Há sempre no homem
Um ponto vulnerável
Que nem o mais forte
Possa ocultar de si
Pode ser tristeza
Devora a alma inteira
Pode ser lamentação
Corroi todo o coração
Dos desencontros causados
Sem causa sem lei
Se rei fosse não seria
Malgrado nesta vida
Caminhando pelas vias
Tortuosas em desencanto
Errando por amar
Um amor errado
Que não quer ser feliz
Apenas ser o que sempre foi.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O Jaguadarte
Era briluz.
As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"
Ele arrancou sua espada vorpal e foi atras do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.
E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando atraves da floresta,
E borbulia um riso louco!
Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
Cabeca fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.
"Pois entao tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu. Era briluz.
As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
Lewis Carroll (Tradução do "Jabberwacky" por Augusto de Campos)
As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Fefel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassura!"
Ele arrancou sua espada vorpal e foi atras do inimigo do Homundo.
Na árvore Tamtam ele afinal
Parou, um dia, sonilundo.
E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, olho de fogo,
Sorrelfiflando atraves da floresta,
E borbulia um riso louco!
Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante!
Cabeca fere, corta e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.
"Pois entao tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!"
Ele se ria jubileu. Era briluz.
As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.
Lewis Carroll (Tradução do "Jabberwacky" por Augusto de Campos)
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Fado Menor
Os meus olhos são dois círios
dando luz triste ao meu rosto
marcado pelos martírios
da saudade e do desgosto
Quando oiço bater trindades
e a tarde já vai no fim
eu peço às tuas saudades
um padre nosso por mim
Mas não sabes fazer preces
não tens saudade nem pranto
por que é que tu me aborreces
por que é que eu te quero tanto
És para meu desespero
como as nuvens que andam altas
todos os dias te espero
todos os dias me faltas
Letra e Música : Linhares Barbosa/Santos Moreira
dando luz triste ao meu rosto
marcado pelos martírios
da saudade e do desgosto
Quando oiço bater trindades
e a tarde já vai no fim
eu peço às tuas saudades
um padre nosso por mim
Mas não sabes fazer preces
não tens saudade nem pranto
por que é que tu me aborreces
por que é que eu te quero tanto
És para meu desespero
como as nuvens que andam altas
todos os dias te espero
todos os dias me faltas
Letra e Música : Linhares Barbosa/Santos Moreira
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Amamos as amarras
Num quarto fechado
Cinco demônios compartilhavam
Uma vida comum
Comum era a vida que levavam.
O demônio um importunava
O demônio dois que reclamava
Do demônio três que não concordava
Do demônio quatro que não trabalhava
Do demônio cinco que só mandava.
Um dia a porta se abriu
Um demônio pensou
“posso ir embora!”
Um outro pensou
“o momento é agora!”
Os outros esperaram
O primeiro movimento
Que não aconteceu
E todos voltaram para dentro
Ignorando a própria liberdade.
Continuaram prisioneiros
Das próprias vontades
Dos demônios que precisavam
Para se sentirem humanos.
Desumano era ser
Livre.
Cinco demônios compartilhavam
Uma vida comum
Comum era a vida que levavam.
O demônio um importunava
O demônio dois que reclamava
Do demônio três que não concordava
Do demônio quatro que não trabalhava
Do demônio cinco que só mandava.
Um dia a porta se abriu
Um demônio pensou
“posso ir embora!”
Um outro pensou
“o momento é agora!”
Os outros esperaram
O primeiro movimento
Que não aconteceu
E todos voltaram para dentro
Ignorando a própria liberdade.
Continuaram prisioneiros
Das próprias vontades
Dos demônios que precisavam
Para se sentirem humanos.
Desumano era ser
Livre.
Os fios de Arlequim
Num boneco de matéria plástica
Arlequim aparecia dançando
Com passos cruzados uma dança
Inventada pelos pés enfiados em
Botas de ponta curva e afiada.
Cada vez que avançava um passo
Recuava outro em compasso
Cadenciado e belo.
Na ponta dos dedos levava
Cordas suspensas em outros bonecos
Manipulados que eram
Não erravam um único passo
Só fazia o que mandava
O grande palhaço em devoção.
Arlequim aparecia dançando
Com passos cruzados uma dança
Inventada pelos pés enfiados em
Botas de ponta curva e afiada.
Cada vez que avançava um passo
Recuava outro em compasso
Cadenciado e belo.
Na ponta dos dedos levava
Cordas suspensas em outros bonecos
Manipulados que eram
Não erravam um único passo
Só fazia o que mandava
O grande palhaço em devoção.
A traição das palavras
Qualquer incompreensão se trata
De uma profunda falta de compreensão
Da palavra que diz trocando as matizes
Do arco-íris de todas as flores
Aquilo que pode ser amarelo
Quem ouve supõe ser azul
Azul é a cor do céu resplandecente
Pode ser a do mar imensamente largo
Mas no céu azul
Não vivem polvos e baleias
Mas no mar azul
Não vivem gaivotas e gansos selvagens
Calar é melhor
Do que qualquer explicação
Que confunde mais que explica.
De uma profunda falta de compreensão
Da palavra que diz trocando as matizes
Do arco-íris de todas as flores
Aquilo que pode ser amarelo
Quem ouve supõe ser azul
Azul é a cor do céu resplandecente
Pode ser a do mar imensamente largo
Mas no céu azul
Não vivem polvos e baleias
Mas no mar azul
Não vivem gaivotas e gansos selvagens
Calar é melhor
Do que qualquer explicação
Que confunde mais que explica.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Poema inútil em essência
Para que serve a utilidade
Das coisas úteis em sua natureza
Uma cadeira para sentar
Uma panela para cozinhar
Se não fossem úteis
Seriam muito melhores
Na qualidade de não servir
Para nada.
Somente o útil tem validade
Em contradição com a futilidade
Daquilo que deixou de ser
Ser apenas o que é
Sem ser belo nem feio
Nem modesto nem velho
Sem querer agradar
Sem querer desagradar
O chefe da secção
Em busca de promoção.
Das coisas úteis em sua natureza
Uma cadeira para sentar
Uma panela para cozinhar
Se não fossem úteis
Seriam muito melhores
Na qualidade de não servir
Para nada.
Somente o útil tem validade
Em contradição com a futilidade
Daquilo que deixou de ser
Ser apenas o que é
Sem ser belo nem feio
Nem modesto nem velho
Sem querer agradar
Sem querer desagradar
O chefe da secção
Em busca de promoção.
Fé transparente
Vamos acreditar naquilo que não serve para nada
Vamos, tenhamos fé na inutilidade total das coisas
Tenhamos profunda convicção de que todo esforço é inútil
De que toda certeza é fútil - imprestável
Vamos, de cabeça, de cabeça para baixo mergulhar
Vamos rebolar e chafurdar e deslizar e espremer
Voltar, e voltar, e olhar sem ver nada, e cego desfazer
tudo que se possa adquirir ou roubar, nada temer
Vamos deixar o sangue correr e a saliva inundar
Cortar os cortes e soltar o que bem sempre se moveu em liberdade
Vamos fazer amor com o óbvio, ( ), vamos gritar entre dentes
Abrir os olhos em pleno ar: pobre, burro, ignorante, cadavérico.
Acordar e não encontrar nada, as mãos vazias
Abrir a janela na manhã chuvosa e lamber as gotas
Encarar no armário o único cabide, vazio e inútil
e olhar para si, puro, em pelo, e lívido, com um coração vermelho
E sussurrar para nada ouvir: nunca estive tão acordado, tão feliz
E ser aquele fantasma de luz, sim, e encontrar as pessoas certas
E nelas esculpir uma amizade sem vínculo algum, sem chance alguma
E tornar-se íntimo do caos, e nele sonhar, o fim que os sonhos pedem.
Vamos, tenhamos fé na inutilidade total das coisas
Tenhamos profunda convicção de que todo esforço é inútil
De que toda certeza é fútil - imprestável
Vamos, de cabeça, de cabeça para baixo mergulhar
Vamos rebolar e chafurdar e deslizar e espremer
Voltar, e voltar, e olhar sem ver nada, e cego desfazer
tudo que se possa adquirir ou roubar, nada temer
Vamos deixar o sangue correr e a saliva inundar
Cortar os cortes e soltar o que bem sempre se moveu em liberdade
Vamos fazer amor com o óbvio, ( ), vamos gritar entre dentes
Abrir os olhos em pleno ar: pobre, burro, ignorante, cadavérico.
Acordar e não encontrar nada, as mãos vazias
Abrir a janela na manhã chuvosa e lamber as gotas
Encarar no armário o único cabide, vazio e inútil
e olhar para si, puro, em pelo, e lívido, com um coração vermelho
E sussurrar para nada ouvir: nunca estive tão acordado, tão feliz
E ser aquele fantasma de luz, sim, e encontrar as pessoas certas
E nelas esculpir uma amizade sem vínculo algum, sem chance alguma
E tornar-se íntimo do caos, e nele sonhar, o fim que os sonhos pedem.
Hoje acabou a luz aqui em casa. Era hora do jantar e as panelas estavam no fogão. Uma vela surrupiada do altar foi para a cozinha. Na sala, acendemos outra, daquelas de espantar mosquito. Depois comemos quase no escuro, brincando de adivinhar o que era cada comida. Agora, de madrugada, enquanto todos dormem, a luz voltou. Entre relógios piscando, luzes esquecidas acesas, bips e leds vermelhos e verdes, circulo pela casa apagando as velas. Depois, tudo arrumado, luzes desligadas e relógios ajustados, aproveito a madrugada em silêncio na sala escura. O restinho do aroma de citrolena que ainda rescende me faz lembrar do jantar divertido.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Ser escritor
Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura.
Pamuk Orhan. A maleta do meu pai: São Paulo, Cia das Letras, 2007, p.27
Pamuk Orhan. A maleta do meu pai: São Paulo, Cia das Letras, 2007, p.27
Ilusão
Se os muros fossem ruins
Serviriam para não separar os maus
Dos mais maus
Por uma questão de união
Simplesmente para unir
Simplesmente para nada servir
Para o fato de não existirem muros.
Serviriam para não separar os maus
Dos mais maus
Por uma questão de união
Simplesmente para unir
Simplesmente para nada servir
Para o fato de não existirem muros.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
O muro
Se os muros fossem bons
Serviriam para separar os bons
Dos menos bons
Por uma questão de separação
Simplesmente para separar
Simplesmente para dar uma função
Para o fato de existirem muros.
Serviriam para separar os bons
Dos menos bons
Por uma questão de separação
Simplesmente para separar
Simplesmente para dar uma função
Para o fato de existirem muros.
Rima seca
Quando saio à rua
levo nada na cabeça
Levo uma máquina de retratar
e um caderninho de notas
A cabeça segue inóspita
e não pensa rimas
- palavras não são imãs
são coisa seca como folhas soltas
É uma linha, vinte passos
outra linha, uma árvore!
- a casca tão coberta de musgo
num verde de profundo abandono...
Até me livrar delas, das linhas
e das palavras. Até o caminho se livrar.
E no espelho baço dos vidros laminados, não mais.
Se desaparece sem se supor, até mesmo em rabos de olhos.
levo nada na cabeça
Levo uma máquina de retratar
e um caderninho de notas
A cabeça segue inóspita
e não pensa rimas
- palavras não são imãs
são coisa seca como folhas soltas
É uma linha, vinte passos
outra linha, uma árvore!
- a casca tão coberta de musgo
num verde de profundo abandono...
Até me livrar delas, das linhas
e das palavras. Até o caminho se livrar.
E no espelho baço dos vidros laminados, não mais.
Se desaparece sem se supor, até mesmo em rabos de olhos.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Somos todos fingidores
Ainda que a sinceridade seja elevada
Mantemos uma postura alterada
Fingimos que somos justamente
Aquilo que não somos
Fingimos que acreditamos em nossas
Próprias crenças fúteis e banais
Fazemos justamente aquilo
Que não faríamos se fôssemos nós
Mesmos. Fazemos para agradar
O diretor de criação da agência central
Que nada mais cria que mais copia
Fingimos para nós mesmos
Sentimentos guardados
Em baús empoeirados da memória
Fingimos que o amor nunca existiu
Só para contrariar nosso orgulho ferido
E passamos o maior tempo indiferentes
Como nada fosse da nossa conta
Cinicamente calados.
Mantemos uma postura alterada
Fingimos que somos justamente
Aquilo que não somos
Fingimos que acreditamos em nossas
Próprias crenças fúteis e banais
Fazemos justamente aquilo
Que não faríamos se fôssemos nós
Mesmos. Fazemos para agradar
O diretor de criação da agência central
Que nada mais cria que mais copia
Fingimos para nós mesmos
Sentimentos guardados
Em baús empoeirados da memória
Fingimos que o amor nunca existiu
Só para contrariar nosso orgulho ferido
E passamos o maior tempo indiferentes
Como nada fosse da nossa conta
Cinicamente calados.
Sorriso do coringa
Há algo de sinistro naquele rosto
Há algo de sinistro naquele sorriso
Não sei se ri de mim ou de outrem
Se realmente ri
Se se trata de um riso que chora
Uma amargura ácida
De uma vontade contrariada
De um mundo que lhe deu as costas
E por isso ri
Quem sabe ri de sua desgraça
Rir nestas circunstâncias
Muito mais é difícil
Do que chorar.
Há algo de sinistro naquele sorriso
Não sei se ri de mim ou de outrem
Se realmente ri
Se se trata de um riso que chora
Uma amargura ácida
De uma vontade contrariada
De um mundo que lhe deu as costas
E por isso ri
Quem sabe ri de sua desgraça
Rir nestas circunstâncias
Muito mais é difícil
Do que chorar.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Meu último carnaval
Que posso fazer com a velha máscara
De um carnaval que passou
Toda fantasia levada pelas águas
De uma farra de quatro dias.
Se pudesse usar novamente
Diariamente no trabalho e na casa
Se pudesse colocar de vez na cara
Minha máscara de gordo fanfarrão
Nada mais me segurava
De ser feliz em gargalhada
Pelas ruas pelas calçadas
Andar na contramão
Amar a mulher do guarda
Sem medir conseqüências
Cantar todas as árias de uma opereta
Italiana por excelência
Italiana era ela
Minha primeira namorada.
Mas a máscara rasgou após chuvarada
Esfriou em instantes
Meu coração esfriou
Nem posso mais ser feliz.
De um carnaval que passou
Toda fantasia levada pelas águas
De uma farra de quatro dias.
Se pudesse usar novamente
Diariamente no trabalho e na casa
Se pudesse colocar de vez na cara
Minha máscara de gordo fanfarrão
Nada mais me segurava
De ser feliz em gargalhada
Pelas ruas pelas calçadas
Andar na contramão
Amar a mulher do guarda
Sem medir conseqüências
Cantar todas as árias de uma opereta
Italiana por excelência
Italiana era ela
Minha primeira namorada.
Mas a máscara rasgou após chuvarada
Esfriou em instantes
Meu coração esfriou
Nem posso mais ser feliz.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Parque
No parque, ao pé das ramagens,
onde nascem os gerânios e o mal-me-quer,
perto de um laguinho esverdeado, quase morto,
a brisa suave trazia um cheiro adocicado, lento,
cheiro que gente deixou ali na urgência dos dias, bagaço humano.
Por detrás dos cachos do Salgueiro Chorão, que balançavam,
pude ver ainda um corpo agachado
mas não,
nem era sombra,
era apenas a brisa...
onde nascem os gerânios e o mal-me-quer,
perto de um laguinho esverdeado, quase morto,
a brisa suave trazia um cheiro adocicado, lento,
cheiro que gente deixou ali na urgência dos dias, bagaço humano.
Por detrás dos cachos do Salgueiro Chorão, que balançavam,
pude ver ainda um corpo agachado
mas não,
nem era sombra,
era apenas a brisa...
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Contador de estórias
Que posso fazer do que resta
Da melancolia incutida na alma
Pois passei a vida inteira de surdina
Errando pelos campos de batalha.
Queria ser doutor
Fui perdedor.
Queria ser pianista
Não passei no exame final
Tornei-me taxista
De bandeira dois.
Depois maquinista
Foguista de um trem sem destino
Em cuja fornalha ardia
Todos os sortilégios de amor.
Nada mais resta
Do que rir desta vida desvairada
Errada era a condição
De ser boneco articulado
Nos dedos de um palhaço
Controlado por uma máquina
Que de velho está quebrado.
Mas às vezes enganamos aquele
Rabiscando na parede traços e hieróglifos
De uma cultura proibida
Que jaz nas pedras da inconsciência.
Da melancolia incutida na alma
Pois passei a vida inteira de surdina
Errando pelos campos de batalha.
Queria ser doutor
Fui perdedor.
Queria ser pianista
Não passei no exame final
Tornei-me taxista
De bandeira dois.
Depois maquinista
Foguista de um trem sem destino
Em cuja fornalha ardia
Todos os sortilégios de amor.
Nada mais resta
Do que rir desta vida desvairada
Errada era a condição
De ser boneco articulado
Nos dedos de um palhaço
Controlado por uma máquina
Que de velho está quebrado.
Mas às vezes enganamos aquele
Rabiscando na parede traços e hieróglifos
De uma cultura proibida
Que jaz nas pedras da inconsciência.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Ilusões de minha vida
Aos pés de Kannon chorei
Não sei o motivo que tinha
Talvez tristezas passadas
De águas levadas pelos bueiros
De uma existência fútil
Desesperadora e inútil
Que nada mais fazia
Do que ler poesia
E acreditar ainda
Num mundo azul
Como bola de sabão
Subindo em direção
Às lanças de um muro
Em derradeira explosão.
Foi quando vi a meu lado
Kannon que chorava
De minha tola ilusão.
Não sei o motivo que tinha
Talvez tristezas passadas
De águas levadas pelos bueiros
De uma existência fútil
Desesperadora e inútil
Que nada mais fazia
Do que ler poesia
E acreditar ainda
Num mundo azul
Como bola de sabão
Subindo em direção
Às lanças de um muro
Em derradeira explosão.
Foi quando vi a meu lado
Kannon que chorava
De minha tola ilusão.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Ó abre-alas
passei parte da vida aspirando à santidade
outra parte, aspirei à canalhice
hoje, inchado de rinite
sufocado de asma
sou um imbecil
soprado pelo
vento
outra parte, aspirei à canalhice
hoje, inchado de rinite
sufocado de asma
sou um imbecil
soprado pelo
vento
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Batida do sutra
Somente em meu
coração repica
uma batida frenética
de um carnaval que
agora inicia.
Ou será apenas
a batida de meu coração?
A batida de um sutra
que nunca termina
sempre começa.
Será mera ilusão
este carnaval
minha vida também ela.
Mas precisamos
do carnaval
sanar todo o mal
da objetiva apontada
na irrealidade da vida
aceita sem ponderação
absurdamente vivida.
Nada mais real
do que a serpentina.
coração repica
uma batida frenética
de um carnaval que
agora inicia.
Ou será apenas
a batida de meu coração?
A batida de um sutra
que nunca termina
sempre começa.
Será mera ilusão
este carnaval
minha vida também ela.
Mas precisamos
do carnaval
sanar todo o mal
da objetiva apontada
na irrealidade da vida
aceita sem ponderação
absurdamente vivida.
Nada mais real
do que a serpentina.
Como eram lindos meus carnavais
Ao som que ouço de lá fora
É o carnaval chegando.
Quando tira do guarda-roupa
Minha velha fantasia
De tão velha que era
Fora de moda ficou.
Não tenho outra senão esta
Que se preste para alguma coisa
Que preste pelo menos agora
Para num sonho de felicidade
Possa dançar com as andorinhas
Errantes no céu sem medida
Arrastando a sapatilha até
Gastar-se toda ela na avenida.
Mas meus carnavais se foram
Só tenho lembranças
Algumas boas outras más
Retratos empoeirados na
Mala de madeira incrustada
Pedrinhas numa saia de uma
Bailarina solitária que dança.
Nunca mais sairei por ai
Pelos salões das matinês
Da terra onde nasci
Tão distante hoje
Dos amigos que não estão mais
Dos amigos?
Do farmacêutico João Arlindo
Como eram lindos meus carnavais!
É o carnaval chegando.
Quando tira do guarda-roupa
Minha velha fantasia
De tão velha que era
Fora de moda ficou.
Não tenho outra senão esta
Que se preste para alguma coisa
Que preste pelo menos agora
Para num sonho de felicidade
Possa dançar com as andorinhas
Errantes no céu sem medida
Arrastando a sapatilha até
Gastar-se toda ela na avenida.
Mas meus carnavais se foram
Só tenho lembranças
Algumas boas outras más
Retratos empoeirados na
Mala de madeira incrustada
Pedrinhas numa saia de uma
Bailarina solitária que dança.
Nunca mais sairei por ai
Pelos salões das matinês
Da terra onde nasci
Tão distante hoje
Dos amigos que não estão mais
Dos amigos?
Do farmacêutico João Arlindo
Como eram lindos meus carnavais!
Canção do exílio
O capim estala o seu chicote e
as labaredas dançam com o vento
O sol envolve tudo em inevitáveis espinhos de roseiras.
A sombra, como um eu mínimo, mingua e se recolhe sob nossos pés
Caminhamos sobre brasas,
expandimos nossos espaços nessa fornalha.
Com sede e a garganta seca.
Nos pés sandálias de borracha rachadas.
Nossa missão: apagar o fogo,
tratar com o vento e sorrir ao sol.
Cantamos numa língua que não conhecemos
mas cantamos como se apenas um cantasse
O calor nos reúne a tudo.
Os olhos piscam lacrimogêneos
o incenso acre do mato encandecido.
Somos a água que trazemos desde há muito tempo
Como nuvens líquidas o suor brilha em nossa pele
Nossos dentes brancos refletem a luz quase cega do céu
E sorrimos, sim, somos o fogo, a fumaça e o vento
Somos a serpente e o veneno, sim, somos deus, e somos lúcifer.
O capim repica seus tambores
as labaredas dançam e assoviam
as labaredas dançam com o vento
O sol envolve tudo em inevitáveis espinhos de roseiras.
A sombra, como um eu mínimo, mingua e se recolhe sob nossos pés
Caminhamos sobre brasas,
expandimos nossos espaços nessa fornalha.
Com sede e a garganta seca.
Nos pés sandálias de borracha rachadas.
Nossa missão: apagar o fogo,
tratar com o vento e sorrir ao sol.
Cantamos numa língua que não conhecemos
mas cantamos como se apenas um cantasse
O calor nos reúne a tudo.
Os olhos piscam lacrimogêneos
o incenso acre do mato encandecido.
Somos a água que trazemos desde há muito tempo
Como nuvens líquidas o suor brilha em nossa pele
Nossos dentes brancos refletem a luz quase cega do céu
E sorrimos, sim, somos o fogo, a fumaça e o vento
Somos a serpente e o veneno, sim, somos deus, e somos lúcifer.
O capim repica seus tambores
as labaredas dançam e assoviam
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Um mascarado
Rasga essa máscara ótima de seda
E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos..
É noite, e, à noite, há escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo...
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
Augusto dos Anjos
E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos..
É noite, e, à noite, há escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!
Sem que te arranquem da garganta queda
A interjeição danada dos protestos,
Hás de engolir, igual a um porco, os restos
Duma comida horrivelmente azeda!
A sucessão de hebdômadas medonhas
Reduzirá os mundos que tu sonhas
Ao microcosmos do ovo primitivo...
E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,
Terás somente uma vontade cega
E uma tendência obscura de ser vivo!
Augusto dos Anjos
Poemas de Ryokan (1758-1831)
Em meu chapéu de palha
Desperto para ouvir
Despencar do granizo
Rebentando todo
Num bosque de bambu.
-.-
Na vila abaixo
O alarido:
Flauta e tambor.
Nas montanhas profundas
Somente o ruído dos pinheiros.
-.-
Travesseiro de capim
Onde quer que eu vá -
Noites em diferentes paradas
O sonho que sonho é mesmo
Da minha terra natal.
-.-
Não sei por quê
Me deixa desolado -
Em minha porta
Primeiras rajadas do vento outonal
Sussurando entre os talos de arroz.
-.-
Peônias em profusão
Explodindo neste momento
Seus botões refletindo -
Tão belas para se colher
Tão belas para não serem colhidas.
-.-
Ao colher violetas
Pela margem da estrada
Esqueci e deixei
Minha caneca de esmola
Que esmolava por mim.
-.-
Eu me esqueci
Minha caneca de esmola
Não havia quem roubasse?
Não havia quem roubasse?
Minha caneca de esmola.
Desperto para ouvir
Despencar do granizo
Rebentando todo
Num bosque de bambu.
-.-
Na vila abaixo
O alarido:
Flauta e tambor.
Nas montanhas profundas
Somente o ruído dos pinheiros.
-.-
Travesseiro de capim
Onde quer que eu vá -
Noites em diferentes paradas
O sonho que sonho é mesmo
Da minha terra natal.
-.-
Não sei por quê
Me deixa desolado -
Em minha porta
Primeiras rajadas do vento outonal
Sussurando entre os talos de arroz.
-.-
Peônias em profusão
Explodindo neste momento
Seus botões refletindo -
Tão belas para se colher
Tão belas para não serem colhidas.
-.-
Ao colher violetas
Pela margem da estrada
Esqueci e deixei
Minha caneca de esmola
Que esmolava por mim.
-.-
Eu me esqueci
Minha caneca de esmola
Não havia quem roubasse?
Não havia quem roubasse?
Minha caneca de esmola.
Para não ser o outro
Não pelo fato de ser diferente
Nem queremos ser assim
Só queremos ser aquilo que somos
Não aquilo que querem de mim
Nem de você.
Podemos ser pianista
Se isso nos apetecer
Podemos ser poetas
Se há verve de escrever
Pichador de parede
Relojoeiro e cientista
Um pouco de louco
De santo e pecador
Podemos ser.
Mas vem o medo
E preferimos fazer
O que sempre fizemos
Repetindo gestos de sempre
Falando o mesmo de sempre
Sem nada mais de novo
Preferimos ancorar nosso barco
Em porto seguro
Não em porto incerto
Da liberdade de expressão
Queremos a não liberdade
Para ser igual a todos como
Zebras listradas e iguais
Mas que pensa ser cavalos
Desfilando solene tamanha ostentação.
Que vantagem levo
Se fizer isso?
Se não fizer o que ganho
Com isso?
Só quero ganhar...
A mesmice de sempre
Comum como sempre
E sempre continuamos
Iguais como outros iguais.
Nem queremos ser assim
Só queremos ser aquilo que somos
Não aquilo que querem de mim
Nem de você.
Podemos ser pianista
Se isso nos apetecer
Podemos ser poetas
Se há verve de escrever
Pichador de parede
Relojoeiro e cientista
Um pouco de louco
De santo e pecador
Podemos ser.
Mas vem o medo
E preferimos fazer
O que sempre fizemos
Repetindo gestos de sempre
Falando o mesmo de sempre
Sem nada mais de novo
Preferimos ancorar nosso barco
Em porto seguro
Não em porto incerto
Da liberdade de expressão
Queremos a não liberdade
Para ser igual a todos como
Zebras listradas e iguais
Mas que pensa ser cavalos
Desfilando solene tamanha ostentação.
Que vantagem levo
Se fizer isso?
Se não fizer o que ganho
Com isso?
Só quero ganhar...
A mesmice de sempre
Comum como sempre
E sempre continuamos
Iguais como outros iguais.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Maldito Poeta Proscrito!
Maldito é o autor
do que é mau dito
e do mal que é dito.
'Maldito' bendito!
Dizer o mal não-dito
Ignorado
Convenientemente não-visto
Bendito o autor do 'mal' que é dito!
Poeta maldito,
Poeta proscrito!
Falado ou escrito,
Quase bravura pra dizer o mal não-dito!
Falo,
Às vezes provocante como um falo.
Às vezes suave como brisa,
Jeito de gato quando pisa.
Mas aqui (e desde sempre) e em todo lugar
O mal não-dito:
Máscara de bendito.
Escândalo na boca do Maldito Poeta Proscrito.
Por isso prefiro o dito ao não-dito.
Convencional em série, como rito!
Jamais! Jamais 'bendito'!
Crepito, crio atrito, excito e cutuco e transito,
Digo e falo, jamais omito!
Vá lá, que seja maldito meu veredito!
Posso ser maldito,
assim esquisito...
Mas durmo bem.
Só se não falo fico aflito – mas sei bem calar o grito.
Ser maldito! Amor ao 'mal' que jamais é dito:
Só assim ser íntegro e bendito.
do que é mau dito
e do mal que é dito.
'Maldito' bendito!
Dizer o mal não-dito
Ignorado
Convenientemente não-visto
Bendito o autor do 'mal' que é dito!
Poeta maldito,
Poeta proscrito!
Falado ou escrito,
Quase bravura pra dizer o mal não-dito!
Falo,
Às vezes provocante como um falo.
Às vezes suave como brisa,
Jeito de gato quando pisa.
Mas aqui (e desde sempre) e em todo lugar
O mal não-dito:
Máscara de bendito.
Escândalo na boca do Maldito Poeta Proscrito.
Por isso prefiro o dito ao não-dito.
Convencional em série, como rito!
Jamais! Jamais 'bendito'!
Crepito, crio atrito, excito e cutuco e transito,
Digo e falo, jamais omito!
Vá lá, que seja maldito meu veredito!
Posso ser maldito,
assim esquisito...
Mas durmo bem.
Só se não falo fico aflito – mas sei bem calar o grito.
Ser maldito! Amor ao 'mal' que jamais é dito:
Só assim ser íntegro e bendito.
Jogo de amarelinha
Pudesse apostar
Minha vida por um fio
Num jogo de amarelinha
Minha vida daria
Se você ganhasse
Mas se eu ganhasse
Ganharia o teu amor?
Num jogo de amarelinha
Jogo meu destino
Por um amor fugidio
Que na impossibilidade de amar
Quase se tornou frio.
Num jogo de amarelinha
Perdi toda vontade de viver
Pelo amor que perdi.
Num jogo de amarelinha.
Minha vida por um fio
Num jogo de amarelinha
Minha vida daria
Se você ganhasse
Mas se eu ganhasse
Ganharia o teu amor?
Num jogo de amarelinha
Jogo meu destino
Por um amor fugidio
Que na impossibilidade de amar
Quase se tornou frio.
Num jogo de amarelinha
Perdi toda vontade de viver
Pelo amor que perdi.
Num jogo de amarelinha.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Carnaval
Neste carnaval
Faria
Se pudesse faria
Uma fantasia de arlequim
Um chapéu de três pontas
Cair na rua
E beberia todas
Só para viver um dia
A folia de cantar
Asneiras e amar
Num baile de máscaras
A colombina.
Uma vontade da contravenção
De tudo aquilo que é contrário
Aos princípios mais elevados
De um Estado organizado e legal
Em nome dos bons princípios
Da família constituída.
Mas no carnaval colocamos
Outras máscaras de papel crépon
Se não chover
Se fizer tempo bom
A alegria será rainha
Serpentinas e confetes
Nesta vida ilusória
Que pensamos ser
Tão real
Irreal é quarta de cinzas
Quando a cortina se fecha
No palco a colombina
Deixa que se vá
O amor de sua vida.
Faria
Se pudesse faria
Uma fantasia de arlequim
Um chapéu de três pontas
Cair na rua
E beberia todas
Só para viver um dia
A folia de cantar
Asneiras e amar
Num baile de máscaras
A colombina.
Uma vontade da contravenção
De tudo aquilo que é contrário
Aos princípios mais elevados
De um Estado organizado e legal
Em nome dos bons princípios
Da família constituída.
Mas no carnaval colocamos
Outras máscaras de papel crépon
Se não chover
Se fizer tempo bom
A alegria será rainha
Serpentinas e confetes
Nesta vida ilusória
Que pensamos ser
Tão real
Irreal é quarta de cinzas
Quando a cortina se fecha
No palco a colombina
Deixa que se vá
O amor de sua vida.
Sem título
O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.
Maria Alexandre Dáskalos, de Angola, em Poesia Africana de língua portuguesa, Rio, Nova Aguilar,2003.
não podia saber
da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.
Maria Alexandre Dáskalos, de Angola, em Poesia Africana de língua portuguesa, Rio, Nova Aguilar,2003.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Contradições do mundo
Que se pode fazer pelos
Meninos que perambulam
Perdidamente extasiados de morfina
À espera pelas esquinas da
Próxima vítima.
Que se pode fazer pelos
Homens de gravata e maleta
Desfilando toda soberba em destaque
À espera pelas esquinas da
Próxima vítima.
Que se pode fazer pelos
Velhos desiludidos pela vida
Senão esperar a morte chegar
Que chegue de mansinho
Devagarinho sem avisar.
Que se pode fazer pelos
Loucos de amor desenfreado
Senão assumir a sua sina
Malgrado e assassina
De toda acomodação.
Que se pode fazer pelos
Poetas? Para estes nada!
Somente permita que eles
Cantem as dores do mundo
Desencontros cometidos
Em nome da ordem.
Mas o queremos mesmo
É a desordem!
Meninos que perambulam
Perdidamente extasiados de morfina
À espera pelas esquinas da
Próxima vítima.
Que se pode fazer pelos
Homens de gravata e maleta
Desfilando toda soberba em destaque
À espera pelas esquinas da
Próxima vítima.
Que se pode fazer pelos
Velhos desiludidos pela vida
Senão esperar a morte chegar
Que chegue de mansinho
Devagarinho sem avisar.
Que se pode fazer pelos
Loucos de amor desenfreado
Senão assumir a sua sina
Malgrado e assassina
De toda acomodação.
Que se pode fazer pelos
Poetas? Para estes nada!
Somente permita que eles
Cantem as dores do mundo
Desencontros cometidos
Em nome da ordem.
Mas o queremos mesmo
É a desordem!
Pêssegos

Salve, nobre pessegueiro
de fruto doce, graúdo, cheio
suculento e adocicado
Em teu sumo, me babo
mordo, chupo, me acabo
boca aberta, olhar vidrado...
Macio, agreste, carnudo,
escorrendo, nos lábios desnudo
dedos, queixo, nariz molhado
Nada como um fruto maduro,
um pêssego tenro, provado no escuro
levemente aveludado...
Espero a propícia estação...
o fruto na boca, doce reação:
satisfeito, sorrindo babado.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
'Quem é você'? Oras...
Eu sou o fogo que consome
O calor que envolve
O suor que desce em você
Sou o calafrio que sobe
O ar que do peito foge
O orgasmo em você...
O calor que envolve
O suor que desce em você
Sou o calafrio que sobe
O ar que do peito foge
O orgasmo em você...
sem título
A chuva parou.
Meus olhos buscam em vão
Um arco-íris.
A chuva parou.
Uma samambaia brota
Do velho muro.
A chuva parou.
O marimbondo na porta
Já pode partir.
Meus olhos buscam em vão
Um arco-íris.
A chuva parou.
Uma samambaia brota
Do velho muro.
A chuva parou.
O marimbondo na porta
Já pode partir.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Fresca chuva de verão
Solenemente a chuva de verão
Repica de encontro ao vidro
E fico apenas a observar
O murmúrio das mulheres que choram
Pelo retorno de seus amores
Arrancados de seus lares
Quem sabe por outro amor
Forasteiro que ligeiro se foi.
Se toda esta água pudesse lavar
A alma impura de tanto ralhar
Mas nada pode fazer
Diante de tamanha força da razão
Que não aceita comiseração
Pelo amor que foi errado
Amar por perdição
Somente se ama para perder
Melhor dito que a maldição
De amar novamente.
Ainda que venha sofrer
Um amor não correspondido
Um amor renegado
Um amor não merecido
Melhor sofrer do que
Nunca ter amado.
Seja ela viúva, casada ou
Desquitada
Seja ela mãe de santo
Seja ela santo da mãe
Quando o amor aparece
Nenhum título importa
Marquesa pode ser
Manda-chuva pode ser
Ser cega de um olho
De perna de pau
De pele encardida
Marcada e mordida
Maldita hora que te conheci.
Repica de encontro ao vidro
E fico apenas a observar
O murmúrio das mulheres que choram
Pelo retorno de seus amores
Arrancados de seus lares
Quem sabe por outro amor
Forasteiro que ligeiro se foi.
Se toda esta água pudesse lavar
A alma impura de tanto ralhar
Mas nada pode fazer
Diante de tamanha força da razão
Que não aceita comiseração
Pelo amor que foi errado
Amar por perdição
Somente se ama para perder
Melhor dito que a maldição
De amar novamente.
Ainda que venha sofrer
Um amor não correspondido
Um amor renegado
Um amor não merecido
Melhor sofrer do que
Nunca ter amado.
Seja ela viúva, casada ou
Desquitada
Seja ela mãe de santo
Seja ela santo da mãe
Quando o amor aparece
Nenhum título importa
Marquesa pode ser
Manda-chuva pode ser
Ser cega de um olho
De perna de pau
De pele encardida
Marcada e mordida
Maldita hora que te conheci.
Vai
Quando o Souza de casa saia
sua mulher sempre falava:
- Vai com Deus - e ele ia,
ao trabalho não faltava.
Quando era a mulher que saia
toda vez ela falava:
- Souza, fica com Deus.
E o Souza em companhia ficava
Mas no domingo lá na praça
Estouravam fogos pro futebol
Ninguém viu, foi tão rápida a desgraça
A criançada na gritaria nem cismava
Não deu tempo, foi tão rápido, o Souza
com a mão no peito caiu, morreu.
E ninguém disse: Souza, vai com Deus.
sua mulher sempre falava:
- Vai com Deus - e ele ia,
ao trabalho não faltava.
Quando era a mulher que saia
toda vez ela falava:
- Souza, fica com Deus.
E o Souza em companhia ficava
Mas no domingo lá na praça
Estouravam fogos pro futebol
Ninguém viu, foi tão rápida a desgraça
A criançada na gritaria nem cismava
Não deu tempo, foi tão rápido, o Souza
com a mão no peito caiu, morreu.
E ninguém disse: Souza, vai com Deus.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Conforma-te, e acostuma
Beijos de despedida
São salgados
Demorados, são uma vida
No adeus dos separados
Num momento,
Um morno abraço
O inexorável que precede
O frio vazio, o espaço
Vem dos olhos para os lábios
Da despedida a vil questão:
Por quê, Amor, que tu nos tira
Quase inteiro o coração?
E então quem antes
Dav' um abraço
Mal tem forças
Num adeus, erguer o braço
O calor que a mão antes sentiu
Agora sente e ouve o vento frio
"Conforme-te e acostuma!..."
Nesse olhar que diz adeus
Em silêncio, não há alegria
Mas um'alma clamando a Deus
Na dor da morte da agonia
Os mil momentos de ternura
Que empregaram lado a lado
Piscar de olhos
Frente a um adeus tão demorado..
E então olhando para o sol
Num lindo dia de Primavera
Vê que ele reflete
A beleza que é só dela
Amor de amada e de amante
Em teu adeus, na despedida
Sentou ao trono, em mim, reinante
A Tristeza - sempre só - em minha vida
Meu coração é teu, somente teu
Como ao mar pertence a escuma
E o vento frio me repetia:
"Conforma-te e acostuma!..."
São salgados
Demorados, são uma vida
No adeus dos separados
Num momento,
Um morno abraço
O inexorável que precede
O frio vazio, o espaço
Vem dos olhos para os lábios
Da despedida a vil questão:
Por quê, Amor, que tu nos tira
Quase inteiro o coração?
E então quem antes
Dav' um abraço
Mal tem forças
Num adeus, erguer o braço
O calor que a mão antes sentiu
Agora sente e ouve o vento frio
"Conforme-te e acostuma!..."
Nesse olhar que diz adeus
Em silêncio, não há alegria
Mas um'alma clamando a Deus
Na dor da morte da agonia
Os mil momentos de ternura
Que empregaram lado a lado
Piscar de olhos
Frente a um adeus tão demorado..
E então olhando para o sol
Num lindo dia de Primavera
Vê que ele reflete
A beleza que é só dela
Amor de amada e de amante
Em teu adeus, na despedida
Sentou ao trono, em mim, reinante
A Tristeza - sempre só - em minha vida
Meu coração é teu, somente teu
Como ao mar pertence a escuma
E o vento frio me repetia:
"Conforma-te e acostuma!..."
domingo, 31 de janeiro de 2010
Louvor a Santa Misericórdia
Oro pela santa
Santa Misericórdia
Que a nós acuda
Nestes momentos atrozes
De falta de ânimo
Do amigo que se foi
Do tempo que se foi
Do amor que ficou
Envelhecido demais.
Se tivesse cura para desatino
Se precisasse tomaria todo o
Atlântico de uma só vez.
Mas o que preciso
É que ficou perdido
A agulha da bússola
Na travessia do Equador.
Sem rumo certo
O que me leva direto
Ao vôo livre da imaginação
De um salto sem regresso
É sol em insolação.
Por isso peço
Santa Misericórdia
Não permita que este
Filho de mãe parida
Perca-se nesta vida inútil
E bem vivida
E de trilhas não abertas!
Santa Misericórdia
Que a nós acuda
Nestes momentos atrozes
De falta de ânimo
Do amigo que se foi
Do tempo que se foi
Do amor que ficou
Envelhecido demais.
Se tivesse cura para desatino
Se precisasse tomaria todo o
Atlântico de uma só vez.
Mas o que preciso
É que ficou perdido
A agulha da bússola
Na travessia do Equador.
Sem rumo certo
O que me leva direto
Ao vôo livre da imaginação
De um salto sem regresso
É sol em insolação.
Por isso peço
Santa Misericórdia
Não permita que este
Filho de mãe parida
Perca-se nesta vida inútil
E bem vivida
E de trilhas não abertas!
Um palhaço que ficou sem graça
Quando um incômodo nos assalta
A alma, o que podemos fazer
Além de rir das representações
De nossa vida cotidiana.
Somos palhaços quando queremos
Ser sérios.
E escorregamos nas cascas de banana
Atiradas do alto do edifício.
E escorregamos nas palavras
Empoladas que desconhecemos o sentido.
Mas mesmo assim, continuamos representando:
Um dia fui Zé
Mas Zé não existia?
Um dia fui Altair
Mas Altair não existia?
Fui jogador de futebol, de beisebol, de handebol
Fui pequeno e grande, tolo e inconseqüente.
Fui padre, o pastor, o santo e o demônio.
Fui artista de circo, sim senhor.
Fui acima de tudo palhaço
Que mudava de cara:
Arrelia, Pimentinha, Carequinha, Chicharrão.
Um dia resolvi tirar a pintura
Vi pela primeira vez minha cara
Que cara sem graça.
Sem pintura, sem nada.
Igual a tantas outras caras.
Percebi que tinha a cara do mundo.
Que pode ser tudo.
Pode ser nada.
E ri pela primeira vez
De minha vã filosofia.
Não tenho nome
Nem qualificação
Sou aquilo que quiserem que seja
Sou água
Sou pedra
Sou a vida
Sou a morte
Sou a palavra na boca dos desvairados.
O que podemos ainda ser
Se dos palhaços ninguém mais ri
O que resta do palhaço
Em sua calça balão?.
A alma, o que podemos fazer
Além de rir das representações
De nossa vida cotidiana.
Somos palhaços quando queremos
Ser sérios.
E escorregamos nas cascas de banana
Atiradas do alto do edifício.
E escorregamos nas palavras
Empoladas que desconhecemos o sentido.
Mas mesmo assim, continuamos representando:
Um dia fui Zé
Mas Zé não existia?
Um dia fui Altair
Mas Altair não existia?
Fui jogador de futebol, de beisebol, de handebol
Fui pequeno e grande, tolo e inconseqüente.
Fui padre, o pastor, o santo e o demônio.
Fui artista de circo, sim senhor.
Fui acima de tudo palhaço
Que mudava de cara:
Arrelia, Pimentinha, Carequinha, Chicharrão.
Um dia resolvi tirar a pintura
Vi pela primeira vez minha cara
Que cara sem graça.
Sem pintura, sem nada.
Igual a tantas outras caras.
Percebi que tinha a cara do mundo.
Que pode ser tudo.
Pode ser nada.
E ri pela primeira vez
De minha vã filosofia.
Não tenho nome
Nem qualificação
Sou aquilo que quiserem que seja
Sou água
Sou pedra
Sou a vida
Sou a morte
Sou a palavra na boca dos desvairados.
O que podemos ainda ser
Se dos palhaços ninguém mais ri
O que resta do palhaço
Em sua calça balão?.
Vida

Vida vivida
Não é vida perdida
Vida perdida
É vida sofrida...
Vida arrastada
Mole, abatida.
Vida vivida
Euforia da ida
Vida perdida
Vida fedida
Vida sofrida
Que mórbida vida!
Quem vive a vida
Não sente a ferida
Que arde, doída
No fundo da vida
Deus que me livre
Da vida fedida
Da vida perdida
Da vida fodida
De toda não-vida.
Soprava o vento pela fresta

Soprava o vento pela fresta
A menina comia nêspera
Antes de dar em segredo
O níveo corpo ao folguedo:
Mas antes provou ter tato
Pois só o queria nu no ato
Um corpo bom como um figo
Não se vai foder vestido.
Para ela em tempo de ais
Nunca o gozo era demais.
Lavava-se bem depois:
Nunca o carro antes do bois
Bertolt Brecht
Ilustração: Pablo Picasso
sábado, 30 de janeiro de 2010
Sem dono
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Alma submersa
Em instantes chega perto
Acariciando a fronte que sua
Cálida mão do vento e enxuga
Inquietações que afloram
De um pântano que não suporta
Todas as rãs num tom só
A coaxar desesperadamente.
Outrora deste mesmo tanque
Batráquios faziam a festa
Mergulhando suas caras
Ao fundo no barro caldaloso
Ao fundo fugindo da luz da lua
Que refletia entrecortada ela.
Por um longo tempo cessaram
As vozes, todos os saltos e quedas
Sensacionais que eram no passado.
Mas não se pode fugir simplesmente
E a mente novamente em explosão.
Quando o corpo definha mais forte
Fica aquela
E novamente surgem mostrando
Olhos, olhos esbugalhados de espanto
À noite coberta de estrelas argentinas
Ofuscando no horizonte infinito.
Houve um momento
Que compunha por ingenuidade.
Perdida esta uma vez
Componho apenas
Pela crença da
Ingenuidade que não se perde
Jamais.
Acariciando a fronte que sua
Cálida mão do vento e enxuga
Inquietações que afloram
De um pântano que não suporta
Todas as rãs num tom só
A coaxar desesperadamente.
Outrora deste mesmo tanque
Batráquios faziam a festa
Mergulhando suas caras
Ao fundo no barro caldaloso
Ao fundo fugindo da luz da lua
Que refletia entrecortada ela.
Por um longo tempo cessaram
As vozes, todos os saltos e quedas
Sensacionais que eram no passado.
Mas não se pode fugir simplesmente
E a mente novamente em explosão.
Quando o corpo definha mais forte
Fica aquela
E novamente surgem mostrando
Olhos, olhos esbugalhados de espanto
À noite coberta de estrelas argentinas
Ofuscando no horizonte infinito.
Houve um momento
Que compunha por ingenuidade.
Perdida esta uma vez
Componho apenas
Pela crença da
Ingenuidade que não se perde
Jamais.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Caneca de sabão
Uma caneca de sabão
Pode ser qualquer outra coisa
Ser aquilo que jamais se pensou
Que fosse.
Fosse uma nuvem carregada
De eletricidade.
Fosse uma garça branca
Estendendo asas.
Só não precisaria
Ser o que o senso comum
Convencionou que fosse.
Uma caneca de sabão.
Pode ser qualquer outra coisa
Ser aquilo que jamais se pensou
Que fosse.
Fosse uma nuvem carregada
De eletricidade.
Fosse uma garça branca
Estendendo asas.
Só não precisaria
Ser o que o senso comum
Convencionou que fosse.
Uma caneca de sabão.
Fuga
Vou fugir de casa, bater em retirada
Ou queima-la, ao som de Bach, metido num kimono
como fez Tarkovsky em O Sacrifício
Vou, com todos o bichos e plantas, e tudo mais
perambular no abandono, abandono sem fim...
Vou andar de quatro por aí a cheirar frestas
Saltitar em pernas magrelas a favor do vento em busca
de migalhas fujonas,
mijar nos muros caiados e abanar a calda para o
primeiro que se aproximar.
E olhar de lado só porquê é assim que sei, só.
Evacuar enquanto sorrio para ti, depois de rodopiar
de colo em colo com minha grande fralda branca
Babar banguela com os olhos vidrados num patinho de borracha
e saltar de banda, como elástico, com meu corpo de pelo raiado.
Tenho ainda o firme propósito de seguir o caminho dos meios-fios
de São Paulo, até onde eles derem, até o fim, fim do fim
Mas eu sei, eu sei, vou ter que voltar
Como aquele que desistiu do suicídio porquê era a hora da janta
e então encontrou a esposa em casa, a sua espera,
com uma bela sopa de aspargos.
Depois de tudo e de todas as aventuras no caminho
sempre há esse retorno à casa, sempre
Seja qual for a forma ou a cor do percurso
No meio das linhas curvas há sempre pontinhos
e esses pontinhos são as vezes que tive que voltar para casa. Paciência.
Ou queima-la, ao som de Bach, metido num kimono
como fez Tarkovsky em O Sacrifício
Vou, com todos o bichos e plantas, e tudo mais
perambular no abandono, abandono sem fim...
Vou andar de quatro por aí a cheirar frestas
Saltitar em pernas magrelas a favor do vento em busca
de migalhas fujonas,
mijar nos muros caiados e abanar a calda para o
primeiro que se aproximar.
E olhar de lado só porquê é assim que sei, só.
Evacuar enquanto sorrio para ti, depois de rodopiar
de colo em colo com minha grande fralda branca
Babar banguela com os olhos vidrados num patinho de borracha
e saltar de banda, como elástico, com meu corpo de pelo raiado.
Tenho ainda o firme propósito de seguir o caminho dos meios-fios
de São Paulo, até onde eles derem, até o fim, fim do fim
Mas eu sei, eu sei, vou ter que voltar
Como aquele que desistiu do suicídio porquê era a hora da janta
e então encontrou a esposa em casa, a sua espera,
com uma bela sopa de aspargos.
Depois de tudo e de todas as aventuras no caminho
sempre há esse retorno à casa, sempre
Seja qual for a forma ou a cor do percurso
No meio das linhas curvas há sempre pontinhos
e esses pontinhos são as vezes que tive que voltar para casa. Paciência.
Cafezinho
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Oração ao Haiti
Ai, que havia alí no Haiti
De suas mulheres negras
Que choram agora seus
Maridos que pereceram
Filhos que se foram
Carregados pela asa do vento.
Num tremor avassalador
Corações que tremeram
De horror
Da natureza se revoltando
Por alguns segundos
Poucos segundos
Foram suficientes...
Daquela terra de vudu
Nada resta mais
Do que orar pelos vivos!
De suas mulheres negras
Que choram agora seus
Maridos que pereceram
Filhos que se foram
Carregados pela asa do vento.
Num tremor avassalador
Corações que tremeram
De horror
Da natureza se revoltando
Por alguns segundos
Poucos segundos
Foram suficientes...
Daquela terra de vudu
Nada resta mais
Do que orar pelos vivos!
Ser vulcânico sou
Penetro fundo sua essência
Penetro pelas ventas que sopram
Fumaças negras vaporosas
De uma lava incandescente
Que queima arde e machuca
Lambe a ferida mal curada
Da última batalha dada
Aquiles com total selvageria
Queria raptar a mulher que amava
Se milhões matasse nada faria
A tropa armada de lança e espada.
- Queimando em febre insana
Ser vulcânico sou.
Alimento-me dos sonhos
Desses estranhos estrangeiros
Que foram distantes
Distantes e próximos.
Em viagens em que perdi
Minha alma se existia uma
E ganhar a liberdade
E errante avançar sem medo algum
Sem medo de errar
Minha vida errante
Por caminhos novos
Que somente meus pés caminham
Sem calçado sem sandálias
Toda a eternidade sem se deter
Pois sou o silêncio na boca dos mágicos.
- Queimando em febre insana
Ser vulcânico sou.
Penetro pelas ventas que sopram
Fumaças negras vaporosas
De uma lava incandescente
Que queima arde e machuca
Lambe a ferida mal curada
Da última batalha dada
Aquiles com total selvageria
Queria raptar a mulher que amava
Se milhões matasse nada faria
A tropa armada de lança e espada.
- Queimando em febre insana
Ser vulcânico sou.
Alimento-me dos sonhos
Desses estranhos estrangeiros
Que foram distantes
Distantes e próximos.
Em viagens em que perdi
Minha alma se existia uma
E ganhar a liberdade
E errante avançar sem medo algum
Sem medo de errar
Minha vida errante
Por caminhos novos
Que somente meus pés caminham
Sem calçado sem sandálias
Toda a eternidade sem se deter
Pois sou o silêncio na boca dos mágicos.
- Queimando em febre insana
Ser vulcânico sou.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Seres da noite
Por detrás de toda insensibilidade
Que pode ser mais insensível
Do que domar os demônios
Que moram em meus olhos
Sem forças que serão deles?
Sem força que será de mim?
Não se trata disso
Muito mais aquilo que disse
Uma sombra sinistra que visita
Silenciosamente minhas noites
- Não vá na contra-mão
Não resista ao acalanto suave
Daqueles que habitam
Os poros da transpiração.
Que pode ser mais insensível
Do que domar os demônios
Que moram em meus olhos
Sem forças que serão deles?
Sem força que será de mim?
Não se trata disso
Muito mais aquilo que disse
Uma sombra sinistra que visita
Silenciosamente minhas noites
- Não vá na contra-mão
Não resista ao acalanto suave
Daqueles que habitam
Os poros da transpiração.
Cães
Poesia Maldita
Do movimento incessante das coisas sob as coisas. Sempre possível mais abaixo e ainda mais abaixo. De coisas sobre coisas, em camadas vítreas. Porque não? Toda a verdade: non-stop.
Ainda que aceita toda a moral, todo o medo. Muito além de qualquer forma estabelecida, petrificada, líquida ou pastosa. Saber nenhum outro que desconheça o movimento incessante do sangue e da linfa, da carne e dos sucos por detrás das armaduras, e é como dizer: se espalhando sobre as camisas branquíssimas de botão, cabelos grisalhos, cílios postiços e mundos cor-de-rosa. Íntimo por não saber. Inseparável sem escolha, de ácaros e de seres miseráveis, tão belos como embriões de Helicônias atlânticas e mesmo de seres como nós.
Com deboche, sem deboche, com cinismo, sem cinismo. Ir mais. Coragem suficiente para o olho (puro) que desliza em camadas cada vez mais finas sobre outras finas camadas. Tudo se igualando e igualmente ficando sem nome, e por osmose, em estrita comunicação, sendo o movimento a expressão máxima e mínima, a verdade: caos-imaculado - de onde emerge o olho do umbigo e acende o um de todos.
Ainda que aceita toda a moral, todo o medo. Muito além de qualquer forma estabelecida, petrificada, líquida ou pastosa. Saber nenhum outro que desconheça o movimento incessante do sangue e da linfa, da carne e dos sucos por detrás das armaduras, e é como dizer: se espalhando sobre as camisas branquíssimas de botão, cabelos grisalhos, cílios postiços e mundos cor-de-rosa. Íntimo por não saber. Inseparável sem escolha, de ácaros e de seres miseráveis, tão belos como embriões de Helicônias atlânticas e mesmo de seres como nós.
Com deboche, sem deboche, com cinismo, sem cinismo. Ir mais. Coragem suficiente para o olho (puro) que desliza em camadas cada vez mais finas sobre outras finas camadas. Tudo se igualando e igualmente ficando sem nome, e por osmose, em estrita comunicação, sendo o movimento a expressão máxima e mínima, a verdade: caos-imaculado - de onde emerge o olho do umbigo e acende o um de todos.
Quem é o poeta?
No entanto, o que constitui o poeta é precisamente o fato de suprimir em si próprio tudo o que lembra um mundo artificial, de saber novamente produzir em si mesmo a natureza em sua simplicidade original. Mas se fez isso, também está livre de todas as leis mediante as quais um coração desencaminhado se protege contra si mesmo. É puro, inocente, e o que é permitido à natureza inocente, também o é para ele; se tu que o lês ou ouves já não és imaculado e nem podes sê-lo sequer momentaneamente mediante sua presença purificadora, a infelicidade é tua, não dele; deixa-o, pois, não cantou para ti.
Poesia Ingênua e Sentimental, de Friedrich Schiller.
Poesia Ingênua e Sentimental, de Friedrich Schiller.
Difusão do Conhecimento Inútil
Ouvimos falar de uma Sociedade pela Difusão do Conhecimento Útil. Afirma-se que o conhecimento é poder, e coisas do gênero. Eu acho que existe uma igual necessidade de uma Sociedade pela Difusão da Ignorância Útil, o que chamaremos de belo conhecimento, um conhecimento útil num sentido mais elevado: pois o que é a maior parte do nosso tão vangloriado conhecimento, assim chamado, senão uma presunção de que conhecemos algo, que nos rouba da vantagem de nossa ignorância de fato? O que chamamos de conhecimento é geralmente a nossa ignorância positiva; a ignorância, o nosso conhecimento negativo.
De H.D. Thoreau, em Caminhando.
De H.D. Thoreau, em Caminhando.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Falhar melhor
Em diante. Dizer em diante. Ser dito em diante. Dalgum modo em diante. Até de modo nenhum em diante. Dito de modo nenhum em diante.
Dizer por ser dito. Desdito. De ora em diante dizer por ser desdito.
Dizer um corpo. Onde nehum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Mover-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Parado.
Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.
(...)
--
On. Say on. Be said on. Somehow on. Till nohow on. Said nohow on.
Say for be said. Missaid. From now say for be missaid.
Say a body. Where none. No mind. Where none. That at least. A place. Where none. For the body. To be in. Move in. Out of. Back into. No. No out. No back. Only in. Stay in. On in. Still.
All of old. Nothing else ever. Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
(...)
trecho do livro "Pioravante Marche", de Samuel Beckett
Dizer por ser dito. Desdito. De ora em diante dizer por ser desdito.
Dizer um corpo. Onde nehum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Mover-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Parado.
Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.
(...)
--
On. Say on. Be said on. Somehow on. Till nohow on. Said nohow on.
Say for be said. Missaid. From now say for be missaid.
Say a body. Where none. No mind. Where none. That at least. A place. Where none. For the body. To be in. Move in. Out of. Back into. No. No out. No back. Only in. Stay in. On in. Still.
All of old. Nothing else ever. Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.
(...)
trecho do livro "Pioravante Marche", de Samuel Beckett
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Poesia Maldita
Talvez possamos recuperar este termo, no contexto atual, como sendo aquilo que não cabe mais no senso comum, entretanto faz parte do mundo, da cultura e da sociedade, isento de princípios morais institucionalizados. Ao contrário, maldito é o que aparenta imoralidade, pois contraria as convenções para revelar uma verdade subterrânea. Maldito liga-se à vida, no seu sentido visceral, baixo corporal, dos suores e gemidos, da dor diante da irrealidade do mundo sem valor algum, senão a da utilidade temporal de corpos e almas.
Num mundo cada vez mais desencantado, a prosa acabou sobrepujando-se ao verso, por isso a poesia desapareceu. Não que seja desta forma, a poesia está presente no delírio dos loucos e vagabundos, na esperança dos utópicos, no sonho dos românticos, na espiritualidade dos místicos e profetas. Outrora a poesia servia como encantamento, na transformação do mundo e do espírito. Curativo era. Um maldito acredita no poder curativo da palavra a fim de exorcizar o universo através da ironia fina, da ingenuidade reveladora, enfim da poesia nascida pela necessidade de expressão.
Jisho
Num mundo cada vez mais desencantado, a prosa acabou sobrepujando-se ao verso, por isso a poesia desapareceu. Não que seja desta forma, a poesia está presente no delírio dos loucos e vagabundos, na esperança dos utópicos, no sonho dos românticos, na espiritualidade dos místicos e profetas. Outrora a poesia servia como encantamento, na transformação do mundo e do espírito. Curativo era. Um maldito acredita no poder curativo da palavra a fim de exorcizar o universo através da ironia fina, da ingenuidade reveladora, enfim da poesia nascida pela necessidade de expressão.
Jisho
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Contemplação da Lua
Acontece neste mês, dia 30, às 19hs, no Templo Busshinji, o encontro de haicaístas a fim de contemplar a lua, evento anual que comemora o aparecimento da primeira lua cheia de outono. No ensejo, nos primeiros 30 minutos, os participantes apreciam a lua e compõem haicais. Depois, reúnem-se e apreciam o trabalho dos outros, e escolhem o de sua preferência. Mais tarde, pode-se saber o haicai mais votado, bem como o autor que teve o melhor desempenho.
Evento que acontece anualmente no local, com o patrocínio do Templo Busshinji e do Grêmio Haicai Ipê. Aberto a todos, pede-se trazer papel e caneta. A única condição é que se componha haicai, cujo termo de estação (Kigo) seja justamente a lua cheia de outono.
Templo Busshinji: rua São Joaquim, 285, Liberdade - próximo à Estação de metrô São Joaquim.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Concurso de Haiku Nenpuku Sato
O Jornal Memai está realizando o Concurso de Haiku Nenpuku Sato. As regras são as tradicionais, como métrica 5/7/5 e a utilização do kigô (palavra de estação). Aqueles que desejarem participar, podem fazê-lo até 1 de maio do corrente. Maiores informações veja www.jornalmemai.com.br
Feira de Livros
Acontece a III Feira de Livros da Escola de Artes, Ciências e Humanidades – EACH – USP, nos dias 13, 14 e 15 de abril, das 9 às 21hs no vão livre dos auditórios e da biblioteca do campus USP Leste. Mais de 70 editoras se farão presentes, com vendas bem abaixo do preço de mercado, chegando a 50% de desconto. Entre os participantes estão a Edusp, Editora da Unesp, Martins Fontes, Editora 34, Paz e Terra, Imprensa Oficial, Papirus, Cosac Naify e Hucitec.
Para se chegar ao local, tomar o metrô e descer na Estação Brás; de lá fazer a conexão de trem CPTM para Calmon Vianna, conhecida também por linha Safira. Menos de 15 minutos depois do embarque no Brás chegará à Estação USP Leste. Da estação pode-se ver onde localiza-se a feira.
Para se chegar ao local, tomar o metrô e descer na Estação Brás; de lá fazer a conexão de trem CPTM para Calmon Vianna, conhecida também por linha Safira. Menos de 15 minutos depois do embarque no Brás chegará à Estação USP Leste. Da estação pode-se ver onde localiza-se a feira.
Assinar:
Postagens (Atom)








