domingo, 30 de junho de 2013

O instante vivido

Estas mesas da calçada
tomam sopa caldaloza
pelos vãos dos dentes falhos
soprando os vapores
que chegam
esquentando a alma.

Sem nenhum aconchego
perdidos na cidade
o mar é companhia
minha companhia também.

O outono é ligeiro
traz um vento sorrateiro
varrendo de vez
todas as lembranças
desnecessárias para se viver.

Momento sublime
tem todos os momentos
presentes neste instante.

Adiante saboreia
comendo com mãos
batatinhas fritas
um velho de bermuda
camisa listada
batatinhas ruins
para colesterol ruim
mas que me importa
senão momento do agora!


terça-feira, 14 de maio de 2013

A moça do lado


Ainda vazios
os bancos vazios
esperam passageiros
espera a partida.

Ônibus da periferia.

A claridade do outono
logo se nota
na cara da moça ao lado.

Seus óculos escuros
receando a luz
preferindo o escuro
ao fundo das bolas dos olhos.

O dia esconde
enquanto a noite revela
mas a luz do agora
respiro sem pensar
vivo milhões de anos
em cada pulsar.

Esqueço por momentos
a moça se foi
nunca mais a encontrarei
que ônibus ela tomará
nunca saberei.

A vida é acidente
os encontros pedras atiradas
ao vento
se voltam não sei.
A vida é lamento
num fado português.

Pelas trilhas erradas


Por onde se
dirigem
estes pés sujos
além de dar voltas
nas ruas de sempre
sempre e incessante
caminhar?

Pés vagabundos
que caminham
pelas ruas perdidas
do centro da cidade.
Cidade perdida
no desencontro dos
caminhos.

A fonte


Uma fonte
continua a jorrar
um constante  murmúrio
num bairro da cidade.

Uma fonte jorrava
por toda cidade
toda água do Eufrates
saciando a sede
dos que não tinham água.

O instante de outono


Pelas manhãs de outono
os braços do sol
se estendem em direção
às pernas peludas
enfiadas nas bermudas
enquanto a vida passageira
passa devagar
esquentando a alma
incendiando a pele.

Sem passado
passageiro se foi.
Sem futuro
que não chegou.
O que se tem
apenas esta morada
a ser inventada
em cada esquina
da existência.

Inventada
destruída em seguida.

O vento arrasta as folhas
secas
sem utilidades
arrasta também
os corpos secos
dos homens vividos
muitos iludidos
que brincam de guerra.

Perdemos a inocência


Quando passamos
a dizer
“com certeza sabemos”
as incertezas se tornam
sabedorias de ontem
em cujos sonhos
deixaram de ter importância.

A vida se endurece
bem como os rostos
emoldurados numa cera
cada vez mais dura.
Passamos a ser o outro
por capricho talvez
por perder o gosto
deste sonho vivido
todos os dias.

Viagem ao torrão natal


Ao retornar
ao ponto de origem
um encontro desajeitado
em nota de jornal.
Fulano de tal
que me lembra
outros dias
foram anos
mais de uma década
duas
três
nem sei mais.

Convite para a missa
de sétimo dia.

Reflexo nos olhos


Vista da janela
estendem-se pelas bordas
um morro lotado
de favelas
telhados de zinco
telhados sem telha
cinza e azuis
cor de rosa e cimento.

Vista da janela
a vida se reproduz
imenso formigueiro.

Vista da janela
a vida emoldurada
numa pintura surreal.
Janela dos olhos
que vê adiante
a beleza de ver
o céu azul acima
abaixo a favela
salpicada de cores.

Caminhar preciso


 Por onde quer que
se vá
não saímos do lugar
os caminhos conduzem
numa única direção.

Ninguém deixa
ninguém sai do caminho.
O cafezinho deste instante
saboreado incessantemente
é amargo e doce
como nunca foi antes.

As palavras ditas


Não tenho que agradar
nem escrevo para desagradar.
Não sei se realmente escrevo
pois as minhas mãos escrevem
uma escritura de sensações.

Não sei quem sente
sei que não sou eu.

Não sei quem sou eu
a navegar nas ondas
de uma ventania
de palavras ao relento.

Sou a folha seca
neste momento em que
vivo o outono.
É o outono que vive em mim
tornando os dias
mais claros
os dias mais curtos.
Pudesse ser também
a palavra não dita
bendita sejam as mulheres
de fé
que creem na Virgem Maria.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Pobre demônio

Um demônio esmolava
Na porta da igreja
Ninguém percebia
Ou fingia não ver
O demônio que havia
Em seus corações.

Quem entrava
Não via
Quem saia
Não sabia.

Ao entardecer


Mais escuro fica
o vão dos viadutos
num lento fim do dia.

Outono vai-se tornando
quando as sombras
se debruçam
nos rostos iguais.

Rostos de mendigos
sujos de graxa
fuligem que exalam
os escapamentos dos carros
deste pulmão de aço
em constante pulsar.

As paredes silenciam


O que nos revelam
estas paredes
sujas pelo tempo?

Serão as vaidades
ocultas
nos olhos que não querem
ver.
Pode ser a vergonha
de ser o outro
que mente para si
mesmo.

As paredes
silenciam...

No exato momento


Num só balanço
o braço direito
brande
um sino pequeno.

Alguém nasce
neste momento.
alguém morre.

Alguém vê
a rede de maya
sendo tecido.

Pelo regato correndo
as águas murmuram
a ladainha de sempre
ao bater nas pedras
nas paredes de terra
nos montes de piçarra.

A palavra que falta


Nenhuma palavra
incerta esta
acerta
naquilo que queria dizer
senão dizer
o que não pode ser dito
maldito seja
os santos benditos
tão distantes
dos homens
que silenciosamente
encantam
em caras de abnegação.

Sem velas
sem incenso
continuam sorrindo
infinitamente
dormindo.

Caminhos fora de rumo


Por onde nos levam
estes ônibus da periferia
avançando quebradas
subindo e descendo
sem destino certo?

Até as juntas
desjuntadas ficam
enquanto a alma
vaga
perdida pelas ruas.

Artérias que se expandem
para outros domínios
criados  por consciências
sem ciência alguma
de existências
abaixo dos trópicos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Anoitecer em outono


este constante
anoitecer
alongam as ruas
centrais da cidade

outono nos olhos
imensos na agitação
que deixaram-se de incomodar

lentamente
as sombras surgem
marcando outros domínios
cobrindo a impureza das
paredes

qualquer ruído
como o sussurro das asas
de um anjo torto
anuncia a calmaria
de uma eternidade
além de toda ilusão















As vias férreas


cada vez mais calosos
estes pés
costumaram-se ao concreto
que tanto pisado
deixaram marcas
que outros pés também
por aqui pisaram

ao caminhar
pelas trilhas marcadas
não sei se os pés caminham
não sei se os caminhos
por si só
são os que caminham
indeterminadamente

se pararmos
continuamos caminhando
sem que realmente
alguém pare de
caminhar

como fosse
possível

Excesso de realismo


mil são os rostos
mil são as bocas
que na multidão confundem-se
num ruído de abelhas
ao repetir gestos
que poucos dizem
senão um  lamento conformado
por falta
de companhia

anônimos somos
mergulhados mais fundo
nas telas de plasmas
fantasmas alimentando-se
dessa apatia transparente
das relações virtuais
sem qualquer envolvimento
orgânico
sentimental
carnal
visceral
cujos instintos de sobrevivência
perderam importância

Balada ao cair da noite


Após tempos passados
novamente o encontro passado
saboreando será
a bebida destilada
num copo de bar.

Aproximo apressado
escolhendo palavras
nem mais belas
nem menos feias
será desespero
penso e calo.

Bebe sozinho
em seu recolhimento
filosófico demais
que me incomoda
por dentro.

Perdido na noite
que avança
que continua a beber
o gosto insosso
da boca amarga.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Os passos arrastam


Para onde arrasta
a sola dos sapatos
nesta calçada imensa
esparramada pela cidade.

Estes passos apressados
que vão em direção
incerta
que nunca chegarão
calcando na argila
as marcas de uma vida
pisada firmemente.

Num soprar do vento


As sensações alegres
se foram num soprar
as sensações tristes também
nada mais restando
do que os olhos vivos
e um sorriso nos lábios
de um dia ter vivido.

Os rastros
o vento desmanchou
enquanto a lembrança
restou num monte de fotos
que ninguém quer mais ver.

Numa praça


Vendedor de miudezas
nos pontos de confluência
nada vende de útil
senão o pó-de-arroz
que serve para esconder
os sulcos no rosto
marcados pelo tempo
tempo bom de chuva
tempo bom de seca.

Zona norte


Estas casas de paredes
nuas
sem pintura
sem acabamento
aumentam na periferia.

Aumenta a população
de migrantes vindos de outros
pontos
bolivianos
nordestinos
cujos destinos
vão criando
nos porões secretos
da batida contínua
das máquinas de costura.

A vida numa esquina


Um pé de mamão
havia
numa esquina
sem que ninguém notasse
sem importância alguma
como pudesse alegrar
alguma alma boa
desses olhos sensíveis
ao ver numa esquina
um pé de mamão.

Há de dar um dia
frutos maduros
e alguém virá recolher.

Só resta a esperança
sem nenhuma certeza.

Ônibus da vida


 Estes caminhos longos
são artérias conduzindo
passageiros
moradores das zonas
periféricas da cidade.

São horas vivendo
em conduções
que demoram para chegar
alongando a vida
nos pontos de espera
alongando a vida
nos pontos de chegada.

Os rostos não se cruzam


O homem do boné preto
mantém-se anônimo
entre outras caras
também anônimas.

Cidade de inúmeras caras
que não se olham
não sorriem mais
não vivem mais
qualquer alegria.

O cimento das caras
acabou secando.
As caras endurecidas.

Sem adiantar


Espera na fila
dos ônibus
é longa.
Mas por quê apressar
o dia de nossa
morte?

Deixe a vida passar
deixe a vida ficar
deixe o ônibus chegar.

A vida de alguns


Aqueles que vivem à margem
nas margens dos viadutos
padecem do esquecimento.

Seus chinelos gastos
gastos também suas vidas
perdidas pelos cantos
da cidade que maltrata
os derrotados
lunáticos que sonham
com a vida sem razão.

Se a vida com razão
fosse realmente importante.

sábado, 9 de março de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Uma canção que vem fundo


“Em tempos de chuva
pare de chover
chuva agora
cesse de uma vez”
cantava assim o menino.

“Boneco de pano
Teru Teru Bozu
peço a você
que pare de chover”
cantava assim o menino.

Ainda ouço esta canção
que vem de algum lugar
nem sei se vem de mim
se vem de outro lugar
sei que vem bem baixinho
bem devagarinho
sonolento
até que o menino
de olhos pesados
cai num sono profundo
e lá no fundo de sua alma
alguém continua a cantar

“Boneco de pano
Teru Teru Bozu...”


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Nas ruas que jamais andei


Nunca andei naquelas ruas
da cidade em que percorri
de calças curtas.
Nem as calçadas
me reconhecem mais
as pedras em que marquei
um dia
cuja pisada penetrou fundo
mas outras pisadas do tempo
acabaram por apagar
os rastros que desapareceram.

As casas desapareceram
em que bebi em cada cortina
o cheiro de café quentinho
coado em coador de pano.
Não ficou a saudade
de uma cidade desconhecida
e das caras que vejo agora
quem serão realmente?

Gerações passadas
quando as caras também
foram mudando
e desconhecendo as caras
do passado.
Quando passeio
pela sacada nada mais tenho
nem amigos do passado
nem o passado existe mais.

Meus pais velhinhos
me convidam a retornar
sem que nada mais me
leve a voltar para lá.
Senão por eles
único sinal que um dia
vivi naquele lugar.

Assim posso andar
sem reconhecimento algum
sem ser reconhecido
transparente aos olhos alheios
como fantasma.
Talvez seja eu o único fantasma
que do passado saltou
e se assusta por não conhecer
ninguém.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Avenida Paulista

Caminha a Avenida Paulista
Num derradeiro caminho da multidão
Que se confunde e se funde
Nas múltiplas caras desta cidade.

Vieram de outro país
Mas aqui
Ninguém se importa com os sons
De suas palavras
Imigrantes do outro lado do oceano
Da Muralha da China
Dos confins da Conchinchina.

Sobremaneira as emoções
Explodem além das janelas
Em que se ouve tocado nas ruas
Uma melodia das grandes cidades:
Blues.
Enquanto na banca de jornal
A notícia marcada de sangue
Acaba em instantes.

Se as mágoas existirem
São esquecidas
Entre os ruídos de carros
Freando inesperadamente
Numa curva da esquina.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Rede que balança


Escurece em instantes
dias de tempo instável
em que da parede
da vizinha de cima
uma rede é balançada
produzindo ruídos
do ferro esfregado.

Neste momento
nada mais existe
do que o som
monótono como chuva
penetrando na pele
e a esfregar junto.

Sou a rede que
balança.

Vizinhos da frente


Entre sussurros
os espelhos do elevador
não escondem os rostos
e a voz que ouço
infantil
diz
quem é este japonês?

Incômodo do outro


Ninguém se importa
com a presença
do mendigo
nem se trata
de um problema.

O problema
se trata
do mendigo que se
importa
com a indiferença
de todos.

O problema
é sempre do mendigo.

Os falsos pudores


Não são loiros
a loira tingida
mas que importa
se a vida não passa
de dissimulação.

Sem apegos


Livre para caminhar
onde as calçadas conduzem
seja nos becos
desses becos imundos
em que cães vadios
fizeram morada
seja nas avenidas
amplas de asfalto rosa
não importa onde seja.

Livre para sentir o
aroma dessas árvores
sem nome
as axilas das morenas
banhadas com água
de cheiro.

Livre para morrer
quando a morte chegar
num beijo frio
de despedida.

As paredes falam


Que procuro afinal
pelas paredes da zona norte
pudera fosse encontrar
um registro perdido
mas
sem nenhuma importância.

Se importante fosse
importante seria esta vida
vivida intensamente
em cada esquina.

Se (des)importante fosse
saborear então a brisa
que ligeira passa
entre os fios de barba
em semiconsciência.

À frente perdedores


Alguns são perdedores
por perderem
nada mais tem por
perder.

Nem perdem a vida
nem a morte
nem a noite
nem o dia.




Os passageiros de taxi


As quaresmeiras tingem
por instantes
os olhos no fundo
em que a cidade
inteira inicia janeiro.

A brancura dos carros
são taxis
conduzindo passageiros
que conduzem desejos
alguns esquecidos
outros nem tanto.

Os loucos perambulam
com suas mortalhas
a cobrir corpos chicoteados
pelo vento
ventania de paus
da segurança que guarda
segredos da casa em que vende
vinhos raros.

Pela contramão
uma ambulância avança.

Pela contramão
a vida passa ligeira
até que chega
passamento
passageiro do tempo
cansado de caminhar
seus pés machucados.

Pela contramão!

Sem muito mais


Um homem passou
levando uma marmitinha
tudo que tinha
cabia no fundo
no fundo da marmitinha.

Nada mais tinha
tinha o mundo inteiro
o céu e os mares
a amor das mulheres
das feias e  lindas
solteiras e casadas.


-         Que mais queria ter
se tinha
tudo
numa marmitinha.

Os descaminhos da cidade


Naquela praça em que multidões
se formam
não se formou hoje.

Os uniformes cinzas da
polícia reúnem-se
no silêncio do dia
enquanto a cidade rumina
o gosto amargo do fumo.

Enquanto um sorriso
de pedra
da estátua do lado
traz encantamento
nos olhos de peixe
que se esparramam
pelas correntezas dessas
ruas que levam
a lugar algum.

Cidade que me consome
que mata a fome
no êxtase da cafeina
ainda borbulhante.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Levando a tiracolo

Por onde andará
A dona desse silêncio
Como que isso importasse
Que pudesse incomodar
Ou mudar alguma coisa.

Sem importância alguma
Ainda resta alguma lembrança
Que haverá de desaparecer
Um dia?

Mas o que poderá ser de mim
Se não tiver lembrança alguma?
Uma única lembrança
Carregada numa vareta
Levada aos ombros
Em derradeira viagem.

Ainda que esta lembrança
Seja um imenso vazio
Que fala todas as vozes.

Salve São Paulo

Pelas ruas sujas do centro
Ainda uma nostálgica visão
Toca incessante
Os olhos acostumados
Ao cimento armado
Dos edifícios que desmaiam
Sobre os viadutos serpenteando
Os sentimentos dos usuários
De ônibus que atrasam
Em tempos de chuva.

Maldita cidade
Que vai minando os poros
De um suor infestado
De gases carbônicos
De ácidos exalados
Dos canos desses motores
Que levam e trazem
Diariamente.

Bendita cidade
Que transforma o sofrimento
Em combustível
Que queima nos corações
Carburadores
Que criam energia
Elétrica
Atômica
Numa luta apaixonada
Em realizar a vida
Conquistada a duras penas.

Amada sobretudo
Pois odiada seria
Destruída por ela.
Amada simplesmente
Pois viver é necessário
Amada para ser amada
Também por ela.
Cidade madrasta
Cidade da mulher do lado
Em que os santos dormem
Ao lado das libertinas.
Benditas sejam
As pecadoras
De almas puras
Que nunca pensaram
Em ir para o céu.



domingo, 13 de janeiro de 2013

Ruas de minha vida

Nestas ruas em que andava
Nem restaram as paredes
Em que rabisquei poemas
Num momento de tristeza.
Foi-se a tinta impregnada
De uma nata
Transbordante de emoções
De um passado
Destruído em instantes.
Ruas que deixaram de existir
Ruas que fizeram parte de
Minha vida
Enterrado nos escombros
Numa explosão de dinamite.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Final dos tempos

Que verdade há
Afinal
Na linha final
Do final do ano?
Se em janeiro continua
O verão
Derramando águas
Lavando as almas
Da fuligem do tempo!
Se começo
Nada mais acontece
Do que outros começos
Que acontece
A qualquer tempo!


As luzes desencantadas

Um faiscar desdenhoso
lâmpadas natalinas
derramando um leite
caudaloso
que sem gosto
deixou de agradar.

Ano Novo bom


Ao passar este ano
Ano Novo é desejável
como que o novo fosse acontecer
pudera que fosse verdade.

Esta febre que me acomete
que a minha pele não revela
mas presente nas entranhas
desconhece
que o Ano Novo acontece.

Que sinal revela
esta água que baixa
pelos canos do nariz?

Esta água que lá fora
inundou o jardim
prenuncia janeiro
transbordando pelas ruas
a invadir bueiros
e a desalojar os ratos.

O que parece novo
não se trata de uma esperança
uma esperança envelhecida
mas uma  ilusão
que se renova.

Os poetas mortos

Estes amigos poetas
morreram todos
sem companhia para
poetar
minha companhia
com quem não converso
espera alguém
que pare de vez
de poetar.

Enquanto alguns esperam

As noites alongadas
pelas mesas dos bares
ficam cheias às sextas-feiras
ficam de bebedeira
os desiludidos
enquanto os iludidos
esperam o amanhã chegar.

Como que amanhã pudesse existir!

Queima a mata

Os bicos de fogo
continuamente acesos
em toda Mata Atlântica
queima metais pesados.

E a fumaça branca
num rastro ascendente
confunde-se com as nuvens
que começa a arder numa
chama sulfúrica
a queimar a ponta das folhas.

E a fumaça negra
num tropel de cavalos selvagens
 a pisotear corpos
que perderam a natureza humana.

O túnel

Estes túneis que cortam
a serra
é uma viagem
nas próprias entranhas
silencioso e mudo.

O mar

Quero ver o mar
e desesperadamente mergulhar
meu corpo insalubre
e lavar a alma.
Pudesse lavar
por um instante que fosse
meus karmas
de um passado inglório
em que bebi de licores
coloridos da ilusão!

Tempestade

Em cavalos negros
as nuvens de dezembro
cavalgam tempestades.

O que cavalgo neste momento
senão o dorso em febre
de meu próprio pensamento
que divagante conhece
o vento cortante
e a dureza das pedras.

Assim caminhava

Um andor do Senhor
dos Milagres caminhava
nos ombros de homens
que carregavam pesado
num andor carregado
de fé
de calor.

Homens que carregavam
o andor do Senhor
enquanto mulheres lamentavam
deixando um rastro de incenso
no ar carregado de sofrimento.

Homens que carregavam
todos os pecados do mundo.
Homens que pediam
um milagre
um andor do Senhor
dos Milagres caminhava.

De um bar do Peru

Este vozerio que espalha
pelas mesas do bar
tem o cheiro das sardinhas
que senti pela primeira vez
dos barcos a descarregar
suas redes carregadas
que vinham do mar.

Estas vozes que ouço
vem de um bar
vem de um cargueiro
dos pescadores solitários
que deixaram mulheres em terra
amores nas montanhas
nas planícies imensas
de areia e sal
que salgou todo o Peru.

Este sal que sopra
vem do mar.
Este vozerio vem
das mesas de um bar.

Os cristais partindo

Estes copos de champagne
transparentes
enfileirados
brilham uma brancura
de cal.

São tão irreais
derretendo ao calor da noite
em movimentos glaciais
corpos de uma mulher
prestes a partir um trincado
que se foi alongando.

Quando o tempo passa

Esta sensação de acabamento
do ano passado que passou
deixou pelos cantos
um rastro de poeira
que não se levanta
nem por encantamento.

Sem tempo para tristeza
que tomou rumo inesperado
foi-se de vez
para as águas profundas
lá no fundo do esquecimento.

Pudera em silêncio
descansar a cabeça aflita
docemente pairar nas velas
perdidas em alto mar.

Pode-se no mar
e embarcar nos redemoinhos
e girar a terra
e girar o sal
e tornar-se lama a ser moldada
de novo!

Como não dizer tudo

Ainda as palavras
em suas insubstancialidades
que como sombra varre
este chão que esconde
todos os sofrimentos
e alegrias
de uma poeira
que se assenta
e de novo se levanta
desenhando formas
de existência efêmera.

Minha vida passageira
poeira do tempo
poeira além das palavras.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Visita do tempo

Uma sensação gelada

Penetra pela imensa sala

De alguém conhecido

Desconhecido pelo tempo

Que se perdeu completamente

Por estas vias tortuosas

E clandestinas

Das ruas do centro.



Como um fantasma

De face inexpressiva

Sua voz vacilante

Remete a outras imagens

Que caíram no esquecimento.

Mas um dia

Novamente

Uma provocação insana

Salta da mente

Salta de um lugar

Que deixou de existir.



Esta poeira do tempo

Que penetra fundo

Nos olhos

Ainda incomoda

E todo esquecimento

Não passa de um desejo.





domingo, 18 de novembro de 2012

Lembranças em ruínas

Após a passagem da tempestade

Nada mais resta no chão

Daquilo que foi um dia

E caíram os castelos

E caíram as igrejas

E das ruínas

Nem sobrou a consolação

Como nada mais

Pudesse existir

Como pudesse ter existido

Um dia.



Apagou-se de um dia

Para outro

Carregado pelas águas

De uma consciência indômita

Arrasadora

Que nem mesmo restou

Uma arqueologia possível

Que pudesse compor

Um labirinto de formas

Poeiras de um passado

Que já passou

Escorrendo no ralo.





sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Clarão nas areias

Por quanto tempo silenciaram-se

Os canhões e a tempestade de areia

Nos campos de guerra

Das areias sagradas

Que em tempos passados

Foram pisadas pelas sandálias

De Moisés por quarenta anos?



Ainda não se cansaram

Incendiar a noite metálica

Das flechas flamejantes

Explodindo num espetáculo

Pirotécnico

Sem as bandeirinhas

De São João

Pois hoje não é de festa

E há muito quebrou

O cachimbo de barro

Assim a fumaça que sobe

Não é a da paz

A fumaça é a da fuligem

Dos mísseis caindo

Numa chuva ininterrupta

De intolerância.



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Procissão

Aqueles homens carregavam

Nos ombros carregavam

Um andor com o Señor de los Milagros

Em pingas o suor corria

Dos rostos morenos

Vestidos com capas lilases

Um passo à esquerda

Dezoito homens carregavam

Todo o sofrimento do homem pobre

Dos distritos peruanos

Um passo à direita

E arrastavam de um lado

De um lado para outro

Avançavam a passos lentos

Para não chegar a lugar algum

Enquanto na cruz agonizava

Com feridas barrocas

A última esperança

Tão acalentada por todos

Das mulheres que se arrastavam

De costas

Incensando o ar parado

Dos antigos ditadores

Tão adorados.

Tão adorados.



domingo, 28 de outubro de 2012

As folhas nem escritas

Os livros que não li ainda

Contam histórias

Em que vivo neste momento.

Prefiro não lê-los nunca

Antes fazer de minha vida

Um drama jamais escrito.



As lágrimas de cera

Naquela saída havia

Velas vermelhas

Apagadas

Em que a cera derretida

Eram lágrimas de uma mulher

Que perdeu o amor

De um amor que nunca teve!





O anjo negro

Sem nada fazer

Caminhava pelas ruas

Carregando um saco plástico

Carregando seus sonhos

Muitos deles

Em que acreditava.



Vivia nas ruas

Vivia num abrigo

Da prefeitura

Sem amigos

Nem mulher

Nem um cachorro.



Disse ter conhecimento

Dos segredos das lojas esotéricas

Disse saber da cabala

Disse ter poder nas mãos

Energia que irradiava

Sem que ninguém pudesse ver.



Disse ser um anjo negro

Que caminhava pelas ruas

Que ajudava

Quem trabalhava

Ele próprio

Nunca fez nada.



domingo, 14 de outubro de 2012

Poesia


Da vivência: minha matéria-prima.
Da imaginação: minha manufatura.
Das palavras: meu suporte.
Para leitor: meu mundo

Aqui ao lado


Quando pequeno no meu quintal tinha uma cerca
de pequenas frestas para o terreno do vizinho
onde morava aquela linda garota que mal sabia meu nome.

Mas de nada adiantava olhar pelas frestas
que nada podia ver, senão poucos movimentos de seu cabelo
brincando com o cachorro no jardim
Assim como a vida que pouco se vê além do agora.

Finos cabelos brancos

Hoje, com meus cabelos brancos, sei do tempo que passa
e que não quero deixar deixar passar.
Viver o que não vivi, ser o que não fui
Amar quem deixei de amar.
Tudo por uma única vontade,
daquela época de garoto,
que não sabia do tempo que passava
e que queria deixar passar.

Uma vida a fio

Alguns fazem planos

A respeito de suas vidas

Abaixo dos panos

Nenhum plano

Faço

Para os próximos 5 minutos.

As duas vidas cruzadas

São muitos os amores

Que cruzaram minha vida

Uma se chama Losartan

A outra Narcaricina

Pensei um dia

Abandoná-las

Pensei

E minha vida não seria

A mesma

Se depender de mim

Nunca ficarão longe de mim

Se depender delas

Nunca ficarei sem elas.



domingo, 30 de setembro de 2012

Tufando


Em casa, o silêncio solitário
É quebrado apenas pelos gritos agudos do vendaval
E a violenta dança das árvores a segui-lo.
A chuva chega em golpes surdos chacoalhando as janelas.
Ah, o desconforto da vulnerabilidade!
Hoje, a noite é de Lua cheia
Mas, lá fora, apenas a escuridão.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O poeta


Adrenalina do poeta é andar na corda bamba
da realidade à irrealidade,
confundindo os nós que grudam as pontas
de pequenos fios singelos,
tecidos à mão em dia e noite
e retirados das vidas
que se esfacelam diante de seus olhos
impotentes em ação
potentes em suposição
camuflados numa caneta
e recheados duma vontade
de não ter que andar numa corda bamba.

O poeta não escolhe
a não ser o pé que vai a frente.
sob o abismo da realidade nua
crua e cozida das dores e dos desamores.

O poeta apenas anda,
na corda bamba
dos fios de sua própria vida

Que saudades que tive

Que saudades que tive
da sua presença sublime,
de seu toque agraciador
em todos aqueles que necessitam
dum aconchego ligeiro.
Acalma os calores e traz a vida
Que saudades que tive
da chuva de primavera.

Sopro de gaita

É pelo sopro de uma gaita
que ele suspira a avida.
Em Dó entoa as músicas
que cantam os versos, imemoráveis,
De amores, desamores e não tão amores assim.
Uma pequena gaita prateada
que cabe num bolso,
esquece num só sopro
e muda uma história.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mais um


Apenas um mais
Nessa corrente sem fim
Sem começo, nem fim.
E sem começo nem fim,
Quanto vale um?
Quanto valem cem?
Quanto valem mil?
Vale apenas um mais
Que no fim nada vale de mais
Vale apenas um
Apenas um e nada mais.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mil

Mil
não um, nem dois... Mil

Um, zero, zero e zero, que é diferente de
zero, zero, zero e um.

milésimo poema deste blog.
Como saber se as escolhas da nossa vida são certas?
Não há como. Apenas apreciar o momento e deixar nossa vida ser levada pelo vento, pois somos o próprio vento.

Kannon sama


Como me mover diante desta compaixão?
Deste grande coração que indiscriminadamente tudo envolve?
Até minha cegueira desordenada,
calibrada no auto-realizar,
duvidosa e cheia de dúvidas.
Alimentada por uma avalanche
sinestésica informada em sociedade.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Rama seca


A rama seca
Ali, à espera das águas de uma primavera inalcançável,
sustentada pela terra, agora quebradiça
e empedrada pelos veios de uma cidade já morta.
Ah, rama!
És a única vida ali vivendo,
entregue ao movimento dos ventos.
Debaixo d'um céu azul,
não orando, mas sim esperando, apenas,
Que a água volte ao seu útero.

De pássaros e gatos


Há pássaros que não ficam em gaiolas.
Por mais que o homem pense o contrário,
alguns destes animais foram feitos para voar.
Despreocupados da chuva, do Sol,
do contra-vento e dos gatos.
Ora, os gatos são bonitos!
Quem dera, assim como me alimentei,
alimentar o gato
da forma naturalmente mais bonita!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando o vento sopra

Descanso minha alma

Que alquebrado plana

Acima dos capins macerados

Pelo sol que amarela

A tarde desaparecendo.



Uma brisa que fresca

Sopra acalma neste instante

Todos os meus tormentos.



Quero ser também o vento

A levantar torvelinhos

Pelos caminhos não andados

Por qualquer pensamento.



Sem sair do lugar

Nunca pode-se fugir

De si mesmo

Deste lago anoitecendo

Que cada vez mais

Vou caindo

Sem terras em meus pés.



Silêncio é companhia

Que umedece os lábios

Que secaram

Das febres passadas.



Viver é cair profundamente!



Que faço agora

Pelas janelas infinitas

Abaixo do céu de nuvens

Escuras

Uma mulher de pedra

Dança.



Uma criança por trás

Dos ferros não sorri mais

E parou de brincar.



Mas haverá em algum ponto

Um velho a mastigar

Seu cigarro de palha.

Nada mais importa

Se nenhum sonho

É possível sonhar.

Se amanhã não existe

A manhã se fez neste

Instante!



Caminhante

Sem procurar nada

Caminho sem nada buscar

Senão avançar adiante

Onde levam meus pés

Que jamais caminham

Numa linha reta

Procurando por coisa alguma.



Sem chegar nunca

Nunca sai deste lugar

Nem há onde possa ir

Sou vento soprando

Sou calmaria parando.





Vaga lembrança

Por onde andava

Andava também

Um restaurante coreano

Quando parei havia

Apenas uma lembrança

Que dissipava-se

Dos amores que se foram.



Visita-me às vezes

Visita-me o restaurante

Coreano.



As árvores

Estes galhos enegrecidos

Avançam seus braços

Sobre os carros

Que trafegam neste instante.

Sem consolo algum

Numa abraço de morte

E sugando a seiva de sangue

Dos homens

Só verde ficou

Manchando o chão

De asfalto.



O destino tomado

Numa encruzilhada havia

Uma vela vermelha

Numa encruzilhada havia

Toda indecisão

Que direção tomar

Por isso ficou a chorar

Que decisão tomar

Não tomou

A velha queimou

E a vida se foi

Num soprar do vento

De um vento ladino.



No cal da desilusão

Pulsa incessantemente

No pulmão de cimento armado

O combustível queimado

Da fuligem dos carros

Que também pulsa

Em minha caixa de máquinas

Que falha a cada instante

Desta vida curta

Que só vale a pena

A vagabundagem poética

Das esquinas de minha

Cidade!



Soprar pelos cantos

Que politicamente

Incorreto

Seja uma contradição

Destes tempos

Em que os ventos

Em desalinho

Procurem pelos cantos

Um caminho

Possível.



Quando nada mais diz

O que restou das formas

Instaladas

Desta arquitetura

Inventada no passado

Do que uma porção

De palavras que faço uso

Para dizer tão pouco?

Sombra de uma pedra

Que rolou com a água

Mas a insolência

Insiste em ficar.



Vivo agora

Foi por um lapso passageiro

Que passou em minha vista

Um risco vermelho

Que pensei ter sido

O passado de minha vida.



Mas não tenho lembrança

Alguma

Nem foto antiga

Nem história para

Contar.



Nasci neste mesmo

Momento

Que passei a me esquecer

Quando foi isso!



Quanto ao futuro

Que bobagens pensar

Naquele que não sei

Se pode acontecer.



Amigo do vento

Pelas vias mais simples

Simplesmente deixei a vida passar

Passou por uma porta

Pela outra também

E ninguém mais pode segurar

A areia fina esvaindo-se

Pela boca de um funil

O guizo que toca nesta hora

Soprado pelo vento

Só toca agora

Só toca neste momento.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A vida escapando...

Que mais vale a pena

Viver na certeza

De que nada mais vale a pena

Do que viver na incerteza

De que nada mais fica

Em estado sólido

Nas palmas

Sem que

Escorra

Entre

Os dedos.



domingo, 26 de agosto de 2012

No cal da desilusão

Pulsa incessantemente


No pulmão de cimento armado

O combustível queimado

Da fuligem dos carros

Que também pulsa

Em minha caixa de máquinas

Que falha a cada instante

Desta vida curta

Que só vale a pena

A vagabundagem poética

Das esquinas de minha

Cidade!



Eu e a chuva

Nestes dias de chuva


Derrama sobre as calçadas

Um frescor cristalino

Que esfria de vez

Todo calor que ainda sinto

Na transparência dos sentimentos

Que tal qual folhas secas

Jaz nos canteiros

Cada vez mais gelado

Os membros

Os galhos enegrecidos

Destas árvores urbanas

Pendem num só lamento.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nada mais se detém

Quando nada mais fica na memória

Nada mais tem importância

Naquilo que poderá ser.



Sem impedimento

A água cristalina

Corre no lado descendente

De uma montanha lisa

Quem pode segurar

A fluidez de uma nuvem

Destas flutuantes

Vagabundeando nas tardes

De primavera

A primavera também

É uma mulher

Envelhecida!



Vida instantânea

Em minha companhia

Apenas o vento soprando

Que alegria

Nada fazer do que

Nada fazer

Senão ventar junto

Com o sopro

Desta vida

Temporária

Que vivo

Apenas

Neste momento.