Atire a primeira pedra
- no pássaro preto.
Atire a segunda pedra
-no pássaro preto.
Cada vez mais ferido ficou
Quem a pedra atirou
O pássaro se foi
O pássaro nunca esteve
O pássaro não passou
De uma ilusão de imagem?
Uma ilusão que pousou
No muro de meu jardim.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Noite solitária
Nos olhos entrecortados
A tarde deita-se atrás das nuvens
Num sono agitado
Em que os gatos
Caçam andorinhas
Que despencam dos galhos
Curvos e ressecados
De final de outono.
Quando as luzes acendem-se
Nas lanternas japonesas
Uma brancura leitosa
Começa a derramar-se
Sobre as nossas capas
De uma chuva passada.
E por estes caminhos
Que os pés insistem em pisar
Só pisam em espinhos
Deixando um rastro
Sinuoso de lamentação.
Assim o vento sussurra
Suave canção de minar
Canção que vai morrendo...
A tarde deita-se atrás das nuvens
Num sono agitado
Em que os gatos
Caçam andorinhas
Que despencam dos galhos
Curvos e ressecados
De final de outono.
Quando as luzes acendem-se
Nas lanternas japonesas
Uma brancura leitosa
Começa a derramar-se
Sobre as nossas capas
De uma chuva passada.
E por estes caminhos
Que os pés insistem em pisar
Só pisam em espinhos
Deixando um rastro
Sinuoso de lamentação.
Assim o vento sussurra
Suave canção de minar
Canção que vai morrendo...
domingo, 17 de junho de 2012
Sumiê
Um velho buda
Recriando budas
Com seus pincéis
E sua tinta de carvão
Trabalhando em sua solidão
Com toda a grande Terra
E os seres sencientes
Sob a estrela da manhã
Um velho buda
E sua tinta de carvão
Recriando budas
Com seus pincéis
E sua tinta de carvão
Trabalhando em sua solidão
Com toda a grande Terra
E os seres sencientes
Sob a estrela da manhã
Um velho buda
E sua tinta de carvão
Um fado cantado
Numa janela havia
Uma triste melodia
De um país distante
Além destes mares
De saudade chorava
Era Amália Rodrigues
Que se afogava
Nas beiras do Tejo.
Uma triste melodia
De um país distante
Além destes mares
De saudade chorava
Era Amália Rodrigues
Que se afogava
Nas beiras do Tejo.
Correndo contra o vento
Nenhuma saudade ficou
Mas ainda que pudesse
Esquecer
O passado é ardiloso
Muito mais do que
A vontade
De sofrer de uma amnésia
Consentida.
Mas ainda que pudesse
Esquecer
O passado é ardiloso
Muito mais do que
A vontade
De sofrer de uma amnésia
Consentida.
Caminhante noturno
Nestas noites longas
Em que os passos longamente
Estendem-se pelo espaço
Mal pisam o chão
Cada vez mais distantes
De uma experiência visceral
Senão vivenciada
Em seu mais profundo
Mar de incertezas.
Em que os passos longamente
Estendem-se pelo espaço
Mal pisam o chão
Cada vez mais distantes
De uma experiência visceral
Senão vivenciada
Em seu mais profundo
Mar de incertezas.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Os pés que pisoteiam
Apenas havia
Naquele caminho de sempre
Folhas secas
Que desprezadas
Foram pisoteadas
Sem piedade.
Os mesmos pés
Que incessantemente
Não se cansam
De pisotear
Este chão sagrado
Morada dos deuses
Que sustentam
Nossas casas
Nossos estômagos
Sedentos de alimentos
Que bebe da terra.
Ainda assim
Pisamos
Com sapatos
Impuros
De toda insolência
Humana.
Naquele caminho de sempre
Folhas secas
Que desprezadas
Foram pisoteadas
Sem piedade.
Os mesmos pés
Que incessantemente
Não se cansam
De pisotear
Este chão sagrado
Morada dos deuses
Que sustentam
Nossas casas
Nossos estômagos
Sedentos de alimentos
Que bebe da terra.
Ainda assim
Pisamos
Com sapatos
Impuros
De toda insolência
Humana.
terça-feira, 5 de junho de 2012
Só vou com o vento
Sem nenhum passado
Que se foi com o vento
Sem futuro vindouro
Que distante ficou
Sou tenho o presente
Que nem posso reter
Entre os meus dedos
Se assim pudesse ser.
Para quê as lembranças
Fumaças do tempo
Que de tempo em tempo
Vão se dissipando
Em minha memória.
Que se foi com o vento
Sem futuro vindouro
Que distante ficou
Sou tenho o presente
Que nem posso reter
Entre os meus dedos
Se assim pudesse ser.
Para quê as lembranças
Fumaças do tempo
Que de tempo em tempo
Vão se dissipando
Em minha memória.
Eterno peregrino
Daquilo que ficou
São as nuvens de Shogoji
Abaixo das montanhas
Brancas
Em que podiam se caminhar
Sem afundar as pernas
Nos alagados dos arrozais
Nos carvalhos vetustos
Em que vivi
Meus melhores dias.
Ainda caminho
Pelas mesmas trilhas
Que um dia
Caminhei.
Ainda existe em mim
A mesma escadaria
De pedras pontiagudas
Precipícios
Em que caíram
Guerreiros de outros tempos.
Uma vez que lá esteja
Nunca mais saímos de lá
Onde quer que possamos
Caminhar
Caminhamos a mesma trilha.
Manhãs que não acabam
Uma instabilidade temporária
Em tempos de chuva
A alma liquefeita
Escorre pelas ruas
Sem pressa alguma
Por chegar a algum lugar.
Nunca chegamos
Sempre estamos
No mesmo lugar.
Como é agradável
Ouvir
A chuva caindo devagar
Nestas manhãs alongadas
De outono.
Como o outono demora
Para passar.
Em tempos de chuva
A alma liquefeita
Escorre pelas ruas
Sem pressa alguma
Por chegar a algum lugar.
Nunca chegamos
Sempre estamos
No mesmo lugar.
Como é agradável
Ouvir
A chuva caindo devagar
Nestas manhãs alongadas
De outono.
Como o outono demora
Para passar.
domingo, 3 de junho de 2012
Muito fluido
Apenas imagens
Que numa fumaça
Foram se dissipando
Como nada tivesse
Importância
Um filme antigo
Que uma vez visto
Não se repete mais.
Que numa fumaça
Foram se dissipando
Como nada tivesse
Importância
Um filme antigo
Que uma vez visto
Não se repete mais.
O pássaro criador
Ainda que mergulhemos
No mais profundo
Sentimento
Num mar sem fundo
Nada mais existe
Do que o silêncio
Silencioso e derradeiro
De uma tarde
Em que sorrateira
Uma gralha azul
Inventa a vida
De um galho ressecado
Que balança
Ao sabor do vento.
No mais profundo
Sentimento
Num mar sem fundo
Nada mais existe
Do que o silêncio
Silencioso e derradeiro
De uma tarde
Em que sorrateira
Uma gralha azul
Inventa a vida
De um galho ressecado
Que balança
Ao sabor do vento.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O que queima
Uma borboleta de cristal
Reflete um azul infinito
Vindo do mar
Vindo do céu
Vindo de todo lugar
Dos olhos de Mariana
Que ardentes
Provocaram em minha pele
Uma queimação apaixonada
Que ainda guardo
Como prêmio.
Reflete um azul infinito
Vindo do mar
Vindo do céu
Vindo de todo lugar
Dos olhos de Mariana
Que ardentes
Provocaram em minha pele
Uma queimação apaixonada
Que ainda guardo
Como prêmio.
Entre as paredes
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não ter estudado
Matemática
Nem geometria.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não ter sido
Um atleta competente.
Perdoem-me
Minhas limitações
Nos estudos elevados.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não tocar flauta
Nem saber cantar.
Nesta vida inteira
Pouco fiz
Não tomei bebedeira
Não conheci Paris.
Nem fui bom
Um tanto mau
Por isso uma acidez
Contínua me destrói
O estômago.
Fui um mentiroso
Que acreditava ainda
Que ainda
Uma garota de olhos grandes
Haveria
De ser musa eterna.
Que escrever espantava
Uma solidão permitida
Dos desvairados
Presos em seus quartos
Cuja poeira
Caia densa
Num assoalho de cera
Vermelha.
Minhas limitações
Por não ter estudado
Matemática
Nem geometria.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não ter sido
Um atleta competente.
Perdoem-me
Minhas limitações
Nos estudos elevados.
Perdoem-me
Minhas limitações
Por não tocar flauta
Nem saber cantar.
Nesta vida inteira
Pouco fiz
Não tomei bebedeira
Não conheci Paris.
Nem fui bom
Um tanto mau
Por isso uma acidez
Contínua me destrói
O estômago.
Fui um mentiroso
Que acreditava ainda
Que ainda
Uma garota de olhos grandes
Haveria
De ser musa eterna.
Que escrever espantava
Uma solidão permitida
Dos desvairados
Presos em seus quartos
Cuja poeira
Caia densa
Num assoalho de cera
Vermelha.
Um passo atrás
O que pode sustentar
A inércia deste corpo
Maltratado pelo vento
Que caminha de costas
Sem ver adiante
Vendo sempre
Os próprios passos
Se apagando ao relento
As marcas postas
Numa trilha de cal.
E tudo se passa
Em instantes
Numa vida que passa
Num passado que passa
Na inconstância
Das imagens opacas
De um fantasma.
Mas sentimos saudades
De um tempo passado
Que passou
Do amor passageiro
Que não passa
De uma sombra
Do passado
Que continua passando
Como filme antigo
Num cinema decadente
Habitado pelos ratos.
Somente os ratos existem
Neste momento
Que continuam a roer
As paredes grossas
De meu baú de passados.
A inércia deste corpo
Maltratado pelo vento
Que caminha de costas
Sem ver adiante
Vendo sempre
Os próprios passos
Se apagando ao relento
As marcas postas
Numa trilha de cal.
E tudo se passa
Em instantes
Numa vida que passa
Num passado que passa
Na inconstância
Das imagens opacas
De um fantasma.
Mas sentimos saudades
De um tempo passado
Que passou
Do amor passageiro
Que não passa
De uma sombra
Do passado
Que continua passando
Como filme antigo
Num cinema decadente
Habitado pelos ratos.
Somente os ratos existem
Neste momento
Que continuam a roer
As paredes grossas
De meu baú de passados.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Era uma creche
Um museu da infância
Guardava as aventuras do presente
Com castelos e dragões
Florestas encantadas
Frutos de imaginações que agora vêem a realidade
Abaixo, em escombros
Tingidos de amarelo alaranjado
Guardava as aventuras do presente
Com castelos e dragões
Florestas encantadas
Frutos de imaginações que agora vêem a realidade
Abaixo, em escombros
Tingidos de amarelo alaranjado
*****
A mãe e o filho
Que esperam pacientemente
onde era ali, um reino encantado
Destruído na madrugada
Na esperança de que reste ao meno um livro
Capaz de levá-los dali
À um mundo onde as creches não são destruídas
Que esperam pacientemente
onde era ali, um reino encantado
Destruído na madrugada
Na esperança de que reste ao meno um livro
Capaz de levá-los dali
À um mundo onde as creches não são destruídas
*****
Somente as árvores
Na manhã alaranjada
A creche em cacos
Na manhã alaranjada
A creche em cacos
quarta-feira, 30 de maio de 2012
O corvo branco
Nem era amarelo
o corvo que surgiu
o corvo que sonhei
era branco.
Fiz que não o via
fiz que não sabia
do corvo branco
de olhos fundos
profundo era o mar
que nos separava
o corvo que não se ia
e lá ficou
em minha morada
como fosse sua
sempre tivesse nela
vivido.
Um corvo que disse seu nome
Sempre estarei
Ainda que queira me livrar
dele
serei sincero nisso?
Estarei mentindo
mais uma vez
e toda vez que negá-lo
surgirá de novo
o mesmo corvo
a dizer seu nome
Sempre estarei
Não passarei mais frio
medo tampouco
não estarei sozinho
pois
Sempre estarei
estará do meu lado
com penugens brancas
não as de um pombo
que traz a paz
no coração dos homens
mas as brancas de um corvo
que traz a dúvida
que incomoda
que acalenta
a intranqüilidade
do homem que quer
a noite
que o dia cega-lhe os olhos
mas o sereno da madrugada
refresca as artérias
cheias de uma água rala
de beterraba.
o corvo que surgiu
o corvo que sonhei
era branco.
Fiz que não o via
fiz que não sabia
do corvo branco
de olhos fundos
profundo era o mar
que nos separava
o corvo que não se ia
e lá ficou
em minha morada
como fosse sua
sempre tivesse nela
vivido.
Um corvo que disse seu nome
Sempre estarei
Ainda que queira me livrar
dele
serei sincero nisso?
Estarei mentindo
mais uma vez
e toda vez que negá-lo
surgirá de novo
o mesmo corvo
a dizer seu nome
Sempre estarei
Não passarei mais frio
medo tampouco
não estarei sozinho
pois
Sempre estarei
estará do meu lado
com penugens brancas
não as de um pombo
que traz a paz
no coração dos homens
mas as brancas de um corvo
que traz a dúvida
que incomoda
que acalenta
a intranqüilidade
do homem que quer
a noite
que o dia cega-lhe os olhos
mas o sereno da madrugada
refresca as artérias
cheias de uma água rala
de beterraba.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Para espantar a solidão
Pela manhã
Pelas ruas de minha cidade
Uma multidão se move
E coça os olhos
Assim espanta o sono
Dessas noites mal dormidas
Em que visita-nos
Os ratos de esgoto
Buscando companhia.
Pelas ruas de minha cidade
Uma multidão se move
E coça os olhos
Assim espanta o sono
Dessas noites mal dormidas
Em que visita-nos
Os ratos de esgoto
Buscando companhia.
Um murmúrio apenas
Nenhum silêncio se compara
Com o silêncio das cidades
Entre os murmúrios dos desesperados
O choro dos loucos
O gemido dos que se encontram
Em convulsão de um encontro amoroso.
Nada disso incomoda
Meus ânimos acostumados
Com o desencontro das vozes
E dos sons apagados
Que apenas querem se fazer
Presentes nas esquinas
Dos becos cheirando urina
Dos gatos andando como bailarina
Aos saltos
Como que os pés estivessem
Em brasa.
Neste burburinho de ondas
Que se levantam e se afastam
Da areia das construções
Minha voz é apenas
Um detalhe
Que na angústia de sua
Existência
Minha existência
Surge rouca
Afetada por um resfriado
Mal cuidado
Que insiste em ficar
No corpo semeado
De bactérias
E células que vão morrendo...
Com o silêncio das cidades
Entre os murmúrios dos desesperados
O choro dos loucos
O gemido dos que se encontram
Em convulsão de um encontro amoroso.
Nada disso incomoda
Meus ânimos acostumados
Com o desencontro das vozes
E dos sons apagados
Que apenas querem se fazer
Presentes nas esquinas
Dos becos cheirando urina
Dos gatos andando como bailarina
Aos saltos
Como que os pés estivessem
Em brasa.
Neste burburinho de ondas
Que se levantam e se afastam
Da areia das construções
Minha voz é apenas
Um detalhe
Que na angústia de sua
Existência
Minha existência
Surge rouca
Afetada por um resfriado
Mal cuidado
Que insiste em ficar
No corpo semeado
De bactérias
E células que vão morrendo...
domingo, 20 de maio de 2012
As ruas de outrora
Por aquelas ruas em que andava
Em cujas fachadas das casas
Havia uma intimidade que saia
Através das janelas e cortinas amarelas
Nada mais restou no local
Mas ainda assim
Em alguma parte de mim
Somente isso continua a existir
Como sempre existiu
Nos olhos de menino
Que continuam existindo.
Em cujas fachadas das casas
Havia uma intimidade que saia
Através das janelas e cortinas amarelas
Nada mais restou no local
Mas ainda assim
Em alguma parte de mim
Somente isso continua a existir
Como sempre existiu
Nos olhos de menino
Que continuam existindo.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Noites sem estrelas
Numa sexta-feira
Quando a noite chega
Minha gata preta
Mia e pede atenção.
Sem que ninguém dê
Atenção
O casal de mendigos
Que não fala com ninguém
Como ninguém mais existisse
Prepara a cama
Para um repouso gelado
E sonha com uma cama
Macia
Que nunca teve
Em sua vida
Nem travesseiros
Nem lençóis brancos
Apenas o céu
Sem uma única estrela
Como companhia
Seu único amigo
Pulguento ao lado
E assim podem se aquecer.
Quando a noite chega
Minha gata preta
Mia e pede atenção.
Sem que ninguém dê
Atenção
O casal de mendigos
Que não fala com ninguém
Como ninguém mais existisse
Prepara a cama
Para um repouso gelado
E sonha com uma cama
Macia
Que nunca teve
Em sua vida
Nem travesseiros
Nem lençóis brancos
Apenas o céu
Sem uma única estrela
Como companhia
Seu único amigo
Pulguento ao lado
E assim podem se aquecer.
Os caminhantes do tempo
Ao entardecer
As ruas são viajantes
De um tempo
Que deixou de existir
E parado
Somente as pessoas
Ainda continuam
Andando
Numa paisagem
Refletida no espelho.
As ruas são viajantes
De um tempo
Que deixou de existir
E parado
Somente as pessoas
Ainda continuam
Andando
Numa paisagem
Refletida no espelho.
O peso que levas
Nas costas carregava
Uma formiga
O mundo inteiro
Nas costas carrego
Também
O mundo inteiro
Todos os devaneios
Dos que ainda sonham
E não endureceram
Seus corações
Carrego os tolos
Também
Uma formiga
O mundo inteiro
Nas costas carrego
Também
O mundo inteiro
Todos os devaneios
Dos que ainda sonham
E não endureceram
Seus corações
Carrego os tolos
Também
Assim se fez o mundo
Havia pela cidade
Um murmúrio
Que nada dizia
Nem se lamentava
Que produzia
Uma constante
Corrente de conversas
Desencontradas
Como fosse o primeiro som
Da criação do mundo
Naquele momento
E assim
Deram-se nomes
E sobrenomes
Naquilo que antes
Nada tinha
Senão
Um depósito cheio
De coisas indefinidas
De uma memória
Ainda prestes a ser
Formada.
Um murmúrio
Que nada dizia
Nem se lamentava
Que produzia
Uma constante
Corrente de conversas
Desencontradas
Como fosse o primeiro som
Da criação do mundo
Naquele momento
E assim
Deram-se nomes
E sobrenomes
Naquilo que antes
Nada tinha
Senão
Um depósito cheio
De coisas indefinidas
De uma memória
Ainda prestes a ser
Formada.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Canto natural
Não tenho medo
o que tem medo é o medo
eu não tenho nada, nada,
nada possuo...
estou bem
aqui
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Felina selvagem
Uma gata perdida
Pelas ruas desta cidade
Não quer mais dono.
Uma gata perdida
Foi-se
E perdida vive
Seus devaneios.
Quisera detê-la comigo
Mas nenhuma gata
Torna-se dócil
Mais cedo
Mais tarde
Vai-se.
Das lembranças passadas
Tal como lembranças
Cuidadas com carinho
Lembranças
Que com o tempo caem
Caem no esquecimento.
Esta é uma esperança
Que não esqueci neste momento.
Pelas ruas desta cidade
Não quer mais dono.
Uma gata perdida
Foi-se
E perdida vive
Seus devaneios.
Quisera detê-la comigo
Mas nenhuma gata
Torna-se dócil
Mais cedo
Mais tarde
Vai-se.
Das lembranças passadas
Tal como lembranças
Cuidadas com carinho
Lembranças
Que com o tempo caem
Caem no esquecimento.
Esta é uma esperança
Que não esqueci neste momento.
Passeio sem amigos
Nesta manhã solitária
O ruído das máquinas
É um consolo
Enquanto isso
Uma brisa chega
Soprando levemente
Pelo rosto de barba mal feita
E passeia
Pelas ruas de rostos anônimos
Acariciando às vezes
Maltratando às vezes
Desaparecendo por fim
Por detrás das árvores
Cujas folhas caíram todas
E expondo seus galhos
Como braços que avançam
Pelo céu encoberto por
Suave e fina poeira
Uma névoa que esconde
Os pés descalços que calcam
O chão gelado de inverno
Que apenas inicia-se
O ruído das máquinas
É um consolo
Enquanto isso
Uma brisa chega
Soprando levemente
Pelo rosto de barba mal feita
E passeia
Pelas ruas de rostos anônimos
Acariciando às vezes
Maltratando às vezes
Desaparecendo por fim
Por detrás das árvores
Cujas folhas caíram todas
E expondo seus galhos
Como braços que avançam
Pelo céu encoberto por
Suave e fina poeira
Uma névoa que esconde
Os pés descalços que calcam
O chão gelado de inverno
Que apenas inicia-se
Diálogos com o louco
Um louco perguntou-me
O que é felicidade
Pensei
Não demorei muito
Porque um louco
Faria tal pergunta
Será que somente
Os loucos buscam
A felicidade!
E nessa loucura
Constante
Percebi
Nunca procurei
A felicidade
Mas a loucura sim
Como invejo os loucos
Que ainda sonham
Com a felicidade
Enquanto os duros de coração
Apenas vivem
Além da felicidade
Apenas vivem
Intensamente
A felicidade presente
A infelicidade também
O que é felicidade
Pensei
Não demorei muito
Porque um louco
Faria tal pergunta
Será que somente
Os loucos buscam
A felicidade!
E nessa loucura
Constante
Percebi
Nunca procurei
A felicidade
Mas a loucura sim
Como invejo os loucos
Que ainda sonham
Com a felicidade
Enquanto os duros de coração
Apenas vivem
Além da felicidade
Apenas vivem
Intensamente
A felicidade presente
A infelicidade também
terça-feira, 1 de maio de 2012
Sem passado
Viajante do tempo
Sem direção alguma
O que me move
Neste instante
Senão
A vontade de sentir-me
Vivo
Sem passado
Sem lembranças
Que tenham passado
Que valha a pena de ser
Repassado
Sem direção alguma
O que me move
Neste instante
Senão
A vontade de sentir-me
Vivo
Sem passado
Sem lembranças
Que tenham passado
Que valha a pena de ser
Repassado
terça-feira, 24 de abril de 2012
Tudo parado
Pela avenida havia
Um sinal vermelho
E todos de repente
Paravam
E paravam de viver!
Nada mais faziam
Nem respiravam
Por um momento apenas
E o mundo também parava
De girar
Apenas um Buda de pedra
Que parado olhava
Com seus olhos finos
Sorria
Demoradamente
Sem pressa
Que o sinal mudasse
De cor
Um tempo demorado
De minutos parado
Numa esquina da rua
domingo, 15 de abril de 2012
Caminhante e o caminho
Pelas estradas da eternidade
Apenas o pó sobressaltando-se
Dos sapatos que pisam descompassadamente
Para algum lugar impossível
De chegar um dia
Sem partida alguma
Nunca fora realizada
Poderia parar
Por uma teimosia
E pararia de viver
E pararia de andar
Se isso acontecesse
O próprio caminho
Andaria por mim
Pois nenhum caminho existe
Se inexiste o caminhante
Errar é preciso pelos caminhos
Que não existiam antes
Que existirão para sempre
Apenas o pó sobressaltando-se
Dos sapatos que pisam descompassadamente
Para algum lugar impossível
De chegar um dia
Sem partida alguma
Nunca fora realizada
Poderia parar
Por uma teimosia
E pararia de viver
E pararia de andar
Se isso acontecesse
O próprio caminho
Andaria por mim
Pois nenhum caminho existe
Se inexiste o caminhante
Errar é preciso pelos caminhos
Que não existiam antes
Que existirão para sempre
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Por um momento
Ainda que dolorida seja
Uma dor não pretendida
Não foi por acaso
Um encontro desnecessário
Em que a felicidade não passou
De um vento sorrateiro
Brincando por acaso
Nos papéis picados
Que saltitantes
Assentaram-se depois
No chão
Para serem varridos
Uma dor não pretendida
Não foi por acaso
Um encontro desnecessário
Em que a felicidade não passou
De um vento sorrateiro
Brincando por acaso
Nos papéis picados
Que saltitantes
Assentaram-se depois
No chão
Para serem varridos
terça-feira, 10 de abril de 2012
Jogos da infância
Nunca coloquei uma pipa
A voar
Além dos dois metros
E nunca meus sonhos
Foram além dos dois metros.
Nunca invejei as pipas
Coladas no céu azul
Em linhas esticadas
Unindo a terra
Com todo firmamento.
Pois a minha pipa voava
Apenas dois metros
Até cair
E quebrar-se todo.
Nunca me importei com isso
Como se isso fosse importante
Importante eram os lábios
De Elizabeth
A filha da empregada
Que não gostava de pipa
Que brincava de boneca
Eu era Jack "o Extripador"...
A voar
Além dos dois metros
E nunca meus sonhos
Foram além dos dois metros.
Nunca invejei as pipas
Coladas no céu azul
Em linhas esticadas
Unindo a terra
Com todo firmamento.
Pois a minha pipa voava
Apenas dois metros
Até cair
E quebrar-se todo.
Nunca me importei com isso
Como se isso fosse importante
Importante eram os lábios
De Elizabeth
A filha da empregada
Que não gostava de pipa
Que brincava de boneca
Eu era Jack "o Extripador"...
As caminhantes da procissão
Aquelas mulheres de negro
Percorriam a procissão
Nas noites escuras
Iluminadas por velas
Carregadas por elas
Por todos que seguiam
Em passos cadenciados
A longa via de uma morte
Anunciada
Carregando nas costas
O peso do mundo
Com todos os apegos
E sofrimentos
E dores doídas
De uma ilusão que não cessa
De continuar cessando
Uma ilusão que fora boa.
Pelas noites afora
Continuam caminhando
As mesmas velhas
Vestidas de negro
Com seu canto distanciado
Anunciando
Uma nova ilusão
Alimento que nutre
Os eternos iludidos
De uma vida iludida
Que desesperadamente
Quer ser verdade.
Percorriam a procissão
Nas noites escuras
Iluminadas por velas
Carregadas por elas
Por todos que seguiam
Em passos cadenciados
A longa via de uma morte
Anunciada
Carregando nas costas
O peso do mundo
Com todos os apegos
E sofrimentos
E dores doídas
De uma ilusão que não cessa
De continuar cessando
Uma ilusão que fora boa.
Pelas noites afora
Continuam caminhando
As mesmas velhas
Vestidas de negro
Com seu canto distanciado
Anunciando
Uma nova ilusão
Alimento que nutre
Os eternos iludidos
De uma vida iludida
Que desesperadamente
Quer ser verdade.
Após temporal
As noites cada vez mais longas
E longas são os nossos desesperos
Na procura de algo perdido
Que jamais será encontrado
Senão os destroços de uma casa caída
Após a passagem de um temporal
E longas são os nossos desesperos
Na procura de algo perdido
Que jamais será encontrado
Senão os destroços de uma casa caída
Após a passagem de um temporal
sexta-feira, 6 de abril de 2012
A moça passava
Passava todos os dias
Na rua em que morava
Passava com seus passos
Em movimentos suaves
Passava despertando
Minha atenção
Tinha mais idade do que eu
Mas nada disso importava
Nem quis falar com ela
Apenas fingia
Que não a notava
Um dia descobri o seu nome
Era Terezinha
Era Terezinha que passava
Na passagem de minha infância
Que ficava cada vez mais
Para trás
E agora
Passados tantos anos
Às vezes sinto ainda
Terezinha passando
Em minha memória
Naquela mesma rua
Em que morava
E ela também
Fingindo que não me via
E eu também
Fingindo que não a via.
Na rua em que morava
Passava com seus passos
Em movimentos suaves
Passava despertando
Minha atenção
Tinha mais idade do que eu
Mas nada disso importava
Nem quis falar com ela
Apenas fingia
Que não a notava
Um dia descobri o seu nome
Era Terezinha
Era Terezinha que passava
Na passagem de minha infância
Que ficava cada vez mais
Para trás
E agora
Passados tantos anos
Às vezes sinto ainda
Terezinha passando
Em minha memória
Naquela mesma rua
Em que morava
E ela também
Fingindo que não me via
E eu também
Fingindo que não a via.
Periferia
Deste lado da cidade
Uma favela sem nenhuma
Vaidade comemora o domingo
Na calçada mesmo
Enquanto dos carros
Olhares estranhos
Apenas olham
Horrorizados
A alegria latente
De um homem
Que nada mais deseja
Do que um copo que rola
De boca em boca
Entre iguais.
Uma favela sem nenhuma
Vaidade comemora o domingo
Na calçada mesmo
Enquanto dos carros
Olhares estranhos
Apenas olham
Horrorizados
A alegria latente
De um homem
Que nada mais deseja
Do que um copo que rola
De boca em boca
Entre iguais.
Sexta-feira Santa
Em algum canto desta
Cidade
Um canto era cantado
Melodicamente
Numa voz melancolicamente
Arrasada
Pois era
Sexta-feira Santa
Que percorria as ruas
Em procissão
Carregando numa maca
Todo o peso do mundo
Todos os pecados
Cometidos
E os não cometidos
Por homens arrependidos
Sem culpa alguma
De serem homens
Apenas homens
E mulheres...
Cidade
Um canto era cantado
Melodicamente
Numa voz melancolicamente
Arrasada
Pois era
Sexta-feira Santa
Que percorria as ruas
Em procissão
Carregando numa maca
Todo o peso do mundo
Todos os pecados
Cometidos
E os não cometidos
Por homens arrependidos
Sem culpa alguma
De serem homens
Apenas homens
E mulheres...
terça-feira, 3 de abril de 2012
Brandindo pela noite
Havia um jeito especial
De por o violoncelo entre
As pernas
E brandir a vareta
Pelas cordas esticadas.
Nada mais havia
De mais belo do que
Tocar violoncelo.
De por o violoncelo entre
As pernas
E brandir a vareta
Pelas cordas esticadas.
Nada mais havia
De mais belo do que
Tocar violoncelo.
O vento assobiava
Quando passava por aquela rua
Alguém assobiava uma melodia
Uma suave e triste melodia
Alguém sofria pela amada
Que se fora.
Um vento soprava por entre
Os galhos de uma árvore
Que pendia
E pedia água.
Continuava a assobiar
Continuava a soprar
Sem que ninguém pudesse fazer
Pois nada mais havia
Senão ouvir
Pela noite afora.
Alguém assobiava uma melodia
Uma suave e triste melodia
Alguém sofria pela amada
Que se fora.
Um vento soprava por entre
Os galhos de uma árvore
Que pendia
E pedia água.
Continuava a assobiar
Continuava a soprar
Sem que ninguém pudesse fazer
Pois nada mais havia
Senão ouvir
Pela noite afora.
terça-feira, 27 de março de 2012
Paredes sujas de palavras
Quando as paredes não aceitarem
Nenhuma escritura
Destas carcomidas pelo tempo
Sujas
Muitas delas imundas
Onde mais poderei escrever
Escrituras
Que possam ser lidas
No anonimato
Clandestinos das periferias?
Quando nenhuma parede for possível
Impossível será viver
Senão na angústia
De dizer somente
Aquilo que pode ser dito
E serei maldito na contramão
De um fluxo corrente
Só por correr diferente
Nenhuma escritura
Destas carcomidas pelo tempo
Sujas
Muitas delas imundas
Onde mais poderei escrever
Escrituras
Que possam ser lidas
No anonimato
Clandestinos das periferias?
Quando nenhuma parede for possível
Impossível será viver
Senão na angústia
De dizer somente
Aquilo que pode ser dito
E serei maldito na contramão
De um fluxo corrente
Só por correr diferente
Um cínico esquecimento
Simplesmente esquecemo-nos
De que as almas atropeladas
Necessitam de cuidados
Que deixados de lado
De lado continuam existindo
Sem que nada seja feito
Ignoradas
Para que o tempo dê tempo
Para um possível perdão
Quando isso acontecer
Os cabelos brancos formados
Não resistirão
E nada mais precisará
Ser feito
Como nada tivesse
Um dia
Acontecido...
De que as almas atropeladas
Necessitam de cuidados
Que deixados de lado
De lado continuam existindo
Sem que nada seja feito
Ignoradas
Para que o tempo dê tempo
Para um possível perdão
Quando isso acontecer
Os cabelos brancos formados
Não resistirão
E nada mais precisará
Ser feito
Como nada tivesse
Um dia
Acontecido...
Passagem do tempo
Mais uma vez março
Chega ao fim
Como da vez anterior
Como se quiséssemos
Mantê-lo
Infinitamente
Março
E março iniciava-se
Para continuar apenas
Março
E assim nenhum outro
Mês seria possível
Ninguém nasceria
Ninguém morreria
Que não fosse em março
Mas março se foi
Mal começou
Não demorou muito
E passou
Como nunca estivesse aqui
Deixando saudade
Que também
Passou
Chega ao fim
Como da vez anterior
Como se quiséssemos
Mantê-lo
Infinitamente
Março
E março iniciava-se
Para continuar apenas
Março
E assim nenhum outro
Mês seria possível
Ninguém nasceria
Ninguém morreria
Que não fosse em março
Mas março se foi
Mal começou
Não demorou muito
E passou
Como nunca estivesse aqui
Deixando saudade
Que também
Passou
sexta-feira, 23 de março de 2012
Caçador de imagens
Imagens que um dia
Capturei
Não eram minhas
Nem eram minhas
Os olhos que pensei
Serem minhas
Nem minhas lentes
Eram minhas
E assim aquelas imagens
Foram-se
Como pássaros fugidos
Que achei um dia
Seriam minhas
Apenas minhas
Uma ilusão insensata
Que se foi também
Não mais minha
Capturei
Não eram minhas
Nem eram minhas
Os olhos que pensei
Serem minhas
Nem minhas lentes
Eram minhas
E assim aquelas imagens
Foram-se
Como pássaros fugidos
Que achei um dia
Seriam minhas
Apenas minhas
Uma ilusão insensata
Que se foi também
Não mais minha
Caminhos de pedra e terra
Havia no caminho
Uma pedra
Havia no caminho
Duas pedras
Ainda assim continuei
Caminhando
Ainda que pudesse
Encontrar pelo caminho
Mais uma pedra
E um dia passei
A achar que todo caminho
Era de pedra
E meus pés antes macios
Sangraram
Sem que ninguém se importasse
E meus pés endureceram
E meu coração antes duro
Teve que de vez
Amolecer
E nenhum caminho
Foi suficientemente duro
Nem duro foi a pedra
Capaz de deter meu caminho
Meu caminhar lento
Parado e andado
Caído e levantado
Numa teimosia
Que alegra o andar
Deste andarilho.
Uma pedra
Havia no caminho
Duas pedras
Ainda assim continuei
Caminhando
Ainda que pudesse
Encontrar pelo caminho
Mais uma pedra
E um dia passei
A achar que todo caminho
Era de pedra
E meus pés antes macios
Sangraram
Sem que ninguém se importasse
E meus pés endureceram
E meu coração antes duro
Teve que de vez
Amolecer
E nenhum caminho
Foi suficientemente duro
Nem duro foi a pedra
Capaz de deter meu caminho
Meu caminhar lento
Parado e andado
Caído e levantado
Numa teimosia
Que alegra o andar
Deste andarilho.
domingo, 11 de março de 2012
Os demônios criados
Podem xingar
Não revido
Podem cuspir
Não revido
Podem maldizer
Não revido
Podem ameaçar
Não revido
Podem desprezar até
Ainda assim não revido
Quem sabe assim
Possa rir de mim mesmo
E das pessoas sérias
Que acreditam
Em suas próprias seriedades
Vitaminadas
Com cápsulas de prosac
Papelotes de açúcar
Não revido
Podem cuspir
Não revido
Podem maldizer
Não revido
Podem ameaçar
Não revido
Podem desprezar até
Ainda assim não revido
Quem sabe assim
Possa rir de mim mesmo
E das pessoas sérias
Que acreditam
Em suas próprias seriedades
Vitaminadas
Com cápsulas de prosac
Papelotes de açúcar
Um ano depois do vendaval
Pelas veias ainda em turbilhão
As ondas que varreram em instantes
Imensas costas japonesas
Levaram as vidas que jamais
Serão vividas
Abaixo do mesmo sol
Em que compartilho
As dores passadas
As dores presentes
De um tsunami
Que não deixará cedo
A memória dos filhos do Oriente
As ondas que varreram em instantes
Imensas costas japonesas
Levaram as vidas que jamais
Serão vividas
Abaixo do mesmo sol
Em que compartilho
As dores passadas
As dores presentes
De um tsunami
Que não deixará cedo
A memória dos filhos do Oriente
domingo, 4 de março de 2012
Uma gata pichada
Havia numa parede suja
Uma pichação
Que na calada da noite
Alguém deixou cair a tinta
Uma gata imensa e preta
Solitária
Que acordou de enxaqueca
De uma noite mal dormida
Uma gata perdida
Abandonada na rua
Arredia
Uma pichação
Que na calada da noite
Alguém deixou cair a tinta
Uma gata imensa e preta
Solitária
Que acordou de enxaqueca
De uma noite mal dormida
Uma gata perdida
Abandonada na rua
Arredia
O passado é agora
Quando o esquecimento não vem
Continuamos vivendo
Com a alegria de ter passado
Uma alegria repentina
Uma faísca vivida
Que ainda teima em não se apagar
Que ainda teima em manter-se acesa
Por teimosia
Apenas por teimosia
Continuamos vivendo
Com a alegria de ter passado
Uma alegria repentina
Uma faísca vivida
Que ainda teima em não se apagar
Que ainda teima em manter-se acesa
Por teimosia
Apenas por teimosia
Passageiros de viagem
Alguns passam em nossas vidas
Passageiros de uma viagem
Que começa sem nenhum aviso
E passageiros ficamos amigos
E de passagem lá se foi
Num instante
Sem deixar pistas
Pelo caminho
Sem saudades
Como nada tivesse passado
Passado que esquecemos
Em seguida
Para começar nova viagem
De passagem
Passageiros de uma viagem
Que começa sem nenhum aviso
E passageiros ficamos amigos
E de passagem lá se foi
Num instante
Sem deixar pistas
Pelo caminho
Sem saudades
Como nada tivesse passado
Passado que esquecemos
Em seguida
Para começar nova viagem
De passagem
quinta-feira, 1 de março de 2012
vó
Minha vó, que se foi sem avisar
não mora no firmamento
nem saiu de viagem
vive, secretamente, só eu sei
no cheiro delicioso
da uva Niágara
não mora no firmamento
nem saiu de viagem
vive, secretamente, só eu sei
no cheiro delicioso
da uva Niágara
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Apagão
Pouco a pouco a vela desaparece
Pouco a pouco meu reflexo desaparece
Pouco a pouco eu desapareço
No fim, apenas escuridão.
Pouco a pouco meu reflexo desaparece
Pouco a pouco eu desapareço
No fim, apenas escuridão.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Carnaval dos tempos idos
Meu cordão de carnaval
Parava a avenida
De uma cidade vizinha
E vinha toda a vizinhança
Para ver uma turba fantasiada
De boi preto que corria solto
Sobre a multidão que corria de medo
Que ria
Que saltava
E vivia intensamente
Uma vida que acabava
Em quatro dias.
Vivi mais do que isso
Mas não vivi tanto
Quanto vivia naqueles tempos
Em quatro dias.
Meu cordão de carnaval
Parava a avenida...
Parava a avenida
De uma cidade vizinha
E vinha toda a vizinhança
Para ver uma turba fantasiada
De boi preto que corria solto
Sobre a multidão que corria de medo
Que ria
Que saltava
E vivia intensamente
Uma vida que acabava
Em quatro dias.
Vivi mais do que isso
Mas não vivi tanto
Quanto vivia naqueles tempos
Em quatro dias.
Meu cordão de carnaval
Parava a avenida...
Ao passear pela tarde
Seria bom se pudesse
Atravessar as plantações de trigo
Numa tarde em que o sol brilhasse
Estourando os grãos
Pela extensão dos braços
E seria sol neste momento
E seria também trigo
Seria o mundo inteiro
Não mais existiria eu
Nem você
Nem os amores perdidos
Frutos de uma ilusão
Febril de uma salamandra
Atravessar as plantações de trigo
Numa tarde em que o sol brilhasse
Estourando os grãos
Pela extensão dos braços
E seria sol neste momento
E seria também trigo
Seria o mundo inteiro
Não mais existiria eu
Nem você
Nem os amores perdidos
Frutos de uma ilusão
Febril de uma salamandra
Apaziguando a vida sem motivo
Uma casa em ruínas
Conta histórias que o
Esquecimento quer esquecer
Para que numa lousa branca
Alguém possa novamente
Alguma coisa escrever!
Mas somente escrevemos
Das coisas vividas
Ironicamente vividas
De uma forma diferente
Modificada
Para que vida
Seja assim celebrada.
Desconfiava de que a vida
Fosse o tempo todo
Inventada
Pelos poetas
Pelos artistas
Eternos mentirosos
Por não suportarem
Uma realidade que perdeu a graça
E assim a vida também
Tornou-se sem graça.
Mas graças aos versos que se
Inventam por si mesmos
Criam também a vida
Cheio de palavras
Esparramadas
Num caleidoscópio
Movido a cada instante.
Conta histórias que o
Esquecimento quer esquecer
Para que numa lousa branca
Alguém possa novamente
Alguma coisa escrever!
Mas somente escrevemos
Das coisas vividas
Ironicamente vividas
De uma forma diferente
Modificada
Para que vida
Seja assim celebrada.
Desconfiava de que a vida
Fosse o tempo todo
Inventada
Pelos poetas
Pelos artistas
Eternos mentirosos
Por não suportarem
Uma realidade que perdeu a graça
E assim a vida também
Tornou-se sem graça.
Mas graças aos versos que se
Inventam por si mesmos
Criam também a vida
Cheio de palavras
Esparramadas
Num caleidoscópio
Movido a cada instante.
Caminhando sem direção
Minha sandália de palha
Onde me levará
Se não tenho um caminho
Em que possa chegar
Em algum lugar.
Nem preciso de lugar algum
Se lugar algum existisse
O que seria de mim
- Pararia de andar.
E como andar cansa
E fere a pé que não descansa
Um instante sequer
E quer caminhar.
Só por caminhar
Sem motivo aparente
Sem nenhum motivo
Que possa assim justificar
Andar
Ou parar
Mas por impulso
Apenas caminho
Com as sandálias de palha
As únicas que tenho
Ainda que venha a rasgar
Inúteis sandálias de palha.
Onde me levará
Se não tenho um caminho
Em que possa chegar
Em algum lugar.
Nem preciso de lugar algum
Se lugar algum existisse
O que seria de mim
- Pararia de andar.
E como andar cansa
E fere a pé que não descansa
Um instante sequer
E quer caminhar.
Só por caminhar
Sem motivo aparente
Sem nenhum motivo
Que possa assim justificar
Andar
Ou parar
Mas por impulso
Apenas caminho
Com as sandálias de palha
As únicas que tenho
Ainda que venha a rasgar
Inúteis sandálias de palha.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Um Jizo de pedra havia
Numa estrada guardava
Um Jizo de pedra
Uma morte havida
Um Jizo de pedra
Cuidava das crianças abortadas
De mães desesperadas
Dos filhos que se foram
Um Jizo de pedra salva
Aquelas que se foram
Pelas trilhas tortuosas
Dos descaminhos
Um Jizo de pedra
Visita o céu
Visita o inferno
Visita a terra
Sem diferença alguma
Pois todos sofrem
Por suas desilusões
E criando mais ilusões
Num mundo de vidro
Colorido
E cortante
E vazio
Um Jizo de pedra
Uma morte havida
Um Jizo de pedra
Cuidava das crianças abortadas
De mães desesperadas
Dos filhos que se foram
Um Jizo de pedra salva
Aquelas que se foram
Pelas trilhas tortuosas
Dos descaminhos
Um Jizo de pedra
Visita o céu
Visita o inferno
Visita a terra
Sem diferença alguma
Pois todos sofrem
Por suas desilusões
E criando mais ilusões
Num mundo de vidro
Colorido
E cortante
E vazio
Palavra em si
Nenhuma palavra
É inocente em si
Traz dentro de si
Muito mais o que diz
O poeta
Que nada mais faz
Do que deixar a palavra
Dizer
Aquilo que a palavra
Diz
É inocente em si
Traz dentro de si
Muito mais o que diz
O poeta
Que nada mais faz
Do que deixar a palavra
Dizer
Aquilo que a palavra
Diz
Por demais traumático
E como ferve fevereiro
Um mês inteiro em que
Chove a água quente
Dos olhos dos desesperados.
Enquanto os resignados
Nada mais fazem do que
Fingir
Uma vida fugida
Ignorando mais ainda
Os velhos amigos
Sem importância alguma estes
São jogados à margem
De seus corações congelados
Por uma gota fria
Enquanto tudo o mais
Ferve
Em contradição.
Um mês inteiro em que
Chove a água quente
Dos olhos dos desesperados.
Enquanto os resignados
Nada mais fazem do que
Fingir
Uma vida fugida
Ignorando mais ainda
Os velhos amigos
Sem importância alguma estes
São jogados à margem
De seus corações congelados
Por uma gota fria
Enquanto tudo o mais
Ferve
Em contradição.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Caminhando pelo fio
Nunca consegui empinar
Papagaios
Que sempre ficavam
Sempre no chão
Pesados.
Nunca levantei vôos
Que fossem realmente
Espetaculares
Com asas de corvo
Colocadas nos braços.
Nada muito especial
Minha vida nunca subiu
Nem ao menos desceu
E ficou a meio fio
Esticado em dois postes
E assim me tornei
Equilibrista
Que faz rir
Quando cai na rede
De um jeito engraçado
Mas não me importo com isso
Mas se importasse
Nada mudaria
E o vento continuaria
Soprando
Para o lado que desejasse
Sem querer agradar
quem quer que fosse
sem preferência
sem preferência alguma.
Papagaios
Que sempre ficavam
Sempre no chão
Pesados.
Nunca levantei vôos
Que fossem realmente
Espetaculares
Com asas de corvo
Colocadas nos braços.
Nada muito especial
Minha vida nunca subiu
Nem ao menos desceu
E ficou a meio fio
Esticado em dois postes
E assim me tornei
Equilibrista
Que faz rir
Quando cai na rede
De um jeito engraçado
Mas não me importo com isso
Mas se importasse
Nada mudaria
E o vento continuaria
Soprando
Para o lado que desejasse
Sem querer agradar
quem quer que fosse
sem preferência
sem preferência alguma.
Ausência sem medida
Ainda a ausência sentida
Não é de alegria
Nem tristeza
Apenas ausência
Que marcará infinitamente
A alma pequena
Sublime ausência
Que alimenta afinal
As letras tortuosas
Que faz da vida
Mais interessante
Mais pelas falhas
Tão imperfeita
Que nenhum erro possa ser
Realmente um erro.
Não é de alegria
Nem tristeza
Apenas ausência
Que marcará infinitamente
A alma pequena
Sublime ausência
Que alimenta afinal
As letras tortuosas
Que faz da vida
Mais interessante
Mais pelas falhas
Tão imperfeita
Que nenhum erro possa ser
Realmente um erro.
Sendo do contra
Ser do contra se tornou
A contramão dos bons costumes
Só por ser contrário
A qualquer afirmação
Pois negação se tornou
Vocabulário corrente
Dos críticos contumazes
De qualquer aceitação.
Antes de aceitar
Negue dez vezes
Até que a negação
Cai em desuso
Até que a negação negue
A si mesmo
Até que a negação se canse
De tanto negar
E as negas de plantão
Possam assim
Assumir que elas podem
Também dizer sim.
Mas espere um pouco
Antes de dizer
Continue negando
E sendo do contra
Sendo do contra
Não precisa assim
Assumir
Responsabilidades.
A contramão dos bons costumes
Só por ser contrário
A qualquer afirmação
Pois negação se tornou
Vocabulário corrente
Dos críticos contumazes
De qualquer aceitação.
Antes de aceitar
Negue dez vezes
Até que a negação
Cai em desuso
Até que a negação negue
A si mesmo
Até que a negação se canse
De tanto negar
E as negas de plantão
Possam assim
Assumir que elas podem
Também dizer sim.
Mas espere um pouco
Antes de dizer
Continue negando
E sendo do contra
Sendo do contra
Não precisa assim
Assumir
Responsabilidades.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Amigo(a) para sempre
Nestes encontros da vida
Uma vida nova
Toma forma
Uma nova amizade
Numa amálgama
Ganha forma
Em que conversas
São conversadas
Em que confianças
São confiadas
E desta forma
Um amigo
Noutro amigo
Nasce sobretudo
Sobremaneira
Uma responsabilidade
Ter um amigo
É ter uma responsabilidade
Pelo outro
Como se o outro se confundisse
Comigo mesmo
Por isso
Um amigo é para sempre
Uma responsabilidade para sempre
Com a vida do outro
Com a própria vida
Com a vida comum
Por isso
Quando as amizades acabam
Acaba também a confiança
E a desconfiança nos torna
Mesquinhos
Pequeninos
Quando as amizades acabam
Somos imensamente
Irresponsáveis
Pelo outro
Por nós mesmos
As amizades jamais deviam acabar
Se um dia ela esteve presente
Em nossas vidas
Se acabou
Somos nós que acabamos
Como seres humanos
Sem nenhuma justificativa
Sem aplausos
No silêncio
E envergonhados
Uma vida nova
Toma forma
Uma nova amizade
Numa amálgama
Ganha forma
Em que conversas
São conversadas
Em que confianças
São confiadas
E desta forma
Um amigo
Noutro amigo
Nasce sobretudo
Sobremaneira
Uma responsabilidade
Ter um amigo
É ter uma responsabilidade
Pelo outro
Como se o outro se confundisse
Comigo mesmo
Por isso
Um amigo é para sempre
Uma responsabilidade para sempre
Com a vida do outro
Com a própria vida
Com a vida comum
Por isso
Quando as amizades acabam
Acaba também a confiança
E a desconfiança nos torna
Mesquinhos
Pequeninos
Quando as amizades acabam
Somos imensamente
Irresponsáveis
Pelo outro
Por nós mesmos
As amizades jamais deviam acabar
Se um dia ela esteve presente
Em nossas vidas
Se acabou
Somos nós que acabamos
Como seres humanos
Sem nenhuma justificativa
Sem aplausos
No silêncio
E envergonhados
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
O leitor de mãos
As mãos eram o que ele lia
Nunca banca montada na porta da loja
Toda freguesia
Homens e mulheres
Fazia fila
E dizia para uma
“Vai casar no próximo ano”
Para uma outra
“Vai ganhar na loteria”
Vendia ilusões
Vendia felicidade
Esperança é o que não faltava
Para o homem que lia
Só não lia suas próprias mãos
Ele próprio
Não acredita em suas previsões
Só servia para os outros
A quem não conhecia
A quem lia
Lia as linhas das mãos
Nunca banca montada na porta da loja
Toda freguesia
Homens e mulheres
Fazia fila
E dizia para uma
“Vai casar no próximo ano”
Para uma outra
“Vai ganhar na loteria”
Vendia ilusões
Vendia felicidade
Esperança é o que não faltava
Para o homem que lia
Só não lia suas próprias mãos
Ele próprio
Não acredita em suas previsões
Só servia para os outros
A quem não conhecia
A quem lia
Lia as linhas das mãos
domingo, 22 de janeiro de 2012
Batida da bola
Quando criança
Uma bola batia
Contra a parede
A bola voltava
A bola ia
A bola batida
Quanto mais força
Colocava
Ela ia e voltava
Por um longo tempo
Nada da bola cair
E ficava batendo
E a parede batia
E a bola batia
Numa relação cármica
Que tinha
Com aquela bola
E batia...
E batia...
Uma bola batia
Contra a parede
A bola voltava
A bola ia
A bola batida
Quanto mais força
Colocava
Ela ia e voltava
Por um longo tempo
Nada da bola cair
E ficava batendo
E a parede batia
E a bola batia
Numa relação cármica
Que tinha
Com aquela bola
E batia...
E batia...
sábado, 21 de janeiro de 2012
Se foi com o vento...
Para onde se retirou
Filomena
Que chegou sem avisar
Encontrou a porta aberta
Entrou e ficou
Fez carreira
Cantoria
Cantaria fez também
Um dia abandonou tudo
Amigos que tinha
Amigas também
Pela mesma porta
Se foi
Sem se despedir
Nem olhou para trás
Sem mais
Sem menos
Como vento passageiro
Sem saudades
Se foi
Filomena
Se perguntarem por ela
Ninguém sabe
Ninguém viu
Ninguém sabe por onde anda
Filomena
Pode ser até esquecida
Mas seus olhos gigantes de felina
Estes continuarão brilhando
Nas noites escuras
Olhos de Filomena
Filomena
Que chegou sem avisar
Encontrou a porta aberta
Entrou e ficou
Fez carreira
Cantoria
Cantaria fez também
Um dia abandonou tudo
Amigos que tinha
Amigas também
Pela mesma porta
Se foi
Sem se despedir
Nem olhou para trás
Sem mais
Sem menos
Como vento passageiro
Sem saudades
Se foi
Filomena
Se perguntarem por ela
Ninguém sabe
Ninguém viu
Ninguém sabe por onde anda
Filomena
Pode ser até esquecida
Mas seus olhos gigantes de felina
Estes continuarão brilhando
Nas noites escuras
Olhos de Filomena
A chuva
Nem sei direito
Em tempos de chuva
Onde realmente a chuva
Cai
Se cai lá fora
Se cai dentro de mim
E este barulho monótono
É da chuva caindo
Cai a chuva devagarinho
Nem sei direito
Quem cai neste momento
Se é a chuva que cai
Se sou eu quem cai
Ou sou a chuva que cai
Incessantemente...
Em tempos de chuva
Onde realmente a chuva
Cai
Se cai lá fora
Se cai dentro de mim
E este barulho monótono
É da chuva caindo
Cai a chuva devagarinho
Nem sei direito
Quem cai neste momento
Se é a chuva que cai
Se sou eu quem cai
Ou sou a chuva que cai
Incessantemente...
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Fingidor do nada
Nada mais havia naquela mesa
Em que me sentei um dia
Nada mais havia
Nem a sombra do passado
Que pudesse continuar tomando
Uma taça de vinho
Nada mais havia
Que pudesse me incomodar?
Justamente a falta de incômodo
Torna-se incômodo
Pela incoerência
Dos fatos
Pela desumanidade
Da dissolução
Dos laços intensamente
Vividos
Como nada mais disso
Fosse importante
E caísse na mais banal
Falta de importância
E fingimos
Nossa total deselegância
Em que me sentei um dia
Nada mais havia
Nem a sombra do passado
Que pudesse continuar tomando
Uma taça de vinho
Nada mais havia
Que pudesse me incomodar?
Justamente a falta de incômodo
Torna-se incômodo
Pela incoerência
Dos fatos
Pela desumanidade
Da dissolução
Dos laços intensamente
Vividos
Como nada mais disso
Fosse importante
E caísse na mais banal
Falta de importância
E fingimos
Nossa total deselegância
domingo, 8 de janeiro de 2012
Vida de ciclista
Numa corrida de bicicletas
Muitas são elas
Multicoloridas
Penetrando montanhas
Geladas
Montanhas rochosas
Sem se deter
Seja dia seja noite
Seja ventania
Correndo sempre adiante
Correndo em direção alguma
Correndo
Apenas correndo
Sem desistir
Desistir de viver
Desistir de continuar correndo
Ainda que se caia
Que se rebente
Machuque e quebre a perna
Machuque e quebre a cara
Machuque por continuar
Se equilibrando
E mudando a marcha
Subindo ladeira
Vencendo porteiras
Criando amizades
Brigando e fazendo as pazes.
Mas às vezes
Alguém desiste
Não quer andar mais
De bicicleta
Nem quer mais
Viver perigosamente
Prefere acomodar-se
Na própria indolência.
Aos que desistem do caminho
Fica-nos a lembrança
De que um dia
Caminhamos juntos.
Continuo pedalando
Pois nada sei do que pedalar
E cair continuamente
Até aprender a pedalar
E não cair mais.
Muitas são elas
Multicoloridas
Penetrando montanhas
Geladas
Montanhas rochosas
Sem se deter
Seja dia seja noite
Seja ventania
Correndo sempre adiante
Correndo em direção alguma
Correndo
Apenas correndo
Sem desistir
Desistir de viver
Desistir de continuar correndo
Ainda que se caia
Que se rebente
Machuque e quebre a perna
Machuque e quebre a cara
Machuque por continuar
Se equilibrando
E mudando a marcha
Subindo ladeira
Vencendo porteiras
Criando amizades
Brigando e fazendo as pazes.
Mas às vezes
Alguém desiste
Não quer andar mais
De bicicleta
Nem quer mais
Viver perigosamente
Prefere acomodar-se
Na própria indolência.
Aos que desistem do caminho
Fica-nos a lembrança
De que um dia
Caminhamos juntos.
Continuo pedalando
Pois nada sei do que pedalar
E cair continuamente
Até aprender a pedalar
E não cair mais.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Encontros e desencontros
Encontros tão simples
Sem marcar hora
Sem marcar encontros
Sem saber
Encontramos
E ficamos amigos
Por um longo tempo
Falamos
E trocamos informações
E ficamos sabendo
Uma vida inteira
E achamos que o encontro
Perdurará para sempre
Amigos para sempre
Mas nos apaixonamos às vezes
E com medo ficamos
Vai-se a paixão
Ou fica-se eternamente
Sem amizade alguma
Desencontro para sempre
Como um dia veio
Um dia se foi
Pela porta da frente
Pela porta de trás
Sem nada falar
Ou por falar demais.
Sem marcar hora
Sem marcar encontros
Sem saber
Encontramos
E ficamos amigos
Por um longo tempo
Falamos
E trocamos informações
E ficamos sabendo
Uma vida inteira
E achamos que o encontro
Perdurará para sempre
Amigos para sempre
Mas nos apaixonamos às vezes
E com medo ficamos
Vai-se a paixão
Ou fica-se eternamente
Sem amizade alguma
Desencontro para sempre
Como um dia veio
Um dia se foi
Pela porta da frente
Pela porta de trás
Sem nada falar
Ou por falar demais.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Um sonho inútil
Um sonho que acaba
Assim que um acaba
Um sonho novo
Vem em seguida
E achamos que nesta vida
Livramo-nos dos sonhos
E das ilusões
E temos certeza
Imensa incerteza
Quando mais a fundo ficamos
Sonhando
E por isso
Nada mais irreal
Do que viver na real
Deste mundo imundo
De poeira abstrata
Que se instala
Comodamente
Na Inteligência humana.
Caindo no fundo do sonho
Caindo numa casca de banana
No fundo
No raso
Pouco importa:
Quebramos!
Assim que um acaba
Um sonho novo
Vem em seguida
E achamos que nesta vida
Livramo-nos dos sonhos
E das ilusões
E temos certeza
Imensa incerteza
Quando mais a fundo ficamos
Sonhando
E por isso
Nada mais irreal
Do que viver na real
Deste mundo imundo
De poeira abstrata
Que se instala
Comodamente
Na Inteligência humana.
Caindo no fundo do sonho
Caindo numa casca de banana
No fundo
No raso
Pouco importa:
Quebramos!
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Dragão envelhecido
Uma tatuagem
inscrita no braço
não demorou muito.
Anos se foram
e a tatuagem ficou
e envelheceu
e fora de forma ficou
totalmente amassada
que não lembra mais
sua juventude
belo e formoso
de patas armadas
e de olhos de fogo.
O fogo apagou
as patas amoleceram
e acabaram morrendo
junto ao braço.
inscrita no braço
não demorou muito.
Anos se foram
e a tatuagem ficou
e envelheceu
e fora de forma ficou
totalmente amassada
que não lembra mais
sua juventude
belo e formoso
de patas armadas
e de olhos de fogo.
O fogo apagou
as patas amoleceram
e acabaram morrendo
junto ao braço.
Na passagem do ano
Temos a mais insensata
ilusão
de que este ano
pode ser diferente
e bom
se não somos bons
realmente
se continuamos
patinando numa lama
escorregadia da ignorância
e continuamos a repetir
sempre
movimentos de sempre
um bailado sinistro
vestidos de palhaço.
ilusão
de que este ano
pode ser diferente
e bom
se não somos bons
realmente
se continuamos
patinando numa lama
escorregadia da ignorância
e continuamos a repetir
sempre
movimentos de sempre
um bailado sinistro
vestidos de palhaço.
Patinando na lama
Temos a insensata ilusão
que crasso na alma pequena
quando a roda da roda-viva
gira uma roda inteira
como que na próxima rodada
tudo fosse diferente
e a vida fosse diferente.
Se nenhuma mudança faça
nem fora
nem dentro
deste corpo cada vez mais estúpido
que nada mais fez
e deixa de fazer
do que reclamar
dos outros
dos corvos
que indiferentes a tudo
apenas esperam
a roda girar.
que crasso na alma pequena
quando a roda da roda-viva
gira uma roda inteira
como que na próxima rodada
tudo fosse diferente
e a vida fosse diferente.
Se nenhuma mudança faça
nem fora
nem dentro
deste corpo cada vez mais estúpido
que nada mais fez
e deixa de fazer
do que reclamar
dos outros
dos corvos
que indiferentes a tudo
apenas esperam
a roda girar.
Surfista das tormentas vividas
Cada vez mais passageiro
de passagem se torna o tempo
sem que possamos deter
por um instante sequer
as rugas alongando-se
pelo rosto inteiro.
Rugas que sempre
existiram no tempo futuro
do jovem que dança
e balança numa prancha
de surf
equilibrando-se
para não cair.
Mas continuamos ainda
numa prancha
muito mais hábil
do que ontem
contornando golfinhos
e brincando com os
tubarões
sem cair
e caindo sempre
para cair de novo
e de novo deixando-nos conduzir
como Ulisses
pelas sereias
as mesmas que devoravam
as almas dos homens
transformados todos
em carneiros a balir
encantados pela lua.
Sem correção
errando em direção
dum abismo
em que as lavas
de um vulcão
prestes a explodir
consolam diante
dos perigos desta vida
ilusória e maldita
mas vivida intensamente
seus pecados todos
bebidos todos num cálice
de prata.
de passagem se torna o tempo
sem que possamos deter
por um instante sequer
as rugas alongando-se
pelo rosto inteiro.
Rugas que sempre
existiram no tempo futuro
do jovem que dança
e balança numa prancha
de surf
equilibrando-se
para não cair.
Mas continuamos ainda
numa prancha
muito mais hábil
do que ontem
contornando golfinhos
e brincando com os
tubarões
sem cair
e caindo sempre
para cair de novo
e de novo deixando-nos conduzir
como Ulisses
pelas sereias
as mesmas que devoravam
as almas dos homens
transformados todos
em carneiros a balir
encantados pela lua.
Sem correção
errando em direção
dum abismo
em que as lavas
de um vulcão
prestes a explodir
consolam diante
dos perigos desta vida
ilusória e maldita
mas vivida intensamente
seus pecados todos
bebidos todos num cálice
de prata.
A nau dos desvairados
Para atravessar um canal
revoltoso
de tempestades
numa nau uma multidão
procurava chegar
ao outro lado.
Da multidão surgiram
revoltas e guerras
amores e filhos
desamores e desaforados.
Alguns eram bons
outros eram maus
outros médios
eram meio bons
eram meio maus
alguns alumbrados
alguns faziam terapia
outros psicanálise
outros ainda nada faziam
senão falar da vida dos outros
só para mostrar que faziam
alguma coisa.
Mas quando soprou um furacão
não importava mais
a condição de cada um
nenhum outro lugar tinha
para ir senão
para o centro da nau
e rezar juntos para a nau
não afundar.
Nenhum outro lugar
tinha.
revoltoso
de tempestades
numa nau uma multidão
procurava chegar
ao outro lado.
Da multidão surgiram
revoltas e guerras
amores e filhos
desamores e desaforados.
Alguns eram bons
outros eram maus
outros médios
eram meio bons
eram meio maus
alguns alumbrados
alguns faziam terapia
outros psicanálise
outros ainda nada faziam
senão falar da vida dos outros
só para mostrar que faziam
alguma coisa.
Mas quando soprou um furacão
não importava mais
a condição de cada um
nenhum outro lugar tinha
para ir senão
para o centro da nau
e rezar juntos para a nau
não afundar.
Nenhum outro lugar
tinha.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Uma febre amorosa
Uma patologia
amorosa era
que patologicamente
conheceu a felicidade.
Um dia um especialista
curou a patologia
e da patologia se livrou
conheceu a infelicidade.
amorosa era
que patologicamente
conheceu a felicidade.
Um dia um especialista
curou a patologia
e da patologia se livrou
conheceu a infelicidade.
Uma banda tocava
Quebrando a monotonia
das ruas
daquela pequena cidade
pequena era a curiosidade
dos que saíam pelos portões
para escutar
uma banda tocar.
Havia duas bandas
uma que portava vestimenta
preta
ou era azul escuro
uma outra
de branco
impecavelmente branco
e que tocavam
enquanto marchavam.
Muito se foi
a cidade pequena cresceu
a banda se tornou
notícia do mural
do museu municipal
que um dia uma banda
tocava
pelas ruas da cidade.
Havia uma banda
que tocava.
Havia duas bandas
que tocavam...
das ruas
daquela pequena cidade
pequena era a curiosidade
dos que saíam pelos portões
para escutar
uma banda tocar.
Havia duas bandas
uma que portava vestimenta
preta
ou era azul escuro
uma outra
de branco
impecavelmente branco
e que tocavam
enquanto marchavam.
Muito se foi
a cidade pequena cresceu
a banda se tornou
notícia do mural
do museu municipal
que um dia uma banda
tocava
pelas ruas da cidade.
Havia uma banda
que tocava.
Havia duas bandas
que tocavam...
Caixinha de música
Um dia quebrou
a velha caixa de música
e nunca mais tocou.
Definitivamente
aquela melodia triste
deixou de existir.
Nenhuma outra música
foi tocada
e a caixa quebrada
nem sei para onde foi.
Nem música triste
nem qualquer outra música
e o mundo emudeceu.
a velha caixa de música
e nunca mais tocou.
Definitivamente
aquela melodia triste
deixou de existir.
Nenhuma outra música
foi tocada
e a caixa quebrada
nem sei para onde foi.
Nem música triste
nem qualquer outra música
e o mundo emudeceu.
O padre do bumbo
Pelas ruas da cidade
havia um padre
havia um bando de crianças
e uma tocando bumbo
que ia na frente.
Era o padre que recolhia
as crianças
e levava para a missa das oito.
Era o padre que queria
um público para a salvação.
Quando o padre aparecia
todos iam atrás do padre.
Apenas eu o ignorava
não queria saber do padre
nem da salvação.
Nem fui salvo nestes dias
nem nos outros
apenas vivia
com o padre tentando
salvar o mundo.
Imenso mundo que cabia
no bumbo do padre.
havia um padre
havia um bando de crianças
e uma tocando bumbo
que ia na frente.
Era o padre que recolhia
as crianças
e levava para a missa das oito.
Era o padre que queria
um público para a salvação.
Quando o padre aparecia
todos iam atrás do padre.
Apenas eu o ignorava
não queria saber do padre
nem da salvação.
Nem fui salvo nestes dias
nem nos outros
apenas vivia
com o padre tentando
salvar o mundo.
Imenso mundo que cabia
no bumbo do padre.
Numa estrada torta
O que se pode dizer
de si mesmo
senão uma breve
lamentação.
Não fui sapateiro
borracheiro não fui
Não fui eletricista
nem metereologista
guitarrista de uma banda
de rock
como existia nas garagens
de minha adolescência.
Meus amigos se foram
meus amores se foram
meus sonhos também.
Só me restou o caminho
das estrelas
em que nada encontro
senão uma poeira fina
de meus pés mesmos
num rastro apagado
atrás de mim.
De fato fui
errado
fui mal e malcriado
fui um pau torto
que nunca tomou jeito
nem se endireitou
pois não havia jeito
sujeito a vagabundice
literária
das letras descompostas.
de si mesmo
senão uma breve
lamentação.
Não fui sapateiro
borracheiro não fui
Não fui eletricista
nem metereologista
guitarrista de uma banda
de rock
como existia nas garagens
de minha adolescência.
Meus amigos se foram
meus amores se foram
meus sonhos também.
Só me restou o caminho
das estrelas
em que nada encontro
senão uma poeira fina
de meus pés mesmos
num rastro apagado
atrás de mim.
De fato fui
errado
fui mal e malcriado
fui um pau torto
que nunca tomou jeito
nem se endireitou
pois não havia jeito
sujeito a vagabundice
literária
das letras descompostas.
Castelos de areia
Um castelo de areia
de areia molhada
da água do mar.
Um castelo de areia
em que brincavam
juntos um menino
juntos uma menina.
Brincaram a manhã toda
brincaram a tarde toda
e não deixavam que a água
salgada que havia adiante
carregasse
um castelo de areia.
Até que
de tanto brincarem
no mesmo castelo
na mesma brincadeira
a menina resolveu ir.
Mas antes
pediu sua parte
do castelo de areia
daquela brincadeira.
Nada tinha a ser levado
da parte do castelo
foi quando resolveu destruir
uma parte dela mesma
pois nada daquilo pertencia
ao menino.
Um castelo danificado
foi o que restou
daquela brincadeira
e a menina se foi
e o menino ficou
com as ruínas
que fora um dia
um castelo de areia.
de areia molhada
da água do mar.
Um castelo de areia
em que brincavam
juntos um menino
juntos uma menina.
Brincaram a manhã toda
brincaram a tarde toda
e não deixavam que a água
salgada que havia adiante
carregasse
um castelo de areia.
Até que
de tanto brincarem
no mesmo castelo
na mesma brincadeira
a menina resolveu ir.
Mas antes
pediu sua parte
do castelo de areia
daquela brincadeira.
Nada tinha a ser levado
da parte do castelo
foi quando resolveu destruir
uma parte dela mesma
pois nada daquilo pertencia
ao menino.
Um castelo danificado
foi o que restou
daquela brincadeira
e a menina se foi
e o menino ficou
com as ruínas
que fora um dia
um castelo de areia.
Colonização por todo lado
Cuidado com a Coca-cola
colonização americana.
Cuidado com o Carrefour
colonização francesa.
Cuidado com a Nestlê
colonização suiça.
Cuidado com a Wolkswagen
colonização alemã.
Cuidado com a Honda
colonização japonesa.
Cuidado com a Samsung
colonização coreana.
Cuidado com a Capoeira
colonização africana.
Cuidado com a loira
colonização catarinense.
Cuidado comigo
colonização de minhas palavras.
Cuidado com a colonização
pois será tudo
será o mundo
e o mundo será
tão pequeno
que caberá no coração
cidadão do universo.
Onde quer que esteja
será a sua pátria.
O que quer que coma
será seu alimento.
O que quer que pense
será seu pensamento
colonização do mundo.
colonização americana.
Cuidado com o Carrefour
colonização francesa.
Cuidado com a Nestlê
colonização suiça.
Cuidado com a Wolkswagen
colonização alemã.
Cuidado com a Honda
colonização japonesa.
Cuidado com a Samsung
colonização coreana.
Cuidado com a Capoeira
colonização africana.
Cuidado com a loira
colonização catarinense.
Cuidado comigo
colonização de minhas palavras.
Cuidado com a colonização
pois será tudo
será o mundo
e o mundo será
tão pequeno
que caberá no coração
cidadão do universo.
Onde quer que esteja
será a sua pátria.
O que quer que coma
será seu alimento.
O que quer que pense
será seu pensamento
colonização do mundo.
Por uma cabeça perdida
Um homem havia a muito
que perdera sua cabeça
procurou de um lado
no lado esquerdo não havia
não havia no lado direito
e onde quer que pudesse
procurar.
Por fim achou uma
não era a sua
não se importou com
isso.
Ficou com aquela cabeça
uma cabeça de papelão
não se importou com
isso.
A cabeça de papelão
de tanto pensar
incendiou-se
e foi-se de vez
a cabeça de papelão.
Buscou outra cabeça
a cabeça que encontrou
era a cabeça de um
cabeça dura
cabeça de pedra.
Melhor do que a outra
cabeça de papelão
cabeça de pedra
que de tão dura
mais dura ficou
trincou por pensar
demais
demasiadamente
dura por pensar.
Procurou por outra
uma cabeça mole
uma cabeça de maria
mole
que de tão mole
amoleceu todos
os neurônios
os plutônios
os parafusos
e derretou.
Toda cabeça encontrada
não lhe servia
e assim resolveu ficar
sem cabeça alguma
e quando precisasse de uma
qualquer uma
poderia lhe ser útil.
Inútil seria buscar uma cabeça
que fosse
que fosse somente sua.
Nem das cabeças somos
donos!
que perdera sua cabeça
procurou de um lado
no lado esquerdo não havia
não havia no lado direito
e onde quer que pudesse
procurar.
Por fim achou uma
não era a sua
não se importou com
isso.
Ficou com aquela cabeça
uma cabeça de papelão
não se importou com
isso.
A cabeça de papelão
de tanto pensar
incendiou-se
e foi-se de vez
a cabeça de papelão.
Buscou outra cabeça
a cabeça que encontrou
era a cabeça de um
cabeça dura
cabeça de pedra.
Melhor do que a outra
cabeça de papelão
cabeça de pedra
que de tão dura
mais dura ficou
trincou por pensar
demais
demasiadamente
dura por pensar.
Procurou por outra
uma cabeça mole
uma cabeça de maria
mole
que de tão mole
amoleceu todos
os neurônios
os plutônios
os parafusos
e derretou.
Toda cabeça encontrada
não lhe servia
e assim resolveu ficar
sem cabeça alguma
e quando precisasse de uma
qualquer uma
poderia lhe ser útil.
Inútil seria buscar uma cabeça
que fosse
que fosse somente sua.
Nem das cabeças somos
donos!
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
A violência diante da beleza
Podemos viver todas as emoções
Senão seríamos insensíveis.
Mas nada mais belo
Do que na emoção mais violenta
Nenhuma palavra violenta
Nenhuma ação violenta
Nenhum sinal violento no rosto
Nem no canto da boca
Nem nos olhos
Cuja menina dos olhos
Placidamente contempla
Apenas contempla.
Nada mais violento
Do que a beleza
Que violenta
Aqueles que se derramam
Em lágrimas
Diante de um perigo
De um movimento quase parado
Que sugere
Apenas sugere.
Senão seríamos insensíveis.
Mas nada mais belo
Do que na emoção mais violenta
Nenhuma palavra violenta
Nenhuma ação violenta
Nenhum sinal violento no rosto
Nem no canto da boca
Nem nos olhos
Cuja menina dos olhos
Placidamente contempla
Apenas contempla.
Nada mais violento
Do que a beleza
Que violenta
Aqueles que se derramam
Em lágrimas
Diante de um perigo
De um movimento quase parado
Que sugere
Apenas sugere.
Em busca de uma causa
Pode ser qualquer uma
Em defesa disso
Por ser outra coisa
Em defesa daquilo
Pode ser do contra
Contra alguma coisa
Qualquer coisa
Discriminação
Discrição
Diletantismo.
Contra os livros
E a favor das matas
Contra a erotização
E a favor da repressão corporal
Contra o sacrifício dos animais
E a favor da alimentação vegetal
Que pode se explorado...
Em defesa dos cachorrinhos
Explorados pelos seus donos
Que precisa tomar banho
Usar sapatinho
E andar de coleira
Como um palhacinho
Sem poder ser livre
(Um cachorro nunca é livre)
A liberdade existe
Apenas para os homens
(E também mulheres)
Senão seremos acusados
De discriminação!
Para escolher o lado
Do contra
Do favor
Do contra ao contra
Do favor ao contra
Do favor a não ter preferência
Por qualquer lado que seja.
Em defesa disso
Por ser outra coisa
Em defesa daquilo
Pode ser do contra
Contra alguma coisa
Qualquer coisa
Discriminação
Discrição
Diletantismo.
Contra os livros
E a favor das matas
Contra a erotização
E a favor da repressão corporal
Contra o sacrifício dos animais
E a favor da alimentação vegetal
Que pode se explorado...
Em defesa dos cachorrinhos
Explorados pelos seus donos
Que precisa tomar banho
Usar sapatinho
E andar de coleira
Como um palhacinho
Sem poder ser livre
(Um cachorro nunca é livre)
A liberdade existe
Apenas para os homens
(E também mulheres)
Senão seremos acusados
De discriminação!
Para escolher o lado
Do contra
Do favor
Do contra ao contra
Do favor ao contra
Do favor a não ter preferência
Por qualquer lado que seja.
Estragos depois das águas
Continua a causar estragos
As ondas do tsunami
Que invadiram as terras
As mentes invadidas
Enlouquecidas
Perdidas pelas ruas
Sem nenhum rumo
Cujo rumo que tinha
Desfez-se no primeiro instante
Quando as águas retornaram
Salgando toda a terra
Para que não nascesse mais
Nem ervas daninhas
Para que não nascesse mais
Nem ervas boas
Para curar a ressaca
Que continua ainda
Enlouquecendo
Ainda
As ondas do tsunami
Que invadiram as terras
As mentes invadidas
Enlouquecidas
Perdidas pelas ruas
Sem nenhum rumo
Cujo rumo que tinha
Desfez-se no primeiro instante
Quando as águas retornaram
Salgando toda a terra
Para que não nascesse mais
Nem ervas daninhas
Para que não nascesse mais
Nem ervas boas
Para curar a ressaca
Que continua ainda
Enlouquecendo
Ainda
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Quando a bola caiu
Uma bola de tênis
Batida
Rebatida
Num vai e vem
Num saque mais rápido
Mais rápido se fez.
Cruzando os ares
Por cima da rede
Sem cair
Mas há de ser um dia
Mais cedo
Mais tarde
Há de cair.
Não se sabe
De que lado
Daquela rede
A bola caiu!
E perdeu.
Mas o que importa
Isso?
O importante é bater.
Batida
Rebatida
Num vai e vem
Num saque mais rápido
Mais rápido se fez.
Cruzando os ares
Por cima da rede
Sem cair
Mas há de ser um dia
Mais cedo
Mais tarde
Há de cair.
Não se sabe
De que lado
Daquela rede
A bola caiu!
E perdeu.
Mas o que importa
Isso?
O importante é bater.
Por falar em amor
Quando passava ela
Maltratava
Ela
Não olhava na cara
Simplesmente a ignorava
Não dava boa-noite
Nem me despedia
Nem bom-dia
E quanto mais
Maltratava
Era dela que gostava
Mas não queria
Dizer isso
Ela sabia...
Ela sabia...
Até que ela se cansou
Até que ela se foi
E não voltou
Ele sabia...
Ele sabia...
Maltratava
Ela
Não olhava na cara
Simplesmente a ignorava
Não dava boa-noite
Nem me despedia
Nem bom-dia
E quanto mais
Maltratava
Era dela que gostava
Mas não queria
Dizer isso
Ela sabia...
Ela sabia...
Até que ela se cansou
Até que ela se foi
E não voltou
Ele sabia...
Ele sabia...
Uma fuga frustrada
Pensei um dia me retirar
Ir para longe
Fui para a Amazônia
Fui também a Patagônia
Não fiquei muito tempo
E voltei
Ainda que tivesse ido
Nem um passo foi dado
Do lugar em que sempre
Me encontrei
Nunca saí do lugar
Ir para longe
Fui para a Amazônia
Fui também a Patagônia
Não fiquei muito tempo
E voltei
Ainda que tivesse ido
Nem um passo foi dado
Do lugar em que sempre
Me encontrei
Nunca saí do lugar
Retorno não acontecido
Foi onde nasci
Pelas ruas desconhecidas
Andava
E nada via
Nem se lembrava
Que um dia
Por lá passara
Uma vida inteira
Até que um dia saí
De lá
Voltei outras vezes
Não conhecia mais ninguém
Alguns tinham morrido
Outros também saíram
Só que penso agora
Nunca estive lá
Pelas ruas desconhecidas
Andava
E nada via
Nem se lembrava
Que um dia
Por lá passara
Uma vida inteira
Até que um dia saí
De lá
Voltei outras vezes
Não conhecia mais ninguém
Alguns tinham morrido
Outros também saíram
Só que penso agora
Nunca estive lá
Esconde esconde
Nem todas as pedras
Machucam
Nem todas as palavras
Ferem
Por trás de cada palavra
Outra bem diferente
Diz a verdade
Como pudesse somente
Ser conhecida
Por aquele que lê
Na transparência das paredes
Machucam
Nem todas as palavras
Ferem
Por trás de cada palavra
Outra bem diferente
Diz a verdade
Como pudesse somente
Ser conhecida
Por aquele que lê
Na transparência das paredes
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Por uma questão de maldade
Sem orgulho algum
De sua natureza
O escorpião pica
O outro
Que embriagado
Pelo veneno
Vive para contar.
Quem morre
Sempre
É o escorpião
Que morre calado
Pois sempre o vilão
Deve morrer no final.
De sua natureza
O escorpião pica
O outro
Que embriagado
Pelo veneno
Vive para contar.
Quem morre
Sempre
É o escorpião
Que morre calado
Pois sempre o vilão
Deve morrer no final.
Sem se esquecer
Que me importa a indiferença
Sempre me importarei
Distante ainda
Nunca estará
Abrigada estará
Numa mente perdida
Nas geleiras
Mais profundas
Da existência
Lá no fundo
De uma casa de barro
De joão-de-barro
Mas não conte isso
Para ninguém...
Sempre me importarei
Distante ainda
Nunca estará
Abrigada estará
Numa mente perdida
Nas geleiras
Mais profundas
Da existência
Lá no fundo
De uma casa de barro
De joão-de-barro
Mas não conte isso
Para ninguém...
Bate coração...
O que você tem agora?
- Arritmia
Que nem sabia o que era
Que motivos
Tinha
Para ter
Arritmia
Fora de compasso
Errando os passos
Batendo descompassado
Um coração maltratado
Que maltratou também
Por isso bate
Bate em ritmo incerto
Bate falho
Uma batida errada
Como sempre bateu
Como bateu antes
Como bateu depois
- Arritmia
Que nem sabia o que era
Que motivos
Tinha
Para ter
Arritmia
Fora de compasso
Errando os passos
Batendo descompassado
Um coração maltratado
Que maltratou também
Por isso bate
Bate em ritmo incerto
Bate falho
Uma batida errada
Como sempre bateu
Como bateu antes
Como bateu depois
Criador de mentiras
Por tudo que tenho dito
Pouco se diz da realidade
Talvez sejam mentiras
Ditas como fossem verdades
Que para o poeta
Daquele construtor de imagens
Tornam-se verdades
Para que o tédio da realidade
Não torne o mundo
Demasiadamente formado
Conforme as formas
Das linhas retas e pontos certos
Ao invés
O que me atrai
São as linhas tortas
Naturais
De uma árvore tortuosa
Uma nuvem se desfazendo
Outra se fazendo
Naquilo que o olho percebe
O olho que sabe versejar
Pouco se diz da realidade
Talvez sejam mentiras
Ditas como fossem verdades
Que para o poeta
Daquele construtor de imagens
Tornam-se verdades
Para que o tédio da realidade
Não torne o mundo
Demasiadamente formado
Conforme as formas
Das linhas retas e pontos certos
Ao invés
O que me atrai
São as linhas tortas
Naturais
De uma árvore tortuosa
Uma nuvem se desfazendo
Outra se fazendo
Naquilo que o olho percebe
O olho que sabe versejar
Quando a sombra se desfaz
O que realmente as palavras revelam
Se realmente revelam
Revelador seriam as palavras ditas
No auge de maior patologia
Senão uma patologia que revela
Os poros explodindo
Na insanidade dolorosa
Dos amores vividos
Que na errância desta vida
Apenas podemos viver sonhando
Numa fluidez que nenhuma forma concreta
Se mantém
Logo se desfaz em espuma
Na correnteza que tudo
Transforma
E carrega para o mar
Salgando e dando gosto
Se realmente revelam
Revelador seriam as palavras ditas
No auge de maior patologia
Senão uma patologia que revela
Os poros explodindo
Na insanidade dolorosa
Dos amores vividos
Que na errância desta vida
Apenas podemos viver sonhando
Numa fluidez que nenhuma forma concreta
Se mantém
Logo se desfaz em espuma
Na correnteza que tudo
Transforma
E carrega para o mar
Salgando e dando gosto
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Destruindo lembranças
Os monumentos derrubados
Não servem para nada
Senão para ser totalmente
Pisoteados
Para que não deixe
Nenhum vestígio
De um passado
Em que a ilusão ainda
Existia
Nada existe mais
Nada mais do que
Desilusão.
Não servem para nada
Senão para ser totalmente
Pisoteados
Para que não deixe
Nenhum vestígio
De um passado
Em que a ilusão ainda
Existia
Nada existe mais
Nada mais do que
Desilusão.
Não esquecemos Fukushima
Se pudesse escreveria
Uma oração apenas
Silenciosa
Sem muitas palavras
Para consolar
Aqueles que morreram
Aqueles que viveram
Para contar
Das águas que varreram
Os arrozais
Negra água da destruição
Fukushima
Fukushima jamais será
A mesma
Após março
Submersa em nossos corações
Cujas lágrimas ainda
Continuam caindo
E inundando ainda
Até que o esquecimento
Possa enfim
Enterrar os mortos
E fazer viver os vivos
Que continuam em seus barcos
Flutuando de um lado para outro.
Uma oração apenas
Silenciosa
Sem muitas palavras
Para consolar
Aqueles que morreram
Aqueles que viveram
Para contar
Das águas que varreram
Os arrozais
Negra água da destruição
Fukushima
Fukushima jamais será
A mesma
Após março
Submersa em nossos corações
Cujas lágrimas ainda
Continuam caindo
E inundando ainda
Até que o esquecimento
Possa enfim
Enterrar os mortos
E fazer viver os vivos
Que continuam em seus barcos
Flutuando de um lado para outro.
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