quarta-feira, 30 de junho de 2010

Que tudo passe

Junho passa
E passageira passa
E passa já tarde demais
Até o amor do passado passa
Por um triz passa com mãos dadas
Com um passageiro de uma lotação de passagem.
Como me fartei de junho
Que não deixará nenhuma saudade!
Comemorarei outras datas que não seja junho.

Ilusão que foi passageira

O que restou do tempo
Na caída da areia afunilando
No cristal
Senão uma memória
Que aparece
Que desaparece
Sem se dar conta
De sua própria inconstância
Cujo passado é o presente
Apenas na mente passageira
Numa bola de sabão que teima
Sair ilesa numa provável explosão.
Até mesmo Joaninha
Que amava Tenório
Que amava Joaninha
Passados vinte anos
Trocou Tenório por
Mário Ferreira dos Santos
Que surgiu do nada
Nadando contra as ondas.
Mas Tenório continua a amar
Joaninha de vinte anos atrás.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A espera

Aquela moça da janela
Esperava a chegada de alguém
Nunca deixou de esperar
Se era primavera
Esperava as flores florescerem
Se era inverno
Que as flores caíssem dos galhos
Passava a vida toda esperando
Sem que ninguém chegasse.
Um dia chegou
Não se importou com sua aparência
Se era cego de um olho
Se era coxo de uma perna
Foi com esse mesmo
Que ela se casou.

Sem grandes sonhos

A felicidade pode ser
Assim:
Uma tarde domingueira
Enquanto passa a vida
Um prato de macarronada
Enquanto a morte não chega
Sem inovação alguma
Enquanto cada vez mais
As barrigas vão se alargando
E de repente
Alguém grita
É golllll.

A felicidade pode ser
Assim:
Um álbum de figurinhas.

Ao cair da noite impura

Um corpo que caminha
Pela cidade
As ruas não testemunham mais
Suposta insanidade
Dos rostos de vidro
Isentos de qualquer expressão.

E quando a noite chega
Trazendo uma bruma venenosa
De gases carbonizados
Dos fósseis que se estendem
Pelo granito polido pelas rodas
De carroceiros levando
Papelões sem nenhuma serventia
Senão para a decomposição
Mais profundo fica o abismo
Do homem desamparado
Circunvizinho à rocha cujo
Limbo antes verde ressecou.

Ainda que se procure
Seja nos sinais de trânsito
Nos grafites das paredes
Nenhum significado capaz
De salvar da própria destruição
Uma vida que deixou de ter
Sentido capaz de suportar
A angústia em deparar que
Qualquer expectativa
Será em vão.

Indiferente a tudo
Mas como nada mais tivesse
Importância
Continuam comendo
Nas praças de alimentação
Aumentando cada vez mais
Uma desilusão de um amor antigo
Por isso cada vez mais
Ingerem calorias
A fim de esquecer tamanha contradição
De uma vida vivida em revés.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sem nada mais fazer

Nenhuma dúvida pode ser
Mais incômoda do que
A dúvida da própria dor
Em tempos de indecisão.
Joana foi trabalhar
Cremilda batalhar
Para sustento de sua vida.
Se tivesse um papel em branco
Comporia uma poesia
Dessas sem rima precisa
Apenas para atormentar
Aqueles que seguem regras
Demasiadamente precisas.
Mas nada disso disponho
Só tenho uma vontade imensa
De sussurrar numa rachadura
De uma parede abandonada
Um nome qualquer que seja
Pode ser Maria
Josefina ou Filomena
Desde que não existam.

domingo, 27 de junho de 2010

Tempos de jogo

Entre os abrigados
Debaixo de um viaduto
O mesmo mendigo de sempre
A mendiga também de sempre
Nada mudou em suas vidas
Senão a bandeirola que tremula
Bandeira verde e amarela
Em tempos de jogos
Quando a bola rola e a multidão
Em festa grita gol.
Será que eles comemoram
E fazem festa?
Como que a festa fosse
Deles também?

Os riscos da vida

Endurecer as palavras
Pode ser uma medida de prevenção
Sem se deixar
Escorrer pela correnteza
Das indecisões das emoções
Mais profundas.

Deixamos de cair nas malhas
De uma aranha prestes a atacar
Com o doce veneno que mata
A cada momento
De maneira suave e lenta.

Ainda que amor seja decadência
Quanto maior o perigo
Não como deixar de provar
Um gosto amargo na boca.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Audiência

enquanto a seleção joga os desabrigados
esperam em fila a hora de o albergue abrir
a cidade está deserta, todos em frente à tv
mas na fila do albergue não tem tv
e ninguém tem nem rádio de pilha
o albergue fica incrustado num viaduto
sobre a avenida de seis pistas
enquanto a seleção joga os homens da fila
olham pacientes a avenida vazia lá embaixo

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O pássaro

Em minha janela pousou
Um pássaro
E de seu bico
Frágil passou a bicar
O vidro translúcido
Que reverberou...
- Vai-te embora
Pássaro de mau agouro
Deixe meu amor em paz.

Cegonha de papel

Uma cegonha de origami
Não faz a dor passar
Duas cegonhas de origami
Não fazem a dor passar
Mas enquanto a dor não passa
As mãos hábeis vão confeccionando
Cegonhas após cegonhas
Até chegar a mil cegonhas
Sem que a dor passe
Não se desiste de dobrar
Um papel atrás do outro
Origami de papel
Sem se importar
Que a dor nunca vai passar
Mas em momento algum
Parou de dobrar
Um origami atrás do outro
Origami de papel
Sem perder a esperança
Sem a esperança que a dor passe
Apenas dobrar papel
Sem mais nada esperar
Origami de papel
Cegonha de papel.

Felicidade

A Cláudia disse que já havia
deixado pra lá a busca da felicidade.
Disse isso fazendo um gesto largo com a mão
e sorriu.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O saci da parede

Aquele mesmo casal
De mendigos
Ganhou um novo amigo
Na parede de seu quarto avenida
Estampado estava
Um negro retinto
Saci era o seu nome
Em nenhum momento
Reclama
Do que quer que seja
Faça dia faça noite
Saci os protege
Dos olhares maliciosos
Saci é fiel...
Que nada promete
Nem neste mundo
Nem no outro
Imundo é a mente
Dos insensatos
Que não acreditam
No saci
Em sua total inutilidade
Que da parede
Não sai
Não abandona
Mendigos e sábios
Marginais e poetas
Que se encantam
Do bailado perneta
Do saci.

Ilusão de areia

Para quê construir
Castelos de areia?
Se uma onda ligeira
Vem e a tudo derruba
Em instantes apenas
Sem que ninguém se dê conta.
Quando um castelo de areia
Uma onda derruba
Novamente um novo castelo
De areia
Começam a levantar
Desafiando a onda
Que traiçoeira chega
No começo devagarzinho
Ninguém percebe
Nem o menino que levanta
O castelo de areia
Nem a menina que brinca
Com seu balde de areia
Mas de tanto derrubar
Desistem definitivamente
O menino
A menina
Sem castelo algum
Cada um vai para o seu lado
Pois a brincadeira acabou
E como nada tivesse acontecido
Vem a onda ligeira
Não deixando vestígio algum
Que um dia houve na areia
Um castelo de areia
Um menino
Uma menina.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Chegava o frio

Um homem que vi na rua
Mancava de uma perna
Fazia frio naquela tarde
Quanto mais mancava
O inverno chegava
Trazendo consigo
Um homem que mancava.

domingo, 20 de junho de 2010

Como aves de arribação

Sempre fora de lugar
Onde quer que esteja
Em nenhum lugar estará
Sem lugar certo para morar
Em nenhuma parte do mundo
Se sentirá como seu lugar
Por isso estrangeiro será
Onde quer que esteja
Seja lá
Seja cá
Por isso resolveu caminhar
Onde pudesse levar
Suas botinas surradas
De tanto andar
Por todos os caminhos
Alguns aquáticos
Outros terráqueos
Sem parada alguma
Como aves de arribação
Fugindo do frio que faz
Durante o inverno
Procurando pelos campos
Mais quentes de verão
Mas verão algum dura para
Sempre
E lá se vão novamente
Como aves de arribação
Não dura para sempre também
O amor que esquentou
O último verão
Quando vem o frio
Nenhum amor se mantém
Quente o suficiente
E lá se vão novamente
Como aves de arribação.

sábado, 19 de junho de 2010

Jogando bolinhas de gude

Bolinhas de gude
Estas eram as preferidas
De meu irmão.
Sozinho ele passava
Jogando
Bolinhas de gude.
Sem ninguém próximo
Passava as tardes
Jogando
Bolinhas de gude.
Que graça achava ele
Que graça haveria nas
Bolinhas de gude.
Mas isso não importava
Nem aquilo que eu achava
Porque ele passava
Jogando
Bolinhas de gude.
Assim passou a vida
Toda
Jogando
Bolinhas de gude
Sem se importar em crescer
Se resolvesse crescer
Ele pararia
Não jogaria mais
Bolinhas de gude.
Pararia de viver
Também
Para ele somente
Importava jogar
Bolinhas de gude.
Mas eu nada sabia
Das bolinhas de gude
Passei a vida toda
Sem jogar uma única partida
De bolinhas de gude.
Por isso não vivi
Como ele viveu.
Ah. Como invejo
Quem pode jogar
Bolinhas de gude.

Sorriso estranho

O estranho sorriso na cara
De Monalisa
Será de alegria
Será de tristeza disfarçada?
O sorriso que não existe mais
Em minha cara
Será de alegria disfarçada
Será de tristeza mesmo?

Sem espantar a tristeza

Esta frieza dos modos presentes
Não serve para ocultar a lava
Que derrama pelas bordas a chama
Que incendeia a alma perene
De uma dor sentida
De um mundo cada vez mais
Irreal e que clama por uma alegria
Que não mais acontece.
Por cima das pedras o limbo
Surgiu em sua antiguidade
Em sua brutal natureza
Mantém toda sua dureza
Cristalina e tristemente sentida
O sopro do vento pelo deserto
Traz algum encantamento
Nas patas dos camelos
Que continuam a mastigar
Uma grama que não mais existe.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Nada me tem, nem sou

Sou negro, sou pastor, nasci por aí
não tenho documento nem raça
nem casta, sou um cachorro preto
uma orelha cortada sem ponta
por baixo uma ferida aberta - sou pirata

a ponta branca de uma pata
a peste me ataca
deixando o pelo ralo
(o que me cura?)
moro num buraco de terra - sou vira-lata

estou vivo
e na trilha da montanha eu te acompanho
sou forte
sou pastor
sou um cão negro
sou sua sombra neste caminho sob o sol
nada mais me interessa
te acompanho
no caminho estreito
curvo e íngreme

me distancio e lá na frente
perto daquela nuvem
faço um cocô amarelo
sou cão
abano o rabo
deixo pendurada a língua no canto da boca

--

um espinho penetrando lento a carne
- uma dor me ataca no mais fundo do ouvido
balanço a cabeça violento
as orelhas batem - slept-slept
(só assim penso na cura)

me jogo no chão
solto ganidos
me arrasto com a cabeça
a se esconder no capim
até passar
até me deixar
até voltar

e então outra vez sou
- o cão negro
estou pronto
estou alerta

- sou todo atenção neste caminho -

e não precisa passar a mão na minha cabeça
afeto para mim é apenas a nossa presença - móvel
neste fim de terra e pedras

sou sombra e assim não vejo diferença
entre eu e você
quando você pensar em me acariciar
já sumi no caminho à sua volta
sou sombra de um ou de muitos
não importa, sou pastor, reuno
reuno a matilha nessa trilha de montanhas

assim sou feliz
sou cão
cão sem dono

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tocador de blues

De onde será que vem
O som de blues?
Do outro lado de minha casa
Em que casa se ouve
O som de blues?
Que traz uma tristeza profunda
Uma beleza tristemente
Tocada numa guitarra
Uma saudade de uma terra
Que não existe mais
De uma mulher que se foi
Para não retornar mais
Nada mais deixou
Somente uma chave
De porta alguma
Sem fechadura.

Para que serve uma chave
Se nada mais há para se abrir
Para que serve o som de blues
Senão para tornar a tristeza
Uma condição das perdas
Numa vida vivida para se perder.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Numa casa da periferia

Por entre os fios
Elétricos pude ver
A lua minguante
Quase desaparecendo
Num barco chinês
Que navegava
No grande mar do céu
Abaixo estava uma casa
Quase em ruínas
Num bairro da periferia
Longe da vista
Longe da Avenida Paulista
Tendo por céu
O mesmo céu
Que naquela paisagem
Uma solidão imensa
Pairava sobre a casa
Acima a lua minguante...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Na margem de cá

Caminhando com seu bordão
Lá vai Jizo acompanhado
De uma multidão de crianças
Todos o seguem
Beirando o grande rio
Um barqueiro vem chegando
Um passageiro vai passando
Sem nenhuma bagagem
Sem companhia alguma
Vai só para a outra margem
Deixando para trás
Amigos e inimigos
Mortos e vivos
Seu cachorro preferido
Na margem do lado de cá
Fazem as crianças castelos
De cascalhos molhados
Até que chegam os demônios
Uma turba deles armados
De ferros
E põem os castelos ao chão
Totalmente destruídos
Todos os sonhos
Brincadeiras e amores
Totalmente destruídos
Até que novamente chega
Jizo e começa a construir de novo
Um novo castelo de pedras
Até ser destruído de novo.

Antônio

Salve, Santo Antônio!
As chamas fundem-se,
dançando em frenesi.

domingo, 13 de junho de 2010

Tristão e Isolda

Uma intranqüila tristeza
Fere a pedra por inteira
Um ferreiro bate o ferro
Um pintor pinta o sete
Um palhaço chora e
O circo pega fogo
Queimando toda a impressão
De que era apenas ilusão
O amor de Tristão e Isolda.
Por amor não se morre
Tem que padecer
Na imensa solidão
Do amor que nunca se teve
E na solidão encontrar
A amizade de uma sombra
Companheira nestes tempos
De insolação amorosa.

O casarão que havia

Onde antes havia
Uma construção nada mais
Há agora do que destruição
De um dia para o outro
Tudo virou escombro
E toda a história que havia
Naquele local
Desapareceu num soprar
De um vento rasteiro.
Os amores que lá havia
Inscrito nas paredes rabiscadas
Encontros e também
Desencontros
Nada mais resta
Não resta mais a memória
Que baixou como poeira
De concreto armado
De ferro contorcido
Tudo se foi
Em instantes.
Como nunca tivesse havido
Nem fotografia se tirou
Dos tempos que havia
Uma velha construção.

Viver em desilusão

Os cachorros vadios vagueiam
Indiferentes ao frio que esfria também
Do que resta de amor inventado
No último verão.
Não há mais tempo para viver
Se viver é correr contra o tempo
Se viver é morrer a cada minuto
De insolação desiludida
De uma realidade cada vez mais
Irreal em sua aparência.

A frieza chega às pernas

Não é o frio das ruas
Que assusta
Nem o frio que sobe
Pelas pernas acima.
O que assusta é a frieza
Da total indiferença
Que anda pelas ruas
Sem se importar
Com o frio que assalta
Os corações de total frieza.
Como o frio incomoda
Meu corpo aquecido
Pelas blusas novas
E felpudas da ignorância.
Como detesto o calor
De minha blusa
Que mais frio produz
Em tempos que o frio
É apenas um detalhe
Dentre as prioridades!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Haiku

Viagem noturna
Criança tagarelando
Sono com memórias

Haiku

Nem aqui, nem lá
Viajante neste mundo
Busão devagar.

Haiku

Flor de sakura
Hanami no meu colchão
Mamilo rosado

Haiku

Haikus são nuvens
Escrevo para vocês
Aviões de papel

Haiku

Sábado no frio
Promessa de feijoada
Fome antecipada

Haiku

O sol é uma manga
Amarelo igual laranja
Gordo e picolé

Haiku

Paciente, aguardo...
Multidão à minha volta
Trem apita: vamos.

Haiku

Cinco-sete-cinco
Só quero três linhas
Caneta com fome

um dezenho

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O tempo parado

Nesta irreal realidade
Em que compartilhamos
Sentimentos comuns
A felicidade é um momento
Fugaz como as gotas de orvalho
Mas podem durar pela eternidade
Até que a água se desfaça em vapor
Como é longo o amor
Que desconhece o tempo passando
O tempo não passa
O tempo pára
Para os apaixonados
Que não fazem mais nada
Do que nada fazer
Enlouquecer de tanto
Sonhar por um momento!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Cantor de rua

Ao lado da velha sinagoga
Encontrava-se o louco cantor
Que cantava o dia inteiro
Como cigarra até desabar
De uma alegria disfarçada
Da própria condição humana.
Sua canção não era de tristeza
Mas triste era a situação
Que para não enlouquecer
Do excesso de realidade
Cantava seu mundo encantado.

Melancolia diante do mundo

Contudo, além do riso jovial e do respeito, ainda se acha nesse sentido contraditório uma outra inpressão, pois, ao representar o elo perdido entre as forças intelectuais e sensíveis, o ingênuo também desperta uma certa melancolia com o estado real em que se encontram os homens em sociedade.

SCHILLER, Poesia ingênua e sentimental, São Paulo: Iluminuras, 1991, p.21

Amor além dos muros

Foi quando de repente
O ônibus parou naquele ponto
Saltaram as mulheres
Algumas muito jovens
Carregando sacolas com produtos
Havia de tudo
Havia refrigerantes
Havia bolachas
Havia cigarros
Havia também embalado
Em celofane vermelho e rosa
Uma caixa de amor
Era o dia das visitas
Das mulheres e filhas
Dos presidiários
Daquele mundo isolado
Uma ilha cercada por muros
Por fuzis e olhares desafiadores
Daqueles que tinham ainda
O direito de receber
A visita de seus amores.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Canto das sereias

Por mares nunca navegados
Que poderá ser encontrado
Se nenhuma viagem aconteceu?
Sou Odisseu sendo encantado
Pelas sereias de canto solene
Devoradoras de homens
De suas almas mais profundas
Que a ninguém revela seus segredos
Seus medos mais insanos
O medo da solidão
Quem sabe o medo de perder a razão
Ao tomar da boca delas
O licor mais doce
Que leva ao arrependimento
De um dia ter visto
Ouvido a cantilena marítima
Do amor que a tudo arrebata
Breve amor
Que enfim mata
Todas as noites de verão.

Anjos Caídos

Ensaio fotográfico sobre evento de suspensão corporal durante a Virada Cultural de São Paulo, 2010. Clique em "Open publication" para ver em tela cheia. Fotos Bruno Mitih.

domingo, 6 de junho de 2010

Pigs

Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

BANDEIRA. Manuel, Libertinagem, Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005, p.87.

Acima das nuvens

Quando a noite dorme
Também dorme o viaduto
Que abaixo dele dorme
Um casal de mendigos
Um cachorro também dorme
E assim a noite esquenta-se
Até que a manhã chegue
Trazendo os primeiros raios do sol.
A noite é longa
Para os que não querem acordar.
A noite é longa
Para os sonhadores e loucos
Que se entregam desvairadamente
Na vontade de navegar sobre as nuvens
Onde existe felicidade
A felicidade somente existe
Acima das nuvens de nossa existência
Acima bem acima de nossa realidade
Existe apenas em nossos sonhos.

A pele marcada

Nunca aprendi a empinar papagaios
Não subi aos céus para riscar o azul
Nem por isso fiquei triste
Pois aprendi geografia ao explorar
As formas generosas de Ana Maria
Com ela conheci o amor
Este irresponsável sentimento
Que machuca e causa sangramento
Sem que nos demos conta de nosso corpo
Cada vez mais marcado
Por unhas e dentes de um passado
Perdido no tempo.

Ao final do túnel

Sempre no mesmo ponto
Lá estava a velha na saída dos carros
Lá estava a velha no final do túnel
Nada pedia apenas sentada ficava
À espera dos carros que saíam
Às vezes paravam e davam algo
À velha que estava no final do túnel
Recebia com suas mãos crispadas
Um resto de pão
Um pouco de moedas
Um pouco de amor
De uma multidão desconhecida
Que por instantes viviam
A vida solitária
Da velha no final do túnel
Havia no final do túnel uma luz?
Não
Era apenas a velha
Que não incomodava
Que não atrapalhava
Nem vendia doces
Nem amendoim torrado
Nada vendia
Apenas a sua imagem
De velha no final do túnel
Ainda que fizesse frio
De lá ela não saía
Como uma estátua de mármore
Permanecia sentada e nada pedia
Mas quem a via dava
Qualquer coisa
Coisa alguma
Lá estava a velha no final do túnel.
Quem a viu jamais deixou de dar
Quem a viu nunca mais se esqueceu
De uma solidão profunda na profusão
De carros saindo ligeiro.

Um vento passageiro

O tempo passou
O tempo da escola passou
Os amigos passaram
Passaram passarinhos
Um gato preto passou
Repentino o vento passageiro
De passagem passou a vida
A vida inteira passada
Num piscar
Num bater de asas
De uma mariposa moribunda
Também passou ligeiro
Minha juventude sonhadora
Meus sonhos passaram
Nem sonhos tenho mais
Esqueci de viver
Só me resta o consolo
Desta dor nas costas
Que mais forte se torna
Nas tardes frias e angustiantes
Dos tempos do agora.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O amor de ontem

Uma possibilidade é sempre
Uma possibilidade de acontecer
Pode ser um encontro de olhos
Rápidos e fugazes
Como uma fumaça em desalinho
Rodopiando numa dança inventada
Exatamente naquele instante
Para nunca mais se repetir
Uma tacada de sorte
Para nunca mais se repetir
Um beijo dado no momento certo
Para nunca mais se repetir
Somente repetimos a esperança
De que o amor possa se repetir
E morremos de saudades
Dos amores passados
Que ficaram no passado
Mas continuam assombrando
E arranhando com suas unhas
De esmalte rubro e metálico
O presente que também passou.
Por isso a vida é um eterno
Passado passageiro e sonhado.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os demônios friorentos

Nada mais triste do que
O frio que endurece os membros
Até mesmo os demônios sentem
O frio
Que nos viadutos procuram calor
Numa fogueira improvisada
Numa bebida improvisada
Mas não consegue conter
A onda de frio
O frio das pessoas
Que não moram nas ruas.
O frio das pessoas
Que não tem olhos
Para os demônios da rua.

Visão indiscreta

Pelas vilas da zona norte
Os varais estendem
As mais coloridas vestes
De cima e de baixo
Vermelhas e azuis
Sem nenhum pudor.
Toda e qualquer intimidade
Pode ser vista
Repartida pelos olhos
Curiosos do turista
Ocasional.

Abaixo do viaduto

Num ponto da esquina
Num ponto abaixo do viaduto
Um mendigo habita a rua
Um mendigo e o seu cão
Repartem o mesmo espaço
Espaço de jornal e papelão
Faça frio
Faça chuva
Faça ventania
Nunca se separam
Um mendigo e o seu cão.

Ausência fria

Por baixo da mesa meus
Pés procuram pelos seus
Mas nada encontram
Senão uma ausência
De qualquer calor.

Escrevo porque sou um desesperado...

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui.

LISPECTOR. Clarice, A hora da estrela, Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1993, p.32

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Alice viva

Um filme antigo assistia
Ou era o filme que me assistia
Todos os dias no cine da vila
Fazia calor naqueles dias
Em que pela primeira vez
Via Alice no país das maravilhas
Com Alice viajei fundo em meus sonhos
Foi ela minha primeira companhia
Depois dela outras vieram
Mas ainda viajo na companhia
De Alice sempre viva.

domingo, 30 de maio de 2010

Cai a temperatura

Quando a cidade começa
A forrar-se de folhas secas
Uma onda fria passeia
Procurando a próxima vítima
Um mendigo pode ser
Um louco perdido pelas ruas
Pode ser
Até pode esfriar
O calor que ainda no corpo
Ainda não desapareceu
O pouco de calor
Que anima
Esta alma desanimada
Que solitário
Caminha.

El arco y la lira

La poesía es conocimiento, salvación, poder, abandono. Operación capaz de cambiar al mundo, la actividad poética es revolucionária por naturaleza; ejercício espiritual, es un método de liberación interior. La poesía revela este mundo; crea otro. Pan de los elegidos; alimento maldito. Aísla; une. Invitación al viaje; regreso a la tierra natal. Inspiración, respiración, ejercício muscular. Plegaria al vacío, diálogo con la ausência: el tédio, la angustia y la desesperación la alimentan. Oración, letanía, epifania, presencia. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimación, compensación, condensación del inconsciente. Expressión histórica de razas, naciones, clases. Niega la historia: en su seno se resuelven todos los conflictos objetivos y el hombre adquiere al fin conciencia de ser algo más que tránsito. Experiencia, sentimiento, emoción, intuición, pensamiento no-dirigido. Hija del azar; fruto del cálculo. Arte de hablar en una forma superior; lenguaje primitivo. Obediencia a las reglas; creación de otras. Imitación de los antiguos, copia de lo real, copia de una copia de la idea. Locura, éxtasis, logos. Regreso a la infância, coito, nostalgia del paraíso, del infierno, del limbo.

PAZ. Octavio, El arco y la lyra, México, Fondo de Cultura Econômica, 2003. (p.13)

Uma margarida à Margarida

Ao despetalar
Da margarida
Arranco uma pétala
Arranco outra
Bem me quer
Mal me quer
Bem me quer
Como que a vida fosse
Uma flor de margarida.

Comecemos novamente
Bem me quer...
Mal me...
De tanto tentar
As pétalas acabaram.

Sobe e desce da gangorra

Ao brincar de gangorra
O menino e a menina
Lá encima o menino
Lá encima a menina
Lá embaixo o menino
Lá embaixo a menina
Uma vez que sobe
Uma vez que desce
Desce e sobe
Sobe e desce
O menino e a menina
Sobe um avião
Desce um avião
No sobe e desde
Desta vida incerta
Que sobe e desce
Que desce e sobe
Oscila também
A temperatura do humor
A temperatura do amor
O que antes subia
Logo depois
O que antes descia
Subia e descia
Descia e subia
Sem nunca deixar
De oscilar
Quem está encima desce
Quem está embaixo sobe
Ninguém fica totalmente
Por cima.
Ninguém fica totalmente
Por baixo.
Quem está embaixo
Prepara-se para subir
E como a subida é agradável
Quem está encima
Prepara-se para descer
E como a descida é agradável
Um escorregador somente desce
E desce profundamente
Deslizando profundamente
E entrando fundo
Em nossa existência
Mais profunda.

O entregador de gás

Lá naquela casa uma mulher
De quarenta
De cinqüenta
Também espera o homem do gás
Subindo a ladeira
Acima sempre acima
Sem se cansar um botijão de gás
Para alegrar os corações
Para esquentar a janta
Antes fria
Antes sem janta alguma
Sem nenhum entregador
Sem gás
Sem amor algum
Sem mulher alguma
Nem mesmo sem a esperança
Que um dia chegasse
De surdina
Tocando buzina
O entregador de gás.

Subindo a ladeira
Acima sempre acima...

um dezenho

Praça Patriarca, São Paulo


sábado, 29 de maio de 2010

Um poço profundo

Havia no fundo da casa
Um poço profundo sem fundo
Que passasse um raio de luz
Que tudo que nele caia seria
Engolido inteiro pelo desconhecido
Nada sabia o que realmente havia
Lá no fundo do poço
Talvez houvesse a mulher que amava demais
Como demais fosse possível amar
Talvez houvesse o homem cujo amor foi demais
E sucumbiu na própria loucura do ato
De amar desesperado.
Quem nunca mergulhou
No fundo do poço ainda não viveu
O mais profundo das emoções vividas
O beijo gelado da morte
Daquela mulher que sempre nos espreita
Seduzindo-nos com seu corpo de sereia.
Entregando-nos a este amor
Morremos a cada instante
De calor que afasta qualquer
Pressentimento.

O pântano de nossa realidade

Esta febre repentina
Traz o vapor dos pântanos
Num caldeirão de lamentações
Em que as bruxas lançam dentro
Tufões e lagartixas
Maldizendo esta vida de vadiagem.
Nas esquinas de alta boemia
Que de madrugada o amor é cinza
Vendido por preços módicos
Aos transeuntes solitários
Paralíticos em suas cadeiras mecânicas
Velhos desesperados pelas mulheres
Que envelheceram e não satisfazem mais.
De madrugada os cães sem raça
Saem à procura de não sei quem mais
Nada mais encontram
E retornam cabisbaixos e envergonhados
De um cio que não foi sanado.
Mas quando a manhã chega
Os vapores se dissipam
Ao corte de um vento soprado
Para que todos possam acordar
De seus sonos
Muito mais reais do que
A realidade irreal dos olhos
Esbugalhados e acesos
Dos camaleões.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O amor que não acontece

Um pedaço de parede
Seria suficiente para
Rabiscar uma declaração não dita
Maldita seriam as palavras
Postas nas frinchas de cal
Borradas de tristeza e emoção
De uma cidade que anoitece
De uma população que se perde
Pelas trilhas férreas da desilusão
O amor que não acontece
Na contração dos vagões
Que rápidos passam
Diante dos olhos
Diante do corpo que esmorece
O amor que não acontece
Por falta de tempo
Que sem importância alguma
Fica em segundo
Em terceiro fica
Pois a vida passa
E alguns não viveram
Um tempo que o amor
Tinha importância
A vida passa em instantes
O amor que não acontece.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Na irresponsabilidade lírica

Pelos olhos frios e distantes
Que pode esconder os sentimentos
Mais profundos
Não esmorecem diante
Do maior encantamento
Pode ser por vaidade
Pode ser por covardia
Pode ser pelo medo de se ver
Sucumbido diante da própria
Fraqueza de admitir a fraqueza
Da condição humana.

Este homem descontrolado
Que ama e se perde na bebedeira
Das garrafas de perfume
Morre a cada minuto no desencantamento
Dos livros de poesia
Cada vez mais deixados de lado
Totalmente empoeirados
Sem que ninguém mais os leia.

Amar o errado é viver a poesia
Presente nas vias tortas
Dos labirintos minotauricos
Em que a morte é certeira.
Uma vez que morre
Pode-se viver na eternidade
Num poema ainda a ser escrito
Esperança que nunca se vai
No ralo da desesperança
Uma oração em que nada se pede
Tudo se perde na infinita vontade
De ser levado pelas cantigas
Das bruxas de Circe
E ser devorado por todas elas.

Toda ordem é destruída
Instalada a desordem que se arruma
Como verso improvisado.

Telefone público


terça-feira, 25 de maio de 2010

Perdidos numa rua sem fim

Certa vez me perdi
Foi numa feira
Todos passavam por mim
Mas ninguém me notava
Olhava para cima e via
Todas as cabeças que por mim
Passavam
Mas ninguém se importava
Era baixo demais
Quase a tropeçar em suas pernas
Era quase invisível
Naquela massa de gente
E o céu azul tinindo quase ao alcance
De minha mão
Ainda hoje me perco
Na multidão como antes
Sem que ninguém se importe
Quase despercebido
Se não pisasse
No rabo de um cão.

Ainda hoje me perco
Nas linhas mal traçadas
De um destino que não existe
De um romance inacabado
De uma página carcomida
Pelo tempo amarelecido.

Ainda hoje me perco
Nas lições mais elementares
Da química orgânica
Na explosão dos elementos
Pela reação desencadeada
Pelos contrários.

Ainda hoje me perco
No labirinto das emoções
Errando em cada uma delas
Sem que nunca aprenda
Que emoção alguma
Ainda
Valha a pena.

Galeria Prestes Maia, São Paulo


Foto: Bruno Mitih

La tormenta

En la cerrazón de la tormenta
solo veía tus espaldas como sombra
en el centro de la pequeña canoa.
Sabía que te protegia de la lluvia
una vieja capucha azul.
El aburrido ruído del motor
no nos alejaba del inmenso hervidero
en que se había convertido el lago.
La tormenta
nos había puesto en la mano de un dios enfurecido.

Pero casi estábamos dichosos cuando un relâmpago
iluminó los grande árboles de la orilla del lago
y vimos ramas de oro y plata instantâneos.
Entonces volteaste y alargaste tu mano hacia mí:
también te dio miedo la súbita oferta de fulgurar
y desaparecer.

José Watanabe, Banderas detrás de la niebla, Lima, Edicciones Peusa, 2006.

A vida passa fora da janela

Por detrás das cortinas de seda
Artificial mora uma velha senhora
Quem passa de fora não a vê
Mas de dentro tudo vê
E na tarde sonolenta
Quando a cidade dorme
Lá está a velha senhora
Na janela a ver a cidade inteira
Passa João
Passa Maria
Passa o guarda municipal
Passa também a vida passageira
Uma boiada inteira
Uma tristeza passageira
Uma banda tocando
Uma sonata militar
E uma rajada de rojão
Quebra o silêncio sorrateiro
Para a festa de são joão

Por detrás das cortinas de seda
Artificial mora uma velha senhora
Já velha de tanto ver
Sorri com sua boca banguela
À espera do dia passar
Um dia desses também
A velha senhora vai embora
E todos os seus segredos
Seus amores
Desamores
Desta vida sem humor algum
Todos os seus segredos
Da vida de todos desta
Cidade inteira.

Um dia de folia

Minhas calças rasgadas
Continuo a usar
Um remendo bem largo
Sem negar sua utilidade
Com o tempo ficaram rotas
Com o tempo também
As rugas surgiram do nada
Numa trama intrincada
Da própria vida
Impregnada de poeira
Dos tempos passados
Ainda que lave a cara
Nenhuma cara nova surge
Nenhuma calça nova surge
Nenhum homem novo surge
Negar a sujidade
Como podemos se na vida
Sujamos a alma constantemente
Com o veneno do amor
Que destrói o corpo
E consome a alma
Cada vez que sente
Sem senti-la como seria
Se na vida inteira somos
O amor não realizado
Por isso podemos apenas
Contemplar o desfile das emoções
Num carnaval veneziano
E assistir a beleza dos movimentos
Do pierrot e da colombina
Cujo encontro se deu apenas
Em um dia.

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
il faut oublier
tout peut s’oblier
qui s’enfuit déjà
Oblier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le couer du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t’offrirai
Des perles le pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai le terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai um domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour será loi
Où tu será reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te recontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feau
D’un ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quant vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je ne cacherai lá
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A dor do amor que se foi

Uma dor desconhecida
Destas sem motivo algum
Que fere o coração do homem
Não é apenas de tristeza
Mas de desolação
Que se esconde por trás
Da frágil couraça de aço
Que se quebra em instantes
Esfacelando-se no chão
Quando não se tem motivos
Diria assim mesmo
Pode ser força de expressão
Pode ser uma sutil negação
De sua própria fraqueza
Ainda que não tenha motivos
Aparentes
Mais profundo motivaria
Razões totalmente irracionais
Que não podem ser tocadas
Nem entendidas
Nem ditas
Nem faladas
Se assim for a medida
Das contradições.
Nada pode ser feito
Senão viver a melancolia
De viver sem razão

Vivemos sem razão
Apenas por viver
Um momento fugaz
Do amor que se foi.

domingo, 23 de maio de 2010

Colecionador de figurinhas

Apesar de ter sido escoteiro
Nunca fui muito bom
Nem em matemática
Nem gramática
Acabei me perdendo nesta vida
Perdi a hora do tempo
E minhas sobrancelhas
Embranqueceram
Perdi também amores
A última a mais dolorida
Perdi a vontade de viver
Mas por teimosia
Coleciono figurinhas
Como um grande idiota
Todos riem dele
Todos zombam dele
Mas nada disso importa

Ladrão da memória

Havia na memória de
Minha infância ladrões
De criança
Seu saco enorme nas costas
Carregava não sei o que
Um dia carregou meu irmão
Deixei de brincar de esconder
E perdi a minha infância
Mas agora crescido
Novamente me vem
O mesmo ladrão
Sorrateiramente vem
E tenta roubar
Por pouco roubar
Meus sonhos de adulto
Meus sonhos de criança
Maria Lúcia
Minha última namorada

Maria Lúcia era a filha
Da empregada
Maria Lúcia era a mulher
Da empresa falida
Que queria apenas
Namorar!

sábado, 22 de maio de 2010

Hiato

vinha compondo um poema todo de silêncios
uns breves, outros longos,
dispostos na extensão da respiração
alguns deles rimaram
outros fizeram doer o coração
empreendi esforços consideráveis
procurando por alguns
que expressassem exatamente
o que se queria dizer naquele instante
há silêncios de todos os tipos
forçados, pedidos, rogados, conformados, submissos, envergonhados, sem fôlego
é difícil, por isso, achar o tom correto
de repente uma fechada trouxe-me de volta ao mundo dos sons
o pneu da bicicleta derrapou no asfalto
a buzina do Terminal Pirituba soou no meu cangote
e o mundo se reestabeleceu
em agradável sinfonia

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Guerra das palavras

Ainda que me entenda
Por palavras
Nenhuma palavra se basta
Para expressar uma parte que fosse
Daquilo que poderia expressar.
Por isso tentamos
Fracassando tentamos
Mais uma vez tentamos
Sem sucesso expressar.
Assim feito calamos
E neste vazio quem sabe
As palavras não mais importam
Nem mesmo a expressão
Nem uma cor mais exuberante
Apenas das sombras sabemos
E da lua quem sabe
Nada sabemos
Por isso não falamos da lua
Nem do orvalho não sentido
Apenas do frio que congela
Os ossos e a pele pálida
Metálica é o corpo dos
Soldadinhos que brincam
De guerra contra as bonecas
De cara de louça pintada.
Que me importa as bonecas
São apenas palavras
Nada mais me importa.

Pelas penumbras das esquinas

Os cães ladram na madrugada
Perdidos que estão sem direção alguma
Confusos de seus destinos caninos
Ladram para a lua crescente
Ladram para toda a gente
Como que ladrar fosse importante
Em suas vidas de cão.
E errantes como os homens
Vagam pela noite adentro
Invadindo as esquinas de todo
Ressentimento.
Pois quando chega a penumbra
Uma multidão de desconhecidos
Mudos e paralíticos podem
Expressar seus sentimentos.
Alguns são cegos que enxergam
São mudos que podem falar
E sua fala truncada revela
Uma verdade que se fala
Em voz pausada
Quase um sussurro
Que a vontade de viver
É a vontade de morrer
Em pleno distanciamento.
Nada pode ser mais belo
Do que a solidão sentida
No abandono das lembranças
De um amor passado
Que não passa mais
Do que um fantasma.
Fantasias de uma festa
Sem colombina.

As duas mulheres da estação

Acima dos fios de alta tensão
Acima de onde podemos visualizar
Lá acima do prédio acima vive
Uma mulher esquizofrênica.
O marido a deixou
Não queria adoecer
Os parentes a deixaram
Não queriam compromissos
Sua única companhia era
A mãe sofredora de degeneração
Uma cuidava da outra
Esperando o trem passar.
Todos os dias às quinze
Impecavelmente naquele horário
Sem atrasos o trem passava
Sacolejando aos trancos
Transportando bois
Uma boiada inteira
Até que veio a recessão
Veio a depressão
O trem parou de passar
O que restava então
Às duas mulheres
Que sempre às quinze
Podiam ver
O trem passar.
Nem mais esta alegria tiveram
A mulher esquizofrênica
Outra em degeneração.

Mentiras do cotidiano

Quantas mentiras contamos
Em nossa pobre existência
Mentimos para o outro
Descaradamente mentimos
Para nós mesmos
Seja por vaidade
Seja por elucubração
Seja para parecer melhor
Mais forte e genial
Mentimos mais ainda
Quando negamos nossas fraquezas
Em admitir que amamos
O amor impossível
Dos romances trágicos
Do simples cotidiano
Dos encontros
Dos desencontros
Das almas afins.
Negamos por egoísmo
Simplesmente negamos
E mentimos novamente.

Nada mais busco

Que pode ser eficaz
Para curar dor no estômago
Se nenhuma medicina é capaz
De curar os males do espírito
Desta falta de ar
Desta melancolia
Sem motivo aparente
Todos os motivos do mundo
Juntos não seriam suficientes
Para preencher o vazio
De uma vida sem razão.
Meus sonhos se esvaíram
No ralo fundo da existência
Sem sonho algum
Fingindo inocência
Busco no quarto escuro
A luz que me aquece
O fogo que purifica
E no silêncio mil vozes
Ecoando em tamanha quietude
Como as cigarras
Explodindo os pulmões
De tanto cantar
Canto triste
De um cancioneiro popular.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Frio que mata e morre

Quando os tempos mais frios
Visitam-me um pouquinho
Meu amigo reumatismo
Nunca me deixa sozinho.
Dores que não sentia antes
Aquelas que arranham a alma
Felinamente chegam devagar
Se instalam como sua casa
Para não sair mais.

Dentroufora

Cores vetustas
Astutas, ágeis dores
Medos incidentais.
Sento, sinto
Respirando imóvel...
(observo impassível,
viajante olhando a janela)
Não mais imóvel que os móveis
A mosca pousa na mão,
No chão, na testa...
Esfrega as patas em clima de festa
(sou sapo, imóvel te observo -
gato e rato)
Mas sapo não é gato,
isso é fato
então não te mato.
Sou pedra, quadro,
Sou estátua de Buda.
Nada...
Sou?
É como é.
(aranha apanha a mosca)
Sou a panela que ferve:
Fora imóvel, mas fervente
Por dentro, água quente
fervente
Dentro e fora,
Dentroufora...
Plim... plim... plim...
Vou embora.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Os jogadores velhos

Toda vez que por lá passava
Velhos aposentados jogavam
Xadrez.
Toda vez que por lá passava
Meninos que matavam aulas
Jogavam dados.
A vida passava
Velhos passageiros
De um tempo passado
Passaram por um triz
Nada deixou de sagrado
Senão um rastro
De lamentações.

Que vida mais urgente
Tem pela frente
Meninos que matam aulas.
Que vida mais rápida
Passaram os velhos aposentados
Que jogavam xadrez.

Será que um dia
Meninos que matam aulas
Aprenderão a
Jogar xadrez?

Somente os que sabem
Sabem jogar
O jogo da vida
O xadrez da vida
Simplesmente
Xadrez!

Indiferente caminha

O frio que sinto na pele
Também fere a pele da alma
Que antes quente
Esfriou-se por inteira
Que não sente mais
O que antes sentia
Indiferente caminha
Caminhos de pedra
Caminhos tortuosos
Sem mais nada querer
Uma dália a fenecer
Diante da terrível nevasca
Do inverno que está
Por chegar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Abandono

Onde quer que vá
São os meus chinelos
Que me seguem
Desconsolados do abandono
Um pé para cá
Outro para lá
Onde quer que vá
São os meus chinelos
Que me seguem...
Onde quer que vá
São os seus olhos
Que me seguem.
Perdidos nas esquinas
Dos desencontros.
Ainda que estejas
Diante de mim
Mais distante fica
De minha vida
Como que a minha vida
Separada ficasse
De tua vida.
Toda tristeza sentida
Não cabe mais
Num coração só
Se pudesse reparti-la
Repartiria também
O que resta do amor
Que um dia sentia.

domingo, 16 de maio de 2010

As mil máscaras

Numa caixa de papelão
Guardo as mil faces
De um teatro de máscaras
Que uso em cada ocasião
Sou alegre
Sou triste
Lacônico
Sou falante
Sou gramofone
Sou ignorante
Sou a cara do mundo.

Um dia resolvi
Tirar todas as máscaras
E ver a minha cara
Tinha todas as caras
Tinha todas as máscaras
De minha existência.

Não necessitei mais
De máscara alguma
Minha cara se moldava
A todas as máscaras.

Nem mais sei quem sou
Nem mais sei quem fui
Aquilo que fui um dia
Nem sei mais
Se era máscara
Se era outra coisa!
Dúvida que distorce
Ainda mais
Minha cara
Minha máscara.

Se triste amor de outrora

Nada mais lembra
Em sua face que antes
Faceira era
Nenhuma imagem
Remota que seja
Me lembra mais
Do amor que se fora
Que antes animada
Desanimada ficou
Perdeu total sentido
Caiu e se quebrou!

Cidade dos solitários

Muitos são os solitários que
Perambulam sem rumo algum
Perdidos nesta grande cidade.
Muitos são os solitários que
Ainda não encontraram sentido
Algum que seja para suas vidas
Nesta imensa cidade.
Muitos são os solitários que
Vivem nesta cidade
Alguns vivem ainda
Outros não vivem não
Solitários desta cidade.
Numa multidão de caras
Desconhecidas e imerecidas
De toda atenção
E assim vão envelhecendo
Sem amigos
Alguns amigos de poucos
Horas
Pois amizade não é preciso
Nem preciso é falar de nossas
Angústias
Pequenas carências
Que a ninguém interessa
Senão ao próprio que sente
Sinais de carência
Como que carência fosse
Algo proibido
De falar
De sentir
Como que sentir fosse
Algo proibido
Se solitário fosse
Apenas uma palavra
Uma palavra que fosse
Descartada de todo
Vocabulário nacional
Internacional da linguagem
E carente de palavras
De significado das palavras
Solidão que carece
Da própria solidão
Como palavra
Cidade de imensa
Solidão...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Voto de silêncio

Quando muito se fala
Muito pouco se entende
Se entender fosse possível
Uma fala sincera que fosse
Melhor do que qualquer fala
É não falar coisa alguma
Sem criar constrangimento
Numa fala errada
Numa fala carregada de
Sentimentos opostos
Para quem ouve
Ouve somente o que quer
Pode ouvir o que não disse
Pode ser outra coisa
Totalmente outra
Daquele que se falou.


Em momentos de dúvida
Sem dúvida alguma
Silenciosamente se cale.
Toda dúvida se esvai
Nem toda certeza vem
Ainda bem que deve
Ser assim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Em lugar algum

Certa vez quis de vez
Ir-me embora de vez
Para a Península de Kanchatka
Primeira vez que ouvi falar
Dela era com ela que queria ir
Por muito tempo me esqueci
Nem mais ouvi falar dela
E Kanchatka se tornou uma
Fagulha do passado.
Mas agora que ela se foi
Kanchatka retorna mais uma vez
E uma vontade de ir
Ir-me embora de vez
Sinto apaziguar meu coração
Nada mais me prende aqui
Solitário viajante
Que errante caminha
Quem conduz são as sandálias
Rotas e estropiadas
Uma bengala para se apoiar
Um caderno de notas
Um livro de Baudelaire
Sebento no braço.

Que vontade de me ir
Ir-me embora de vez
Para a Península de Kanchatka.

Amor que não acontecia

Maria Lúcia lia
Livros de poesia
Mas um dia conheceu
Toninho Paixão
Com que se apaixonou
Também Paixão
Por Maria Lúcia
Se apaixonou.
Foi por amor que
Maria Lúcia deixou
De ler poesia
Deixou de viver
Sua vida
Deixou tudo por amor
A Toninho Paixão
Mas um dia se foi
A Paixão se foi
Sorrateiramente
Se foi como chegou
Sorrateiramente
Se foi
Pois amor
Somente existe
Nos livros de poesia
Não no mundo
Somente existe
Em nossas esperanças
Mas a vida é construída
Na desesperança
E nos negócios lucrativos
Amor somente existe
Nos livros de poesia
Apenas neles
Apenas neles
Se amor existisse
Fora deles
Não seria amor
Pois amor somente
Rima com poesia
Não rima com vida
Que impura vida
Amor algum existe.

domingo, 9 de maio de 2010

Amor do tempo passado

Quantas vezes te encontrei
Quantas vezes te amei
E ainda assim não te
Conhecia
Desconhecida era
Senhora do tempo passado
Cujos rastros deixados
Foram-se de uma vez
Nunca foram deixados
Nem no tempo
Nem no espaço
De uma existência
Efêmera
Sem importância alguma.

Que me importa a simpatia
Pelo seu rosto que reluz
Tão próximo de alguém
Que conhecia
Pensava apenas
Que conhecia
Mas não passava de
Um sonho
Um sonho que ainda
Sonhava esperanças
De um sonho possível.

Todo conhecimento
Algo impossível
Pois conhecimento não há
Daquilo que é tão somente
Sombra.

Todo amor é uma sombra
Em dias de sol
Em dias de chuva
Todo amor é pouco
De pouco acabou desaparecendo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Imagem de pedra

Acima do morro apenas
Contemplava
Seus olhos finos e miúdos
Contemplavam
Em silêncio profundo
Nada dizia
Nada pensava
Nem discriminava
Enquanto os homens
Homens e mulheres
Carregando lanças e escudos
Se lançavam em derradeira
Luta
Em defesa de suas idéias
Lutava-se por idéias
Matavam e morriam
Por idéias
Certas para quem
As defendiam
Idéias apaixonadas
Vermelhas e verdes
Até que o chão se
Manchasse do suco
Da beterraba.
Acima do morro apenas
Contemplava...
Um Buda de pedra
Contemplava...

O que tem a nos ensinar
Um Buda de pedra
Um Buda que apenas
Contemplava.