sexta-feira, 23 de março de 2012

Caminhos de pedra e terra

Havia no caminho
Uma pedra
Havia no caminho
Duas pedras
Ainda assim continuei
Caminhando
Ainda que pudesse
Encontrar pelo caminho
Mais uma pedra
E um dia passei
A achar que todo caminho
Era de pedra
E meus pés antes macios
Sangraram
Sem que ninguém se importasse
E meus pés endureceram
E meu coração antes duro
Teve que de vez
Amolecer
E nenhum caminho
Foi suficientemente duro
Nem duro foi a pedra
Capaz de deter meu caminho
Meu caminhar lento
Parado e andado
Caído e levantado
Numa teimosia
Que alegra o andar
Deste andarilho.

domingo, 11 de março de 2012

Os demônios criados

Podem xingar
Não revido
Podem cuspir
Não revido
Podem maldizer
Não revido
Podem ameaçar
Não revido
Podem desprezar até
Ainda assim não revido
Quem sabe assim
Possa rir de mim mesmo
E das pessoas sérias
Que acreditam
Em suas próprias seriedades
Vitaminadas
Com cápsulas de prosac
Papelotes de açúcar

Um ano depois do vendaval

Pelas veias ainda em turbilhão
As ondas que varreram em instantes
Imensas costas japonesas
Levaram as vidas que jamais
Serão vividas
Abaixo do mesmo sol
Em que compartilho
As dores passadas
As dores presentes
De um tsunami
Que não deixará cedo
A memória dos filhos do Oriente

domingo, 4 de março de 2012

Uma gata pichada

Havia numa parede suja
Uma pichação
Que na calada da noite
Alguém deixou cair a tinta
Uma gata imensa e preta
Solitária
Que acordou de enxaqueca
De uma noite mal dormida
Uma gata perdida
Abandonada na rua
Arredia

O passado é agora

Quando o esquecimento não vem
Continuamos vivendo
Com a alegria de ter passado
Uma alegria repentina
Uma faísca vivida
Que ainda teima em não se apagar
Que ainda teima em manter-se acesa
Por teimosia
Apenas por teimosia

Passageiros de viagem

Alguns passam em nossas vidas
Passageiros de uma viagem
Que começa sem nenhum aviso
E passageiros ficamos amigos
E de passagem lá se foi
Num instante
Sem deixar pistas
Pelo caminho
Sem saudades
Como nada tivesse passado
Passado que esquecemos
Em seguida
Para começar nova viagem
De passagem

quinta-feira, 1 de março de 2012

Minha vó, que se foi sem avisar
não mora no firmamento
nem saiu de viagem
vive, secretamente, só eu sei
no cheiro delicioso
da uva Niágara

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Apagão

Pouco a pouco a vela desaparece
Pouco a pouco meu reflexo desaparece
Pouco a pouco eu desapareço
No fim, apenas escuridão.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Carnaval dos tempos idos

Meu cordão de carnaval
Parava a avenida
De uma cidade vizinha
E vinha toda a vizinhança
Para ver uma turba fantasiada
De boi preto que corria solto
Sobre a multidão que corria de medo
Que ria
Que saltava
E vivia intensamente
Uma vida que acabava
Em quatro dias.

Vivi mais do que isso
Mas não vivi tanto
Quanto vivia naqueles tempos
Em quatro dias.

Meu cordão de carnaval
Parava a avenida...

Ao passear pela tarde

Seria bom se pudesse
Atravessar as plantações de trigo
Numa tarde em que o sol brilhasse
Estourando os grãos
Pela extensão dos braços
E seria sol neste momento
E seria também trigo
Seria o mundo inteiro
Não mais existiria eu
Nem você
Nem os amores perdidos
Frutos de uma ilusão
Febril de uma salamandra

Apaziguando a vida sem motivo

Uma casa em ruínas
Conta histórias que o
Esquecimento quer esquecer
Para que numa lousa branca
Alguém possa novamente
Alguma coisa escrever!

Mas somente escrevemos
Das coisas vividas
Ironicamente vividas
De uma forma diferente
Modificada
Para que vida
Seja assim celebrada.

Desconfiava de que a vida
Fosse o tempo todo
Inventada
Pelos poetas
Pelos artistas
Eternos mentirosos
Por não suportarem
Uma realidade que perdeu a graça
E assim a vida também
Tornou-se sem graça.
Mas graças aos versos que se
Inventam por si mesmos
Criam também a vida
Cheio de palavras
Esparramadas
Num caleidoscópio
Movido a cada instante.

Caminhando sem direção

Minha sandália de palha
Onde me levará
Se não tenho um caminho
Em que possa chegar
Em algum lugar.

Nem preciso de lugar algum
Se lugar algum existisse
O que seria de mim
- Pararia de andar.

E como andar cansa
E fere a pé que não descansa
Um instante sequer
E quer caminhar.

Só por caminhar
Sem motivo aparente
Sem nenhum motivo
Que possa assim justificar
Andar
Ou parar
Mas por impulso
Apenas caminho
Com as sandálias de palha
As únicas que tenho
Ainda que venha a rasgar
Inúteis sandálias de palha.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Um Jizo de pedra havia

Numa estrada guardava
Um Jizo de pedra
Uma morte havida
Um Jizo de pedra
Cuidava das crianças abortadas
De mães desesperadas
Dos filhos que se foram
Um Jizo de pedra salva
Aquelas que se foram
Pelas trilhas tortuosas
Dos descaminhos
Um Jizo de pedra
Visita o céu
Visita o inferno
Visita a terra
Sem diferença alguma
Pois todos sofrem
Por suas desilusões
E criando mais ilusões
Num mundo de vidro
Colorido
E cortante
E vazio

Palavra em si

Nenhuma palavra
É inocente em si
Traz dentro de si
Muito mais o que diz
O poeta
Que nada mais faz
Do que deixar a palavra
Dizer
Aquilo que a palavra
Diz

Por demais traumático

E como ferve fevereiro
Um mês inteiro em que
Chove a água quente
Dos olhos dos desesperados.
Enquanto os resignados
Nada mais fazem do que
Fingir
Uma vida fugida
Ignorando mais ainda
Os velhos amigos
Sem importância alguma estes
São jogados à margem
De seus corações congelados
Por uma gota fria
Enquanto tudo o mais
Ferve
Em contradição.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Caminhando pelo fio

Nunca consegui empinar
Papagaios
Que sempre ficavam
Sempre no chão
Pesados.

Nunca levantei vôos
Que fossem realmente
Espetaculares
Com asas de corvo
Colocadas nos braços.

Nada muito especial
Minha vida nunca subiu
Nem ao menos desceu
E ficou a meio fio
Esticado em dois postes
E assim me tornei
Equilibrista
Que faz rir
Quando cai na rede
De um jeito engraçado
Mas não me importo com isso
Mas se importasse
Nada mudaria
E o vento continuaria
Soprando
Para o lado que desejasse
Sem querer agradar
quem quer que fosse
sem preferência
sem preferência alguma.

Ausência sem medida

Ainda a ausência sentida
Não é de alegria
Nem tristeza
Apenas ausência
Que marcará infinitamente
A alma pequena
Sublime ausência
Que alimenta afinal
As letras tortuosas
Que faz da vida
Mais interessante
Mais pelas falhas
Tão imperfeita
Que nenhum erro possa ser
Realmente um erro.

Sendo do contra

Ser do contra se tornou
A contramão dos bons costumes
Só por ser contrário
A qualquer afirmação
Pois negação se tornou
Vocabulário corrente
Dos críticos contumazes
De qualquer aceitação.

Antes de aceitar
Negue dez vezes
Até que a negação
Cai em desuso
Até que a negação negue
A si mesmo
Até que a negação se canse
De tanto negar
E as negas de plantão
Possam assim
Assumir que elas podem
Também dizer sim.

Mas espere um pouco
Antes de dizer
Continue negando
E sendo do contra
Sendo do contra
Não precisa assim
Assumir
Responsabilidades.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Amigo(a) para sempre

Nestes encontros da vida
Uma vida nova
Toma forma
Uma nova amizade
Numa amálgama
Ganha forma
Em que conversas
São conversadas
Em que confianças
São confiadas
E desta forma
Um amigo
Noutro amigo
Nasce sobretudo
Sobremaneira
Uma responsabilidade

Ter um amigo
É ter uma responsabilidade
Pelo outro
Como se o outro se confundisse
Comigo mesmo

Por isso
Um amigo é para sempre
Uma responsabilidade para sempre
Com a vida do outro
Com a própria vida
Com a vida comum

Por isso
Quando as amizades acabam
Acaba também a confiança
E a desconfiança nos torna
Mesquinhos
Pequeninos

Quando as amizades acabam
Somos imensamente
Irresponsáveis
Pelo outro
Por nós mesmos

As amizades jamais deviam acabar
Se um dia ela esteve presente
Em nossas vidas

Se acabou
Somos nós que acabamos
Como seres humanos
Sem nenhuma justificativa
Sem aplausos
No silêncio
E envergonhados

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O leitor de mãos

As mãos eram o que ele lia
Nunca banca montada na porta da loja
Toda freguesia
Homens e mulheres
Fazia fila
E dizia para uma
“Vai casar no próximo ano”
Para uma outra
“Vai ganhar na loteria”
Vendia ilusões
Vendia felicidade
Esperança é o que não faltava
Para o homem que lia
Só não lia suas próprias mãos
Ele próprio
Não acredita em suas previsões
Só servia para os outros
A quem não conhecia
A quem lia
Lia as linhas das mãos

domingo, 22 de janeiro de 2012

Batida da bola

Quando criança
Uma bola batia
Contra a parede
A bola voltava
A bola ia
A bola batida
Quanto mais força
Colocava
Ela ia e voltava
Por um longo tempo
Nada da bola cair
E ficava batendo
E a parede batia
E a bola batia
Numa relação cármica
Que tinha
Com aquela bola
E batia...
E batia...

sábado, 21 de janeiro de 2012

Se foi com o vento...

Para onde se retirou
Filomena
Que chegou sem avisar
Encontrou a porta aberta
Entrou e ficou
Fez carreira
Cantoria
Cantaria fez também
Um dia abandonou tudo
Amigos que tinha
Amigas também
Pela mesma porta
Se foi
Sem se despedir
Nem olhou para trás
Sem mais
Sem menos
Como vento passageiro
Sem saudades
Se foi
Filomena

Se perguntarem por ela
Ninguém sabe
Ninguém viu
Ninguém sabe por onde anda
Filomena

Pode ser até esquecida
Mas seus olhos gigantes de felina
Estes continuarão brilhando
Nas noites escuras
Olhos de Filomena

A chuva

Nem sei direito
Em tempos de chuva
Onde realmente a chuva
Cai
Se cai lá fora
Se cai dentro de mim
E este barulho monótono
É da chuva caindo
Cai a chuva devagarinho
Nem sei direito
Quem cai neste momento
Se é a chuva que cai
Se sou eu quem cai
Ou sou a chuva que cai
Incessantemente...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fingidor do nada

Nada mais havia naquela mesa
Em que me sentei um dia
Nada mais havia
Nem a sombra do passado
Que pudesse continuar tomando
Uma taça de vinho
Nada mais havia
Que pudesse me incomodar?

Justamente a falta de incômodo
Torna-se incômodo
Pela incoerência
Dos fatos
Pela desumanidade
Da dissolução
Dos laços intensamente
Vividos
Como nada mais disso
Fosse importante
E caísse na mais banal
Falta de importância
E fingimos
Nossa total deselegância

domingo, 8 de janeiro de 2012

Vida de ciclista

Numa corrida de bicicletas
Muitas são elas
Multicoloridas
Penetrando montanhas
Geladas
Montanhas rochosas
Sem se deter
Seja dia seja noite
Seja ventania
Correndo sempre adiante
Correndo em direção alguma
Correndo
Apenas correndo
Sem desistir
Desistir de viver
Desistir de continuar correndo
Ainda que se caia
Que se rebente
Machuque e quebre a perna
Machuque e quebre a cara
Machuque por continuar
Se equilibrando
E mudando a marcha
Subindo ladeira
Vencendo porteiras
Criando amizades
Brigando e fazendo as pazes.

Mas às vezes
Alguém desiste
Não quer andar mais
De bicicleta
Nem quer mais
Viver perigosamente
Prefere acomodar-se
Na própria indolência.

Aos que desistem do caminho
Fica-nos a lembrança
De que um dia
Caminhamos juntos.
Continuo pedalando
Pois nada sei do que pedalar
E cair continuamente
Até aprender a pedalar
E não cair mais.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Encontros e desencontros

Encontros tão simples
Sem marcar hora
Sem marcar encontros
Sem saber
Encontramos
E ficamos amigos
Por um longo tempo
Falamos
E trocamos informações
E ficamos sabendo
Uma vida inteira
E achamos que o encontro
Perdurará para sempre
Amigos para sempre
Mas nos apaixonamos às vezes
E com medo ficamos
Vai-se a paixão
Ou fica-se eternamente
Sem amizade alguma
Desencontro para sempre
Como um dia veio
Um dia se foi
Pela porta da frente
Pela porta de trás
Sem nada falar
Ou por falar demais.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um sonho inútil

Um sonho que acaba
Assim que um acaba
Um sonho novo
Vem em seguida
E achamos que nesta vida
Livramo-nos dos sonhos
E das ilusões
E temos certeza
Imensa incerteza
Quando mais a fundo ficamos
Sonhando
E por isso
Nada mais irreal
Do que viver na real
Deste mundo imundo
De poeira abstrata
Que se instala
Comodamente
Na Inteligência humana.

Caindo no fundo do sonho
Caindo numa casca de banana
No fundo
No raso
Pouco importa:
Quebramos!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Dragão envelhecido

Uma tatuagem
inscrita no braço
não demorou muito.

Anos se foram
e a tatuagem ficou
e envelheceu
e fora de forma ficou
totalmente amassada
que não lembra mais
sua juventude
belo e formoso
de patas armadas
e de olhos de fogo.

O fogo apagou
as patas amoleceram
e acabaram morrendo
junto ao braço.

Na passagem do ano

Temos a mais insensata
ilusão
de que este ano
pode ser diferente
e bom
se não somos bons
realmente
se continuamos
patinando numa lama
escorregadia da ignorância
e continuamos a repetir
sempre
movimentos de sempre
um bailado sinistro
vestidos de palhaço.

Patinando na lama

Temos a insensata ilusão
que crasso na alma pequena
quando a roda da roda-viva
gira uma roda inteira
como que na próxima rodada
tudo fosse diferente
e a vida fosse diferente.
Se nenhuma mudança faça
nem fora
nem dentro
deste corpo cada vez mais estúpido
que nada mais fez
e deixa de fazer
do que reclamar
dos outros
dos corvos
que indiferentes a tudo
apenas esperam
a roda girar.

Surfista das tormentas vividas

Cada vez mais passageiro
de passagem se torna o tempo
sem que possamos deter
por um instante sequer
as rugas alongando-se
pelo rosto inteiro.

Rugas que sempre
existiram no tempo futuro
do jovem que dança
e balança numa prancha
de surf
equilibrando-se
para não cair.

Mas continuamos ainda
numa prancha
muito mais hábil
do que ontem
contornando golfinhos
e brincando com os
tubarões
sem cair
e caindo sempre
para cair de novo
e de novo deixando-nos conduzir
como Ulisses
pelas sereias
as mesmas que devoravam
as almas dos homens
transformados todos
em carneiros a balir
encantados pela lua.

Sem correção
errando em direção
dum abismo
em que as lavas
de um vulcão
prestes a explodir
consolam diante
dos perigos desta vida
ilusória e maldita
mas vivida intensamente
seus pecados todos
bebidos todos num cálice
de prata.

A nau dos desvairados

Para atravessar um canal
revoltoso
de tempestades
numa nau uma multidão
procurava chegar
ao outro lado.

Da multidão surgiram
revoltas e guerras
amores e filhos
desamores e desaforados.
Alguns eram bons
outros eram maus
outros médios
eram meio bons
eram meio maus
alguns alumbrados
alguns faziam terapia
outros psicanálise
outros ainda nada faziam
senão falar da vida dos outros
só para mostrar que faziam
alguma coisa.

Mas quando soprou um furacão
não importava mais
a condição de cada um
nenhum outro lugar tinha
para ir senão
para o centro da nau
e rezar juntos para a nau
não afundar.

Nenhum outro lugar
tinha.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Uma febre amorosa

Uma patologia
amorosa era
que patologicamente
conheceu a felicidade.

Um dia um especialista
curou a patologia
e da patologia se livrou
conheceu a infelicidade.

Uma banda tocava

Quebrando a monotonia
das ruas
daquela pequena cidade
pequena era a curiosidade
dos que saíam pelos portões
para escutar
uma banda tocar.

Havia duas bandas
uma que portava vestimenta
preta
ou era azul escuro
uma outra
de branco
impecavelmente branco
e que tocavam
enquanto marchavam.

Muito se foi
a cidade pequena cresceu
a banda se tornou
notícia do mural
do museu municipal
que um dia uma banda
tocava
pelas ruas da cidade.

Havia uma banda
que tocava.
Havia duas bandas
que tocavam...

Caixinha de música

Um dia quebrou
a velha caixa de música
e nunca mais tocou.

Definitivamente
aquela melodia triste
deixou de existir.

Nenhuma outra música
foi tocada
e a caixa quebrada
nem sei para onde foi.

Nem música triste
nem qualquer outra música
e o mundo emudeceu.

O padre do bumbo

Pelas ruas da cidade
havia um padre
havia um bando de crianças
e uma tocando bumbo
que ia na frente.

Era o padre que recolhia
as crianças
e levava para a missa das oito.
Era o padre que queria
um público para a salvação.

Quando o padre aparecia
todos iam atrás do padre.
Apenas eu o ignorava
não queria saber do padre
nem da salvação.
Nem fui salvo nestes dias
nem nos outros
apenas vivia
com o padre tentando
salvar o mundo.
Imenso mundo que cabia
no bumbo do padre.

Numa estrada torta

O que se pode dizer
de si mesmo
senão uma breve
lamentação.

Não fui sapateiro
borracheiro não fui
Não fui eletricista
nem metereologista
guitarrista de uma banda
de rock
como existia nas garagens
de minha adolescência.

Meus amigos se foram
meus amores se foram
meus sonhos também.
Só me restou o caminho
das estrelas
em que nada encontro
senão uma poeira fina
de meus pés mesmos
num rastro apagado
atrás de mim.

De fato fui
errado
fui mal e malcriado
fui um pau torto
que nunca tomou jeito
nem se endireitou
pois não havia jeito
sujeito a vagabundice
literária
das letras descompostas.

Castelos de areia

Um castelo de areia
de areia molhada
da água do mar.

Um castelo de areia
em que brincavam
juntos um menino
juntos uma menina.

Brincaram a manhã toda
brincaram a tarde toda
e não deixavam que a água
salgada que havia adiante
carregasse
um castelo de areia.

Até que
de tanto brincarem
no mesmo castelo
na mesma brincadeira
a menina resolveu ir.

Mas antes
pediu sua parte
do castelo de areia
daquela brincadeira.
Nada tinha a ser levado
da parte do castelo
foi quando resolveu destruir
uma parte dela mesma
pois nada daquilo pertencia
ao menino.

Um castelo danificado
foi o que restou
daquela brincadeira
e a menina se foi
e o menino ficou
com as ruínas
que fora um dia
um castelo de areia.

Colonização por todo lado

Cuidado com a Coca-cola
colonização americana.
Cuidado com o Carrefour
colonização francesa.
Cuidado com a Nestlê
colonização suiça.
Cuidado com a Wolkswagen
colonização alemã.
Cuidado com a Honda
colonização japonesa.
Cuidado com a Samsung
colonização coreana.
Cuidado com a Capoeira
colonização africana.
Cuidado com a loira
colonização catarinense.
Cuidado comigo
colonização de minhas palavras.
Cuidado com a colonização
pois será tudo
será o mundo
e o mundo será
tão pequeno
que caberá no coração
cidadão do universo.

Onde quer que esteja
será a sua pátria.
O que quer que coma
será seu alimento.
O que quer que pense
será seu pensamento
colonização do mundo.

Por uma cabeça perdida

Um homem havia a muito
que perdera sua cabeça
procurou de um lado
no lado esquerdo não havia
não havia no lado direito
e onde quer que pudesse
procurar.

Por fim achou uma
não era a sua
não se importou com
isso.
Ficou com aquela cabeça
uma cabeça de papelão
não se importou com
isso.

A cabeça de papelão
de tanto pensar
incendiou-se
e foi-se de vez
a cabeça de papelão.
Buscou outra cabeça
a cabeça que encontrou
era a cabeça de um
cabeça dura
cabeça de pedra.
Melhor do que a outra
cabeça de papelão
cabeça de pedra
que de tão dura
mais dura ficou
trincou por pensar
demais
demasiadamente
dura por pensar.

Procurou por outra
uma cabeça mole
uma cabeça de maria
mole
que de tão mole
amoleceu todos
os neurônios
os plutônios
os parafusos
e derretou.

Toda cabeça encontrada
não lhe servia
e assim resolveu ficar
sem cabeça alguma
e quando precisasse de uma
qualquer uma
poderia lhe ser útil.
Inútil seria buscar uma cabeça
que fosse
que fosse somente sua.

Nem das cabeças somos
donos!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A violência diante da beleza

Podemos viver todas as emoções
Senão seríamos insensíveis.

Mas nada mais belo
Do que na emoção mais violenta
Nenhuma palavra violenta
Nenhuma ação violenta
Nenhum sinal violento no rosto
Nem no canto da boca
Nem nos olhos
Cuja menina dos olhos
Placidamente contempla
Apenas contempla.

Nada mais violento
Do que a beleza
Que violenta
Aqueles que se derramam
Em lágrimas
Diante de um perigo
De um movimento quase parado
Que sugere
Apenas sugere.

Em busca de uma causa

Pode ser qualquer uma
Em defesa disso
Por ser outra coisa
Em defesa daquilo
Pode ser do contra
Contra alguma coisa
Qualquer coisa
Discriminação
Discrição
Diletantismo.

Contra os livros
E a favor das matas
Contra a erotização
E a favor da repressão corporal
Contra o sacrifício dos animais
E a favor da alimentação vegetal
Que pode se explorado...

Em defesa dos cachorrinhos
Explorados pelos seus donos
Que precisa tomar banho
Usar sapatinho
E andar de coleira
Como um palhacinho
Sem poder ser livre
(Um cachorro nunca é livre)
A liberdade existe
Apenas para os homens
(E também mulheres)
Senão seremos acusados
De discriminação!
Para escolher o lado
Do contra
Do favor
Do contra ao contra
Do favor ao contra
Do favor a não ter preferência
Por qualquer lado que seja.

Estragos depois das águas

Continua a causar estragos
As ondas do tsunami
Que invadiram as terras
As mentes invadidas
Enlouquecidas
Perdidas pelas ruas
Sem nenhum rumo
Cujo rumo que tinha
Desfez-se no primeiro instante
Quando as águas retornaram
Salgando toda a terra
Para que não nascesse mais
Nem ervas daninhas
Para que não nascesse mais
Nem ervas boas
Para curar a ressaca
Que continua ainda
Enlouquecendo
Ainda

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quando a bola caiu

Uma bola de tênis
Batida
Rebatida
Num vai e vem
Num saque mais rápido
Mais rápido se fez.

Cruzando os ares
Por cima da rede
Sem cair
Mas há de ser um dia
Mais cedo
Mais tarde
Há de cair.

Não se sabe
De que lado
Daquela rede
A bola caiu!
E perdeu.

Mas o que importa
Isso?
O importante é bater.

Por falar em amor

Quando passava ela
Maltratava
Ela
Não olhava na cara
Simplesmente a ignorava
Não dava boa-noite
Nem me despedia
Nem bom-dia
E quanto mais
Maltratava
Era dela que gostava
Mas não queria
Dizer isso
Ela sabia...
Ela sabia...
Até que ela se cansou
Até que ela se foi
E não voltou
Ele sabia...
Ele sabia...

Uma fuga frustrada

Pensei um dia me retirar
Ir para longe
Fui para a Amazônia
Fui também a Patagônia
Não fiquei muito tempo
E voltei
Ainda que tivesse ido
Nem um passo foi dado
Do lugar em que sempre
Me encontrei
Nunca saí do lugar

Retorno não acontecido

Foi onde nasci
Pelas ruas desconhecidas
Andava
E nada via
Nem se lembrava
Que um dia
Por lá passara
Uma vida inteira
Até que um dia saí
De lá
Voltei outras vezes
Não conhecia mais ninguém
Alguns tinham morrido
Outros também saíram
Só que penso agora
Nunca estive lá

Esconde esconde

Nem todas as pedras
Machucam
Nem todas as palavras
Ferem
Por trás de cada palavra
Outra bem diferente
Diz a verdade
Como pudesse somente
Ser conhecida
Por aquele que lê
Na transparência das paredes

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Por uma questão de maldade

Sem orgulho algum
De sua natureza
O escorpião pica
O outro
Que embriagado
Pelo veneno
Vive para contar.

Quem morre
Sempre
É o escorpião
Que morre calado
Pois sempre o vilão
Deve morrer no final.

Sem se esquecer

Que me importa a indiferença
Sempre me importarei
Distante ainda
Nunca estará
Abrigada estará
Numa mente perdida
Nas geleiras
Mais profundas
Da existência
Lá no fundo
De uma casa de barro
De joão-de-barro
Mas não conte isso
Para ninguém...

Bate coração...

O que você tem agora?
- Arritmia
Que nem sabia o que era
Que motivos
Tinha
Para ter
Arritmia
Fora de compasso
Errando os passos
Batendo descompassado
Um coração maltratado
Que maltratou também
Por isso bate
Bate em ritmo incerto
Bate falho
Uma batida errada
Como sempre bateu
Como bateu antes
Como bateu depois

Criador de mentiras

Por tudo que tenho dito
Pouco se diz da realidade
Talvez sejam mentiras
Ditas como fossem verdades
Que para o poeta
Daquele construtor de imagens
Tornam-se verdades
Para que o tédio da realidade
Não torne o mundo
Demasiadamente formado
Conforme as formas
Das linhas retas e pontos certos
Ao invés
O que me atrai
São as linhas tortas
Naturais
De uma árvore tortuosa
Uma nuvem se desfazendo
Outra se fazendo
Naquilo que o olho percebe
O olho que sabe versejar

Quando a sombra se desfaz

O que realmente as palavras revelam
Se realmente revelam
Revelador seriam as palavras ditas
No auge de maior patologia
Senão uma patologia que revela
Os poros explodindo
Na insanidade dolorosa
Dos amores vividos
Que na errância desta vida
Apenas podemos viver sonhando
Numa fluidez que nenhuma forma concreta
Se mantém
Logo se desfaz em espuma
Na correnteza que tudo
Transforma
E carrega para o mar
Salgando e dando gosto

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Destruindo lembranças

Os monumentos derrubados
Não servem para nada
Senão para ser totalmente
Pisoteados
Para que não deixe
Nenhum vestígio
De um passado
Em que a ilusão ainda
Existia
Nada existe mais
Nada mais do que
Desilusão.

Não esquecemos Fukushima

Se pudesse escreveria
Uma oração apenas
Silenciosa
Sem muitas palavras
Para consolar
Aqueles que morreram
Aqueles que viveram
Para contar
Das águas que varreram
Os arrozais
Negra água da destruição
Fukushima
Fukushima jamais será
A mesma
Após março
Submersa em nossos corações
Cujas lágrimas ainda
Continuam caindo
E inundando ainda
Até que o esquecimento
Possa enfim
Enterrar os mortos
E fazer viver os vivos
Que continuam em seus barcos
Flutuando de um lado para outro.

Quintal em desalinho

Quem foi que soprou aqui?
Quem foi que soprou aqui?
Após varrer todo o quintal
As folhas recolhidas
Novamente se espalharam
Novamente ponho-me a varrer
O quintal de minha mente
E quem sabe sopre de novo
O sopro do meu coração!
O sopro do seu coração!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Altar da pressa

Galhos imensos
Hasteados ancestres se
entrelaçando como dedos

O calor incolor do sol
e um céu de clorofila

Mastreando o pescoço
feito árvore grandona
Ponteando surge o fruto
hora verde, hora maduro
hora verde, hora maduro

Altar da pressa.
Luminoso sinal.

Há quem olhe e pare
e há quem corra, só de ver
este fruto de olhar

domingo, 27 de novembro de 2011

Pelas vias da incerteza

Muito me diz
Este silêncio opaco
Deixando um rastro
De quem passou por aqui
Em cuja incerteza
Ainda paira o fantasma
Do medo
De ser mais uma vez
Verdadeiro
Em todo seu instinto
Marcando a pele
O dente canino
De sempre desejado

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Numa sala da farmácia

Numa farmácia popular
Havia numa garrafa
De minha infância
Uma cobra verde.

Ela vivia naquela garrafa
Mergulhada no formol
Nunca saia de lá
Fingindo-se de morta
Sem se mexer
E de olhos redondos
Envidraçados.

Contemplava o mundo
Minha passagem por lá
Naquele laboratório
Em que o farmacêutico
Preparava
Suas beberagens
Pós para curar feridas
Marcadas na alma
Das mulheres pecadoras
Que amavam outros homens
Que amavam outras mulheres
Que amavam a si próprias
Suas calças de marca
Seus penteados endurecidos
Por laquê.

Brinquedos atirados

Deixados ao relento
Os brinquedos não têm
Mais nenhum valor
Uma vez brincados com eles
São atirados ao relento
Até que a próxima criança
Chegue e brinque de novo
E quando a brincadeira perder a graça
De graça fica para quem encontrar
De novo
De novo começa a brincadeira...

Abandonos irracionais

Abandonado num dia de chuva
O cachorro não sente saudades
De seu antigo dono
Que agora sem dono
Tem toda a liberdade de viver
Na vadiagem das ruas sem lei
E morrer a cada momento
De um dia para o outro
E ninguém sentirá sua falta
Que um dia
Existiu um cachorro
Que tinha um dono.

Quem seria o cachorro?
Quem seria o dono?

Procura que não se cansa

Que palavra pode ser mais bela
Do que aquela que existe
Talvez seja aquela que precisa
Ser inventada
Na batida do coração
No sangue que circula
Percorrendo todas as artérias
Azuis e vermelhas
Oxigenadas
Carbonizadas
Nascidas
E morridas
No instante exato
Deste mesmo momento
Que não encontro
Palavra alguma
Senão o silêncio
Que contraria tudo
O que foi descrito
Num pergaminho
Perdido num mar
Que não existe mais.

domingo, 13 de novembro de 2011

Uma história não acontecida

Sem nada dizer foi-se
Numa ventania foi-se
Foi-se como isso tivesse importância
Como pudesse fugir
De um jogo de esconde-esconde
E assim refugiar-se num esconderijo
Bem longe
Como num dia apareceu
De surdina desapareceu
Apagando a cal impregnada
Numa lousa carregada de história.

Passagem da banda

Ainda em minha lembrança
De uniforme branco
Uma banda andava pelas ruas
E tocava uma melodia
Todos saíam para ver
A passagem da banda
A passagem da vida
E a vida passou...

Uma estátua de pedra

Naquela praça em que passava
Uma mulher nua de pedra
Sorria pela eternidade
Sem nunca mudar sua expressão
Lá estava
Ela
Nunca falava
Nunca reclamava
Mas continuava a sorrir
Um sorriso de pedra negra
Podia ser amada
Podia ser desprezada
Não mudava o sorriso lindo
No canto da boca
E assim permaneceu por anos
Do mesmo jeito
Enquanto a praça envelhecia
Veio um trator e tudo derrubou
Carregaram a mulher de pedra
Quebrou-se um dos braços
Esfolou uma perna
Enquanto sorria
Como nada tivesse acontecido

Em algum ponto da cidade

Os caminhos que cruzam
Minha cidade
Vão para todos os cantos
E para os cantos algum
Por mais que se caminhe
Não chegaremos jamais
A algum destino que seja
Pessoal
Por mais que tentemos
Tornar este caminhar
Um caminhar próprio
Será impróprio
Desejar um caminho que seja
Somente meu
Será teu também
Nenhum outro caminho existe
Além do próprio caminhar
Seja distante
Seja perto
Nunca sairemos do lugar
Em que sempre estaremos

sábado, 12 de novembro de 2011

Canto da terra condenada

As ondas que varreram Fukushima
Ainda continuam varrendo
As margens desoladas do Pacífico
E os arrozais contaminados
Por anos não mais produzirão
Enquanto as usinas radioativas
Continuarem vitimando
As mulheres que não se casarão
E as crianças sem nada saber
Numa praia qualquer
Continuarão a levantar
Castelos de areia
Ajudados por Jizo
Para serem destruídos depois

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Passarinhos

Passarinhos cantam invisíveis na árvore da praça
Só hoje parei para procurar
Mas só encontrei um passarinho
Que não sabe cantar

domingo, 6 de novembro de 2011

Pelas ruas de domingo

Sem se importar
Se hoje é domingo
Se isso realmente
Importasse
Dormia em seus trapos
O mendigo na rua
Abandonado por todos
Abandonado por mim
Que não pude nada fazer
Por isso fiz
Esta poesia
Para lembrar que havia
Um mendigo na rua
Um mendigo que dormia
Sem incomodar ninguém
Só eu me incomodava
Que havia
Um mendigo que dormia.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Batidas cardíacas

Nem sempre a esperança
É uma solução
Cuja espera pode estender-se
Pela eternidade.
O arroubo das paixões
Uma vez derramado
Escorre imediatamente
Para o ralo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Uma vida inútil

Que de bom fiz nesta vida
Senão errar pelas esquinas
Para ver sombrinhas azuis
Subindo ladeira acima
Em dias que não havia sol.

Um ato de esquecimento

Sei que vou esquecer
Das linhas bordadas
Por Ofélia
Só não posso esquecer
Daquilo que alimenta
Este constante viver
Com gosto de veneno
E cor maravilhosa.

De onde sopra o vento

Nenhum motivo para desespero
Quando uma apática indiferença
Possa causar danos incontroláveis
Mesmo assim o moinho de vento
Roda num leve soprar
Ao sabor salgado que sopra do mar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Silêncio cai devagar

Calar-se por momentos
É mais comprometedor
Do que todas as palavras ditas
Pois no não dito
Esconde-se aquilo que nenhuma
Palavra pode dizer.

Cidade passageira

Chovia naquela tarde
Incessantemente chovia
Pelas ruas desta cidade
Enquanto a vida passava
Passava urgente a mulher
Que perdia o trem
Era o trem que passava
Era também
Um tiro que passava
Um raio também
Veio a morte
Mas nada detinha
Daquilo que arrastava
E passava
Passageiro de passagem
Sem nunca se deter
Um instante sequer.

domingo, 30 de outubro de 2011

Via expressa

Adiante estava anunciando
Pare!
Alguns passaram
Sem respeitar a placa
Pare!
Por um momento
A vida parou
Para uns
Para mim a vida
Continuou
Indiferente o que dizia
Aquela placa
Pare!
Continuei parado
Por algum tempo
Sem que o mundo
Deixasse de girar
Um segundo sequer.

Viagem sem destino

Não renego
Jamais
Uma vontade insana
De partir
Sem destino certo
Destino algum
Pode ser Kanchaka
Pode ser a Conchinchina
Que deixou de existir
Quero partir para lugar algum
Acima do Equador
Abaixo do Equador
Onde as mulheres não envelhecem
Mais
E oferecem seus colos
Para que os pássaros façam ninhos
E uma cachoeira caia
Para que os homens afoguem
Suas mágoas
Para continuarem a viver.

Sem rastros sem saudades

Que pode ser mais ilusório
Do que o tempo passado
Como nada tivesse realmente
Acontecido
Como tudo tivesse realmente
Acontecido
E assim desaparecido
Como uma nuvem branca
Que neste momento havia
E se desfez
Como nunca tivesse realmente
Havido.

Que me importa
As evidências de uma suposta
Existência
Se não existe mais
Nem mesmo a lembrança
Que a cada momento
Mais opaca fica
E um dia chega
Em total amnésia
Do que foi um dia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Em causa perdida

Era uma casa de secos e molhados
Era a casa de minha mãe
Em que me perdia nas prateleiras
Das garrafas de groselha
Perdia-me com tamanha vontade
Que nunca mais voltei
E perdido continuo
Misturando as letras
Dos rótulos
E enganando o tempo
De avançar.

Noites de sonolência

Em minhas noites
Ainda me assombra
O homem preto
Carregando um saco enorme
Cheio de biscoitos.
Sua voz é rouca
E anuncia roucamente
Biscoito
Biscoito
Biscoito
Nunca comprei
Biscoitos dele
Nem sei se realmente gosto
De biscoitos
Mas ele insiste...

Nada mais acontecia

Todos os dias
Naquela mesma hora
Duas velhas caminhavam
Em direção à igreja.

Todos os dias
Naquela mesma hora
Dois soldados montavam
Guarda na porta do quartel.

Sempre era a mesma coisa
Nada mudava
E por anos continuou assim
Por detrás daquela janela
Os olhos que espiavam
A rotina de sempre.

Um dia
Uma das velhas não passou
E criou-se um alvoroço
O que teria acontecido?
Os soldados levantaram armas
E apontaram
Até que a velha apareceu
E assim
Duas velhas passavam
Em direção à igreja.

Nada mudou na vida
Daquela cidade
Que nada acontecia
Senão a passagem
De duas velhas
Em direção à igreja.
Como sempre foi
E qualquer mudança
Não era bem vinda.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

As meninas das brincadeiras

Aquelas meninas com quem brinquei
Um dia
Onde andarão?
Terão crescido?
Não seria justo
Não seriam mais meninas
E que não brincam mais
E que esqueceram também
Que um dia
Brincaram também.

Em algum lugar neste mundo
Pode ser
Pode ser debaixo de uma folha
Oculto numa nuvem
Numa estrela
Em algum lugar neste mundo
Continuam brincando
E continuo brincando com elas
Que nunca cresceram.

Somente cresceu
Minha falta de inocência
Somente cresceu
Minha total intolerância.

domingo, 16 de outubro de 2011

As crianças levadas pelas ondas

Aquelas bonecas de madeira
Branca
Aquelas bonecas japonesas
Sem braços
Sem pernas
Que segredos esconderão?

Kokeshi ningyo
Assim se chamavam
Kokeshi ningyo
Foi assim que as conheci
Que serviam para enfeitar.

Bonecas de madeira
Bonecas de Miyagi
Que as altas ondas destruíram
Carregando casas
Carregando crianças
Carregando bonecas
Carregando kokeshi ningyo
De Miyagi.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Felicidade cruza a rua

Prestes a atravessar
A rua
Chega alguém
Que nunca vi
Que nunca mais verei
Em questão de instantes
Lança-me uma pergunta:
- Você é feliz?
Que direito ele tinha
De perguntar
Pergunta tão pessoal
Que resposta alguma
Foi devolvida
Só queria saber
Se alguém que cruzasse
Na rua
Era feliz
Apenas isso
Mas nada foi dito
E cada um foi para
Um lado
Como nada daquilo
Tivesse acontecido
Algum dia
Que importância tinha
Afinal
Se alguém era feliz

E Nagasaki ficou

Tenho na sola dos pés
O solado que ficou
Das ruas de Nagasaki
Por onde andei e saudade
Ficou
Em Nagasaki ficou
Um pouco de mim
Das águas daquela cidade
Em que me banhei
Curei um pouco
De uma doença imaginária
Que de pouco a pouco
Novamente
Toma conta de mim
Mas quando me lembro
De Nagasaki
Durante a primavera
Chega-me um consolo
Soprado por um vento
Que venta de lá
Que venta em mim

Nas águas plásticos do kingio

Numa esquina que
Jamais esqueci
Jamais voltei
Ainda existe
O vendedor de kingios.

Era naquela esquina
Num saco plástico
Quase a sufocar
Naquelas águas
Kingios nadavam.

Naquelas águas
Ainda
Os kingios continuam
A nadar
Como que o tempo
Não mais existisse.
Kingios coloridos
Dois kingios
Um casal de kingios.

Cheguei a pensar
Que o kingio era eu
Mas um dia
O kingio morreu
Cheguei a pensar
Que o kingio era eu.
Meu egoísmo foi tamanho
Que recusei-me a morrer.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Um bolo na cara!

Nem sei que razão há
Irracional seria se houvesse
Alguma razão
Para se comemorar
Aniversários.

Após cinco décadas de vida
Metade de uma vida
Ainda se para
Para comemorar
Aniversários.

Ser lembrado causa
Constrangimento
Por estar mais enrugado
Menos sonhador
Mais próximo da própria morte.

Se for assim
Comemorar talvez seja
Comemorar o ano que foi
Sobrevivente das tempestades
Amorosas e reumáticas
Febres sem motivos
Físicos e espirituais.

Comemorar é ironia
Que não combina
Fora de tom
Que não tem rima.

O Poder da palavra mítica

Da mesma forma que, no ato de Criação, a palavra divina do Ser Supremo veio animar as forças cósmicas que se acham estáticas, em repouso, a palavra humana anima, põe em movimento e desperta as forças que se encontram estáticas nas coisas.
À imagem da palavra do Ser Supremo, da qual é eco, a palavra humana põe em movimento forças latentes, que despertam e acionam algo, como ocorre quando um homem se ergue ou se volta ao ouvir chamar seu nome.
A palavra humana é como fogo: pode criar a paz, assim como pode destruí-la. Uma só palavra inoportuna pode fazer estourar uma guerra, assim como uma simples fagulha pode provocar um incêndio.

LOPES.Nei, Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos, Rio de Janeiro, Senac rio, 2005, p.31

Sabedoria popular será

Num muro
Da Praça Roosevelt
Numa pichação
Estava posto
“Viver é esquecer
Lembrar é sofrer”.

Mas pode se diferente
Poeta ausente
“Amar é perder
Viver é fingir”
Poeta fingidor.

Um ipê amarelo mirrado

Acreditem
Como no ano passado
Como no ano retrasado
Como nos anos que passaram
Uma década se passou
E todo ano
Passado o ano
Novamente floresceu
No mesmo jardim
O pequeno ipê
Mirrado ipê
Sem presença
Quase oculto
Sem que ninguém notasse
Até que notei mais uma vez
O mesmo ipê
Com galhos delgados
Soltando na brisa
Uma flor hoje
Outra amanhã
Sem inundar nunca o jardim
De maneira discreta
Sem que ninguém percebesse
Que continua florindo
Ipês amarelos
De beleza imensa
Mais bela ainda
Do que todos os outros
Ipês amarelos floridos
Desta cidade.

As paredes brancas de cal

Ainda que as paredes sejam surdas
Elas ouvem
Ainda que as paredes sejam mudas
Elas falam
Mas basta uma camada de cal
Para calá-las
Se enxergavam
Não enxergam mais
As paredes testemunham
A vida acontecendo
E vivem juntos
E juntos também morrem.

O rosto de um outro

Nunca olhei para espelhos
que refletissem o meu rosto
que desgosto era me ver
e sem saber de quem era
aquele rosto.

Um rosto refletido
de alguém
não sei
de quem é o rosto.

De alguém com quem
nunca vou me encontrar
com quem nunca vou falar
nem tomar café no bar.
Ainda que seja assim
anda ao meu lado
aquele rosto
não muito familiar
um pouco antipático
como dissimulasse
um sorriso forçado
que nunca quis dar.

Um rosto que existe
para todo mundo
só não existe para mim
que carrego
como fosse alguém
totalmente estranho
sem nenhum caráter
sem coragem
sem dinheiro no bolso.

Não procuro por ele
não procuro por mim
que sem rosto
somente o espelho reflete
o que os outros vêem
sem saber
de quem é aquele rosto.
Talvez seja o rosto de todos eles
menos de mim
que não tenho nenhum
que possa ser visto por mim.

Um tufão por aqui se foi

Como um tufão passou o tempo
E não deu tempo para salvar
O que estava na sala
Cujas paredes testemunhavam
Uma história
Que merecia ficar
Não ficou sequer
Uma pedra sequer
No mesmo lugar.

Quem ficou para contar
Não contará
Assim nada aconteceu
Continua acontecendo ainda
Em algum lugar
No fundo do mar
É a sereia que sabe
É o lobo marinho.

Naquelas águas visitarei
Naquelas águas visitará
Quando o tempo chegar
Com barbas brancas
E histórias para contar.

sábado, 8 de outubro de 2011

A movimento do universo inteiro

A escolha é um relâmpago ⎯ eis o trovão
a chuva e

o estio


Do sol azul
também não quero nada

nada


Poesia é assim ⎯ qual o meu nome?

Palavras são vivas como o braço de uma cadeira e o que é vivo é não conhecer descanso

Nem prisão

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Assim Cláudia caminhava

Cláudia claudicante
claudicava constantemente
e perdia a postura
toda a descompostura
até se levantar novamente
e novamente
continuar em frente
indiferente a tudo
que pudesse
por uma pedra
em sua andadura.

Por onde andava
deixava atrás de si
os homens enlouquecidos
de amor
que enlouquecidos
ficaram por ali
errando na vida
vivendo a vida
de todos os devaneios.

Com Cláudia aprendi
que claudicar
também é viver
sem padecer
um instante sequer
e rir
e chorar
e morrer a cada momento.

Se procurarem por ela
não acharão
em nenhuma estrada
perdida neste mundo
afinal ela sempre anda
na contramão.

Solitária em suas andanças
nenhuma companhia é melhor
do que a sombra companheira
que aprecia poesia
uma dose de cachaça fria
para espantar o tédio.
Claudicante caminha
sem retroceder
caminha
sem direção
caminha
onde o caminho leva.

Primavera insana

Em tempos de primavera
o que comemorar?
Se a lagartixa de sempre
continua a defecar
no mesmo local
animal hibernal
que nada mais faz
do que viver no teto
nas trincheiras de madeira
uma vida guerrilheira
de uma causa perdida
pois nenhum sonho mais há.

Ninguém mais assobia
uma triste melodia
só para irritar
os bens de vida.

Ninguém mais dança
um bolero de Ravel
daquela cigana
que tinha o mundo.

Em tempos de primavera
o que comemorar?
- Um aniversário que ficou velho
que cansado preferiu parar.
Pelo menos estamos vivos
com dores por todo corpo
sobreviventes de uma acidente
nuclear.

Em tempos de esquecimento

Quem era você
não me importa mais
se o tempo passou
passou também a vassoura
pelos jardins da memória
não deixando sequer
uma folha atirada
ao relento.

Sempre te conheci
nunca te conheci realmente
nem sei mais seu nome
que também mudou.
Seu rosto mudou
em instantes
e nada mais
me parece familiar.

Fico-me a perguntar
em que momento parei
de sonhar
e todo o sorriso que havia
se desfez
como castelos de areia
levados pela água
salgada do mar.

Peregrino sem causa

Em cada esquina de minha vida
um pouco que seja
esqueci-me de quem era
e deixei amores
e deixei livros
que em minhas costas pesavam
mesmo assim eram minhas
as pernas
que doiam e caminhavam
por onde o caminho levava
e venci encruzilhadas
e perdi batalhas
e cada batalha perdida
nem sabia mais o que
realmente perdia.

Não era o que importava
se importava alguma coisa
além do que caminhar.

Não era a minha vida
perdida em andanças
cidade adentro
cidade afora
em vilas da periferia.
Era a vida daqueles
que não mais caminhavam
por cansaço talvez
por indigestão talvez
por desistência quem sabe.

Daqueles que caminham
estes ainda conseguiam ver adiante
o mundo desmoronando
sem que nada pudesse fazer
senão contemplar
o vento varrer o horizonte
de maneira lenta
acariciando a pele molhada
pela chuva de primavera
perfumada e doce.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A tristeza de viver

Num muro pichado
Um dragão pichado
Com garras de leão
Ganhava vida
E revirava os olhos
E saia à procura
De um herói
Que pudesse matá-lo.

Assim fez
Uma vez
Duas vezes
Outras vezes
Sem que encontrasse
Uma lança resistente
Uma espada cortante
Que pudesse matá-lo.

Não havia heróis
Nem anti-heróis
Que pudesse contar
Uma história simples
Com final feliz.
Um dragão havia
Numa velha pichação
Que envelhecia
Enegrecida pelo tempo
A graxa escura do tempo
Que também deixou
De existir.

E não havia
Quem pudesse matar
O dragão da pichação
Que desiludido
Continuou vivendo
Naquela parede
Sem chamar a atenção
Sem a chama da paixão
Indiferente a tudo.

Marcando para sempre

Escrevestes teu nome
Em tua pele
Escrevi meu nome
Em teu coração
Em tatuagem.