Um, zero, zero e zero, que é diferente de
zero, zero, zero e um.
milésimo poema deste blog.
Como saber se as escolhas da nossa vida são certas? Não há como. Apenas apreciar o momento e deixar nossa vida ser levada pelo vento, pois somos o próprio vento.
Como me mover diante desta compaixão? Deste grande coração que indiscriminadamente tudo envolve?
Até minha cegueira desordenada, calibrada no auto-realizar, duvidosa e cheia de dúvidas. Alimentada por uma avalanche sinestésica informada em sociedade.
A rama seca Ali, à espera das águas de uma primavera inalcançável, sustentada pela terra, agora quebradiça e empedrada pelos veios de uma cidade já morta.
Ah, rama! És a única vida ali vivendo, entregue ao movimento dos ventos. Debaixo d'um céu azul, não orando, mas sim esperando, apenas, Que a água volte ao seu útero.
Há pássaros que não ficam em gaiolas. Por mais que o homem pense o contrário, alguns destes animais foram feitos para voar. Despreocupados da chuva, do Sol, do contra-vento e dos gatos.
Ora, os gatos são bonitos! Quem dera, assim como me alimentei, alimentar o gato da forma naturalmente mais bonita!
Nesse mundo, as coisas sempre devem encaixar-se, quase como
regra.
Uma busca infiel, por uma vida encaixada, que possa ter todas as suas frestas e
arestas completadas por algo, seja a si
próprio, seja o outro.
As coisas devem ser sempre encaixadas para que sejam satisfatórias. Sempre deve
haver um encaixe inverso, seu complementar, naquela forma ideal.
Onde encontrar este complemento?
A luz encontra a escuridão, o vermelho encontra o ciano, o bule encontra a água
e a colher encontra o mel.
Eu? Eu encontro a própria vida, refletida num papel em
branco diante do meu rosto.
Ah! O peso destruidor que esta vida mal vivida me presenteou. Amarrado à uma cadeira que só tem quatro pernas, numa mesa de canto, onde apoio textos centopéiecos que me lançam numa explosão de sensações e vontades curiosas.
Ah! A vontade de correr para um destino que ainda não sei, com os pés descalços na orla da mais isolada das praias, longe daqui, onde a rua corta meus dedos.
Mas tudo isso não passa de um sonho de olhos abertos e que estão vidrados nas histórias daqueles meus heróis que puderam caminhar o mundo e fazê-lo suas casas.
Querer ser como eles me trás o medo de ser como eles, desbravadores e incertos quanto seus finais.
Se algo forma, indubitavelmente por outro foi formado, que anteriormente também formado por um mais, ele foi.
Eu vejo a forma que me forma a partir de sua forma e percebo que eu próprio sou a forma que me forma a partir de sua própria forma. Minha forma é a não forma, formada por uma forma que é a não forma da outra forma, que também é a não forma de uma não forma.
A forma que me forma é a forma que eu formo, que formará e que formarão as formas que sempre serão a não forma de uma única formação.
Eu formo. Tu forma. Ele e ela forma. Nós, forma.
Tudo é forma, de uma só forma, sendo a não forma a forma desta forma.
Um museu da infância Guardava as aventuras do presente Com castelos e dragões Florestas encantadas Frutos de imaginações que agora vêem a realidade Abaixo, em escombros Tingidos de amarelo alaranjado
*****
A mãe e o filho Que esperam pacientemente onde era ali, um reino encantado Destruído na madrugada Na esperança de que reste ao meno um livro Capaz de levá-los dali À um mundo onde as creches não são destruídas
*****
Somente as árvores Na manhã alaranjada A creche em cacos
Nesta manhã solitária
O ruído das máquinas
É um consolo
Enquanto isso
Uma brisa chega
Soprando levemente
Pelo rosto de barba mal feita
E passeia
Pelas ruas de rostos anônimos
Acariciando às vezes
Maltratando às vezes
Desaparecendo por fim
Por detrás das árvores
Cujas folhas caíram todas
E expondo seus galhos
Como braços que avançam
Pelo céu encoberto por
Suave e fina poeira
Uma névoa que esconde
Os pés descalços que calcam
O chão gelado de inverno
Que apenas inicia-se
Pelas estradas da eternidade Apenas o pó sobressaltando-se Dos sapatos que pisam descompassadamente Para algum lugar impossível De chegar um dia Sem partida alguma Nunca fora realizada Poderia parar Por uma teimosia E pararia de viver E pararia de andar Se isso acontecesse O próprio caminho Andaria por mim Pois nenhum caminho existe Se inexiste o caminhante Errar é preciso pelos caminhos Que não existiam antes Que existirão para sempre
Ainda que dolorida seja Uma dor não pretendida Não foi por acaso Um encontro desnecessário Em que a felicidade não passou De um vento sorrateiro Brincando por acaso Nos papéis picados Que saltitantes Assentaram-se depois No chão Para serem varridos
Nunca coloquei uma pipa A voar Além dos dois metros E nunca meus sonhos Foram além dos dois metros.
Nunca invejei as pipas Coladas no céu azul Em linhas esticadas Unindo a terra Com todo firmamento.
Pois a minha pipa voava Apenas dois metros Até cair E quebrar-se todo.
Nunca me importei com isso Como se isso fosse importante Importante eram os lábios De Elizabeth A filha da empregada Que não gostava de pipa Que brincava de boneca Eu era Jack "o Extripador"...
Aquelas mulheres de negro Percorriam a procissão Nas noites escuras Iluminadas por velas Carregadas por elas Por todos que seguiam Em passos cadenciados A longa via de uma morte Anunciada Carregando nas costas O peso do mundo Com todos os apegos E sofrimentos E dores doídas De uma ilusão que não cessa De continuar cessando Uma ilusão que fora boa.
Pelas noites afora Continuam caminhando As mesmas velhas Vestidas de negro Com seu canto distanciado Anunciando Uma nova ilusão Alimento que nutre Os eternos iludidos De uma vida iludida Que desesperadamente Quer ser verdade.
As noites cada vez mais longas E longas são os nossos desesperos Na procura de algo perdido Que jamais será encontrado Senão os destroços de uma casa caída Após a passagem de um temporal
Passava todos os dias Na rua em que morava Passava com seus passos Em movimentos suaves Passava despertando Minha atenção Tinha mais idade do que eu Mas nada disso importava Nem quis falar com ela Apenas fingia Que não a notava Um dia descobri o seu nome Era Terezinha Era Terezinha que passava Na passagem de minha infância Que ficava cada vez mais Para trás
E agora Passados tantos anos Às vezes sinto ainda Terezinha passando Em minha memória Naquela mesma rua Em que morava E ela também Fingindo que não me via E eu também Fingindo que não a via.
Deste lado da cidade Uma favela sem nenhuma Vaidade comemora o domingo Na calçada mesmo Enquanto dos carros Olhares estranhos Apenas olham Horrorizados A alegria latente De um homem Que nada mais deseja Do que um copo que rola De boca em boca Entre iguais.
Em algum canto desta Cidade Um canto era cantado Melodicamente Numa voz melancolicamente Arrasada Pois era Sexta-feira Santa Que percorria as ruas Em procissão Carregando numa maca Todo o peso do mundo Todos os pecados Cometidos E os não cometidos Por homens arrependidos Sem culpa alguma De serem homens Apenas homens E mulheres...
Quando as paredes não aceitarem Nenhuma escritura Destas carcomidas pelo tempo Sujas Muitas delas imundas Onde mais poderei escrever Escrituras Que possam ser lidas No anonimato Clandestinos das periferias? Quando nenhuma parede for possível Impossível será viver Senão na angústia De dizer somente Aquilo que pode ser dito E serei maldito na contramão De um fluxo corrente Só por correr diferente
Simplesmente esquecemo-nos De que as almas atropeladas Necessitam de cuidados Que deixados de lado De lado continuam existindo Sem que nada seja feito Ignoradas Para que o tempo dê tempo Para um possível perdão Quando isso acontecer Os cabelos brancos formados Não resistirão E nada mais precisará Ser feito Como nada tivesse Um dia Acontecido...
Mais uma vez março Chega ao fim Como da vez anterior Como se quiséssemos Mantê-lo Infinitamente Março E março iniciava-se Para continuar apenas Março E assim nenhum outro Mês seria possível Ninguém nasceria Ninguém morreria Que não fosse em março Mas março se foi Mal começou Não demorou muito E passou Como nunca estivesse aqui Deixando saudade Que também Passou
Imagens que um dia Capturei Não eram minhas Nem eram minhas Os olhos que pensei Serem minhas Nem minhas lentes Eram minhas E assim aquelas imagens Foram-se Como pássaros fugidos Que achei um dia Seriam minhas Apenas minhas Uma ilusão insensata Que se foi também Não mais minha
Havia no caminho Uma pedra Havia no caminho Duas pedras Ainda assim continuei Caminhando Ainda que pudesse Encontrar pelo caminho Mais uma pedra E um dia passei A achar que todo caminho Era de pedra E meus pés antes macios Sangraram Sem que ninguém se importasse E meus pés endureceram E meu coração antes duro Teve que de vez Amolecer E nenhum caminho Foi suficientemente duro Nem duro foi a pedra Capaz de deter meu caminho Meu caminhar lento Parado e andado Caído e levantado Numa teimosia Que alegra o andar Deste andarilho.
Podem xingar Não revido Podem cuspir Não revido Podem maldizer Não revido Podem ameaçar Não revido Podem desprezar até Ainda assim não revido Quem sabe assim Possa rir de mim mesmo E das pessoas sérias Que acreditam Em suas próprias seriedades Vitaminadas Com cápsulas de prosac Papelotes de açúcar
Pelas veias ainda em turbilhão As ondas que varreram em instantes Imensas costas japonesas Levaram as vidas que jamais Serão vividas Abaixo do mesmo sol Em que compartilho As dores passadas As dores presentes De um tsunami Que não deixará cedo A memória dos filhos do Oriente
Havia numa parede suja Uma pichação Que na calada da noite Alguém deixou cair a tinta Uma gata imensa e preta Solitária Que acordou de enxaqueca De uma noite mal dormida Uma gata perdida Abandonada na rua Arredia
Quando o esquecimento não vem Continuamos vivendo Com a alegria de ter passado Uma alegria repentina Uma faísca vivida Que ainda teima em não se apagar Que ainda teima em manter-se acesa Por teimosia Apenas por teimosia
Alguns passam em nossas vidas Passageiros de uma viagem Que começa sem nenhum aviso E passageiros ficamos amigos E de passagem lá se foi Num instante Sem deixar pistas Pelo caminho Sem saudades Como nada tivesse passado Passado que esquecemos Em seguida Para começar nova viagem De passagem