sexta-feira, 29 de abril de 2011

Temores que me perseguem

De todos os santos que havia
Havia um
Que causava uma inquietação
Seu corpo flechado
Agonizante delirava
Enquanto o sangue jorrava
De suas feridas.

Até a ferida que havia
Em meu joelho esquerdo
De uma ralada no asfalto
Num carrinho de rolimã
Não doía tanto assim.

O que doía mais
Era o olhar de Margarida
Mulata que cuidava de mim
Em desaprovação
Às minhas faltas nas aulas
De religião.

O que temia mais
Não era ir para o inferno
Que nunca entendi bem
O que temia era morrer
E não ter onde ir.

Viagem ao longe

Se tivesse que me ir
Para um lugar distante
De meus amigos não me despediria
De meus inimigos
Quem sou eu para ter inimigos?
Iria sem despedida
Iria para as areias do Deserto de Gobi
Onde o calor ainda brilharia
Sobre os cristais aos pés dos camelos
Estes continuariam caminhando
Sem se deter jamais
Cujos rastros logo apagariam
E logo seria esquecido
Livre para alcançar a estrela
Do oriente
Atrás de uma duna
Sonhada sem nunca ter saído
Daqui.
De onde nunca arredei pé.

Minha flauta de plástico

Mais importante do que viver
É aprender a tocar flauta.

Nunca toquei nada
Nunca pintei nada
Mas tive amores
Grandes e passageiros
Pequenos e sorrateiros
Por estar preocupado demais
Nestes assuntos do coração
Esqueci-me de viver.

Se pelo menos tivesse
Aprendido a toca flauta
Minha solidão seria companheira
De uma música inventada na hora
Uma nota de jazz de um negro
Enchendo as bochechas de um sopro
Capaz de encher meus pulmões de vida

A vida é uma nota de jazz
Breve
Imensamente breve e bela
Soprada com toda a energia.

Passou mais rápido

Quanto tempo perdi
Procurando por algo
Que sempre tive e não sabia

Quanto tempo perdi
Estudando economia
E gastei tudo que tinha
Num bar de esquina

Quanto tempo perdi
Perseguindo as andorinhas
Que assim bateram asas
E se foram sem olhar para trás.
E a felicidade não passava
De pura fantasia
Confete atirado num carnaval
Passado
Quando percebi
Nada mais restava
Do que o vapor de uma
Chaleira levantando a tampa
E apagando a chama.
E a vida se foi
E não vivi.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Espelho de bolso

No espelho de bolso
Tenho um rostinho
Com que gosto de conversar
É sempre ele que eu clamo
Quando quero chorar
Ou é pra ele que eu peço
Pra ajeitar meu sorriso
Ou cutucar meu dente do siso
Que também dói no rostinho
Do meu pequeno espelhinho

Lua

Pela noite sigo com os olhos
Caçando a beleza outonal
Formosura que brilha linda no céu
Com formas delirantemente prateadas

Se esconde lá
Se esconde cá entre as nuvens
Fazendo proposital charme
Que enlouquece a vista

Confunde a língua e o pensar
Deixando as ferramentas do homem
Incapazes de compor
Poemas sobre sua beleza
Redonda e prateada

Lá se foi novamente, entre as nuvens!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Haikus

Trânsito infernal
Borboleta no vento
Radial Leste
(dedicado à todos os amigos do templo)

Na calçada, ali
Amiguinho sem dono
Gatinho morto

Agora ou jajá?
Ansiedade grande
Final de aula

Você já chegou?
Passou o tempo, nem vi:
Cabelo branco

Olhos nos olhos,
Esfrega, insinua:
gato quer leite.

Jardim já seco
Borboleta laranja
Caneta e papel.
(dedicado aos amigos do Muro, borboletas laranja num jardim já seco)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Negra neve

No campo coberto de neve, disse o escaravelho à garça branca: gostaria de viver num certo lugar, nem futuro, nem passado, num lugar que é quando não estou aqui. A garça disse: é aí que vivo. E sem hesitar sorveu o pequeno inseto através de seu bico comprido e o digeriu. Mas antes, a paisagem engoliu a garça.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Jogos da vida

Aprendi a jogar amarelinha
Perdia sempre.

Aprendi a jogar bate-caixinha
Perdia sempre.

Aprendi a jogar xadrez
Perdia sempre.

Aprendi a jogar esgrima
Perdia sempre.

Aprendi a jogar jogos do amor
Continuei perdendo.

A vida é um eterno jogo
Que se joga para perder...

Jogos evitados

Se os olhos cruzassem Tudo seria revelado. Mas nenhuma revelação Seria capaz de suplantar Tamanha sedução Do próprio segredo!

Silenciosamente

Quando nada mais temos Que dizer Então podemos mais uma vez Silenciar nossas bocas. Só não podemos Silenciar o fogo que arde Nos olhos Que sempre quer dizer algo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Cansei, cansei-me e cansei-vos

E eu,
sempre tão disposto,
sempre tão ávido
(de estudar, aprender, ouvir)
sempre tão observador
Cansei, e pior:
Cansei-me de tanto ser
Sempre tão disposto e ávido.
Cansei, cansei-me e cansei a outros
Com meus apontamentos, críticas e sugestões
(tomadas por bravatas baratas de esquerda barata)
Qual a razão de tudo? Pecha de bravateiro?
Volto ao axioma:
Cansei-me, logo calo-me.
Só agora, enfastiado e farto de estar cansado,
Cansei-me do silêncio.
Diabos! Pro inferno as sugestões e o mero silêncio!
Nem raiva, nem depressão, sequer uma bufada de indignação...
Quero aprender latim, e falar sozinho uma língua morta!
Que diferença fará? Não sei... mas fará.
Nojo e desprezo são negativos? Depende.
Alegria e aceitação são positivos? Depende.
Seja o que for, que não seja impositivo...
E eu,
que sempre soube finalizar meus escritos,
Este não sei como acabar.
Que seja.

domingo, 3 de abril de 2011

Louco e presidente

No cortejo
De um ex-vice
Ex-vivo
Presidente da república
Aquele homem
Isolado na multidão urbana
Num dançar louco e frenético
Nas músicas dos automóveis
Nunca viu aquele presidente
Que nunca viu aquele homem

sexta-feira, 1 de abril de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Irrealidade da vida

Quando acordo
E meus olhos sentem
O brilho do sol
Cada vez mais
Os meus olhos ficam
Cegos
Por um exagero
De informações visuais
Que numa confusão
Confundem
E perdido dentro delas
Sou apenas uma borboleta
Passando diante
De um bosque em floração.

Quando acordo
Um exagero de realidade
Queima pelo asfalto
Numa tarde de verão
Levantando vapores
De um petróleo viscoso
Que gruda em minhas botas.

Quando acordo
Deixo uma outra realidade
Menos impossível de ser vivida
Em que outro ser
Caminha feliz e na liberdade
Habita seu mundo idílico.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Perigos da vida

Uma falta de consistência
Nos passos em que afundo
Mais fundo no barro da existência
Meus pés enfiados em botas
Que esmagam meus calos
Mal formados
Cuja calosidade maltrata
Este corpo em decadência.

Firmar os pés
Onde firmeza alguma
Tem qualquer validade
Como a pisar em nuvens
Nenhuma solidez acontece.

Viver
É correr riscos
De um mundo cada vez mais
Desconhecido
Em que somente os sonhos
São possíveis
Diante da impossibilidade
De uma vida concreta
Em vias de concreto
E cimento armado
Que de duro trincou
Ao menor abalo
De um terremoto de emoções.

Ainda um sonho

Não sei que imagem são estas
Serão estas de um jogo eletrônico
Dessas que brincam as crianças?
Que enfrentam monstros espaciais
Godzilas que chegam do mar
E em instantes destroem a cidade
De Tóquio.

Não se acredita jamais
Que as águas vindas do mar
Possam de fato
Tornar a terra mar
Arrastando barcos
Das casas que havia
Nada mais havia mais
Do que escombros arqueológicos
Do que foi um dia
Uma vila de pescador.

Minha oração é vazia
Silenciosa neste instante
Minha oração é passageira
Como passageira é a vida.

Problema do outro

Uma enxurrada avança pelas terras
Uma enxurrada revela tensões
Descobrindo por onde passa
Um sentimento de medo
De ser engolido de repente
Pelo desconhecido fluido líquido
Que mata e faz nascer também
Um ato de complacência
E de tamanha intolerância
Que na indiferença
Nada mais faz do que
Nada fazer
Enquanto os mortos enterram
Seus mortos em covas rasas
Deixando com que uma maré negra
Penetre pelos arrozais
Nas frinchas da terra salgada
Para que nunca mais
Possa ser cultivada.

Mas a vida continua
Para os que perderam casas
Mas a vida continua
Para os que perderam filhos
Continua inclusive para os que
Leram jornais e telegramas
E minimizaram a dor
Pois a dor sempre foi a do outro.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lembranças difíceis de apagar

Tão rápido
Como uma onda no mar
As manchetes já são poucas
Que restaram
Penduradas nos varais
Das bancas de jornal
Que vai caindo também
Da lembrança de alguns
Que pra lá nunca foram
E nunca pensam em ir

Mas ainda hoje
Mesmo que aqui dia
E lá noite
A lágrima ainda é mais salgada
A chuva é mais gelada
E o alimento escasso
Em um corpo
Que ficará marcado
Para jamais esquecer

terça-feira, 15 de março de 2011

Todos se foram

Quantas cegonhas tsuru
Terei que dobrar
Para um pouco que seja
Seja para sanar a dor
Daqueles que viveram
Para contar esta história.

O mar veio por terra
E de terra nada mais sobrou
Da terra tudo levou
Para o fundo do mar.

Agora vivem todos
Num castelo de conchas
Para nunca mais voltar.

Agitação do mar

Havia naquele dia
Uma agitação desigual
Anormal para os padrões
Normais da movimentação
Do mar
Que tomado de fúria
Voltou-se contra os homens
Que frágeis pereceram
Afogados
Para não contar a história.

A morte que vem do mar

Ainda que procure manter-me
Distante
Das águas que por lá passaram
Levando barcos e sereias
Por cima de suas ondas
Nunca fiquei tão próximo
Em meu silêncio
Que tudo desconversa
Para não se tragado de vez
Pelos redemoinhos
Que agitam minha consciência.

Meus olhos nunca choraram tanto
Pelas mulheres que afogaram
Seus corpos pesados de encantamento
Seus filhos que nunca serão adultos
Pelo impedimento de terem em suas bocas
O gosto do sal.

Todos os sonhos se foram
Numa maré negra de destruição.
Após a desdita nada mais resta
Do que enterrar em fossa funda
Os destroços de uma vida tranqüila.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Lá de longe

Um homem que caminha pela vida
E deixa a vida caminhar por ele
Sem as preocupações
Suas marcas tatuadas na pele
Pode fechar os olhos primários
Que jamais se perderá
Com os olhos verdadeiros
Guiados por aqueles
Que mesmo longe
Estarão sempre ao seu lado

Não mais Pacífico

Para alguns foi um dia normal
Para mim foi quando as terras e as águas
Levaram, não só meus sonhos
Mas o de muitas outras pessoas

E tão logo são enfeites nas páginas dos jornais
E tão logo são semblantes cabisbaixos
Vagando pela cidade desnuda
Que é mostrada sem pudor
Pela grande mãe sem misericórdia

domingo, 13 de março de 2011

Em profundo silêncio

Ainda que meu rosto
Nada mais revele
Do que um semblante
Branco e ignorante
Minha alma chora
Pelos mortos
E pelos vivos que sofrem
Tamanha destruição.

Uma parte de mim
Também morre
Nas águas em tamanha
Violência.
Em meu silêncio
A pulsão do coração
A dobrar repetidamente
Uma oração.

A invasão das águas

Que as almas levadas
Pelas águas do Pacífico
A inundar as terras baixas
Encontrem paz
Nas espumas do mar
E voltem novamente
A mergulhar nas profundezas
E silenciosas águas
Da inconsciência
Tranqüilas e escuras
Compartilhando com os peixes
Um eterno sono
E assim possam sonhar
E assim possam viver.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Acalanto sujo

Lambida de cachorro
unhada de barata
banho da chuva
beijo de sarjeta

Aqui, onde caiu a calçada
- que onde não havia -
Nessa cabeça esponjosa
mendigo e amanheço.

Sento
Como e
Durmo mendigo
Bebo.

Vagueio

(horas)



.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O home que gostava de ficar

Era um homem que gostava de viajar
Viajava, viajava
Sempre observando por onde passava
Olhava tudo, cheirava e tateava

Gostava muito de viajar
Mas, mais do que de viajar,
Gostava de ficar

Pra onde ele fosse
Onde quer que ele viaja-se
Lá, pra sempre, ele ficava

Até o final do infinito
Ele permanecia no mesmo lugar
E assim em todos os lugares em que ia
Chegava e ficava para sempre
Até mesmo para onde ele nunca foi,
Já estava lá para todo o sempre

Isso por que gostava de viajar
E mais do que isso,
Gostava de ficar
Dia de verão
No asfalto giram folhas
Quando passam carros

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

As mariposas

Por todo meu caminho
Eram muitas as mariposas mortas
Que nunca foram enterradas
Pois as mariposas não precisam
De uma morada no fundo da terra.

Elas moram todas elas na noite mais escura
Do fundo de minha alma.

As palavras mudas

Toda formalidade das formas possíveis
Do encontro dos olhos
Que dizem algo diferente
Do que demonstram ser
Para que assim um jogo
De palavras não ditas
Possa parecer uma emoção
Que por pura convenção
Procura-se ocultar
Mas que as partes conhecem
Uma brincadeira de esconder
Diante de uma platéia
Que nada faz do que
Desconfiar.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O lírico é sempre social

Essa universalidade do teor lírico, contudo, é essencialmente social. Só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade; mais ainda, a própria solidão da palavra lírica é pré-traçada pela sociedade individualista e, em última análise, atomística, assim como, inversamente, sua capacidade de criar vínculos universais.

ADORNO.T,Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p.67

Noites de fevereiro

Bem a noite chega
Uma canção espanta a melancolia
Destes tempos de incerteza
Em que fevereiro muito mais
Incomoda a alma pequena.
Se fosse marinheiro não seria
Se fosse cavaleiro não seria
Solitária alma pequena.
Mas as sombras são bons amigos
Para quem queda na quietude
E por pouco não cai em sono profundo
Em que o mundo é boa morada
Para os que não perderam a esperança
E assim esperam sem se deter
Nunca
Nem com a calmaria
Nem os tufões o amedrontam
Mas medo tem
Dos amores de Maria.

O poema lírico e o univesal

Não que aquilo que o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquilo que todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volanté de tous, não é a da mera comunicação daquilo que os outros simplesmente não são capazes de comunicar. Ao contrário, o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal por tornar manifesto algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido, anunciado desse modo, por antecipação, algo de um estado em que nenhum universal ruim, ou seja, no fundo algo particular, acorrente o outro, o universal humano.

ADORNO.T, Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p66.

Mensagem de outro

Algumas frases ditas
Estas mesmas
Escritas nas paredes
Sujas e imundas das ruas
Podem ser de serventia
Não uma filosofia barata
Um filosofema apenas.

Dizia aquela
Com todas as letras
E malditas profecias:
“Recordar é sofrer
Esquecer é viver”
Como que falasse
Justamente a mim.

Sem justificativas
Dizia a mim mesmo
Para que viver
Se o sofrimento
É uma condição
Da própria recordação.

Que serve o sofrimento
Se o esquecimento
Se tornar um acontecimento
Vulgar?

Sofremos porque a dor
Incomoda menos
Muito menos
Do que a indiferença
Diante daquilo que não
Pode ser esquecido.

Poesia se torna arte

É isso o que se deve esperar, e até a mais simples reflexão caminha nesse sentido. Pois o teor (Gehalt) de um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, estas só se tornam artísticas quando, justamente em virtude da especificação que adquirem ao ganhar forma estética, conquistam sua participação no universal.

ADORNO.T, Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p.66

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Garota trovão

Aquela sim era uma rapariga teimosa
Que falava contra
Ia de frente
Sem se importar com coisas
E nada a tirava de seu rumo

De palavreado forte
Esgrimava tudo e todos que
Tentavam um ponto
Contra seus atos
Que também não tinham nada de calmos
Alarmantes, estrondosos e repentinos

Trovão! Sim, trovão!
Deveria se chamar trovão
Ou ao menos ganhar um apelido carinhoso
Que se seria aceito, já é outra estória!

Que me leva a escrever

Pergunto-me às vezes
Que motivo tenho
Se motivo realmente tenho
Em compor poesia
Se realmente aquilo que escrevo
Seja poesia
Se não for nenhuma diferença
Pode ser uma palavra diferente
Um mundo diferente
Por estar cansado de viver
Neste mundo tão igual
Em que todos pensam igual
Igualmente nada fazem
Do que o que sempre fizeram
Sem nada muito original.

Queria escrever sobre um mundo
Diferente
Em que todos pudessem viver
E falar
E cantar
E dançar
Sem nada ganhar por isso.

Queria escrever sobre a angústia
Que sinto
De continuamente mastigar a mesma
Massa plástica com gosto de frambroesa.

Queria escrever sobre a tristeza
Dos amigos partindo sem despedida
Das meninas que se tornaram mulheres
E não querem mais brincar
O jogo da amarelinha.

Tenho motivo demais
De continuar escrevendo
Pois um incômodo ligeiro
Incomoda meu pé enfiado
Num sapato com pedra.

Um sonho real demais

Alguém me disse
Que uma tristeza sente
Imensa tristeza sempre
Quando o sonho acaba
E vem o dia
E a luz que cega
A janela aberta
Que mais cega do que
Revela
Um mundo totalmente
Às avessas
Daquele mundo
Em que sonhava
Em que vivia livremente
E podia amar livremente
E se sentia gente.

Imensa era a tristeza dela
Só de pensar que era
Tão somente um sonho
Um sonho que não era
Realidade.

Mas esta realidade dura
Engessada e impura
Se põe como a verdade
Em que toda falsidade
Se torna norma comum
Pelo fato dos olhos enxergarem
Pelo fato dos ouvidos ouvirem
Sem saber que nada enxergam
Sem saber que nada ouvem
Que todos os sentidos mais grosseiros
Nada sentem do que um falso sentido.

No sonho
Justamente no sonho
Todas as possibilidades acontecem
Toda ordem é estabelecida
Nem precisa de polícia
Não há batedor de carteira
Todas as mulheres são livres
E suas bocas sedentas de outras bocas
Para alimentarem-se de pão e de amor.

Imensa era a tristeza de saber
Que o sonho acabou?
Mas quem pode afirmar
Que não se trata de outro sonho
O sonho desta vida
De olhos arregalados
E um susto no rosto.
Ar condicionado
Como última saída
Range incansável

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Amor de minha vida

Alguns vivem de amor
Outros vivem de feijão
Outros ainda vivem de filosofia
Pensei que vivia dos três motivos
Nenhum outro haveria de ser
Mas errei.

Vivo agora por causa
De um único ser
Minha vida só se explica
Se existir em minha vida
Losartana Potássica.
Este é o nome
Suave e doce.

Se ela se for
O que será de minha vida?
Não existiria
Só sei que não existiria.

Como fogo ardo

Fevereiro nunca acaba
Minha febre nunca acaba
Que ferve em minha alma
Como um caldeirão em brasa
Um ferreiro malhando bigorna
De uma barra quase derretendo
Numa alquimia líquida
Sem deixar uma pedra fria
Que logo em fogo em fogo forma.

Como acabar com o fogo
Se de fogo fui formado
Sou o fogo que arde
Na epiderme de um louco
Que bebe poesia
Que come poeira.

Por falar demais

Nem uma palavra a mais
Qualquer palavra que fosse
Nada mais seria do que
Uma grande mentira.

Por isso as palavras
Não são necessárias
Para falar
Nem o olhar é necessário
Para olhar
Não se fala
Não se olha
Para falar diretamente
Para olhar diretamente
No mais profundo abismo
Do entendimento humano
Seria desumano se não fosse
Assim.

Quanto mais tentamos
Uma vez
Duas ou três
Enganar a nós mesmos
Enganar os outros
Logo somos pegos
Cometendo o erro mais
Banal
E só nos resta uma vergonha
De estar sempre rodeando
Em constante redemoinho
Um joão bobo da existência
Pantaleão que desejava
Ser sério
Mas de sério
Nem o amor de Iracema.

Na calada da noite

Ao avançar da noite funda
Num vale profundo de todo sono
Sorrateiramente chega
Uma patrulha de assalto
E logo vai carregando na surdina
Tudo o que o mendigo tinha
Suas roupas velhas
Seu colchão e cobertor
Nada mais tinha do que isso
Mas daquele mendigo não levou
A noite quente de verão
O calor da rua que ainda
Esquentava um corpo de ossos
Que doía no chão duro.

Não levou a liberdade
Do mendigo
Nem sua dignidade de ser
Apenas mendigo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Queria andar de bicicleta

Queria andar de bicicleta
Como todos os outros meninos
Que zombavam de sua cara
Queria andar de bicicleta
Pra poder ir onde pudesse
Pra poder querer ir aonde quisesse
Mas não sabia nem montar
Tanto que, quando foi sozinho
Se esborrachou todo
Com marcas que foram junto com ele
Aonde ele fosse
Só quando já grande
Resolveu se reconciliar
Com a magrela traiçoeira
Que não mantinha equilibrada
A auto-estima do rapaz

É pra carnaval
O andar sincronizado
Na vinte e cinco de março

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O motorista amado

Todos os dias
Ela esperava no mesmo ponto
O mesmo ônibus
Com o mesmo motorista
Mas nunca chegou a entrar.
Tinha medo que seu coração
Fosse guiado para longe
E que assim
Nunca encontraria o caminho de volta
E pior ainda
Se a passagem fosse cobrada
Pagando uma viagem desconhecida
Por isso tudo
Resolveu ficar ali
Sentada
Esperando o ônibus passar
E ir embora
Fazendo essa viagem
Só em pensamentos

Nem é sexta-feira
Mas o happy-hour já
Bebida gelada

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Um castelo em ruínas

Quando vejo o castelo em ruínas
Quanta tristeza me traz
Nada mais resta do que
Um passado que deixou de existir.

Em meio aos muros numa noite
Tenebrosa ainda a lua passeia
Revelando sombras
Escondendo formas.

Os guerreiros que lá lutaram
Morreram todos
Com seus corpos cobertos
Por armaduras
Nas cabeças os elmos
Lanças partidas.

Por um momento
Num sonho novamente
De seus túmulos levantam-se
Os guerreiros do passado
E disparam em seus cavalos
Para nunca mais pararem.

Quisera estar entre eles
Trincando nos dentes
Um ramo de hortelã
Ao cruzar defronte
Da Ursa Maior
No céu noturno de fevereiro.

Sou a contramão da vida

Alguns nasceram para ser
Santo
Outros nem tanto
De santo nada tinham
De um amigo que tinha
De criança queria ser
Santo
Quanta santidade havia
Naquela alma pequenina.

Quanto a mim nada queria
Nem ser santo
Nem ser demônio
Quis ser um dia poeta
Quanto li Manuel Bandeira
E de bandeira levantada
Comecei a compor.

Parei de compor para ganhar
A vida
Perdi toda a vida fazendo asneiras
Do lado de cá
Do lado de lá
Perdi o amor de Maria Luiza
Ganhei o amor de Maria Padilha
E tudo ficou na mesma.

Como invejo meu velho amigo
Que de criança queria ser
Apenas Santo!
Que me resta de mim
Nem poeta fui suficiente
Nem presidente
Sou o lamento que restou
No assobio de um negro
De uma banda de jazz.
Monótono e que faz
Chorar.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Filósofo de fila

Embora todos sentem em fila
A numeração não está na ordem
Quanto tempo deve passar
Quanto tempo já passou
Neste lugar onde a lógica...
- Opa, chegou minha vez.

Metrô

As casas andam muito rápido
Quando ando de metrô
- Parem!
- Assim vão se cansar logo!

O domador

Se fosse um domador
Seria de palavras
Pois nem o leão, o urso e o macaco
Escapariam
Das frases certeiras
E acrobatas
Disparadas num caderno

Chuva de verão
Tampado pelas gotas
Some o horizonte

-

Canários em bando
Voando em disparada
Onde vão pousar?

-

Ouço as palmas
Das folhas que balançam
Brisa de verão

-

Risada singela
Daquele homem grande
Calor do verão

-

Chuva de verão
Cai rápida e certeira
Embaça meus óculos

-

Chove em fevereiro
Rio de rua é como
Rio de matagal

-

Rio da calçada
Que acumula as folhas
Da chuva rápida

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Sem graça alguma

Para quê usar óculos de grau
Se sem grau algum podemos ver
Numa fresta da janela a claridade
Inundando toda a sala em que
Qualquer lembrança não passa
De uma névoa que se abaixa.
Assim que a poeira abaixa
Vem uma tristeza
Pelo fim da ilusão
Pelo fim de toda verdade.

Atravessa neste momento
Um carro alegórico
Que por fim nada tem
De graça!
Quanto coisa no coração!
Dor, alegria, saudade
Glória, coragem e medo...
Amor, mas amor com saudade
Daqueles que dóem gostoso
Com vontade de chorar escondido,
Por trás de olhos serenos.
Tentar esquecer a saudade, a dor,
O medo, a mágoa, a alegria, o desejo,
Abraço mais ainda todos eles;
Saudades de vocês, dela e dos bichos.
Saudades do medo da altura,
Do medo dos helicópteros em rasante
Do meu medo olhando a calma de vocês,
Sentados, eretos, respirando,
Rochas firmes num rio caudaloso:
As águas passam furiosas à nossa volta,
E eu me seguro como posso!
Virar peixe e nadar e me salvar,
Ou morrer afogado como homem?

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Quero ir para longe

Por um longo tempo
Para o Deserto de Gobi
Pensei me ir para sempre
Levando comigo apenas
A roupa do corpo
Um saco de lembranças
Logo esquecidas
Não para começar
Uma nova vida
Nem uma vida já começada
Mas apenas para sentir
O vento soprando
Por cima da areia
Apagando de vez
Os passos deixados
E alguns tropeços
Amores não realizados
Amores que não passaram
De uma noite de verão!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Um rosto duro

Como posso fingir
Um sorriso que deixou
De existir
Se não existe mais motivo
Nem para o sorriso
Nem para o encontro
Que não se repetiu.

Sino da igrejinha

Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Alguém acaba de nascer
Assim acaba de anunciar
Numa praça foi ao encontro
De Maria das Dores
De Xico dos Prazeres
Que numa vendinha
Vendia velas e doces de abóbora
Para a alegria das crianças
Em dia de Cosme e Damião.

Mas o palhaço de um circo esfarrapado
Que instalou-se num terreno abandonado
Está apaixonado pela dançarina
Que nada quer senão
Um príncipe encantado.

Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Começa o espetáculo!

Quando o mundo pára

Ao cair da noite
Um gole apenas de café amargo.
Por cima das ruínas o vento passeia
Sem levantar poeira
E num silêncio demorado
Faz do tempo um tempo parado.
E parados ficamos sem que nada
Mais aconteça.
Acontecimentos que se foram
Confundem-se com acontecimentos
Do agora que nada acontece.
Assim a cidade dorme
Para que a vida aconteça
Nos sonhos em que
O impossível se torna a ordem
Sem pecado algum
Sem culpa
E a sinceridade se torna a ordem
Com toda a verdade
Com toda a disposição.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

a casa do desapego
* última poesia
ou inacabada

Quando você vier à esta casa
vai encontrar o tempo puindo farrapos,
será claro como o vento, será sempre dia e
haverá paredes brancas se desfazendo em cal

Ainda estarei aqui...

Não estarei lá, mas te digo já, pode entrar...
Haverá vultos - impressões, marcas de corpos
- Não se assuste com os tacos gastos

Quando você vier estarei à sua espera e ainda que você me veja terei saído em viagem longa e sob as sombras do nosso jardim de folhas verdes seguindo o caminho sempre longe-longe

Sem cigarra

Mesmo no calor
Essa noite é sem cigarra
Que tanto trabalhou ontem
Hoje trocou seu turno
Com o guarda noturno
Que continuou a zumbizar

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Olhos sem colírio

Um olhar perdido no tempo
Isento de qualquer brilho
Não olha para lugar algum.

Não olha para poder ver
Aquelas formas abissais
Que habitam a casa vizinha
Mais ao fundo do corredor.

Acabou a música

Houve um dia em que
Na mesma dança dançava
Um casal que não se deixavam
Um minuto sequer
Não perdendo sequer
Um volteio
Um rodopio
Até que um dia
A corda quebrou
E a caixinha de música
Parou de funcionar.

Nunca mais dançaram
E depois de algum tempo
Largada num canto qualquer
Acabou no esquecimento.
Cigarra canta
Como geladeira velha
Soando no verão

-

Rosa flor
Com pássaro de madeira
Disputa espaço

domingo, 30 de janeiro de 2011

Trigos ressecados

Pelos trigais amarelados
Ao sabor do vento
Os ramos deitam num instante.

Os ramos que colhi
Nunca a ti entreguei
Secaram-se completamente
Num vaso abandonado
Num canto da estante.

Vida fingida

Os olhos que não se cruzam
Cruzaram um dia!
Os olhos que não se cruzam
Fingem apenas!

A vida é todo fingimento
Pelo medo de que
Numa esquina mais escura
Um ladrão sorrateiro
Uma mulher da lua
Roube o coração.

Quisera ser um esquecido

Como invejo o amigo que esquece
Que pode dormir que logo esquece
Que vive seu dia e tão logo esquece
Sem que nenhum fantasma da memória
Venha a lhe perturbar o sono
Venha a lhe perturbar o dia
Que cada sofrimento sentido
Que de imediato é esquecido.

Meu sofrimento é outro:
É que não esqueço!
Ainda que tente a todo custo
É que não esqueço!

As tardes mais escuras

Nunca mais seus olhos de vidro
Brilharam novamente
Assim nenhuma luz refletiu mais
E sem luz
Em escuridão completa ficou
As plantas deixaram de crescer
As flores deixaram de perfumar
Mas ainda assim a vida continuou
Sem a presença da bailarina
Que dançava uma dança inventada
Naquela hora
E a música inventada numa gaita
Inflada nos pulmões.
Os palhaços perderam a graça
E tristes encolheram-se num canto
Mas ainda assim a vida continuou
Pois o artista equilibrista não perde a pose
E na corda bamba da vida balança
O suficiente para despertar o riso
De um menino que não se retirou
De uma platéia cansada de sofrer.

Os males do Amor

Um cão de três cabeças
Guarda a porta de Hades
Para que nenhum demônio
Fuja e ponha o mundo
De ponta cabeça.

Um dia a corrente rebentou
E Cérbero se pôs a vagar
Pelas noites e uivar para a lua.
Todo o Terror debandou-se afora
E todo o Amor se pôs a corromper
Em completa liberdade os homens sedentos
De Amor pelas mulheres sedentas também.
Embriagaram-se pelas vinhas de Dioniso
Ao som melífluo da flauta de Pã
Enquanto as bacantes dançavam
Em êxtase e o mundo foi povoado.

Mas os deuses temerem
E mandaram lanceiros para
Por ferros em Terror
E Amor também sucumbiu
E Loucura também foi presa
Toda Música parou de tocar
Sem dança alguma
As dançarinas se retiraram
E novamente a ordem prevaleceu.
Cérbero capturado foi posto em correntes
Em cravos fincados numa rocha
Vulcânica selada pela lava seca.

Nunca mais o Amor habitou a Terra
Nem o Céu
Pois Amor foi enclausurado
Em Hades
Para que a Loucura não mais
Perdurasse em toda a Terra.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Marcada a ferro e ponta

Aquelas meninas fora de casa
Não moravam com seus pais
Se tinham pais não se sabia
O que tinham feito não se sabia
Estavam todas isoladas
Tinham no corpo uma marca
Uma tatuagem funda
Que nunca mais seria apagada
Uma tatuagem funda
De uma carência sentida
Marcada na brancura da pele
Que não poderia ser mais escondida

O ser da salvação

Mil sãos os braços de Kannon
Para mil seres salvar
Minha imagem de Kannon
Tem apenas dois braços
E apenas uma mão
Para salvar desta vez
Mil e um seres!

Sinto-me como a própria
Kannon de uma mão só.

Jogar para perder

Jogo da amarelinha
Nunca joguei
Jogo da amarelinha
Que continuo jogando
Jogar para ganhar
Não mais
Apenas jogamos
E perdemos
E continuamos jogando
E ganhamos
Para continuar jogando
E perdemos
Para continuar jogando
E perdemos
Mais perdemos que ganhamos
Mas ainda assim
Respiramos
E jogamos numa perna só
Trocamos de perna
Cansamos
Caímos e nos levantamos
Caímos no inferno
E perdemos
Chega um tempo
Em que perder ou ganhar
Não importa mais
Só queremos jogar
Só queremos viver
Só queremos amar
Sem ser correspondido
Mas continuamos
Tentando!

Flores secas

Rosas vermelhas ficaram
De uma vez secando
Rosas que não mandarei
A qualquer uma que seja
Portadora de um sentimento
Insano.
Rosas que ficaram na memória
Que cada vez mais vai
Se enevoando.

Janeiro de nossas vidas

Apenas neste momento
O som cortante de uma serra
Que corta uma tábua de construção
E faz esticar ainda mais
Janeiro que insiste em ficar
Nestes dias passageiros
Em que as folhas de verão
Despencam cada vez mais
Pelas ruas da Consolação
Nem os garis trabalharam tanto
Que suas vassouras desgastaram-se
De tanto serem esfregadas
No piche das ruas asfaltadas
Em tamanha desolação.
Ainda janeiro não se foi
Não sinto saudades
Nem sinto o vapor em meu rosto
Mais
De uma época em que
Quase o tempo parou!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Silêncio ao cair da noite

Pelas ruas escuras
Os mendigos silenciam-se
Sem que ninguém se dê conta disso
Nem se importam com isso
Como que isso fosse realmente
Importante?

Por isso o que mais choca
Não é o mendigo
Mas o silêncio do mendigo
Que nada mais quer
Senão ficar pela noite toda
Em completo silêncio
Por isso o que mais choca
Neste poeta que toca
Não é o mendigo
Nem o silêncio do mendigo
É a ausência de uma palavra
Que pudesse expressar
Um pouco que fosse
O próprio silêncio
Que nada mais precisa
Senão calar-se para poder
Dizer algo que fosse
Verdadeiramente
Uma verdade sem engano.

Um choro que não choro mais

Ainda em meus ouvidos
Ecoa cortante
O choro das cigarras
Ecoa cortante
O choro das mulheres solitárias.

Mas quanto a mim
Por muito parei de chorar
E uma tristeza à toa
Visita-me sem convite algum
E se retira também
Quando lhe apetece
E se vai após tomar
O chá da tarde!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vejo da janela
A cidade com biscoitos
Férias de verão

-

Noite se prolonga
Entre passado e presente
Amigos de escola

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Saudade

Tempo que foi e ainda é
Saudade que é só depois que foi...
Pensar, e se não pensar também:
Saudade ainda assim.
Faz já bastante tempo,
Ilusão de agora há pouco...
Tempo passado, e saudade tão viva...
As vozes, os risos, as palavras, o canto,
Tudo tão vivo em meus ouvidos, olhos, nariz,
Tudo tão... tão... vazio. Sem formas?
Sim.
Sem olhos, ouvidos, nariz e tudo o mais.
Apenas ilusão, a ilusão da lembrança.
Sentado, no exílio, mas sentado.
Bato os sinos e os tambores numa floresta
Que som eles fazem?
Não sei, não ouço.
Queimo incensos
Que cheiro tem?
Não sei, não sinto.
Acendo velas
Qual é a sua cor, a sua luz?
Não sei, não vejo.
Mas forma é vazio,
E vazio é forma,
Gashô!

Chuva

Eu fecho as janelas
E mesmo assim
A chuva não para de cair!

As janelas se fecham
Os pingos morrem lá fora
O trem não para

-

Acima da chuva
Os raios cortam o céu
Abaixo da chuva

-

Na mesma chuva
Fazia dia e noite
Quantos trovões!

domingo, 23 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Crescem as unhas
E plantas nas paredes
Dia de verão

-

Corto as unhas
E a plantas nas paredes
Chuva de verão

-

Mãe, filho e gato
No caminho que se cruzam
Noite de verão

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pernas inquietas
E com fones nos ouvidos
Metrô a noite
Tortuosa é a árvore
Como plantada invertida
Tarde de verão
Céu de nuvens cinza
Sento no banco azul
Passado sem carro
Galhos na janela
Como tambor afinado
Ônibus vazio

Velho lobo do mar

Me lembro de quando era menino
E via as ondas no mar
Que desciam e subiam sem parar
Incansavelmente
E incansavelmente
Não parava de me perguntar:
- Por que é que não param de dançar?
- Não se cansam de pular?

Hoje, velho
As ondas estão nas rugas de meu rosto
Impossibilitado de andar
Não vejo mais o mar
E sei por que nunca para de dançar

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Com o Sol morrendo
Morre mais este homem
Voa o pardal

Iki

Iki dizem todos
Depois da corda
E despertam todos
Em alegria

Dale chico!

Calma! Calma!
No se puedes caminar!
El tren estás lleno
Y La puerta se cerrará!

Castelo de cristal

Todo homem
Constrói seu castelo
Cristalizando sangue, suor e lágrimas
Que se derrete num simples dia de verão

Quando o homem irá dar-se conta
Que a simples choupana de palha
É o seu melhor abrigo para a chuva?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Lição de poesia

Por que compor poemas
Que falam apenas da beleza
Escamoteando debaixo da mesa
Um suposto monstrinho de borracha.
Se para que a luz possa surgir
Também há de surgir a sombra
E todas as criaturas sinistras
E demais imperfeitas.
Um poema pode ser
Um lamento
Uma dor na ferida
Desilusão nesta vida
Pode ser o remédio que cura
Amarga poção
Que desce queimando
Garganta profunda.

Um poema não precisa
Ser bom
Sê bom em sua construção
Deve ser transparente
E somar todos os sentimentos
Daqueles que choram
Um desesperado
Consolo que nunca chega.

Em silêncio padeço

Nenhuma explicação é necessária
Quando o coração é grande
Assim as palavras perdem sentido
Como que atiradas ao vento
Sem nenhum proveito
Mas ainda que nada se fale
No silêncio da palavra não dita
Repousa uma pergunta
Que não cessa de perguntar
Cuja resposta silencia-se
Nos lábios que deixaram de falar.

Fuga no bailado

Chora por mim
Argentina!
Que a dama que baila
Tenta fugir dos braços meus
Que rodopia em seus sapatos
De bico fino.
Seu vestido colado ao corpo
Delgado como uma gazela
De rosto pálido e boca carmim

Chora por mim
Argentina!
Que a miséria te persegue
No subúrbio de Buenos Aires
De jovens enlouquecidos
Que não trabalham
Que não estudam
Que morrem entorpecidos
Da fumaça ácida dos cigarrilhos

Chora por mim
Argentina!
Porque o tempo passou
E não há mais motivo
Para sorrir.

Mas continua bailando
Para espantar o medo
Dos fantasmas do passado
Que novamente assombram
Os transeuntes de Corrientes.

Quando inútil se torna

Como que o tempo parasse
Por algum tempo
E nada mais acontecesse
Em nossas vidas inúteis
Que fosse realmente
De alguma utilidade.
Que futilidade seria
Empinar quadrados
Senão fosse apenas
Por divertimento.
Se um dia a vida
Servisse para alguma
Causa útil
Inútil seria compor
Poesias
Que de útil nada
Teria.
Se as revoluções
Fossem úteis
Não redundariam
Em fracassos.
Se o amor tivesse
Algo de útil
Não seria amor.
Nem a felicidade
Seria possível
Que de palavra bonita
Não passa de um projeto
Que não se realiza.

Mas infinitamente
Se vive
Na mais infinita
Inutilidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sem nada mais segurar

Em cada abandono
Mais a vida se amplia
Em cujo chão que piso
Não preciso de apoio.

Só preciso dos olhos largos
Da mulher que veste branco
A me dar o beijo frio
Em cada despedida.

Rodopia a dançarina
Numa caixinha de música
Que pára de rodopiar
Quando acaba a corda.

Para que chorar
A fuga do canarinho
Se nada pode ser
Definidamente prisioneiro.

Antes do temporal
Recolho nas mãos
As margaridinhas
De centro amarelado.

Passou Jurema
Passou Iracema
A vida passou...