sábado, 9 de março de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Uma canção que vem fundo


“Em tempos de chuva
pare de chover
chuva agora
cesse de uma vez”
cantava assim o menino.

“Boneco de pano
Teru Teru Bozu
peço a você
que pare de chover”
cantava assim o menino.

Ainda ouço esta canção
que vem de algum lugar
nem sei se vem de mim
se vem de outro lugar
sei que vem bem baixinho
bem devagarinho
sonolento
até que o menino
de olhos pesados
cai num sono profundo
e lá no fundo de sua alma
alguém continua a cantar

“Boneco de pano
Teru Teru Bozu...”


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Nas ruas que jamais andei


Nunca andei naquelas ruas
da cidade em que percorri
de calças curtas.
Nem as calçadas
me reconhecem mais
as pedras em que marquei
um dia
cuja pisada penetrou fundo
mas outras pisadas do tempo
acabaram por apagar
os rastros que desapareceram.

As casas desapareceram
em que bebi em cada cortina
o cheiro de café quentinho
coado em coador de pano.
Não ficou a saudade
de uma cidade desconhecida
e das caras que vejo agora
quem serão realmente?

Gerações passadas
quando as caras também
foram mudando
e desconhecendo as caras
do passado.
Quando passeio
pela sacada nada mais tenho
nem amigos do passado
nem o passado existe mais.

Meus pais velhinhos
me convidam a retornar
sem que nada mais me
leve a voltar para lá.
Senão por eles
único sinal que um dia
vivi naquele lugar.

Assim posso andar
sem reconhecimento algum
sem ser reconhecido
transparente aos olhos alheios
como fantasma.
Talvez seja eu o único fantasma
que do passado saltou
e se assusta por não conhecer
ninguém.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Avenida Paulista

Caminha a Avenida Paulista
Num derradeiro caminho da multidão
Que se confunde e se funde
Nas múltiplas caras desta cidade.

Vieram de outro país
Mas aqui
Ninguém se importa com os sons
De suas palavras
Imigrantes do outro lado do oceano
Da Muralha da China
Dos confins da Conchinchina.

Sobremaneira as emoções
Explodem além das janelas
Em que se ouve tocado nas ruas
Uma melodia das grandes cidades:
Blues.
Enquanto na banca de jornal
A notícia marcada de sangue
Acaba em instantes.

Se as mágoas existirem
São esquecidas
Entre os ruídos de carros
Freando inesperadamente
Numa curva da esquina.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Rede que balança


Escurece em instantes
dias de tempo instável
em que da parede
da vizinha de cima
uma rede é balançada
produzindo ruídos
do ferro esfregado.

Neste momento
nada mais existe
do que o som
monótono como chuva
penetrando na pele
e a esfregar junto.

Sou a rede que
balança.

Vizinhos da frente


Entre sussurros
os espelhos do elevador
não escondem os rostos
e a voz que ouço
infantil
diz
quem é este japonês?

Incômodo do outro


Ninguém se importa
com a presença
do mendigo
nem se trata
de um problema.

O problema
se trata
do mendigo que se
importa
com a indiferença
de todos.

O problema
é sempre do mendigo.

Os falsos pudores


Não são loiros
a loira tingida
mas que importa
se a vida não passa
de dissimulação.

Sem apegos


Livre para caminhar
onde as calçadas conduzem
seja nos becos
desses becos imundos
em que cães vadios
fizeram morada
seja nas avenidas
amplas de asfalto rosa
não importa onde seja.

Livre para sentir o
aroma dessas árvores
sem nome
as axilas das morenas
banhadas com água
de cheiro.

Livre para morrer
quando a morte chegar
num beijo frio
de despedida.

As paredes falam


Que procuro afinal
pelas paredes da zona norte
pudera fosse encontrar
um registro perdido
mas
sem nenhuma importância.

Se importante fosse
importante seria esta vida
vivida intensamente
em cada esquina.

Se (des)importante fosse
saborear então a brisa
que ligeira passa
entre os fios de barba
em semiconsciência.

À frente perdedores


Alguns são perdedores
por perderem
nada mais tem por
perder.

Nem perdem a vida
nem a morte
nem a noite
nem o dia.




Os passageiros de taxi


As quaresmeiras tingem
por instantes
os olhos no fundo
em que a cidade
inteira inicia janeiro.

A brancura dos carros
são taxis
conduzindo passageiros
que conduzem desejos
alguns esquecidos
outros nem tanto.

Os loucos perambulam
com suas mortalhas
a cobrir corpos chicoteados
pelo vento
ventania de paus
da segurança que guarda
segredos da casa em que vende
vinhos raros.

Pela contramão
uma ambulância avança.

Pela contramão
a vida passa ligeira
até que chega
passamento
passageiro do tempo
cansado de caminhar
seus pés machucados.

Pela contramão!

Sem muito mais


Um homem passou
levando uma marmitinha
tudo que tinha
cabia no fundo
no fundo da marmitinha.

Nada mais tinha
tinha o mundo inteiro
o céu e os mares
a amor das mulheres
das feias e  lindas
solteiras e casadas.


-         Que mais queria ter
se tinha
tudo
numa marmitinha.

Os descaminhos da cidade


Naquela praça em que multidões
se formam
não se formou hoje.

Os uniformes cinzas da
polícia reúnem-se
no silêncio do dia
enquanto a cidade rumina
o gosto amargo do fumo.

Enquanto um sorriso
de pedra
da estátua do lado
traz encantamento
nos olhos de peixe
que se esparramam
pelas correntezas dessas
ruas que levam
a lugar algum.

Cidade que me consome
que mata a fome
no êxtase da cafeina
ainda borbulhante.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Levando a tiracolo

Por onde andará
A dona desse silêncio
Como que isso importasse
Que pudesse incomodar
Ou mudar alguma coisa.

Sem importância alguma
Ainda resta alguma lembrança
Que haverá de desaparecer
Um dia?

Mas o que poderá ser de mim
Se não tiver lembrança alguma?
Uma única lembrança
Carregada numa vareta
Levada aos ombros
Em derradeira viagem.

Ainda que esta lembrança
Seja um imenso vazio
Que fala todas as vozes.

Salve São Paulo

Pelas ruas sujas do centro
Ainda uma nostálgica visão
Toca incessante
Os olhos acostumados
Ao cimento armado
Dos edifícios que desmaiam
Sobre os viadutos serpenteando
Os sentimentos dos usuários
De ônibus que atrasam
Em tempos de chuva.

Maldita cidade
Que vai minando os poros
De um suor infestado
De gases carbônicos
De ácidos exalados
Dos canos desses motores
Que levam e trazem
Diariamente.

Bendita cidade
Que transforma o sofrimento
Em combustível
Que queima nos corações
Carburadores
Que criam energia
Elétrica
Atômica
Numa luta apaixonada
Em realizar a vida
Conquistada a duras penas.

Amada sobretudo
Pois odiada seria
Destruída por ela.
Amada simplesmente
Pois viver é necessário
Amada para ser amada
Também por ela.
Cidade madrasta
Cidade da mulher do lado
Em que os santos dormem
Ao lado das libertinas.
Benditas sejam
As pecadoras
De almas puras
Que nunca pensaram
Em ir para o céu.



domingo, 13 de janeiro de 2013

Ruas de minha vida

Nestas ruas em que andava
Nem restaram as paredes
Em que rabisquei poemas
Num momento de tristeza.
Foi-se a tinta impregnada
De uma nata
Transbordante de emoções
De um passado
Destruído em instantes.
Ruas que deixaram de existir
Ruas que fizeram parte de
Minha vida
Enterrado nos escombros
Numa explosão de dinamite.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Final dos tempos

Que verdade há
Afinal
Na linha final
Do final do ano?
Se em janeiro continua
O verão
Derramando águas
Lavando as almas
Da fuligem do tempo!
Se começo
Nada mais acontece
Do que outros começos
Que acontece
A qualquer tempo!


As luzes desencantadas

Um faiscar desdenhoso
lâmpadas natalinas
derramando um leite
caudaloso
que sem gosto
deixou de agradar.

Ano Novo bom


Ao passar este ano
Ano Novo é desejável
como que o novo fosse acontecer
pudera que fosse verdade.

Esta febre que me acomete
que a minha pele não revela
mas presente nas entranhas
desconhece
que o Ano Novo acontece.

Que sinal revela
esta água que baixa
pelos canos do nariz?

Esta água que lá fora
inundou o jardim
prenuncia janeiro
transbordando pelas ruas
a invadir bueiros
e a desalojar os ratos.

O que parece novo
não se trata de uma esperança
uma esperança envelhecida
mas uma  ilusão
que se renova.

Os poetas mortos

Estes amigos poetas
morreram todos
sem companhia para
poetar
minha companhia
com quem não converso
espera alguém
que pare de vez
de poetar.

Enquanto alguns esperam

As noites alongadas
pelas mesas dos bares
ficam cheias às sextas-feiras
ficam de bebedeira
os desiludidos
enquanto os iludidos
esperam o amanhã chegar.

Como que amanhã pudesse existir!

Queima a mata

Os bicos de fogo
continuamente acesos
em toda Mata Atlântica
queima metais pesados.

E a fumaça branca
num rastro ascendente
confunde-se com as nuvens
que começa a arder numa
chama sulfúrica
a queimar a ponta das folhas.

E a fumaça negra
num tropel de cavalos selvagens
 a pisotear corpos
que perderam a natureza humana.

O túnel

Estes túneis que cortam
a serra
é uma viagem
nas próprias entranhas
silencioso e mudo.

O mar

Quero ver o mar
e desesperadamente mergulhar
meu corpo insalubre
e lavar a alma.
Pudesse lavar
por um instante que fosse
meus karmas
de um passado inglório
em que bebi de licores
coloridos da ilusão!

Tempestade

Em cavalos negros
as nuvens de dezembro
cavalgam tempestades.

O que cavalgo neste momento
senão o dorso em febre
de meu próprio pensamento
que divagante conhece
o vento cortante
e a dureza das pedras.

Assim caminhava

Um andor do Senhor
dos Milagres caminhava
nos ombros de homens
que carregavam pesado
num andor carregado
de fé
de calor.

Homens que carregavam
o andor do Senhor
enquanto mulheres lamentavam
deixando um rastro de incenso
no ar carregado de sofrimento.

Homens que carregavam
todos os pecados do mundo.
Homens que pediam
um milagre
um andor do Senhor
dos Milagres caminhava.

De um bar do Peru

Este vozerio que espalha
pelas mesas do bar
tem o cheiro das sardinhas
que senti pela primeira vez
dos barcos a descarregar
suas redes carregadas
que vinham do mar.

Estas vozes que ouço
vem de um bar
vem de um cargueiro
dos pescadores solitários
que deixaram mulheres em terra
amores nas montanhas
nas planícies imensas
de areia e sal
que salgou todo o Peru.

Este sal que sopra
vem do mar.
Este vozerio vem
das mesas de um bar.

Os cristais partindo

Estes copos de champagne
transparentes
enfileirados
brilham uma brancura
de cal.

São tão irreais
derretendo ao calor da noite
em movimentos glaciais
corpos de uma mulher
prestes a partir um trincado
que se foi alongando.

Quando o tempo passa

Esta sensação de acabamento
do ano passado que passou
deixou pelos cantos
um rastro de poeira
que não se levanta
nem por encantamento.

Sem tempo para tristeza
que tomou rumo inesperado
foi-se de vez
para as águas profundas
lá no fundo do esquecimento.

Pudera em silêncio
descansar a cabeça aflita
docemente pairar nas velas
perdidas em alto mar.

Pode-se no mar
e embarcar nos redemoinhos
e girar a terra
e girar o sal
e tornar-se lama a ser moldada
de novo!

Como não dizer tudo

Ainda as palavras
em suas insubstancialidades
que como sombra varre
este chão que esconde
todos os sofrimentos
e alegrias
de uma poeira
que se assenta
e de novo se levanta
desenhando formas
de existência efêmera.

Minha vida passageira
poeira do tempo
poeira além das palavras.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Visita do tempo

Uma sensação gelada

Penetra pela imensa sala

De alguém conhecido

Desconhecido pelo tempo

Que se perdeu completamente

Por estas vias tortuosas

E clandestinas

Das ruas do centro.



Como um fantasma

De face inexpressiva

Sua voz vacilante

Remete a outras imagens

Que caíram no esquecimento.

Mas um dia

Novamente

Uma provocação insana

Salta da mente

Salta de um lugar

Que deixou de existir.



Esta poeira do tempo

Que penetra fundo

Nos olhos

Ainda incomoda

E todo esquecimento

Não passa de um desejo.





domingo, 18 de novembro de 2012

Lembranças em ruínas

Após a passagem da tempestade

Nada mais resta no chão

Daquilo que foi um dia

E caíram os castelos

E caíram as igrejas

E das ruínas

Nem sobrou a consolação

Como nada mais

Pudesse existir

Como pudesse ter existido

Um dia.



Apagou-se de um dia

Para outro

Carregado pelas águas

De uma consciência indômita

Arrasadora

Que nem mesmo restou

Uma arqueologia possível

Que pudesse compor

Um labirinto de formas

Poeiras de um passado

Que já passou

Escorrendo no ralo.





sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Clarão nas areias

Por quanto tempo silenciaram-se

Os canhões e a tempestade de areia

Nos campos de guerra

Das areias sagradas

Que em tempos passados

Foram pisadas pelas sandálias

De Moisés por quarenta anos?



Ainda não se cansaram

Incendiar a noite metálica

Das flechas flamejantes

Explodindo num espetáculo

Pirotécnico

Sem as bandeirinhas

De São João

Pois hoje não é de festa

E há muito quebrou

O cachimbo de barro

Assim a fumaça que sobe

Não é a da paz

A fumaça é a da fuligem

Dos mísseis caindo

Numa chuva ininterrupta

De intolerância.



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Procissão

Aqueles homens carregavam

Nos ombros carregavam

Um andor com o Señor de los Milagros

Em pingas o suor corria

Dos rostos morenos

Vestidos com capas lilases

Um passo à esquerda

Dezoito homens carregavam

Todo o sofrimento do homem pobre

Dos distritos peruanos

Um passo à direita

E arrastavam de um lado

De um lado para outro

Avançavam a passos lentos

Para não chegar a lugar algum

Enquanto na cruz agonizava

Com feridas barrocas

A última esperança

Tão acalentada por todos

Das mulheres que se arrastavam

De costas

Incensando o ar parado

Dos antigos ditadores

Tão adorados.

Tão adorados.



domingo, 28 de outubro de 2012

As folhas nem escritas

Os livros que não li ainda

Contam histórias

Em que vivo neste momento.

Prefiro não lê-los nunca

Antes fazer de minha vida

Um drama jamais escrito.



As lágrimas de cera

Naquela saída havia

Velas vermelhas

Apagadas

Em que a cera derretida

Eram lágrimas de uma mulher

Que perdeu o amor

De um amor que nunca teve!





O anjo negro

Sem nada fazer

Caminhava pelas ruas

Carregando um saco plástico

Carregando seus sonhos

Muitos deles

Em que acreditava.



Vivia nas ruas

Vivia num abrigo

Da prefeitura

Sem amigos

Nem mulher

Nem um cachorro.



Disse ter conhecimento

Dos segredos das lojas esotéricas

Disse saber da cabala

Disse ter poder nas mãos

Energia que irradiava

Sem que ninguém pudesse ver.



Disse ser um anjo negro

Que caminhava pelas ruas

Que ajudava

Quem trabalhava

Ele próprio

Nunca fez nada.



domingo, 14 de outubro de 2012

Poesia


Da vivência: minha matéria-prima.
Da imaginação: minha manufatura.
Das palavras: meu suporte.
Para leitor: meu mundo

Aqui ao lado


Quando pequeno no meu quintal tinha uma cerca
de pequenas frestas para o terreno do vizinho
onde morava aquela linda garota que mal sabia meu nome.

Mas de nada adiantava olhar pelas frestas
que nada podia ver, senão poucos movimentos de seu cabelo
brincando com o cachorro no jardim
Assim como a vida que pouco se vê além do agora.

Finos cabelos brancos

Hoje, com meus cabelos brancos, sei do tempo que passa
e que não quero deixar deixar passar.
Viver o que não vivi, ser o que não fui
Amar quem deixei de amar.
Tudo por uma única vontade,
daquela época de garoto,
que não sabia do tempo que passava
e que queria deixar passar.

Uma vida a fio

Alguns fazem planos

A respeito de suas vidas

Abaixo dos panos

Nenhum plano

Faço

Para os próximos 5 minutos.

As duas vidas cruzadas

São muitos os amores

Que cruzaram minha vida

Uma se chama Losartan

A outra Narcaricina

Pensei um dia

Abandoná-las

Pensei

E minha vida não seria

A mesma

Se depender de mim

Nunca ficarão longe de mim

Se depender delas

Nunca ficarei sem elas.



domingo, 30 de setembro de 2012

Tufando


Em casa, o silêncio solitário
É quebrado apenas pelos gritos agudos do vendaval
E a violenta dança das árvores a segui-lo.
A chuva chega em golpes surdos chacoalhando as janelas.
Ah, o desconforto da vulnerabilidade!
Hoje, a noite é de Lua cheia
Mas, lá fora, apenas a escuridão.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O poeta


Adrenalina do poeta é andar na corda bamba
da realidade à irrealidade,
confundindo os nós que grudam as pontas
de pequenos fios singelos,
tecidos à mão em dia e noite
e retirados das vidas
que se esfacelam diante de seus olhos
impotentes em ação
potentes em suposição
camuflados numa caneta
e recheados duma vontade
de não ter que andar numa corda bamba.

O poeta não escolhe
a não ser o pé que vai a frente.
sob o abismo da realidade nua
crua e cozida das dores e dos desamores.

O poeta apenas anda,
na corda bamba
dos fios de sua própria vida

Que saudades que tive

Que saudades que tive
da sua presença sublime,
de seu toque agraciador
em todos aqueles que necessitam
dum aconchego ligeiro.
Acalma os calores e traz a vida
Que saudades que tive
da chuva de primavera.

Sopro de gaita

É pelo sopro de uma gaita
que ele suspira a avida.
Em Dó entoa as músicas
que cantam os versos, imemoráveis,
De amores, desamores e não tão amores assim.
Uma pequena gaita prateada
que cabe num bolso,
esquece num só sopro
e muda uma história.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mais um


Apenas um mais
Nessa corrente sem fim
Sem começo, nem fim.
E sem começo nem fim,
Quanto vale um?
Quanto valem cem?
Quanto valem mil?
Vale apenas um mais
Que no fim nada vale de mais
Vale apenas um
Apenas um e nada mais.


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mil

Mil
não um, nem dois... Mil

Um, zero, zero e zero, que é diferente de
zero, zero, zero e um.

milésimo poema deste blog.
Como saber se as escolhas da nossa vida são certas?
Não há como. Apenas apreciar o momento e deixar nossa vida ser levada pelo vento, pois somos o próprio vento.

Kannon sama


Como me mover diante desta compaixão?
Deste grande coração que indiscriminadamente tudo envolve?
Até minha cegueira desordenada,
calibrada no auto-realizar,
duvidosa e cheia de dúvidas.
Alimentada por uma avalanche
sinestésica informada em sociedade.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Rama seca


A rama seca
Ali, à espera das águas de uma primavera inalcançável,
sustentada pela terra, agora quebradiça
e empedrada pelos veios de uma cidade já morta.
Ah, rama!
És a única vida ali vivendo,
entregue ao movimento dos ventos.
Debaixo d'um céu azul,
não orando, mas sim esperando, apenas,
Que a água volte ao seu útero.

De pássaros e gatos


Há pássaros que não ficam em gaiolas.
Por mais que o homem pense o contrário,
alguns destes animais foram feitos para voar.
Despreocupados da chuva, do Sol,
do contra-vento e dos gatos.
Ora, os gatos são bonitos!
Quem dera, assim como me alimentei,
alimentar o gato
da forma naturalmente mais bonita!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando o vento sopra

Descanso minha alma

Que alquebrado plana

Acima dos capins macerados

Pelo sol que amarela

A tarde desaparecendo.



Uma brisa que fresca

Sopra acalma neste instante

Todos os meus tormentos.



Quero ser também o vento

A levantar torvelinhos

Pelos caminhos não andados

Por qualquer pensamento.



Sem sair do lugar

Nunca pode-se fugir

De si mesmo

Deste lago anoitecendo

Que cada vez mais

Vou caindo

Sem terras em meus pés.



Silêncio é companhia

Que umedece os lábios

Que secaram

Das febres passadas.



Viver é cair profundamente!



Que faço agora

Pelas janelas infinitas

Abaixo do céu de nuvens

Escuras

Uma mulher de pedra

Dança.



Uma criança por trás

Dos ferros não sorri mais

E parou de brincar.



Mas haverá em algum ponto

Um velho a mastigar

Seu cigarro de palha.

Nada mais importa

Se nenhum sonho

É possível sonhar.

Se amanhã não existe

A manhã se fez neste

Instante!



Caminhante

Sem procurar nada

Caminho sem nada buscar

Senão avançar adiante

Onde levam meus pés

Que jamais caminham

Numa linha reta

Procurando por coisa alguma.



Sem chegar nunca

Nunca sai deste lugar

Nem há onde possa ir

Sou vento soprando

Sou calmaria parando.





Vaga lembrança

Por onde andava

Andava também

Um restaurante coreano

Quando parei havia

Apenas uma lembrança

Que dissipava-se

Dos amores que se foram.



Visita-me às vezes

Visita-me o restaurante

Coreano.



As árvores

Estes galhos enegrecidos

Avançam seus braços

Sobre os carros

Que trafegam neste instante.

Sem consolo algum

Numa abraço de morte

E sugando a seiva de sangue

Dos homens

Só verde ficou

Manchando o chão

De asfalto.



O destino tomado

Numa encruzilhada havia

Uma vela vermelha

Numa encruzilhada havia

Toda indecisão

Que direção tomar

Por isso ficou a chorar

Que decisão tomar

Não tomou

A velha queimou

E a vida se foi

Num soprar do vento

De um vento ladino.



No cal da desilusão

Pulsa incessantemente

No pulmão de cimento armado

O combustível queimado

Da fuligem dos carros

Que também pulsa

Em minha caixa de máquinas

Que falha a cada instante

Desta vida curta

Que só vale a pena

A vagabundagem poética

Das esquinas de minha

Cidade!



Soprar pelos cantos

Que politicamente

Incorreto

Seja uma contradição

Destes tempos

Em que os ventos

Em desalinho

Procurem pelos cantos

Um caminho

Possível.



Quando nada mais diz

O que restou das formas

Instaladas

Desta arquitetura

Inventada no passado

Do que uma porção

De palavras que faço uso

Para dizer tão pouco?

Sombra de uma pedra

Que rolou com a água

Mas a insolência

Insiste em ficar.



Vivo agora

Foi por um lapso passageiro

Que passou em minha vista

Um risco vermelho

Que pensei ter sido

O passado de minha vida.



Mas não tenho lembrança

Alguma

Nem foto antiga

Nem história para

Contar.



Nasci neste mesmo

Momento

Que passei a me esquecer

Quando foi isso!



Quanto ao futuro

Que bobagens pensar

Naquele que não sei

Se pode acontecer.



Amigo do vento

Pelas vias mais simples

Simplesmente deixei a vida passar

Passou por uma porta

Pela outra também

E ninguém mais pode segurar

A areia fina esvaindo-se

Pela boca de um funil

O guizo que toca nesta hora

Soprado pelo vento

Só toca agora

Só toca neste momento.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A vida escapando...

Que mais vale a pena

Viver na certeza

De que nada mais vale a pena

Do que viver na incerteza

De que nada mais fica

Em estado sólido

Nas palmas

Sem que

Escorra

Entre

Os dedos.



domingo, 26 de agosto de 2012

No cal da desilusão

Pulsa incessantemente


No pulmão de cimento armado

O combustível queimado

Da fuligem dos carros

Que também pulsa

Em minha caixa de máquinas

Que falha a cada instante

Desta vida curta

Que só vale a pena

A vagabundagem poética

Das esquinas de minha

Cidade!



Eu e a chuva

Nestes dias de chuva


Derrama sobre as calçadas

Um frescor cristalino

Que esfria de vez

Todo calor que ainda sinto

Na transparência dos sentimentos

Que tal qual folhas secas

Jaz nos canteiros

Cada vez mais gelado

Os membros

Os galhos enegrecidos

Destas árvores urbanas

Pendem num só lamento.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nada mais se detém

Quando nada mais fica na memória

Nada mais tem importância

Naquilo que poderá ser.



Sem impedimento

A água cristalina

Corre no lado descendente

De uma montanha lisa

Quem pode segurar

A fluidez de uma nuvem

Destas flutuantes

Vagabundeando nas tardes

De primavera

A primavera também

É uma mulher

Envelhecida!



Vida instantânea

Em minha companhia

Apenas o vento soprando

Que alegria

Nada fazer do que

Nada fazer

Senão ventar junto

Com o sopro

Desta vida

Temporária

Que vivo

Apenas

Neste momento.



domingo, 29 de julho de 2012

Rodopiando

Por um instante sequer

Naveguei em terras estranhas

Nestas longínquas miragens

Em que divisa

A vista em que alcança

Nem precisei ir tão longe

Pois nunca saí do lugar

Em que sempre fiquei

Ainda que estivesse

Nas geleiras de Patagônia

Em que os marrecos escurecem

Ao anoitecer

E os peixes imóveis

Morrem nas águas salgadas

Das lágrimas dos desesperados.



Onde quer que vá

Não dou um passo adiante

E continuo rodando

Em voltas rodopiando

Como um dançarino turco

Do culto do sufi.



Onde quer que vá

Sempre estarei

Nadando na bolsa plástica

De plasma

De placenta transparente

E assistindo sempre

O mundo que me chega

Em imagens de fogo

De fogo que queima

Do fogo que ainda arde

Arde e incendeia.



Não poderia ser

Diferente

Nem seria...





sexta-feira, 27 de julho de 2012

Pretérito perfeito

O que sobrou de ontem

Senão um monte de cinzas

Que ainda quentes estão

Podem queimar profundamente

E marcar a pele

Numa queimadura

De segundo grau.



Não mexa naquilo que

Descansa

Numa dança imóvel

Do vento.





quinta-feira, 26 de julho de 2012

Liberdade da incerteza


Um pássaro, quando preso,
Não é da pela liberdade que canta em solidão
Atrás das grades que lhe impõe o nome “lar”.

É pela incerteza que a ave chora,
Canta amargamente.
Confinado num mundo programado
Cheio de certezas, metódicas como um relógio,
Sequenciais, intermináveis,
Ininterruptas e infalíveis.

Ah! A certeza.
Não há nada mais repugnante que a certeza,
Para um pássaro de horas marcadas,
Que sabe onde, quando e como vai morrer.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Fuga de si mesmo

Nada pode ser mais

Fugaz

Do que o fim do gás

De uma emoção

Que se tornou

Ultrapassada

Motivo de risada

Dos que ignoram

Toda miséria

De suas existências

De um mundo que tem

Razão

Mas sucumbe

De um mal maior

Esquizofrenia.



Uma ausência...

Dos amores passageiros

De passagem ficaram

De passagem se foram

Em instantes!

Mas algo ficou

Para não se ir

Jamais

Uma tristeza

Que insiste

Criar morada

Em minha casa.





Sombras da memória

Como se saltassem do passado

São rostos embranquecidos

De fantasmas

De rugas e formas

Que não se reconhecem mais

Nem estima

Daquilo que agora

Invadem meu quarto

Guardado pelas chaves

Fazem sentido.



Assim visito

Com cautela

Um álbum de retratos.



domingo, 22 de julho de 2012

Encaixe


O que são os encaixes?
Nesse mundo, as coisas sempre devem encaixar-se, quase como regra.
Uma busca infiel, por uma vida encaixada, que possa ter todas as suas frestas e arestas completadas por algo, seja  a si próprio, seja o outro.

As coisas devem ser sempre encaixadas para que sejam satisfatórias. Sempre deve haver um encaixe inverso, seu complementar, naquela forma ideal.

Onde encontrar este complemento?

A luz encontra a escuridão, o vermelho encontra o ciano, o bule encontra a água e a colher encontra o mel.
Eu? Eu encontro a própria vida, refletida num papel em branco diante do meu rosto.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Vida Aventureira


Ah! O peso destruidor que esta vida mal vivida me presenteou.
Amarrado à uma cadeira que só tem quatro pernas, numa mesa de canto, onde apoio textos centopéiecos que me lançam numa explosão de sensações e vontades curiosas.
Ah! A vontade de correr para um destino que ainda não sei, com os pés descalços na orla da mais isolada das praias, longe daqui, onde a rua corta meus dedos.
Mas tudo isso não passa de um sonho de olhos abertos e que estão vidrados nas histórias daqueles meus heróis que puderam caminhar o mundo e fazê-lo suas casas.
Querer ser como eles me trás o medo de ser como eles, desbravadores e incertos quanto seus finais.
Quem diria eu, poder não saber onde cair morto.

Amigos e diferentes

Ainda que na maior discordância

Meu amigo

Há de continuar amigo.

Mas se as ideias

Não forem as mesmas

Se as ideias

De longe forem mais

Importantes

Do que as amizades

Então teremos problemas

Sérios problemas

De vaidade

De simples vaidade

Que se alimenta nossa ilusão.



Forma são


O que forma a formação das formas?

Se algo forma, indubitavelmente por outro foi formado, que anteriormente também formado por um mais, ele foi.

Eu vejo a forma que me forma a partir de sua forma e percebo que eu próprio sou a forma que me forma a partir de sua própria forma. Minha forma é a não forma, formada por uma forma que é a não forma da outra forma, que também é a não forma de uma não forma.

A forma que me forma é a forma que eu formo, que formará e que formarão as formas que sempre serão a não forma de uma única formação.

Eu formo.
Tu forma.
Ele e ela forma.
Nós, forma.

Tudo é forma, de uma só forma, sendo a não forma a forma desta forma.

Uma nova religião


Sempre a minha verdade

Deve prevalecer

Bem que as outras verdades

Não passam de futilidades

Se comparadas à minha.



Defensor dos bons princípios

Dos direitos dos menos favorecidos

Também dos mais favorecidos

Do direito à vida dos abortados

Do direito à morte dos desenganados

Do direito de não sentir o cheiro do cigarro

Do direito de fumar

Do direito de não sentir fome

Dos direito dos animais

Do direito dos anões em pagar meia passagem

Na sessão do cinema

Do direito dos políticos em negociar

Em causa pública

Em causa própria

Do direito do funcionalismo

Folgar um pouco mais

Do que os que não são gozam

Do mesmo privilégio

Do direito adquirido

Do direito a ser ainda adquirido

Todos falam em direito

Como se houvesse apenas direitos

Se assim fosse

Direito!



domingo, 15 de julho de 2012

Uma questão de tensão

Apenas assistiu

Sem nada entender

Dois adultos discutindo

Seus pontos de vista

Defendendo a verdade

As suas próprias verdades

E assim julgavam ser

Sempre assim

Os donos da verdade

E as guerras começaram

Sempre em nome da verdade

E as guerras santas começaram

Em nome dos santos

Enquanto num canto

Uma criança não sabia

O que no mundo acontecia

Um bombardeio partia

Carregando em suas asas

As almas dos mortos

Por um capricho

Humanamente aceito

Humanamente desprezível.





sexta-feira, 13 de julho de 2012

Melancólica somente

Será apenas uma palavra

Melancolia

Ou será invenção dos psicanalistas

Ou da pequena burguesia

Será melancolia

Uma palavra bonita

Encontrada num canto

Da página esquerda

De um dicionário

Ultrapassado

Que perdeu validade?

Talvez seja

Algo usado pelos poetas

Desesperados

Pelas palavras criadas

Para tornar a vida

Mais interessante

Incessantemente

Buscada

E perdida.

Melancolia

Por perder

Melancolia

Por achar.



terça-feira, 10 de julho de 2012

Ao encontro do canto das sereias


Num jogo de damas

Perdi mais do que as pedras

Que não passavam de artimanhas

Para enganar os desavisados

Estes marinheiros de primeira viagem

Que confundem as ondas

As espumas levantando-se

Em cristas de galo

Como fossem sereias

Destas mesmas

Que enganaram Odisseu

Ou deixou-se enganar

Só para beber de suas bocas

Um hálito agradável

Das oliveiras.



domingo, 8 de julho de 2012

Visita ausente

Num canto da janela

A noite vai penetrando

E fria chega

Por cima dos pelos

De um braço

Que apenas descansa

Espera um abraço

Que não chega

O que me esquenta

Continua sendo

Minha blusa velha

Que perdeu a linha

Meu lápis duro

Que me arranha.



Uma dor sentida no frio

Há uma dor que me visita

De manhã

De tarde

De noite

Pudera ser uma dor amorosa

Longe disso

A dor que me assola

É a dor da gota

Que me amola

No pé esquerdo

Isento de romantismo

Isento de qualquer lamento

Uma dor terrena

Epidérmica

Oceânica

Vulcânica

Uma dor desiludida

Pois até a ilusão foi perdida

Nada mais resta

Que salve

Só fica

Uma dor enjoada

Fria e desbotada

Uma dor ordinária

Que nem marca deixa

Senão a sensação

De um imenso vazio

O vazio da dor sentida.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Caminhos de pedra

As pedras atiradas pelo chão

Também falam

Numa linguagem silenciosa

Falam a respeito da dureza

Dos corações

Que não mais se emocionam

Nem se dão ao trabalho

De chorar mais.



São de pedra as estátuas

Que enfeitam as praças

Que sentem o calor

Do dia.



É a friagem da tarde

Que tornam

Os que não são de pedra

Frios.

Mais frios do que

O frio desta noite.



A parede branca

Como é silencioso a noite

Em minha sala de leitura

Em que minhas lembranças

Nada mais são

Do que lembranças

Mas que ainda

Não saíram da minha mente

Sou lembrança no presente

Sou o passado reinventado

Nas paredes brancas

De minha existência

Efêmera com certeza

Bolhas de sabão

Subindo acima do portão

Por entre as lanças

E ferros indomados

Sou também a incerteza

Que navega num barco

Furado!



Quando o vento dobra

Ainda carrego em meus braços

Os arrozais de Kumamoto

Que ao vento da primavera

Dobravam-se em reverência.



Ainda enterro minhas pernas

Naqueles alagados

Cujo barro tingia de negro

As pernas das velhas

Que curvadas avançavam na vida.



Vistos do alto

Das montanhas dos pinheirais

Somente do arroz

Sinto saudades

Que verdes balançavam

Uma brincadeira

De criança levada.



Os arrozais que sempre

Estarão comigo

Que em suas águas lamacentas

Enterro meu corpo inteiro.





quinta-feira, 28 de junho de 2012

Uma vida atrás


Uma fumaça branca

Eis que se ergue

Após o passo dado

Passo dado adiante

E todo esforço

Fora em vão

Como não tinha sido

Outrora

Agora não passa

De um sonho

Que de pouco a pouco

Vai se apagando

E se tornando cinza fria

A se esparramar

Pelos caminhos andados

Caminhos a que não se retorna

E nem saudades fica

Nem um pouco desta saudade

Que incomoda

Esta alma errante

Ignorante por natureza

Teimosa por ser ignorante.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma tentativa mal sucedida

Se esquecimento fosse uma palavra

Uma palavra não seria

Mas ainda não seria

Solução

Se esquecer fosse a vontade

Nada disso aconteceria

Nem por vontade

Nem por falta de vontade.



Esquecer é deixar de viver

E apagar um passado

Que existe somente

Nas reminiscências

Mesmo assim

Não poderia ser

Simplesmente esquecido

Como cão abandonado

Após convivência em comum.



Ainda que fosse possível

Não esqueceria

Ainda que as dores passadas

Fossem apenas passadas no tempo

Ainda assim

Não seria desta forma.



domingo, 24 de junho de 2012

Pelas ruas pouco conhecidas

Numa esquina estava

Uma moça que levava

Numa mão uma rosa

Uma rosa vermelha

Não sabia quem era

Nem tinha certeza

Nem queria saber

Quem era ela

Era noite funda

Profunda era a incerteza

De minha vida

Vivida unicamente

Naquele momento

Em que via

Uma moça que levava

Uma rosa vermelha...



terça-feira, 19 de junho de 2012

Sou o mundo agora

Nem tristeza

Nem alegria

Apenas a respiração

Lenta

A respiração cardíaca

E como companheiro

O silêncio que vai preenchendo

Cada vez mais

A tarde que vai

Se retirar

Neste exato

Momento.



Pensava ser verdade

Quando acordei

Lavei minha cara

Era uma cara comprada

Numa loja de fantasias

Uma cara de palhaço

Com nariz vermelho

Um palhaço que tinha nome

E assim passou a existir

Que trabalhava

Que vagabundeava

Pelos rincões desta cidade

Um palhaço que pensava

Existir

Mas não passava

De uma máscara

Que pensava que a máscara

Era a sua cara

Sua cara?

Todas as caras vendidas

Numa casa de máscaras.



segunda-feira, 18 de junho de 2012

As ilusões desta vida

Sorria

Um sorriso aberto

Um Buda sorria

De cima de seu assento

De cima de uma montanha

Sorria

As ilusões deste mundo

De nascimento e morte

De dia e noite

De ventania e calmaria

Dos encontros e partidas

De amor que não passa

De uma palavra inventada

Só para enganar

Os desavisados.





Atirador de pedras

Atire a primeira pedra

- no pássaro preto.

Atire a segunda pedra

-no pássaro preto.

Cada vez mais ferido ficou

Quem a pedra atirou

O pássaro se foi

O pássaro nunca esteve

O pássaro não passou

De uma ilusão de imagem?

Uma ilusão que pousou

No muro de meu jardim.



Noite solitária

Nos olhos entrecortados

A tarde deita-se atrás das nuvens

Num sono agitado

Em que os gatos

Caçam andorinhas

Que despencam dos galhos

Curvos e ressecados

De final de outono.



Quando as luzes acendem-se

Nas lanternas japonesas

Uma brancura leitosa

Começa a derramar-se

Sobre as nossas capas

De uma chuva passada.



E por estes caminhos

Que os pés insistem em pisar

Só pisam em espinhos

Deixando um rastro

Sinuoso de lamentação.



Assim o vento sussurra

Suave canção de minar

Canção que vai morrendo...





domingo, 17 de junho de 2012

Sumiê

Um velho buda


Recriando budas


Com seus pincéis


E sua tinta de carvão


Trabalhando em sua solidão


Com toda a grande Terra


E os seres sencientes


Sob a estrela da manhã


Um velho buda


E sua tinta de carvão

Um fado cantado

Numa janela havia

Uma triste melodia

De um país distante

Além destes mares

De saudade chorava

Era Amália Rodrigues

Que se afogava

Nas beiras do Tejo.