quinta-feira, 28 de junho de 2012

Uma vida atrás


Uma fumaça branca

Eis que se ergue

Após o passo dado

Passo dado adiante

E todo esforço

Fora em vão

Como não tinha sido

Outrora

Agora não passa

De um sonho

Que de pouco a pouco

Vai se apagando

E se tornando cinza fria

A se esparramar

Pelos caminhos andados

Caminhos a que não se retorna

E nem saudades fica

Nem um pouco desta saudade

Que incomoda

Esta alma errante

Ignorante por natureza

Teimosa por ser ignorante.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma tentativa mal sucedida

Se esquecimento fosse uma palavra

Uma palavra não seria

Mas ainda não seria

Solução

Se esquecer fosse a vontade

Nada disso aconteceria

Nem por vontade

Nem por falta de vontade.



Esquecer é deixar de viver

E apagar um passado

Que existe somente

Nas reminiscências

Mesmo assim

Não poderia ser

Simplesmente esquecido

Como cão abandonado

Após convivência em comum.



Ainda que fosse possível

Não esqueceria

Ainda que as dores passadas

Fossem apenas passadas no tempo

Ainda assim

Não seria desta forma.



domingo, 24 de junho de 2012

Pelas ruas pouco conhecidas

Numa esquina estava

Uma moça que levava

Numa mão uma rosa

Uma rosa vermelha

Não sabia quem era

Nem tinha certeza

Nem queria saber

Quem era ela

Era noite funda

Profunda era a incerteza

De minha vida

Vivida unicamente

Naquele momento

Em que via

Uma moça que levava

Uma rosa vermelha...



terça-feira, 19 de junho de 2012

Sou o mundo agora

Nem tristeza

Nem alegria

Apenas a respiração

Lenta

A respiração cardíaca

E como companheiro

O silêncio que vai preenchendo

Cada vez mais

A tarde que vai

Se retirar

Neste exato

Momento.



Pensava ser verdade

Quando acordei

Lavei minha cara

Era uma cara comprada

Numa loja de fantasias

Uma cara de palhaço

Com nariz vermelho

Um palhaço que tinha nome

E assim passou a existir

Que trabalhava

Que vagabundeava

Pelos rincões desta cidade

Um palhaço que pensava

Existir

Mas não passava

De uma máscara

Que pensava que a máscara

Era a sua cara

Sua cara?

Todas as caras vendidas

Numa casa de máscaras.



segunda-feira, 18 de junho de 2012

As ilusões desta vida

Sorria

Um sorriso aberto

Um Buda sorria

De cima de seu assento

De cima de uma montanha

Sorria

As ilusões deste mundo

De nascimento e morte

De dia e noite

De ventania e calmaria

Dos encontros e partidas

De amor que não passa

De uma palavra inventada

Só para enganar

Os desavisados.





Atirador de pedras

Atire a primeira pedra

- no pássaro preto.

Atire a segunda pedra

-no pássaro preto.

Cada vez mais ferido ficou

Quem a pedra atirou

O pássaro se foi

O pássaro nunca esteve

O pássaro não passou

De uma ilusão de imagem?

Uma ilusão que pousou

No muro de meu jardim.



Noite solitária

Nos olhos entrecortados

A tarde deita-se atrás das nuvens

Num sono agitado

Em que os gatos

Caçam andorinhas

Que despencam dos galhos

Curvos e ressecados

De final de outono.



Quando as luzes acendem-se

Nas lanternas japonesas

Uma brancura leitosa

Começa a derramar-se

Sobre as nossas capas

De uma chuva passada.



E por estes caminhos

Que os pés insistem em pisar

Só pisam em espinhos

Deixando um rastro

Sinuoso de lamentação.



Assim o vento sussurra

Suave canção de minar

Canção que vai morrendo...





domingo, 17 de junho de 2012

Sumiê

Um velho buda


Recriando budas


Com seus pincéis


E sua tinta de carvão


Trabalhando em sua solidão


Com toda a grande Terra


E os seres sencientes


Sob a estrela da manhã


Um velho buda


E sua tinta de carvão

Um fado cantado

Numa janela havia

Uma triste melodia

De um país distante

Além destes mares

De saudade chorava

Era Amália Rodrigues

Que se afogava

Nas beiras do Tejo.



Correndo contra o vento

Nenhuma saudade ficou

Mas ainda que pudesse

Esquecer

O passado é ardiloso

Muito mais do que

A vontade

De sofrer de uma amnésia

Consentida.



Caminhante noturno

Nestas noites longas

Em que os passos longamente

Estendem-se pelo espaço

Mal pisam o chão

Cada vez mais distantes

De uma experiência visceral

Senão vivenciada

Em seu mais profundo

Mar de incertezas.



quinta-feira, 7 de junho de 2012

Os pés que pisoteiam

Apenas havia

Naquele caminho de sempre

Folhas secas

Que desprezadas

Foram pisoteadas

Sem piedade.



Os mesmos pés

Que incessantemente

Não se cansam

De pisotear

Este chão sagrado

Morada dos deuses

Que sustentam

Nossas casas

Nossos estômagos

Sedentos de alimentos

Que bebe da terra.



Ainda assim

Pisamos

Com sapatos

Impuros

De toda insolência

Humana.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Só vou com o vento

Sem nenhum passado

Que se foi com o vento

Sem futuro vindouro

Que distante ficou

Sou tenho o presente

Que nem posso reter

Entre os meus dedos

Se assim pudesse ser.



Para quê as lembranças

Fumaças do tempo

Que de tempo em tempo

Vão se dissipando

Em minha memória.







Eterno peregrino


Daquilo que ficou

São as nuvens de Shogoji

Abaixo das montanhas

Brancas

Em que podiam se caminhar

Sem afundar as pernas

Nos alagados dos arrozais

Nos carvalhos vetustos

Em que vivi

Meus melhores dias.



Ainda caminho

Pelas mesmas trilhas

Que um dia

Caminhei.



Ainda existe em mim

A mesma escadaria

De pedras pontiagudas

Precipícios

Em que caíram

Guerreiros de outros tempos.



Uma vez que lá esteja

Nunca mais saímos de lá

Onde quer que possamos

Caminhar

Caminhamos a mesma trilha.





Manhãs que não acabam

Uma instabilidade temporária

Em tempos de chuva

A alma liquefeita

Escorre pelas ruas

Sem pressa alguma

Por chegar a algum lugar.



Nunca chegamos

Sempre estamos

No mesmo lugar.



Como é agradável

Ouvir

A chuva caindo devagar

Nestas manhãs alongadas

De outono.

Como o outono demora

Para passar.



domingo, 3 de junho de 2012

Muito fluido

Apenas imagens

Que numa fumaça

Foram se dissipando

Como nada tivesse

Importância

Um filme antigo

Que uma vez visto

Não se repete mais.







O pássaro criador

Ainda que mergulhemos

No mais profundo

Sentimento

Num mar sem fundo

Nada mais existe

Do que o silêncio

Silencioso e derradeiro

De uma tarde

Em que sorrateira

Uma gralha azul

Inventa a vida

De um galho ressecado

Que balança

Ao sabor do vento.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

O que queima

Uma borboleta de cristal

Reflete um azul infinito

Vindo do mar

Vindo do céu

Vindo de todo lugar

Dos olhos de Mariana

Que ardentes

Provocaram em minha pele

Uma queimação apaixonada

Que ainda guardo

Como prêmio.





Entre as paredes

Perdoem-me

Minhas limitações

Por não ter estudado

Matemática

Nem geometria.



Perdoem-me

Minhas limitações

Por não ter sido

Um atleta competente.



Perdoem-me

Minhas limitações

Nos estudos elevados.



Perdoem-me

Minhas limitações

Por não tocar flauta

Nem saber cantar.



Nesta vida inteira

Pouco fiz

Não tomei bebedeira

Não conheci Paris.



Nem fui bom

Um tanto mau

Por isso uma acidez

Contínua me destrói

O estômago.



Fui um mentiroso

Que acreditava ainda

Que ainda

Uma garota de olhos grandes

Haveria

De ser musa eterna.

Que escrever espantava

Uma solidão permitida

Dos desvairados

Presos em seus quartos

Cuja poeira

Caia densa

Num assoalho de cera

Vermelha.









Um passo atrás

O que pode sustentar

A inércia deste corpo

Maltratado pelo vento

Que caminha de costas

Sem ver adiante

Vendo sempre

Os próprios passos

Se apagando ao relento

As marcas postas

Numa trilha de cal.



E tudo se passa

Em instantes

Numa vida que passa

Num passado que passa

Na inconstância

Das imagens opacas

De um fantasma.



Mas sentimos saudades

De um tempo passado

Que passou

Do amor passageiro

Que não passa

De uma sombra

Do passado

Que continua passando

Como filme antigo

Num cinema decadente

Habitado pelos ratos.



Somente os ratos existem

Neste momento

Que continuam a roer

As paredes grossas

De meu baú de passados.





quinta-feira, 31 de maio de 2012

Era uma creche


Um museu da infância
Guardava as aventuras do presente
Com castelos e dragões
Florestas encantadas
Frutos de imaginações que agora vêem a realidade
Abaixo, em escombros
Tingidos de amarelo alaranjado

*****

A mãe e o filho
Que esperam pacientemente
onde era ali, um reino encantado
Destruído na madrugada
Na esperança de que reste ao meno um livro
Capaz de levá-los dali
À um mundo onde as creches não são destruídas

*****

Somente as árvores
Na manhã alaranjada
A  creche em cacos 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O corvo branco

Nem era amarelo

o corvo que surgiu

o corvo que sonhei

era branco.



Fiz que não o via

fiz que não sabia

do corvo branco

de olhos fundos

profundo era o mar

que nos separava

o corvo que não se ia

e lá ficou

em minha morada

como fosse sua

sempre tivesse nela

vivido.



Um corvo que disse seu nome

Sempre estarei

Ainda que queira me livrar

dele

serei sincero nisso?



Estarei mentindo

mais uma vez

e toda vez que negá-lo

surgirá de novo

o mesmo corvo

a dizer seu nome

Sempre estarei

Não passarei mais frio

medo tampouco

não estarei sozinho

pois

Sempre estarei

estará do meu lado

com penugens brancas

não as de um pombo

que traz a paz

no coração dos homens

mas as brancas de um corvo

que traz a dúvida

que incomoda

que acalenta

a intranqüilidade

do homem que quer

a noite

que o dia cega-lhe os olhos

mas o sereno da madrugada

refresca as artérias

cheias de uma água rala

de beterraba.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Para espantar a solidão

Pela manhã

Pelas ruas de minha cidade

Uma multidão se move

E coça os olhos

Assim espanta o sono

Dessas noites mal dormidas

Em que visita-nos

Os ratos de esgoto

Buscando companhia.



Um murmúrio apenas

Nenhum silêncio se compara

Com o silêncio das cidades

Entre os murmúrios dos desesperados

O choro dos loucos

O gemido dos que se encontram

Em convulsão de um encontro amoroso.



Nada disso incomoda

Meus ânimos acostumados

Com o desencontro das vozes

E dos sons apagados

Que apenas querem se fazer

Presentes nas esquinas

Dos becos cheirando urina

Dos gatos andando como bailarina

Aos saltos

Como que os pés estivessem

Em brasa.



Neste burburinho de ondas

Que se levantam e se afastam

Da areia das construções

Minha voz é apenas

Um detalhe

Que na angústia de sua

Existência

Minha existência

Surge rouca

Afetada por um resfriado

Mal cuidado

Que insiste em ficar

No corpo semeado

De bactérias

E células que vão morrendo...



domingo, 20 de maio de 2012

Sem palavras

Numa dança macabra

Rodopia diante da luz

As asas de cupim.





As ruas de outrora

Por aquelas ruas em que andava

Em cujas fachadas das casas

Havia uma intimidade que saia

Através das janelas e cortinas amarelas

Nada mais restou no local

Mas ainda assim

Em alguma parte de mim

Somente isso continua a existir

Como sempre existiu

Nos olhos de menino

Que continuam existindo.



sexta-feira, 18 de maio de 2012

Noites sem estrelas

Numa sexta-feira

Quando a noite chega

Minha gata preta

Mia e pede atenção.



Sem que ninguém dê

Atenção

O casal de mendigos

Que não fala com ninguém

Como ninguém mais existisse

Prepara a cama

Para um repouso gelado

E sonha com uma cama

Macia

Que nunca teve

Em sua vida

Nem travesseiros

Nem lençóis brancos

Apenas o céu

Sem uma única estrela

Como companhia

Seu único amigo

Pulguento ao lado

E assim podem se aquecer.

Os caminhantes do tempo

Ao entardecer

As ruas são viajantes

De um tempo

Que deixou de existir

E parado

Somente as pessoas

Ainda continuam

Andando

Numa paisagem

Refletida no espelho.



O peso que levas

Nas costas carregava

Uma formiga

O mundo inteiro

Nas costas carrego

Também

O mundo inteiro

Todos os devaneios

Dos que ainda sonham

E não endureceram

Seus corações

Carrego os tolos

Também

Assim se fez o mundo

Havia pela cidade

Um murmúrio

Que nada dizia

Nem se lamentava

Que produzia

Uma constante

Corrente de conversas

Desencontradas

Como fosse o primeiro som

Da criação do mundo

Naquele momento

E assim

Deram-se nomes

E sobrenomes

Naquilo que antes

Nada tinha

Senão

Um depósito cheio

De coisas indefinidas

De uma memória

Ainda prestes a ser

Formada.





 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Canto natural

Não tenho medo
o que tem medo é o medo 
eu não tenho nada, nada,
nada possuo... 

estou bem 
aqui

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Felina selvagem

Uma gata perdida
Pelas ruas desta cidade
Não quer mais dono.

Uma gata perdida
Foi-se
E perdida vive
Seus devaneios.

Quisera detê-la comigo
Mas nenhuma gata
Torna-se dócil
Mais cedo
Mais tarde
Vai-se.

Das lembranças passadas
Tal como lembranças
Cuidadas com carinho
Lembranças
Que com o tempo caem
Caem no esquecimento.

Esta é uma esperança
Que não esqueci neste momento.

Passeio sem amigos

Nesta manhã solitária
O ruído das máquinas
É um consolo
Enquanto isso
Uma brisa chega
Soprando levemente
Pelo rosto de barba mal feita
E passeia
Pelas ruas de rostos anônimos
Acariciando às vezes
Maltratando às vezes
Desaparecendo por fim
Por detrás das árvores
Cujas folhas caíram todas
E expondo seus galhos
Como braços que avançam
Pelo céu encoberto por
Suave e fina poeira
Uma névoa que esconde
Os pés descalços que calcam
O chão gelado de inverno
Que apenas inicia-se



Diálogos com o louco

Um louco perguntou-me
O que é felicidade
Pensei
Não demorei muito
Porque um louco
Faria tal pergunta
Será que somente
Os loucos buscam
A felicidade!

E nessa loucura
Constante
Percebi
Nunca procurei
A felicidade
Mas a loucura sim

Como invejo os loucos
Que ainda sonham
Com a felicidade

Enquanto os duros de coração
Apenas vivem
Além da felicidade
Apenas vivem
Intensamente

A felicidade presente
A infelicidade também





terça-feira, 1 de maio de 2012

Sem passado

Viajante do tempo

Sem direção alguma

O que me move

Neste instante

Senão

A vontade de sentir-me

Vivo

Sem passado

Sem lembranças

Que tenham passado

Que valha a pena de ser

Repassado







terça-feira, 24 de abril de 2012

Tudo parado

Pela avenida havia
Um sinal vermelho
E todos de repente
Paravam
E paravam de viver!
Nada mais faziam
Nem respiravam
Por um momento apenas
E o mundo também parava
De girar

Apenas um Buda de pedra
Que parado olhava
Com seus olhos finos
Sorria
Demoradamente
Sem pressa
Que o sinal mudasse
De cor

Um tempo demorado
De minutos parado
Numa esquina da rua


domingo, 15 de abril de 2012

Caminhante e o caminho

Pelas estradas da eternidade
Apenas o pó sobressaltando-se
Dos sapatos que pisam descompassadamente
Para algum lugar impossível
De chegar um dia
Sem partida alguma
Nunca fora realizada
Poderia parar
Por uma teimosia
E pararia de viver
E pararia de andar
Se isso acontecesse
O próprio caminho
Andaria por mim
Pois nenhum caminho existe
Se inexiste o caminhante
Errar é preciso pelos caminhos
Que não existiam antes
Que existirão para sempre

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Por um momento

Ainda que dolorida seja
Uma dor não pretendida
Não foi por acaso
Um encontro desnecessário
Em que a felicidade não passou
De um vento sorrateiro
Brincando por acaso
Nos papéis picados
Que saltitantes
Assentaram-se depois
No chão
Para serem varridos

terça-feira, 10 de abril de 2012

Jogos da infância

Nunca coloquei uma pipa
A voar
Além dos dois metros
E nunca meus sonhos
Foram além dos dois metros.

Nunca invejei as pipas
Coladas no céu azul
Em linhas esticadas
Unindo a terra
Com todo firmamento.

Pois a minha pipa voava
Apenas dois metros
Até cair
E quebrar-se todo.

Nunca me importei com isso
Como se isso fosse importante
Importante eram os lábios
De Elizabeth
A filha da empregada
Que não gostava de pipa
Que brincava de boneca
Eu era Jack "o Extripador"...

As caminhantes da procissão

Aquelas mulheres de negro
Percorriam a procissão
Nas noites escuras
Iluminadas por velas
Carregadas por elas
Por todos que seguiam
Em passos cadenciados
A longa via de uma morte
Anunciada
Carregando nas costas
O peso do mundo
Com todos os apegos
E sofrimentos
E dores doídas
De uma ilusão que não cessa
De continuar cessando
Uma ilusão que fora boa.

Pelas noites afora
Continuam caminhando
As mesmas velhas
Vestidas de negro
Com seu canto distanciado
Anunciando
Uma nova ilusão
Alimento que nutre
Os eternos iludidos
De uma vida iludida
Que desesperadamente
Quer ser verdade.

Após temporal

As noites cada vez mais longas
E longas são os nossos desesperos
Na procura de algo perdido
Que jamais será encontrado
Senão os destroços de uma casa caída
Após a passagem de um temporal

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A moça passava

Passava todos os dias
Na rua em que morava
Passava com seus passos
Em movimentos suaves
Passava despertando
Minha atenção
Tinha mais idade do que eu
Mas nada disso importava
Nem quis falar com ela
Apenas fingia
Que não a notava
Um dia descobri o seu nome
Era Terezinha
Era Terezinha que passava
Na passagem de minha infância
Que ficava cada vez mais
Para trás

E agora
Passados tantos anos
Às vezes sinto ainda
Terezinha passando
Em minha memória
Naquela mesma rua
Em que morava
E ela também
Fingindo que não me via
E eu também
Fingindo que não a via.

Periferia

Deste lado da cidade
Uma favela sem nenhuma
Vaidade comemora o domingo
Na calçada mesmo
Enquanto dos carros
Olhares estranhos
Apenas olham
Horrorizados
A alegria latente
De um homem
Que nada mais deseja
Do que um copo que rola
De boca em boca
Entre iguais.

Sexta-feira Santa

Em algum canto desta
Cidade
Um canto era cantado
Melodicamente
Numa voz melancolicamente
Arrasada
Pois era
Sexta-feira Santa
Que percorria as ruas
Em procissão
Carregando numa maca
Todo o peso do mundo
Todos os pecados
Cometidos
E os não cometidos
Por homens arrependidos
Sem culpa alguma
De serem homens
Apenas homens
E mulheres...

terça-feira, 3 de abril de 2012

Brandindo pela noite

Havia um jeito especial
De por o violoncelo entre
As pernas
E brandir a vareta
Pelas cordas esticadas.

Nada mais havia
De mais belo do que
Tocar violoncelo.

O vento assobiava

Quando passava por aquela rua
Alguém assobiava uma melodia
Uma suave e triste melodia
Alguém sofria pela amada
Que se fora.

Um vento soprava por entre
Os galhos de uma árvore
Que pendia
E pedia água.

Continuava a assobiar
Continuava a soprar
Sem que ninguém pudesse fazer
Pois nada mais havia
Senão ouvir
Pela noite afora.

terça-feira, 27 de março de 2012

Paredes sujas de palavras

Quando as paredes não aceitarem
Nenhuma escritura
Destas carcomidas pelo tempo
Sujas
Muitas delas imundas
Onde mais poderei escrever
Escrituras
Que possam ser lidas
No anonimato
Clandestinos das periferias?
Quando nenhuma parede for possível
Impossível será viver
Senão na angústia
De dizer somente
Aquilo que pode ser dito
E serei maldito na contramão
De um fluxo corrente
Só por correr diferente

Um cínico esquecimento

Simplesmente esquecemo-nos
De que as almas atropeladas
Necessitam de cuidados
Que deixados de lado
De lado continuam existindo
Sem que nada seja feito
Ignoradas
Para que o tempo dê tempo
Para um possível perdão
Quando isso acontecer
Os cabelos brancos formados
Não resistirão
E nada mais precisará
Ser feito
Como nada tivesse
Um dia
Acontecido...

Passagem do tempo

Mais uma vez março
Chega ao fim
Como da vez anterior
Como se quiséssemos
Mantê-lo
Infinitamente
Março
E março iniciava-se
Para continuar apenas
Março
E assim nenhum outro
Mês seria possível
Ninguém nasceria
Ninguém morreria
Que não fosse em março
Mas março se foi
Mal começou
Não demorou muito
E passou
Como nunca estivesse aqui
Deixando saudade
Que também
Passou

sexta-feira, 23 de março de 2012

Caçador de imagens

Imagens que um dia
Capturei
Não eram minhas
Nem eram minhas
Os olhos que pensei
Serem minhas
Nem minhas lentes
Eram minhas
E assim aquelas imagens
Foram-se
Como pássaros fugidos
Que achei um dia
Seriam minhas
Apenas minhas
Uma ilusão insensata
Que se foi também
Não mais minha

Caminhos de pedra e terra

Havia no caminho
Uma pedra
Havia no caminho
Duas pedras
Ainda assim continuei
Caminhando
Ainda que pudesse
Encontrar pelo caminho
Mais uma pedra
E um dia passei
A achar que todo caminho
Era de pedra
E meus pés antes macios
Sangraram
Sem que ninguém se importasse
E meus pés endureceram
E meu coração antes duro
Teve que de vez
Amolecer
E nenhum caminho
Foi suficientemente duro
Nem duro foi a pedra
Capaz de deter meu caminho
Meu caminhar lento
Parado e andado
Caído e levantado
Numa teimosia
Que alegra o andar
Deste andarilho.

domingo, 11 de março de 2012

Os demônios criados

Podem xingar
Não revido
Podem cuspir
Não revido
Podem maldizer
Não revido
Podem ameaçar
Não revido
Podem desprezar até
Ainda assim não revido
Quem sabe assim
Possa rir de mim mesmo
E das pessoas sérias
Que acreditam
Em suas próprias seriedades
Vitaminadas
Com cápsulas de prosac
Papelotes de açúcar

Um ano depois do vendaval

Pelas veias ainda em turbilhão
As ondas que varreram em instantes
Imensas costas japonesas
Levaram as vidas que jamais
Serão vividas
Abaixo do mesmo sol
Em que compartilho
As dores passadas
As dores presentes
De um tsunami
Que não deixará cedo
A memória dos filhos do Oriente

domingo, 4 de março de 2012

Uma gata pichada

Havia numa parede suja
Uma pichação
Que na calada da noite
Alguém deixou cair a tinta
Uma gata imensa e preta
Solitária
Que acordou de enxaqueca
De uma noite mal dormida
Uma gata perdida
Abandonada na rua
Arredia

O passado é agora

Quando o esquecimento não vem
Continuamos vivendo
Com a alegria de ter passado
Uma alegria repentina
Uma faísca vivida
Que ainda teima em não se apagar
Que ainda teima em manter-se acesa
Por teimosia
Apenas por teimosia

Passageiros de viagem

Alguns passam em nossas vidas
Passageiros de uma viagem
Que começa sem nenhum aviso
E passageiros ficamos amigos
E de passagem lá se foi
Num instante
Sem deixar pistas
Pelo caminho
Sem saudades
Como nada tivesse passado
Passado que esquecemos
Em seguida
Para começar nova viagem
De passagem

quinta-feira, 1 de março de 2012

Minha vó, que se foi sem avisar
não mora no firmamento
nem saiu de viagem
vive, secretamente, só eu sei
no cheiro delicioso
da uva Niágara

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Apagão

Pouco a pouco a vela desaparece
Pouco a pouco meu reflexo desaparece
Pouco a pouco eu desapareço
No fim, apenas escuridão.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Carnaval dos tempos idos

Meu cordão de carnaval
Parava a avenida
De uma cidade vizinha
E vinha toda a vizinhança
Para ver uma turba fantasiada
De boi preto que corria solto
Sobre a multidão que corria de medo
Que ria
Que saltava
E vivia intensamente
Uma vida que acabava
Em quatro dias.

Vivi mais do que isso
Mas não vivi tanto
Quanto vivia naqueles tempos
Em quatro dias.

Meu cordão de carnaval
Parava a avenida...

Ao passear pela tarde

Seria bom se pudesse
Atravessar as plantações de trigo
Numa tarde em que o sol brilhasse
Estourando os grãos
Pela extensão dos braços
E seria sol neste momento
E seria também trigo
Seria o mundo inteiro
Não mais existiria eu
Nem você
Nem os amores perdidos
Frutos de uma ilusão
Febril de uma salamandra

Apaziguando a vida sem motivo

Uma casa em ruínas
Conta histórias que o
Esquecimento quer esquecer
Para que numa lousa branca
Alguém possa novamente
Alguma coisa escrever!

Mas somente escrevemos
Das coisas vividas
Ironicamente vividas
De uma forma diferente
Modificada
Para que vida
Seja assim celebrada.

Desconfiava de que a vida
Fosse o tempo todo
Inventada
Pelos poetas
Pelos artistas
Eternos mentirosos
Por não suportarem
Uma realidade que perdeu a graça
E assim a vida também
Tornou-se sem graça.
Mas graças aos versos que se
Inventam por si mesmos
Criam também a vida
Cheio de palavras
Esparramadas
Num caleidoscópio
Movido a cada instante.

Caminhando sem direção

Minha sandália de palha
Onde me levará
Se não tenho um caminho
Em que possa chegar
Em algum lugar.

Nem preciso de lugar algum
Se lugar algum existisse
O que seria de mim
- Pararia de andar.

E como andar cansa
E fere a pé que não descansa
Um instante sequer
E quer caminhar.

Só por caminhar
Sem motivo aparente
Sem nenhum motivo
Que possa assim justificar
Andar
Ou parar
Mas por impulso
Apenas caminho
Com as sandálias de palha
As únicas que tenho
Ainda que venha a rasgar
Inúteis sandálias de palha.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Um Jizo de pedra havia

Numa estrada guardava
Um Jizo de pedra
Uma morte havida
Um Jizo de pedra
Cuidava das crianças abortadas
De mães desesperadas
Dos filhos que se foram
Um Jizo de pedra salva
Aquelas que se foram
Pelas trilhas tortuosas
Dos descaminhos
Um Jizo de pedra
Visita o céu
Visita o inferno
Visita a terra
Sem diferença alguma
Pois todos sofrem
Por suas desilusões
E criando mais ilusões
Num mundo de vidro
Colorido
E cortante
E vazio

Palavra em si

Nenhuma palavra
É inocente em si
Traz dentro de si
Muito mais o que diz
O poeta
Que nada mais faz
Do que deixar a palavra
Dizer
Aquilo que a palavra
Diz

Por demais traumático

E como ferve fevereiro
Um mês inteiro em que
Chove a água quente
Dos olhos dos desesperados.
Enquanto os resignados
Nada mais fazem do que
Fingir
Uma vida fugida
Ignorando mais ainda
Os velhos amigos
Sem importância alguma estes
São jogados à margem
De seus corações congelados
Por uma gota fria
Enquanto tudo o mais
Ferve
Em contradição.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Caminhando pelo fio

Nunca consegui empinar
Papagaios
Que sempre ficavam
Sempre no chão
Pesados.

Nunca levantei vôos
Que fossem realmente
Espetaculares
Com asas de corvo
Colocadas nos braços.

Nada muito especial
Minha vida nunca subiu
Nem ao menos desceu
E ficou a meio fio
Esticado em dois postes
E assim me tornei
Equilibrista
Que faz rir
Quando cai na rede
De um jeito engraçado
Mas não me importo com isso
Mas se importasse
Nada mudaria
E o vento continuaria
Soprando
Para o lado que desejasse
Sem querer agradar
quem quer que fosse
sem preferência
sem preferência alguma.

Ausência sem medida

Ainda a ausência sentida
Não é de alegria
Nem tristeza
Apenas ausência
Que marcará infinitamente
A alma pequena
Sublime ausência
Que alimenta afinal
As letras tortuosas
Que faz da vida
Mais interessante
Mais pelas falhas
Tão imperfeita
Que nenhum erro possa ser
Realmente um erro.

Sendo do contra

Ser do contra se tornou
A contramão dos bons costumes
Só por ser contrário
A qualquer afirmação
Pois negação se tornou
Vocabulário corrente
Dos críticos contumazes
De qualquer aceitação.

Antes de aceitar
Negue dez vezes
Até que a negação
Cai em desuso
Até que a negação negue
A si mesmo
Até que a negação se canse
De tanto negar
E as negas de plantão
Possam assim
Assumir que elas podem
Também dizer sim.

Mas espere um pouco
Antes de dizer
Continue negando
E sendo do contra
Sendo do contra
Não precisa assim
Assumir
Responsabilidades.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Amigo(a) para sempre

Nestes encontros da vida
Uma vida nova
Toma forma
Uma nova amizade
Numa amálgama
Ganha forma
Em que conversas
São conversadas
Em que confianças
São confiadas
E desta forma
Um amigo
Noutro amigo
Nasce sobretudo
Sobremaneira
Uma responsabilidade

Ter um amigo
É ter uma responsabilidade
Pelo outro
Como se o outro se confundisse
Comigo mesmo

Por isso
Um amigo é para sempre
Uma responsabilidade para sempre
Com a vida do outro
Com a própria vida
Com a vida comum

Por isso
Quando as amizades acabam
Acaba também a confiança
E a desconfiança nos torna
Mesquinhos
Pequeninos

Quando as amizades acabam
Somos imensamente
Irresponsáveis
Pelo outro
Por nós mesmos

As amizades jamais deviam acabar
Se um dia ela esteve presente
Em nossas vidas

Se acabou
Somos nós que acabamos
Como seres humanos
Sem nenhuma justificativa
Sem aplausos
No silêncio
E envergonhados

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O leitor de mãos

As mãos eram o que ele lia
Nunca banca montada na porta da loja
Toda freguesia
Homens e mulheres
Fazia fila
E dizia para uma
“Vai casar no próximo ano”
Para uma outra
“Vai ganhar na loteria”
Vendia ilusões
Vendia felicidade
Esperança é o que não faltava
Para o homem que lia
Só não lia suas próprias mãos
Ele próprio
Não acredita em suas previsões
Só servia para os outros
A quem não conhecia
A quem lia
Lia as linhas das mãos

domingo, 22 de janeiro de 2012

Batida da bola

Quando criança
Uma bola batia
Contra a parede
A bola voltava
A bola ia
A bola batida
Quanto mais força
Colocava
Ela ia e voltava
Por um longo tempo
Nada da bola cair
E ficava batendo
E a parede batia
E a bola batia
Numa relação cármica
Que tinha
Com aquela bola
E batia...
E batia...

sábado, 21 de janeiro de 2012

Se foi com o vento...

Para onde se retirou
Filomena
Que chegou sem avisar
Encontrou a porta aberta
Entrou e ficou
Fez carreira
Cantoria
Cantaria fez também
Um dia abandonou tudo
Amigos que tinha
Amigas também
Pela mesma porta
Se foi
Sem se despedir
Nem olhou para trás
Sem mais
Sem menos
Como vento passageiro
Sem saudades
Se foi
Filomena

Se perguntarem por ela
Ninguém sabe
Ninguém viu
Ninguém sabe por onde anda
Filomena

Pode ser até esquecida
Mas seus olhos gigantes de felina
Estes continuarão brilhando
Nas noites escuras
Olhos de Filomena

A chuva

Nem sei direito
Em tempos de chuva
Onde realmente a chuva
Cai
Se cai lá fora
Se cai dentro de mim
E este barulho monótono
É da chuva caindo
Cai a chuva devagarinho
Nem sei direito
Quem cai neste momento
Se é a chuva que cai
Se sou eu quem cai
Ou sou a chuva que cai
Incessantemente...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fingidor do nada

Nada mais havia naquela mesa
Em que me sentei um dia
Nada mais havia
Nem a sombra do passado
Que pudesse continuar tomando
Uma taça de vinho
Nada mais havia
Que pudesse me incomodar?

Justamente a falta de incômodo
Torna-se incômodo
Pela incoerência
Dos fatos
Pela desumanidade
Da dissolução
Dos laços intensamente
Vividos
Como nada mais disso
Fosse importante
E caísse na mais banal
Falta de importância
E fingimos
Nossa total deselegância

domingo, 8 de janeiro de 2012

Vida de ciclista

Numa corrida de bicicletas
Muitas são elas
Multicoloridas
Penetrando montanhas
Geladas
Montanhas rochosas
Sem se deter
Seja dia seja noite
Seja ventania
Correndo sempre adiante
Correndo em direção alguma
Correndo
Apenas correndo
Sem desistir
Desistir de viver
Desistir de continuar correndo
Ainda que se caia
Que se rebente
Machuque e quebre a perna
Machuque e quebre a cara
Machuque por continuar
Se equilibrando
E mudando a marcha
Subindo ladeira
Vencendo porteiras
Criando amizades
Brigando e fazendo as pazes.

Mas às vezes
Alguém desiste
Não quer andar mais
De bicicleta
Nem quer mais
Viver perigosamente
Prefere acomodar-se
Na própria indolência.

Aos que desistem do caminho
Fica-nos a lembrança
De que um dia
Caminhamos juntos.
Continuo pedalando
Pois nada sei do que pedalar
E cair continuamente
Até aprender a pedalar
E não cair mais.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Encontros e desencontros

Encontros tão simples
Sem marcar hora
Sem marcar encontros
Sem saber
Encontramos
E ficamos amigos
Por um longo tempo
Falamos
E trocamos informações
E ficamos sabendo
Uma vida inteira
E achamos que o encontro
Perdurará para sempre
Amigos para sempre
Mas nos apaixonamos às vezes
E com medo ficamos
Vai-se a paixão
Ou fica-se eternamente
Sem amizade alguma
Desencontro para sempre
Como um dia veio
Um dia se foi
Pela porta da frente
Pela porta de trás
Sem nada falar
Ou por falar demais.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um sonho inútil

Um sonho que acaba
Assim que um acaba
Um sonho novo
Vem em seguida
E achamos que nesta vida
Livramo-nos dos sonhos
E das ilusões
E temos certeza
Imensa incerteza
Quando mais a fundo ficamos
Sonhando
E por isso
Nada mais irreal
Do que viver na real
Deste mundo imundo
De poeira abstrata
Que se instala
Comodamente
Na Inteligência humana.

Caindo no fundo do sonho
Caindo numa casca de banana
No fundo
No raso
Pouco importa:
Quebramos!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Dragão envelhecido

Uma tatuagem
inscrita no braço
não demorou muito.

Anos se foram
e a tatuagem ficou
e envelheceu
e fora de forma ficou
totalmente amassada
que não lembra mais
sua juventude
belo e formoso
de patas armadas
e de olhos de fogo.

O fogo apagou
as patas amoleceram
e acabaram morrendo
junto ao braço.

Na passagem do ano

Temos a mais insensata
ilusão
de que este ano
pode ser diferente
e bom
se não somos bons
realmente
se continuamos
patinando numa lama
escorregadia da ignorância
e continuamos a repetir
sempre
movimentos de sempre
um bailado sinistro
vestidos de palhaço.

Patinando na lama

Temos a insensata ilusão
que crasso na alma pequena
quando a roda da roda-viva
gira uma roda inteira
como que na próxima rodada
tudo fosse diferente
e a vida fosse diferente.
Se nenhuma mudança faça
nem fora
nem dentro
deste corpo cada vez mais estúpido
que nada mais fez
e deixa de fazer
do que reclamar
dos outros
dos corvos
que indiferentes a tudo
apenas esperam
a roda girar.

Surfista das tormentas vividas

Cada vez mais passageiro
de passagem se torna o tempo
sem que possamos deter
por um instante sequer
as rugas alongando-se
pelo rosto inteiro.

Rugas que sempre
existiram no tempo futuro
do jovem que dança
e balança numa prancha
de surf
equilibrando-se
para não cair.

Mas continuamos ainda
numa prancha
muito mais hábil
do que ontem
contornando golfinhos
e brincando com os
tubarões
sem cair
e caindo sempre
para cair de novo
e de novo deixando-nos conduzir
como Ulisses
pelas sereias
as mesmas que devoravam
as almas dos homens
transformados todos
em carneiros a balir
encantados pela lua.

Sem correção
errando em direção
dum abismo
em que as lavas
de um vulcão
prestes a explodir
consolam diante
dos perigos desta vida
ilusória e maldita
mas vivida intensamente
seus pecados todos
bebidos todos num cálice
de prata.

A nau dos desvairados

Para atravessar um canal
revoltoso
de tempestades
numa nau uma multidão
procurava chegar
ao outro lado.

Da multidão surgiram
revoltas e guerras
amores e filhos
desamores e desaforados.
Alguns eram bons
outros eram maus
outros médios
eram meio bons
eram meio maus
alguns alumbrados
alguns faziam terapia
outros psicanálise
outros ainda nada faziam
senão falar da vida dos outros
só para mostrar que faziam
alguma coisa.

Mas quando soprou um furacão
não importava mais
a condição de cada um
nenhum outro lugar tinha
para ir senão
para o centro da nau
e rezar juntos para a nau
não afundar.

Nenhum outro lugar
tinha.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Uma febre amorosa

Uma patologia
amorosa era
que patologicamente
conheceu a felicidade.

Um dia um especialista
curou a patologia
e da patologia se livrou
conheceu a infelicidade.

Uma banda tocava

Quebrando a monotonia
das ruas
daquela pequena cidade
pequena era a curiosidade
dos que saíam pelos portões
para escutar
uma banda tocar.

Havia duas bandas
uma que portava vestimenta
preta
ou era azul escuro
uma outra
de branco
impecavelmente branco
e que tocavam
enquanto marchavam.

Muito se foi
a cidade pequena cresceu
a banda se tornou
notícia do mural
do museu municipal
que um dia uma banda
tocava
pelas ruas da cidade.

Havia uma banda
que tocava.
Havia duas bandas
que tocavam...

Caixinha de música

Um dia quebrou
a velha caixa de música
e nunca mais tocou.

Definitivamente
aquela melodia triste
deixou de existir.

Nenhuma outra música
foi tocada
e a caixa quebrada
nem sei para onde foi.

Nem música triste
nem qualquer outra música
e o mundo emudeceu.

O padre do bumbo

Pelas ruas da cidade
havia um padre
havia um bando de crianças
e uma tocando bumbo
que ia na frente.

Era o padre que recolhia
as crianças
e levava para a missa das oito.
Era o padre que queria
um público para a salvação.

Quando o padre aparecia
todos iam atrás do padre.
Apenas eu o ignorava
não queria saber do padre
nem da salvação.
Nem fui salvo nestes dias
nem nos outros
apenas vivia
com o padre tentando
salvar o mundo.
Imenso mundo que cabia
no bumbo do padre.

Numa estrada torta

O que se pode dizer
de si mesmo
senão uma breve
lamentação.

Não fui sapateiro
borracheiro não fui
Não fui eletricista
nem metereologista
guitarrista de uma banda
de rock
como existia nas garagens
de minha adolescência.

Meus amigos se foram
meus amores se foram
meus sonhos também.
Só me restou o caminho
das estrelas
em que nada encontro
senão uma poeira fina
de meus pés mesmos
num rastro apagado
atrás de mim.

De fato fui
errado
fui mal e malcriado
fui um pau torto
que nunca tomou jeito
nem se endireitou
pois não havia jeito
sujeito a vagabundice
literária
das letras descompostas.

Castelos de areia

Um castelo de areia
de areia molhada
da água do mar.

Um castelo de areia
em que brincavam
juntos um menino
juntos uma menina.

Brincaram a manhã toda
brincaram a tarde toda
e não deixavam que a água
salgada que havia adiante
carregasse
um castelo de areia.

Até que
de tanto brincarem
no mesmo castelo
na mesma brincadeira
a menina resolveu ir.

Mas antes
pediu sua parte
do castelo de areia
daquela brincadeira.
Nada tinha a ser levado
da parte do castelo
foi quando resolveu destruir
uma parte dela mesma
pois nada daquilo pertencia
ao menino.

Um castelo danificado
foi o que restou
daquela brincadeira
e a menina se foi
e o menino ficou
com as ruínas
que fora um dia
um castelo de areia.

Colonização por todo lado

Cuidado com a Coca-cola
colonização americana.
Cuidado com o Carrefour
colonização francesa.
Cuidado com a Nestlê
colonização suiça.
Cuidado com a Wolkswagen
colonização alemã.
Cuidado com a Honda
colonização japonesa.
Cuidado com a Samsung
colonização coreana.
Cuidado com a Capoeira
colonização africana.
Cuidado com a loira
colonização catarinense.
Cuidado comigo
colonização de minhas palavras.
Cuidado com a colonização
pois será tudo
será o mundo
e o mundo será
tão pequeno
que caberá no coração
cidadão do universo.

Onde quer que esteja
será a sua pátria.
O que quer que coma
será seu alimento.
O que quer que pense
será seu pensamento
colonização do mundo.

Por uma cabeça perdida

Um homem havia a muito
que perdera sua cabeça
procurou de um lado
no lado esquerdo não havia
não havia no lado direito
e onde quer que pudesse
procurar.

Por fim achou uma
não era a sua
não se importou com
isso.
Ficou com aquela cabeça
uma cabeça de papelão
não se importou com
isso.

A cabeça de papelão
de tanto pensar
incendiou-se
e foi-se de vez
a cabeça de papelão.
Buscou outra cabeça
a cabeça que encontrou
era a cabeça de um
cabeça dura
cabeça de pedra.
Melhor do que a outra
cabeça de papelão
cabeça de pedra
que de tão dura
mais dura ficou
trincou por pensar
demais
demasiadamente
dura por pensar.

Procurou por outra
uma cabeça mole
uma cabeça de maria
mole
que de tão mole
amoleceu todos
os neurônios
os plutônios
os parafusos
e derretou.

Toda cabeça encontrada
não lhe servia
e assim resolveu ficar
sem cabeça alguma
e quando precisasse de uma
qualquer uma
poderia lhe ser útil.
Inútil seria buscar uma cabeça
que fosse
que fosse somente sua.

Nem das cabeças somos
donos!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A violência diante da beleza

Podemos viver todas as emoções
Senão seríamos insensíveis.

Mas nada mais belo
Do que na emoção mais violenta
Nenhuma palavra violenta
Nenhuma ação violenta
Nenhum sinal violento no rosto
Nem no canto da boca
Nem nos olhos
Cuja menina dos olhos
Placidamente contempla
Apenas contempla.

Nada mais violento
Do que a beleza
Que violenta
Aqueles que se derramam
Em lágrimas
Diante de um perigo
De um movimento quase parado
Que sugere
Apenas sugere.

Em busca de uma causa

Pode ser qualquer uma
Em defesa disso
Por ser outra coisa
Em defesa daquilo
Pode ser do contra
Contra alguma coisa
Qualquer coisa
Discriminação
Discrição
Diletantismo.

Contra os livros
E a favor das matas
Contra a erotização
E a favor da repressão corporal
Contra o sacrifício dos animais
E a favor da alimentação vegetal
Que pode se explorado...

Em defesa dos cachorrinhos
Explorados pelos seus donos
Que precisa tomar banho
Usar sapatinho
E andar de coleira
Como um palhacinho
Sem poder ser livre
(Um cachorro nunca é livre)
A liberdade existe
Apenas para os homens
(E também mulheres)
Senão seremos acusados
De discriminação!
Para escolher o lado
Do contra
Do favor
Do contra ao contra
Do favor ao contra
Do favor a não ter preferência
Por qualquer lado que seja.

Estragos depois das águas

Continua a causar estragos
As ondas do tsunami
Que invadiram as terras
As mentes invadidas
Enlouquecidas
Perdidas pelas ruas
Sem nenhum rumo
Cujo rumo que tinha
Desfez-se no primeiro instante
Quando as águas retornaram
Salgando toda a terra
Para que não nascesse mais
Nem ervas daninhas
Para que não nascesse mais
Nem ervas boas
Para curar a ressaca
Que continua ainda
Enlouquecendo
Ainda

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quando a bola caiu

Uma bola de tênis
Batida
Rebatida
Num vai e vem
Num saque mais rápido
Mais rápido se fez.

Cruzando os ares
Por cima da rede
Sem cair
Mas há de ser um dia
Mais cedo
Mais tarde
Há de cair.

Não se sabe
De que lado
Daquela rede
A bola caiu!
E perdeu.

Mas o que importa
Isso?
O importante é bater.

Por falar em amor

Quando passava ela
Maltratava
Ela
Não olhava na cara
Simplesmente a ignorava
Não dava boa-noite
Nem me despedia
Nem bom-dia
E quanto mais
Maltratava
Era dela que gostava
Mas não queria
Dizer isso
Ela sabia...
Ela sabia...
Até que ela se cansou
Até que ela se foi
E não voltou
Ele sabia...
Ele sabia...

Uma fuga frustrada

Pensei um dia me retirar
Ir para longe
Fui para a Amazônia
Fui também a Patagônia
Não fiquei muito tempo
E voltei
Ainda que tivesse ido
Nem um passo foi dado
Do lugar em que sempre
Me encontrei
Nunca saí do lugar

Retorno não acontecido

Foi onde nasci
Pelas ruas desconhecidas
Andava
E nada via
Nem se lembrava
Que um dia
Por lá passara
Uma vida inteira
Até que um dia saí
De lá
Voltei outras vezes
Não conhecia mais ninguém
Alguns tinham morrido
Outros também saíram
Só que penso agora
Nunca estive lá

Esconde esconde

Nem todas as pedras
Machucam
Nem todas as palavras
Ferem
Por trás de cada palavra
Outra bem diferente
Diz a verdade
Como pudesse somente
Ser conhecida
Por aquele que lê
Na transparência das paredes

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Por uma questão de maldade

Sem orgulho algum
De sua natureza
O escorpião pica
O outro
Que embriagado
Pelo veneno
Vive para contar.

Quem morre
Sempre
É o escorpião
Que morre calado
Pois sempre o vilão
Deve morrer no final.