficando.
De uma janela continuou
Espiando o mundo
Sem esperar que a felicidade
Pudesse entrar
Pela porta da frente.
Somente espiava
Para não perder o jeito.
Errando nas águas de seus olhos
Naqueles olhos fundos
Naveguei
Sem saber nadar
Me afoguei
Para nunca mais sair
Daquelas águas revoltas.
Ainda continuo
Em redemoinho
Cada vez mais fundo
Resistindo às vezes
Deixando-me levar às vezes.
E assim vou vivendo
Como um marinheiro sem vela
Errando pelos mares
Sem nunca encontrar
Porto seguro.
Naveguei
Sem saber nadar
Me afoguei
Para nunca mais sair
Daquelas águas revoltas.
Ainda continuo
Em redemoinho
Cada vez mais fundo
Resistindo às vezes
Deixando-me levar às vezes.
E assim vou vivendo
Como um marinheiro sem vela
Errando pelos mares
Sem nunca encontrar
Porto seguro.
O Mendigo e a rosa
Naquele dia uma rosa vermelha
Era o que tinha o mendigo
Numa das mãos.
Para quê serve uma rosa vermelha
Para o mendigo
Que levava consigo
Numa das mãos?
Por que levava ele
Numa das mãos
Uma rosa vermelha?
Era apenas uma rosa vermelha
Sem nenhum outro significado
Senão a de ser
Apenas uma rosa vermelha.
Se fosse João
Seria diferente
Se fosse Carlão
Seria diferente
Mas era um mendigo
Aquele mesmo que mora
Num ponto da esquina
Fazendo as mesmas coisas
De sempre
Não fazendo nada
Senão sentado ao lado
Do mesmo cão
Na mesma cama suja
Feita de papelão.
O que incomodava
Era ver o mendigo
Carregando na mão
Uma rosa vermelha.
Justamente ele
Que não era
Era um mendigo apenas
Sem nome
Sem identidade
Nem era bom
Nem mal
Nem incomodava
Nem chamava
Atenção
Mas agora em todo mundo
Somente existia ele
O mendigo que levava
Uma rosa vermelha na mão.
Era o que tinha o mendigo
Numa das mãos.
Para quê serve uma rosa vermelha
Para o mendigo
Que levava consigo
Numa das mãos?
Por que levava ele
Numa das mãos
Uma rosa vermelha?
Era apenas uma rosa vermelha
Sem nenhum outro significado
Senão a de ser
Apenas uma rosa vermelha.
Se fosse João
Seria diferente
Se fosse Carlão
Seria diferente
Mas era um mendigo
Aquele mesmo que mora
Num ponto da esquina
Fazendo as mesmas coisas
De sempre
Não fazendo nada
Senão sentado ao lado
Do mesmo cão
Na mesma cama suja
Feita de papelão.
O que incomodava
Era ver o mendigo
Carregando na mão
Uma rosa vermelha.
Justamente ele
Que não era
Era um mendigo apenas
Sem nome
Sem identidade
Nem era bom
Nem mal
Nem incomodava
Nem chamava
Atenção
Mas agora em todo mundo
Somente existia ele
O mendigo que levava
Uma rosa vermelha na mão.
Quando calar é necessário
Nada mais para falar
Nenhuma palavra a mais
Mas o sorriso continua
Brilhando num dente branco
Sem culpa alguma.
Há um momento em que as palavras
Não dizem mais
Portanto nada melhor
Do que se calar
Sem culpa alguma.
E neste silêncio
Nesta ausência total
De qualquer ruído
Todo sentido é possível
Sem culpa alguma.
E somente distante
Ficamos mais próximos
E somente calados
Ficamos mais falantes
E pela eternidade
Possamos viver
O momento que já se foi.
Nenhuma palavra a mais
Mas o sorriso continua
Brilhando num dente branco
Sem culpa alguma.
Há um momento em que as palavras
Não dizem mais
Portanto nada melhor
Do que se calar
Sem culpa alguma.
E neste silêncio
Nesta ausência total
De qualquer ruído
Todo sentido é possível
Sem culpa alguma.
E somente distante
Ficamos mais próximos
E somente calados
Ficamos mais falantes
E pela eternidade
Possamos viver
O momento que já se foi.
domingo, 12 de junho de 2011
Olhos que enxergam
Somente quando fecho os olhos
Fecho também todos os poros
Das impurezas radioativas
Que causam anemia profunda
Uma fraqueza que inunda
As artérias estreitas
Que em minha carne perfura
Como lanças.
Fecho os olhos para enxergar
Numa escuridão cada vez mais clara
Que mais revela do que oculta.
Fecho também todos os poros
Das impurezas radioativas
Que causam anemia profunda
Uma fraqueza que inunda
As artérias estreitas
Que em minha carne perfura
Como lanças.
Fecho os olhos para enxergar
Numa escuridão cada vez mais clara
Que mais revela do que oculta.
Nada mais além
Não podemos negar
Um sofrimento que há
Em cada coração perdido
Em cada rua desta cidade
Que não cansa de pulsar.
Não podemos negar
Um desencantamento
De um mundo cada vez mais
Petrificado no cimento armado
Dos punhos armados
E corações duros
De vidro e ferro.
Não podemos negar
Os desencontros amorosos
Que somente se realizam
No abismo mais escuro
Dos sonhos profundos.
Não podemos negar
A vontade da contravenção
Inibida e desprezada
Pela ordem vigente e prezada
Dos bons costumes.
Não podemos negar
A negação da liberdade
De expressão
Daquele verbo primitivo
Nascido dos instintos
Longitudinal dos intestinos.
Simplesmente
Não podemos negar.
Um sofrimento que há
Em cada coração perdido
Em cada rua desta cidade
Que não cansa de pulsar.
Não podemos negar
Um desencantamento
De um mundo cada vez mais
Petrificado no cimento armado
Dos punhos armados
E corações duros
De vidro e ferro.
Não podemos negar
Os desencontros amorosos
Que somente se realizam
No abismo mais escuro
Dos sonhos profundos.
Não podemos negar
A vontade da contravenção
Inibida e desprezada
Pela ordem vigente e prezada
Dos bons costumes.
Não podemos negar
A negação da liberdade
De expressão
Daquele verbo primitivo
Nascido dos instintos
Longitudinal dos intestinos.
Simplesmente
Não podemos negar.
Sem lugar à mesa
Não é o frio que me espanta
Nem é mesmo a noite vazia
Que desce com todo o seu peso
Em minha cabeça.
O que me espanta
É a total indiferença
Do amigo que falta à mesa.
E nos conformamos com a falta que faz
Da companhia que sempre repartia
Suas velhas memórias
Desencontros de uma vida
Que se realizou.
Memórias são também minhas
Que não morrerão tão cedo
Enquanto amigos reunirem-se
Numa esquina qualquer
Em volta de uma mesa
Só para compor
Poesia.
A vida é poesia
Que jamais morre!
A poesia sempre fica.
Nem é mesmo a noite vazia
Que desce com todo o seu peso
Em minha cabeça.
O que me espanta
É a total indiferença
Do amigo que falta à mesa.
E nos conformamos com a falta que faz
Da companhia que sempre repartia
Suas velhas memórias
Desencontros de uma vida
Que se realizou.
Memórias são também minhas
Que não morrerão tão cedo
Enquanto amigos reunirem-se
Numa esquina qualquer
Em volta de uma mesa
Só para compor
Poesia.
A vida é poesia
Que jamais morre!
A poesia sempre fica.
Cisnes no lago
Debaixo das árvores quase nuas
Longe das luzes da rua
Junto dos patos feios
Que cresceram e viraram cisnes negros
Nos banhamos no frio da noite
Esperando acordados
O Sol da manhã
Para esquentar o sangue vivo
Que esfriará mais uma vez
Com a sua morte
domingo, 5 de junho de 2011
Durante a friagem
Um vontade de chorar sinto
Quando sinto neste frio
A mãe preta amamentando
Uma criança preta de pedra
Naquela mesma praça
Em que as prostitutas
Cobriram todas as suas vergonhas
Com poucos panos que tinham.
Cobriram também
As tetas
A friagem que sentia
A mãe preta.
Quando sinto neste frio
A mãe preta amamentando
Uma criança preta de pedra
Naquela mesma praça
Em que as prostitutas
Cobriram todas as suas vergonhas
Com poucos panos que tinham.
Cobriram também
As tetas
A friagem que sentia
A mãe preta.
Sede de significados
Nunca aprendi a comer de hashi
Que num bar de esquina
Preferia ouvir rock’n roll
Só para ser diferente
Dos que gostavam de comer sushi.
Sempre errei na aritmética
Mas as letras tinham um mistério
Numa carteira carcomida pelo cupim
Em que risquei com um canivete
Meu primeiro poema.
Depois
Por falta de papel
Poderia escrever no corpo dela também
Um poema inteiro
Só para não perder o momento
Em que as palavras saltam
Sem impedimento algum.
Por isso as palavras
São contravenção!
Que num bar de esquina
Preferia ouvir rock’n roll
Só para ser diferente
Dos que gostavam de comer sushi.
Sempre errei na aritmética
Mas as letras tinham um mistério
Numa carteira carcomida pelo cupim
Em que risquei com um canivete
Meu primeiro poema.
Depois
Por falta de papel
Poderia escrever no corpo dela também
Um poema inteiro
Só para não perder o momento
Em que as palavras saltam
Sem impedimento algum.
Por isso as palavras
São contravenção!
sábado, 4 de junho de 2011
Um homem velho comeu um Bem-te-vi
quem poderia impedi-lo
— magro, vivaz e
sem paradeiro
os nós dos dedos
grossos os gravetos
da armadilha
a fome
— magro, vivaz e
sem paradeiro
os nós dos dedos
grossos os gravetos
da armadilha
a fome
quarta-feira, 1 de junho de 2011
A loba de Roma
Quantas tetas tem o Estado
Nacional
Carreirista profissional
Jurídico e administrativo
Todos querem um pouco mais.
Nacional
Carreirista profissional
Jurídico e administrativo
Todos querem um pouco mais.
Pobre diabo vagabundo
Quando numa ladeira subia
Descia numa outra um mendigo
Maltrapilho que levava um saco.
Era frio esta tarde!
O mendigo que nada fazia
Apenas pedia
Um pouco de dinheiro
O suficiente para tomar banho
O pouco que ele pedia
Não tinha em meus bolsos
E mostrei o que tinha
E ele pediu
Foi quando disse:
Só tenho isso
Se lhe der isso
Nada mais tenho.
Era frio esta tarde!
O mendigo que nada tinha
Pedia
O outro que era eu
Do pouco que tinha
Se desse
Nada mais teria.
Continuei subindo a ladeira
O mendigo
Continuou descendo a ladeira
Sem fazer força alguma.
Descia numa outra um mendigo
Maltrapilho que levava um saco.
Era frio esta tarde!
O mendigo que nada fazia
Apenas pedia
Um pouco de dinheiro
O suficiente para tomar banho
O pouco que ele pedia
Não tinha em meus bolsos
E mostrei o que tinha
E ele pediu
Foi quando disse:
Só tenho isso
Se lhe der isso
Nada mais tenho.
Era frio esta tarde!
O mendigo que nada tinha
Pedia
O outro que era eu
Do pouco que tinha
Se desse
Nada mais teria.
Continuei subindo a ladeira
O mendigo
Continuou descendo a ladeira
Sem fazer força alguma.
A pedra do tempo
Impregnado nas pedras lisas
O limbo se torna eterno
Como fosse parte daquela
Num jardim mal cuidado
Que não requer mais
Atenção alguma
Do que o tempo se passando
Em instantes
Numa batida do orvalho
Furando a argila
Num furo sem volta.
O limbo se torna eterno
Como fosse parte daquela
Num jardim mal cuidado
Que não requer mais
Atenção alguma
Do que o tempo se passando
Em instantes
Numa batida do orvalho
Furando a argila
Num furo sem volta.
Sensação das tardes outonais
Chega um tempo em que estamos sós
Sem que algum motivo exista
Para incomodar
Nem mesmo incomoda a batida do martelo
Que penetra pela frieza da tarde outonal
Em nossas veias cada vez mais estreitas.
Que alívio é sentir o vento da liberdade
Alisando o rosto sujo de poeira
Que sopra insistentemente nesta cidade.
Perder-se no traçado destas ruas
E ir tecendo um tecido fino de sutilezas
Como uma aranha em sua lida
Tornando a vida mais intensa
Em cada esquina vivida intensamente
Todos os amores e dores sentidos.
Ainda vejo pelas ruas da existência
Pegadas orgânicas ainda frescas
Num caminhar errático que avança
Entre avanços e recuos
Numa direção que se repete
Por medo de uma direção diferente.
Quando se faz da solidão um amigo presente
Principalmente em tempos de viagens ao fundo
De uma galeria cheia de vitrines
Em que as atrações são personagens
Com rostos pintados e bocas vermelhas
Que dançam um folguedo conhecido
Podemos rir mais uma vez
Podemos chorar mais uma vez
Naquela platéia cheia
Mas apenas uma cadeira ocupada.
Somente aqueles que se perdem
Podem encontrar em qualquer lugar
Que seja
Que nunca saíram do lugar
Que sempre viveram
Na mesma casa de sempre
Um portão alto guardado
Por um único cadeado.
Sem que algum motivo exista
Para incomodar
Nem mesmo incomoda a batida do martelo
Que penetra pela frieza da tarde outonal
Em nossas veias cada vez mais estreitas.
Que alívio é sentir o vento da liberdade
Alisando o rosto sujo de poeira
Que sopra insistentemente nesta cidade.
Perder-se no traçado destas ruas
E ir tecendo um tecido fino de sutilezas
Como uma aranha em sua lida
Tornando a vida mais intensa
Em cada esquina vivida intensamente
Todos os amores e dores sentidos.
Ainda vejo pelas ruas da existência
Pegadas orgânicas ainda frescas
Num caminhar errático que avança
Entre avanços e recuos
Numa direção que se repete
Por medo de uma direção diferente.
Quando se faz da solidão um amigo presente
Principalmente em tempos de viagens ao fundo
De uma galeria cheia de vitrines
Em que as atrações são personagens
Com rostos pintados e bocas vermelhas
Que dançam um folguedo conhecido
Podemos rir mais uma vez
Podemos chorar mais uma vez
Naquela platéia cheia
Mas apenas uma cadeira ocupada.
Somente aqueles que se perdem
Podem encontrar em qualquer lugar
Que seja
Que nunca saíram do lugar
Que sempre viveram
Na mesma casa de sempre
Um portão alto guardado
Por um único cadeado.
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