Havia no fundo da casa
Um poço profundo sem fundo
Que passasse um raio de luz
Que tudo que nele caia seria
Engolido inteiro pelo desconhecido
Nada sabia o que realmente havia
Lá no fundo do poço
Talvez houvesse a mulher que amava demais
Como demais fosse possível amar
Talvez houvesse o homem cujo amor foi demais
E sucumbiu na própria loucura do ato
De amar desesperado.
Quem nunca mergulhou
No fundo do poço ainda não viveu
O mais profundo das emoções vividas
O beijo gelado da morte
Daquela mulher que sempre nos espreita
Seduzindo-nos com seu corpo de sereia.
Entregando-nos a este amor
Morremos a cada instante
De calor que afasta qualquer
Pressentimento.
sábado, 29 de maio de 2010
O pântano de nossa realidade
Esta febre repentina
Traz o vapor dos pântanos
Num caldeirão de lamentações
Em que as bruxas lançam dentro
Tufões e lagartixas
Maldizendo esta vida de vadiagem.
Nas esquinas de alta boemia
Que de madrugada o amor é cinza
Vendido por preços módicos
Aos transeuntes solitários
Paralíticos em suas cadeiras mecânicas
Velhos desesperados pelas mulheres
Que envelheceram e não satisfazem mais.
De madrugada os cães sem raça
Saem à procura de não sei quem mais
Nada mais encontram
E retornam cabisbaixos e envergonhados
De um cio que não foi sanado.
Mas quando a manhã chega
Os vapores se dissipam
Ao corte de um vento soprado
Para que todos possam acordar
De seus sonos
Muito mais reais do que
A realidade irreal dos olhos
Esbugalhados e acesos
Dos camaleões.
Traz o vapor dos pântanos
Num caldeirão de lamentações
Em que as bruxas lançam dentro
Tufões e lagartixas
Maldizendo esta vida de vadiagem.
Nas esquinas de alta boemia
Que de madrugada o amor é cinza
Vendido por preços módicos
Aos transeuntes solitários
Paralíticos em suas cadeiras mecânicas
Velhos desesperados pelas mulheres
Que envelheceram e não satisfazem mais.
De madrugada os cães sem raça
Saem à procura de não sei quem mais
Nada mais encontram
E retornam cabisbaixos e envergonhados
De um cio que não foi sanado.
Mas quando a manhã chega
Os vapores se dissipam
Ao corte de um vento soprado
Para que todos possam acordar
De seus sonos
Muito mais reais do que
A realidade irreal dos olhos
Esbugalhados e acesos
Dos camaleões.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
O amor que não acontece
Um pedaço de parede
Seria suficiente para
Rabiscar uma declaração não dita
Maldita seriam as palavras
Postas nas frinchas de cal
Borradas de tristeza e emoção
De uma cidade que anoitece
De uma população que se perde
Pelas trilhas férreas da desilusão
O amor que não acontece
Na contração dos vagões
Que rápidos passam
Diante dos olhos
Diante do corpo que esmorece
O amor que não acontece
Por falta de tempo
Que sem importância alguma
Fica em segundo
Em terceiro fica
Pois a vida passa
E alguns não viveram
Um tempo que o amor
Tinha importância
A vida passa em instantes
O amor que não acontece.
Seria suficiente para
Rabiscar uma declaração não dita
Maldita seriam as palavras
Postas nas frinchas de cal
Borradas de tristeza e emoção
De uma cidade que anoitece
De uma população que se perde
Pelas trilhas férreas da desilusão
O amor que não acontece
Na contração dos vagões
Que rápidos passam
Diante dos olhos
Diante do corpo que esmorece
O amor que não acontece
Por falta de tempo
Que sem importância alguma
Fica em segundo
Em terceiro fica
Pois a vida passa
E alguns não viveram
Um tempo que o amor
Tinha importância
A vida passa em instantes
O amor que não acontece.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Na irresponsabilidade lírica
Pelos olhos frios e distantes
Que pode esconder os sentimentos
Mais profundos
Não esmorecem diante
Do maior encantamento
Pode ser por vaidade
Pode ser por covardia
Pode ser pelo medo de se ver
Sucumbido diante da própria
Fraqueza de admitir a fraqueza
Da condição humana.
Este homem descontrolado
Que ama e se perde na bebedeira
Das garrafas de perfume
Morre a cada minuto no desencantamento
Dos livros de poesia
Cada vez mais deixados de lado
Totalmente empoeirados
Sem que ninguém mais os leia.
Amar o errado é viver a poesia
Presente nas vias tortas
Dos labirintos minotauricos
Em que a morte é certeira.
Uma vez que morre
Pode-se viver na eternidade
Num poema ainda a ser escrito
Esperança que nunca se vai
No ralo da desesperança
Uma oração em que nada se pede
Tudo se perde na infinita vontade
De ser levado pelas cantigas
Das bruxas de Circe
E ser devorado por todas elas.
Toda ordem é destruída
Instalada a desordem que se arruma
Como verso improvisado.
Que pode esconder os sentimentos
Mais profundos
Não esmorecem diante
Do maior encantamento
Pode ser por vaidade
Pode ser por covardia
Pode ser pelo medo de se ver
Sucumbido diante da própria
Fraqueza de admitir a fraqueza
Da condição humana.
Este homem descontrolado
Que ama e se perde na bebedeira
Das garrafas de perfume
Morre a cada minuto no desencantamento
Dos livros de poesia
Cada vez mais deixados de lado
Totalmente empoeirados
Sem que ninguém mais os leia.
Amar o errado é viver a poesia
Presente nas vias tortas
Dos labirintos minotauricos
Em que a morte é certeira.
Uma vez que morre
Pode-se viver na eternidade
Num poema ainda a ser escrito
Esperança que nunca se vai
No ralo da desesperança
Uma oração em que nada se pede
Tudo se perde na infinita vontade
De ser levado pelas cantigas
Das bruxas de Circe
E ser devorado por todas elas.
Toda ordem é destruída
Instalada a desordem que se arruma
Como verso improvisado.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Perdidos numa rua sem fim
Certa vez me perdi
Foi numa feira
Todos passavam por mim
Mas ninguém me notava
Olhava para cima e via
Todas as cabeças que por mim
Passavam
Mas ninguém se importava
Era baixo demais
Quase a tropeçar em suas pernas
Era quase invisível
Naquela massa de gente
E o céu azul tinindo quase ao alcance
De minha mão
Ainda hoje me perco
Na multidão como antes
Sem que ninguém se importe
Quase despercebido
Se não pisasse
No rabo de um cão.
Ainda hoje me perco
Nas linhas mal traçadas
De um destino que não existe
De um romance inacabado
De uma página carcomida
Pelo tempo amarelecido.
Ainda hoje me perco
Nas lições mais elementares
Da química orgânica
Na explosão dos elementos
Pela reação desencadeada
Pelos contrários.
Ainda hoje me perco
No labirinto das emoções
Errando em cada uma delas
Sem que nunca aprenda
Que emoção alguma
Ainda
Valha a pena.
Foi numa feira
Todos passavam por mim
Mas ninguém me notava
Olhava para cima e via
Todas as cabeças que por mim
Passavam
Mas ninguém se importava
Era baixo demais
Quase a tropeçar em suas pernas
Era quase invisível
Naquela massa de gente
E o céu azul tinindo quase ao alcance
De minha mão
Ainda hoje me perco
Na multidão como antes
Sem que ninguém se importe
Quase despercebido
Se não pisasse
No rabo de um cão.
Ainda hoje me perco
Nas linhas mal traçadas
De um destino que não existe
De um romance inacabado
De uma página carcomida
Pelo tempo amarelecido.
Ainda hoje me perco
Nas lições mais elementares
Da química orgânica
Na explosão dos elementos
Pela reação desencadeada
Pelos contrários.
Ainda hoje me perco
No labirinto das emoções
Errando em cada uma delas
Sem que nunca aprenda
Que emoção alguma
Ainda
Valha a pena.
La tormenta
En la cerrazón de la tormenta
solo veía tus espaldas como sombra
en el centro de la pequeña canoa.
Sabía que te protegia de la lluvia
una vieja capucha azul.
El aburrido ruído del motor
no nos alejaba del inmenso hervidero
en que se había convertido el lago.
La tormenta
nos había puesto en la mano de un dios enfurecido.
Pero casi estábamos dichosos cuando un relâmpago
iluminó los grande árboles de la orilla del lago
y vimos ramas de oro y plata instantâneos.
Entonces volteaste y alargaste tu mano hacia mí:
también te dio miedo la súbita oferta de fulgurar
y desaparecer.
José Watanabe, Banderas detrás de la niebla, Lima, Edicciones Peusa, 2006.
solo veía tus espaldas como sombra
en el centro de la pequeña canoa.
Sabía que te protegia de la lluvia
una vieja capucha azul.
El aburrido ruído del motor
no nos alejaba del inmenso hervidero
en que se había convertido el lago.
La tormenta
nos había puesto en la mano de un dios enfurecido.
Pero casi estábamos dichosos cuando un relâmpago
iluminó los grande árboles de la orilla del lago
y vimos ramas de oro y plata instantâneos.
Entonces volteaste y alargaste tu mano hacia mí:
también te dio miedo la súbita oferta de fulgurar
y desaparecer.
José Watanabe, Banderas detrás de la niebla, Lima, Edicciones Peusa, 2006.
A vida passa fora da janela
Por detrás das cortinas de seda
Artificial mora uma velha senhora
Quem passa de fora não a vê
Mas de dentro tudo vê
E na tarde sonolenta
Quando a cidade dorme
Lá está a velha senhora
Na janela a ver a cidade inteira
Passa João
Passa Maria
Passa o guarda municipal
Passa também a vida passageira
Uma boiada inteira
Uma tristeza passageira
Uma banda tocando
Uma sonata militar
E uma rajada de rojão
Quebra o silêncio sorrateiro
Para a festa de são joão
Por detrás das cortinas de seda
Artificial mora uma velha senhora
Já velha de tanto ver
Sorri com sua boca banguela
À espera do dia passar
Um dia desses também
A velha senhora vai embora
E todos os seus segredos
Seus amores
Desamores
Desta vida sem humor algum
Todos os seus segredos
Da vida de todos desta
Cidade inteira.
Artificial mora uma velha senhora
Quem passa de fora não a vê
Mas de dentro tudo vê
E na tarde sonolenta
Quando a cidade dorme
Lá está a velha senhora
Na janela a ver a cidade inteira
Passa João
Passa Maria
Passa o guarda municipal
Passa também a vida passageira
Uma boiada inteira
Uma tristeza passageira
Uma banda tocando
Uma sonata militar
E uma rajada de rojão
Quebra o silêncio sorrateiro
Para a festa de são joão
Por detrás das cortinas de seda
Artificial mora uma velha senhora
Já velha de tanto ver
Sorri com sua boca banguela
À espera do dia passar
Um dia desses também
A velha senhora vai embora
E todos os seus segredos
Seus amores
Desamores
Desta vida sem humor algum
Todos os seus segredos
Da vida de todos desta
Cidade inteira.
Um dia de folia
Minhas calças rasgadas
Continuo a usar
Um remendo bem largo
Sem negar sua utilidade
Com o tempo ficaram rotas
Com o tempo também
As rugas surgiram do nada
Numa trama intrincada
Da própria vida
Impregnada de poeira
Dos tempos passados
Ainda que lave a cara
Nenhuma cara nova surge
Nenhuma calça nova surge
Nenhum homem novo surge
Negar a sujidade
Como podemos se na vida
Sujamos a alma constantemente
Com o veneno do amor
Que destrói o corpo
E consome a alma
Cada vez que sente
Sem senti-la como seria
Se na vida inteira somos
O amor não realizado
Por isso podemos apenas
Contemplar o desfile das emoções
Num carnaval veneziano
E assistir a beleza dos movimentos
Do pierrot e da colombina
Cujo encontro se deu apenas
Em um dia.
Continuo a usar
Um remendo bem largo
Sem negar sua utilidade
Com o tempo ficaram rotas
Com o tempo também
As rugas surgiram do nada
Numa trama intrincada
Da própria vida
Impregnada de poeira
Dos tempos passados
Ainda que lave a cara
Nenhuma cara nova surge
Nenhuma calça nova surge
Nenhum homem novo surge
Negar a sujidade
Como podemos se na vida
Sujamos a alma constantemente
Com o veneno do amor
Que destrói o corpo
E consome a alma
Cada vez que sente
Sem senti-la como seria
Se na vida inteira somos
O amor não realizado
Por isso podemos apenas
Contemplar o desfile das emoções
Num carnaval veneziano
E assistir a beleza dos movimentos
Do pierrot e da colombina
Cujo encontro se deu apenas
Em um dia.
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
il faut oublier
tout peut s’oblier
qui s’enfuit déjà
Oblier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le couer du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t’offrirai
Des perles le pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai le terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai um domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour será loi
Où tu será reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te recontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feau
D’un ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quant vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je ne cacherai lá
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
il faut oublier
tout peut s’oblier
qui s’enfuit déjà
Oblier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le couer du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Moi je t’offrirai
Des perles le pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai le terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai um domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour será loi
Où tu será reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te recontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feau
D’un ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quant vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je ne cacherai lá
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
segunda-feira, 24 de maio de 2010
A dor do amor que se foi
Uma dor desconhecida
Destas sem motivo algum
Que fere o coração do homem
Não é apenas de tristeza
Mas de desolação
Que se esconde por trás
Da frágil couraça de aço
Que se quebra em instantes
Esfacelando-se no chão
Quando não se tem motivos
Diria assim mesmo
Pode ser força de expressão
Pode ser uma sutil negação
De sua própria fraqueza
Ainda que não tenha motivos
Aparentes
Mais profundo motivaria
Razões totalmente irracionais
Que não podem ser tocadas
Nem entendidas
Nem ditas
Nem faladas
Se assim for a medida
Das contradições.
Nada pode ser feito
Senão viver a melancolia
De viver sem razão
Vivemos sem razão
Apenas por viver
Um momento fugaz
Do amor que se foi.
Destas sem motivo algum
Que fere o coração do homem
Não é apenas de tristeza
Mas de desolação
Que se esconde por trás
Da frágil couraça de aço
Que se quebra em instantes
Esfacelando-se no chão
Quando não se tem motivos
Diria assim mesmo
Pode ser força de expressão
Pode ser uma sutil negação
De sua própria fraqueza
Ainda que não tenha motivos
Aparentes
Mais profundo motivaria
Razões totalmente irracionais
Que não podem ser tocadas
Nem entendidas
Nem ditas
Nem faladas
Se assim for a medida
Das contradições.
Nada pode ser feito
Senão viver a melancolia
De viver sem razão
Vivemos sem razão
Apenas por viver
Um momento fugaz
Do amor que se foi.
domingo, 23 de maio de 2010
Colecionador de figurinhas
Apesar de ter sido escoteiro
Nunca fui muito bom
Nem em matemática
Nem gramática
Acabei me perdendo nesta vida
Perdi a hora do tempo
E minhas sobrancelhas
Embranqueceram
Perdi também amores
A última a mais dolorida
Perdi a vontade de viver
Mas por teimosia
Coleciono figurinhas
Como um grande idiota
Todos riem dele
Todos zombam dele
Mas nada disso importa
Nunca fui muito bom
Nem em matemática
Nem gramática
Acabei me perdendo nesta vida
Perdi a hora do tempo
E minhas sobrancelhas
Embranqueceram
Perdi também amores
A última a mais dolorida
Perdi a vontade de viver
Mas por teimosia
Coleciono figurinhas
Como um grande idiota
Todos riem dele
Todos zombam dele
Mas nada disso importa
Ladrão da memória
Havia na memória de
Minha infância ladrões
De criança
Seu saco enorme nas costas
Carregava não sei o que
Um dia carregou meu irmão
Deixei de brincar de esconder
E perdi a minha infância
Mas agora crescido
Novamente me vem
O mesmo ladrão
Sorrateiramente vem
E tenta roubar
Por pouco roubar
Meus sonhos de adulto
Meus sonhos de criança
Maria Lúcia
Minha última namorada
Maria Lúcia era a filha
Da empregada
Maria Lúcia era a mulher
Da empresa falida
Que queria apenas
Namorar!
Minha infância ladrões
De criança
Seu saco enorme nas costas
Carregava não sei o que
Um dia carregou meu irmão
Deixei de brincar de esconder
E perdi a minha infância
Mas agora crescido
Novamente me vem
O mesmo ladrão
Sorrateiramente vem
E tenta roubar
Por pouco roubar
Meus sonhos de adulto
Meus sonhos de criança
Maria Lúcia
Minha última namorada
Maria Lúcia era a filha
Da empregada
Maria Lúcia era a mulher
Da empresa falida
Que queria apenas
Namorar!
sábado, 22 de maio de 2010
Hiato
vinha compondo um poema todo de silêncios
uns breves, outros longos,
dispostos na extensão da respiração
alguns deles rimaram
outros fizeram doer o coração
empreendi esforços consideráveis
procurando por alguns
que expressassem exatamente
o que se queria dizer naquele instante
há silêncios de todos os tipos
forçados, pedidos, rogados, conformados, submissos, envergonhados, sem fôlego
é difícil, por isso, achar o tom correto
de repente uma fechada trouxe-me de volta ao mundo dos sons
o pneu da bicicleta derrapou no asfalto
a buzina do Terminal Pirituba soou no meu cangote
e o mundo se reestabeleceu
em agradável sinfonia
uns breves, outros longos,
dispostos na extensão da respiração
alguns deles rimaram
outros fizeram doer o coração
empreendi esforços consideráveis
procurando por alguns
que expressassem exatamente
o que se queria dizer naquele instante
há silêncios de todos os tipos
forçados, pedidos, rogados, conformados, submissos, envergonhados, sem fôlego
é difícil, por isso, achar o tom correto
de repente uma fechada trouxe-me de volta ao mundo dos sons
o pneu da bicicleta derrapou no asfalto
a buzina do Terminal Pirituba soou no meu cangote
e o mundo se reestabeleceu
em agradável sinfonia
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Guerra das palavras
Ainda que me entenda
Por palavras
Nenhuma palavra se basta
Para expressar uma parte que fosse
Daquilo que poderia expressar.
Por isso tentamos
Fracassando tentamos
Mais uma vez tentamos
Sem sucesso expressar.
Assim feito calamos
E neste vazio quem sabe
As palavras não mais importam
Nem mesmo a expressão
Nem uma cor mais exuberante
Apenas das sombras sabemos
E da lua quem sabe
Nada sabemos
Por isso não falamos da lua
Nem do orvalho não sentido
Apenas do frio que congela
Os ossos e a pele pálida
Metálica é o corpo dos
Soldadinhos que brincam
De guerra contra as bonecas
De cara de louça pintada.
Que me importa as bonecas
São apenas palavras
Nada mais me importa.
Por palavras
Nenhuma palavra se basta
Para expressar uma parte que fosse
Daquilo que poderia expressar.
Por isso tentamos
Fracassando tentamos
Mais uma vez tentamos
Sem sucesso expressar.
Assim feito calamos
E neste vazio quem sabe
As palavras não mais importam
Nem mesmo a expressão
Nem uma cor mais exuberante
Apenas das sombras sabemos
E da lua quem sabe
Nada sabemos
Por isso não falamos da lua
Nem do orvalho não sentido
Apenas do frio que congela
Os ossos e a pele pálida
Metálica é o corpo dos
Soldadinhos que brincam
De guerra contra as bonecas
De cara de louça pintada.
Que me importa as bonecas
São apenas palavras
Nada mais me importa.
Pelas penumbras das esquinas
Os cães ladram na madrugada
Perdidos que estão sem direção alguma
Confusos de seus destinos caninos
Ladram para a lua crescente
Ladram para toda a gente
Como que ladrar fosse importante
Em suas vidas de cão.
E errantes como os homens
Vagam pela noite adentro
Invadindo as esquinas de todo
Ressentimento.
Pois quando chega a penumbra
Uma multidão de desconhecidos
Mudos e paralíticos podem
Expressar seus sentimentos.
Alguns são cegos que enxergam
São mudos que podem falar
E sua fala truncada revela
Uma verdade que se fala
Em voz pausada
Quase um sussurro
Que a vontade de viver
É a vontade de morrer
Em pleno distanciamento.
Nada pode ser mais belo
Do que a solidão sentida
No abandono das lembranças
De um amor passado
Que não passa mais
Do que um fantasma.
Fantasias de uma festa
Sem colombina.
Perdidos que estão sem direção alguma
Confusos de seus destinos caninos
Ladram para a lua crescente
Ladram para toda a gente
Como que ladrar fosse importante
Em suas vidas de cão.
E errantes como os homens
Vagam pela noite adentro
Invadindo as esquinas de todo
Ressentimento.
Pois quando chega a penumbra
Uma multidão de desconhecidos
Mudos e paralíticos podem
Expressar seus sentimentos.
Alguns são cegos que enxergam
São mudos que podem falar
E sua fala truncada revela
Uma verdade que se fala
Em voz pausada
Quase um sussurro
Que a vontade de viver
É a vontade de morrer
Em pleno distanciamento.
Nada pode ser mais belo
Do que a solidão sentida
No abandono das lembranças
De um amor passado
Que não passa mais
Do que um fantasma.
Fantasias de uma festa
Sem colombina.
As duas mulheres da estação
Acima dos fios de alta tensão
Acima de onde podemos visualizar
Lá acima do prédio acima vive
Uma mulher esquizofrênica.
O marido a deixou
Não queria adoecer
Os parentes a deixaram
Não queriam compromissos
Sua única companhia era
A mãe sofredora de degeneração
Uma cuidava da outra
Esperando o trem passar.
Todos os dias às quinze
Impecavelmente naquele horário
Sem atrasos o trem passava
Sacolejando aos trancos
Transportando bois
Uma boiada inteira
Até que veio a recessão
Veio a depressão
O trem parou de passar
O que restava então
Às duas mulheres
Que sempre às quinze
Podiam ver
O trem passar.
Nem mais esta alegria tiveram
A mulher esquizofrênica
Outra em degeneração.
Acima de onde podemos visualizar
Lá acima do prédio acima vive
Uma mulher esquizofrênica.
O marido a deixou
Não queria adoecer
Os parentes a deixaram
Não queriam compromissos
Sua única companhia era
A mãe sofredora de degeneração
Uma cuidava da outra
Esperando o trem passar.
Todos os dias às quinze
Impecavelmente naquele horário
Sem atrasos o trem passava
Sacolejando aos trancos
Transportando bois
Uma boiada inteira
Até que veio a recessão
Veio a depressão
O trem parou de passar
O que restava então
Às duas mulheres
Que sempre às quinze
Podiam ver
O trem passar.
Nem mais esta alegria tiveram
A mulher esquizofrênica
Outra em degeneração.
Mentiras do cotidiano
Quantas mentiras contamos
Em nossa pobre existência
Mentimos para o outro
Descaradamente mentimos
Para nós mesmos
Seja por vaidade
Seja por elucubração
Seja para parecer melhor
Mais forte e genial
Mentimos mais ainda
Quando negamos nossas fraquezas
Em admitir que amamos
O amor impossível
Dos romances trágicos
Do simples cotidiano
Dos encontros
Dos desencontros
Das almas afins.
Negamos por egoísmo
Simplesmente negamos
E mentimos novamente.
Em nossa pobre existência
Mentimos para o outro
Descaradamente mentimos
Para nós mesmos
Seja por vaidade
Seja por elucubração
Seja para parecer melhor
Mais forte e genial
Mentimos mais ainda
Quando negamos nossas fraquezas
Em admitir que amamos
O amor impossível
Dos romances trágicos
Do simples cotidiano
Dos encontros
Dos desencontros
Das almas afins.
Negamos por egoísmo
Simplesmente negamos
E mentimos novamente.
Nada mais busco
Que pode ser eficaz
Para curar dor no estômago
Se nenhuma medicina é capaz
De curar os males do espírito
Desta falta de ar
Desta melancolia
Sem motivo aparente
Todos os motivos do mundo
Juntos não seriam suficientes
Para preencher o vazio
De uma vida sem razão.
Meus sonhos se esvaíram
No ralo fundo da existência
Sem sonho algum
Fingindo inocência
Busco no quarto escuro
A luz que me aquece
O fogo que purifica
E no silêncio mil vozes
Ecoando em tamanha quietude
Como as cigarras
Explodindo os pulmões
De tanto cantar
Canto triste
De um cancioneiro popular.
Para curar dor no estômago
Se nenhuma medicina é capaz
De curar os males do espírito
Desta falta de ar
Desta melancolia
Sem motivo aparente
Todos os motivos do mundo
Juntos não seriam suficientes
Para preencher o vazio
De uma vida sem razão.
Meus sonhos se esvaíram
No ralo fundo da existência
Sem sonho algum
Fingindo inocência
Busco no quarto escuro
A luz que me aquece
O fogo que purifica
E no silêncio mil vozes
Ecoando em tamanha quietude
Como as cigarras
Explodindo os pulmões
De tanto cantar
Canto triste
De um cancioneiro popular.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Frio que mata e morre
Quando os tempos mais frios
Visitam-me um pouquinho
Meu amigo reumatismo
Nunca me deixa sozinho.
Dores que não sentia antes
Aquelas que arranham a alma
Felinamente chegam devagar
Se instalam como sua casa
Para não sair mais.
Visitam-me um pouquinho
Meu amigo reumatismo
Nunca me deixa sozinho.
Dores que não sentia antes
Aquelas que arranham a alma
Felinamente chegam devagar
Se instalam como sua casa
Para não sair mais.
Dentroufora
Cores vetustas
Astutas, ágeis dores
Medos incidentais.
Sento, sinto
Respirando imóvel...
(observo impassível,
viajante olhando a janela)
Não mais imóvel que os móveis
A mosca pousa na mão,
No chão, na testa...
Esfrega as patas em clima de festa
(sou sapo, imóvel te observo -
gato e rato)
Mas sapo não é gato,
isso é fato
então não te mato.
Sou pedra, quadro,
Sou estátua de Buda.
Nada...
Sou?
É como é.
(aranha apanha a mosca)
Sou a panela que ferve:
Fora imóvel, mas fervente
Por dentro, água quente
fervente
Dentro e fora,
Dentroufora...
Plim... plim... plim...
Vou embora.
Astutas, ágeis dores
Medos incidentais.
Sento, sinto
Respirando imóvel...
(observo impassível,
viajante olhando a janela)
Não mais imóvel que os móveis
A mosca pousa na mão,
No chão, na testa...
Esfrega as patas em clima de festa
(sou sapo, imóvel te observo -
gato e rato)
Mas sapo não é gato,
isso é fato
então não te mato.
Sou pedra, quadro,
Sou estátua de Buda.
Nada...
Sou?
É como é.
(aranha apanha a mosca)
Sou a panela que ferve:
Fora imóvel, mas fervente
Por dentro, água quente
fervente
Dentro e fora,
Dentroufora...
Plim... plim... plim...
Vou embora.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Os jogadores velhos
Toda vez que por lá passava
Velhos aposentados jogavam
Xadrez.
Toda vez que por lá passava
Meninos que matavam aulas
Jogavam dados.
A vida passava
Velhos passageiros
De um tempo passado
Passaram por um triz
Nada deixou de sagrado
Senão um rastro
De lamentações.
Que vida mais urgente
Tem pela frente
Meninos que matam aulas.
Que vida mais rápida
Passaram os velhos aposentados
Que jogavam xadrez.
Será que um dia
Meninos que matam aulas
Aprenderão a
Jogar xadrez?
Somente os que sabem
Sabem jogar
O jogo da vida
O xadrez da vida
Simplesmente
Xadrez!
Velhos aposentados jogavam
Xadrez.
Toda vez que por lá passava
Meninos que matavam aulas
Jogavam dados.
A vida passava
Velhos passageiros
De um tempo passado
Passaram por um triz
Nada deixou de sagrado
Senão um rastro
De lamentações.
Que vida mais urgente
Tem pela frente
Meninos que matam aulas.
Que vida mais rápida
Passaram os velhos aposentados
Que jogavam xadrez.
Será que um dia
Meninos que matam aulas
Aprenderão a
Jogar xadrez?
Somente os que sabem
Sabem jogar
O jogo da vida
O xadrez da vida
Simplesmente
Xadrez!
Indiferente caminha
O frio que sinto na pele
Também fere a pele da alma
Que antes quente
Esfriou-se por inteira
Que não sente mais
O que antes sentia
Indiferente caminha
Caminhos de pedra
Caminhos tortuosos
Sem mais nada querer
Uma dália a fenecer
Diante da terrível nevasca
Do inverno que está
Por chegar.
Também fere a pele da alma
Que antes quente
Esfriou-se por inteira
Que não sente mais
O que antes sentia
Indiferente caminha
Caminhos de pedra
Caminhos tortuosos
Sem mais nada querer
Uma dália a fenecer
Diante da terrível nevasca
Do inverno que está
Por chegar.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Abandono
Onde quer que vá
São os meus chinelos
Que me seguem
Desconsolados do abandono
Um pé para cá
Outro para lá
Onde quer que vá
São os meus chinelos
Que me seguem...
Onde quer que vá
São os seus olhos
Que me seguem.
Perdidos nas esquinas
Dos desencontros.
Ainda que estejas
Diante de mim
Mais distante fica
De minha vida
Como que a minha vida
Separada ficasse
De tua vida.
Toda tristeza sentida
Não cabe mais
Num coração só
Se pudesse reparti-la
Repartiria também
O que resta do amor
Que um dia sentia.
São os meus chinelos
Que me seguem
Desconsolados do abandono
Um pé para cá
Outro para lá
Onde quer que vá
São os meus chinelos
Que me seguem...
Onde quer que vá
São os seus olhos
Que me seguem.
Perdidos nas esquinas
Dos desencontros.
Ainda que estejas
Diante de mim
Mais distante fica
De minha vida
Como que a minha vida
Separada ficasse
De tua vida.
Toda tristeza sentida
Não cabe mais
Num coração só
Se pudesse reparti-la
Repartiria também
O que resta do amor
Que um dia sentia.
domingo, 16 de maio de 2010
As mil máscaras
Numa caixa de papelão
Guardo as mil faces
De um teatro de máscaras
Que uso em cada ocasião
Sou alegre
Sou triste
Lacônico
Sou falante
Sou gramofone
Sou ignorante
Sou a cara do mundo.
Um dia resolvi
Tirar todas as máscaras
E ver a minha cara
Tinha todas as caras
Tinha todas as máscaras
De minha existência.
Não necessitei mais
De máscara alguma
Minha cara se moldava
A todas as máscaras.
Nem mais sei quem sou
Nem mais sei quem fui
Aquilo que fui um dia
Nem sei mais
Se era máscara
Se era outra coisa!
Dúvida que distorce
Ainda mais
Minha cara
Minha máscara.
Guardo as mil faces
De um teatro de máscaras
Que uso em cada ocasião
Sou alegre
Sou triste
Lacônico
Sou falante
Sou gramofone
Sou ignorante
Sou a cara do mundo.
Um dia resolvi
Tirar todas as máscaras
E ver a minha cara
Tinha todas as caras
Tinha todas as máscaras
De minha existência.
Não necessitei mais
De máscara alguma
Minha cara se moldava
A todas as máscaras.
Nem mais sei quem sou
Nem mais sei quem fui
Aquilo que fui um dia
Nem sei mais
Se era máscara
Se era outra coisa!
Dúvida que distorce
Ainda mais
Minha cara
Minha máscara.
Se triste amor de outrora
Nada mais lembra
Em sua face que antes
Faceira era
Nenhuma imagem
Remota que seja
Me lembra mais
Do amor que se fora
Que antes animada
Desanimada ficou
Perdeu total sentido
Caiu e se quebrou!
Em sua face que antes
Faceira era
Nenhuma imagem
Remota que seja
Me lembra mais
Do amor que se fora
Que antes animada
Desanimada ficou
Perdeu total sentido
Caiu e se quebrou!
Cidade dos solitários
Muitos são os solitários que
Perambulam sem rumo algum
Perdidos nesta grande cidade.
Muitos são os solitários que
Ainda não encontraram sentido
Algum que seja para suas vidas
Nesta imensa cidade.
Muitos são os solitários que
Vivem nesta cidade
Alguns vivem ainda
Outros não vivem não
Solitários desta cidade.
Numa multidão de caras
Desconhecidas e imerecidas
De toda atenção
E assim vão envelhecendo
Sem amigos
Alguns amigos de poucos
Horas
Pois amizade não é preciso
Nem preciso é falar de nossas
Angústias
Pequenas carências
Que a ninguém interessa
Senão ao próprio que sente
Sinais de carência
Como que carência fosse
Algo proibido
De falar
De sentir
Como que sentir fosse
Algo proibido
Se solitário fosse
Apenas uma palavra
Uma palavra que fosse
Descartada de todo
Vocabulário nacional
Internacional da linguagem
E carente de palavras
De significado das palavras
Solidão que carece
Da própria solidão
Como palavra
Cidade de imensa
Solidão...
Perambulam sem rumo algum
Perdidos nesta grande cidade.
Muitos são os solitários que
Ainda não encontraram sentido
Algum que seja para suas vidas
Nesta imensa cidade.
Muitos são os solitários que
Vivem nesta cidade
Alguns vivem ainda
Outros não vivem não
Solitários desta cidade.
Numa multidão de caras
Desconhecidas e imerecidas
De toda atenção
E assim vão envelhecendo
Sem amigos
Alguns amigos de poucos
Horas
Pois amizade não é preciso
Nem preciso é falar de nossas
Angústias
Pequenas carências
Que a ninguém interessa
Senão ao próprio que sente
Sinais de carência
Como que carência fosse
Algo proibido
De falar
De sentir
Como que sentir fosse
Algo proibido
Se solitário fosse
Apenas uma palavra
Uma palavra que fosse
Descartada de todo
Vocabulário nacional
Internacional da linguagem
E carente de palavras
De significado das palavras
Solidão que carece
Da própria solidão
Como palavra
Cidade de imensa
Solidão...
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Voto de silêncio
Quando muito se fala
Muito pouco se entende
Se entender fosse possível
Uma fala sincera que fosse
Melhor do que qualquer fala
É não falar coisa alguma
Sem criar constrangimento
Numa fala errada
Numa fala carregada de
Sentimentos opostos
Para quem ouve
Ouve somente o que quer
Pode ouvir o que não disse
Pode ser outra coisa
Totalmente outra
Daquele que se falou.
Em momentos de dúvida
Sem dúvida alguma
Silenciosamente se cale.
Toda dúvida se esvai
Nem toda certeza vem
Ainda bem que deve
Ser assim.
Muito pouco se entende
Se entender fosse possível
Uma fala sincera que fosse
Melhor do que qualquer fala
É não falar coisa alguma
Sem criar constrangimento
Numa fala errada
Numa fala carregada de
Sentimentos opostos
Para quem ouve
Ouve somente o que quer
Pode ouvir o que não disse
Pode ser outra coisa
Totalmente outra
Daquele que se falou.
Em momentos de dúvida
Sem dúvida alguma
Silenciosamente se cale.
Toda dúvida se esvai
Nem toda certeza vem
Ainda bem que deve
Ser assim.
terça-feira, 11 de maio de 2010
Em lugar algum
Certa vez quis de vez
Ir-me embora de vez
Para a Península de Kanchatka
Primeira vez que ouvi falar
Dela era com ela que queria ir
Por muito tempo me esqueci
Nem mais ouvi falar dela
E Kanchatka se tornou uma
Fagulha do passado.
Mas agora que ela se foi
Kanchatka retorna mais uma vez
E uma vontade de ir
Ir-me embora de vez
Sinto apaziguar meu coração
Nada mais me prende aqui
Solitário viajante
Que errante caminha
Quem conduz são as sandálias
Rotas e estropiadas
Uma bengala para se apoiar
Um caderno de notas
Um livro de Baudelaire
Sebento no braço.
Que vontade de me ir
Ir-me embora de vez
Para a Península de Kanchatka.
Ir-me embora de vez
Para a Península de Kanchatka
Primeira vez que ouvi falar
Dela era com ela que queria ir
Por muito tempo me esqueci
Nem mais ouvi falar dela
E Kanchatka se tornou uma
Fagulha do passado.
Mas agora que ela se foi
Kanchatka retorna mais uma vez
E uma vontade de ir
Ir-me embora de vez
Sinto apaziguar meu coração
Nada mais me prende aqui
Solitário viajante
Que errante caminha
Quem conduz são as sandálias
Rotas e estropiadas
Uma bengala para se apoiar
Um caderno de notas
Um livro de Baudelaire
Sebento no braço.
Que vontade de me ir
Ir-me embora de vez
Para a Península de Kanchatka.
Amor que não acontecia
Maria Lúcia lia
Livros de poesia
Mas um dia conheceu
Toninho Paixão
Com que se apaixonou
Também Paixão
Por Maria Lúcia
Se apaixonou.
Foi por amor que
Maria Lúcia deixou
De ler poesia
Deixou de viver
Sua vida
Deixou tudo por amor
A Toninho Paixão
Mas um dia se foi
A Paixão se foi
Sorrateiramente
Se foi como chegou
Sorrateiramente
Se foi
Pois amor
Somente existe
Nos livros de poesia
Não no mundo
Somente existe
Em nossas esperanças
Mas a vida é construída
Na desesperança
E nos negócios lucrativos
Amor somente existe
Nos livros de poesia
Apenas neles
Apenas neles
Se amor existisse
Fora deles
Não seria amor
Pois amor somente
Rima com poesia
Não rima com vida
Que impura vida
Amor algum existe.
Livros de poesia
Mas um dia conheceu
Toninho Paixão
Com que se apaixonou
Também Paixão
Por Maria Lúcia
Se apaixonou.
Foi por amor que
Maria Lúcia deixou
De ler poesia
Deixou de viver
Sua vida
Deixou tudo por amor
A Toninho Paixão
Mas um dia se foi
A Paixão se foi
Sorrateiramente
Se foi como chegou
Sorrateiramente
Se foi
Pois amor
Somente existe
Nos livros de poesia
Não no mundo
Somente existe
Em nossas esperanças
Mas a vida é construída
Na desesperança
E nos negócios lucrativos
Amor somente existe
Nos livros de poesia
Apenas neles
Apenas neles
Se amor existisse
Fora deles
Não seria amor
Pois amor somente
Rima com poesia
Não rima com vida
Que impura vida
Amor algum existe.
domingo, 9 de maio de 2010
Amor do tempo passado
Quantas vezes te encontrei
Quantas vezes te amei
E ainda assim não te
Conhecia
Desconhecida era
Senhora do tempo passado
Cujos rastros deixados
Foram-se de uma vez
Nunca foram deixados
Nem no tempo
Nem no espaço
De uma existência
Efêmera
Sem importância alguma.
Que me importa a simpatia
Pelo seu rosto que reluz
Tão próximo de alguém
Que conhecia
Pensava apenas
Que conhecia
Mas não passava de
Um sonho
Um sonho que ainda
Sonhava esperanças
De um sonho possível.
Todo conhecimento
Algo impossível
Pois conhecimento não há
Daquilo que é tão somente
Sombra.
Todo amor é uma sombra
Em dias de sol
Em dias de chuva
Todo amor é pouco
De pouco acabou desaparecendo.
Quantas vezes te amei
E ainda assim não te
Conhecia
Desconhecida era
Senhora do tempo passado
Cujos rastros deixados
Foram-se de uma vez
Nunca foram deixados
Nem no tempo
Nem no espaço
De uma existência
Efêmera
Sem importância alguma.
Que me importa a simpatia
Pelo seu rosto que reluz
Tão próximo de alguém
Que conhecia
Pensava apenas
Que conhecia
Mas não passava de
Um sonho
Um sonho que ainda
Sonhava esperanças
De um sonho possível.
Todo conhecimento
Algo impossível
Pois conhecimento não há
Daquilo que é tão somente
Sombra.
Todo amor é uma sombra
Em dias de sol
Em dias de chuva
Todo amor é pouco
De pouco acabou desaparecendo.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Imagem de pedra
Acima do morro apenas
Contemplava
Seus olhos finos e miúdos
Contemplavam
Em silêncio profundo
Nada dizia
Nada pensava
Nem discriminava
Enquanto os homens
Homens e mulheres
Carregando lanças e escudos
Se lançavam em derradeira
Luta
Em defesa de suas idéias
Lutava-se por idéias
Matavam e morriam
Por idéias
Certas para quem
As defendiam
Idéias apaixonadas
Vermelhas e verdes
Até que o chão se
Manchasse do suco
Da beterraba.
Acima do morro apenas
Contemplava...
Um Buda de pedra
Contemplava...
O que tem a nos ensinar
Um Buda de pedra
Um Buda que apenas
Contemplava.
Contemplava
Seus olhos finos e miúdos
Contemplavam
Em silêncio profundo
Nada dizia
Nada pensava
Nem discriminava
Enquanto os homens
Homens e mulheres
Carregando lanças e escudos
Se lançavam em derradeira
Luta
Em defesa de suas idéias
Lutava-se por idéias
Matavam e morriam
Por idéias
Certas para quem
As defendiam
Idéias apaixonadas
Vermelhas e verdes
Até que o chão se
Manchasse do suco
Da beterraba.
Acima do morro apenas
Contemplava...
Um Buda de pedra
Contemplava...
O que tem a nos ensinar
Um Buda de pedra
Um Buda que apenas
Contemplava.
Oração do Irmão Chico
Nasceu chamando Francisco
Logo mudou para Chico
Era Chico para cá
Era Chico para lá
Chico da margem esquerda
Chico da mão canhota
Chico claudicante
Chico que todos achavam
Esquisito
Tornou-se solitário
Macambúzio
Macacado
Não tinha amigos
Foi quando começou
A conversar com as ervas
Ervas daninhas
Flores de laranjeira
Alcachofra
Mangueira
Seus irmãos vegetais
Irmão almeirão
Irmã beterraba
Lá veio o coelho danado
E comeu o irmão
Cenoura
Chico se sentiu ultrajado
Veio também a macaca
Vera e comeu também
A banana no cacho
Chico quis morrer de
Tristeza
Chico não comia nada
Nem amigos tinha
Mais sozinho ficou
Sozinho como sempre
Sentiu
Chico era outro macaco
No paraíso perdido
E abandonado pelo criador
Adotado pela criatura
Errante
chamado
Sancho Pança
Logo mudou para Chico
Era Chico para cá
Era Chico para lá
Chico da margem esquerda
Chico da mão canhota
Chico claudicante
Chico que todos achavam
Esquisito
Tornou-se solitário
Macambúzio
Macacado
Não tinha amigos
Foi quando começou
A conversar com as ervas
Ervas daninhas
Flores de laranjeira
Alcachofra
Mangueira
Seus irmãos vegetais
Irmão almeirão
Irmã beterraba
Lá veio o coelho danado
E comeu o irmão
Cenoura
Chico se sentiu ultrajado
Veio também a macaca
Vera e comeu também
A banana no cacho
Chico quis morrer de
Tristeza
Chico não comia nada
Nem amigos tinha
Mais sozinho ficou
Sozinho como sempre
Sentiu
Chico era outro macaco
No paraíso perdido
E abandonado pelo criador
Adotado pela criatura
Errante
chamado
Sancho Pança
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Despotismo da razão
Quando meu discurso
Justificado
Tem toda a razão
Não aceito mais
Nenhuma outra razão
Pois razão não há.
A razão é a que tenho
Por isso imponho.
Exijo sacrifício do outro
Apenas do outro
Pois de mim
Razão tenho.
Ainda que a razão
Seja a razão das medidas
Se esta razão serve
Para oprimir o outro
Carente de uma razão
Justificável
Razão não há
Para a razão
Ser a razão
Para impor sua
Atitude apenas
Apoiada
Na própria razão
Irracional sou
Isento de toda razão
Faço poesia como
Quem morre
Faço poesia como
Quem nasce
Sem razão alguma.
Justificado
Tem toda a razão
Não aceito mais
Nenhuma outra razão
Pois razão não há.
A razão é a que tenho
Por isso imponho.
Exijo sacrifício do outro
Apenas do outro
Pois de mim
Razão tenho.
Ainda que a razão
Seja a razão das medidas
Se esta razão serve
Para oprimir o outro
Carente de uma razão
Justificável
Razão não há
Para a razão
Ser a razão
Para impor sua
Atitude apenas
Apoiada
Na própria razão
Irracional sou
Isento de toda razão
Faço poesia como
Quem morre
Faço poesia como
Quem nasce
Sem razão alguma.
A guerra dos brinquedos
Brincava com seus bonecos
De guerra
Quando surge a menina
Com sua boneca
E juntos resolvem brincar
Juntos
E juntos a boneca e
O boneco de guerra
Resolvem fazer a paz
A paz duradoura até
O entardecer
Quando novamente
Cada um vai à direção
Diferente
E distante começam
As ameaças de guerra
“Meu brinquedo é mais
Bonito que o seu” diz um
Diz o outro
Diz a outra
“Seu brinquedo é mais
Feio que o meu”
Então as relações estremecem-se
Surge a tensão
Cada um defendendo
Aquilo que te apetece
Cada um atacando
Aquilo que não te apetece
Assim o boneco de guerra
Continua em guerra permanente
A boneca que amava a paz
Não a ama mais
Em guerra constante
Veste o uniforme
Levanta a bandeira
Afia as unhas e os dentes
E espera o próximo ataque
Tudo em função de uma idéia
Que não muda
Nem cede
Não perde
Se perder a guerra
Também cede e acaba
Toda a guerra
A perigosa brincadeira
De fazer guerra
Inútil e bárbara
Guerra!
De guerra
Quando surge a menina
Com sua boneca
E juntos resolvem brincar
Juntos
E juntos a boneca e
O boneco de guerra
Resolvem fazer a paz
A paz duradoura até
O entardecer
Quando novamente
Cada um vai à direção
Diferente
E distante começam
As ameaças de guerra
“Meu brinquedo é mais
Bonito que o seu” diz um
Diz o outro
Diz a outra
“Seu brinquedo é mais
Feio que o meu”
Então as relações estremecem-se
Surge a tensão
Cada um defendendo
Aquilo que te apetece
Cada um atacando
Aquilo que não te apetece
Assim o boneco de guerra
Continua em guerra permanente
A boneca que amava a paz
Não a ama mais
Em guerra constante
Veste o uniforme
Levanta a bandeira
Afia as unhas e os dentes
E espera o próximo ataque
Tudo em função de uma idéia
Que não muda
Nem cede
Não perde
Se perder a guerra
Também cede e acaba
Toda a guerra
A perigosa brincadeira
De fazer guerra
Inútil e bárbara
Guerra!
terça-feira, 4 de maio de 2010
O ar que respiro
Em minha cidade há
Um campo da diversidade
Há uma parada gay
Também uma evangélica
Há uma banda de rock
Também uma filarmônica
Há estudantes de biologia
Também de filosofia
Há esportistas nas ruas
Também bêbados nas calçadas
Nesta cidade todos vão adiante
Outros em sentido inverso
Muitos andam de carro
Muitos outros andam a pé
Alguns nadam nas piscinas
Outros ainda vão de trem
Ainda bem que
Ninguém me proibiu
De andar onde quero
De comer o que quero
De beber o que quero
De respirar o ar sem pagar
Ainda bem que
Vivo nesta cidade
Multidão que se comunica
Com todas as suas
Diferenças
Que bom que as pessoas
São diferentes!
Um campo da diversidade
Há uma parada gay
Também uma evangélica
Há uma banda de rock
Também uma filarmônica
Há estudantes de biologia
Também de filosofia
Há esportistas nas ruas
Também bêbados nas calçadas
Nesta cidade todos vão adiante
Outros em sentido inverso
Muitos andam de carro
Muitos outros andam a pé
Alguns nadam nas piscinas
Outros ainda vão de trem
Ainda bem que
Ninguém me proibiu
De andar onde quero
De comer o que quero
De beber o que quero
De respirar o ar sem pagar
Ainda bem que
Vivo nesta cidade
Multidão que se comunica
Com todas as suas
Diferenças
Que bom que as pessoas
São diferentes!
Amor na diferença
Nem somos melhores
Do que ninguém
Acredite!
Apenas diferentes
Nem por isso
Deixarei de lhe dar
Água quando estiver
Com sede
Se estiver com fome
Darei o meu lanche
Se quiser carinho
Também darei sem economia
Podemos andar juntos
Em nossas diferenças
Sem dilemas
Apenas amigos diferentes!
Do que ninguém
Acredite!
Apenas diferentes
Nem por isso
Deixarei de lhe dar
Água quando estiver
Com sede
Se estiver com fome
Darei o meu lanche
Se quiser carinho
Também darei sem economia
Podemos andar juntos
Em nossas diferenças
Sem dilemas
Apenas amigos diferentes!
A idéia que se tornou abstrato
Quando as nossas idéias
São mais importantes que
Nossos amigos
Não há mais campo para
A amizade
Só restam as nossas idéias.
O que fazer com elas
Se não temos com quem
Conversar.
Pois os amigos se foram
Se pudéssemos por um momento
Um momento sequer
Abandonar nossas próprias
Idéias
Mas somos orgulhosos
Demais para tanto
Abandonamos os amigos
Nunca as idéias.
São mais importantes que
Nossos amigos
Não há mais campo para
A amizade
Só restam as nossas idéias.
O que fazer com elas
Se não temos com quem
Conversar.
Pois os amigos se foram
Se pudéssemos por um momento
Um momento sequer
Abandonar nossas próprias
Idéias
Mas somos orgulhosos
Demais para tanto
Abandonamos os amigos
Nunca as idéias.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Caixa de secos e molhados
Toda vez que passava
Na rua em que ela estava
Caixa de um mercadinho
De secos e molhados
Parava por um momento
Fingia algo a mais
Como ler o jornal
Parou de fingir e
Enchendo-se de coragem
Elogiou seus olhos claros
De um infinito azul marinho
Marcaram o encontro
Depois do desencontro inicial
Foi naquele ponto que
Ele teve uma agradável surpresa
Sua amada não tinha a perna direita
E ele não tinha a esquerda.
Na rua em que ela estava
Caixa de um mercadinho
De secos e molhados
Parava por um momento
Fingia algo a mais
Como ler o jornal
Parou de fingir e
Enchendo-se de coragem
Elogiou seus olhos claros
De um infinito azul marinho
Marcaram o encontro
Depois do desencontro inicial
Foi naquele ponto que
Ele teve uma agradável surpresa
Sua amada não tinha a perna direita
E ele não tinha a esquerda.
Palavra a ser criada
Nenhuma palavra é suficientemente
Clara para expressar sentimentos
Que criamos em nossa mente
Ainda ausente de palavras
Por isso inventamos não apenas
Palavras mas sentimentos
Que possam significar
Em nossa carência de sentimentos
Um sentido para a vida
Que nem precisa ser
Alegre e nem triste
Precisa ser vivida
Intensamente vivida
Inventada a vida
Com todos os sentimentos
Possíveis
Sem medo do sofrimento
Do amor que se perdeu
Sem medo da memória
Que demora a se esquecer
De um tempo de glória
A palavra certa seria
A falta que se sente
Da palavra que ainda
Falta.
Clara para expressar sentimentos
Que criamos em nossa mente
Ainda ausente de palavras
Por isso inventamos não apenas
Palavras mas sentimentos
Que possam significar
Em nossa carência de sentimentos
Um sentido para a vida
Que nem precisa ser
Alegre e nem triste
Precisa ser vivida
Intensamente vivida
Inventada a vida
Com todos os sentimentos
Possíveis
Sem medo do sofrimento
Do amor que se perdeu
Sem medo da memória
Que demora a se esquecer
De um tempo de glória
A palavra certa seria
A falta que se sente
Da palavra que ainda
Falta.
O iluminado
Olhar de longe a lona do circo, perfeitamente esticada, era um presságio. Chegar perto, reunia o tempo. A urdidura à mostra em vários sítios parecia ir-se desmanchar nos olhos. As cores: o vermelho, o amarelo e o azul, só eram vistas na memória. Mesmo assim, todo este palácio nômade, como uma pele esticada em ossos pontudos, resplandecia ao sol. O cheiro dos animais vindos de outros continentes era a glória para qualquer um que viesse. Era como chegar antes de chegar, ser tomado por aqueles seres, puros, selvagens, antes de possuir suas formas.
E haviam mastros altíssimos a se perder
e cordas cobertas de couro e betume
suspensas numa altura estonteante.
E havia o equilibrista em roupas justas.
Lá fora o sol quarava as poucas nuvens
Mas no interior do circo o lusco-fusco durava.
Furos no teto de pano criavam corpos celestes
e quase a toca-los, ia o equilibrista sem olhos.
Lá embaixo, a platéia era como pedra
Ninguém quereria jamais trocar de lugar
com aquele das alturas sem rede de amparo.
O silêncio arrastava, cortando a pele do tarol.
O equilibrista tinha as mãos trêmulas.
Esticava as cordas que seriam seu caminho
como se começassem de suas próprias entranhas.
Nem parábola, nem reta demais — os pés sabiam.
Ao atravessar a corda que unia os mastros gigantescos, usava uma vara de bambu que era o dobro de sua altura e dez vezes menos o seu peso. Os pés como casulos em sapatilhas de couro macio, faziam cair, lento, pó de breu, à medida que avançavam. Na travessia, a cabeça calava. Os pensamentos cortavam na velocidade de coriscos para irem sumir depois do horizonte daquele espaço particular, que é a mente. Intangível.
A venda nos olhos, os olhos fechados
Os olhos dos pés, os pés na corda - bamba
Pender para a esquerda faria o mundo da direita transbordar
perder para a direita faria cair o mundo do outro lado também.
Era uma visão trágica mas das mais belas
Corriam lágrimas, é natural, olhos ao alto
e lá no centro, quase imóvel: o ser partícula e seu bambu
virando uma coisa só nos olhos embaçados
O que ninguém poderia pensar naquele momento é que ele, o equilibrista cego, sem as vendas daquela profissão, via, com seus olhos, tudo, sim, muito claro e colorido, em todas as miríades de tons e contrastes e profundidade. Também não poderiam imaginar que ele fosse casado com a domadora de cavalos e que tinham filhos.
O equilibrista sabia o fim de todas as coisas:
a morte. E era isso, o fim do tabu, do desejo
sim, era o abandono, de tudo, a tempo
Mas quem saberia vê-lo assim? Sem medo...
Lá embaixo o público sonhava
deixando os olhos vidrarem - e o coração subir, lento
estavam livres, desprendiam...
Apenas um, sem olhos, nas alturas.
Aquele instante era nunca
O inverso de milhões de anos
cada passo um desequilíbrio
cada suspiro um alívio
Alguns viam uma cruz de prata ofuscante
outros uma estrela iridescente
mas lá no céu do circo era só o homem
um homem pendurado numa linha
E haviam mastros altíssimos a se perder
e cordas cobertas de couro e betume
suspensas numa altura estonteante.
E havia o equilibrista em roupas justas.
Lá fora o sol quarava as poucas nuvens
Mas no interior do circo o lusco-fusco durava.
Furos no teto de pano criavam corpos celestes
e quase a toca-los, ia o equilibrista sem olhos.
Lá embaixo, a platéia era como pedra
Ninguém quereria jamais trocar de lugar
com aquele das alturas sem rede de amparo.
O silêncio arrastava, cortando a pele do tarol.
O equilibrista tinha as mãos trêmulas.
Esticava as cordas que seriam seu caminho
como se começassem de suas próprias entranhas.
Nem parábola, nem reta demais — os pés sabiam.
Ao atravessar a corda que unia os mastros gigantescos, usava uma vara de bambu que era o dobro de sua altura e dez vezes menos o seu peso. Os pés como casulos em sapatilhas de couro macio, faziam cair, lento, pó de breu, à medida que avançavam. Na travessia, a cabeça calava. Os pensamentos cortavam na velocidade de coriscos para irem sumir depois do horizonte daquele espaço particular, que é a mente. Intangível.
A venda nos olhos, os olhos fechados
Os olhos dos pés, os pés na corda - bamba
Pender para a esquerda faria o mundo da direita transbordar
perder para a direita faria cair o mundo do outro lado também.
Era uma visão trágica mas das mais belas
Corriam lágrimas, é natural, olhos ao alto
e lá no centro, quase imóvel: o ser partícula e seu bambu
virando uma coisa só nos olhos embaçados
O que ninguém poderia pensar naquele momento é que ele, o equilibrista cego, sem as vendas daquela profissão, via, com seus olhos, tudo, sim, muito claro e colorido, em todas as miríades de tons e contrastes e profundidade. Também não poderiam imaginar que ele fosse casado com a domadora de cavalos e que tinham filhos.
O equilibrista sabia o fim de todas as coisas:
a morte. E era isso, o fim do tabu, do desejo
sim, era o abandono, de tudo, a tempo
Mas quem saberia vê-lo assim? Sem medo...
Lá embaixo o público sonhava
deixando os olhos vidrarem - e o coração subir, lento
estavam livres, desprendiam...
Apenas um, sem olhos, nas alturas.
Aquele instante era nunca
O inverso de milhões de anos
cada passo um desequilíbrio
cada suspiro um alívio
Alguns viam uma cruz de prata ofuscante
outros uma estrela iridescente
mas lá no céu do circo era só o homem
um homem pendurado numa linha
domingo, 2 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Oração aos vegetais
Há muito minha misericordiosa
Sapiência humana e animal deixou
De rapinar gêneros orgânicos
Possuidores de patas e caudas
Barbatanas e asas
Pois sentiam dor
Frio e pavor
Sentiam medo
Não desejavam ser predados
Mas a predação continuou
Desta vez com os vegetais
Quem falou que os animais
Não sentem dor
Quem falou que os vegetais
Não sentem dor
Cortados e trucidados
Pelo fio dos metais
Ainda verdes
Ainda vermelhos
Como rabanetes
Ainda roxos
Como repolhos
A dor dos vegetais
É silenciosa
Angústia sentida
Que não chora
Em sua mudez
Uma mulher muda
Trucidada a golpes
De facão
De machadinho
De triturador elétrico
Para virar suco.
Só o homem pensa
Que vegetal não sofre
Pois não grita a sua dor
Pois nem voz tem.
Sem remorso algum
Sem culpa nenhuma
O vegetal é mastigado
Saborosamente pelo homem
Que defende os animais
De quatro pernas
Pernas para o ar
Mas continua comendo
Vegetais.
Se aprendêssemos
Com os vegetais nos alimentaríamos
Apenas de sais minerais
Da terra profunda
Apenas de gás carbônico
Do céu profundo
Mas não passamos de
Selvagens predando
Vidas vegetais
E outras...
Sapiência humana e animal deixou
De rapinar gêneros orgânicos
Possuidores de patas e caudas
Barbatanas e asas
Pois sentiam dor
Frio e pavor
Sentiam medo
Não desejavam ser predados
Mas a predação continuou
Desta vez com os vegetais
Quem falou que os animais
Não sentem dor
Quem falou que os vegetais
Não sentem dor
Cortados e trucidados
Pelo fio dos metais
Ainda verdes
Ainda vermelhos
Como rabanetes
Ainda roxos
Como repolhos
A dor dos vegetais
É silenciosa
Angústia sentida
Que não chora
Em sua mudez
Uma mulher muda
Trucidada a golpes
De facão
De machadinho
De triturador elétrico
Para virar suco.
Só o homem pensa
Que vegetal não sofre
Pois não grita a sua dor
Pois nem voz tem.
Sem remorso algum
Sem culpa nenhuma
O vegetal é mastigado
Saborosamente pelo homem
Que defende os animais
De quatro pernas
Pernas para o ar
Mas continua comendo
Vegetais.
Se aprendêssemos
Com os vegetais nos alimentaríamos
Apenas de sais minerais
Da terra profunda
Apenas de gás carbônico
Do céu profundo
Mas não passamos de
Selvagens predando
Vidas vegetais
E outras...
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Dodó e Zezé
Música de Tom Zé
- E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão?
Diga, Zezé.
- É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?
- E por que é que a gente tem que ter um medo danado
de tudo na vida? Diga, Zezé.
- É pra aprender que o medo é o nosso melhor conselheiro,
viu, Dodó?
- Sorrisos, creme dental e tudo. E por que é que a felicidade
anda me bombardeando? Diga, Zezé.
- Anda o que, Dodó?
- Anda me bombardeando.
- Ah! É pra provar que ninguém mais tem o direito de ser infeliz,
viu, Dodó?
- E por que é que um Zé qualquer de vez em quando tem que dar sete
sopapos na mulher? Diga, Zezé.
- Ah! Isso é pra no outro dia de manhã cedinho vender muito jornal,
viu, Dodó?
- E por que é, e por que é, e por que é, e por que é? Diga, Zezé.
- É porque porque, porque porque, porque porque, porque porque,
viu, Dodó?
- E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão?
Diga, Zezé.
- É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?
- E por que é que a gente tem que ter um medo danado
de tudo na vida? Diga, Zezé.
- É pra aprender que o medo é o nosso melhor conselheiro,
viu, Dodó?
- Sorrisos, creme dental e tudo. E por que é que a felicidade
anda me bombardeando? Diga, Zezé.
- Anda o que, Dodó?
- Anda me bombardeando.
- Ah! É pra provar que ninguém mais tem o direito de ser infeliz,
viu, Dodó?
- E por que é que um Zé qualquer de vez em quando tem que dar sete
sopapos na mulher? Diga, Zezé.
- Ah! Isso é pra no outro dia de manhã cedinho vender muito jornal,
viu, Dodó?
- E por que é, e por que é, e por que é, e por que é? Diga, Zezé.
- É porque porque, porque porque, porque porque, porque porque,
viu, Dodó?
terça-feira, 27 de abril de 2010
Sensation
Par les soirs bleus d’eté, j’irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la faîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l’amour infini me montera dans l’âme,
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.
Arthur Rimbaud
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la faîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l’amour infini me montera dans l’âme,
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.
Arthur Rimbaud
???
Blablablablabla:
Blablablablabla,
Blablablablabla,
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla;
Blablablablabla
Blablablablabla!!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla:
Blablablablabla?
Blablablablabla?
Blablablablabla!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla...
Blablablablabla,
Blablablablabla,
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla;
Blablablablabla
Blablablablabla!!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla:
Blablablablabla?
Blablablablabla?
Blablablablabla!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla...
Guerra de crianças
Naquela vila do interior havia
Nos tempos que usava calça curta
Uma guerra de crianças
De um lado havia os azuis
De outro havia os verdes
Cada grupo defendia suas idéias
Cada grupo defendia seus brinquedos
Cada um achava que o seu era
Infinitamente mais belo
Infinitamente mais justo
Por isso lutavam por suas
Causas infantis
Incrivelmente infantis
Incrivelmente egoístas
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Os azuis achavam que o céu
Superava as matas
Os verdes achavam que as matas
Superavam o céu
Por longas noites brigaram
E o tempo passou
Eles passaram
Mas seus filhos e seus netos
Continuaram a tradição
Cada um defendendo aquilo
Que achavam certo
De um lado os azuis
De outro os verdes
Até que um foi alvejado
Não se sabe se era um azul
Não se sabe se era um verde
Era vermelho o líquido que
Correu pelo chão
Mas cada um continuou
Defendendo suas cores
Apaixonadamente defendiam
Passou a paixão
Não defenderam mais
Passaram então a atacar
Até que o próximo fosse
Atingido
Pela intolerância de suas
Propostas.
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Nos tempos que usava calça curta
Uma guerra de crianças
De um lado havia os azuis
De outro havia os verdes
Cada grupo defendia suas idéias
Cada grupo defendia seus brinquedos
Cada um achava que o seu era
Infinitamente mais belo
Infinitamente mais justo
Por isso lutavam por suas
Causas infantis
Incrivelmente infantis
Incrivelmente egoístas
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Os azuis achavam que o céu
Superava as matas
Os verdes achavam que as matas
Superavam o céu
Por longas noites brigaram
E o tempo passou
Eles passaram
Mas seus filhos e seus netos
Continuaram a tradição
Cada um defendendo aquilo
Que achavam certo
De um lado os azuis
De outro os verdes
Até que um foi alvejado
Não se sabe se era um azul
Não se sabe se era um verde
Era vermelho o líquido que
Correu pelo chão
Mas cada um continuou
Defendendo suas cores
Apaixonadamente defendiam
Passou a paixão
Não defenderam mais
Passaram então a atacar
Até que o próximo fosse
Atingido
Pela intolerância de suas
Propostas.
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Surpresa
Abre teus olhos de amêndoa, amor
e contempla esta flor que não é mais botão.
Cora tua face com a cor da pimenta
e não se demore,
aproxima-te,
experimenta.
e contempla esta flor que não é mais botão.
Cora tua face com a cor da pimenta
e não se demore,
aproxima-te,
experimenta.
Para as crianças
Ouça esta história menino
sabe, as nossas orelhas nunca param de crescer
veja as orelhas do vovô: são enormes, não são?!
Isto é assim desde que o tempo era novo
quanto mais vamos ficando velhinhos, mais precisamos ouvir
ouvir com paciência para ver o coração dos outros
tendo o nosso coração sereno — há sempre novidades (sussurrando
Veja aquela estátua de Buda, que orelhas enormes!!! (e gargalhou...
O que é sereno? — perguntou o menino
sabe, as nossas orelhas nunca param de crescer
veja as orelhas do vovô: são enormes, não são?!
Isto é assim desde que o tempo era novo
quanto mais vamos ficando velhinhos, mais precisamos ouvir
ouvir com paciência para ver o coração dos outros
tendo o nosso coração sereno — há sempre novidades (sussurrando
Veja aquela estátua de Buda, que orelhas enormes!!! (e gargalhou...
O que é sereno? — perguntou o menino
segunda-feira, 26 de abril de 2010
A maçã sem amor
Uma maçã redonda e bela
Mais bela é a maçã de seu rosto
Uma maçã que ofereço a ela
É a maçã de seu rosto que quero.
Se me desse não comeria
Guardaria somente para mim
Quero seu coração por inteiro
Quero a lua desta noite
Quero o pântano e o deserto
Para morrer um pouco
Todo meu desencantamento
Perdi a inocência de outrora
Fiquei mais cínico
Nada mais quero
Mais bela é a maçã de seu rosto
Uma maçã que ofereço a ela
É a maçã de seu rosto que quero.
Se me desse não comeria
Guardaria somente para mim
Quero seu coração por inteiro
Quero a lua desta noite
Quero o pântano e o deserto
Para morrer um pouco
Todo meu desencantamento
Perdi a inocência de outrora
Fiquei mais cínico
Nada mais quero
Poema de finados
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho;
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem & Estrela da Manhã, RJ, Nova Fronteira, 2000
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho;
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem & Estrela da Manhã, RJ, Nova Fronteira, 2000
domingo, 25 de abril de 2010
Levantando bandeiras
Um movimento foi inventado
Criou-se uma bandeira
Uma causa foi criada
Uma criada também criou
O sindicato das criadas
Que defendia interesses comuns
Das criadas malcriadas
As bem criadas também criaram
Uma criação de pintos de corte
Houve protesto contra o corte
Dos pintos de corte
Houve protesto contra o próprio pinto
Em nome dos bons costumes
Das famílias bem constituídas
Da tradição e da propriedade
Das instituições de classe
Que nada mais criou
Se criasse seria mal falado
Por isso criou também
O movimento dos mal falados
Que falavam de todo mundo
De todos os outros movimentos
Criados e inventados sem criatividade
Alguma
Alguns bizarros
Como o movimento em defesa dos gnomos
“libertem os anões de jardim era o lema”
Criou-se o Partido dos Sapateiros sem Causa
Criou-se o Partido dos Sapateiros com Causa
Sem causa própria aqueles que não tinham causa
Alguma
Defenderam o direito dos cachorros vira-latas
Que poderiam vagar pela cidade
Sem serem incomodados.
Criou-se uma bandeira
Uma causa foi criada
Uma criada também criou
O sindicato das criadas
Que defendia interesses comuns
Das criadas malcriadas
As bem criadas também criaram
Uma criação de pintos de corte
Houve protesto contra o corte
Dos pintos de corte
Houve protesto contra o próprio pinto
Em nome dos bons costumes
Das famílias bem constituídas
Da tradição e da propriedade
Das instituições de classe
Que nada mais criou
Se criasse seria mal falado
Por isso criou também
O movimento dos mal falados
Que falavam de todo mundo
De todos os outros movimentos
Criados e inventados sem criatividade
Alguma
Alguns bizarros
Como o movimento em defesa dos gnomos
“libertem os anões de jardim era o lema”
Criou-se o Partido dos Sapateiros sem Causa
Criou-se o Partido dos Sapateiros com Causa
Sem causa própria aqueles que não tinham causa
Alguma
Defenderam o direito dos cachorros vira-latas
Que poderiam vagar pela cidade
Sem serem incomodados.
Vendedora de água
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Não havia quem comprava
Não havia quem comprava
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem se interessou
Um homem se interessou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem comprou
Um homem comprou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Quem será o próximo
Quem será o próximo
Vendia água na beira do rio
Não havia quem comprava
Não havia quem comprava
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem se interessou
Um homem se interessou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem comprou
Um homem comprou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Quem será o próximo
Quem será o próximo
sábado, 24 de abril de 2010
Protesto verde
As plantas da minha casa
Não querem ser devoradas
Como que as plantas não sentissem
Nada nenhuma dor aparente
A ser arrancada da terra fofa.
As plantas da minha casa
Querem ouvir música boa
E alegres ficam
Numa platéia cheia de
Margaridas e flor de macieira.
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Somente uma planta entende outra
Somente um animal entende outro
Por isso defendemos os animais
Que sente dor e sofre
Mas
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Não foi uma planta
Foi um animal!
Não querem ser devoradas
Como que as plantas não sentissem
Nada nenhuma dor aparente
A ser arrancada da terra fofa.
As plantas da minha casa
Querem ouvir música boa
E alegres ficam
Numa platéia cheia de
Margaridas e flor de macieira.
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Somente uma planta entende outra
Somente um animal entende outro
Por isso defendemos os animais
Que sente dor e sofre
Mas
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Não foi uma planta
Foi um animal!
Ninguém cabe em si
Sim, as coisas estão no seu lugar
tão perfeitamente que não há como entender
As coisas óbvias são a sabedoria
tão desfocada para os míopes contumazes
Se você quer melhorar as coisas
começa pelo centro do mundo (você)
Mas não diga a ninguém
saiba, isto transborda.
tão perfeitamente que não há como entender
As coisas óbvias são a sabedoria
tão desfocada para os míopes contumazes
Se você quer melhorar as coisas
começa pelo centro do mundo (você)
Mas não diga a ninguém
saiba, isto transborda.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Alegria da diferença
Não apenas molha
A chuva que cai
Lentamente sobre o rosto
Lentamente sobre todo o corpo
Refrescando os ânimos exaltados
De nossas emoções mais profundas
De dizer o que não diz
De pensar o que não pensa
De fazer o que não se faz
Assim podemos contar figurinhas
Colecionadas por toda a vida
Sem importância alguma
Se importância tivesse
Nada colecionaria
Sem serventia alguma
Desta forma podemos começar
A viver de maneira completamente
Diferente
Como que a diferença fosse
A medida certa das conversações
Que podem falar a respeito
De suas diferenças
Caleidoscópicas e instáveis
De toda concordância
Concordância não é importante
Discordância é a liberdade
De discordar amigavelmente.
A chuva que cai
Lentamente sobre o rosto
Lentamente sobre todo o corpo
Refrescando os ânimos exaltados
De nossas emoções mais profundas
De dizer o que não diz
De pensar o que não pensa
De fazer o que não se faz
Assim podemos contar figurinhas
Colecionadas por toda a vida
Sem importância alguma
Se importância tivesse
Nada colecionaria
Sem serventia alguma
Desta forma podemos começar
A viver de maneira completamente
Diferente
Como que a diferença fosse
A medida certa das conversações
Que podem falar a respeito
De suas diferenças
Caleidoscópicas e instáveis
De toda concordância
Concordância não é importante
Discordância é a liberdade
De discordar amigavelmente.
Não estou...
“Não estou além de meu karma: os atos que cometi.
Ainda irei cair doente, envelhecer, morrer e deixar meus amigos.”
Pense assim de novo e de novo e, com esse antídoto, evite toda arrogância.
Ainda irei cair doente, envelhecer, morrer e deixar meus amigos.”
Pense assim de novo e de novo e, com esse antídoto, evite toda arrogância.
Nagarjuna
(Índia, séc. II)
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Por interesse próprio
Cansei-me dos discursos políticos
Em defesa própria
Dos interesses imediatos
Dos grupos interessados.
Sejam da construção
Da transmutação
E da religião
Seja também do interesse
Do síndico do prédio vizinho
Do sindicato de classe patronal
Também nacional e internacional
Do interesse que apenas visa
Enriquecimento próprio
Empobrecimento das faculdades
Um tanto quanto miseráveis
Por interessar por interesses
Que não merecem interesse
Algum.
Sem interesses podemos
Falar de outros assuntos
Incrivelmente interessantes.
Em defesa própria
Dos interesses imediatos
Dos grupos interessados.
Sejam da construção
Da transmutação
E da religião
Seja também do interesse
Do síndico do prédio vizinho
Do sindicato de classe patronal
Também nacional e internacional
Do interesse que apenas visa
Enriquecimento próprio
Empobrecimento das faculdades
Um tanto quanto miseráveis
Por interessar por interesses
Que não merecem interesse
Algum.
Sem interesses podemos
Falar de outros assuntos
Incrivelmente interessantes.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Caminhos do bairro
Pelos meandros deste bairro
Não encontrei o que queria
Até me esqueci que procurava
Enquanto o cheiro de macarronada
Percorria alegremente as ruas
De minha querida Bela Vista.
Numa mesa posta a toalha
Verde e branca bem passada
Não faltava vinho e pão
Não faltava queijo ralado.
Padaria é o que havia
Vendedora de olhos claros
Que lançava para todo lado
Um olhar que desmanchava
Todo ressentimento.
Não encontrei o que queria
Até me esqueci que procurava
Enquanto o cheiro de macarronada
Percorria alegremente as ruas
De minha querida Bela Vista.
Numa mesa posta a toalha
Verde e branca bem passada
Não faltava vinho e pão
Não faltava queijo ralado.
Padaria é o que havia
Vendedora de olhos claros
Que lançava para todo lado
Um olhar que desmanchava
Todo ressentimento.
O guardador de rebanhos
XVIII
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes disso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
CAEIRO. Alberto. Poemas Completos de
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes disso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
CAEIRO. Alberto. Poemas Completos de
O homem do saco
De minha infância
Ainda me lembro
Do homem do saco
Carregava nele as crianças
Para serem devoradas
Nas noites de lua cheia.
Por pouco não fui devorado
Pelo homem do saco
Mas devorou ele o meu gato
Mais tarde devorou os meus sonhos
De ser alguém nesta vida vazia
Comprar um fusca de segunda mão
Ser balconista na feira-livre
Fui me interessar justamente
Por tudo aquilo que não devia
Fui me interessar por poesia.
Fuji uma vez da poesia
Fui fazer faculdade de economia
Fui escrever história da vida
O tempo passou
A tristeza passou
Passou o filme mudo
E o filme falado e dublado
O fogo do amor passional
Passou.
Nada mais restou nesta vida
Somente a poesia.
Somente ela para alegrar
Esta vida tão chateada.
Ainda me lembro
Do homem do saco
Carregava nele as crianças
Para serem devoradas
Nas noites de lua cheia.
Por pouco não fui devorado
Pelo homem do saco
Mas devorou ele o meu gato
Mais tarde devorou os meus sonhos
De ser alguém nesta vida vazia
Comprar um fusca de segunda mão
Ser balconista na feira-livre
Fui me interessar justamente
Por tudo aquilo que não devia
Fui me interessar por poesia.
Fuji uma vez da poesia
Fui fazer faculdade de economia
Fui escrever história da vida
O tempo passou
A tristeza passou
Passou o filme mudo
E o filme falado e dublado
O fogo do amor passional
Passou.
Nada mais restou nesta vida
Somente a poesia.
Somente ela para alegrar
Esta vida tão chateada.
Bocas seladas
Toda vez que abrimos a boca
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que se pensa
Como que pensar fosse a medida
Certa e certeira de uma flecha
Ligeira que nunca se desvia
De seu alvo certeiro.
Toda vez que abrimos a boca
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que não pensa
Mas mesmo assim fala tudo aquilo
Que não deveria falar
Sem medir conseqüência.
Melhor é se calar
E calando somente os olhos
Revelam a sinceridade
De todo o silêncio
Isento de palavras
Pois as palavras podem mentir.
Alguns mentem para viver
Outros ainda para morrer
E os mortos não mentem jamais
Nem sentem ódio
Nem amam mais
Não têm ciúmes
Silenciosamente dormem.
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que se pensa
Como que pensar fosse a medida
Certa e certeira de uma flecha
Ligeira que nunca se desvia
De seu alvo certeiro.
Toda vez que abrimos a boca
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que não pensa
Mas mesmo assim fala tudo aquilo
Que não deveria falar
Sem medir conseqüência.
Melhor é se calar
E calando somente os olhos
Revelam a sinceridade
De todo o silêncio
Isento de palavras
Pois as palavras podem mentir.
Alguns mentem para viver
Outros ainda para morrer
E os mortos não mentem jamais
Nem sentem ódio
Nem amam mais
Não têm ciúmes
Silenciosamente dormem.
O monge

Bateu à porta do templo
Sem nada, andarilho, perdido.
'Entre, seja bem vindo'
Entrou, sentou,
Comeu, sentou,
Trabalhou, sentou
Limpou, sentou,
Leu, sentou,
Rezou, sentou,
Costurou, costurou,
Costurou, sentou,
E sentado, calou.
No daike, taiko,
E o fumo do incenso chamou...
Pronto seu manto, voltou a ser monge
Monge, já há muito ordenado
De volta a seu templo, chamado.
Mendicante, tomou a estrada,
Saiu como entrou: sem nada
Deixou no templo o hashi,
E os chinelos na escada...
(dedico aos meus irmãos do Bushinji)
Primeira comunhão primeira condenação
Aqueles meninos de camisa branca
Impecavelmente brancas eram suas almas
Com suas calças azuis marinho
Recebendo a primeira comunhão.
Menos um.
Sua camisa também branca
Mas condenado ao fogo do inferno
Deixou de contar o único pecado
Por vergonha
Talvez
Simplesmente deixou de contar
No confessionário.
Levantou a saia de Mariazinha
Nunca se arrependeu disso
Ainda que fosse condenado
Queimado e estorricado
Morto e cruxificado
Por tudo neste mundo
Mariazinha era o seu pecado.
Impecavelmente brancas eram suas almas
Com suas calças azuis marinho
Recebendo a primeira comunhão.
Menos um.
Sua camisa também branca
Mas condenado ao fogo do inferno
Deixou de contar o único pecado
Por vergonha
Talvez
Simplesmente deixou de contar
No confessionário.
Levantou a saia de Mariazinha
Nunca se arrependeu disso
Ainda que fosse condenado
Queimado e estorricado
Morto e cruxificado
Por tudo neste mundo
Mariazinha era o seu pecado.
Os três amores do menino
Os amores que já tive
Não tenho mais.
Onde foi parar Raimunda
A filha da empregada
Com ela aprendi as primeiras
Lições de anatomia
Num caderno de ciências
Numa aula de geografia.
Onde foi parar Célia Regina
Que trabalhava numa granja
De galinhas depiladas
Mergulhadas em fogo brando.
Onde foi parar Maria Rosa
Que batia pernas pela rua
Subindo e descendo ladeiras
Da cidade de minha infância.
Onde foi parar o menino
Que a tudo isso via
O menino se foi e homem formado
Achou uma grande bobagem
Tudo isso.
Mas o menino ainda existe
Nas lembranças de
Raimunda
Célia Regina e
Maria Rosa.
Enquanto elas existirem
O menino continua existindo.
O homem esqueceu
Não o menino!
Não tenho mais.
Onde foi parar Raimunda
A filha da empregada
Com ela aprendi as primeiras
Lições de anatomia
Num caderno de ciências
Numa aula de geografia.
Onde foi parar Célia Regina
Que trabalhava numa granja
De galinhas depiladas
Mergulhadas em fogo brando.
Onde foi parar Maria Rosa
Que batia pernas pela rua
Subindo e descendo ladeiras
Da cidade de minha infância.
Onde foi parar o menino
Que a tudo isso via
O menino se foi e homem formado
Achou uma grande bobagem
Tudo isso.
Mas o menino ainda existe
Nas lembranças de
Raimunda
Célia Regina e
Maria Rosa.
Enquanto elas existirem
O menino continua existindo.
O homem esqueceu
Não o menino!
A imagem vazia
Nunca me assustei
Um dia me contaram que
Nada existia na cabeça
Da imagem de Kannon
Vazia ela existia para a eternidade
Por imensa compaixão vazia
Sem piedade alguma
Sem tristeza e choro
Sem comiseração
Sem desejo de salvar ninguém
Sem desejo algum
Mas suas orelhas grandes
A tudo ouve
Mas seus olhos miúdos
A tudo vê
Estronda um trovão
E segue-se uma tempestade
Nem toda água enche seu coração
Seu coração também é vazio
Por isso oramos para ela
Com o coração igualmente vazio
Seu sorriso é contagiante
Vazio e contagiante
Somos a própria imagem de Kannon
Somos Kannon
Sem ser imagem
Apenas compaixão
Totalmente vazio.
Um dia me contaram que
Nada existia na cabeça
Da imagem de Kannon
Vazia ela existia para a eternidade
Por imensa compaixão vazia
Sem piedade alguma
Sem tristeza e choro
Sem comiseração
Sem desejo de salvar ninguém
Sem desejo algum
Mas suas orelhas grandes
A tudo ouve
Mas seus olhos miúdos
A tudo vê
Estronda um trovão
E segue-se uma tempestade
Nem toda água enche seu coração
Seu coração também é vazio
Por isso oramos para ela
Com o coração igualmente vazio
Seu sorriso é contagiante
Vazio e contagiante
Somos a própria imagem de Kannon
Somos Kannon
Sem ser imagem
Apenas compaixão
Totalmente vazio.
Desaparecendo no tempo
Mergulho no silêncio de minha’lma
Sem saber se tenho uma
Se tenho uma alma?
Se tenho um silêncio?
Mas no silêncio deste momento
Nenhum pensamento me visita
Calmo no silêncio
Silencio perfeitamente
Que penso que sou silêncio
Nem penso mais e o silêncio
Também desaparece
Nada mais resta do que
Esta fresca manhã de outono
Desaparecer completamente
Ser a manhã de outono
Que também desaparece.
Sem saber se tenho uma
Se tenho uma alma?
Se tenho um silêncio?
Mas no silêncio deste momento
Nenhum pensamento me visita
Calmo no silêncio
Silencio perfeitamente
Que penso que sou silêncio
Nem penso mais e o silêncio
Também desaparece
Nada mais resta do que
Esta fresca manhã de outono
Desaparecer completamente
Ser a manhã de outono
Que também desaparece.
domingo, 18 de abril de 2010
Oração no saco de Mangaratiba
Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
BANDEIRA. Manuel. Libertinagem, Estrela da Manhã. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2005. p.50
O que restou da Augusta
Augusta era o nome dela
Augusta virou nome de rua
Que à noite logo se transforma
As transformistas da noite
Em roupas de couro preto
Expostas em vitrines opacas
Augusta era o nome dela
Augusta virou nome de rua
Mas antes era nome de mulher
Que freqüentava os cinemas
Lá daquela rua mesma
Que freqüentava os bares
Lá daquela rua mesma
Também a chapelaria
Os bares em que tomavam
Água tônica com guaraná
Os boêmios tomavam por lá
Os primeiros goles da noite
Os últimos da madrugada
Augusta virou noite
Augusta virou todas as mulheres
Que esperam que alguém
Envie uma carta de amor
Não se sabe de onde
Pode ser de onde for
Pode ser da presidência
Pode ser também da cadeia
Pois todos somos prisioneiros
De nossa própria vaidade
Prisioneiro dos sonhos
Esperança que nunca morre.
Augusta era o nome dela...
Augusta virou nome de rua
Que à noite logo se transforma
As transformistas da noite
Em roupas de couro preto
Expostas em vitrines opacas
Augusta era o nome dela
Augusta virou nome de rua
Mas antes era nome de mulher
Que freqüentava os cinemas
Lá daquela rua mesma
Que freqüentava os bares
Lá daquela rua mesma
Também a chapelaria
Os bares em que tomavam
Água tônica com guaraná
Os boêmios tomavam por lá
Os primeiros goles da noite
Os últimos da madrugada
Augusta virou noite
Augusta virou todas as mulheres
Que esperam que alguém
Envie uma carta de amor
Não se sabe de onde
Pode ser de onde for
Pode ser da presidência
Pode ser também da cadeia
Pois todos somos prisioneiros
De nossa própria vaidade
Prisioneiro dos sonhos
Esperança que nunca morre.
Augusta era o nome dela...
A bailarina no fio da vida
Por um fio elétrico de alta tensão
Sem pestanejar caminhava a bailarina
Com os pés enfiados em sapatilhas
Deslizava numa dança de plumas
Que flutuava ao sabor da ventania
Todo dia lá estava ela a desfilar
Seu corpo de bailarina
Leve era ela que balançava
Para a platéia em dia de sol
Em dia de chuva ela não molhava
Seus pés que deslizava em sapatilhas
Não deixava de desfilar no fio da vida
Desprezando todo perigo
Se perigo realmente havia
Por desfilar num fio da vida
Um fio elétrico de alta tensão
Mas a bailarina nunca deixou
Um dia sequer de desfilar
Diante da multidão que pedia mais
Desfilava toda a sua graça
Delicada era ela seus pés sua cintura fina
Ela era bailarina.
Se um dia ela parasse de desfilar
O que seria da vida
Desta vida sem graça alguma
Se um dia ela parasse de desfilar
Ninguém mais olharia para cima
Terminariam os torcicolos
Mas também os sonhos de todos nós
Sonho de ser bailarina
E poder desfilar num fio apenas
Fio elétrico de alta tensão
Fio da vida
Fio que sustenta toda a minha vida
Me faz acreditar que a esperança
Ainda não caiu num balanço maior
Numa rajada de vento atroz.
Sem pestanejar caminhava a bailarina
Com os pés enfiados em sapatilhas
Deslizava numa dança de plumas
Que flutuava ao sabor da ventania
Todo dia lá estava ela a desfilar
Seu corpo de bailarina
Leve era ela que balançava
Para a platéia em dia de sol
Em dia de chuva ela não molhava
Seus pés que deslizava em sapatilhas
Não deixava de desfilar no fio da vida
Desprezando todo perigo
Se perigo realmente havia
Por desfilar num fio da vida
Um fio elétrico de alta tensão
Mas a bailarina nunca deixou
Um dia sequer de desfilar
Diante da multidão que pedia mais
Desfilava toda a sua graça
Delicada era ela seus pés sua cintura fina
Ela era bailarina.
Se um dia ela parasse de desfilar
O que seria da vida
Desta vida sem graça alguma
Se um dia ela parasse de desfilar
Ninguém mais olharia para cima
Terminariam os torcicolos
Mas também os sonhos de todos nós
Sonho de ser bailarina
E poder desfilar num fio apenas
Fio elétrico de alta tensão
Fio da vida
Fio que sustenta toda a minha vida
Me faz acreditar que a esperança
Ainda não caiu num balanço maior
Numa rajada de vento atroz.
Correspondencias
Baudelaire
A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.
Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.
Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,
Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.
A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.
Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.
Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,
Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Na praça da República
Aceita um pão? disse,
com mortadela.
Ele: com um sarrafo ou
uma adaga na mão -
É caridade? Caridade?
Dinheiro? Dinheiro?
- o rosto sumindo denso
por trás de fios negros -
Ah, comida!? Comida - exclamou!
comida você dá para o seu cachorro...
E sem esperar,
fui maldito,
realmente dito,
o reverso,
autêntico
mal.
com mortadela.
Ele: com um sarrafo ou
uma adaga na mão -
É caridade? Caridade?
Dinheiro? Dinheiro?
- o rosto sumindo denso
por trás de fios negros -
Ah, comida!? Comida - exclamou!
comida você dá para o seu cachorro...
E sem esperar,
fui maldito,
realmente dito,
o reverso,
autêntico
mal.
domingo, 11 de abril de 2010
Fingimos para ser aceito
Por uma questão de bom senso
Por uma questão de bons princípios
Aprendemos a mentir
Mentimos descaradamente
Entre amigos e inimigos (independentemente)
Mostrando uma cara falseada
Que evita olhar nos olhos
Pois os olhos revelam segredos
Que mentira alguma possa ocultar
Por trás das cortinas do teatro.
Mentimos ao negar nossos sentimentos
Alguns patéticos outros nem tanto
Fingimos que somos outra coisa
Que queremos ser outra coisa
Negando o que somos agora
Somos tudo aquilo que não somos
Somos a negação do que representamos
Somos a morte e a vida
Somos o amor e a decepção.
Por uma questão de bons princípios
Aprendemos a mentir
Mentimos descaradamente
Entre amigos e inimigos (independentemente)
Mostrando uma cara falseada
Que evita olhar nos olhos
Pois os olhos revelam segredos
Que mentira alguma possa ocultar
Por trás das cortinas do teatro.
Mentimos ao negar nossos sentimentos
Alguns patéticos outros nem tanto
Fingimos que somos outra coisa
Que queremos ser outra coisa
Negando o que somos agora
Somos tudo aquilo que não somos
Somos a negação do que representamos
Somos a morte e a vida
Somos o amor e a decepção.
Vizinha muda
Quem realmente habita o lado
Será uma moça muda
Que o tempo todo assiste televisão
Que ausente de namorado
Espera em sua mesa posta
Toda noite depois da novela
O jantar que jamais será servido
Mesmo assim repete a rotina
Não uma rotina qualquer que seja
Mas esperança que nunca acaba
Esperança de que ela fale comigo
E podemos ser inclusive amigos
E jogar xadrez
E discutir filatelia
Tirar fotografias
Num condomínio que ninguém
Mais fala.
Será uma moça muda
Que o tempo todo assiste televisão
Que ausente de namorado
Espera em sua mesa posta
Toda noite depois da novela
O jantar que jamais será servido
Mesmo assim repete a rotina
Não uma rotina qualquer que seja
Mas esperança que nunca acaba
Esperança de que ela fale comigo
E podemos ser inclusive amigos
E jogar xadrez
E discutir filatelia
Tirar fotografias
Num condomínio que ninguém
Mais fala.
E a noite cai devagar cai
Quando a noite escurece
Também escurece o coração
Daquele que sentado espera
Ao relento a noite escurecer
Assim poderá se isolar em seu mundo
Particular e restrito de uma calçada úmida
Repartindo a geografia com as lacraias
Que ao seu lado aquecem corpos doloridos
Num único cobertor imundo e bolorento
Sem se importar com o resto que o circunda
Anônimos como eu que percorre caminhos
Com destino certo
Prisioneiro do destino.
Mas aquele não
Que anda na contramão totalmente livre
Ainda que não tenha teto e parede
Que servem apenas para isolar.
Mas aquele não
O céu inteiro é o teto que necessita
A cama na rua é macia e fria
Enregela seus ossos já com artrite
Mas não está feliz
Nem infeliz talvez indiferente
Com a direção dos ventos.
Também escurece o coração
Daquele que sentado espera
Ao relento a noite escurecer
Assim poderá se isolar em seu mundo
Particular e restrito de uma calçada úmida
Repartindo a geografia com as lacraias
Que ao seu lado aquecem corpos doloridos
Num único cobertor imundo e bolorento
Sem se importar com o resto que o circunda
Anônimos como eu que percorre caminhos
Com destino certo
Prisioneiro do destino.
Mas aquele não
Que anda na contramão totalmente livre
Ainda que não tenha teto e parede
Que servem apenas para isolar.
Mas aquele não
O céu inteiro é o teto que necessita
A cama na rua é macia e fria
Enregela seus ossos já com artrite
Mas não está feliz
Nem infeliz talvez indiferente
Com a direção dos ventos.
Vagabundo
Entre ficar em casa arrumando as coisas
e sair por aí à toa sem pretender organizar seja o que for
Preferi a segunda opção. As coisa que esperem
pois não esperam, não estão nem aí
e eu já nem estou aqui.
e sair por aí à toa sem pretender organizar seja o que for
Preferi a segunda opção. As coisa que esperem
pois não esperam, não estão nem aí
e eu já nem estou aqui.
Etérea fumaça
Não fumo.
Fumaça,
Que da brasa é o sumo,
Do cigarro ou charuto.
Pelo olhar, grito insano
Fétido vapor antiético
Saliva e odor decrépito
Incensário patético,
Espantalho do amor e do bom sexo.
É "adereço" da finesse,
Julgado como sexy...
E garanto:
Nada mais eloquente,
refinado, classudo, atraente,
que em mi'a boca repousando encostado,
Meu lendário cachimbo apagado.
Fumaça,
Que da brasa é o sumo,
Do cigarro ou charuto.
Pelo olhar, grito insano
Fétido vapor antiético
Saliva e odor decrépito
Incensário patético,
Espantalho do amor e do bom sexo.
É "adereço" da finesse,
Julgado como sexy...
E garanto:
Nada mais eloquente,
refinado, classudo, atraente,
que em mi'a boca repousando encostado,
Meu lendário cachimbo apagado.
sábado, 10 de abril de 2010
Uma vida efêmera
Ainda que segredos possam ser
Guardados em baús empoeirados
Que enterramos nos porões profundos
De uma memória desprezada até o esquecimento
Como fosse possível destruir as casas
De um passado longínquo em que habitamos.
Se ainda fosse possível
Das ruínas surgiriam os fantasmas
Exigindo reconhecimento
Pois nem os fantasmas podem ser esquecidos
Nem a tristeza da separação
Quem viveu calará por um momento
Quem não viveu nada terá para ser lembrado
Somente os amores não realizados merecem
Consideração.
Pois continuam existindo como sonho
Daqueles puros de coração.
Pois a vida não passa de um sonho
Vivido com intensidade
Como tudo nela fosse verdade.
Guardados em baús empoeirados
Que enterramos nos porões profundos
De uma memória desprezada até o esquecimento
Como fosse possível destruir as casas
De um passado longínquo em que habitamos.
Se ainda fosse possível
Das ruínas surgiriam os fantasmas
Exigindo reconhecimento
Pois nem os fantasmas podem ser esquecidos
Nem a tristeza da separação
Quem viveu calará por um momento
Quem não viveu nada terá para ser lembrado
Somente os amores não realizados merecem
Consideração.
Pois continuam existindo como sonho
Daqueles puros de coração.
Pois a vida não passa de um sonho
Vivido com intensidade
Como tudo nela fosse verdade.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Minha bandeira é protestar
Se vida alguma tem sentido
Levantem bandeiras de protesto
Protestem contra o saco de plástico
Também contra a pilha de rádio
As pilhas do telefone celular
Contra o aerosol e também o sonrisal
Protestem contra os comedores de carne
Humana e desumana
Contra o sapato de couro
Contra o sapo e a rã
Contra quem atirou o pau no gato
Contra também quem come verdura
Pois verdura também sofre
Cortado salgado refogado na panela
Protestem afinal
Contra os próprios protestantes
Cuja função é protestar
Levantem bandeiras de protesto
Protestem contra o saco de plástico
Também contra a pilha de rádio
As pilhas do telefone celular
Contra o aerosol e também o sonrisal
Protestem contra os comedores de carne
Humana e desumana
Contra o sapato de couro
Contra o sapo e a rã
Contra quem atirou o pau no gato
Contra também quem come verdura
Pois verdura também sofre
Cortado salgado refogado na panela
Protestem afinal
Contra os próprios protestantes
Cuja função é protestar
Pelos caminhos tortos
Que sorte me lançará
A leitura nas folhas de chá.
Minha vida não foi muito certa
Aliás foi incerta desde que nasci
Inquieto diante às incertezas de meu futuro
Não estudei engenharia
Nunca me interessei por raiz quadrada
Esqueci a regra três
Direito não serviria com a vida pretendida
Nem sabia para quê servia viver
Se viver era dar sentido
Sentido algum encontrei na vida vivida.
Por não ter sentido algum
Senti-me livre para viver alegremente
Nas asas do sonho em que alimento
Os amores recusados
Pelo endurecimento das emoções.
Somente no silêncio a fala surge
Com clareza maior
O sol se rompendo na manhã
No horizonte ainda negro e soturno.
Fecha-se os olhos para ver!
Que sorte me lançará
A leitura nas folhas de chá.
A leitura nas folhas de chá.
Minha vida não foi muito certa
Aliás foi incerta desde que nasci
Inquieto diante às incertezas de meu futuro
Não estudei engenharia
Nunca me interessei por raiz quadrada
Esqueci a regra três
Direito não serviria com a vida pretendida
Nem sabia para quê servia viver
Se viver era dar sentido
Sentido algum encontrei na vida vivida.
Por não ter sentido algum
Senti-me livre para viver alegremente
Nas asas do sonho em que alimento
Os amores recusados
Pelo endurecimento das emoções.
Somente no silêncio a fala surge
Com clareza maior
O sol se rompendo na manhã
No horizonte ainda negro e soturno.
Fecha-se os olhos para ver!
Que sorte me lançará
A leitura nas folhas de chá.
Vida passageira numa cadeira de balanço
Da área de sua casa
Numa cadeira de balanço
Uma velha com um gato no colo
Balança e vê a via passar.
O gato também balança
E acaba por adormecer
Dormem no mesmo balanço
A velha que descansa
E o gato que dorme
A velha que dorme
O gato que descansa
E a vida passa
Passageira ela passa
Num instante
Breve existência que passa
Ligeiro passa
Passa na rua o vendedor de pamonha
Pamonha de Piracicaba
A primavera passa
A juventude passageira
Do rock da pesada que passa
Até mesmo Carlos Drummond e Andrade
Passou deixando atrás de si
Um rastro de versos livres
Totalmente livres
Que passam a minha vida
Em reverso.
Numa cadeira de balanço
Uma velha com um gato no colo
Balança e vê a via passar.
O gato também balança
E acaba por adormecer
Dormem no mesmo balanço
A velha que descansa
E o gato que dorme
A velha que dorme
O gato que descansa
E a vida passa
Passageira ela passa
Num instante
Breve existência que passa
Ligeiro passa
Passa na rua o vendedor de pamonha
Pamonha de Piracicaba
A primavera passa
A juventude passageira
Do rock da pesada que passa
Até mesmo Carlos Drummond e Andrade
Passou deixando atrás de si
Um rastro de versos livres
Totalmente livres
Que passam a minha vida
Em reverso.
Em trânsito
menina distraída
no vagão do metrô
olhe para cá
que eu finjo que é pra mim
*
vinho da cuca
Led Zeppelin no fone de ouvido
despenco ladeira abaixo
o anjo da guarda agarrado
na garupa da bicicleta
*
dias de chuvarada
finalmentge o céu abriu
da chegada do outono
restou o nariz escorrendo
no vagão do metrô
olhe para cá
que eu finjo que é pra mim
*
vinho da cuca
Led Zeppelin no fone de ouvido
despenco ladeira abaixo
o anjo da guarda agarrado
na garupa da bicicleta
*
dias de chuvarada
finalmentge o céu abriu
da chegada do outono
restou o nariz escorrendo
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Quando a noite caia
Pelas ruas da Aurora
Lá no centro da cidade
Que outrora havia pastelarias
De chineses que por aqui chegaram
Trazendo em bagagens muambas de terra longínqua
Não se sabe para onde foram
Sumiram com as boas moças de saia curta
Que exibiam formas parabólicas
De um quadro surrealista de um artista desaparecido
Havia alegria nas portas dos cinemas de bilheteria barata
Exibindo nas telas mofadas belezas da indústria nacional
Nada disso existe mais
Nem mesmo uma curiosidade por espiar
Pelo canto do olho arrepiado
Um pecado da noite que se vai
Mas passado um tempo demorado
Quando retorno à calçada do passado
Nenhuma porta se abre mais
Para um espetáculo interessante
Das bailarinas fingindo meninas
Despidas de toda vergonha com arte e mesura
Vênus platinada que pensava ser
Artista de Hollywood.
Uma inocência havia na cara estampada
Das moças de má vida.
Das moças de família.
Nada disso existe mais
Na Aurora de nossa vida.
Lá no centro da cidade
Que outrora havia pastelarias
De chineses que por aqui chegaram
Trazendo em bagagens muambas de terra longínqua
Não se sabe para onde foram
Sumiram com as boas moças de saia curta
Que exibiam formas parabólicas
De um quadro surrealista de um artista desaparecido
Havia alegria nas portas dos cinemas de bilheteria barata
Exibindo nas telas mofadas belezas da indústria nacional
Nada disso existe mais
Nem mesmo uma curiosidade por espiar
Pelo canto do olho arrepiado
Um pecado da noite que se vai
Mas passado um tempo demorado
Quando retorno à calçada do passado
Nenhuma porta se abre mais
Para um espetáculo interessante
Das bailarinas fingindo meninas
Despidas de toda vergonha com arte e mesura
Vênus platinada que pensava ser
Artista de Hollywood.
Uma inocência havia na cara estampada
Das moças de má vida.
Das moças de família.
Nada disso existe mais
Na Aurora de nossa vida.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Paulistano
Andam em meu sangue:
as putas da Luz
as crianças miseráveis dos Céus
os mendigos de papelão do Paraíso
as bichas carentes da Consolação
os gatunos da República
os pastores engravatados da Sé
e os bêbados equilibristas da Liberdade.
Foi ao derramar sangue na rua que percebi isto
Sangue que saía de dentro deste corpo
e manchava a calçada encardida
Foi aí que percebi.
as putas da Luz
as crianças miseráveis dos Céus
os mendigos de papelão do Paraíso
as bichas carentes da Consolação
os gatunos da República
os pastores engravatados da Sé
e os bêbados equilibristas da Liberdade.
Foi ao derramar sangue na rua que percebi isto
Sangue que saía de dentro deste corpo
e manchava a calçada encardida
Foi aí que percebi.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Um pedido pequeno
Logo surgiu adiante
Sua palma suja e grande pedia
Um auxílio menor que fosse
Antes de atendê-lo pedi primeiro:
Varra o chão e deposite as folhas
Num cesto de lixo.
Não entendeu
Insistiu com braço estendido
Um auxílio menor que fosse
Insisti em meu pedido primeiro:
Cate as folhas primeiro
Mas ele
Não entendeu
Foi-se zangado e praguejou
Pedia apenas
Um auxílio menor que fosse.
Mas o meu pedido
Era grande demais!
Sua palma suja e grande pedia
Um auxílio menor que fosse
Antes de atendê-lo pedi primeiro:
Varra o chão e deposite as folhas
Num cesto de lixo.
Não entendeu
Insistiu com braço estendido
Um auxílio menor que fosse
Insisti em meu pedido primeiro:
Cate as folhas primeiro
Mas ele
Não entendeu
Foi-se zangado e praguejou
Pedia apenas
Um auxílio menor que fosse.
Mas o meu pedido
Era grande demais!
A bela e os outros
Olhar altivo olha
Por cima do muro
Enquanto a multidão se dispersa
Depois da chuva
Quem olha não vê ninguém
Pois ninguém merece ser visto
Além daquilo que lhe é útil.
Inútil os outros
Que vivem a correr
De um ponto para outro
Para lugar algum.
Sempre no mesmo ponto
Abaixo do mesmo viaduto
Arruma a cama de papelão
Sua companhia:
Um velho doente
Um cachorro com sarnas.
Um espelho para ver o rosto
E enaltecer sua vaidade
Mulher mais bela não há
Do que ela própria.
Por cima do muro
Enquanto a multidão se dispersa
Depois da chuva
Quem olha não vê ninguém
Pois ninguém merece ser visto
Além daquilo que lhe é útil.
Inútil os outros
Que vivem a correr
De um ponto para outro
Para lugar algum.
Sempre no mesmo ponto
Abaixo do mesmo viaduto
Arruma a cama de papelão
Sua companhia:
Um velho doente
Um cachorro com sarnas.
Um espelho para ver o rosto
E enaltecer sua vaidade
Mulher mais bela não há
Do que ela própria.
Sonhos desfeitos
Que dizem as paredes desta metrópole
Em cujas fissuras esconde-se uma alma
Desiludida talvez dos sonhos amarelados
Que de velho ficaram desbotados
Ficaram mal falados na língua alheia.
Mas que me importa o que digam
Digam que esquecerei em instantes
A vergonha de não ter realizado
Um sonho passado.
Não fui pianista
Deixei de ser anatomista
Queria ser artista de circo
Fui artista da vida
E representei tão bem a comédia humana
Que de tragédia nada tinha
Ninguém aplaudiu
Todos riram e pediram mais
Foi demais para a alma pequena
Continuei a representar papeis secundários
Pensando ser maioral
Cujo talento maior
Era não ter talento para
Ator principal.
Em cujas fissuras esconde-se uma alma
Desiludida talvez dos sonhos amarelados
Que de velho ficaram desbotados
Ficaram mal falados na língua alheia.
Mas que me importa o que digam
Digam que esquecerei em instantes
A vergonha de não ter realizado
Um sonho passado.
Não fui pianista
Deixei de ser anatomista
Queria ser artista de circo
Fui artista da vida
E representei tão bem a comédia humana
Que de tragédia nada tinha
Ninguém aplaudiu
Todos riram e pediram mais
Foi demais para a alma pequena
Continuei a representar papeis secundários
Pensando ser maioral
Cujo talento maior
Era não ter talento para
Ator principal.
Ao frio da tarde
O que me resta naquela cidade
Em que nem as ruas me reconhecem
Mais
Nem mesmo um rosto que seja
Familiar
Em cada esquina que passo
Mais estranho sinto
Um calafrio que me percorre
A espinha
De uma maleita nunca sentida
Que na alma vai adoecendo
Numa febre fria
Numa brisa fria
Que traz consigo os fantasmas
Envelhecidos em tonéis de carvalho
Da uva pisoteada
Que virou vinagre.
Se alguém me reconhecesse
Nem assunto teria
Numa conversa arredia
Preferia que não acontecesse
Pois o frio não apenas congelou
As faces endurecidas
Mas igualmente o coração.
Que de duro esfriou
A chuva deste momento
Esfria esfria.
Em que nem as ruas me reconhecem
Mais
Nem mesmo um rosto que seja
Familiar
Em cada esquina que passo
Mais estranho sinto
Um calafrio que me percorre
A espinha
De uma maleita nunca sentida
Que na alma vai adoecendo
Numa febre fria
Numa brisa fria
Que traz consigo os fantasmas
Envelhecidos em tonéis de carvalho
Da uva pisoteada
Que virou vinagre.
Se alguém me reconhecesse
Nem assunto teria
Numa conversa arredia
Preferia que não acontecesse
Pois o frio não apenas congelou
As faces endurecidas
Mas igualmente o coração.
Que de duro esfriou
A chuva deste momento
Esfria esfria.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Silêncio dos olhos
Nenhuma palavra a mais
E quando o silêncio chegar
Nada mais restará do que
O que os olhos não podem
Mais esconder senão
Um olhar revelador
Que não deve ser revelado
E assim somente ficarão
Os olhos parados
Como nada dissessem
Tudo dissessem.
E quando o silêncio chegar
Nada mais restará do que
O que os olhos não podem
Mais esconder senão
Um olhar revelador
Que não deve ser revelado
E assim somente ficarão
Os olhos parados
Como nada dissessem
Tudo dissessem.
domingo, 4 de abril de 2010
O arco e o violoncelo
Toda vez que passava naquela rua
Lá de dentro daquela casa
Lá de fora se ouvia
A fina melodia.
Não sabia que lá dentro
Havia uma mulher que
Envolvia em suas coxas
O corpo anguloso de um
Violoncelo.
Com seu arco tirava
Das cordas do violoncelo
A fina melodia
Toda vez que passava naquela rua...
Apaixonara-se pela música
Que tanto tocava seu coração
Apaixonara-se também pelo tocador
Que só poderia ser mulher
Tamanho encantamento sentia
Até o dia que não mais ouviu
Música alguma
Nunca mais quis saber de passar
Naquela rua.
Lá de dentro daquela casa
Lá de fora se ouvia
A fina melodia.
Não sabia que lá dentro
Havia uma mulher que
Envolvia em suas coxas
O corpo anguloso de um
Violoncelo.
Com seu arco tirava
Das cordas do violoncelo
A fina melodia
Toda vez que passava naquela rua...
Apaixonara-se pela música
Que tanto tocava seu coração
Apaixonara-se também pelo tocador
Que só poderia ser mulher
Tamanho encantamento sentia
Até o dia que não mais ouviu
Música alguma
Nunca mais quis saber de passar
Naquela rua.
O que fazem os poetas com as palavras
A poesia é um fato inelutável. Dizem os antropólogos que não há um só grupo étnico desprovido de poesia, mesmo nas sociedades denominadas “primitivas”. Trata-se, pois, dum fenômeno universal, exatamente como a linguagem. Em certos grupos étnicos apenas existe, a par da linguagem quotidiana, a linguagem poética; desconhecem-se, porém, sociedades em que, além da linguagem corrente, se cultive exclusivamente a prosa artística. Esta é uma superestrutura, algo de já mais complicado, a meio-caminho entre a poesia, que é um dos polos, e a linguagem de todos os dias, que é o outro. Note-se, por outro lado, que em certas sociedades só existe poesia sob a forma de poesia cantada: é o sincretismo primitivo da palavra poética e da música.
JAKOBSON. Roman. Colóquio/Letras, São Paulo, 1973 (em novembro de 1972 o autor proferiu esta conferência na Faculdade de Letras de Lisboa).
JAKOBSON. Roman. Colóquio/Letras, São Paulo, 1973 (em novembro de 1972 o autor proferiu esta conferência na Faculdade de Letras de Lisboa).
sábado, 3 de abril de 2010
Mais erros do que acertos
Se encontrasse um buraquinho
Em qualquer parede que fosse
Lá depositaria todos os segredos
De uma vida rica em contravenção
Dos amores roubados de seus maridos
Dos desencontros de hora marcada.
Se encontrasse um buraquinho
Aliviaria a minha dor sentida
Nos momentos de desespero
Por não ter mais com quem falar
Daquilo que sufoca a alma rendida.
Se encontrasse um buraquinho...
Pararia de lamentar os erros cometidos
Quando o erro maior foi talvez
O desejo de acertar.
Mas errante sou
Caminhante do erro que pode
Não errar!
Em qualquer parede que fosse
Lá depositaria todos os segredos
De uma vida rica em contravenção
Dos amores roubados de seus maridos
Dos desencontros de hora marcada.
Se encontrasse um buraquinho
Aliviaria a minha dor sentida
Nos momentos de desespero
Por não ter mais com quem falar
Daquilo que sufoca a alma rendida.
Se encontrasse um buraquinho...
Pararia de lamentar os erros cometidos
Quando o erro maior foi talvez
O desejo de acertar.
Mas errante sou
Caminhante do erro que pode
Não errar!
Um vôo que flutua
Lá em cima
Do andar de cima
Uma mulher chamada Esperança
Resolveu por a cara de fora
Depois as pernas braços e dorso
Ficou balançando de um lado para outro
No vai e vem do vento traiçoeiro
Quando alguém de baixo viu
Outro alguém também chegou
Um outro um outro ainda
Formou-se uma multidão
Que agitava os braços e
Pedia para ela não saltar
Que tivesse amor pela vida
Que não saltasse mais
Que pensasse em sua mãe
- Esperança não tinha mãe
Que pensasse então em seu amor
O amor que ela teve um dia
- O amor dela não existia mais
O amor se foi e
Esperança ficou
Ficou a Esperança sem ninguém
Sem amor sem amigos
Sem inclusive inimigos
Esperança ficou
Sozinha
Solitária e só
Mas agora a multidão pedia
Esperança não ponha tudo a perder
Esperança ainda não vá morrer
Mas Esperança soltou uma perna
Soltou outra perna e flutuou
Sem amarras alguma
Pois Esperança não podia mais
Viver apenas
Esperança.
Do andar de cima
Uma mulher chamada Esperança
Resolveu por a cara de fora
Depois as pernas braços e dorso
Ficou balançando de um lado para outro
No vai e vem do vento traiçoeiro
Quando alguém de baixo viu
Outro alguém também chegou
Um outro um outro ainda
Formou-se uma multidão
Que agitava os braços e
Pedia para ela não saltar
Que tivesse amor pela vida
Que não saltasse mais
Que pensasse em sua mãe
- Esperança não tinha mãe
Que pensasse então em seu amor
O amor que ela teve um dia
- O amor dela não existia mais
O amor se foi e
Esperança ficou
Ficou a Esperança sem ninguém
Sem amor sem amigos
Sem inclusive inimigos
Esperança ficou
Sozinha
Solitária e só
Mas agora a multidão pedia
Esperança não ponha tudo a perder
Esperança ainda não vá morrer
Mas Esperança soltou uma perna
Soltou outra perna e flutuou
Sem amarras alguma
Pois Esperança não podia mais
Viver apenas
Esperança.
A louca da rua
A louca da rua também
Arrumou um namorado
Com ele arrumou sua vida
Que antes solitária vida
Não havia quem podia
Continuar a semear em
Canteiro vasto e adubado
Sementes de gergelim
Que nada produzia
Além de fadiga pela espera
De uma colheita
Que nunca acontecia.
Assim era vida da louca
A louca da rua
Que nada queria
Queria
Somente um namorado
Podia ser vesgo
Sem uma perna
Cicatriz no rosto
Qualquer coisa que seja
Apenas tinha que ter
Um coração afável
Capaz de amar até mesmo
A louca da rua
Que enlouquecida de amor
Ao primeiro daria
Seu coração
Seu corpo inteiro
Daria a sua vida
Por amor
Só por amor.
Por isso chamavam-na de
A louca da rua.
Somente os loucos
Loucos de verdade
Verdadeiramente amam
Sem medida sem rancor
Por amor.
Por amor.
Arrumou um namorado
Com ele arrumou sua vida
Que antes solitária vida
Não havia quem podia
Continuar a semear em
Canteiro vasto e adubado
Sementes de gergelim
Que nada produzia
Além de fadiga pela espera
De uma colheita
Que nunca acontecia.
Assim era vida da louca
A louca da rua
Que nada queria
Queria
Somente um namorado
Podia ser vesgo
Sem uma perna
Cicatriz no rosto
Qualquer coisa que seja
Apenas tinha que ter
Um coração afável
Capaz de amar até mesmo
A louca da rua
Que enlouquecida de amor
Ao primeiro daria
Seu coração
Seu corpo inteiro
Daria a sua vida
Por amor
Só por amor.
Por isso chamavam-na de
A louca da rua.
Somente os loucos
Loucos de verdade
Verdadeiramente amam
Sem medida sem rancor
Por amor.
Por amor.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Ladeira acima
Empurrando ladeira acima
Vai o catador de papelão
Seu cão também vai
Uma carroça rangendo
Os ferros que arranham a roda
Nada mais triste que ver
O catador de papelão.
Não interessa se faz chuva
Se faz água por cima
Do catador de papelão.
Um dia a carroça quebrou
A roda soltou-se
Ainda assim continuou
Arrastando ladeira acima
O catador de papelão
Veio a primavera e verão
Vieram as flores e depois
Vieram outras flores
Vieram os guardas
Afugentando os camelôs
Veio a morte
O catador de papelão
Continuou a subir
Outros morros como sempre fez.
Outros catadores de papelão
Apareceram
Pois a subida dos morros
Haveria de continuar...
Vai o catador de papelão
Seu cão também vai
Uma carroça rangendo
Os ferros que arranham a roda
Nada mais triste que ver
O catador de papelão.
Não interessa se faz chuva
Se faz água por cima
Do catador de papelão.
Um dia a carroça quebrou
A roda soltou-se
Ainda assim continuou
Arrastando ladeira acima
O catador de papelão
Veio a primavera e verão
Vieram as flores e depois
Vieram outras flores
Vieram os guardas
Afugentando os camelôs
Veio a morte
O catador de papelão
Continuou a subir
Outros morros como sempre fez.
Outros catadores de papelão
Apareceram
Pois a subida dos morros
Haveria de continuar...
Do lado de lá
Quando ouço o repicar
De uma matraca que avança
Um som monótono longo
Que vontade que dá
De sair desta terra
De ir para o lado de lá
Que vontade que dá!
Já cansei das artimanhas
Todas as manhas de uma vida
Sem grande alegria
Sem tristezas também
Sem bailes no Clube Ideal
Em que as moças de família boa
Circulam suas saias rodadas
Suas bocas de carmesim.
Mas do lado de lá
Nenhuma monotonia aparente
Tem festa o ano todo
Tem o piano de Ray Charles
Tem sereias no mar
Com uma delas pode ser
Possa me casar e assim
Afogar todos meus lamentos
Na última onda a rebentar
Na areia fina e desmoronar
Os castelos de areia.
De uma matraca que avança
Um som monótono longo
Que vontade que dá
De sair desta terra
De ir para o lado de lá
Que vontade que dá!
Já cansei das artimanhas
Todas as manhas de uma vida
Sem grande alegria
Sem tristezas também
Sem bailes no Clube Ideal
Em que as moças de família boa
Circulam suas saias rodadas
Suas bocas de carmesim.
Mas do lado de lá
Nenhuma monotonia aparente
Tem festa o ano todo
Tem o piano de Ray Charles
Tem sereias no mar
Com uma delas pode ser
Possa me casar e assim
Afogar todos meus lamentos
Na última onda a rebentar
Na areia fina e desmoronar
Os castelos de areia.
Ao fundo da casa
Os casarões velhos em que passo
São restos de uma existência passada
Que ainda carrego nos espaços mais
Profundos de minha alma escura.
Mergulhando fundo nada mais se faz
Presente do que um centauro desgarrado
Um fauno embriagado de sua loucura
Poética e musical perdido numa floresta
De araucárias estendendo galhos de cristais.
Nada mais
Nada mais conheço de outros habitantes
Mágicos e passionais lidando com venenos
E remédios promovendo vidas longas
Aos de coração grande.
Aos de coração pequeno
Consolo de sua própria solidão.
Nenhum medo pode me assustar
Seja pelos caminhos de pedra
Seja pelos caminhos da água
Seres da pedra e da água
Companheiros de uma eternidade
Criados no início da criação
De um sonho que foi mito
De um remoto respirar galáctico.
São restos de uma existência passada
Que ainda carrego nos espaços mais
Profundos de minha alma escura.
Mergulhando fundo nada mais se faz
Presente do que um centauro desgarrado
Um fauno embriagado de sua loucura
Poética e musical perdido numa floresta
De araucárias estendendo galhos de cristais.
Nada mais
Nada mais conheço de outros habitantes
Mágicos e passionais lidando com venenos
E remédios promovendo vidas longas
Aos de coração grande.
Aos de coração pequeno
Consolo de sua própria solidão.
Nenhum medo pode me assustar
Seja pelos caminhos de pedra
Seja pelos caminhos da água
Seres da pedra e da água
Companheiros de uma eternidade
Criados no início da criação
De um sonho que foi mito
De um remoto respirar galáctico.
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