Hoje, com meus cabelos brancos, sei do tempo que passa
e que não quero deixar deixar passar.
Viver o que não vivi, ser o que não fui
Amar quem deixei de amar.
Tudo por uma única vontade,
daquela época de garoto,
que não sabia do tempo que passava
e que queria deixar passar.
domingo, 14 de outubro de 2012
Uma vida a fio
Alguns fazem planos
A respeito de suas vidas
Abaixo dos panos
Nenhum plano
Faço
Para os próximos 5 minutos.
A respeito de suas vidas
Abaixo dos panos
Nenhum plano
Faço
Para os próximos 5 minutos.
As duas vidas cruzadas
São muitos os amores
Que cruzaram minha vida
Uma se chama Losartan
A outra Narcaricina
Pensei um dia
Abandoná-las
Pensei
E minha vida não seria
A mesma
Se depender de mim
Nunca ficarão longe de mim
Se depender delas
Nunca ficarei sem elas.
Que cruzaram minha vida
Uma se chama Losartan
A outra Narcaricina
Pensei um dia
Abandoná-las
Pensei
E minha vida não seria
A mesma
Se depender de mim
Nunca ficarão longe de mim
Se depender delas
Nunca ficarei sem elas.
domingo, 30 de setembro de 2012
Tufando
Em casa, o silêncio solitário
É quebrado apenas pelos gritos agudos do vendaval
E a violenta dança das árvores a segui-lo.
A chuva chega em golpes surdos chacoalhando as janelas.
Ah, o desconforto da vulnerabilidade!
Hoje, a noite é de Lua cheia
Mas, lá fora, apenas a escuridão.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
O poeta
Adrenalina do poeta é andar na corda bamba
da realidade à irrealidade,
confundindo os nós que grudam as pontas
de pequenos fios singelos,
tecidos à mão em dia e noite
e retirados das vidas
que se esfacelam diante de seus olhos
impotentes em ação
potentes em suposição
camuflados numa caneta
e recheados duma vontade
de não ter que andar numa corda bamba.
da realidade à irrealidade,
confundindo os nós que grudam as pontas
de pequenos fios singelos,
tecidos à mão em dia e noite
e retirados das vidas
que se esfacelam diante de seus olhos
impotentes em ação
potentes em suposição
camuflados numa caneta
e recheados duma vontade
de não ter que andar numa corda bamba.
O poeta não escolhe
a não ser o pé que vai a frente.
sob o abismo da realidade nua
crua e cozida das dores e dos desamores.
a não ser o pé que vai a frente.
sob o abismo da realidade nua
crua e cozida das dores e dos desamores.
O poeta apenas anda,
na corda bamba
dos fios de sua própria vida
na corda bamba
dos fios de sua própria vida
Que saudades que tive
Que saudades que tive
da sua presença sublime,
de seu toque agraciador
em todos aqueles que necessitam
dum aconchego ligeiro.
Acalma os calores e traz a vida
Que saudades que tive
da chuva de primavera.
da sua presença sublime,
de seu toque agraciador
em todos aqueles que necessitam
dum aconchego ligeiro.
Acalma os calores e traz a vida
Que saudades que tive
da chuva de primavera.
Sopro de gaita
É pelo sopro de uma gaita
que ele suspira a avida.
Em Dó entoa as músicas
que cantam os versos, imemoráveis,
De amores, desamores e não tão amores assim.
Uma pequena gaita prateada
que cabe num bolso,
esquece num só sopro
e muda uma história.
que ele suspira a avida.
Em Dó entoa as músicas
que cantam os versos, imemoráveis,
De amores, desamores e não tão amores assim.
Uma pequena gaita prateada
que cabe num bolso,
esquece num só sopro
e muda uma história.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Mais um
Apenas um
mais
Nessa
corrente sem fim
Sem começo,
nem fim.
E sem
começo nem fim,
Quanto vale
um?
Quanto
valem cem?
Quanto
valem mil?
Vale apenas
um mais
Que no fim
nada vale de mais
Vale apenas
um
Apenas um e
nada mais.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Mil
Mil
não um, nem dois... Mil
Um, zero, zero e zero, que é diferente de
zero, zero, zero e um.
milésimo poema deste blog.
não um, nem dois... Mil
Um, zero, zero e zero, que é diferente de
zero, zero, zero e um.
milésimo poema deste blog.
Kannon sama
Como me mover diante desta compaixão?
Deste grande coração que indiscriminadamente tudo envolve?
Deste grande coração que indiscriminadamente tudo envolve?
Até minha cegueira desordenada,
calibrada no auto-realizar,
duvidosa e cheia de dúvidas.
Alimentada por uma avalanche
sinestésica informada em sociedade.
calibrada no auto-realizar,
duvidosa e cheia de dúvidas.
Alimentada por uma avalanche
sinestésica informada em sociedade.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Rama seca
A rama seca
Ali, à espera das águas de uma primavera inalcançável,
sustentada pela terra, agora quebradiça
e empedrada pelos veios de uma cidade já morta.
Ali, à espera das águas de uma primavera inalcançável,
sustentada pela terra, agora quebradiça
e empedrada pelos veios de uma cidade já morta.
Ah, rama!
És a única vida ali vivendo,
entregue ao movimento dos ventos.
Debaixo d'um céu azul,
não orando, mas sim esperando, apenas,
Que a água volte ao seu útero.
És a única vida ali vivendo,
entregue ao movimento dos ventos.
Debaixo d'um céu azul,
não orando, mas sim esperando, apenas,
Que a água volte ao seu útero.
De pássaros e gatos
Há pássaros que não ficam em gaiolas.
Por mais que o homem pense o contrário,
alguns destes animais foram feitos para voar.
Despreocupados da chuva, do Sol,
do contra-vento e dos gatos.
Por mais que o homem pense o contrário,
alguns destes animais foram feitos para voar.
Despreocupados da chuva, do Sol,
do contra-vento e dos gatos.
Ora, os gatos são bonitos!
Quem dera, assim como me alimentei,
alimentar o gato
da forma naturalmente mais bonita!
Quem dera, assim como me alimentei,
alimentar o gato
da forma naturalmente mais bonita!
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Quando o vento sopra
Descanso minha alma
Que alquebrado plana
Acima dos capins macerados
Pelo sol que amarela
A tarde desaparecendo.
Uma brisa que fresca
Sopra acalma neste instante
Todos os meus tormentos.
Quero ser também o vento
A levantar torvelinhos
Pelos caminhos não andados
Por qualquer pensamento.
Que alquebrado plana
Acima dos capins macerados
Pelo sol que amarela
A tarde desaparecendo.
Uma brisa que fresca
Sopra acalma neste instante
Todos os meus tormentos.
Quero ser também o vento
A levantar torvelinhos
Pelos caminhos não andados
Por qualquer pensamento.
Sem sair do lugar
Nunca pode-se fugir
De si mesmo
Deste lago anoitecendo
Que cada vez mais
Vou caindo
Sem terras em meus pés.
Silêncio é companhia
Que umedece os lábios
Que secaram
Das febres passadas.
Viver é cair profundamente!
De si mesmo
Deste lago anoitecendo
Que cada vez mais
Vou caindo
Sem terras em meus pés.
Silêncio é companhia
Que umedece os lábios
Que secaram
Das febres passadas.
Viver é cair profundamente!
Que faço agora
Pelas janelas infinitas
Abaixo do céu de nuvens
Escuras
Uma mulher de pedra
Dança.
Uma criança por trás
Dos ferros não sorri mais
E parou de brincar.
Mas haverá em algum ponto
Um velho a mastigar
Seu cigarro de palha.
Nada mais importa
Se nenhum sonho
É possível sonhar.
Se amanhã não existe
A manhã se fez neste
Instante!
Abaixo do céu de nuvens
Escuras
Uma mulher de pedra
Dança.
Uma criança por trás
Dos ferros não sorri mais
E parou de brincar.
Mas haverá em algum ponto
Um velho a mastigar
Seu cigarro de palha.
Nada mais importa
Se nenhum sonho
É possível sonhar.
Se amanhã não existe
A manhã se fez neste
Instante!
Caminhante
Sem procurar nada
Caminho sem nada buscar
Senão avançar adiante
Onde levam meus pés
Que jamais caminham
Numa linha reta
Procurando por coisa alguma.
Sem chegar nunca
Nunca sai deste lugar
Nem há onde possa ir
Sou vento soprando
Sou calmaria parando.
Caminho sem nada buscar
Senão avançar adiante
Onde levam meus pés
Que jamais caminham
Numa linha reta
Procurando por coisa alguma.
Sem chegar nunca
Nunca sai deste lugar
Nem há onde possa ir
Sou vento soprando
Sou calmaria parando.
Vaga lembrança
Por onde andava
Andava também
Um restaurante coreano
Quando parei havia
Apenas uma lembrança
Que dissipava-se
Dos amores que se foram.
Visita-me às vezes
Visita-me o restaurante
Coreano.
Andava também
Um restaurante coreano
Quando parei havia
Apenas uma lembrança
Que dissipava-se
Dos amores que se foram.
Visita-me às vezes
Visita-me o restaurante
Coreano.
As árvores
Estes galhos enegrecidos
Avançam seus braços
Sobre os carros
Que trafegam neste instante.
Sem consolo algum
Numa abraço de morte
E sugando a seiva de sangue
Dos homens
Só verde ficou
Manchando o chão
De asfalto.
Avançam seus braços
Sobre os carros
Que trafegam neste instante.
Sem consolo algum
Numa abraço de morte
E sugando a seiva de sangue
Dos homens
Só verde ficou
Manchando o chão
De asfalto.
O destino tomado
Numa encruzilhada havia
Uma vela vermelha
Numa encruzilhada havia
Toda indecisão
Que direção tomar
Por isso ficou a chorar
Que decisão tomar
Não tomou
A velha queimou
E a vida se foi
Num soprar do vento
De um vento ladino.
Uma vela vermelha
Numa encruzilhada havia
Toda indecisão
Que direção tomar
Por isso ficou a chorar
Que decisão tomar
Não tomou
A velha queimou
E a vida se foi
Num soprar do vento
De um vento ladino.
No cal da desilusão
Pulsa incessantemente
No pulmão de cimento armado
O combustível queimado
Da fuligem dos carros
Que também pulsa
Em minha caixa de máquinas
Que falha a cada instante
Desta vida curta
Que só vale a pena
A vagabundagem poética
Das esquinas de minha
Cidade!
No pulmão de cimento armado
O combustível queimado
Da fuligem dos carros
Que também pulsa
Em minha caixa de máquinas
Que falha a cada instante
Desta vida curta
Que só vale a pena
A vagabundagem poética
Das esquinas de minha
Cidade!
Soprar pelos cantos
Que politicamente
Incorreto
Seja uma contradição
Destes tempos
Em que os ventos
Em desalinho
Procurem pelos cantos
Um caminho
Possível.
Incorreto
Seja uma contradição
Destes tempos
Em que os ventos
Em desalinho
Procurem pelos cantos
Um caminho
Possível.
Quando nada mais diz
O que restou das formas
Instaladas
Desta arquitetura
Inventada no passado
Do que uma porção
De palavras que faço uso
Para dizer tão pouco?
Sombra de uma pedra
Que rolou com a água
Mas a insolência
Insiste em ficar.
Instaladas
Desta arquitetura
Inventada no passado
Do que uma porção
De palavras que faço uso
Para dizer tão pouco?
Sombra de uma pedra
Que rolou com a água
Mas a insolência
Insiste em ficar.
Vivo agora
Foi por um lapso passageiro
Que passou em minha vista
Um risco vermelho
Que pensei ter sido
O passado de minha vida.
Mas não tenho lembrança
Alguma
Nem foto antiga
Nem história para
Contar.
Nasci neste mesmo
Momento
Que passei a me esquecer
Quando foi isso!
Quanto ao futuro
Que bobagens pensar
Naquele que não sei
Se pode acontecer.
Que passou em minha vista
Um risco vermelho
Que pensei ter sido
O passado de minha vida.
Mas não tenho lembrança
Alguma
Nem foto antiga
Nem história para
Contar.
Nasci neste mesmo
Momento
Que passei a me esquecer
Quando foi isso!
Quanto ao futuro
Que bobagens pensar
Naquele que não sei
Se pode acontecer.
Amigo do vento
Pelas vias mais simples
Simplesmente deixei a vida passar
Passou por uma porta
Pela outra também
E ninguém mais pode segurar
A areia fina esvaindo-se
Pela boca de um funil
O guizo que toca nesta hora
Soprado pelo vento
Só toca agora
Só toca neste momento.
Simplesmente deixei a vida passar
Passou por uma porta
Pela outra também
E ninguém mais pode segurar
A areia fina esvaindo-se
Pela boca de um funil
O guizo que toca nesta hora
Soprado pelo vento
Só toca agora
Só toca neste momento.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
A vida escapando...
Que mais vale a pena
Viver na certeza
De que nada mais vale a pena
Do que viver na incerteza
De que nada mais fica
Em estado sólido
Nas palmas
Sem que
Escorra
Entre
Os dedos.
Viver na certeza
De que nada mais vale a pena
Do que viver na incerteza
De que nada mais fica
Em estado sólido
Nas palmas
Sem que
Escorra
Entre
Os dedos.
domingo, 26 de agosto de 2012
No cal da desilusão
Pulsa incessantemente
No pulmão de cimento armado
O combustível queimado
Da fuligem dos carros
Que também pulsa
Em minha caixa de máquinas
Que falha a cada instante
Desta vida curta
Que só vale a pena
A vagabundagem poética
Das esquinas de minha
Cidade!
No pulmão de cimento armado
O combustível queimado
Da fuligem dos carros
Que também pulsa
Em minha caixa de máquinas
Que falha a cada instante
Desta vida curta
Que só vale a pena
A vagabundagem poética
Das esquinas de minha
Cidade!
Eu e a chuva
Nestes dias de chuva
Derrama sobre as calçadas
Um frescor cristalino
Que esfria de vez
Todo calor que ainda sinto
Na transparência dos sentimentos
Que tal qual folhas secas
Jaz nos canteiros
Cada vez mais gelado
Os membros
Os galhos enegrecidos
Destas árvores urbanas
Pendem num só lamento.
Derrama sobre as calçadas
Um frescor cristalino
Que esfria de vez
Todo calor que ainda sinto
Na transparência dos sentimentos
Que tal qual folhas secas
Jaz nos canteiros
Cada vez mais gelado
Os membros
Os galhos enegrecidos
Destas árvores urbanas
Pendem num só lamento.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Nada mais se detém
Quando nada mais fica na memória
Nada mais tem importância
Naquilo que poderá ser.
Sem impedimento
A água cristalina
Corre no lado descendente
De uma montanha lisa
Quem pode segurar
A fluidez de uma nuvem
Destas flutuantes
Vagabundeando nas tardes
De primavera
A primavera também
É uma mulher
Envelhecida!
Nada mais tem importância
Naquilo que poderá ser.
Sem impedimento
A água cristalina
Corre no lado descendente
De uma montanha lisa
Quem pode segurar
A fluidez de uma nuvem
Destas flutuantes
Vagabundeando nas tardes
De primavera
A primavera também
É uma mulher
Envelhecida!
Vida instantânea
Em minha companhia
Apenas o vento soprando
Que alegria
Nada fazer do que
Nada fazer
Senão ventar junto
Com o sopro
Desta vida
Temporária
Que vivo
Apenas
Neste momento.
Apenas o vento soprando
Que alegria
Nada fazer do que
Nada fazer
Senão ventar junto
Com o sopro
Desta vida
Temporária
Que vivo
Apenas
Neste momento.
domingo, 29 de julho de 2012
Rodopiando
Por um instante sequer
Naveguei em terras estranhas
Nestas longínquas miragens
Em que divisa
A vista em que alcança
Nem precisei ir tão longe
Pois nunca saí do lugar
Em que sempre fiquei
Ainda que estivesse
Nas geleiras de Patagônia
Em que os marrecos escurecem
Ao anoitecer
E os peixes imóveis
Morrem nas águas salgadas
Das lágrimas dos desesperados.
Onde quer que vá
Não dou um passo adiante
E continuo rodando
Em voltas rodopiando
Como um dançarino turco
Do culto do sufi.
Onde quer que vá
Sempre estarei
Nadando na bolsa plástica
De plasma
De placenta transparente
E assistindo sempre
O mundo que me chega
Em imagens de fogo
De fogo que queima
Do fogo que ainda arde
Arde e incendeia.
Não poderia ser
Diferente
Nem seria...
Naveguei em terras estranhas
Nestas longínquas miragens
Em que divisa
A vista em que alcança
Nem precisei ir tão longe
Pois nunca saí do lugar
Em que sempre fiquei
Ainda que estivesse
Nas geleiras de Patagônia
Em que os marrecos escurecem
Ao anoitecer
E os peixes imóveis
Morrem nas águas salgadas
Das lágrimas dos desesperados.
Onde quer que vá
Não dou um passo adiante
E continuo rodando
Em voltas rodopiando
Como um dançarino turco
Do culto do sufi.
Onde quer que vá
Sempre estarei
Nadando na bolsa plástica
De plasma
De placenta transparente
E assistindo sempre
O mundo que me chega
Em imagens de fogo
De fogo que queima
Do fogo que ainda arde
Arde e incendeia.
Não poderia ser
Diferente
Nem seria...
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Pretérito perfeito
O que sobrou de ontem
Senão um monte de cinzas
Que ainda quentes estão
Podem queimar profundamente
E marcar a pele
Numa queimadura
De segundo grau.
Não mexa naquilo que
Descansa
Numa dança imóvel
Do vento.
Senão um monte de cinzas
Que ainda quentes estão
Podem queimar profundamente
E marcar a pele
Numa queimadura
De segundo grau.
Não mexa naquilo que
Descansa
Numa dança imóvel
Do vento.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Liberdade da incerteza
Um pássaro,
quando preso,
Não é da
pela liberdade que canta em solidão
Atrás das
grades que lhe impõe o nome “lar”.
É pela
incerteza que a ave chora,
Canta
amargamente.
Confinado
num mundo programado
Cheio de
certezas, metódicas como um relógio,
Sequenciais,
intermináveis,
Ininterruptas
e infalíveis.
Ah! A
certeza.
Não há nada
mais repugnante que a certeza,
Para um
pássaro de horas marcadas,
Que sabe
onde, quando e como vai morrer.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Fuga de si mesmo
Nada pode ser mais
Fugaz
Do que o fim do gás
De uma emoção
Que se tornou
Ultrapassada
Motivo de risada
Dos que ignoram
Toda miséria
De suas existências
De um mundo que tem
Razão
Mas sucumbe
De um mal maior
Esquizofrenia.
Fugaz
Do que o fim do gás
De uma emoção
Que se tornou
Ultrapassada
Motivo de risada
Dos que ignoram
Toda miséria
De suas existências
De um mundo que tem
Razão
Mas sucumbe
De um mal maior
Esquizofrenia.
Uma ausência...
Dos amores passageiros
De passagem ficaram
De passagem se foram
Em instantes!
Mas algo ficou
Para não se ir
Jamais
Uma tristeza
Que insiste
Criar morada
Em minha casa.
De passagem ficaram
De passagem se foram
Em instantes!
Mas algo ficou
Para não se ir
Jamais
Uma tristeza
Que insiste
Criar morada
Em minha casa.
Sombras da memória
Como se saltassem do passado
São rostos embranquecidos
De fantasmas
De rugas e formas
Que não se reconhecem mais
Nem estima
Daquilo que agora
Invadem meu quarto
Guardado pelas chaves
Fazem sentido.
Assim visito
Com cautela
Um álbum de retratos.
São rostos embranquecidos
De fantasmas
De rugas e formas
Que não se reconhecem mais
Nem estima
Daquilo que agora
Invadem meu quarto
Guardado pelas chaves
Fazem sentido.
Assim visito
Com cautela
Um álbum de retratos.
domingo, 22 de julho de 2012
Encaixe
O que são os encaixes?
Nesse mundo, as coisas sempre devem encaixar-se, quase como
regra.
Uma busca infiel, por uma vida encaixada, que possa ter todas as suas frestas e arestas completadas por algo, seja a si próprio, seja o outro.
Uma busca infiel, por uma vida encaixada, que possa ter todas as suas frestas e arestas completadas por algo, seja a si próprio, seja o outro.
As coisas devem ser sempre encaixadas para que sejam satisfatórias. Sempre deve haver um encaixe inverso, seu complementar, naquela forma ideal.
Onde encontrar este complemento?
A luz encontra a escuridão, o vermelho encontra o ciano, o bule encontra a água e a colher encontra o mel.
Eu? Eu encontro a própria vida, refletida num papel em
branco diante do meu rosto.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Vida Aventureira
Ah! O peso destruidor que esta vida mal vivida me presenteou.
Amarrado à uma cadeira que só tem quatro pernas, numa mesa de canto, onde apoio textos centopéiecos que me lançam numa explosão de sensações e vontades curiosas.
Amarrado à uma cadeira que só tem quatro pernas, numa mesa de canto, onde apoio textos centopéiecos que me lançam numa explosão de sensações e vontades curiosas.
Ah! A vontade de correr para um destino que ainda não sei, com os pés descalços na orla da mais isolada das praias, longe daqui, onde a rua corta meus dedos.
Mas tudo isso não passa de um sonho de olhos abertos e que estão vidrados nas histórias daqueles meus heróis que puderam caminhar o mundo e fazê-lo suas casas.
Querer ser como eles me trás o medo de ser como eles, desbravadores e incertos quanto seus finais.
Quem diria eu, poder não saber onde cair morto.
Amigos e diferentes
Ainda que na maior discordância
Meu amigo
Há de continuar amigo.
Mas se as ideias
Não forem as mesmas
Se as ideias
De longe forem mais
Importantes
Do que as amizades
Então teremos problemas
Sérios problemas
De vaidade
De simples vaidade
Que se alimenta nossa ilusão.
Meu amigo
Há de continuar amigo.
Mas se as ideias
Não forem as mesmas
Se as ideias
De longe forem mais
Importantes
Do que as amizades
Então teremos problemas
Sérios problemas
De vaidade
De simples vaidade
Que se alimenta nossa ilusão.
Forma são
O que forma a formação das formas?
Se algo forma, indubitavelmente por outro foi formado, que anteriormente também formado por um mais, ele foi.
Eu vejo a forma que me forma a partir de sua forma e percebo que eu próprio sou a forma que me forma a partir de sua própria forma. Minha forma é a não forma, formada por uma forma que é a não forma da outra forma, que também é a não forma de uma não forma.
A forma que me forma é a forma que eu formo, que formará e que formarão as formas que sempre serão a não forma de uma única formação.
Eu formo.
Tu forma.
Ele e ela forma.
Nós, forma.
Tu forma.
Ele e ela forma.
Nós, forma.
Tudo é forma, de uma só forma, sendo a não forma a forma desta forma.
Uma nova religião
Sempre a minha verdade
Deve prevalecer
Bem que as outras verdades
Não passam de futilidades
Se comparadas à minha.
Defensor dos bons princípios
Dos direitos dos menos favorecidos
Também dos mais favorecidos
Do direito à vida dos abortados
Do direito à morte dos desenganados
Do direito de não sentir o cheiro do cigarro
Do direito de fumar
Do direito de não sentir fome
Dos direito dos animais
Do direito dos anões em pagar meia passagem
Na sessão do cinema
Do direito dos políticos em negociar
Em causa pública
Em causa própria
Do direito do funcionalismo
Folgar um pouco mais
Do que os que não são gozam
Do mesmo privilégio
Do direito adquirido
Do direito a ser ainda adquirido
Todos falam em direito
Como se houvesse apenas direitos
Se assim fosse
Direito!
domingo, 15 de julho de 2012
Uma questão de tensão
Apenas assistiu
Sem nada entender
Dois adultos discutindo
Seus pontos de vista
Defendendo a verdade
As suas próprias verdades
E assim julgavam ser
Sempre assim
Os donos da verdade
E as guerras começaram
Sempre em nome da verdade
E as guerras santas começaram
Em nome dos santos
Enquanto num canto
Uma criança não sabia
O que no mundo acontecia
Um bombardeio partia
Carregando em suas asas
As almas dos mortos
Por um capricho
Humanamente aceito
Humanamente desprezível.
Sem nada entender
Dois adultos discutindo
Seus pontos de vista
Defendendo a verdade
As suas próprias verdades
E assim julgavam ser
Sempre assim
Os donos da verdade
E as guerras começaram
Sempre em nome da verdade
E as guerras santas começaram
Em nome dos santos
Enquanto num canto
Uma criança não sabia
O que no mundo acontecia
Um bombardeio partia
Carregando em suas asas
As almas dos mortos
Por um capricho
Humanamente aceito
Humanamente desprezível.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Melancólica somente
Será apenas uma palavra
Melancolia
Ou será invenção dos psicanalistas
Ou da pequena burguesia
Será melancolia
Uma palavra bonita
Encontrada num canto
Da página esquerda
De um dicionário
Ultrapassado
Que perdeu validade?
Talvez seja
Algo usado pelos poetas
Desesperados
Pelas palavras criadas
Para tornar a vida
Mais interessante
Incessantemente
Buscada
E perdida.
Melancolia
Por perder
Melancolia
Por achar.
Melancolia
Ou será invenção dos psicanalistas
Ou da pequena burguesia
Será melancolia
Uma palavra bonita
Encontrada num canto
Da página esquerda
De um dicionário
Ultrapassado
Que perdeu validade?
Talvez seja
Algo usado pelos poetas
Desesperados
Pelas palavras criadas
Para tornar a vida
Mais interessante
Incessantemente
Buscada
E perdida.
Melancolia
Por perder
Melancolia
Por achar.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Ao encontro do canto das sereias
Num jogo de damas
Perdi mais do que as pedras
Que não passavam de artimanhas
Para enganar os desavisados
Estes marinheiros de primeira viagem
Que confundem as ondas
As espumas levantando-se
Em cristas de galo
Como fossem sereias
Destas mesmas
Que enganaram Odisseu
Ou deixou-se enganar
Só para beber de suas bocas
Um hálito agradável
Das oliveiras.
domingo, 8 de julho de 2012
Visita ausente
Num canto da janela
A noite vai penetrando
E fria chega
Por cima dos pelos
De um braço
Que apenas descansa
Espera um abraço
Que não chega
O que me esquenta
Continua sendo
Minha blusa velha
Que perdeu a linha
Meu lápis duro
Que me arranha.
A noite vai penetrando
E fria chega
Por cima dos pelos
De um braço
Que apenas descansa
Espera um abraço
Que não chega
O que me esquenta
Continua sendo
Minha blusa velha
Que perdeu a linha
Meu lápis duro
Que me arranha.
Uma dor sentida no frio
Há uma dor que me visita
De manhã
De tarde
De noite
Pudera ser uma dor amorosa
Longe disso
A dor que me assola
É a dor da gota
Que me amola
No pé esquerdo
Isento de romantismo
Isento de qualquer lamento
Uma dor terrena
Epidérmica
Oceânica
Vulcânica
Uma dor desiludida
Pois até a ilusão foi perdida
Nada mais resta
Que salve
Só fica
Uma dor enjoada
Fria e desbotada
Uma dor ordinária
Que nem marca deixa
Senão a sensação
De um imenso vazio
O vazio da dor sentida.
De manhã
De tarde
De noite
Pudera ser uma dor amorosa
Longe disso
A dor que me assola
É a dor da gota
Que me amola
No pé esquerdo
Isento de romantismo
Isento de qualquer lamento
Uma dor terrena
Epidérmica
Oceânica
Vulcânica
Uma dor desiludida
Pois até a ilusão foi perdida
Nada mais resta
Que salve
Só fica
Uma dor enjoada
Fria e desbotada
Uma dor ordinária
Que nem marca deixa
Senão a sensação
De um imenso vazio
O vazio da dor sentida.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Caminhos de pedra
As pedras atiradas pelo chão
Também falam
Numa linguagem silenciosa
Falam a respeito da dureza
Dos corações
Que não mais se emocionam
Nem se dão ao trabalho
De chorar mais.
São de pedra as estátuas
Que enfeitam as praças
Que sentem o calor
Do dia.
É a friagem da tarde
Que tornam
Os que não são de pedra
Frios.
Mais frios do que
O frio desta noite.
Também falam
Numa linguagem silenciosa
Falam a respeito da dureza
Dos corações
Que não mais se emocionam
Nem se dão ao trabalho
De chorar mais.
São de pedra as estátuas
Que enfeitam as praças
Que sentem o calor
Do dia.
É a friagem da tarde
Que tornam
Os que não são de pedra
Frios.
Mais frios do que
O frio desta noite.
A parede branca
Como é silencioso a noite
Em minha sala de leitura
Em que minhas lembranças
Nada mais são
Do que lembranças
Mas que ainda
Não saíram da minha mente
Sou lembrança no presente
Sou o passado reinventado
Nas paredes brancas
De minha existência
Efêmera com certeza
Bolhas de sabão
Subindo acima do portão
Por entre as lanças
E ferros indomados
Sou também a incerteza
Que navega num barco
Furado!
Em minha sala de leitura
Em que minhas lembranças
Nada mais são
Do que lembranças
Mas que ainda
Não saíram da minha mente
Sou lembrança no presente
Sou o passado reinventado
Nas paredes brancas
De minha existência
Efêmera com certeza
Bolhas de sabão
Subindo acima do portão
Por entre as lanças
E ferros indomados
Sou também a incerteza
Que navega num barco
Furado!
Quando o vento dobra
Ainda carrego em meus braços
Os arrozais de Kumamoto
Que ao vento da primavera
Dobravam-se em reverência.
Ainda enterro minhas pernas
Naqueles alagados
Cujo barro tingia de negro
As pernas das velhas
Que curvadas avançavam na vida.
Vistos do alto
Das montanhas dos pinheirais
Somente do arroz
Sinto saudades
Que verdes balançavam
Uma brincadeira
De criança levada.
Os arrozais que sempre
Estarão comigo
Que em suas águas lamacentas
Enterro meu corpo inteiro.
Os arrozais de Kumamoto
Que ao vento da primavera
Dobravam-se em reverência.
Ainda enterro minhas pernas
Naqueles alagados
Cujo barro tingia de negro
As pernas das velhas
Que curvadas avançavam na vida.
Vistos do alto
Das montanhas dos pinheirais
Somente do arroz
Sinto saudades
Que verdes balançavam
Uma brincadeira
De criança levada.
Os arrozais que sempre
Estarão comigo
Que em suas águas lamacentas
Enterro meu corpo inteiro.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Uma vida atrás
Uma fumaça branca
Eis que se ergue
Após o passo dado
Passo dado adiante
E todo esforço
Fora em vão
Como não tinha sido
Outrora
Agora não passa
De um sonho
Que de pouco a pouco
Vai se apagando
E se tornando cinza fria
A se esparramar
Pelos caminhos andados
Caminhos a que não se retorna
E nem saudades fica
Nem um pouco desta saudade
Que incomoda
Esta alma errante
Ignorante por natureza
Teimosa por ser ignorante.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Uma tentativa mal sucedida
Se esquecimento fosse uma palavra
Uma palavra não seria
Mas ainda não seria
Solução
Se esquecer fosse a vontade
Nada disso aconteceria
Nem por vontade
Nem por falta de vontade.
Esquecer é deixar de viver
E apagar um passado
Que existe somente
Nas reminiscências
Mesmo assim
Não poderia ser
Simplesmente esquecido
Como cão abandonado
Após convivência em comum.
Ainda que fosse possível
Não esqueceria
Ainda que as dores passadas
Fossem apenas passadas no tempo
Ainda assim
Não seria desta forma.
Uma palavra não seria
Mas ainda não seria
Solução
Se esquecer fosse a vontade
Nada disso aconteceria
Nem por vontade
Nem por falta de vontade.
Esquecer é deixar de viver
E apagar um passado
Que existe somente
Nas reminiscências
Mesmo assim
Não poderia ser
Simplesmente esquecido
Como cão abandonado
Após convivência em comum.
Ainda que fosse possível
Não esqueceria
Ainda que as dores passadas
Fossem apenas passadas no tempo
Ainda assim
Não seria desta forma.
domingo, 24 de junho de 2012
Pelas ruas pouco conhecidas
Numa esquina estava
Uma moça que levava
Numa mão uma rosa
Uma rosa vermelha
Não sabia quem era
Nem tinha certeza
Nem queria saber
Quem era ela
Era noite funda
Profunda era a incerteza
De minha vida
Vivida unicamente
Naquele momento
Em que via
Uma moça que levava
Uma rosa vermelha...
Uma moça que levava
Numa mão uma rosa
Uma rosa vermelha
Não sabia quem era
Nem tinha certeza
Nem queria saber
Quem era ela
Era noite funda
Profunda era a incerteza
De minha vida
Vivida unicamente
Naquele momento
Em que via
Uma moça que levava
Uma rosa vermelha...
terça-feira, 19 de junho de 2012
Sou o mundo agora
Nem tristeza
Nem alegria
Apenas a respiração
Lenta
A respiração cardíaca
E como companheiro
O silêncio que vai preenchendo
Cada vez mais
A tarde que vai
Se retirar
Neste exato
Momento.
Nem alegria
Apenas a respiração
Lenta
A respiração cardíaca
E como companheiro
O silêncio que vai preenchendo
Cada vez mais
A tarde que vai
Se retirar
Neste exato
Momento.
Pensava ser verdade
Quando acordei
Lavei minha cara
Era uma cara comprada
Numa loja de fantasias
Uma cara de palhaço
Com nariz vermelho
Um palhaço que tinha nome
E assim passou a existir
Que trabalhava
Que vagabundeava
Pelos rincões desta cidade
Um palhaço que pensava
Existir
Mas não passava
De uma máscara
Que pensava que a máscara
Era a sua cara
Sua cara?
Todas as caras vendidas
Numa casa de máscaras.
Lavei minha cara
Era uma cara comprada
Numa loja de fantasias
Uma cara de palhaço
Com nariz vermelho
Um palhaço que tinha nome
E assim passou a existir
Que trabalhava
Que vagabundeava
Pelos rincões desta cidade
Um palhaço que pensava
Existir
Mas não passava
De uma máscara
Que pensava que a máscara
Era a sua cara
Sua cara?
Todas as caras vendidas
Numa casa de máscaras.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
As ilusões desta vida
Sorria
Um sorriso aberto
Um Buda sorria
De cima de seu assento
De cima de uma montanha
Sorria
As ilusões deste mundo
De nascimento e morte
De dia e noite
De ventania e calmaria
Dos encontros e partidas
De amor que não passa
De uma palavra inventada
Só para enganar
Os desavisados.
Um sorriso aberto
Um Buda sorria
De cima de seu assento
De cima de uma montanha
Sorria
As ilusões deste mundo
De nascimento e morte
De dia e noite
De ventania e calmaria
Dos encontros e partidas
De amor que não passa
De uma palavra inventada
Só para enganar
Os desavisados.
Atirador de pedras
Atire a primeira pedra
- no pássaro preto.
Atire a segunda pedra
-no pássaro preto.
Cada vez mais ferido ficou
Quem a pedra atirou
O pássaro se foi
O pássaro nunca esteve
O pássaro não passou
De uma ilusão de imagem?
Uma ilusão que pousou
No muro de meu jardim.
- no pássaro preto.
Atire a segunda pedra
-no pássaro preto.
Cada vez mais ferido ficou
Quem a pedra atirou
O pássaro se foi
O pássaro nunca esteve
O pássaro não passou
De uma ilusão de imagem?
Uma ilusão que pousou
No muro de meu jardim.
Noite solitária
Nos olhos entrecortados
A tarde deita-se atrás das nuvens
Num sono agitado
Em que os gatos
Caçam andorinhas
Que despencam dos galhos
Curvos e ressecados
De final de outono.
Quando as luzes acendem-se
Nas lanternas japonesas
Uma brancura leitosa
Começa a derramar-se
Sobre as nossas capas
De uma chuva passada.
E por estes caminhos
Que os pés insistem em pisar
Só pisam em espinhos
Deixando um rastro
Sinuoso de lamentação.
Assim o vento sussurra
Suave canção de minar
Canção que vai morrendo...
A tarde deita-se atrás das nuvens
Num sono agitado
Em que os gatos
Caçam andorinhas
Que despencam dos galhos
Curvos e ressecados
De final de outono.
Quando as luzes acendem-se
Nas lanternas japonesas
Uma brancura leitosa
Começa a derramar-se
Sobre as nossas capas
De uma chuva passada.
E por estes caminhos
Que os pés insistem em pisar
Só pisam em espinhos
Deixando um rastro
Sinuoso de lamentação.
Assim o vento sussurra
Suave canção de minar
Canção que vai morrendo...
domingo, 17 de junho de 2012
Sumiê
Um velho buda
Recriando budas
Com seus pincéis
E sua tinta de carvão
Trabalhando em sua solidão
Com toda a grande Terra
E os seres sencientes
Sob a estrela da manhã
Um velho buda
E sua tinta de carvão
Recriando budas
Com seus pincéis
E sua tinta de carvão
Trabalhando em sua solidão
Com toda a grande Terra
E os seres sencientes
Sob a estrela da manhã
Um velho buda
E sua tinta de carvão
Um fado cantado
Numa janela havia
Uma triste melodia
De um país distante
Além destes mares
De saudade chorava
Era Amália Rodrigues
Que se afogava
Nas beiras do Tejo.
Uma triste melodia
De um país distante
Além destes mares
De saudade chorava
Era Amália Rodrigues
Que se afogava
Nas beiras do Tejo.
Correndo contra o vento
Nenhuma saudade ficou
Mas ainda que pudesse
Esquecer
O passado é ardiloso
Muito mais do que
A vontade
De sofrer de uma amnésia
Consentida.
Mas ainda que pudesse
Esquecer
O passado é ardiloso
Muito mais do que
A vontade
De sofrer de uma amnésia
Consentida.
Caminhante noturno
Nestas noites longas
Em que os passos longamente
Estendem-se pelo espaço
Mal pisam o chão
Cada vez mais distantes
De uma experiência visceral
Senão vivenciada
Em seu mais profundo
Mar de incertezas.
Em que os passos longamente
Estendem-se pelo espaço
Mal pisam o chão
Cada vez mais distantes
De uma experiência visceral
Senão vivenciada
Em seu mais profundo
Mar de incertezas.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Os pés que pisoteiam
Apenas havia
Naquele caminho de sempre
Folhas secas
Que desprezadas
Foram pisoteadas
Sem piedade.
Os mesmos pés
Que incessantemente
Não se cansam
De pisotear
Este chão sagrado
Morada dos deuses
Que sustentam
Nossas casas
Nossos estômagos
Sedentos de alimentos
Que bebe da terra.
Ainda assim
Pisamos
Com sapatos
Impuros
De toda insolência
Humana.
Naquele caminho de sempre
Folhas secas
Que desprezadas
Foram pisoteadas
Sem piedade.
Os mesmos pés
Que incessantemente
Não se cansam
De pisotear
Este chão sagrado
Morada dos deuses
Que sustentam
Nossas casas
Nossos estômagos
Sedentos de alimentos
Que bebe da terra.
Ainda assim
Pisamos
Com sapatos
Impuros
De toda insolência
Humana.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Só vou com o vento
Sem nenhum passado
Que se foi com o vento
Sem futuro vindouro
Que distante ficou
Sou tenho o presente
Que nem posso reter
Entre os meus dedos
Se assim pudesse ser.
Para quê as lembranças
Fumaças do tempo
Que de tempo em tempo
Vão se dissipando
Em minha memória.
Que se foi com o vento
Sem futuro vindouro
Que distante ficou
Sou tenho o presente
Que nem posso reter
Entre os meus dedos
Se assim pudesse ser.
Para quê as lembranças
Fumaças do tempo
Que de tempo em tempo
Vão se dissipando
Em minha memória.
Eterno peregrino
Daquilo que ficou
São as nuvens de Shogoji
Abaixo das montanhas
Brancas
Em que podiam se caminhar
Sem afundar as pernas
Nos alagados dos arrozais
Nos carvalhos vetustos
Em que vivi
Meus melhores dias.
Ainda caminho
Pelas mesmas trilhas
Que um dia
Caminhei.
Ainda existe em mim
A mesma escadaria
De pedras pontiagudas
Precipícios
Em que caíram
Guerreiros de outros tempos.
Uma vez que lá esteja
Nunca mais saímos de lá
Onde quer que possamos
Caminhar
Caminhamos a mesma trilha.
Manhãs que não acabam
Uma instabilidade temporária
Em tempos de chuva
A alma liquefeita
Escorre pelas ruas
Sem pressa alguma
Por chegar a algum lugar.
Nunca chegamos
Sempre estamos
No mesmo lugar.
Como é agradável
Ouvir
A chuva caindo devagar
Nestas manhãs alongadas
De outono.
Como o outono demora
Para passar.
Em tempos de chuva
A alma liquefeita
Escorre pelas ruas
Sem pressa alguma
Por chegar a algum lugar.
Nunca chegamos
Sempre estamos
No mesmo lugar.
Como é agradável
Ouvir
A chuva caindo devagar
Nestas manhãs alongadas
De outono.
Como o outono demora
Para passar.
domingo, 3 de junho de 2012
Muito fluido
Apenas imagens
Que numa fumaça
Foram se dissipando
Como nada tivesse
Importância
Um filme antigo
Que uma vez visto
Não se repete mais.
Que numa fumaça
Foram se dissipando
Como nada tivesse
Importância
Um filme antigo
Que uma vez visto
Não se repete mais.
O pássaro criador
Ainda que mergulhemos
No mais profundo
Sentimento
Num mar sem fundo
Nada mais existe
Do que o silêncio
Silencioso e derradeiro
De uma tarde
Em que sorrateira
Uma gralha azul
Inventa a vida
De um galho ressecado
Que balança
Ao sabor do vento.
No mais profundo
Sentimento
Num mar sem fundo
Nada mais existe
Do que o silêncio
Silencioso e derradeiro
De uma tarde
Em que sorrateira
Uma gralha azul
Inventa a vida
De um galho ressecado
Que balança
Ao sabor do vento.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O que queima
Uma borboleta de cristal
Reflete um azul infinito
Vindo do mar
Vindo do céu
Vindo de todo lugar
Dos olhos de Mariana
Que ardentes
Provocaram em minha pele
Uma queimação apaixonada
Que ainda guardo
Como prêmio.
Reflete um azul infinito
Vindo do mar
Vindo do céu
Vindo de todo lugar
Dos olhos de Mariana
Que ardentes
Provocaram em minha pele
Uma queimação apaixonada
Que ainda guardo
Como prêmio.
Entre as paredes
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não ter estudado
Matemática
Nem geometria.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não ter sido
Um atleta competente.
Perdoem-me
Minhas limitações
Nos estudos elevados.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não tocar flauta
Nem saber cantar.
Nesta vida inteira
Pouco fiz
Não tomei bebedeira
Não conheci Paris.
Nem fui bom
Um tanto mau
Por isso uma acidez
Contínua me destrói
O estômago.
Fui um mentiroso
Que acreditava ainda
Que ainda
Uma garota de olhos grandes
Haveria
De ser musa eterna.
Que escrever espantava
Uma solidão permitida
Dos desvairados
Presos em seus quartos
Cuja poeira
Caia densa
Num assoalho de cera
Vermelha.
Minhas limitações
Por não ter estudado
Matemática
Nem geometria.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não ter sido
Um atleta competente.
Perdoem-me
Minhas limitações
Nos estudos elevados.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não tocar flauta
Nem saber cantar.
Nesta vida inteira
Pouco fiz
Não tomei bebedeira
Não conheci Paris.
Nem fui bom
Um tanto mau
Por isso uma acidez
Contínua me destrói
O estômago.
Fui um mentiroso
Que acreditava ainda
Que ainda
Uma garota de olhos grandes
Haveria
De ser musa eterna.
Que escrever espantava
Uma solidão permitida
Dos desvairados
Presos em seus quartos
Cuja poeira
Caia densa
Num assoalho de cera
Vermelha.
Um passo atrás
O que pode sustentar
A inércia deste corpo
Maltratado pelo vento
Que caminha de costas
Sem ver adiante
Vendo sempre
Os próprios passos
Se apagando ao relento
As marcas postas
Numa trilha de cal.
E tudo se passa
Em instantes
Numa vida que passa
Num passado que passa
Na inconstância
Das imagens opacas
De um fantasma.
Mas sentimos saudades
De um tempo passado
Que passou
Do amor passageiro
Que não passa
De uma sombra
Do passado
Que continua passando
Como filme antigo
Num cinema decadente
Habitado pelos ratos.
Somente os ratos existem
Neste momento
Que continuam a roer
As paredes grossas
De meu baú de passados.
A inércia deste corpo
Maltratado pelo vento
Que caminha de costas
Sem ver adiante
Vendo sempre
Os próprios passos
Se apagando ao relento
As marcas postas
Numa trilha de cal.
E tudo se passa
Em instantes
Numa vida que passa
Num passado que passa
Na inconstância
Das imagens opacas
De um fantasma.
Mas sentimos saudades
De um tempo passado
Que passou
Do amor passageiro
Que não passa
De uma sombra
Do passado
Que continua passando
Como filme antigo
Num cinema decadente
Habitado pelos ratos.
Somente os ratos existem
Neste momento
Que continuam a roer
As paredes grossas
De meu baú de passados.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Era uma creche
Um museu da infância
Guardava as aventuras do presente
Com castelos e dragões
Florestas encantadas
Frutos de imaginações que agora vêem a realidade
Abaixo, em escombros
Tingidos de amarelo alaranjado
Guardava as aventuras do presente
Com castelos e dragões
Florestas encantadas
Frutos de imaginações que agora vêem a realidade
Abaixo, em escombros
Tingidos de amarelo alaranjado
*****
A mãe e o filho
Que esperam pacientemente
onde era ali, um reino encantado
Destruído na madrugada
Na esperança de que reste ao meno um livro
Capaz de levá-los dali
À um mundo onde as creches não são destruídas
Que esperam pacientemente
onde era ali, um reino encantado
Destruído na madrugada
Na esperança de que reste ao meno um livro
Capaz de levá-los dali
À um mundo onde as creches não são destruídas
*****
Somente as árvores
Na manhã alaranjada
A creche em cacos
Na manhã alaranjada
A creche em cacos
quarta-feira, 30 de maio de 2012
O corvo branco
Nem era amarelo
o corvo que surgiu
o corvo que sonhei
era branco.
Fiz que não o via
fiz que não sabia
do corvo branco
de olhos fundos
profundo era o mar
que nos separava
o corvo que não se ia
e lá ficou
em minha morada
como fosse sua
sempre tivesse nela
vivido.
Um corvo que disse seu nome
Sempre estarei
Ainda que queira me livrar
dele
serei sincero nisso?
Estarei mentindo
mais uma vez
e toda vez que negá-lo
surgirá de novo
o mesmo corvo
a dizer seu nome
Sempre estarei
Não passarei mais frio
medo tampouco
não estarei sozinho
pois
Sempre estarei
estará do meu lado
com penugens brancas
não as de um pombo
que traz a paz
no coração dos homens
mas as brancas de um corvo
que traz a dúvida
que incomoda
que acalenta
a intranqüilidade
do homem que quer
a noite
que o dia cega-lhe os olhos
mas o sereno da madrugada
refresca as artérias
cheias de uma água rala
de beterraba.
o corvo que surgiu
o corvo que sonhei
era branco.
Fiz que não o via
fiz que não sabia
do corvo branco
de olhos fundos
profundo era o mar
que nos separava
o corvo que não se ia
e lá ficou
em minha morada
como fosse sua
sempre tivesse nela
vivido.
Um corvo que disse seu nome
Sempre estarei
Ainda que queira me livrar
dele
serei sincero nisso?
Estarei mentindo
mais uma vez
e toda vez que negá-lo
surgirá de novo
o mesmo corvo
a dizer seu nome
Sempre estarei
Não passarei mais frio
medo tampouco
não estarei sozinho
pois
Sempre estarei
estará do meu lado
com penugens brancas
não as de um pombo
que traz a paz
no coração dos homens
mas as brancas de um corvo
que traz a dúvida
que incomoda
que acalenta
a intranqüilidade
do homem que quer
a noite
que o dia cega-lhe os olhos
mas o sereno da madrugada
refresca as artérias
cheias de uma água rala
de beterraba.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Para espantar a solidão
Pela manhã
Pelas ruas de minha cidade
Uma multidão se move
E coça os olhos
Assim espanta o sono
Dessas noites mal dormidas
Em que visita-nos
Os ratos de esgoto
Buscando companhia.
Pelas ruas de minha cidade
Uma multidão se move
E coça os olhos
Assim espanta o sono
Dessas noites mal dormidas
Em que visita-nos
Os ratos de esgoto
Buscando companhia.
Um murmúrio apenas
Nenhum silêncio se compara
Com o silêncio das cidades
Entre os murmúrios dos desesperados
O choro dos loucos
O gemido dos que se encontram
Em convulsão de um encontro amoroso.
Nada disso incomoda
Meus ânimos acostumados
Com o desencontro das vozes
E dos sons apagados
Que apenas querem se fazer
Presentes nas esquinas
Dos becos cheirando urina
Dos gatos andando como bailarina
Aos saltos
Como que os pés estivessem
Em brasa.
Neste burburinho de ondas
Que se levantam e se afastam
Da areia das construções
Minha voz é apenas
Um detalhe
Que na angústia de sua
Existência
Minha existência
Surge rouca
Afetada por um resfriado
Mal cuidado
Que insiste em ficar
No corpo semeado
De bactérias
E células que vão morrendo...
Com o silêncio das cidades
Entre os murmúrios dos desesperados
O choro dos loucos
O gemido dos que se encontram
Em convulsão de um encontro amoroso.
Nada disso incomoda
Meus ânimos acostumados
Com o desencontro das vozes
E dos sons apagados
Que apenas querem se fazer
Presentes nas esquinas
Dos becos cheirando urina
Dos gatos andando como bailarina
Aos saltos
Como que os pés estivessem
Em brasa.
Neste burburinho de ondas
Que se levantam e se afastam
Da areia das construções
Minha voz é apenas
Um detalhe
Que na angústia de sua
Existência
Minha existência
Surge rouca
Afetada por um resfriado
Mal cuidado
Que insiste em ficar
No corpo semeado
De bactérias
E células que vão morrendo...
domingo, 20 de maio de 2012
As ruas de outrora
Por aquelas ruas em que andava
Em cujas fachadas das casas
Havia uma intimidade que saia
Através das janelas e cortinas amarelas
Nada mais restou no local
Mas ainda assim
Em alguma parte de mim
Somente isso continua a existir
Como sempre existiu
Nos olhos de menino
Que continuam existindo.
Em cujas fachadas das casas
Havia uma intimidade que saia
Através das janelas e cortinas amarelas
Nada mais restou no local
Mas ainda assim
Em alguma parte de mim
Somente isso continua a existir
Como sempre existiu
Nos olhos de menino
Que continuam existindo.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Noites sem estrelas
Numa sexta-feira
Quando a noite chega
Minha gata preta
Mia e pede atenção.
Sem que ninguém dê
Atenção
O casal de mendigos
Que não fala com ninguém
Como ninguém mais existisse
Prepara a cama
Para um repouso gelado
E sonha com uma cama
Macia
Que nunca teve
Em sua vida
Nem travesseiros
Nem lençóis brancos
Apenas o céu
Sem uma única estrela
Como companhia
Seu único amigo
Pulguento ao lado
E assim podem se aquecer.
Quando a noite chega
Minha gata preta
Mia e pede atenção.
Sem que ninguém dê
Atenção
O casal de mendigos
Que não fala com ninguém
Como ninguém mais existisse
Prepara a cama
Para um repouso gelado
E sonha com uma cama
Macia
Que nunca teve
Em sua vida
Nem travesseiros
Nem lençóis brancos
Apenas o céu
Sem uma única estrela
Como companhia
Seu único amigo
Pulguento ao lado
E assim podem se aquecer.
Os caminhantes do tempo
Ao entardecer
As ruas são viajantes
De um tempo
Que deixou de existir
E parado
Somente as pessoas
Ainda continuam
Andando
Numa paisagem
Refletida no espelho.
As ruas são viajantes
De um tempo
Que deixou de existir
E parado
Somente as pessoas
Ainda continuam
Andando
Numa paisagem
Refletida no espelho.
O peso que levas
Nas costas carregava
Uma formiga
O mundo inteiro
Nas costas carrego
Também
O mundo inteiro
Todos os devaneios
Dos que ainda sonham
E não endureceram
Seus corações
Carrego os tolos
Também
Uma formiga
O mundo inteiro
Nas costas carrego
Também
O mundo inteiro
Todos os devaneios
Dos que ainda sonham
E não endureceram
Seus corações
Carrego os tolos
Também
Assim se fez o mundo
Havia pela cidade
Um murmúrio
Que nada dizia
Nem se lamentava
Que produzia
Uma constante
Corrente de conversas
Desencontradas
Como fosse o primeiro som
Da criação do mundo
Naquele momento
E assim
Deram-se nomes
E sobrenomes
Naquilo que antes
Nada tinha
Senão
Um depósito cheio
De coisas indefinidas
De uma memória
Ainda prestes a ser
Formada.
Um murmúrio
Que nada dizia
Nem se lamentava
Que produzia
Uma constante
Corrente de conversas
Desencontradas
Como fosse o primeiro som
Da criação do mundo
Naquele momento
E assim
Deram-se nomes
E sobrenomes
Naquilo que antes
Nada tinha
Senão
Um depósito cheio
De coisas indefinidas
De uma memória
Ainda prestes a ser
Formada.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Canto natural
Não tenho medo
o que tem medo é o medo
eu não tenho nada, nada,
nada possuo...
estou bem
aqui
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Felina selvagem
Uma gata perdida
Pelas ruas desta cidade
Não quer mais dono.
Uma gata perdida
Foi-se
E perdida vive
Seus devaneios.
Quisera detê-la comigo
Mas nenhuma gata
Torna-se dócil
Mais cedo
Mais tarde
Vai-se.
Das lembranças passadas
Tal como lembranças
Cuidadas com carinho
Lembranças
Que com o tempo caem
Caem no esquecimento.
Esta é uma esperança
Que não esqueci neste momento.
Pelas ruas desta cidade
Não quer mais dono.
Uma gata perdida
Foi-se
E perdida vive
Seus devaneios.
Quisera detê-la comigo
Mas nenhuma gata
Torna-se dócil
Mais cedo
Mais tarde
Vai-se.
Das lembranças passadas
Tal como lembranças
Cuidadas com carinho
Lembranças
Que com o tempo caem
Caem no esquecimento.
Esta é uma esperança
Que não esqueci neste momento.
Passeio sem amigos
Nesta manhã solitária
O ruído das máquinas
É um consolo
Enquanto isso
Uma brisa chega
Soprando levemente
Pelo rosto de barba mal feita
E passeia
Pelas ruas de rostos anônimos
Acariciando às vezes
Maltratando às vezes
Desaparecendo por fim
Por detrás das árvores
Cujas folhas caíram todas
E expondo seus galhos
Como braços que avançam
Pelo céu encoberto por
Suave e fina poeira
Uma névoa que esconde
Os pés descalços que calcam
O chão gelado de inverno
Que apenas inicia-se
O ruído das máquinas
É um consolo
Enquanto isso
Uma brisa chega
Soprando levemente
Pelo rosto de barba mal feita
E passeia
Pelas ruas de rostos anônimos
Acariciando às vezes
Maltratando às vezes
Desaparecendo por fim
Por detrás das árvores
Cujas folhas caíram todas
E expondo seus galhos
Como braços que avançam
Pelo céu encoberto por
Suave e fina poeira
Uma névoa que esconde
Os pés descalços que calcam
O chão gelado de inverno
Que apenas inicia-se
Diálogos com o louco
Um louco perguntou-me
O que é felicidade
Pensei
Não demorei muito
Porque um louco
Faria tal pergunta
Será que somente
Os loucos buscam
A felicidade!
E nessa loucura
Constante
Percebi
Nunca procurei
A felicidade
Mas a loucura sim
Como invejo os loucos
Que ainda sonham
Com a felicidade
Enquanto os duros de coração
Apenas vivem
Além da felicidade
Apenas vivem
Intensamente
A felicidade presente
A infelicidade também
O que é felicidade
Pensei
Não demorei muito
Porque um louco
Faria tal pergunta
Será que somente
Os loucos buscam
A felicidade!
E nessa loucura
Constante
Percebi
Nunca procurei
A felicidade
Mas a loucura sim
Como invejo os loucos
Que ainda sonham
Com a felicidade
Enquanto os duros de coração
Apenas vivem
Além da felicidade
Apenas vivem
Intensamente
A felicidade presente
A infelicidade também
terça-feira, 1 de maio de 2012
Sem passado
Viajante do tempo
Sem direção alguma
O que me move
Neste instante
Senão
A vontade de sentir-me
Vivo
Sem passado
Sem lembranças
Que tenham passado
Que valha a pena de ser
Repassado
Sem direção alguma
O que me move
Neste instante
Senão
A vontade de sentir-me
Vivo
Sem passado
Sem lembranças
Que tenham passado
Que valha a pena de ser
Repassado
terça-feira, 24 de abril de 2012
Tudo parado
Pela avenida havia
Um sinal vermelho
E todos de repente
Paravam
E paravam de viver!
Nada mais faziam
Nem respiravam
Por um momento apenas
E o mundo também parava
De girar
Apenas um Buda de pedra
Que parado olhava
Com seus olhos finos
Sorria
Demoradamente
Sem pressa
Que o sinal mudasse
De cor
Um tempo demorado
De minutos parado
Numa esquina da rua
domingo, 15 de abril de 2012
Caminhante e o caminho
Pelas estradas da eternidade
Apenas o pó sobressaltando-se
Dos sapatos que pisam descompassadamente
Para algum lugar impossível
De chegar um dia
Sem partida alguma
Nunca fora realizada
Poderia parar
Por uma teimosia
E pararia de viver
E pararia de andar
Se isso acontecesse
O próprio caminho
Andaria por mim
Pois nenhum caminho existe
Se inexiste o caminhante
Errar é preciso pelos caminhos
Que não existiam antes
Que existirão para sempre
Apenas o pó sobressaltando-se
Dos sapatos que pisam descompassadamente
Para algum lugar impossível
De chegar um dia
Sem partida alguma
Nunca fora realizada
Poderia parar
Por uma teimosia
E pararia de viver
E pararia de andar
Se isso acontecesse
O próprio caminho
Andaria por mim
Pois nenhum caminho existe
Se inexiste o caminhante
Errar é preciso pelos caminhos
Que não existiam antes
Que existirão para sempre
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Por um momento
Ainda que dolorida seja
Uma dor não pretendida
Não foi por acaso
Um encontro desnecessário
Em que a felicidade não passou
De um vento sorrateiro
Brincando por acaso
Nos papéis picados
Que saltitantes
Assentaram-se depois
No chão
Para serem varridos
Uma dor não pretendida
Não foi por acaso
Um encontro desnecessário
Em que a felicidade não passou
De um vento sorrateiro
Brincando por acaso
Nos papéis picados
Que saltitantes
Assentaram-se depois
No chão
Para serem varridos
terça-feira, 10 de abril de 2012
Jogos da infância
Nunca coloquei uma pipa
A voar
Além dos dois metros
E nunca meus sonhos
Foram além dos dois metros.
Nunca invejei as pipas
Coladas no céu azul
Em linhas esticadas
Unindo a terra
Com todo firmamento.
Pois a minha pipa voava
Apenas dois metros
Até cair
E quebrar-se todo.
Nunca me importei com isso
Como se isso fosse importante
Importante eram os lábios
De Elizabeth
A filha da empregada
Que não gostava de pipa
Que brincava de boneca
Eu era Jack "o Extripador"...
A voar
Além dos dois metros
E nunca meus sonhos
Foram além dos dois metros.
Nunca invejei as pipas
Coladas no céu azul
Em linhas esticadas
Unindo a terra
Com todo firmamento.
Pois a minha pipa voava
Apenas dois metros
Até cair
E quebrar-se todo.
Nunca me importei com isso
Como se isso fosse importante
Importante eram os lábios
De Elizabeth
A filha da empregada
Que não gostava de pipa
Que brincava de boneca
Eu era Jack "o Extripador"...
As caminhantes da procissão
Aquelas mulheres de negro
Percorriam a procissão
Nas noites escuras
Iluminadas por velas
Carregadas por elas
Por todos que seguiam
Em passos cadenciados
A longa via de uma morte
Anunciada
Carregando nas costas
O peso do mundo
Com todos os apegos
E sofrimentos
E dores doídas
De uma ilusão que não cessa
De continuar cessando
Uma ilusão que fora boa.
Pelas noites afora
Continuam caminhando
As mesmas velhas
Vestidas de negro
Com seu canto distanciado
Anunciando
Uma nova ilusão
Alimento que nutre
Os eternos iludidos
De uma vida iludida
Que desesperadamente
Quer ser verdade.
Percorriam a procissão
Nas noites escuras
Iluminadas por velas
Carregadas por elas
Por todos que seguiam
Em passos cadenciados
A longa via de uma morte
Anunciada
Carregando nas costas
O peso do mundo
Com todos os apegos
E sofrimentos
E dores doídas
De uma ilusão que não cessa
De continuar cessando
Uma ilusão que fora boa.
Pelas noites afora
Continuam caminhando
As mesmas velhas
Vestidas de negro
Com seu canto distanciado
Anunciando
Uma nova ilusão
Alimento que nutre
Os eternos iludidos
De uma vida iludida
Que desesperadamente
Quer ser verdade.
Após temporal
As noites cada vez mais longas
E longas são os nossos desesperos
Na procura de algo perdido
Que jamais será encontrado
Senão os destroços de uma casa caída
Após a passagem de um temporal
E longas são os nossos desesperos
Na procura de algo perdido
Que jamais será encontrado
Senão os destroços de uma casa caída
Após a passagem de um temporal
sexta-feira, 6 de abril de 2012
A moça passava
Passava todos os dias
Na rua em que morava
Passava com seus passos
Em movimentos suaves
Passava despertando
Minha atenção
Tinha mais idade do que eu
Mas nada disso importava
Nem quis falar com ela
Apenas fingia
Que não a notava
Um dia descobri o seu nome
Era Terezinha
Era Terezinha que passava
Na passagem de minha infância
Que ficava cada vez mais
Para trás
E agora
Passados tantos anos
Às vezes sinto ainda
Terezinha passando
Em minha memória
Naquela mesma rua
Em que morava
E ela também
Fingindo que não me via
E eu também
Fingindo que não a via.
Na rua em que morava
Passava com seus passos
Em movimentos suaves
Passava despertando
Minha atenção
Tinha mais idade do que eu
Mas nada disso importava
Nem quis falar com ela
Apenas fingia
Que não a notava
Um dia descobri o seu nome
Era Terezinha
Era Terezinha que passava
Na passagem de minha infância
Que ficava cada vez mais
Para trás
E agora
Passados tantos anos
Às vezes sinto ainda
Terezinha passando
Em minha memória
Naquela mesma rua
Em que morava
E ela também
Fingindo que não me via
E eu também
Fingindo que não a via.
Periferia
Deste lado da cidade
Uma favela sem nenhuma
Vaidade comemora o domingo
Na calçada mesmo
Enquanto dos carros
Olhares estranhos
Apenas olham
Horrorizados
A alegria latente
De um homem
Que nada mais deseja
Do que um copo que rola
De boca em boca
Entre iguais.
Uma favela sem nenhuma
Vaidade comemora o domingo
Na calçada mesmo
Enquanto dos carros
Olhares estranhos
Apenas olham
Horrorizados
A alegria latente
De um homem
Que nada mais deseja
Do que um copo que rola
De boca em boca
Entre iguais.
Sexta-feira Santa
Em algum canto desta
Cidade
Um canto era cantado
Melodicamente
Numa voz melancolicamente
Arrasada
Pois era
Sexta-feira Santa
Que percorria as ruas
Em procissão
Carregando numa maca
Todo o peso do mundo
Todos os pecados
Cometidos
E os não cometidos
Por homens arrependidos
Sem culpa alguma
De serem homens
Apenas homens
E mulheres...
Cidade
Um canto era cantado
Melodicamente
Numa voz melancolicamente
Arrasada
Pois era
Sexta-feira Santa
Que percorria as ruas
Em procissão
Carregando numa maca
Todo o peso do mundo
Todos os pecados
Cometidos
E os não cometidos
Por homens arrependidos
Sem culpa alguma
De serem homens
Apenas homens
E mulheres...
terça-feira, 3 de abril de 2012
Brandindo pela noite
Havia um jeito especial
De por o violoncelo entre
As pernas
E brandir a vareta
Pelas cordas esticadas.
Nada mais havia
De mais belo do que
Tocar violoncelo.
De por o violoncelo entre
As pernas
E brandir a vareta
Pelas cordas esticadas.
Nada mais havia
De mais belo do que
Tocar violoncelo.
O vento assobiava
Quando passava por aquela rua
Alguém assobiava uma melodia
Uma suave e triste melodia
Alguém sofria pela amada
Que se fora.
Um vento soprava por entre
Os galhos de uma árvore
Que pendia
E pedia água.
Continuava a assobiar
Continuava a soprar
Sem que ninguém pudesse fazer
Pois nada mais havia
Senão ouvir
Pela noite afora.
Alguém assobiava uma melodia
Uma suave e triste melodia
Alguém sofria pela amada
Que se fora.
Um vento soprava por entre
Os galhos de uma árvore
Que pendia
E pedia água.
Continuava a assobiar
Continuava a soprar
Sem que ninguém pudesse fazer
Pois nada mais havia
Senão ouvir
Pela noite afora.
terça-feira, 27 de março de 2012
Paredes sujas de palavras
Quando as paredes não aceitarem
Nenhuma escritura
Destas carcomidas pelo tempo
Sujas
Muitas delas imundas
Onde mais poderei escrever
Escrituras
Que possam ser lidas
No anonimato
Clandestinos das periferias?
Quando nenhuma parede for possível
Impossível será viver
Senão na angústia
De dizer somente
Aquilo que pode ser dito
E serei maldito na contramão
De um fluxo corrente
Só por correr diferente
Nenhuma escritura
Destas carcomidas pelo tempo
Sujas
Muitas delas imundas
Onde mais poderei escrever
Escrituras
Que possam ser lidas
No anonimato
Clandestinos das periferias?
Quando nenhuma parede for possível
Impossível será viver
Senão na angústia
De dizer somente
Aquilo que pode ser dito
E serei maldito na contramão
De um fluxo corrente
Só por correr diferente
Um cínico esquecimento
Simplesmente esquecemo-nos
De que as almas atropeladas
Necessitam de cuidados
Que deixados de lado
De lado continuam existindo
Sem que nada seja feito
Ignoradas
Para que o tempo dê tempo
Para um possível perdão
Quando isso acontecer
Os cabelos brancos formados
Não resistirão
E nada mais precisará
Ser feito
Como nada tivesse
Um dia
Acontecido...
De que as almas atropeladas
Necessitam de cuidados
Que deixados de lado
De lado continuam existindo
Sem que nada seja feito
Ignoradas
Para que o tempo dê tempo
Para um possível perdão
Quando isso acontecer
Os cabelos brancos formados
Não resistirão
E nada mais precisará
Ser feito
Como nada tivesse
Um dia
Acontecido...
Passagem do tempo
Mais uma vez março
Chega ao fim
Como da vez anterior
Como se quiséssemos
Mantê-lo
Infinitamente
Março
E março iniciava-se
Para continuar apenas
Março
E assim nenhum outro
Mês seria possível
Ninguém nasceria
Ninguém morreria
Que não fosse em março
Mas março se foi
Mal começou
Não demorou muito
E passou
Como nunca estivesse aqui
Deixando saudade
Que também
Passou
Chega ao fim
Como da vez anterior
Como se quiséssemos
Mantê-lo
Infinitamente
Março
E março iniciava-se
Para continuar apenas
Março
E assim nenhum outro
Mês seria possível
Ninguém nasceria
Ninguém morreria
Que não fosse em março
Mas março se foi
Mal começou
Não demorou muito
E passou
Como nunca estivesse aqui
Deixando saudade
Que também
Passou
sexta-feira, 23 de março de 2012
Caçador de imagens
Imagens que um dia
Capturei
Não eram minhas
Nem eram minhas
Os olhos que pensei
Serem minhas
Nem minhas lentes
Eram minhas
E assim aquelas imagens
Foram-se
Como pássaros fugidos
Que achei um dia
Seriam minhas
Apenas minhas
Uma ilusão insensata
Que se foi também
Não mais minha
Capturei
Não eram minhas
Nem eram minhas
Os olhos que pensei
Serem minhas
Nem minhas lentes
Eram minhas
E assim aquelas imagens
Foram-se
Como pássaros fugidos
Que achei um dia
Seriam minhas
Apenas minhas
Uma ilusão insensata
Que se foi também
Não mais minha
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