terça-feira, 4 de outubro de 2011

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A vida engraxando

Os meninos engraxates
Disputam sapatos
Para polir
Os meninos engraxates
Havia aos montes
Naquela praça
Brincavam de polir
Repicando na caixa
Na lata de graxa.

Quando cresceram
Os sapatos desapareceram
E os meninos engraxates
Tornaram-se parte apenas
De minha memória.

Praça da Liberdade

Numa mesa de bar
Havia
Na Praça da Liberdade
Havia
Mulheres sexagenárias
Usando chapéu
Luvas longas nos braços pálidos
Misturando suas tristezas
Nos goles fartos
De uma cerveja doce.

Quem eram aquelas mulheres
Livres
Livres demais
Com semblantes orientais
Saídos de um filme
Surrealista
Demais.

Quando todos trabalhavam
Elas viviam intensamente
Numa mesa de bar.

A folha cai

Sem nada esconder
A folha que despenca
Ao final do inverno
Revela
A frente e o verso
O verso e a frente.

Que lado realmente
Revelamos?
Se fingimento fosse solução
Toda mentira seria sustentável
Suave é a mentira que agrada
Os bem educados!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Amigo de verdade

Era na praça da matriz
em que descobri meu primeiro
animal.
Era de estimação.
Era um sapo de cimento que
esguichava água pela boca.
Nunca me esqueci dele
meu primeiro amigo
que jamais me abandonou.

Que se deu com Graziela

Havia na terra em que nasci
Graziela
nem bonita era ela
nada tinha de interessante
senão o nome
Graziela.
O que teria acontecido com ela
nem sei por quê falar dela
mas ficou apenas a lembrança
de seu nome
Graziela.
Mas quando penso em
Graziela
retorna-me em instantes
um rosto comum
sem importância alguma
em sua vida sem importância
mas agrada-me simplesmente
dizer
Graziela.
Se Graziela não existisse
pelo menos ficaria o nome
que poderia ser de qualquer uma.
Prefiro que não seja de nenhuma
pois nenhuma pode se chamar
Graziela.

Último clarão na Paulicéia

Quando a tarde chega devagar
por entre as alamedas
uma sombra do passado
também descansa por entre
bancos de metal que o tempo
deixou de devorar.

Mesmo que nenhuma presença
seja sentida
toda presença se faz necessária
para que a vida continue a vicejar
e nunca a alegria desapareça
daquele rosto comum
perdido na multidão.

Por onde quer que se vá
errando pelos meandros
das esquinas sujas
disputadas pelas prostitutas
e bêbados vagabundos
uma solidão estampada
nos gestos lânguidos
pelos desiludidos da vida.

Nenhuma esperança existe
suave esperança
dos que esperam
ajuda divina.
Se divino fosse seria
humanamente imperfeito
e São Paulo seria
a terra em que sempre vivi.

Ainda que desconheça as faces
que encontro pelas ruas
sempre as conheci
cumprimentei às vezes
não reconheci às vezes
em insípido desprezo.

Antes que a noite venha de vez
e a lua venha dançar uma valsa
que as casas de baile deixaram de ter
o que restou do amor
senão o testemunho dos muros
que se calaram para sempre.
Em nenhum outro lugar
sinto-me como aqui
Nunca saí daqui
em que plantei sonhos
que pensei serem realidades
foram com o vento passageiro
e também o tempo se foi
passageiro também
foram-se alguns amigos
que juntos sonhamos.
Desistiram da vida
e pararam de sonhar.
Por teimosia insana continuo
a sonhar com os amigos
que restaram
outros amigos que somaram
aos mesmos sonhos
sonhados por mim.
Esta cidade cabe dentro
de um mesmo sonho
que outros também sonham.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A falta de importância

Quando nada mais há
para se fazer
nada se faz senão
contemplar a vida continuar
sem se deter
um instante sequer
indiferente a tudo
que possa acontecer.

Eu posso gritar
posso também criticar
inclusive deixar de respirar
mesmo assim
indiferente a mim
aquilo que penso
nada disso parece
importar.

Mas o que importa?
se algo realmente importa
que de importante se faz
a custa do vento que traz
uma força que roda
com força
o roda-moinho
de uma página virada
do Don Quixote.

Quando nada mais há
para se fazer
pelo menos continuamos
a viver.
Viver apenas num sonho
sem se importar se existe
algo que seja importante.
Importante é deixar de lado
toda a importância
e com toda a falta de importância
possamos caminhar pelas trilhas
inventadas pelas nossas pernas.

Se foi com a florada do ipê

Era primavera quando ela se foi
foi junto com a florada do ipê
imenso ipê amarelo.

Depois o ipê emudeceu
perdeu todas as folhas
ficou sem as flores
sem nada ficou.
Assim se foi...

Mas toda vez que chega
a primavera
de novo o ipê amarelo
amarela de novo
e amarelo fica
toda a rua amarelada
imenso tapete amarelo.
E aquela que se foi
não volta mais...
(amarelou)
Que me importa isso
se o importante é o ipê florescer.

Se ela não aparecer
fica a esperança
suave e ingênua esperança
que retorna toda vez
que o ipê florescer.

A lembrança que fica

Nas águas correntes banhei-me um dia
nas mesmas águas correntes banhastes um dia
não consegui um momento sequer
deter daquelas águas
que agora correm somente
nas correntezas de minha mente.

Nem por isso a tristeza me aflige
se não posso mais
usar daquela água
que se foi para sempre
desembocar no mar
e se tornar um imenso mar
com todas as águas derramadas
das lágrimas e lamentações
da lembrança que fica
adormecida fica
no fundo
no mais profundo
redemoinho
perdendo-se
enfim
num montículo de areia
que se forma
que logo se transforma
naquilo que sempre foi.

domingo, 11 de setembro de 2011

Perdidos apenas

Amigos de anteontem
Onde andarão?
Por um momento foram
Mesmos os caminhos tomados
Quem sabe os caminhos cruzaram
Depois descruzaram
Para não se cruzarem mais.

Amigos de anteontem
Onde andarão?
Quem sabe morreram
Quem sabe viveram por outras causas
Em terras distantes
Do outro lado do bairro
Desta mesma cidade que habito
Paulicéia enlouquecida
Pelos destinos mal traçados
Das amizades feitas
Depois desfeitas
Por não se interessarem mais
Pelas brincadeiras de antes.

Amigos de anteontem
Onde andarão?
Quem sabe:
Apenas em minha memória
Na memória dos outros
Esquecidos.

sábado, 3 de setembro de 2011

Espelho de pedra

Não quero ser monge
monge com estilo
monge deste ou daquele tipo
Sou assim, assim sem princípios
que ao pegarem meus pés
agarrem os cabelos

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A boneca sem braços

Deram-me de presente
envolta em papel celofane
uma boneca japonesa.
De madeira era ela.
Sem braços era ela.
Sem pernas era ela.
Chamava-se
Kokeshi ningyo.

Ela era dura
não servia para brincar
com as meninas.
Ela era sem braços
não servia para abraçar.
Sem pernas
não andava
mas estava sempre em pé.
Ereta ela ficava
sorrindo para todos
sobre um armário carcomido
pelo cupim.

Durante o tempo que ficou
no mesmo lugar
e o tempo passou
passou em revoada
as andorinhas de verão
e branca ficou a barba.
Mas aquela boneca
nunca perdeu a pose
nunca realmente envelheceu.

- Que raiva sinto disso!


Ao cavoucar fundo

Alguém em algum lugar
que ouço com vagar
o som de um instrumento
a perfurar a terra.
Quanto mais fundo fica
uma noite profunda fica
e quem me visita
são os cavalinhos do passado
montados pelos amigos
que se foram um dia.

Se foram e me deixaram só
com seus castelos de areia
a se desfazerem ao menor movimento
de uma onda rasteira.
Depois que a onda se foi
nenhum sinal apareceu
nem restaram as ruínas da destruição
como nada tivesse um dia
realmente existido.

Sem olhar para trás
cujos passos apagados
não retornam mais
o horizonte adiante
é largo demais
para uma existência rala
sem consistência
senão apenas
pelo aroma da primavera
que novamente encanta
os pés que se arrastam
errantes
em direção qualquer.

Tempos de friagem

Ao som que de fora invade a sala
a umidade visita-me desoladamente
enquanto as veias verdes das pernas
ressentem-se.

Por um momento em minhas orelhas
toda a água escorre em cachoeira
trazendo um frescor
em gotículas glaciais.

E assim nesta espera constante
o mundo para por instantes
e demorado se torna os movimentos
desta mão que se solta e levanta
e acalenta uma sombra que se desfaz.

Pelas frestas da janela uma luz opaca
mal clareia o canto em que nasço e morro
a cada instante
e cada vez mais
mais distante fico daquilo que pensei
saber um dia.

Nem mais reconheço mais a face
estranha que num espelho envelhecido
perdeu todo o encanto.
Desencantado procuro pela casa
um sinal que seja suficientemente claro
para que eu seja
mas acabo desenganado
pois nada existe senão
uma camada de poeira
largada acima da cama fria.


domingo, 28 de agosto de 2011

Levado pelo vento errante

Ainda que procuremos fugir
Não fugimos das encruzilhadas
De nossas vidas
Que inevitavelmente
Há de acontecer
Sem nenhum desejo
Que assim pudesse ser
Como que a vida pudesse
Ser planejada?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Para deixar lembranças

Foi numa velha árvore
Que escreveu o seu nome
A árvore cresceu
E o tempo passou
E tudo foi esquecido

Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Veio uma tempestade
E derrubou
E arrancou as raízes

Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Naquele momento
Era o melhor nome
Que ainda causa
Arrebatamento

Foi numa velha árvore
Que escreveu seu nome
Só pela emoção
De gravar na madeira verde
A ponta de um canivete
Como uma tatuagem

Foi numa velha árvore...

Viver para esquecer

Em vão procurei por um amor
Não sabia contudo
Quanto mais procurava
Mais distante ficava
Assim parei de procurar
Esqueci-me do que procurava
E a procura esqueceu-se de mim
Até de mim esqueci
Enfim esqueci do próprio esquecimento
Nem ao menos soube-se depois
Quem procurava quem
Quem esquecia de quem
Nada havia
Nem lembranças
Nem esquecimento
Nem tristezas
Nem alegria
Apenas havia
Um grande silêncio
Que também foi
Esquecido

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

As lágrimas derramadas

Que valem as lágrimas
Se apenas valem
Um pouco
De potássio
Rejeitado pelos olhos?

Foi assim que ouvi

Alguém assim disse
Numa canção antiga
Que a felicidade só existe
Bem acima
Acima das nuvens.

Alguém assim disse
Numa canção antiga
Que o amor só existe
Bem abaixo
Abaixo das nuvens.

Não se pode ter
As duas coisas...
Alguém assim disse.

Alguém seguia um cego

Era um cego que seguia
Uma bengala
Arrastada ela seguia
Um cego
Que desconhecia
Onde ia
Se ia para algum lugar
Não se sabia.
Apenas seguia
Uma bengala
Era um cego que seguia.

Pouso Frio

noite profunda em Pouso Frio
enquanto a iluminação não vem
uma vela acesa para Deus,
outra para o diabo

***

meio-dia
a total ausência de pássaros
proclama o dharma


***

meia noite
o rugido da água
o riacho enxerga no escuro

***

em meio ao chiado do rádio
tudo parado nas marginais
as montanhas não param

***

toda madrugada
hora e meia de vigília
algazarra dos morcegos

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Negra estátua


Aquela imagem enegrecida do tempo
Exposta aos escapes automotivos
De pé na praça, pela eternidade
Olhando o mesmo banco por meia década
Deixa as pessoas irem e virem
Ao sabor do vento
Sem pará-las, questioná-las ou chama-las
Numa retidão sem igual
Sob um ninho em sua cabeça
Que comporta a mente mais serena que já vi

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Entre Sol e sombra


Caminho pela calçada
E torço para que haja mais lugares de Sol
Do que lugares de sombra
Assim posso esquentar meu sangue
Durante as passadas
Largas, imprecisas e cambaleantes
Antes de entrar para o ar condicionado
Que seca meus olhos

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Mendigo e a Virgem Maria

Ali estava
Prostrado diante da santa imagem da Virgem Maria
Amarrado aos trapos
Pés descalços e sujos
Conversava apoiado naquela carroça
Com um monte de papelão
Que pegou não sei de onde
Conversava com a estátua
Numa ou noutra realidade
não sabia qual
Que de certo não a mesma que a minha
Declamando poesias e amores hereges
Esperando uma resposta
Que veio somente como um eterno sorriso

domingo, 31 de julho de 2011

Um amor efêmero

Muito breve foi a florada
Que animou minha vista
Por alguns dias
Que tingiu minha vista
De intenso rosa
E ficou cor de rosa
Minha vida.

Depois o que restou
Foi somente
Foi um rosa
Que não me sai
Diante da vista
Que continuou
Florescendo
Sem se importar mais
Do velho pé de ipê
Que foi esquecido
Numa bifurcação da esquina.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Inventando a vida

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo.

TODOROV.Tzvetan, A literatura em perigo, Rio de Janeiro: Difel, 2010, p.23

Dança em roda

Dançando uma roda aqui
Ao terminar a dança
Uma outra dança
Se dança alí
Em roda sempre
Em volta do umbigo
Em volta de um lago
Sem se cansar nunca
Ainda que a idade venha
Ainda que o sonho acabe
Ainda que as dores lombares
Venham
Continua-se dançando
Sem ver outra coisa
Repetindo mesmos passos
Na mesma cadência
Monótona cadência
Como nada mais tivesse importância
Senão o de continuar dançando
Ao som da ilusão
De que se um dia parar
As pernas parem de andar
E toda dança não passará
De um movimento
Sem nenhuma razão.

Praça da matriz

Naquela praça de minha memória
Havia uma fonte com quatro sapos
De pedra
De suas bocas jorravam
Toda água benta
Da Igreja matriz
Em que banhei a minha alma
Mas descobri
Que alma não havia
Mas mesmo assim
Lavei naquele instante
As impurezas do mundo
Impregnadas então
Nas roupas negras
Das velhas em ladainha
Monótonas
Nas tardes de verão.

Na contramão do movimento

Quando todos trabalhavam
Os carros cruzavam as ruas
E a viatura fazia a ronda
O sinal vermelho anunciou
Parar!
Todos pararam
E o mendigo de sempre
No viaduto de sempre
Continuou dormindo
Ao lado da mulher
Ao lado do cachorro
Sem se incomodar
Que o mundo parara
Naquele instante.

De outros tempos

Em algum canto deste mundo
Ainda vive um menino
Numa sala de aula havia
Dois
Diferentes
Tão diferentes
E tão iguais
Suficientemente diferentes
Um era negro
Outro era eu
O negro chamavam Pelé
O outro chamavam japonês
Ainda que quisesse ser igual
Aos outros
Que comiam macarronada
Aos sábados
Nunca fui igual
Nem queria ser igual
Pois sabia usar hashi
Comer sushi
E não repartir com ninguém.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Catador de papelão

Empurrando carroça acima
Não desanima jamais
Carroceiro desta vida
Levando papel papelão
Carrega o mundo todo
Todos os pensamentos
Bandidos e mocinhos
Dançarinas de cabaré
Mulheres negras da igreja

Só não carrega mais
O sonho que se esvaiu
E caiu num ralo
E se foi
Em redemoinho...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Redemoinho de sal

Que restaram dos campos de arroz
Quando as águas de sal
De um mar revolto pelas terras
Entraram
Levaram enfim uma multidão
De sonhos plantados
Das curvas das costas
Das mulheres que cantavam
Sucesso de uma colheita farta.

Veio a destruição
Em ondas gigantes
E a dor foi imensa
Que ainda pode ser ouvida
No silêncio das noites altas
Em que as crianças choram
Os adultos também
Também os cachorros e os gatos.

Prostrada Fukushima
Espera o sol esquentar
Alisando a pele das meninas
Para que esqueçam logo
Da água salgada
Que salgou toda a terra
Sem que um verme sequer
Fosse salvo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ao cair da tarde

O chá um tanto morno
Não espanta o frio que percorre
As artérias das pernas
Que cruzadas
Descansam sobre a almofada.

Assim fazendo
Milhares de anos se passaram
E milhares de livros lidos
Sem que nenhum conhecimento
Fosse realmente adquirido
E assim sinto-me
Como o mais inútil
Dos mendigos
Que pelo menos
Não se envolveram
Com o sonho sinistro
Das ruas e casas de janelas fechadas.

Alguma palavra que escrevesse
Nenhuma certeza havia
Senão a de nada dizer
Do que uma palavra esquecida.
Ainda assim
Sem a esperança de dizer
Continuei escrevendo
Nas paredes descascadas
De uma casa abandonada
Quem sabe
Alguém pudesse passar por ali
E curiosamente
Ler e sorrir
De felicidade suponho
De ironia de minha angústia
Suponho.

domingo, 17 de julho de 2011

Uma vida errada

Pelas ruas de minha vida
Perdi uma vida inteira
Por não juntar figurinhas
Como fazia minha vizinha.
Ao invés
Preferi caçar passarinhos
Perdi a vida inteira
Fazendo isso
Fazendo aquilo
Que não me convinha
Aquilo que convinha às convenções
Aquilo que dava taquicardia
E passei a sofrer
De rinite aguda
Que nos dias de inverno
Incomoda a alma inteira.

Conheci Rita
Que me colocou no mal caminho
Que se foi sem dizer adeus
E nunca mais escreveu
Mas ainda assim
Nunca mais saiu de minha vida.

Que seria de mim
Se não tivesse me perdido
Nesta vida!

No lodo da civilização

Há muito me perturba
O homem de lodo anoitecendo
Nas beiradas do rio Amazonas
Como surgindo de um pântano
com seus olhos sem expressão
com seus braços de borracha
negros como a fuligem dos pneus
sem nada falar
falava em sua mudez
a falta de humanidade
dos homens da grande cidade
que não se importam
da boa amizade
dos velhos amigos
que envelhecidos
nada mais fazem
do que matar a saudade
de uma memória fugidia
que ainda resta na réstia
de uma vida
que valha a pena
Ser vivida.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cidade de Escher

A cidade se constrói
Na nossa frente
Como nas obras de Escher
Onde o chão é o teto
E o teto é as paredes
Altas e maciças de concreto armado
Que armam o cenário
No palco do dia-a-dia
Construindo e desconstruindo nossa visão
Do nosso próprio ambiente
Com suas possibilidades e limitações
Lógicas e paradoxais
Que encontramos na Avenida Paulista

17h43

17h43
Banha de ouro
Todos que se colocam sobre o solo
Na cidade do Eldorado

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Estrangeiros da praça

Ao se passar por lá
Não passe jamais
No chão ainda manchado
Por um karma passado
Da esperança que se foi
Foi-se o sonho da esperança
Mas por aqui ficou
E criou raízes
Na Praça da República
Velho centro metropolitano
Cigano e baiano
Que pulsa num coração
Estrangeiro
Que daqui não mais sai
E ficou
Com todas as alegrias
Tristezas também
Assim sentiu-se um pouco mais
Parte desta terra
Que sopra ao entardecer
Suave brisa que esfria
A mente pesada.

Sono dos inocentes

Quando a cidade amanhece
Pela São João não amanhecem
Olhos que se recusam a ver
Ainda mergulhados num mundo
Mais claro do que a claridade
Do sol que ama invadir toda
A privacidade.

domingo, 19 de junho de 2011

Os olhos que procuravam

De uma janela espiava o mundo
Esperando que um dia
Viesse alguém bem afeiçoado
Que pudesse levá-la dali.
E assim esperou
Até que as rugas surgiram
Nem era tão bonita assim
E por fim apareceu
Alguém não tão afeiçoado assim
Mas era o que apareceu
Não a levou dali
E se instalou naquele lugar
E foi se ajeitando
E foi ficando.

De uma janela continuou
Espiando o mundo
Sem esperar que a felicidade
Pudesse entrar
Pela porta da frente.

Somente espiava
Para não perder o jeito.

Errando nas águas de seus olhos

Naqueles olhos fundos
Naveguei
Sem saber nadar
Me afoguei
Para nunca mais sair
Daquelas águas revoltas.

Ainda continuo
Em redemoinho
Cada vez mais fundo
Resistindo às vezes
Deixando-me levar às vezes.

E assim vou vivendo
Como um marinheiro sem vela
Errando pelos mares
Sem nunca encontrar
Porto seguro.

O Mendigo e a rosa

Naquele dia uma rosa vermelha
Era o que tinha o mendigo
Numa das mãos.
Para quê serve uma rosa vermelha
Para o mendigo
Que levava consigo
Numa das mãos?
Por que levava ele
Numa das mãos
Uma rosa vermelha?
Era apenas uma rosa vermelha
Sem nenhum outro significado
Senão a de ser
Apenas uma rosa vermelha.
Se fosse João
Seria diferente
Se fosse Carlão
Seria diferente
Mas era um mendigo
Aquele mesmo que mora
Num ponto da esquina
Fazendo as mesmas coisas
De sempre
Não fazendo nada
Senão sentado ao lado
Do mesmo cão
Na mesma cama suja
Feita de papelão.
O que incomodava
Era ver o mendigo
Carregando na mão
Uma rosa vermelha.
Justamente ele
Que não era
Era um mendigo apenas
Sem nome
Sem identidade
Nem era bom
Nem mal
Nem incomodava
Nem chamava
Atenção
Mas agora em todo mundo
Somente existia ele
O mendigo que levava
Uma rosa vermelha na mão.

Quando calar é necessário

Nada mais para falar
Nenhuma palavra a mais
Mas o sorriso continua
Brilhando num dente branco
Sem culpa alguma.

Há um momento em que as palavras
Não dizem mais
Portanto nada melhor
Do que se calar
Sem culpa alguma.

E neste silêncio
Nesta ausência total
De qualquer ruído
Todo sentido é possível
Sem culpa alguma.

E somente distante
Ficamos mais próximos
E somente calados
Ficamos mais falantes
E pela eternidade
Possamos viver
O momento que já se foi.

domingo, 12 de junho de 2011

Olhos que enxergam

Somente quando fecho os olhos
Fecho também todos os poros
Das impurezas radioativas
Que causam anemia profunda
Uma fraqueza que inunda
As artérias estreitas
Que em minha carne perfura
Como lanças.
Fecho os olhos para enxergar
Numa escuridão cada vez mais clara
Que mais revela do que oculta.

Nada mais além

Não podemos negar
Um sofrimento que há
Em cada coração perdido
Em cada rua desta cidade
Que não cansa de pulsar.

Não podemos negar
Um desencantamento
De um mundo cada vez mais
Petrificado no cimento armado
Dos punhos armados
E corações duros
De vidro e ferro.

Não podemos negar
Os desencontros amorosos
Que somente se realizam
No abismo mais escuro
Dos sonhos profundos.

Não podemos negar
A vontade da contravenção
Inibida e desprezada
Pela ordem vigente e prezada
Dos bons costumes.

Não podemos negar
A negação da liberdade
De expressão
Daquele verbo primitivo
Nascido dos instintos
Longitudinal dos intestinos.

Simplesmente
Não podemos negar.

Sem lugar à mesa

Não é o frio que me espanta
Nem é mesmo a noite vazia
Que desce com todo o seu peso
Em minha cabeça.

O que me espanta
É a total indiferença
Do amigo que falta à mesa.
E nos conformamos com a falta que faz
Da companhia que sempre repartia
Suas velhas memórias
Desencontros de uma vida
Que se realizou.

Memórias são também minhas
Que não morrerão tão cedo
Enquanto amigos reunirem-se
Numa esquina qualquer
Em volta de uma mesa
Só para compor
Poesia.
A vida é poesia
Que jamais morre!
A poesia sempre fica.

Cisnes no lago

Debaixo das árvores quase nuas
Longe das luzes da rua
Junto dos patos feios
Que cresceram e viraram cisnes negros
Nos banhamos no frio da noite
Esperando acordados
O Sol da manhã
Para esquentar o sangue vivo
Que esfriará mais uma vez
Com a sua morte

domingo, 5 de junho de 2011

Durante a friagem

Um vontade de chorar sinto
Quando sinto neste frio
A mãe preta amamentando
Uma criança preta de pedra
Naquela mesma praça
Em que as prostitutas
Cobriram todas as suas vergonhas
Com poucos panos que tinham.

Cobriram também
As tetas
A friagem que sentia
A mãe preta.

Sede de significados

Nunca aprendi a comer de hashi
Que num bar de esquina
Preferia ouvir rock’n roll
Só para ser diferente
Dos que gostavam de comer sushi.

Sempre errei na aritmética
Mas as letras tinham um mistério
Numa carteira carcomida pelo cupim
Em que risquei com um canivete
Meu primeiro poema.

Depois
Por falta de papel
Poderia escrever no corpo dela também
Um poema inteiro
Só para não perder o momento
Em que as palavras saltam
Sem impedimento algum.

Por isso as palavras
São contravenção!

sábado, 4 de junho de 2011

Um homem velho comeu um Bem-te-vi

quem poderia impedi-lo
— magro, vivaz e
sem paradeiro

os nós dos dedos
grossos os gravetos
da armadilha
a fome

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A loba de Roma

Quantas tetas tem o Estado
Nacional
Carreirista profissional
Jurídico e administrativo
Todos querem um pouco mais.

Pobre diabo vagabundo

Quando numa ladeira subia
Descia numa outra um mendigo
Maltrapilho que levava um saco.
Era frio esta tarde!

O mendigo que nada fazia
Apenas pedia
Um pouco de dinheiro
O suficiente para tomar banho
O pouco que ele pedia
Não tinha em meus bolsos
E mostrei o que tinha
E ele pediu
Foi quando disse:
Só tenho isso
Se lhe der isso
Nada mais tenho.
Era frio esta tarde!

O mendigo que nada tinha
Pedia
O outro que era eu
Do pouco que tinha
Se desse
Nada mais teria.

Continuei subindo a ladeira
O mendigo
Continuou descendo a ladeira
Sem fazer força alguma.

A pedra do tempo

Impregnado nas pedras lisas
O limbo se torna eterno
Como fosse parte daquela
Num jardim mal cuidado
Que não requer mais
Atenção alguma
Do que o tempo se passando
Em instantes
Numa batida do orvalho
Furando a argila
Num furo sem volta.

Sensação das tardes outonais

Chega um tempo em que estamos sós
Sem que algum motivo exista
Para incomodar
Nem mesmo incomoda a batida do martelo
Que penetra pela frieza da tarde outonal
Em nossas veias cada vez mais estreitas.

Que alívio é sentir o vento da liberdade
Alisando o rosto sujo de poeira
Que sopra insistentemente nesta cidade.
Perder-se no traçado destas ruas
E ir tecendo um tecido fino de sutilezas
Como uma aranha em sua lida
Tornando a vida mais intensa
Em cada esquina vivida intensamente
Todos os amores e dores sentidos.

Ainda vejo pelas ruas da existência
Pegadas orgânicas ainda frescas
Num caminhar errático que avança
Entre avanços e recuos
Numa direção que se repete
Por medo de uma direção diferente.

Quando se faz da solidão um amigo presente
Principalmente em tempos de viagens ao fundo
De uma galeria cheia de vitrines
Em que as atrações são personagens
Com rostos pintados e bocas vermelhas
Que dançam um folguedo conhecido
Podemos rir mais uma vez
Podemos chorar mais uma vez
Naquela platéia cheia
Mas apenas uma cadeira ocupada.

Somente aqueles que se perdem
Podem encontrar em qualquer lugar
Que seja
Que nunca saíram do lugar
Que sempre viveram
Na mesma casa de sempre
Um portão alto guardado
Por um único cadeado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

De quem se perdeu na Paulista

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.

Em cada parada do farol
Também pára de bater
Batidas cardíacas
Em ritmo sincopado
Ritmo da própria cidade
Com todas as caras do mundo
Lá no fundo
Mais profundo
Desta alma solitária
Que vê sombras em cada esquina
Perdidas em cada tijolo que se levanta
Nos pés enfiados em botas de aço
Que calçam as moças de salto alto
E batom vermelho nas bocas.

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.
Que um dia perdi-me nas galerias
E perdi toda a minha vida
Procurando por um livro
Ainda não escrito.
Mas achei a alegria de continuar
Procurando
Pelas prateleiras da existência
Alguém que procura pelo mesmo livro.

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.
Quando se procura café amargo
Para adoçar a alma
Que não se cansa de procurar
Encontrando pelas esquinas
Aquilo que não se procura mais
Um amor que deixou de estar.

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.
Nenhum ônibus atrasa
Nem o relógio daquele prédio
Atrasa
E cada vez ficamos mais velhos
E continuamos fazendo mesma coisa
Pensando fazer pela primeira vez
Mas a Paulista continua
Pulsando forte nas veias
De quem um dia nela se perdeu
Uma vida inteira.

Brinquedos de um dia

Houve um dia
Houve uma história
Uma hora em que
Brincamos com os mesmos
Brinquedos
Passou-se o tempo
E o brinquedo passou também
A vida passou
A juventude passou
Passou Iracema
Joana e Filomena
Passamos manteiga
Comemos bolacha maisena
E de repente num velho baú
Os brinquedos saíram de uma vez
Sem que ninguém mais brincasse
Ficaram ao relento
Para a posteridade
Calcificaram
Para que ninguém
Brincasse mais.
Mas um brinquedo ficou
Que guardo comigo
Esperando que um dia
Alguém se interesse também
Um brinquedo que brincamos
Um dia.

Um olhar não dado

Nenhuma maçã vermelha
Seja ela saborosa
Seja ela atraente
Será suficiente para
Demover um coração
Que não pode mais sofrer.
Quem provou uma vez
Outra vez não terá vez
Quem sabe ainda aconteça
Pois nenhuma certeza
Existe quando os olhares
Não podem mais dissimular
E todo olhar não dado
Esconde em si um turbilhão
Prestes a explodir.

Sonho

Quando sonho,
Sonho com a realidade
realidade e sonho...
Não sei se ao nascer, acordei de um sonho,
Ou comecei a sonhar
Pois ou sonho que fico acordado,
Ou acordo de um sonho!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Palavras fugazes

Que linguagem pode ser
Eficiente
Para dizer algo mais próximo
Daquilo que se pretender dizer
Se toda afirmativa
Pode ser falha
Se toda negativa
Pode ser falha
Assim deixemos
Que as palavras livremente
Digam o que somente as palavras
Possam dizer em total ambigüidade.

Uma porção de farofa

Naquela encruzilhada há
Uma travessa de farofa
Toda vez que passo por ela
Que lado devo ir?
O meu lado direito
É o esquerdo dela
O meu lado esquerdo
É o direito dela
Somente os meus pés sabem
Sem se importar
Se tenho tempo para pensar
E se penso muito
Nada mais faço
Do que continuar parado
Na mesma encruzilhada.

Ainda em meus ouvidos

Meus amigos se foram
Foi-se minha memória
Ana Maria é apenas um nome
Que outrora ouvi
Mas agora nem sei mais
Quem foi Ana Maria
Se foi uma figurinha
Esqueci
Se foi um retrato de folhinha
Esqueci
Talvez seja a marca de uma bolacha
Que sonoro ficou
Soando em meus ouvidos,

Que me importa se um dia
Ana Maria cruzou a minha vida.

Os olhos de peixe

Pela Avenida Paulista vivi
Em cada esquina vivi
Respirei todos os ares
E naveguei em todos os mares
Numa multidão de peixes
Esbugalhando os olhos
Arregaçando as asas
De uma gaivota sem rumo
Que perdeu as esperanças,

Mas continua vivendo
Por teimosia
Apenas por teimosia

terça-feira, 24 de maio de 2011

Azul-claro

Na esquina onde era não parar
sob uma sombra perfurada de árvores
- um fusca novo como se fosse
naquele lado calmo da rua.

Dentro, num olhar vago um homem velho
duas poças refletidas - viés de olhos

(Silêncio móvel)

- entre as mãos e o círculo volante,
bem segura, uma lata de cerveja. E é tudo
e isso é tudo pra quem passa...

八公

Olhar distante
Olhar concentrado
Tudo passa e nada vê
Mas tudo vê, do que se passa
Amores eternos
De uma noite apenas
Amizades breves
Vidas longas
Tudo passa,
As tristezas e a solidão
Como as ondas
Como os ventos
Só resta aquilo não vivo
(Que o que é vivo passa, também)
O corpo de pedra
Guarda do herói adorado
Apenas os olhos brilhantes
Da triste esperança
Que assombra eternamente
O (bobo) amante abandonado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sabe

Quando a árvore libera
no útero da ventania
a última folha

que desce ao fundo
como uma pedra achatada
caída num lago escuro

e lá coberto de outras
tantas formas secas,
se estreitando e a crepitar no
passo da raposinha de olhos grandes

sabe

quando de tão seca
quebrar seja a última paz

e em tantos cacos e nervuras
chegar o pó - que a espera.
e de uma única face com a terra
regar com lágrimas que ouvem...

...

o pó se irmanando ao pó
no breu mais escuro que olhos vagos,
apenas o cheiro fresco se suba propagando
nos redemoinhos tão comuns...

— quando alcançar

e este, for a mensagem que
mora entre o olor e o vento — esta
será a casa - a realização

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Imaculado

Branco no Arouche
são aves encardidas
Atrás da Sé estátuas
prostitutas em alvíssimos panos

Mas
lá na República
o pequenino Raul
enteado de Negro João
ainda não sabe que é branco

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Com frio na alma

Nestas noites de grande frio
as artérias congelam-se
sem que possamos
esquentar a sola dos pés
endurecidos
nas botinas de couro cru.

Se pudéssemos esquentar
um pouco que fosse
uma porção que fosse
de nossos corações
o frio não seria tamanho
como diz a moça do tempo.

Minha velha casa

Onde antes havia
alegria das crianças
nada mais se ouve
pois crianças não há
cresceram e se foram.

Em cada canto se ouve
uma voz que antes havia
silenciosa marcada nas paredes
como um fantasma
apagado no tempo.

Agora
ressoa como um murmúrio
uma voz rouca
sem força
quase desfalecida.
É voz de meu pai
que nunca foi de falar muito
nem contou histórias heróicas
mas de todas as histórias ouvidas
a história dele
é a mais bonita.

Nem por isso será eu
a contar!

Mensagem sem carteiro

Quantas cartas escreveu
em vão escreveu
pois destinatário não havia
poderia ter sido Juliana
mas também Fabiana
quem sabe Filomena
poderia ser a faxineira
a lavadeira de roupa
Maria das Dores
também
Maria dos Prazeres
nada disso havia
Por fim sem que alguém
pudesse receber
queimou todas as cartas
passou um tempo sem escrever
depois veio a tristeza
seguida de imensa solidão.

Para vencer a solidão
mais uma vez
passou a escrever
cartas que nunca foram
enviadas.

Enquanto escrevia
em todas elas via
uma cara nova
que só havia em
suas cartas.

Onde estará Ana Maria

Foi Ana Maria
a mulher de minha vida
com ela aprendi a ler italiano
aprendi a comer macarronada
com ela fiz a primeira comunhão.
Um dia Ana Maria se encheu
se foi como chegou
não deixou endereço
não falou se voltaria.

Mas continuo me encontrando
com Ana Maria
não mudou sequer
um gesto sequer
sequer deixou de falar
comigo.
Ana Maria vive
num aquário bem fundo
numa caverna funda
de uma sombra
que pensei ser eu.

Da terra em que nasci

Sempre quis sair daqui
ir para outras terras
onde o sonho tivesse vez
onde pudesse escrever
umas letrinhas fora de linha
andar pelas ruas quando
a vontade chegasse
e descansar numa mesa
de bar.

Sempre quis sair daqui
mas nunca dei um passo
sequer
da terra em que nasci
onde a vida sonhada
é viver
e querer sair.

Como podemos sair
se nada se encontra fora
como se o fora pudesse
existir?

A vida balançava

Numa cadeira de balanço
o tempo passava
enquanto passava a mão
nos pelos de um gato
enquanto tramava a vida
num longo bordado
que nunca acabava.

Num certo momento
veio a dor nas costas
veio também a hipertensão
veio uma vontade grande
de não fazer nada
apenas deixar a cadeira
balançar.

Encontrando demônios

Que demônios
encontrarei pelo caminho
serão alados
serão enrabados
pouco importa o que sejam.

Poderei tomá-los como mestres
aprenderei a arte da tolerância
ainda que tenha o corpo surrado
não revidarei
assim em poucos instantes
nada mais poderá incomodar
que de cansados
quedarão sentados
não haverá vitorioso
nem perdedor
apenas a sublime contemplação
de um rio correndo rápido
sem que um seixo sequer
deposite limbo.


Serei totalmente livre
passeando pelos campos
de vegetação rasteira
sentindo o vento no rosto
batendo com as mãos
no trigo amarelando
diante do sol rebentando
as cabeças de cabaça.
Se o céu parecer nublado
não me importa
Se as águas inundarem os arrozais
não me importa
Por onde a vista alcança
sempre haverá uma luz radiante.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Companheiros de outras horas

Onde andarão afinal
Meus velhos companheiros?
Um se tornou dentista
Outro funileiro
Marinheiro
Cozinheiro
Um deles foi ser professor
Aquele outro morreu morto
De um tiro que levou
Não de um ladrão qualquer
Foi de um marido enciumado
Que lhe roubou a mulher
Mais um outro foi-se embora
Em outras terras bem distantes
Onde o sol nasce primeiro
Onde o mar se move por inteiro

De mim que me resta dizer
Não sei no que me tornei
Sou uma pergunta sem resposta
Um caminho sem retorno
Um verso que ausente espera
Um momento para se por dentro.

O homem debaixo

Ninguém se importa mais
Se o homem debaixo da ponte
Sente frio
Se o homem debaixo da ponte
Sente alguma coisa.

De todos os homens
Quem não sente coisa
Alguma
São homens e mulheres
Que não têm preocupação
Com que outros sentem
Pois todos têm a liberdade
De sentir
Frio
Ou ainda assim
Calor
Das paredes de suas casas.

Somente o homem
Debaixo da ponte continua
Sentindo frio
Que faz tremer
Que faz bater os dentes
Do mesmo homem
Debaixo da ponte.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O homem que vendia

De longe se ouvia
Aqui
De longe vinha
Devagarinho
Era o homem que vendia
Biscoitos de polvilho
Era um homem preto
Era um biscoito branco
Era o homem que tocava
Uma flautinha de plástico
Era o menino que corria
Ligeiro com suas pernas de asas
De tanto fugir das reguadas
Das freiras de manto negro.

Menino que não existe mais
Homem que nem sei onde anda
Se morreu não anda mais
Se vivo ficou
Em outra vila pode estar
A vender biscoitos de polvilho?

Ao fundo do vale

Que pode mais incomodar
Do que uma ruga que não estava
Perdida em qualquer canto
De uma cara antes lisa
Mas veio uma chuva de granizo
E cavou fundo uma vala
Que escorre lágrimas
Por não ter vivido.

Não é o tempo que passa
Não é a vida que passa
Quem passa é o trem da zona leste
Que não atrasa mais
Um minuto sequer.

domingo, 15 de maio de 2011

O mundo gira

Gira o pião
Giramundo
Gira todo mundo
Girassol
Gira a vida
Gira a roda
Roda gira
Rosamundo
Bem imundo
Bem no fundo
Deste mundo
Raimundo
Era o nome
Que faltava
Que faltava
Neste verso
Que termina
Desde já.

O esquecimento possível

Alguns acontecimentos
Das partes compartilhadas
Não se esquecem.
Apenas fingimos
Que o esquecimento
Seja uma condição possível?

Dia da Mãe Preta

As mães pretas continuam
A amamentar em suas tetas
Uma infinidade de meninos
Sedentos de leite gorduroso.
Podem negar
Podem desmentir
Podem falar mal
Afinal todos querem
No estadual
No federal
Mamar continuamente
Até que a mãe preta
Seque totalmente.

Silêncio que fala

Ainda que nada diga
Nada parece ser mais
Significativo que este imenso
Vazio
Ausente de palavras
Em que cada nada
Pode ser possível
Uma infinidade de sentidos
Cuja representação
Nunca poderá ser.

Ainda que a simpatia exista
Distante fica
Um olhar rápido
Fugidio e imediato
Como faísca se vai
Riscando a superfície lisa
De um mármore.

Como nunca te conheci
Como agora
Agora é apenas um instante
Que foi embora
Deixando atrás uma poeira
Fina que se acumula
No mais fundo poço
De uma existência fugaz
Que ninguém acredita mais.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Carta para a mariposa marrom

Olá borboleta marrom. Quer ser minha amiga?

É que ontem eu te vi na parede da sala e hoje na parede do corredor. Acho que você deve gostar desta casa e ainda mais de paredes brancas, né?

Como? Você não é uma borboleta?
Ah! Uma mariposa!

Senhora mariposa, tenho duas gatas em casa. Sei que a relação das mariposas com os gatos não é muito boa, mas pode ficar tranqüila que estas duas são preguiçosas.

Bom, fique a vontade que a casa é sua.
Pouse onde bem entender.

A história do cachorro

Todo dia uma história diferente
Contada pela matéria amorfa
Do que um dia foi um canino
E agora se desfaz
No canto de uma avenida
Que foi palco de sua travessia
Para outro lugar
Que faz a mente do homem
Divagar devagar
Nas sombras de uma dúvida
Que nem mesmo o cachorro
Jamais saberá

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Treze

Quero gatos pretos,
E uma escada bem grande
Pra passar por debaixo
Com sapatos trocados
Andando de costas
Com crucifixo invertido
No peito estampado

Lua cheia?

E na cidade grande
A única matilha que se ouve
É o vento

Hanami

As flores de sakura em Fukushima irão florescer?
Como será o rosado florescer perfumado delas?

domingo, 8 de maio de 2011

Sopra a brisa fria

Nestas noites infinitas
De outono
Fundo cinza de um céu
Prestes a desabar
Sobre os nossos ombros
Pesado seria se não pudéssemos
Suportar a mais leve dor
De uma ilusão que se acende
Numa chama
De uma estrela perdida
Prestes a congelar-se.

Todo fogo
Em pouco tempo
Há de se apagar
E assim a vida
Continua numa marcha
Em que conduz
Não a minha vida
Mas a minha estrada
Incerta
E insegura
Mais do que nunca.

Diante a incerteza
Como é fresca a brisa
Que roça em meus pelos
Em todos os meus cabelos
Que outrora havia.

Zoo

Sorvete gelado
Crianças correndo
Olhar mareado

sábado, 7 de maio de 2011

Rua só

Sou eu que caminho a rua
Ou a rua que me caminha?
Na noite escura
Das poucas luzes amareladas
Onde o vento gelado do outono
Me faz só
Da solidão que não sei se é minha
Ou se é da rua

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Olhos atlânticos

Por aqueles olhos
Imensos
Um mar inteiro inundou
Com o azul translúcido
Afogou-me.

Quero para mim
Somente para mim
Nenhum outro me serve
Se assim for meu destino
Mal destino
Que perdeu tudo que tinha
Pelos olhos que não merecia.

O esquecimento que não acontece

Por um momento
O esquecimento é a solução
Como pudéssemos ignorar
Os fatos
Os retratos
Como pudéssemos simplesmente
Fechar os olhos
Para não ver
Mas quando mais fecho os olhos
Outros olhos abrem-se
E nada mais pode ser ocultado
Neste jogo de minha infância
Jogo de esconde-esconde
Em que o escondido sempre
Perde
Pois não há esconderijo
Suficiente
Na face da terra
Que possa servir de abrigo.

Sem que o esquecimento
Seja possível
Nem abandonado
Conviver com a lembrança
Sem muita atenção
Não ignorado
Não valorizado
Viver num fingimento
De que o rosto conhecido
Não passa de desconhecido
Nos torna atores de uma vida a toa
Palhaços de um espetáculo
Em que ninguém mais ri
Sendo que esta existência
Perdera totalmente a graça.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Rodopia em redemoinho

Meu irmão jogava pião
Que rodopiava
De uma corda esticada
E em alta velocidade
Que rodopiava
Furando o chão
O chão de terra e areia
E a vida também girava
E os olhos giravam
Sem se deter num ponto sequer
Todas as cores
Todos os sabores
Amores profanos
Insanos alguns
Malditos outros
Benditos nenhum.

Assim a vida passava
Na calçada passava
A menina que se tornou
Mulher
O menino continuou
Menino
Só não aprendeu
A jogar pião.

Até mesmo o amor passado
Não há de retornar
Apenas passado
Uva passa passada
Por falta de opção.

Por fim rodopia
Nada fica
Como nunca ficou
Um sinal apenas
Dos passos dos pés
Pisados na areia fria.

Ainda que seja assim

Qualquer amor que fosse
Poderia ser pequeno
Menor ainda
Poderia ser gordo
Desajeitado
E aleijado
Vagabundo
E enjeitado
Desde que fosse
Alguém que fosse
Somente para ela.

Cinco de maio

Carpas dançam no vento
Pai e filhos lá no alto
Mãe enrolando moti

--

Semana de folga
Luzes apagadas
Luto dourado

Maio

Primavera adentro
Cerejeiras esverdeadas
Vento gelado

"- Ai que preguiça!"

Macunaima, ao nascer.

terça-feira, 3 de maio de 2011

De onde vem esta canção

Num canto da noite
Um solitário homem da rua
Sem família
Sem amigos sequer
Apenas um cão
O acompanhava
Na mão um pandeiro
De couro ressecado
Uma canção sem nome
Cantava
E tocava seu instrumento
E um sorriso nascia
De sua face entristecida
Cantava a saudade
De uma tal de Mariazinha
“Mariazinha onde andará
Quem sabe numa nuvem
Quem sabe na cauda do vento
Não importa onde andará
Mariazinha agora você é minha...”

Assim o inverno chega

Ainda que o frio congele meus ossos
E minha boca endureça
Em algum canto de minha existência
Uma pequena chama tremeluzente
Há de afastar o fantasma da solidão.

Diante deste calor
Possam aconchegar-se
Aqueles isentos de amigos
Ou dos amigos que se foram
Das mulheres que se foram
E foram também todos os sonhos
Num relance rápido e sinuoso
De uma vida que se extingue
Em cada noite de sono.

Esta vida cuja chama
Alimenta um pavio curto
Cada vez mais sem combustível
Azeite que umedece os lábios
De fala suave
Dos beijos que foram do passado.