Há muito minha misericordiosa
Sapiência humana e animal deixou
De rapinar gêneros orgânicos
Possuidores de patas e caudas
Barbatanas e asas
Pois sentiam dor
Frio e pavor
Sentiam medo
Não desejavam ser predados
Mas a predação continuou
Desta vez com os vegetais
Quem falou que os animais
Não sentem dor
Quem falou que os vegetais
Não sentem dor
Cortados e trucidados
Pelo fio dos metais
Ainda verdes
Ainda vermelhos
Como rabanetes
Ainda roxos
Como repolhos
A dor dos vegetais
É silenciosa
Angústia sentida
Que não chora
Em sua mudez
Uma mulher muda
Trucidada a golpes
De facão
De machadinho
De triturador elétrico
Para virar suco.
Só o homem pensa
Que vegetal não sofre
Pois não grita a sua dor
Pois nem voz tem.
Sem remorso algum
Sem culpa nenhuma
O vegetal é mastigado
Saborosamente pelo homem
Que defende os animais
De quatro pernas
Pernas para o ar
Mas continua comendo
Vegetais.
Se aprendêssemos
Com os vegetais nos alimentaríamos
Apenas de sais minerais
Da terra profunda
Apenas de gás carbônico
Do céu profundo
Mas não passamos de
Selvagens predando
Vidas vegetais
E outras...
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Dodó e Zezé
Música de Tom Zé
- E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão?
Diga, Zezé.
- É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?
- E por que é que a gente tem que ter um medo danado
de tudo na vida? Diga, Zezé.
- É pra aprender que o medo é o nosso melhor conselheiro,
viu, Dodó?
- Sorrisos, creme dental e tudo. E por que é que a felicidade
anda me bombardeando? Diga, Zezé.
- Anda o que, Dodó?
- Anda me bombardeando.
- Ah! É pra provar que ninguém mais tem o direito de ser infeliz,
viu, Dodó?
- E por que é que um Zé qualquer de vez em quando tem que dar sete
sopapos na mulher? Diga, Zezé.
- Ah! Isso é pra no outro dia de manhã cedinho vender muito jornal,
viu, Dodó?
- E por que é, e por que é, e por que é, e por que é? Diga, Zezé.
- É porque porque, porque porque, porque porque, porque porque,
viu, Dodó?
- E por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão?
Diga, Zezé.
- É pra ter a ilusão de que pode escolher, viu, Dodó?
- E por que é que a gente tem que ter um medo danado
de tudo na vida? Diga, Zezé.
- É pra aprender que o medo é o nosso melhor conselheiro,
viu, Dodó?
- Sorrisos, creme dental e tudo. E por que é que a felicidade
anda me bombardeando? Diga, Zezé.
- Anda o que, Dodó?
- Anda me bombardeando.
- Ah! É pra provar que ninguém mais tem o direito de ser infeliz,
viu, Dodó?
- E por que é que um Zé qualquer de vez em quando tem que dar sete
sopapos na mulher? Diga, Zezé.
- Ah! Isso é pra no outro dia de manhã cedinho vender muito jornal,
viu, Dodó?
- E por que é, e por que é, e por que é, e por que é? Diga, Zezé.
- É porque porque, porque porque, porque porque, porque porque,
viu, Dodó?
terça-feira, 27 de abril de 2010
Sensation
Par les soirs bleus d’eté, j’irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la faîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l’amour infini me montera dans l’âme,
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.
Arthur Rimbaud
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la faîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l’amour infini me montera dans l’âme,
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.
Arthur Rimbaud
???
Blablablablabla:
Blablablablabla,
Blablablablabla,
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla;
Blablablablabla
Blablablablabla!!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla:
Blablablablabla?
Blablablablabla?
Blablablablabla!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla...
Blablablablabla,
Blablablablabla,
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla;
Blablablablabla
Blablablablabla!!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla:
Blablablablabla?
Blablablablabla?
Blablablablabla!
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla
Blablablablabla...
Guerra de crianças
Naquela vila do interior havia
Nos tempos que usava calça curta
Uma guerra de crianças
De um lado havia os azuis
De outro havia os verdes
Cada grupo defendia suas idéias
Cada grupo defendia seus brinquedos
Cada um achava que o seu era
Infinitamente mais belo
Infinitamente mais justo
Por isso lutavam por suas
Causas infantis
Incrivelmente infantis
Incrivelmente egoístas
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Os azuis achavam que o céu
Superava as matas
Os verdes achavam que as matas
Superavam o céu
Por longas noites brigaram
E o tempo passou
Eles passaram
Mas seus filhos e seus netos
Continuaram a tradição
Cada um defendendo aquilo
Que achavam certo
De um lado os azuis
De outro os verdes
Até que um foi alvejado
Não se sabe se era um azul
Não se sabe se era um verde
Era vermelho o líquido que
Correu pelo chão
Mas cada um continuou
Defendendo suas cores
Apaixonadamente defendiam
Passou a paixão
Não defenderam mais
Passaram então a atacar
Até que o próximo fosse
Atingido
Pela intolerância de suas
Propostas.
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Nos tempos que usava calça curta
Uma guerra de crianças
De um lado havia os azuis
De outro havia os verdes
Cada grupo defendia suas idéias
Cada grupo defendia seus brinquedos
Cada um achava que o seu era
Infinitamente mais belo
Infinitamente mais justo
Por isso lutavam por suas
Causas infantis
Incrivelmente infantis
Incrivelmente egoístas
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Os azuis achavam que o céu
Superava as matas
Os verdes achavam que as matas
Superavam o céu
Por longas noites brigaram
E o tempo passou
Eles passaram
Mas seus filhos e seus netos
Continuaram a tradição
Cada um defendendo aquilo
Que achavam certo
De um lado os azuis
De outro os verdes
Até que um foi alvejado
Não se sabe se era um azul
Não se sabe se era um verde
Era vermelho o líquido que
Correu pelo chão
Mas cada um continuou
Defendendo suas cores
Apaixonadamente defendiam
Passou a paixão
Não defenderam mais
Passaram então a atacar
Até que o próximo fosse
Atingido
Pela intolerância de suas
Propostas.
Os azuis defendiam o céu
Os verdes defendiam as matas
Surpresa
Abre teus olhos de amêndoa, amor
e contempla esta flor que não é mais botão.
Cora tua face com a cor da pimenta
e não se demore,
aproxima-te,
experimenta.
e contempla esta flor que não é mais botão.
Cora tua face com a cor da pimenta
e não se demore,
aproxima-te,
experimenta.
Para as crianças
Ouça esta história menino
sabe, as nossas orelhas nunca param de crescer
veja as orelhas do vovô: são enormes, não são?!
Isto é assim desde que o tempo era novo
quanto mais vamos ficando velhinhos, mais precisamos ouvir
ouvir com paciência para ver o coração dos outros
tendo o nosso coração sereno — há sempre novidades (sussurrando
Veja aquela estátua de Buda, que orelhas enormes!!! (e gargalhou...
O que é sereno? — perguntou o menino
sabe, as nossas orelhas nunca param de crescer
veja as orelhas do vovô: são enormes, não são?!
Isto é assim desde que o tempo era novo
quanto mais vamos ficando velhinhos, mais precisamos ouvir
ouvir com paciência para ver o coração dos outros
tendo o nosso coração sereno — há sempre novidades (sussurrando
Veja aquela estátua de Buda, que orelhas enormes!!! (e gargalhou...
O que é sereno? — perguntou o menino
segunda-feira, 26 de abril de 2010
A maçã sem amor
Uma maçã redonda e bela
Mais bela é a maçã de seu rosto
Uma maçã que ofereço a ela
É a maçã de seu rosto que quero.
Se me desse não comeria
Guardaria somente para mim
Quero seu coração por inteiro
Quero a lua desta noite
Quero o pântano e o deserto
Para morrer um pouco
Todo meu desencantamento
Perdi a inocência de outrora
Fiquei mais cínico
Nada mais quero
Mais bela é a maçã de seu rosto
Uma maçã que ofereço a ela
É a maçã de seu rosto que quero.
Se me desse não comeria
Guardaria somente para mim
Quero seu coração por inteiro
Quero a lua desta noite
Quero o pântano e o deserto
Para morrer um pouco
Todo meu desencantamento
Perdi a inocência de outrora
Fiquei mais cínico
Nada mais quero
Poema de finados
Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho;
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem & Estrela da Manhã, RJ, Nova Fronteira, 2000
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho;
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem & Estrela da Manhã, RJ, Nova Fronteira, 2000
domingo, 25 de abril de 2010
Levantando bandeiras
Um movimento foi inventado
Criou-se uma bandeira
Uma causa foi criada
Uma criada também criou
O sindicato das criadas
Que defendia interesses comuns
Das criadas malcriadas
As bem criadas também criaram
Uma criação de pintos de corte
Houve protesto contra o corte
Dos pintos de corte
Houve protesto contra o próprio pinto
Em nome dos bons costumes
Das famílias bem constituídas
Da tradição e da propriedade
Das instituições de classe
Que nada mais criou
Se criasse seria mal falado
Por isso criou também
O movimento dos mal falados
Que falavam de todo mundo
De todos os outros movimentos
Criados e inventados sem criatividade
Alguma
Alguns bizarros
Como o movimento em defesa dos gnomos
“libertem os anões de jardim era o lema”
Criou-se o Partido dos Sapateiros sem Causa
Criou-se o Partido dos Sapateiros com Causa
Sem causa própria aqueles que não tinham causa
Alguma
Defenderam o direito dos cachorros vira-latas
Que poderiam vagar pela cidade
Sem serem incomodados.
Criou-se uma bandeira
Uma causa foi criada
Uma criada também criou
O sindicato das criadas
Que defendia interesses comuns
Das criadas malcriadas
As bem criadas também criaram
Uma criação de pintos de corte
Houve protesto contra o corte
Dos pintos de corte
Houve protesto contra o próprio pinto
Em nome dos bons costumes
Das famílias bem constituídas
Da tradição e da propriedade
Das instituições de classe
Que nada mais criou
Se criasse seria mal falado
Por isso criou também
O movimento dos mal falados
Que falavam de todo mundo
De todos os outros movimentos
Criados e inventados sem criatividade
Alguma
Alguns bizarros
Como o movimento em defesa dos gnomos
“libertem os anões de jardim era o lema”
Criou-se o Partido dos Sapateiros sem Causa
Criou-se o Partido dos Sapateiros com Causa
Sem causa própria aqueles que não tinham causa
Alguma
Defenderam o direito dos cachorros vira-latas
Que poderiam vagar pela cidade
Sem serem incomodados.
Vendedora de água
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Não havia quem comprava
Não havia quem comprava
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem se interessou
Um homem se interessou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem comprou
Um homem comprou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Quem será o próximo
Quem será o próximo
Vendia água na beira do rio
Não havia quem comprava
Não havia quem comprava
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem se interessou
Um homem se interessou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Um homem comprou
Um homem comprou
Havia uma mulher que
Vendia água na beira do rio
Quem será o próximo
Quem será o próximo
sábado, 24 de abril de 2010
Protesto verde
As plantas da minha casa
Não querem ser devoradas
Como que as plantas não sentissem
Nada nenhuma dor aparente
A ser arrancada da terra fofa.
As plantas da minha casa
Querem ouvir música boa
E alegres ficam
Numa platéia cheia de
Margaridas e flor de macieira.
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Somente uma planta entende outra
Somente um animal entende outro
Por isso defendemos os animais
Que sente dor e sofre
Mas
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Não foi uma planta
Foi um animal!
Não querem ser devoradas
Como que as plantas não sentissem
Nada nenhuma dor aparente
A ser arrancada da terra fofa.
As plantas da minha casa
Querem ouvir música boa
E alegres ficam
Numa platéia cheia de
Margaridas e flor de macieira.
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Somente uma planta entende outra
Somente um animal entende outro
Por isso defendemos os animais
Que sente dor e sofre
Mas
Quem disse que as plantas
São insensíveis?
Não foi uma planta
Foi um animal!
Ninguém cabe em si
Sim, as coisas estão no seu lugar
tão perfeitamente que não há como entender
As coisas óbvias são a sabedoria
tão desfocada para os míopes contumazes
Se você quer melhorar as coisas
começa pelo centro do mundo (você)
Mas não diga a ninguém
saiba, isto transborda.
tão perfeitamente que não há como entender
As coisas óbvias são a sabedoria
tão desfocada para os míopes contumazes
Se você quer melhorar as coisas
começa pelo centro do mundo (você)
Mas não diga a ninguém
saiba, isto transborda.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Alegria da diferença
Não apenas molha
A chuva que cai
Lentamente sobre o rosto
Lentamente sobre todo o corpo
Refrescando os ânimos exaltados
De nossas emoções mais profundas
De dizer o que não diz
De pensar o que não pensa
De fazer o que não se faz
Assim podemos contar figurinhas
Colecionadas por toda a vida
Sem importância alguma
Se importância tivesse
Nada colecionaria
Sem serventia alguma
Desta forma podemos começar
A viver de maneira completamente
Diferente
Como que a diferença fosse
A medida certa das conversações
Que podem falar a respeito
De suas diferenças
Caleidoscópicas e instáveis
De toda concordância
Concordância não é importante
Discordância é a liberdade
De discordar amigavelmente.
A chuva que cai
Lentamente sobre o rosto
Lentamente sobre todo o corpo
Refrescando os ânimos exaltados
De nossas emoções mais profundas
De dizer o que não diz
De pensar o que não pensa
De fazer o que não se faz
Assim podemos contar figurinhas
Colecionadas por toda a vida
Sem importância alguma
Se importância tivesse
Nada colecionaria
Sem serventia alguma
Desta forma podemos começar
A viver de maneira completamente
Diferente
Como que a diferença fosse
A medida certa das conversações
Que podem falar a respeito
De suas diferenças
Caleidoscópicas e instáveis
De toda concordância
Concordância não é importante
Discordância é a liberdade
De discordar amigavelmente.
Não estou...
“Não estou além de meu karma: os atos que cometi.
Ainda irei cair doente, envelhecer, morrer e deixar meus amigos.”
Pense assim de novo e de novo e, com esse antídoto, evite toda arrogância.
Ainda irei cair doente, envelhecer, morrer e deixar meus amigos.”
Pense assim de novo e de novo e, com esse antídoto, evite toda arrogância.
Nagarjuna
(Índia, séc. II)
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Por interesse próprio
Cansei-me dos discursos políticos
Em defesa própria
Dos interesses imediatos
Dos grupos interessados.
Sejam da construção
Da transmutação
E da religião
Seja também do interesse
Do síndico do prédio vizinho
Do sindicato de classe patronal
Também nacional e internacional
Do interesse que apenas visa
Enriquecimento próprio
Empobrecimento das faculdades
Um tanto quanto miseráveis
Por interessar por interesses
Que não merecem interesse
Algum.
Sem interesses podemos
Falar de outros assuntos
Incrivelmente interessantes.
Em defesa própria
Dos interesses imediatos
Dos grupos interessados.
Sejam da construção
Da transmutação
E da religião
Seja também do interesse
Do síndico do prédio vizinho
Do sindicato de classe patronal
Também nacional e internacional
Do interesse que apenas visa
Enriquecimento próprio
Empobrecimento das faculdades
Um tanto quanto miseráveis
Por interessar por interesses
Que não merecem interesse
Algum.
Sem interesses podemos
Falar de outros assuntos
Incrivelmente interessantes.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Caminhos do bairro
Pelos meandros deste bairro
Não encontrei o que queria
Até me esqueci que procurava
Enquanto o cheiro de macarronada
Percorria alegremente as ruas
De minha querida Bela Vista.
Numa mesa posta a toalha
Verde e branca bem passada
Não faltava vinho e pão
Não faltava queijo ralado.
Padaria é o que havia
Vendedora de olhos claros
Que lançava para todo lado
Um olhar que desmanchava
Todo ressentimento.
Não encontrei o que queria
Até me esqueci que procurava
Enquanto o cheiro de macarronada
Percorria alegremente as ruas
De minha querida Bela Vista.
Numa mesa posta a toalha
Verde e branca bem passada
Não faltava vinho e pão
Não faltava queijo ralado.
Padaria é o que havia
Vendedora de olhos claros
Que lançava para todo lado
Um olhar que desmanchava
Todo ressentimento.
O guardador de rebanhos
XVIII
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes disso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
CAEIRO. Alberto. Poemas Completos de
Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes disso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...
CAEIRO. Alberto. Poemas Completos de
O homem do saco
De minha infância
Ainda me lembro
Do homem do saco
Carregava nele as crianças
Para serem devoradas
Nas noites de lua cheia.
Por pouco não fui devorado
Pelo homem do saco
Mas devorou ele o meu gato
Mais tarde devorou os meus sonhos
De ser alguém nesta vida vazia
Comprar um fusca de segunda mão
Ser balconista na feira-livre
Fui me interessar justamente
Por tudo aquilo que não devia
Fui me interessar por poesia.
Fuji uma vez da poesia
Fui fazer faculdade de economia
Fui escrever história da vida
O tempo passou
A tristeza passou
Passou o filme mudo
E o filme falado e dublado
O fogo do amor passional
Passou.
Nada mais restou nesta vida
Somente a poesia.
Somente ela para alegrar
Esta vida tão chateada.
Ainda me lembro
Do homem do saco
Carregava nele as crianças
Para serem devoradas
Nas noites de lua cheia.
Por pouco não fui devorado
Pelo homem do saco
Mas devorou ele o meu gato
Mais tarde devorou os meus sonhos
De ser alguém nesta vida vazia
Comprar um fusca de segunda mão
Ser balconista na feira-livre
Fui me interessar justamente
Por tudo aquilo que não devia
Fui me interessar por poesia.
Fuji uma vez da poesia
Fui fazer faculdade de economia
Fui escrever história da vida
O tempo passou
A tristeza passou
Passou o filme mudo
E o filme falado e dublado
O fogo do amor passional
Passou.
Nada mais restou nesta vida
Somente a poesia.
Somente ela para alegrar
Esta vida tão chateada.
Bocas seladas
Toda vez que abrimos a boca
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que se pensa
Como que pensar fosse a medida
Certa e certeira de uma flecha
Ligeira que nunca se desvia
De seu alvo certeiro.
Toda vez que abrimos a boca
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que não pensa
Mas mesmo assim fala tudo aquilo
Que não deveria falar
Sem medir conseqüência.
Melhor é se calar
E calando somente os olhos
Revelam a sinceridade
De todo o silêncio
Isento de palavras
Pois as palavras podem mentir.
Alguns mentem para viver
Outros ainda para morrer
E os mortos não mentem jamais
Nem sentem ódio
Nem amam mais
Não têm ciúmes
Silenciosamente dormem.
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que se pensa
Como que pensar fosse a medida
Certa e certeira de uma flecha
Ligeira que nunca se desvia
De seu alvo certeiro.
Toda vez que abrimos a boca
Corre-se um risco enorme
De falar aquilo que não pensa
Mas mesmo assim fala tudo aquilo
Que não deveria falar
Sem medir conseqüência.
Melhor é se calar
E calando somente os olhos
Revelam a sinceridade
De todo o silêncio
Isento de palavras
Pois as palavras podem mentir.
Alguns mentem para viver
Outros ainda para morrer
E os mortos não mentem jamais
Nem sentem ódio
Nem amam mais
Não têm ciúmes
Silenciosamente dormem.
O monge

Bateu à porta do templo
Sem nada, andarilho, perdido.
'Entre, seja bem vindo'
Entrou, sentou,
Comeu, sentou,
Trabalhou, sentou
Limpou, sentou,
Leu, sentou,
Rezou, sentou,
Costurou, costurou,
Costurou, sentou,
E sentado, calou.
No daike, taiko,
E o fumo do incenso chamou...
Pronto seu manto, voltou a ser monge
Monge, já há muito ordenado
De volta a seu templo, chamado.
Mendicante, tomou a estrada,
Saiu como entrou: sem nada
Deixou no templo o hashi,
E os chinelos na escada...
(dedico aos meus irmãos do Bushinji)
Primeira comunhão primeira condenação
Aqueles meninos de camisa branca
Impecavelmente brancas eram suas almas
Com suas calças azuis marinho
Recebendo a primeira comunhão.
Menos um.
Sua camisa também branca
Mas condenado ao fogo do inferno
Deixou de contar o único pecado
Por vergonha
Talvez
Simplesmente deixou de contar
No confessionário.
Levantou a saia de Mariazinha
Nunca se arrependeu disso
Ainda que fosse condenado
Queimado e estorricado
Morto e cruxificado
Por tudo neste mundo
Mariazinha era o seu pecado.
Impecavelmente brancas eram suas almas
Com suas calças azuis marinho
Recebendo a primeira comunhão.
Menos um.
Sua camisa também branca
Mas condenado ao fogo do inferno
Deixou de contar o único pecado
Por vergonha
Talvez
Simplesmente deixou de contar
No confessionário.
Levantou a saia de Mariazinha
Nunca se arrependeu disso
Ainda que fosse condenado
Queimado e estorricado
Morto e cruxificado
Por tudo neste mundo
Mariazinha era o seu pecado.
Os três amores do menino
Os amores que já tive
Não tenho mais.
Onde foi parar Raimunda
A filha da empregada
Com ela aprendi as primeiras
Lições de anatomia
Num caderno de ciências
Numa aula de geografia.
Onde foi parar Célia Regina
Que trabalhava numa granja
De galinhas depiladas
Mergulhadas em fogo brando.
Onde foi parar Maria Rosa
Que batia pernas pela rua
Subindo e descendo ladeiras
Da cidade de minha infância.
Onde foi parar o menino
Que a tudo isso via
O menino se foi e homem formado
Achou uma grande bobagem
Tudo isso.
Mas o menino ainda existe
Nas lembranças de
Raimunda
Célia Regina e
Maria Rosa.
Enquanto elas existirem
O menino continua existindo.
O homem esqueceu
Não o menino!
Não tenho mais.
Onde foi parar Raimunda
A filha da empregada
Com ela aprendi as primeiras
Lições de anatomia
Num caderno de ciências
Numa aula de geografia.
Onde foi parar Célia Regina
Que trabalhava numa granja
De galinhas depiladas
Mergulhadas em fogo brando.
Onde foi parar Maria Rosa
Que batia pernas pela rua
Subindo e descendo ladeiras
Da cidade de minha infância.
Onde foi parar o menino
Que a tudo isso via
O menino se foi e homem formado
Achou uma grande bobagem
Tudo isso.
Mas o menino ainda existe
Nas lembranças de
Raimunda
Célia Regina e
Maria Rosa.
Enquanto elas existirem
O menino continua existindo.
O homem esqueceu
Não o menino!
A imagem vazia
Nunca me assustei
Um dia me contaram que
Nada existia na cabeça
Da imagem de Kannon
Vazia ela existia para a eternidade
Por imensa compaixão vazia
Sem piedade alguma
Sem tristeza e choro
Sem comiseração
Sem desejo de salvar ninguém
Sem desejo algum
Mas suas orelhas grandes
A tudo ouve
Mas seus olhos miúdos
A tudo vê
Estronda um trovão
E segue-se uma tempestade
Nem toda água enche seu coração
Seu coração também é vazio
Por isso oramos para ela
Com o coração igualmente vazio
Seu sorriso é contagiante
Vazio e contagiante
Somos a própria imagem de Kannon
Somos Kannon
Sem ser imagem
Apenas compaixão
Totalmente vazio.
Um dia me contaram que
Nada existia na cabeça
Da imagem de Kannon
Vazia ela existia para a eternidade
Por imensa compaixão vazia
Sem piedade alguma
Sem tristeza e choro
Sem comiseração
Sem desejo de salvar ninguém
Sem desejo algum
Mas suas orelhas grandes
A tudo ouve
Mas seus olhos miúdos
A tudo vê
Estronda um trovão
E segue-se uma tempestade
Nem toda água enche seu coração
Seu coração também é vazio
Por isso oramos para ela
Com o coração igualmente vazio
Seu sorriso é contagiante
Vazio e contagiante
Somos a própria imagem de Kannon
Somos Kannon
Sem ser imagem
Apenas compaixão
Totalmente vazio.
Desaparecendo no tempo
Mergulho no silêncio de minha’lma
Sem saber se tenho uma
Se tenho uma alma?
Se tenho um silêncio?
Mas no silêncio deste momento
Nenhum pensamento me visita
Calmo no silêncio
Silencio perfeitamente
Que penso que sou silêncio
Nem penso mais e o silêncio
Também desaparece
Nada mais resta do que
Esta fresca manhã de outono
Desaparecer completamente
Ser a manhã de outono
Que também desaparece.
Sem saber se tenho uma
Se tenho uma alma?
Se tenho um silêncio?
Mas no silêncio deste momento
Nenhum pensamento me visita
Calmo no silêncio
Silencio perfeitamente
Que penso que sou silêncio
Nem penso mais e o silêncio
Também desaparece
Nada mais resta do que
Esta fresca manhã de outono
Desaparecer completamente
Ser a manhã de outono
Que também desaparece.
domingo, 18 de abril de 2010
Oração no saco de Mangaratiba
Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência pra que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
BANDEIRA. Manuel. Libertinagem, Estrela da Manhã. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2005. p.50
O que restou da Augusta
Augusta era o nome dela
Augusta virou nome de rua
Que à noite logo se transforma
As transformistas da noite
Em roupas de couro preto
Expostas em vitrines opacas
Augusta era o nome dela
Augusta virou nome de rua
Mas antes era nome de mulher
Que freqüentava os cinemas
Lá daquela rua mesma
Que freqüentava os bares
Lá daquela rua mesma
Também a chapelaria
Os bares em que tomavam
Água tônica com guaraná
Os boêmios tomavam por lá
Os primeiros goles da noite
Os últimos da madrugada
Augusta virou noite
Augusta virou todas as mulheres
Que esperam que alguém
Envie uma carta de amor
Não se sabe de onde
Pode ser de onde for
Pode ser da presidência
Pode ser também da cadeia
Pois todos somos prisioneiros
De nossa própria vaidade
Prisioneiro dos sonhos
Esperança que nunca morre.
Augusta era o nome dela...
Augusta virou nome de rua
Que à noite logo se transforma
As transformistas da noite
Em roupas de couro preto
Expostas em vitrines opacas
Augusta era o nome dela
Augusta virou nome de rua
Mas antes era nome de mulher
Que freqüentava os cinemas
Lá daquela rua mesma
Que freqüentava os bares
Lá daquela rua mesma
Também a chapelaria
Os bares em que tomavam
Água tônica com guaraná
Os boêmios tomavam por lá
Os primeiros goles da noite
Os últimos da madrugada
Augusta virou noite
Augusta virou todas as mulheres
Que esperam que alguém
Envie uma carta de amor
Não se sabe de onde
Pode ser de onde for
Pode ser da presidência
Pode ser também da cadeia
Pois todos somos prisioneiros
De nossa própria vaidade
Prisioneiro dos sonhos
Esperança que nunca morre.
Augusta era o nome dela...
A bailarina no fio da vida
Por um fio elétrico de alta tensão
Sem pestanejar caminhava a bailarina
Com os pés enfiados em sapatilhas
Deslizava numa dança de plumas
Que flutuava ao sabor da ventania
Todo dia lá estava ela a desfilar
Seu corpo de bailarina
Leve era ela que balançava
Para a platéia em dia de sol
Em dia de chuva ela não molhava
Seus pés que deslizava em sapatilhas
Não deixava de desfilar no fio da vida
Desprezando todo perigo
Se perigo realmente havia
Por desfilar num fio da vida
Um fio elétrico de alta tensão
Mas a bailarina nunca deixou
Um dia sequer de desfilar
Diante da multidão que pedia mais
Desfilava toda a sua graça
Delicada era ela seus pés sua cintura fina
Ela era bailarina.
Se um dia ela parasse de desfilar
O que seria da vida
Desta vida sem graça alguma
Se um dia ela parasse de desfilar
Ninguém mais olharia para cima
Terminariam os torcicolos
Mas também os sonhos de todos nós
Sonho de ser bailarina
E poder desfilar num fio apenas
Fio elétrico de alta tensão
Fio da vida
Fio que sustenta toda a minha vida
Me faz acreditar que a esperança
Ainda não caiu num balanço maior
Numa rajada de vento atroz.
Sem pestanejar caminhava a bailarina
Com os pés enfiados em sapatilhas
Deslizava numa dança de plumas
Que flutuava ao sabor da ventania
Todo dia lá estava ela a desfilar
Seu corpo de bailarina
Leve era ela que balançava
Para a platéia em dia de sol
Em dia de chuva ela não molhava
Seus pés que deslizava em sapatilhas
Não deixava de desfilar no fio da vida
Desprezando todo perigo
Se perigo realmente havia
Por desfilar num fio da vida
Um fio elétrico de alta tensão
Mas a bailarina nunca deixou
Um dia sequer de desfilar
Diante da multidão que pedia mais
Desfilava toda a sua graça
Delicada era ela seus pés sua cintura fina
Ela era bailarina.
Se um dia ela parasse de desfilar
O que seria da vida
Desta vida sem graça alguma
Se um dia ela parasse de desfilar
Ninguém mais olharia para cima
Terminariam os torcicolos
Mas também os sonhos de todos nós
Sonho de ser bailarina
E poder desfilar num fio apenas
Fio elétrico de alta tensão
Fio da vida
Fio que sustenta toda a minha vida
Me faz acreditar que a esperança
Ainda não caiu num balanço maior
Numa rajada de vento atroz.
Correspondencias
Baudelaire
A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.
Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.
Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,
Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.
A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.
Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.
Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,
Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Na praça da República
Aceita um pão? disse,
com mortadela.
Ele: com um sarrafo ou
uma adaga na mão -
É caridade? Caridade?
Dinheiro? Dinheiro?
- o rosto sumindo denso
por trás de fios negros -
Ah, comida!? Comida - exclamou!
comida você dá para o seu cachorro...
E sem esperar,
fui maldito,
realmente dito,
o reverso,
autêntico
mal.
com mortadela.
Ele: com um sarrafo ou
uma adaga na mão -
É caridade? Caridade?
Dinheiro? Dinheiro?
- o rosto sumindo denso
por trás de fios negros -
Ah, comida!? Comida - exclamou!
comida você dá para o seu cachorro...
E sem esperar,
fui maldito,
realmente dito,
o reverso,
autêntico
mal.
domingo, 11 de abril de 2010
Fingimos para ser aceito
Por uma questão de bom senso
Por uma questão de bons princípios
Aprendemos a mentir
Mentimos descaradamente
Entre amigos e inimigos (independentemente)
Mostrando uma cara falseada
Que evita olhar nos olhos
Pois os olhos revelam segredos
Que mentira alguma possa ocultar
Por trás das cortinas do teatro.
Mentimos ao negar nossos sentimentos
Alguns patéticos outros nem tanto
Fingimos que somos outra coisa
Que queremos ser outra coisa
Negando o que somos agora
Somos tudo aquilo que não somos
Somos a negação do que representamos
Somos a morte e a vida
Somos o amor e a decepção.
Por uma questão de bons princípios
Aprendemos a mentir
Mentimos descaradamente
Entre amigos e inimigos (independentemente)
Mostrando uma cara falseada
Que evita olhar nos olhos
Pois os olhos revelam segredos
Que mentira alguma possa ocultar
Por trás das cortinas do teatro.
Mentimos ao negar nossos sentimentos
Alguns patéticos outros nem tanto
Fingimos que somos outra coisa
Que queremos ser outra coisa
Negando o que somos agora
Somos tudo aquilo que não somos
Somos a negação do que representamos
Somos a morte e a vida
Somos o amor e a decepção.
Vizinha muda
Quem realmente habita o lado
Será uma moça muda
Que o tempo todo assiste televisão
Que ausente de namorado
Espera em sua mesa posta
Toda noite depois da novela
O jantar que jamais será servido
Mesmo assim repete a rotina
Não uma rotina qualquer que seja
Mas esperança que nunca acaba
Esperança de que ela fale comigo
E podemos ser inclusive amigos
E jogar xadrez
E discutir filatelia
Tirar fotografias
Num condomínio que ninguém
Mais fala.
Será uma moça muda
Que o tempo todo assiste televisão
Que ausente de namorado
Espera em sua mesa posta
Toda noite depois da novela
O jantar que jamais será servido
Mesmo assim repete a rotina
Não uma rotina qualquer que seja
Mas esperança que nunca acaba
Esperança de que ela fale comigo
E podemos ser inclusive amigos
E jogar xadrez
E discutir filatelia
Tirar fotografias
Num condomínio que ninguém
Mais fala.
E a noite cai devagar cai
Quando a noite escurece
Também escurece o coração
Daquele que sentado espera
Ao relento a noite escurecer
Assim poderá se isolar em seu mundo
Particular e restrito de uma calçada úmida
Repartindo a geografia com as lacraias
Que ao seu lado aquecem corpos doloridos
Num único cobertor imundo e bolorento
Sem se importar com o resto que o circunda
Anônimos como eu que percorre caminhos
Com destino certo
Prisioneiro do destino.
Mas aquele não
Que anda na contramão totalmente livre
Ainda que não tenha teto e parede
Que servem apenas para isolar.
Mas aquele não
O céu inteiro é o teto que necessita
A cama na rua é macia e fria
Enregela seus ossos já com artrite
Mas não está feliz
Nem infeliz talvez indiferente
Com a direção dos ventos.
Também escurece o coração
Daquele que sentado espera
Ao relento a noite escurecer
Assim poderá se isolar em seu mundo
Particular e restrito de uma calçada úmida
Repartindo a geografia com as lacraias
Que ao seu lado aquecem corpos doloridos
Num único cobertor imundo e bolorento
Sem se importar com o resto que o circunda
Anônimos como eu que percorre caminhos
Com destino certo
Prisioneiro do destino.
Mas aquele não
Que anda na contramão totalmente livre
Ainda que não tenha teto e parede
Que servem apenas para isolar.
Mas aquele não
O céu inteiro é o teto que necessita
A cama na rua é macia e fria
Enregela seus ossos já com artrite
Mas não está feliz
Nem infeliz talvez indiferente
Com a direção dos ventos.
Vagabundo
Entre ficar em casa arrumando as coisas
e sair por aí à toa sem pretender organizar seja o que for
Preferi a segunda opção. As coisa que esperem
pois não esperam, não estão nem aí
e eu já nem estou aqui.
e sair por aí à toa sem pretender organizar seja o que for
Preferi a segunda opção. As coisa que esperem
pois não esperam, não estão nem aí
e eu já nem estou aqui.
Etérea fumaça
Não fumo.
Fumaça,
Que da brasa é o sumo,
Do cigarro ou charuto.
Pelo olhar, grito insano
Fétido vapor antiético
Saliva e odor decrépito
Incensário patético,
Espantalho do amor e do bom sexo.
É "adereço" da finesse,
Julgado como sexy...
E garanto:
Nada mais eloquente,
refinado, classudo, atraente,
que em mi'a boca repousando encostado,
Meu lendário cachimbo apagado.
Fumaça,
Que da brasa é o sumo,
Do cigarro ou charuto.
Pelo olhar, grito insano
Fétido vapor antiético
Saliva e odor decrépito
Incensário patético,
Espantalho do amor e do bom sexo.
É "adereço" da finesse,
Julgado como sexy...
E garanto:
Nada mais eloquente,
refinado, classudo, atraente,
que em mi'a boca repousando encostado,
Meu lendário cachimbo apagado.
sábado, 10 de abril de 2010
Uma vida efêmera
Ainda que segredos possam ser
Guardados em baús empoeirados
Que enterramos nos porões profundos
De uma memória desprezada até o esquecimento
Como fosse possível destruir as casas
De um passado longínquo em que habitamos.
Se ainda fosse possível
Das ruínas surgiriam os fantasmas
Exigindo reconhecimento
Pois nem os fantasmas podem ser esquecidos
Nem a tristeza da separação
Quem viveu calará por um momento
Quem não viveu nada terá para ser lembrado
Somente os amores não realizados merecem
Consideração.
Pois continuam existindo como sonho
Daqueles puros de coração.
Pois a vida não passa de um sonho
Vivido com intensidade
Como tudo nela fosse verdade.
Guardados em baús empoeirados
Que enterramos nos porões profundos
De uma memória desprezada até o esquecimento
Como fosse possível destruir as casas
De um passado longínquo em que habitamos.
Se ainda fosse possível
Das ruínas surgiriam os fantasmas
Exigindo reconhecimento
Pois nem os fantasmas podem ser esquecidos
Nem a tristeza da separação
Quem viveu calará por um momento
Quem não viveu nada terá para ser lembrado
Somente os amores não realizados merecem
Consideração.
Pois continuam existindo como sonho
Daqueles puros de coração.
Pois a vida não passa de um sonho
Vivido com intensidade
Como tudo nela fosse verdade.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Minha bandeira é protestar
Se vida alguma tem sentido
Levantem bandeiras de protesto
Protestem contra o saco de plástico
Também contra a pilha de rádio
As pilhas do telefone celular
Contra o aerosol e também o sonrisal
Protestem contra os comedores de carne
Humana e desumana
Contra o sapato de couro
Contra o sapo e a rã
Contra quem atirou o pau no gato
Contra também quem come verdura
Pois verdura também sofre
Cortado salgado refogado na panela
Protestem afinal
Contra os próprios protestantes
Cuja função é protestar
Levantem bandeiras de protesto
Protestem contra o saco de plástico
Também contra a pilha de rádio
As pilhas do telefone celular
Contra o aerosol e também o sonrisal
Protestem contra os comedores de carne
Humana e desumana
Contra o sapato de couro
Contra o sapo e a rã
Contra quem atirou o pau no gato
Contra também quem come verdura
Pois verdura também sofre
Cortado salgado refogado na panela
Protestem afinal
Contra os próprios protestantes
Cuja função é protestar
Pelos caminhos tortos
Que sorte me lançará
A leitura nas folhas de chá.
Minha vida não foi muito certa
Aliás foi incerta desde que nasci
Inquieto diante às incertezas de meu futuro
Não estudei engenharia
Nunca me interessei por raiz quadrada
Esqueci a regra três
Direito não serviria com a vida pretendida
Nem sabia para quê servia viver
Se viver era dar sentido
Sentido algum encontrei na vida vivida.
Por não ter sentido algum
Senti-me livre para viver alegremente
Nas asas do sonho em que alimento
Os amores recusados
Pelo endurecimento das emoções.
Somente no silêncio a fala surge
Com clareza maior
O sol se rompendo na manhã
No horizonte ainda negro e soturno.
Fecha-se os olhos para ver!
Que sorte me lançará
A leitura nas folhas de chá.
A leitura nas folhas de chá.
Minha vida não foi muito certa
Aliás foi incerta desde que nasci
Inquieto diante às incertezas de meu futuro
Não estudei engenharia
Nunca me interessei por raiz quadrada
Esqueci a regra três
Direito não serviria com a vida pretendida
Nem sabia para quê servia viver
Se viver era dar sentido
Sentido algum encontrei na vida vivida.
Por não ter sentido algum
Senti-me livre para viver alegremente
Nas asas do sonho em que alimento
Os amores recusados
Pelo endurecimento das emoções.
Somente no silêncio a fala surge
Com clareza maior
O sol se rompendo na manhã
No horizonte ainda negro e soturno.
Fecha-se os olhos para ver!
Que sorte me lançará
A leitura nas folhas de chá.
Vida passageira numa cadeira de balanço
Da área de sua casa
Numa cadeira de balanço
Uma velha com um gato no colo
Balança e vê a via passar.
O gato também balança
E acaba por adormecer
Dormem no mesmo balanço
A velha que descansa
E o gato que dorme
A velha que dorme
O gato que descansa
E a vida passa
Passageira ela passa
Num instante
Breve existência que passa
Ligeiro passa
Passa na rua o vendedor de pamonha
Pamonha de Piracicaba
A primavera passa
A juventude passageira
Do rock da pesada que passa
Até mesmo Carlos Drummond e Andrade
Passou deixando atrás de si
Um rastro de versos livres
Totalmente livres
Que passam a minha vida
Em reverso.
Numa cadeira de balanço
Uma velha com um gato no colo
Balança e vê a via passar.
O gato também balança
E acaba por adormecer
Dormem no mesmo balanço
A velha que descansa
E o gato que dorme
A velha que dorme
O gato que descansa
E a vida passa
Passageira ela passa
Num instante
Breve existência que passa
Ligeiro passa
Passa na rua o vendedor de pamonha
Pamonha de Piracicaba
A primavera passa
A juventude passageira
Do rock da pesada que passa
Até mesmo Carlos Drummond e Andrade
Passou deixando atrás de si
Um rastro de versos livres
Totalmente livres
Que passam a minha vida
Em reverso.
Em trânsito
menina distraída
no vagão do metrô
olhe para cá
que eu finjo que é pra mim
*
vinho da cuca
Led Zeppelin no fone de ouvido
despenco ladeira abaixo
o anjo da guarda agarrado
na garupa da bicicleta
*
dias de chuvarada
finalmentge o céu abriu
da chegada do outono
restou o nariz escorrendo
no vagão do metrô
olhe para cá
que eu finjo que é pra mim
*
vinho da cuca
Led Zeppelin no fone de ouvido
despenco ladeira abaixo
o anjo da guarda agarrado
na garupa da bicicleta
*
dias de chuvarada
finalmentge o céu abriu
da chegada do outono
restou o nariz escorrendo
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Quando a noite caia
Pelas ruas da Aurora
Lá no centro da cidade
Que outrora havia pastelarias
De chineses que por aqui chegaram
Trazendo em bagagens muambas de terra longínqua
Não se sabe para onde foram
Sumiram com as boas moças de saia curta
Que exibiam formas parabólicas
De um quadro surrealista de um artista desaparecido
Havia alegria nas portas dos cinemas de bilheteria barata
Exibindo nas telas mofadas belezas da indústria nacional
Nada disso existe mais
Nem mesmo uma curiosidade por espiar
Pelo canto do olho arrepiado
Um pecado da noite que se vai
Mas passado um tempo demorado
Quando retorno à calçada do passado
Nenhuma porta se abre mais
Para um espetáculo interessante
Das bailarinas fingindo meninas
Despidas de toda vergonha com arte e mesura
Vênus platinada que pensava ser
Artista de Hollywood.
Uma inocência havia na cara estampada
Das moças de má vida.
Das moças de família.
Nada disso existe mais
Na Aurora de nossa vida.
Lá no centro da cidade
Que outrora havia pastelarias
De chineses que por aqui chegaram
Trazendo em bagagens muambas de terra longínqua
Não se sabe para onde foram
Sumiram com as boas moças de saia curta
Que exibiam formas parabólicas
De um quadro surrealista de um artista desaparecido
Havia alegria nas portas dos cinemas de bilheteria barata
Exibindo nas telas mofadas belezas da indústria nacional
Nada disso existe mais
Nem mesmo uma curiosidade por espiar
Pelo canto do olho arrepiado
Um pecado da noite que se vai
Mas passado um tempo demorado
Quando retorno à calçada do passado
Nenhuma porta se abre mais
Para um espetáculo interessante
Das bailarinas fingindo meninas
Despidas de toda vergonha com arte e mesura
Vênus platinada que pensava ser
Artista de Hollywood.
Uma inocência havia na cara estampada
Das moças de má vida.
Das moças de família.
Nada disso existe mais
Na Aurora de nossa vida.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Paulistano
Andam em meu sangue:
as putas da Luz
as crianças miseráveis dos Céus
os mendigos de papelão do Paraíso
as bichas carentes da Consolação
os gatunos da República
os pastores engravatados da Sé
e os bêbados equilibristas da Liberdade.
Foi ao derramar sangue na rua que percebi isto
Sangue que saía de dentro deste corpo
e manchava a calçada encardida
Foi aí que percebi.
as putas da Luz
as crianças miseráveis dos Céus
os mendigos de papelão do Paraíso
as bichas carentes da Consolação
os gatunos da República
os pastores engravatados da Sé
e os bêbados equilibristas da Liberdade.
Foi ao derramar sangue na rua que percebi isto
Sangue que saía de dentro deste corpo
e manchava a calçada encardida
Foi aí que percebi.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Um pedido pequeno
Logo surgiu adiante
Sua palma suja e grande pedia
Um auxílio menor que fosse
Antes de atendê-lo pedi primeiro:
Varra o chão e deposite as folhas
Num cesto de lixo.
Não entendeu
Insistiu com braço estendido
Um auxílio menor que fosse
Insisti em meu pedido primeiro:
Cate as folhas primeiro
Mas ele
Não entendeu
Foi-se zangado e praguejou
Pedia apenas
Um auxílio menor que fosse.
Mas o meu pedido
Era grande demais!
Sua palma suja e grande pedia
Um auxílio menor que fosse
Antes de atendê-lo pedi primeiro:
Varra o chão e deposite as folhas
Num cesto de lixo.
Não entendeu
Insistiu com braço estendido
Um auxílio menor que fosse
Insisti em meu pedido primeiro:
Cate as folhas primeiro
Mas ele
Não entendeu
Foi-se zangado e praguejou
Pedia apenas
Um auxílio menor que fosse.
Mas o meu pedido
Era grande demais!
A bela e os outros
Olhar altivo olha
Por cima do muro
Enquanto a multidão se dispersa
Depois da chuva
Quem olha não vê ninguém
Pois ninguém merece ser visto
Além daquilo que lhe é útil.
Inútil os outros
Que vivem a correr
De um ponto para outro
Para lugar algum.
Sempre no mesmo ponto
Abaixo do mesmo viaduto
Arruma a cama de papelão
Sua companhia:
Um velho doente
Um cachorro com sarnas.
Um espelho para ver o rosto
E enaltecer sua vaidade
Mulher mais bela não há
Do que ela própria.
Por cima do muro
Enquanto a multidão se dispersa
Depois da chuva
Quem olha não vê ninguém
Pois ninguém merece ser visto
Além daquilo que lhe é útil.
Inútil os outros
Que vivem a correr
De um ponto para outro
Para lugar algum.
Sempre no mesmo ponto
Abaixo do mesmo viaduto
Arruma a cama de papelão
Sua companhia:
Um velho doente
Um cachorro com sarnas.
Um espelho para ver o rosto
E enaltecer sua vaidade
Mulher mais bela não há
Do que ela própria.
Sonhos desfeitos
Que dizem as paredes desta metrópole
Em cujas fissuras esconde-se uma alma
Desiludida talvez dos sonhos amarelados
Que de velho ficaram desbotados
Ficaram mal falados na língua alheia.
Mas que me importa o que digam
Digam que esquecerei em instantes
A vergonha de não ter realizado
Um sonho passado.
Não fui pianista
Deixei de ser anatomista
Queria ser artista de circo
Fui artista da vida
E representei tão bem a comédia humana
Que de tragédia nada tinha
Ninguém aplaudiu
Todos riram e pediram mais
Foi demais para a alma pequena
Continuei a representar papeis secundários
Pensando ser maioral
Cujo talento maior
Era não ter talento para
Ator principal.
Em cujas fissuras esconde-se uma alma
Desiludida talvez dos sonhos amarelados
Que de velho ficaram desbotados
Ficaram mal falados na língua alheia.
Mas que me importa o que digam
Digam que esquecerei em instantes
A vergonha de não ter realizado
Um sonho passado.
Não fui pianista
Deixei de ser anatomista
Queria ser artista de circo
Fui artista da vida
E representei tão bem a comédia humana
Que de tragédia nada tinha
Ninguém aplaudiu
Todos riram e pediram mais
Foi demais para a alma pequena
Continuei a representar papeis secundários
Pensando ser maioral
Cujo talento maior
Era não ter talento para
Ator principal.
Ao frio da tarde
O que me resta naquela cidade
Em que nem as ruas me reconhecem
Mais
Nem mesmo um rosto que seja
Familiar
Em cada esquina que passo
Mais estranho sinto
Um calafrio que me percorre
A espinha
De uma maleita nunca sentida
Que na alma vai adoecendo
Numa febre fria
Numa brisa fria
Que traz consigo os fantasmas
Envelhecidos em tonéis de carvalho
Da uva pisoteada
Que virou vinagre.
Se alguém me reconhecesse
Nem assunto teria
Numa conversa arredia
Preferia que não acontecesse
Pois o frio não apenas congelou
As faces endurecidas
Mas igualmente o coração.
Que de duro esfriou
A chuva deste momento
Esfria esfria.
Em que nem as ruas me reconhecem
Mais
Nem mesmo um rosto que seja
Familiar
Em cada esquina que passo
Mais estranho sinto
Um calafrio que me percorre
A espinha
De uma maleita nunca sentida
Que na alma vai adoecendo
Numa febre fria
Numa brisa fria
Que traz consigo os fantasmas
Envelhecidos em tonéis de carvalho
Da uva pisoteada
Que virou vinagre.
Se alguém me reconhecesse
Nem assunto teria
Numa conversa arredia
Preferia que não acontecesse
Pois o frio não apenas congelou
As faces endurecidas
Mas igualmente o coração.
Que de duro esfriou
A chuva deste momento
Esfria esfria.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Silêncio dos olhos
Nenhuma palavra a mais
E quando o silêncio chegar
Nada mais restará do que
O que os olhos não podem
Mais esconder senão
Um olhar revelador
Que não deve ser revelado
E assim somente ficarão
Os olhos parados
Como nada dissessem
Tudo dissessem.
E quando o silêncio chegar
Nada mais restará do que
O que os olhos não podem
Mais esconder senão
Um olhar revelador
Que não deve ser revelado
E assim somente ficarão
Os olhos parados
Como nada dissessem
Tudo dissessem.
domingo, 4 de abril de 2010
O arco e o violoncelo
Toda vez que passava naquela rua
Lá de dentro daquela casa
Lá de fora se ouvia
A fina melodia.
Não sabia que lá dentro
Havia uma mulher que
Envolvia em suas coxas
O corpo anguloso de um
Violoncelo.
Com seu arco tirava
Das cordas do violoncelo
A fina melodia
Toda vez que passava naquela rua...
Apaixonara-se pela música
Que tanto tocava seu coração
Apaixonara-se também pelo tocador
Que só poderia ser mulher
Tamanho encantamento sentia
Até o dia que não mais ouviu
Música alguma
Nunca mais quis saber de passar
Naquela rua.
Lá de dentro daquela casa
Lá de fora se ouvia
A fina melodia.
Não sabia que lá dentro
Havia uma mulher que
Envolvia em suas coxas
O corpo anguloso de um
Violoncelo.
Com seu arco tirava
Das cordas do violoncelo
A fina melodia
Toda vez que passava naquela rua...
Apaixonara-se pela música
Que tanto tocava seu coração
Apaixonara-se também pelo tocador
Que só poderia ser mulher
Tamanho encantamento sentia
Até o dia que não mais ouviu
Música alguma
Nunca mais quis saber de passar
Naquela rua.
O que fazem os poetas com as palavras
A poesia é um fato inelutável. Dizem os antropólogos que não há um só grupo étnico desprovido de poesia, mesmo nas sociedades denominadas “primitivas”. Trata-se, pois, dum fenômeno universal, exatamente como a linguagem. Em certos grupos étnicos apenas existe, a par da linguagem quotidiana, a linguagem poética; desconhecem-se, porém, sociedades em que, além da linguagem corrente, se cultive exclusivamente a prosa artística. Esta é uma superestrutura, algo de já mais complicado, a meio-caminho entre a poesia, que é um dos polos, e a linguagem de todos os dias, que é o outro. Note-se, por outro lado, que em certas sociedades só existe poesia sob a forma de poesia cantada: é o sincretismo primitivo da palavra poética e da música.
JAKOBSON. Roman. Colóquio/Letras, São Paulo, 1973 (em novembro de 1972 o autor proferiu esta conferência na Faculdade de Letras de Lisboa).
JAKOBSON. Roman. Colóquio/Letras, São Paulo, 1973 (em novembro de 1972 o autor proferiu esta conferência na Faculdade de Letras de Lisboa).
sábado, 3 de abril de 2010
Mais erros do que acertos
Se encontrasse um buraquinho
Em qualquer parede que fosse
Lá depositaria todos os segredos
De uma vida rica em contravenção
Dos amores roubados de seus maridos
Dos desencontros de hora marcada.
Se encontrasse um buraquinho
Aliviaria a minha dor sentida
Nos momentos de desespero
Por não ter mais com quem falar
Daquilo que sufoca a alma rendida.
Se encontrasse um buraquinho...
Pararia de lamentar os erros cometidos
Quando o erro maior foi talvez
O desejo de acertar.
Mas errante sou
Caminhante do erro que pode
Não errar!
Em qualquer parede que fosse
Lá depositaria todos os segredos
De uma vida rica em contravenção
Dos amores roubados de seus maridos
Dos desencontros de hora marcada.
Se encontrasse um buraquinho
Aliviaria a minha dor sentida
Nos momentos de desespero
Por não ter mais com quem falar
Daquilo que sufoca a alma rendida.
Se encontrasse um buraquinho...
Pararia de lamentar os erros cometidos
Quando o erro maior foi talvez
O desejo de acertar.
Mas errante sou
Caminhante do erro que pode
Não errar!
Um vôo que flutua
Lá em cima
Do andar de cima
Uma mulher chamada Esperança
Resolveu por a cara de fora
Depois as pernas braços e dorso
Ficou balançando de um lado para outro
No vai e vem do vento traiçoeiro
Quando alguém de baixo viu
Outro alguém também chegou
Um outro um outro ainda
Formou-se uma multidão
Que agitava os braços e
Pedia para ela não saltar
Que tivesse amor pela vida
Que não saltasse mais
Que pensasse em sua mãe
- Esperança não tinha mãe
Que pensasse então em seu amor
O amor que ela teve um dia
- O amor dela não existia mais
O amor se foi e
Esperança ficou
Ficou a Esperança sem ninguém
Sem amor sem amigos
Sem inclusive inimigos
Esperança ficou
Sozinha
Solitária e só
Mas agora a multidão pedia
Esperança não ponha tudo a perder
Esperança ainda não vá morrer
Mas Esperança soltou uma perna
Soltou outra perna e flutuou
Sem amarras alguma
Pois Esperança não podia mais
Viver apenas
Esperança.
Do andar de cima
Uma mulher chamada Esperança
Resolveu por a cara de fora
Depois as pernas braços e dorso
Ficou balançando de um lado para outro
No vai e vem do vento traiçoeiro
Quando alguém de baixo viu
Outro alguém também chegou
Um outro um outro ainda
Formou-se uma multidão
Que agitava os braços e
Pedia para ela não saltar
Que tivesse amor pela vida
Que não saltasse mais
Que pensasse em sua mãe
- Esperança não tinha mãe
Que pensasse então em seu amor
O amor que ela teve um dia
- O amor dela não existia mais
O amor se foi e
Esperança ficou
Ficou a Esperança sem ninguém
Sem amor sem amigos
Sem inclusive inimigos
Esperança ficou
Sozinha
Solitária e só
Mas agora a multidão pedia
Esperança não ponha tudo a perder
Esperança ainda não vá morrer
Mas Esperança soltou uma perna
Soltou outra perna e flutuou
Sem amarras alguma
Pois Esperança não podia mais
Viver apenas
Esperança.
A louca da rua
A louca da rua também
Arrumou um namorado
Com ele arrumou sua vida
Que antes solitária vida
Não havia quem podia
Continuar a semear em
Canteiro vasto e adubado
Sementes de gergelim
Que nada produzia
Além de fadiga pela espera
De uma colheita
Que nunca acontecia.
Assim era vida da louca
A louca da rua
Que nada queria
Queria
Somente um namorado
Podia ser vesgo
Sem uma perna
Cicatriz no rosto
Qualquer coisa que seja
Apenas tinha que ter
Um coração afável
Capaz de amar até mesmo
A louca da rua
Que enlouquecida de amor
Ao primeiro daria
Seu coração
Seu corpo inteiro
Daria a sua vida
Por amor
Só por amor.
Por isso chamavam-na de
A louca da rua.
Somente os loucos
Loucos de verdade
Verdadeiramente amam
Sem medida sem rancor
Por amor.
Por amor.
Arrumou um namorado
Com ele arrumou sua vida
Que antes solitária vida
Não havia quem podia
Continuar a semear em
Canteiro vasto e adubado
Sementes de gergelim
Que nada produzia
Além de fadiga pela espera
De uma colheita
Que nunca acontecia.
Assim era vida da louca
A louca da rua
Que nada queria
Queria
Somente um namorado
Podia ser vesgo
Sem uma perna
Cicatriz no rosto
Qualquer coisa que seja
Apenas tinha que ter
Um coração afável
Capaz de amar até mesmo
A louca da rua
Que enlouquecida de amor
Ao primeiro daria
Seu coração
Seu corpo inteiro
Daria a sua vida
Por amor
Só por amor.
Por isso chamavam-na de
A louca da rua.
Somente os loucos
Loucos de verdade
Verdadeiramente amam
Sem medida sem rancor
Por amor.
Por amor.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Ladeira acima
Empurrando ladeira acima
Vai o catador de papelão
Seu cão também vai
Uma carroça rangendo
Os ferros que arranham a roda
Nada mais triste que ver
O catador de papelão.
Não interessa se faz chuva
Se faz água por cima
Do catador de papelão.
Um dia a carroça quebrou
A roda soltou-se
Ainda assim continuou
Arrastando ladeira acima
O catador de papelão
Veio a primavera e verão
Vieram as flores e depois
Vieram outras flores
Vieram os guardas
Afugentando os camelôs
Veio a morte
O catador de papelão
Continuou a subir
Outros morros como sempre fez.
Outros catadores de papelão
Apareceram
Pois a subida dos morros
Haveria de continuar...
Vai o catador de papelão
Seu cão também vai
Uma carroça rangendo
Os ferros que arranham a roda
Nada mais triste que ver
O catador de papelão.
Não interessa se faz chuva
Se faz água por cima
Do catador de papelão.
Um dia a carroça quebrou
A roda soltou-se
Ainda assim continuou
Arrastando ladeira acima
O catador de papelão
Veio a primavera e verão
Vieram as flores e depois
Vieram outras flores
Vieram os guardas
Afugentando os camelôs
Veio a morte
O catador de papelão
Continuou a subir
Outros morros como sempre fez.
Outros catadores de papelão
Apareceram
Pois a subida dos morros
Haveria de continuar...
Do lado de lá
Quando ouço o repicar
De uma matraca que avança
Um som monótono longo
Que vontade que dá
De sair desta terra
De ir para o lado de lá
Que vontade que dá!
Já cansei das artimanhas
Todas as manhas de uma vida
Sem grande alegria
Sem tristezas também
Sem bailes no Clube Ideal
Em que as moças de família boa
Circulam suas saias rodadas
Suas bocas de carmesim.
Mas do lado de lá
Nenhuma monotonia aparente
Tem festa o ano todo
Tem o piano de Ray Charles
Tem sereias no mar
Com uma delas pode ser
Possa me casar e assim
Afogar todos meus lamentos
Na última onda a rebentar
Na areia fina e desmoronar
Os castelos de areia.
De uma matraca que avança
Um som monótono longo
Que vontade que dá
De sair desta terra
De ir para o lado de lá
Que vontade que dá!
Já cansei das artimanhas
Todas as manhas de uma vida
Sem grande alegria
Sem tristezas também
Sem bailes no Clube Ideal
Em que as moças de família boa
Circulam suas saias rodadas
Suas bocas de carmesim.
Mas do lado de lá
Nenhuma monotonia aparente
Tem festa o ano todo
Tem o piano de Ray Charles
Tem sereias no mar
Com uma delas pode ser
Possa me casar e assim
Afogar todos meus lamentos
Na última onda a rebentar
Na areia fina e desmoronar
Os castelos de areia.
Ao fundo da casa
Os casarões velhos em que passo
São restos de uma existência passada
Que ainda carrego nos espaços mais
Profundos de minha alma escura.
Mergulhando fundo nada mais se faz
Presente do que um centauro desgarrado
Um fauno embriagado de sua loucura
Poética e musical perdido numa floresta
De araucárias estendendo galhos de cristais.
Nada mais
Nada mais conheço de outros habitantes
Mágicos e passionais lidando com venenos
E remédios promovendo vidas longas
Aos de coração grande.
Aos de coração pequeno
Consolo de sua própria solidão.
Nenhum medo pode me assustar
Seja pelos caminhos de pedra
Seja pelos caminhos da água
Seres da pedra e da água
Companheiros de uma eternidade
Criados no início da criação
De um sonho que foi mito
De um remoto respirar galáctico.
São restos de uma existência passada
Que ainda carrego nos espaços mais
Profundos de minha alma escura.
Mergulhando fundo nada mais se faz
Presente do que um centauro desgarrado
Um fauno embriagado de sua loucura
Poética e musical perdido numa floresta
De araucárias estendendo galhos de cristais.
Nada mais
Nada mais conheço de outros habitantes
Mágicos e passionais lidando com venenos
E remédios promovendo vidas longas
Aos de coração grande.
Aos de coração pequeno
Consolo de sua própria solidão.
Nenhum medo pode me assustar
Seja pelos caminhos de pedra
Seja pelos caminhos da água
Seres da pedra e da água
Companheiros de uma eternidade
Criados no início da criação
De um sonho que foi mito
De um remoto respirar galáctico.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Mulheres de negro
Havia naquela rua em que vivia
A batida dos sapatos em direção à
Praça central em que ficava a matriz.
Eis que passavam as filhas de Maria
Com véus cobrindo a cabeça inteira
Rosários na mão uma medalhinha
Não se sabe de quem amarrada
Numa linha vermelha.
Era assim sábado e domingo
Pisando firme o chão de pedra sabão
De minha memória remota
Que volta agora como fantasma
Do tempo que deixou de existir
Trazendo novamente quando
A semana santa se faz presente.
Novamente em minha presença
O gosto amargo de um chocolate
Retirado gelado de um congelador
De toda minha existência.
Sempre aquelas mulheres de negro
Carregando o pecado do mundo
Elas próprias pecadores e caminhando
Em busca de salvação de si próprias
Ainda existem dentro de mim.
A batida dos sapatos em direção à
Praça central em que ficava a matriz.
Eis que passavam as filhas de Maria
Com véus cobrindo a cabeça inteira
Rosários na mão uma medalhinha
Não se sabe de quem amarrada
Numa linha vermelha.
Era assim sábado e domingo
Pisando firme o chão de pedra sabão
De minha memória remota
Que volta agora como fantasma
Do tempo que deixou de existir
Trazendo novamente quando
A semana santa se faz presente.
Novamente em minha presença
O gosto amargo de um chocolate
Retirado gelado de um congelador
De toda minha existência.
Sempre aquelas mulheres de negro
Carregando o pecado do mundo
Elas próprias pecadores e caminhando
Em busca de salvação de si próprias
Ainda existem dentro de mim.
domingo, 28 de março de 2010
Álbum de retratos
Uma foto antiga de minha avó
Num álbum igualmente antigo
Desses contrabandeados para cá
Numa mala a bordo de um
Barco imigrante em tempo passado.
Para cá veio para quê
Não se sabe direito
Talvez fosse um destino ruim
Ao abandonar a florada da cerejeira
Anunciando o início da primavera.
Os sonhos de então de moça sonhadora
Lentamente foram se desfazendo
Papel arroz amarelando lentamente
Um desenho de dois peixes se enrolando
Também desapareceram.
Seu rosto jovem envelheceu
E as rugas vieram mais negras eram
Queimadas pelo sol abrasador
Dos cafezais do interior
Sem deixar saudade alguma.
Desses tempos idos sobraram somente
Um algum de retratos!
Num álbum igualmente antigo
Desses contrabandeados para cá
Numa mala a bordo de um
Barco imigrante em tempo passado.
Para cá veio para quê
Não se sabe direito
Talvez fosse um destino ruim
Ao abandonar a florada da cerejeira
Anunciando o início da primavera.
Os sonhos de então de moça sonhadora
Lentamente foram se desfazendo
Papel arroz amarelando lentamente
Um desenho de dois peixes se enrolando
Também desapareceram.
Seu rosto jovem envelheceu
E as rugas vieram mais negras eram
Queimadas pelo sol abrasador
Dos cafezais do interior
Sem deixar saudade alguma.
Desses tempos idos sobraram somente
Um algum de retratos!
A alma vendida
Um pouco de chá verde
Para curar a incômoda insolação
Que aflige a alma doente
Dos que se encontram fora da mão
Da via principal de uma vida
Comportada e temente às leis
Que pune qualquer afronta
Às normais tradicionais
Que de velho caducaram.
Mas obedecer sempre
Foi a condição que alguns
Seguem outros não
Alguns cantam uma ópera
Imitando Caruso
Outros querem ser Don Quixote
Outros ainda não querem ser nada
Além de funcionário público
Com todos os direitos e os tortos
De uma carreira confortável.
E assim continuam obedecendo
Às normas tradicionais
Que de velho caducaram.
Nenhuma desobediência
Por mais criativa que seja
Vale a pena
Nem a criatividade
Vale a pena
Num mundo cada vez mais
Pouco criativo
Pois a falta de criatividade
Está dentro da lei.
Somente a vida inteira
Vale a pena
Mas ela se encontra
Totalmente tonta
Diante das adversidades
E fragmentada como o
Espelho de um caleidoscópio
Comprado quando criança.
Para curar a incômoda insolação
Que aflige a alma doente
Dos que se encontram fora da mão
Da via principal de uma vida
Comportada e temente às leis
Que pune qualquer afronta
Às normais tradicionais
Que de velho caducaram.
Mas obedecer sempre
Foi a condição que alguns
Seguem outros não
Alguns cantam uma ópera
Imitando Caruso
Outros querem ser Don Quixote
Outros ainda não querem ser nada
Além de funcionário público
Com todos os direitos e os tortos
De uma carreira confortável.
E assim continuam obedecendo
Às normas tradicionais
Que de velho caducaram.
Nenhuma desobediência
Por mais criativa que seja
Vale a pena
Nem a criatividade
Vale a pena
Num mundo cada vez mais
Pouco criativo
Pois a falta de criatividade
Está dentro da lei.
Somente a vida inteira
Vale a pena
Mas ela se encontra
Totalmente tonta
Diante das adversidades
E fragmentada como o
Espelho de um caleidoscópio
Comprado quando criança.
sábado, 27 de março de 2010
Dominado pelo mundo
Um cão vira-latas não tem
Um destino sequer traçado
Onde quer que vá sempre
Estará arrepiado de pelo em pé
Não de susto de comiseração
Pelos homens alucinados
Pelas mulheres que deixaram de sonhar
Pelas crianças que não brincam mais
E assim a vida se tornou mais soturna
Em nome do desencantamento
Que nada mais sente que uma dor
Profunda imensamente funda a bulir
Nas artérias de uma existência
Sem consistência alguma.
Por isso temos que rir
De nossa cara de apreensão
Perdidamente absurda
Num mundo igualmente absurdo:
Cai a máscara de repente
Mas o rosto não passa de outra
Máscara idêntica à outra.
Nem ao menos para ser
Diferente!
Diferente é a gargalhada
Da noite que não silencia
E continua a ecoar
Pela eternidade.
Diferente é parar de fazer
O que todos continuam fazendo
O que sempre fizeram
Menos por rebeldia
Sem pedras nas mãos.
Apenas sorrir a ironia
Das contravenções.
Um destino sequer traçado
Onde quer que vá sempre
Estará arrepiado de pelo em pé
Não de susto de comiseração
Pelos homens alucinados
Pelas mulheres que deixaram de sonhar
Pelas crianças que não brincam mais
E assim a vida se tornou mais soturna
Em nome do desencantamento
Que nada mais sente que uma dor
Profunda imensamente funda a bulir
Nas artérias de uma existência
Sem consistência alguma.
Por isso temos que rir
De nossa cara de apreensão
Perdidamente absurda
Num mundo igualmente absurdo:
Cai a máscara de repente
Mas o rosto não passa de outra
Máscara idêntica à outra.
Nem ao menos para ser
Diferente!
Diferente é a gargalhada
Da noite que não silencia
E continua a ecoar
Pela eternidade.
Diferente é parar de fazer
O que todos continuam fazendo
O que sempre fizeram
Menos por rebeldia
Sem pedras nas mãos.
Apenas sorrir a ironia
Das contravenções.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Virando a moeda
Quando o dinheiro não chega
Melhor não tê-lo do que a fama
Por inteiro de interesseiro
Sem interesse algum por fama
Compõe poemas de perdição
Para alegrar a vida dos que
Perderam a fé desta vida
Deveras fingida e retida na língua
Um palavrão.
Quando o dinheiro não chega
Ensine o gato a dançar em tempos
De chuva.
Cante uma ladainha para animar
A festa das moscas em tempos
De verão.
Me faça companhia e conversemos
Coisas importantes como
Minha coleção de figurinhas.
Melhor não tê-lo do que a fama
Por inteiro de interesseiro
Sem interesse algum por fama
Compõe poemas de perdição
Para alegrar a vida dos que
Perderam a fé desta vida
Deveras fingida e retida na língua
Um palavrão.
Quando o dinheiro não chega
Ensine o gato a dançar em tempos
De chuva.
Cante uma ladainha para animar
A festa das moscas em tempos
De verão.
Me faça companhia e conversemos
Coisas importantes como
Minha coleção de figurinhas.
Nem alto nem baixo
Nunca vi uma pipa
Subir tão alto assim
Que pudesse causar
Mal estar na retina
Daqueles que sempre
Olham para cima
Para cima apenas
Sem que o resto existisse
Mais.
Alguns morrem de bebedeira
Outros de enfarto fulminante
De briga de faca
De língua afiada que mata
Mais
Que qualquer morte matada.
E quanto a mim
O que me resta senão
Uma folha branca de papelão
Que não serve para fazer pipa
Que não serve para cortar tal faca
Mas o mundo inteiro cabe nela
Num verso ingênuo apenas.
Subir tão alto assim
Que pudesse causar
Mal estar na retina
Daqueles que sempre
Olham para cima
Para cima apenas
Sem que o resto existisse
Mais.
Alguns morrem de bebedeira
Outros de enfarto fulminante
De briga de faca
De língua afiada que mata
Mais
Que qualquer morte matada.
E quanto a mim
O que me resta senão
Uma folha branca de papelão
Que não serve para fazer pipa
Que não serve para cortar tal faca
Mas o mundo inteiro cabe nela
Num verso ingênuo apenas.
Delete ou de leite
Hoje faço poesia
porquê não há nada para fazer
Faço poesia, e hora,
porquê não me deram dinheiro -
nem um centavo, nem esmola
Faço porquê é simples pra burro
raspar o carvão, sujar o muro
arrancar duas ou três palavras, bestas,
amontoadas como essas, pra fora da cabeça.
E é tão fácil o erro, nunca errei, é só deletar,
fica o que é bom, fica só o certo no ar
Mas, uma coisa me intriga
Para onde vai a rima? — quando não a houve
Para onde vai a palavra mal versada
depois de deleitada? (apaga) de-le-ta-da
porquê não há nada para fazer
Faço poesia, e hora,
porquê não me deram dinheiro -
nem um centavo, nem esmola
Faço porquê é simples pra burro
raspar o carvão, sujar o muro
arrancar duas ou três palavras, bestas,
amontoadas como essas, pra fora da cabeça.
E é tão fácil o erro, nunca errei, é só deletar,
fica o que é bom, fica só o certo no ar
Mas, uma coisa me intriga
Para onde vai a rima? — quando não a houve
Para onde vai a palavra mal versada
depois de deleitada? (apaga) de-le-ta-da
Desvãos
"........................"
(........................... )
(.......................... )
(........................ )
(.............................. )
-......................... -
( .............................)
( .......................)
(.......................... )
(......................... )
( ......................)
(..................................... )
(................................ )
(.................. )
(........................... )
(.......................... )
(........................ )
(.............................. )
-......................... -
( .............................)
( .......................)
(.......................... )
(......................... )
( ......................)
(..................................... )
(................................ )
(.................. )
O ato inútil de não servir
Ainda a pouco, respirei fundo no meio do jardim,
bem próximo da terra úmida, respirei e prendi
até não agüentar mais, até tudo rodar, quase cai...
No ócio há companhia, por isso vim até aqui.
Nem fui convidado, estou aqui por um mero descuido,
quero dizer, por uma seqüência ruidosa de erros.
Nem mesmo sei o que faço neste campo —
agora passo a mão na bananeira, há um pó branco
Será que há bananeiras na lua?
Estou não servindo para nada,
não há nada por aqui que dê dinheiro,
todo este trabalho, todo este desalinho, em vão.
O tronco da figueira é cheio de irregularidades,
enquanto o da jaboticabeira é liso e descamado, isso
nem vou anotar, pra quê? Arquivo morto não me serve.
Olha, ainda pouco respirei por uma narina só...
Um bem-te-vi! Este sabe ser, em todas as situações
— isso vou anotar, quer dizer, fingir que vou
como eu já disse, aqui não dá dinheiro, passo,
outro passo. Não tenho contrato,
ninguém rezou um para mim,
vou ficando assim,
por aqui...
bem próximo da terra úmida, respirei e prendi
até não agüentar mais, até tudo rodar, quase cai...
No ócio há companhia, por isso vim até aqui.
Nem fui convidado, estou aqui por um mero descuido,
quero dizer, por uma seqüência ruidosa de erros.
Nem mesmo sei o que faço neste campo —
agora passo a mão na bananeira, há um pó branco
Será que há bananeiras na lua?
Estou não servindo para nada,
não há nada por aqui que dê dinheiro,
todo este trabalho, todo este desalinho, em vão.
O tronco da figueira é cheio de irregularidades,
enquanto o da jaboticabeira é liso e descamado, isso
nem vou anotar, pra quê? Arquivo morto não me serve.
Olha, ainda pouco respirei por uma narina só...
Um bem-te-vi! Este sabe ser, em todas as situações
— isso vou anotar, quer dizer, fingir que vou
como eu já disse, aqui não dá dinheiro, passo,
outro passo. Não tenho contrato,
ninguém rezou um para mim,
vou ficando assim,
por aqui...
quarta-feira, 24 de março de 2010
Metas e tetas
Não muito longe daqui
A mulher negra de pedra
Continua amamentando
Com suas tetas fartas
A esperança das crianças
Que se recusam a crescer.
Muito próximo daqui
Nenhuma esperança é possível
Os homens crescidos
Querem agarrar as tetas
Não mais como crianças de antes
Como adultos que perderam
Totalmente a inocência.
A mulher negra de pedra
Continua amamentando
Com suas tetas fartas
A esperança das crianças
Que se recusam a crescer.
Muito próximo daqui
Nenhuma esperança é possível
Os homens crescidos
Querem agarrar as tetas
Não mais como crianças de antes
Como adultos que perderam
Totalmente a inocência.
Aquela velha casa
Nunca consegui sair
Daquela casa
Em que nasci
Em que cresci
Em que conheci
Meus amigos de então
E eles onde estarão
Um chamava-se João
Dizem que João foi ser escritor
E o preto Pingo
O que a vida lhe ofereceu
De bom e de mal
Ao atravessar a rua
Foi mal:
Um carro arrebatou-o.
Mas tinha também o Zé
Que tocava violão de
Uma corda só
Ficou famoso na região
Foi tocar na religião
Da missa das oito.
E Mariana de cabelos
Encaracolados e loiros
Nunca vi alguém
Com olhos tão azuis
Como os mares do Caribe
Como o Triângulo das Bermudas
Em que naufraguei e acabei
Sufocando todas minhas mágoas.
Aquela casa ainda existe
Dentro de mim
Aquela casa que foi vendida
Depois demolida
Nada mais existe mais
O que lembre a velha casa.
Aquela casa ainda existe
Dentro de mim
E habito seus corredores
Tirando teias de aranha
Dos quartos em que passei
Parte de minha vida.
A velha Benedita na cozinha
Fritando sardinha...
Daquela casa
Em que nasci
Em que cresci
Em que conheci
Meus amigos de então
E eles onde estarão
Um chamava-se João
Dizem que João foi ser escritor
E o preto Pingo
O que a vida lhe ofereceu
De bom e de mal
Ao atravessar a rua
Foi mal:
Um carro arrebatou-o.
Mas tinha também o Zé
Que tocava violão de
Uma corda só
Ficou famoso na região
Foi tocar na religião
Da missa das oito.
E Mariana de cabelos
Encaracolados e loiros
Nunca vi alguém
Com olhos tão azuis
Como os mares do Caribe
Como o Triângulo das Bermudas
Em que naufraguei e acabei
Sufocando todas minhas mágoas.
Aquela casa ainda existe
Dentro de mim
Aquela casa que foi vendida
Depois demolida
Nada mais existe mais
O que lembre a velha casa.
Aquela casa ainda existe
Dentro de mim
E habito seus corredores
Tirando teias de aranha
Dos quartos em que passei
Parte de minha vida.
A velha Benedita na cozinha
Fritando sardinha...
Em teu crespo jardim anêmonas castanhas
Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural: RJ, Editora Record, 2000, p.21
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural: RJ, Editora Record, 2000, p.21
Boceta
Arnaldo Antunes
da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba
entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba o tempo
da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba
entre lábio e lábio
de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba o tempo
terça-feira, 23 de março de 2010
Um tango em nossas vidas
Foi numa praça de Buenos Aires
Que vi: um casal bailava.
Dramático era o movimento
A mulher fugia
O homem a puxava
E ela arrebatada mirava
Seus olhos nos olhos dele
Olhos de lince e como lanças
Ameaçava e furava a menina
Dos olhos dele.
Antes menina depois mulher
Num cabaré foi viver
Para bailar todas as noites
Com todos os homens de terno
Inglês e sapato de couro alemão
Mas não seria de homem algum
Pois amor não existia
Em seu coração.
Foi numa praça de Buenos Aires
Que vi: um casal bailava.
Como um toureiro controlava
A força instintiva da natureza
Era o touro que ganhava
Era o toureiro que ganhava
Não importa!
Um tapete rubro se formava
Por cima da areia fina da arena.
Foi numa praça de Buenos Aires
Que vi: um casal bailava.
Nada mais cruel do que
Os jogos do amor.
Que vi: um casal bailava.
Dramático era o movimento
A mulher fugia
O homem a puxava
E ela arrebatada mirava
Seus olhos nos olhos dele
Olhos de lince e como lanças
Ameaçava e furava a menina
Dos olhos dele.
Antes menina depois mulher
Num cabaré foi viver
Para bailar todas as noites
Com todos os homens de terno
Inglês e sapato de couro alemão
Mas não seria de homem algum
Pois amor não existia
Em seu coração.
Foi numa praça de Buenos Aires
Que vi: um casal bailava.
Como um toureiro controlava
A força instintiva da natureza
Era o touro que ganhava
Era o toureiro que ganhava
Não importa!
Um tapete rubro se formava
Por cima da areia fina da arena.
Foi numa praça de Buenos Aires
Que vi: um casal bailava.
Nada mais cruel do que
Os jogos do amor.
Pela madrugada adentro
Nem sempre pelos caminhos retos
Para encurtar a distância
Prefiro os becos da existência
E me confundir um pouco que seja
Com os vagabundos dos bordéis
Prostitutas de boca pintada que
Vendem seus corpos inflados
De parafina.
Há uma verdade inscrita
Nos esgotos desta cidade
Desaguando o que não serve
Pelo rastro sinuoso da água impura
Que escorre pelos cortiços
Em direção incerta.
Mas sua população ainda assim
Vivendo assim
Quando a noite vem e a madrugada
Sonha com o mesmo céu estrelado
Outras vezes nem tanto assim
E como crianças dormem
E homens se aconchegam nos braços
E seios de suas mulheres.
Para encurtar a distância
Prefiro os becos da existência
E me confundir um pouco que seja
Com os vagabundos dos bordéis
Prostitutas de boca pintada que
Vendem seus corpos inflados
De parafina.
Há uma verdade inscrita
Nos esgotos desta cidade
Desaguando o que não serve
Pelo rastro sinuoso da água impura
Que escorre pelos cortiços
Em direção incerta.
Mas sua população ainda assim
Vivendo assim
Quando a noite vem e a madrugada
Sonha com o mesmo céu estrelado
Outras vezes nem tanto assim
E como crianças dormem
E homens se aconchegam nos braços
E seios de suas mulheres.
O poeta é sempre o outro
Essas obras praticamente se impõem ao autor, sua mão é de certo modo assumida, sua pena escreve coisas que sua própria mente vê com espanto. A obra traz em si sua própria forma; tudo aquilo que ele gostaria de aceitar, lhe será imposto. Enquanto seu consciente está perplexo e vazio diante do fenômeno, ele é inundado por uma torrente de pensamentos e imagens que jamais pensou em criar e que sua própria vontade jamais quis trazer à tona. Mesmo contra sua vontade tem que reconhecer que nisso tudo é sempre o seu “si-mesmo” que fala, que é a sua natureza mais íntima que se revela por si mesma anunciando abertamente aquilo que ele nunca teria coragem de falar. Ele apenas pode obedecer e seguir esse impulso aparentemente estranho; sente que a sua obra é maior do que ele e exerce um domínio tal que ele nada lhe pode impor. Ele não se identifica com a realização criadora; ele tem consciência de estar submetido à sua obra ou, pelo menos, ao lado, como uma segunda pessoa que tivesse entrado na esfera de um querer estranho.
JUNG. C.G. O espírito na arte e na ciência: Petrópolis, Vozes, 1985, pp.61,62.
JUNG. C.G. O espírito na arte e na ciência: Petrópolis, Vozes, 1985, pp.61,62.
A menstruação quando na cidada passava
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos pelo ar.
Entre cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam – e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado – alguém
falava: sangue,
Na casa, elas riam – e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos – eram alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos – e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
* continua...
HELDER. Herberto. Ou o poema contínuo: São Paulo, A Girafa, 2006, p.194.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos pelo ar.
Entre cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam – e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado – alguém
falava: sangue,
Na casa, elas riam – e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos – eram alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos – e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
* continua...
HELDER. Herberto. Ou o poema contínuo: São Paulo, A Girafa, 2006, p.194.
Cinco Horas
Mário de Sá-Carneiro
Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!
Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.
(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)
Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...
Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.
Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.
(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)
Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.
É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.
Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...
(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)
Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.
Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.
— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.
Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!
Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.
(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)
Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...
Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.
Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.
(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)
Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.
É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.
Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...
(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)
Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.
Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.
— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.
Fome
Tenho fome, fome áspera,
e tenho sede, uma Caatinga na garganta
poderia gritar, mas esqueci a voz.
Estou livre, com um céu enorme por cima
havia aprendido uma liberdade noturna, sem nexo (nem uso)
Mas agora caminho rutilante, em acasos azuis e tudo mais,
Sonho em não saber — errante —
o que quer que seja, o que quer
e tenho sede, uma Caatinga na garganta
poderia gritar, mas esqueci a voz.
Estou livre, com um céu enorme por cima
havia aprendido uma liberdade noturna, sem nexo (nem uso)
Mas agora caminho rutilante, em acasos azuis e tudo mais,
Sonho em não saber — errante —
o que quer que seja, o que quer
segunda-feira, 22 de março de 2010
A inocência do gesto
Uma das coisas, aliás, que me encanta em si, permita-me que lho afirme, é a inocência, não a inocência das crianças e dos polícias, feita de uma espécie de virgindade interior obtida à custa da credulidade ou da estupidez, mas a inocência sábia, resignada, quase vegetal, dos que aguardam dos outros e deles próprios o mesmo que você e eu, aqui sentados, esperamos do empregado que se dirige para nós chamado pelo meu braço no ar de bom aluno crónico: uma vaga atenção distraída e o absoluto desdém pela magra gorgeta de nossa gratidão.
ANTUNES, Antonio Lobo. Os cus de judas: Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2003, pp.26,27.
ANTUNES, Antonio Lobo. Os cus de judas: Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2003, pp.26,27.
Folhinha do macarrão
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Meio despida nada escondia
Era a verdade nada cobria
Nada mais havia para esconder
De pureza selvagem
Dessas esculpidas em pedra sabão
Com mãos de artista.
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Seu sorriso penetrante
De logo me contagiou
Colei em minha parede
Com ela eu sonhava
Com ela eu dormia
Foi ela minha primeira
Namorada.
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Por muito tempo a esqueci
Até mesmo a folhinha
Esquecida e atirada fora.
O que me resta agora
É a névoa de um sonho
Que nunca me abandonou.
Se souberem me digam:
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Ainda que ela não exista
Quero assim mesmo!
Da folhinha do macarrão.
Meio despida nada escondia
Era a verdade nada cobria
Nada mais havia para esconder
De pureza selvagem
Dessas esculpidas em pedra sabão
Com mãos de artista.
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Seu sorriso penetrante
De logo me contagiou
Colei em minha parede
Com ela eu sonhava
Com ela eu dormia
Foi ela minha primeira
Namorada.
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Por muito tempo a esqueci
Até mesmo a folhinha
Esquecida e atirada fora.
O que me resta agora
É a névoa de um sonho
Que nunca me abandonou.
Se souberem me digam:
Quero mesmo é a moça
Da folhinha do macarrão.
Ainda que ela não exista
Quero assim mesmo!
domingo, 21 de março de 2010
Haiti chora
Choremos pelas mulheres que
Perderam seus maridos.
Lá no Haiti.
Bem aqui no Haiti.
Choremos porque seus filhos
Também morreram
E descansam agora numa
Praia de coqueirais e pescadores.
Choremos por nós mesmos
Que indiferentes a tudo
Fingimos que nada aconteceu.
Continuamos levando nossa vida
Leviana como sempre foi
Comendo banana nanica
Acelga e almeirão
Só para dizer que come vegetal
Nada de animal.
Mas o Haiti precisa comer
Seja ela o que for
Animal e vegetal
Sobretudo precisa
De amor humano
Sobre-humano é morrer de fome
Desumano é viver na fome.
Perderam seus maridos.
Lá no Haiti.
Bem aqui no Haiti.
Choremos porque seus filhos
Também morreram
E descansam agora numa
Praia de coqueirais e pescadores.
Choremos por nós mesmos
Que indiferentes a tudo
Fingimos que nada aconteceu.
Continuamos levando nossa vida
Leviana como sempre foi
Comendo banana nanica
Acelga e almeirão
Só para dizer que come vegetal
Nada de animal.
Mas o Haiti precisa comer
Seja ela o que for
Animal e vegetal
Sobretudo precisa
De amor humano
Sobre-humano é morrer de fome
Desumano é viver na fome.
Poema a Maria Luiza
Se me encontrasse com Maria Luiza
Como seriam seus traços faciais
Depois de tanto tempo passado
Ela se foi com o delegado
Desses que cofiam o bigode
Puxando as pontas para os cantos.
Ela queria ser feliz
Não um amor desesperado
Desses loucamente vivido
Sob o luar refletido num lago
Profundo de imensa amplidão.
Bem ao contrário!
Como seria o seu sorriso
Ainda ostentaria a mesma sublime
Jovialidade de então
Toda frescura da aurora da vida.
Ou nada mais disso haveria
Seus lábios murchos haveria
De dar o beijo como outrora?
Mas secos agora
Secos e quebradiços como a
Superfície lisa do vidro.
Não quero mais vê-la!
Maria Luiza continua existindo
Apenas para mim
A mesma de tanto tempo passado
A mesma que a vejo neste momento!
Como seriam seus traços faciais
Depois de tanto tempo passado
Ela se foi com o delegado
Desses que cofiam o bigode
Puxando as pontas para os cantos.
Ela queria ser feliz
Não um amor desesperado
Desses loucamente vivido
Sob o luar refletido num lago
Profundo de imensa amplidão.
Bem ao contrário!
Como seria o seu sorriso
Ainda ostentaria a mesma sublime
Jovialidade de então
Toda frescura da aurora da vida.
Ou nada mais disso haveria
Seus lábios murchos haveria
De dar o beijo como outrora?
Mas secos agora
Secos e quebradiços como a
Superfície lisa do vidro.
Não quero mais vê-la!
Maria Luiza continua existindo
Apenas para mim
A mesma de tanto tempo passado
A mesma que a vejo neste momento!
Uma vida inútil
Passei a maior parte
De uma vida inútil
Fazendo tudo aquilo
Que não serviria para nada
Além de remendar roupas
Velhas que de velhas se foram
Além de colecionar pedrinhas
Coloridas só por serem belas
Por ter conhecido a cabocla Jurema
Na beira de um lago encantando
E por ela ter perdido meu coração
E minha vida antes útil
- Queria então ser motorista
De caminhão
Se perdeu nesta vida
De amores desencontrados
Mas em momento algum
Tive motivos para lamentar
Se minha vida fosse útil
Seria mesquinho em tirar proveito
Alguma vantagem se fosse possível
Um pouquinho de lucro
Pois lucrar é tornar
A vida útil.
Inútil é a vida voltada
Apenas a compor poesia.
De uma vida inútil
Fazendo tudo aquilo
Que não serviria para nada
Além de remendar roupas
Velhas que de velhas se foram
Além de colecionar pedrinhas
Coloridas só por serem belas
Por ter conhecido a cabocla Jurema
Na beira de um lago encantando
E por ela ter perdido meu coração
E minha vida antes útil
- Queria então ser motorista
De caminhão
Se perdeu nesta vida
De amores desencontrados
Mas em momento algum
Tive motivos para lamentar
Se minha vida fosse útil
Seria mesquinho em tirar proveito
Alguma vantagem se fosse possível
Um pouquinho de lucro
Pois lucrar é tornar
A vida útil.
Inútil é a vida voltada
Apenas a compor poesia.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Casa vazia
Como amainar a dor
De amor.
Se pudesse nega-lo
Se pudesse nega-la
Seria reconfortante
A dor não doiria tanto
Mas o que seria dela
Sem dor
E negando um amor
Que teve.
Nada mais restaria
Do que uma casa
Vazia
Sem dor
Sem amor.
De amor.
Se pudesse nega-lo
Se pudesse nega-la
Seria reconfortante
A dor não doiria tanto
Mas o que seria dela
Sem dor
E negando um amor
Que teve.
Nada mais restaria
Do que uma casa
Vazia
Sem dor
Sem amor.
Fuga para lugar algum
Quero fugir distante
Para uma terra além
Das montanhas em derredor
Lá onde a vista alcança
Lá onde o sol se põe
Lá onde há uma mina de ouro
Em que possa achar a pepita
Mais pura deste mundo.
Sem rei sem bandeira
Sem bazófia
A ordem rotineira
Das mulheres que colhem arroz
Dos homens que plantam milho
Do espantalho que monta guarda
Afugentar o anu preto.
Lá
Todos podem compor poemas
Todos podem ler versos livres
Livres de qualquer preconceito
Amar todas se quiserem
Musas gregas e troianas
As primeiras na redondilha maior
As segundas na redondilha menor
Deixando saudades em suas almas
E seus corpos morenos trêmulos
De tanta emoção e êxtase.
Mas ninguém sabe onde fica
Este reino de deleite e felicidade
Que não é para o cidadão comum
Se quiser conhecê-lo
Existe agora neste instante
Sem geografia definida
Em tempo algum.
Ainda que conte a alguém
Que caminho tomar
Poucos iriam
Mas nenhum voltaria mais.
Lá...
Para uma terra além
Das montanhas em derredor
Lá onde a vista alcança
Lá onde o sol se põe
Lá onde há uma mina de ouro
Em que possa achar a pepita
Mais pura deste mundo.
Sem rei sem bandeira
Sem bazófia
A ordem rotineira
Das mulheres que colhem arroz
Dos homens que plantam milho
Do espantalho que monta guarda
Afugentar o anu preto.
Lá
Todos podem compor poemas
Todos podem ler versos livres
Livres de qualquer preconceito
Amar todas se quiserem
Musas gregas e troianas
As primeiras na redondilha maior
As segundas na redondilha menor
Deixando saudades em suas almas
E seus corpos morenos trêmulos
De tanta emoção e êxtase.
Mas ninguém sabe onde fica
Este reino de deleite e felicidade
Que não é para o cidadão comum
Se quiser conhecê-lo
Existe agora neste instante
Sem geografia definida
Em tempo algum.
Ainda que conte a alguém
Que caminho tomar
Poucos iriam
Mas nenhum voltaria mais.
Lá...
Arte sem finalidades
Existe uma bela arte da paixão; mas uma bela arte apaixonada é uma contradição, pois o efeito incontrolável da beleza é a liberdade de paixões. Não menos contraditório é o conceito de bela arte como ensinamento (didática) ou corrigida (moral), pois nada é tão oposto ao conceito da beleza quanto dar à mente uma determinada tendência.
SCHILLER, Friedrich. A Educação Estética do Homem numa série de cartas. São Paulo, Iluminuras, 1990. p.116
SCHILLER, Friedrich. A Educação Estética do Homem numa série de cartas. São Paulo, Iluminuras, 1990. p.116
Fenomenologia e imagem poética
Para um leitor de poemas, o apelo a uma doutrina que traz o nome, tantas vezes mal-compreendido, de fenomenologia, corre o risco de não ser ouvido. No entanto, fora de qualquer doutrina, esse apelo é claro: pede-se ao leitor de poemas que não encare a imagem como um objeto, muito menos como um substituto do objeto, mas que capte sua realidade específica. Para isso é necessário associar sistematicamente o ato da consciência criadora ao produto mais fugaz da consciência: a imagem poética. Ao nível da imagem poética, a dualidade do sujeito e objeto é irisada, reverberante, incessantemente ativa em suas inversões. Nesse âmbito da criação da imagem poética pelo poeta, a fenomenologia é, se assim podemos dizer, uma fenomenologia microscópica. Por isso essa fenomenologia tem probabilidades de ser estritamente elementar. Nessa união, pela imagem, de uma subjetividade pura mas efêmera com uma realidade que não chega necessariamente à sua completa constituição, o fenomenólogo encontra um campo de inúmeras experiências; beneficia-se de observações que podem ser precisas porque são simples, porque “não têm inconvenientes”, como é o caso dos pensamentos científicos, que são sempre interligados. Em sua simplicidade, a imagem não tem necessidade de um saber. Ela é dádiva de uma consciência ingênua. Em sua expressão é uma linguagem criança. Para bem especificar o que pode ser uma fenomenologia da imagem, para especificar que a imagem vem antes do pensamento, seria necessário dizer que a poesia é, mais que uma fenomenologia do espírito, uma fenomenologia da alma. Deveríamos então acumular documentos sobre a consciência sonhadora.
BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço: São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. 4
BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço: São Paulo, Martins Fontes, 2005, p. 4
terça-feira, 16 de março de 2010
Finjo uma verdade fingida
Que pode ser oculto
Na face que ainda sorri
Se no coração uma
Tristeza enorme
Não mais se contém.
Pode ser de fingimento
Já que todos fingem juntos
Num teatro de sombras
Tamanho deslumbramento.
Mas se fingimento é comum
Chegará um dia
Que fingimento será verdade
E verdade de antes fingimento.
A dor de antes sentida
Deixará de ser
Será ela uma mentira!
Só para não sofrer mais.
Na face que ainda sorri
Se no coração uma
Tristeza enorme
Não mais se contém.
Pode ser de fingimento
Já que todos fingem juntos
Num teatro de sombras
Tamanho deslumbramento.
Mas se fingimento é comum
Chegará um dia
Que fingimento será verdade
E verdade de antes fingimento.
A dor de antes sentida
Deixará de ser
Será ela uma mentira!
Só para não sofrer mais.
No silêncio de nós mesmos
Quando nem mesmo as paredes
Revelam a verdade contida nos
Pigmentos de cal
Emudecidos tal qual caracol
Nada mais resta que no silêncio
Buscar morada
Confundindo-se com o som mudo
Dos que não dizem nada.
Pedras de um jardim milenar
Juntando-se a musgos e algas
Até se tornar em simbiose
Uma massa biológica que pulsa
Sem sentimento algum.
Mas o que interessa é a beleza
Da maneira que sempre foi
Intocada pelas mentes e desejos
Da alma errante que assombra
Pela rudeza dos modos civilizados
E de bárbaros montados em cavalos negros
Cavalos alados de um tempo distante.
Em linguagem não falada
Só restam imagens oníricas
Confusas em natureza inalterada
Que nos convida apenas a
Observar atentamente.
Não importa mais
O desespero que não existe mais
Não importa mais
O amor que deixou para trás
E também acabou diluindo
Num vendaval movediço
Quem possa maldizer
A violência de um mundo
Vulcânico cheirando enxofre
Fumaças em desalinho.
Revelam a verdade contida nos
Pigmentos de cal
Emudecidos tal qual caracol
Nada mais resta que no silêncio
Buscar morada
Confundindo-se com o som mudo
Dos que não dizem nada.
Pedras de um jardim milenar
Juntando-se a musgos e algas
Até se tornar em simbiose
Uma massa biológica que pulsa
Sem sentimento algum.
Mas o que interessa é a beleza
Da maneira que sempre foi
Intocada pelas mentes e desejos
Da alma errante que assombra
Pela rudeza dos modos civilizados
E de bárbaros montados em cavalos negros
Cavalos alados de um tempo distante.
Em linguagem não falada
Só restam imagens oníricas
Confusas em natureza inalterada
Que nos convida apenas a
Observar atentamente.
Não importa mais
O desespero que não existe mais
Não importa mais
O amor que deixou para trás
E também acabou diluindo
Num vendaval movediço
Quem possa maldizer
A violência de um mundo
Vulcânico cheirando enxofre
Fumaças em desalinho.
domingo, 14 de março de 2010
Salto profundo
Quem me impedirá
Que eu salte neste abismo
Profundo
Desconhecendo o que possa
Ser encontrado lá
Sombras de uma existência
Desconhecida
E vivendo nas bordas de
Um pântano irreal
E fazendo de minhas angústias
Tintas frescas em que pinta
Um painel de abstração
Aberração nas cores primárias
Marcando a pele branca
Sinais de tatuagem.
Sem mais como retirar
Aquilo que impregnou
Por onde anda fica a marca
Prisioneira de um destino
Marcada em sua alma.
Neste reino obscuro
Todo sofrimento em vão
Dos amores contrariados
Dos jogos de vida perdidos
Numa partida de dados
Encontra abrigo
Escuro e sinistro.
Que eu salte neste abismo
Profundo
Desconhecendo o que possa
Ser encontrado lá
Sombras de uma existência
Desconhecida
E vivendo nas bordas de
Um pântano irreal
E fazendo de minhas angústias
Tintas frescas em que pinta
Um painel de abstração
Aberração nas cores primárias
Marcando a pele branca
Sinais de tatuagem.
Sem mais como retirar
Aquilo que impregnou
Por onde anda fica a marca
Prisioneira de um destino
Marcada em sua alma.
Neste reino obscuro
Todo sofrimento em vão
Dos amores contrariados
Dos jogos de vida perdidos
Numa partida de dados
Encontra abrigo
Escuro e sinistro.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Meus amigos poetas
Onde estão meus amigos
De versos atirados ao vento
Que gostavam de poesia
Compunham toda a insignificância
De uma vida construída das ruínas
De uma memória assustadora.
Memória dos desencontos
Com nossos pares igualmente
Desafortunados.
Por isso não cediam jamais
Ao chamado sedutor das ondinas
Que queriam sua alma em desespero.
O que resta dos poetas
Se tudo já levaram
Só resta a sua alma
Sem ela não sentiriam
A tristeza do mundo
Que se arrasta sem alma alguma.
Por isso compõe poemas
Para aliviar a dor que sente
Por um mundo que nem dor
Mais sente.
Que sentido tem viver assim!
De versos atirados ao vento
Que gostavam de poesia
Compunham toda a insignificância
De uma vida construída das ruínas
De uma memória assustadora.
Memória dos desencontos
Com nossos pares igualmente
Desafortunados.
Por isso não cediam jamais
Ao chamado sedutor das ondinas
Que queriam sua alma em desespero.
O que resta dos poetas
Se tudo já levaram
Só resta a sua alma
Sem ela não sentiriam
A tristeza do mundo
Que se arrasta sem alma alguma.
Por isso compõe poemas
Para aliviar a dor que sente
Por um mundo que nem dor
Mais sente.
Que sentido tem viver assim!
O amor que se foi...
Pelas ondas de um rádio
Velho canta melancolia
Quando na sala vazia
Apenas sobrou uma xícara
Ainda impregnada com
O baton dela.
Vermelho carmim
Era assim o seu destino
Que por onde ficava
Morava enfim nos corações
E deixava quando menos
Se esperava.
Sem morada fixa
Errava pelas estradas.
Se encontrava abrigo
Por algum tempo ficava
Depois se ia
Evadia-se desta vida
Monótona e solitária
Das pessoas ordinárias.
Queria viver
Conhecer todos os amores
Todas as cores do infinito
E galgar o arco-íris após
A chuva de primavera.
Só ficou a saudade
E uma crença felina
Que um dia ela volte
E novamente tome café
Na mesma xícara
Que jaz em seu sono
De esperança
Desesperança que se desfaz
Em fumaça branca.
Velho canta melancolia
Quando na sala vazia
Apenas sobrou uma xícara
Ainda impregnada com
O baton dela.
Vermelho carmim
Era assim o seu destino
Que por onde ficava
Morava enfim nos corações
E deixava quando menos
Se esperava.
Sem morada fixa
Errava pelas estradas.
Se encontrava abrigo
Por algum tempo ficava
Depois se ia
Evadia-se desta vida
Monótona e solitária
Das pessoas ordinárias.
Queria viver
Conhecer todos os amores
Todas as cores do infinito
E galgar o arco-íris após
A chuva de primavera.
Só ficou a saudade
E uma crença felina
Que um dia ela volte
E novamente tome café
Na mesma xícara
Que jaz em seu sono
De esperança
Desesperança que se desfaz
Em fumaça branca.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Descaminhos caminhando
Numa tigela rasa tomo
Mingau.
Para saciar a minha fome
De arte e traquinagem
Queria ser malabarista
Para as mulheres de queixo
Caído ovacionarem em êxtase.
Numa tigela funda tomo
Mingau.
Para saciar a minha fome
De amor e politicagem
Queria ser comunista
Assim distribuiria aquilo
Que tenho e não tenho também.
Não tenho a amor que quero
Só quero o amor da musa enjeitada
Para compor versos atravessados
Malcriados e mal nascidos.
Meu verso é delírio para
Os alumbrados da contravenção
Que acreditam nos próprios
Descaminhos!
Numa tigela apenas tomo
Mingau.
Mingau com mel
Mingau com sal.
Mingau.
Para saciar a minha fome
De arte e traquinagem
Queria ser malabarista
Para as mulheres de queixo
Caído ovacionarem em êxtase.
Numa tigela funda tomo
Mingau.
Para saciar a minha fome
De amor e politicagem
Queria ser comunista
Assim distribuiria aquilo
Que tenho e não tenho também.
Não tenho a amor que quero
Só quero o amor da musa enjeitada
Para compor versos atravessados
Malcriados e mal nascidos.
Meu verso é delírio para
Os alumbrados da contravenção
Que acreditam nos próprios
Descaminhos!
Numa tigela apenas tomo
Mingau.
Mingau com mel
Mingau com sal.
Sem substância
Numa sala de espelhos
Onde me perdi.
Nem mais sabia quem era
A imagem refletida
A imagem reflexa
De uma cara
Igual a outra
Ou era esta cara
A cara da outra
Num caleidoscópio
Que não começa jamais
Nem acaba jamais
Havendo apenas
Um semblante pálido
Que desconheço
Não conheço minha
Própria cara
A não ser uma névoa
Fantasmagórica
Farinha branca
Pulverizada em manchas
Vítreas e cristalinas
Sem alma aparente
Corpo transparente
De um sonho letárgico
E mágico!
Onde me perdi.
Nem mais sabia quem era
A imagem refletida
A imagem reflexa
De uma cara
Igual a outra
Ou era esta cara
A cara da outra
Num caleidoscópio
Que não começa jamais
Nem acaba jamais
Havendo apenas
Um semblante pálido
Que desconheço
Não conheço minha
Própria cara
A não ser uma névoa
Fantasmagórica
Farinha branca
Pulverizada em manchas
Vítreas e cristalinas
Sem alma aparente
Corpo transparente
De um sonho letárgico
E mágico!
quarta-feira, 10 de março de 2010
Nesta data querida!
Se você não existisse
O mundo existiria assim mesmo
Seria mais soturno
Todo mundo andaria de coturno
E marcharia a passos dados.
Se você não existisse
A alegria teria que ser ensinada
Em cartilhas de alfabetização
Desta forma toda formação
Estenderia-se à escola.
Se você não existisse
Não estaria aqui compondo
Poemas sentimentais
Só para comemorar uma data
Especial em nossas vidas.
Se você não existisse
Não teríamos que comemorar
Aniversários ao final do verão
Bebendo todas e cantando
Tal qual um folião
Que continua sonhando
Com o carnaval passado.
Se você não existisse
“Amigo” seria palavra inútil
Como inútil é a lágrima deixada
Em momentos de emoção.
Que bom compartilhar
Deste bolo enfeitado
De serpentinas e ilusão!
Que bom...
Aniversário do poeta Igor Venturini (12 de março)
O mundo existiria assim mesmo
Seria mais soturno
Todo mundo andaria de coturno
E marcharia a passos dados.
Se você não existisse
A alegria teria que ser ensinada
Em cartilhas de alfabetização
Desta forma toda formação
Estenderia-se à escola.
Se você não existisse
Não estaria aqui compondo
Poemas sentimentais
Só para comemorar uma data
Especial em nossas vidas.
Se você não existisse
Não teríamos que comemorar
Aniversários ao final do verão
Bebendo todas e cantando
Tal qual um folião
Que continua sonhando
Com o carnaval passado.
Se você não existisse
“Amigo” seria palavra inútil
Como inútil é a lágrima deixada
Em momentos de emoção.
Que bom compartilhar
Deste bolo enfeitado
De serpentinas e ilusão!
Que bom...
Aniversário do poeta Igor Venturini (12 de março)
terça-feira, 9 de março de 2010
Resposta que não diz
Se perguntassem
Não diria
Para quê compor poema?
Um poema pode ser
Um momento fugaz
Sem intenção que seja
De qualquer planificação
Pedagógica e institucional
Municipal ou estadual.
Uma resposta bem posta
Antes mais uma pergunta.
Se perguntassem
Não diria
Para quê compor poema?
Somente os heréticos
Têm a resposta.
Somente os poetas
Apenas compõem.
Não diria
Para quê compor poema?
Um poema pode ser
Um momento fugaz
Sem intenção que seja
De qualquer planificação
Pedagógica e institucional
Municipal ou estadual.
Uma resposta bem posta
Antes mais uma pergunta.
Se perguntassem
Não diria
Para quê compor poema?
Somente os heréticos
Têm a resposta.
Somente os poetas
Apenas compõem.
Ninguém mais fala
Ainda que pergunte incessante
Nenhuma palavra
Garatuja da incompreensão
Risca minha parede branca.
E num imensamente
Silêncio de toda ação
Travo uma conversa
Carregada de emoção.
Sinto minha alma se elevar
Como alma alguma existisse
Peso e forma singular.
Nada mais me importa
Atiro porta afora
Tudo aquilo que incomoda.
Não se vive do passado
Meu futuro é incerto
Meu presente angustiante.
Mas se alguma coisa importa
Resta a enevoada tarde
De outono que chama a noite
A cobrir o corpo nu do
Anjo decaído que bebe
O líquido proibido da fruta
Que consola e ilude
Para viver mais um dia.
Nenhuma palavra
Garatuja da incompreensão
Risca minha parede branca.
E num imensamente
Silêncio de toda ação
Travo uma conversa
Carregada de emoção.
Sinto minha alma se elevar
Como alma alguma existisse
Peso e forma singular.
Nada mais me importa
Atiro porta afora
Tudo aquilo que incomoda.
Não se vive do passado
Meu futuro é incerto
Meu presente angustiante.
Mas se alguma coisa importa
Resta a enevoada tarde
De outono que chama a noite
A cobrir o corpo nu do
Anjo decaído que bebe
O líquido proibido da fruta
Que consola e ilude
Para viver mais um dia.
Apenas desencontros
Nenhum encontro se fez
Mais além que um desencontro
E nunca mais se ouviu falar
Do amor que não se realizou
Como jamais tivesse acontecido
Tudo como antes voltou
Sem nada revelar
Tudo por revelar
Uma frase não dita
Como pudesse saber
Bendita seja a vida
Dos alquimistas que manipulam
Esta trama concebida
Que é vida por fazer.
Mais além que um desencontro
E nunca mais se ouviu falar
Do amor que não se realizou
Como jamais tivesse acontecido
Tudo como antes voltou
Sem nada revelar
Tudo por revelar
Uma frase não dita
Como pudesse saber
Bendita seja a vida
Dos alquimistas que manipulam
Esta trama concebida
Que é vida por fazer.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Metrópole cinzenta
Nesta minha cidade congelada
De formas retas e parabólicas
Rasgando o cinza da fumaça que paira
Queimando a retina
A narina das senhoras intrometidas
Que folheiam o almanaque cultural
Revista que conta tão somente
Escândalos da vida banal.
Mergulhando em seu próprio desespero
Nenhum caminho leva a um ponto inteiro
Que seja solução
Pelo reverso
Continua errando continuamente disperso
Entre a população.
Existe certa tristeza desejada
Pelas esquinas de ruas escuras
Que não escondem mais
Corações maltratados
Pelos amores que passaram.
Em completa desilusão
Ainda há a beleza da bailarina
Numa caixinha de música
Que dança indiferente a toda
Destruição.
De formas retas e parabólicas
Rasgando o cinza da fumaça que paira
Queimando a retina
A narina das senhoras intrometidas
Que folheiam o almanaque cultural
Revista que conta tão somente
Escândalos da vida banal.
Mergulhando em seu próprio desespero
Nenhum caminho leva a um ponto inteiro
Que seja solução
Pelo reverso
Continua errando continuamente disperso
Entre a população.
Existe certa tristeza desejada
Pelas esquinas de ruas escuras
Que não escondem mais
Corações maltratados
Pelos amores que passaram.
Em completa desilusão
Ainda há a beleza da bailarina
Numa caixinha de música
Que dança indiferente a toda
Destruição.
domingo, 7 de março de 2010
Um ato solitário
Uma solidão imensa assola
Meia população desta cidade
Que dorme enquanto as sombras
Caminham a passos dados
Pelos becos e bares repletos
De seres efêmeros
Alimentando-se do desespero
Dos que jamais dormem.
Esta solidão sentida
Minha companhia fugaz
Sou também o ser da noite
Que dorme
Que acorda
Que sonha uma realidade
Além das aparências
Das formas arredondadas
De uma coluna que sustenta
O dia que se faz presente
Na claridade que mais cega
Ofuscando os olhos que não vê
Mais do que formas arredondadas.
Sem que nenhum olhar cruze
Um desconhecido cruza a
Grande avenida repleta.
Nunca se sentiu tão só!
Um cão abandonado
Num ponto de ônibus
De coleira e prato de grão
Abana o rabo
Para quem passa.
Sem dono!
Sem dono!
Meia população desta cidade
Que dorme enquanto as sombras
Caminham a passos dados
Pelos becos e bares repletos
De seres efêmeros
Alimentando-se do desespero
Dos que jamais dormem.
Esta solidão sentida
Minha companhia fugaz
Sou também o ser da noite
Que dorme
Que acorda
Que sonha uma realidade
Além das aparências
Das formas arredondadas
De uma coluna que sustenta
O dia que se faz presente
Na claridade que mais cega
Ofuscando os olhos que não vê
Mais do que formas arredondadas.
Sem que nenhum olhar cruze
Um desconhecido cruza a
Grande avenida repleta.
Nunca se sentiu tão só!
Um cão abandonado
Num ponto de ônibus
De coleira e prato de grão
Abana o rabo
Para quem passa.
Sem dono!
Sem dono!
Máscara de papel
Tal qual carnaval
Veneziano
De máscaras postas
Dissimula um sorriso só
Que deixou de expor
Ou o sorriso da cara
Endurecida pelo papel
Do ator que representa
Um drama escrito além
Da vontade de somente
Representar.
É da vontade dos outros
Que impede a cara expressar
Outros sentimentos
Mas apenas um
Unicamente aquele
Que a própria cara tem
De si próprio.
De tanto usar a máscara
Mesmo que a retire
A cara fica com a cara
Dela. Sem diferença.
Afinal
Que máscara usamos?
Mas se a máscara
Rasgou
Com que cara
Ficamos?
Somos máscara o tempo todo...
Veneziano
De máscaras postas
Dissimula um sorriso só
Que deixou de expor
Ou o sorriso da cara
Endurecida pelo papel
Do ator que representa
Um drama escrito além
Da vontade de somente
Representar.
É da vontade dos outros
Que impede a cara expressar
Outros sentimentos
Mas apenas um
Unicamente aquele
Que a própria cara tem
De si próprio.
De tanto usar a máscara
Mesmo que a retire
A cara fica com a cara
Dela. Sem diferença.
Afinal
Que máscara usamos?
Mas se a máscara
Rasgou
Com que cara
Ficamos?
Somos máscara o tempo todo...
Viver sem ousadia
Uma certa falta que faz
A ausência sentida dela
Que numa noite qualquer
Como esta se foi de repente
No rabo do vento sorrateiro
Para não voltar mais.
Queria ser feliz
Queria colecionar figurinhas
Nada mais do que
A vida comum
Tão comum que não serviria
Para ela
Tão cheio de vida
Sonhada e transgressora
Feita à sua imagem.
Uma vida comum
Não passa de repetição
De gestos cansados
Que por acomodação
Nada faz de diferente.
Uma vida incomum
Tem os perigos da ousadia
Vencendo as dificuldades (ou não)
De uma trilha nova
Que pode ser provocação.
Nesta a felicidade
Não é condição.
Importante é a vida
Na contramão dos
Acontecimentos.
A ausência sentida dela
Que numa noite qualquer
Como esta se foi de repente
No rabo do vento sorrateiro
Para não voltar mais.
Queria ser feliz
Queria colecionar figurinhas
Nada mais do que
A vida comum
Tão comum que não serviria
Para ela
Tão cheio de vida
Sonhada e transgressora
Feita à sua imagem.
Uma vida comum
Não passa de repetição
De gestos cansados
Que por acomodação
Nada faz de diferente.
Uma vida incomum
Tem os perigos da ousadia
Vencendo as dificuldades (ou não)
De uma trilha nova
Que pode ser provocação.
Nesta a felicidade
Não é condição.
Importante é a vida
Na contramão dos
Acontecimentos.
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