sexta-feira, 29 de julho de 2011

Praça da matriz

Naquela praça de minha memória
Havia uma fonte com quatro sapos
De pedra
De suas bocas jorravam
Toda água benta
Da Igreja matriz
Em que banhei a minha alma
Mas descobri
Que alma não havia
Mas mesmo assim
Lavei naquele instante
As impurezas do mundo
Impregnadas então
Nas roupas negras
Das velhas em ladainha
Monótonas
Nas tardes de verão.

Na contramão do movimento

Quando todos trabalhavam
Os carros cruzavam as ruas
E a viatura fazia a ronda
O sinal vermelho anunciou
Parar!
Todos pararam
E o mendigo de sempre
No viaduto de sempre
Continuou dormindo
Ao lado da mulher
Ao lado do cachorro
Sem se incomodar
Que o mundo parara
Naquele instante.

De outros tempos

Em algum canto deste mundo
Ainda vive um menino
Numa sala de aula havia
Dois
Diferentes
Tão diferentes
E tão iguais
Suficientemente diferentes
Um era negro
Outro era eu
O negro chamavam Pelé
O outro chamavam japonês
Ainda que quisesse ser igual
Aos outros
Que comiam macarronada
Aos sábados
Nunca fui igual
Nem queria ser igual
Pois sabia usar hashi
Comer sushi
E não repartir com ninguém.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Catador de papelão

Empurrando carroça acima
Não desanima jamais
Carroceiro desta vida
Levando papel papelão
Carrega o mundo todo
Todos os pensamentos
Bandidos e mocinhos
Dançarinas de cabaré
Mulheres negras da igreja

Só não carrega mais
O sonho que se esvaiu
E caiu num ralo
E se foi
Em redemoinho...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Redemoinho de sal

Que restaram dos campos de arroz
Quando as águas de sal
De um mar revolto pelas terras
Entraram
Levaram enfim uma multidão
De sonhos plantados
Das curvas das costas
Das mulheres que cantavam
Sucesso de uma colheita farta.

Veio a destruição
Em ondas gigantes
E a dor foi imensa
Que ainda pode ser ouvida
No silêncio das noites altas
Em que as crianças choram
Os adultos também
Também os cachorros e os gatos.

Prostrada Fukushima
Espera o sol esquentar
Alisando a pele das meninas
Para que esqueçam logo
Da água salgada
Que salgou toda a terra
Sem que um verme sequer
Fosse salvo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ao cair da tarde

O chá um tanto morno
Não espanta o frio que percorre
As artérias das pernas
Que cruzadas
Descansam sobre a almofada.

Assim fazendo
Milhares de anos se passaram
E milhares de livros lidos
Sem que nenhum conhecimento
Fosse realmente adquirido
E assim sinto-me
Como o mais inútil
Dos mendigos
Que pelo menos
Não se envolveram
Com o sonho sinistro
Das ruas e casas de janelas fechadas.

Alguma palavra que escrevesse
Nenhuma certeza havia
Senão a de nada dizer
Do que uma palavra esquecida.
Ainda assim
Sem a esperança de dizer
Continuei escrevendo
Nas paredes descascadas
De uma casa abandonada
Quem sabe
Alguém pudesse passar por ali
E curiosamente
Ler e sorrir
De felicidade suponho
De ironia de minha angústia
Suponho.

domingo, 17 de julho de 2011

Uma vida errada

Pelas ruas de minha vida
Perdi uma vida inteira
Por não juntar figurinhas
Como fazia minha vizinha.
Ao invés
Preferi caçar passarinhos
Perdi a vida inteira
Fazendo isso
Fazendo aquilo
Que não me convinha
Aquilo que convinha às convenções
Aquilo que dava taquicardia
E passei a sofrer
De rinite aguda
Que nos dias de inverno
Incomoda a alma inteira.

Conheci Rita
Que me colocou no mal caminho
Que se foi sem dizer adeus
E nunca mais escreveu
Mas ainda assim
Nunca mais saiu de minha vida.

Que seria de mim
Se não tivesse me perdido
Nesta vida!

No lodo da civilização

Há muito me perturba
O homem de lodo anoitecendo
Nas beiradas do rio Amazonas
Como surgindo de um pântano
com seus olhos sem expressão
com seus braços de borracha
negros como a fuligem dos pneus
sem nada falar
falava em sua mudez
a falta de humanidade
dos homens da grande cidade
que não se importam
da boa amizade
dos velhos amigos
que envelhecidos
nada mais fazem
do que matar a saudade
de uma memória fugidia
que ainda resta na réstia
de uma vida
que valha a pena
Ser vivida.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cidade de Escher

A cidade se constrói
Na nossa frente
Como nas obras de Escher
Onde o chão é o teto
E o teto é as paredes
Altas e maciças de concreto armado
Que armam o cenário
No palco do dia-a-dia
Construindo e desconstruindo nossa visão
Do nosso próprio ambiente
Com suas possibilidades e limitações
Lógicas e paradoxais
Que encontramos na Avenida Paulista

17h43

17h43
Banha de ouro
Todos que se colocam sobre o solo
Na cidade do Eldorado

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Estrangeiros da praça

Ao se passar por lá
Não passe jamais
No chão ainda manchado
Por um karma passado
Da esperança que se foi
Foi-se o sonho da esperança
Mas por aqui ficou
E criou raízes
Na Praça da República
Velho centro metropolitano
Cigano e baiano
Que pulsa num coração
Estrangeiro
Que daqui não mais sai
E ficou
Com todas as alegrias
Tristezas também
Assim sentiu-se um pouco mais
Parte desta terra
Que sopra ao entardecer
Suave brisa que esfria
A mente pesada.

Sono dos inocentes

Quando a cidade amanhece
Pela São João não amanhecem
Olhos que se recusam a ver
Ainda mergulhados num mundo
Mais claro do que a claridade
Do sol que ama invadir toda
A privacidade.

domingo, 19 de junho de 2011

Os olhos que procuravam

De uma janela espiava o mundo
Esperando que um dia
Viesse alguém bem afeiçoado
Que pudesse levá-la dali.
E assim esperou
Até que as rugas surgiram
Nem era tão bonita assim
E por fim apareceu
Alguém não tão afeiçoado assim
Mas era o que apareceu
Não a levou dali
E se instalou naquele lugar
E foi se ajeitando
E foi ficando.

De uma janela continuou
Espiando o mundo
Sem esperar que a felicidade
Pudesse entrar
Pela porta da frente.

Somente espiava
Para não perder o jeito.

Errando nas águas de seus olhos

Naqueles olhos fundos
Naveguei
Sem saber nadar
Me afoguei
Para nunca mais sair
Daquelas águas revoltas.

Ainda continuo
Em redemoinho
Cada vez mais fundo
Resistindo às vezes
Deixando-me levar às vezes.

E assim vou vivendo
Como um marinheiro sem vela
Errando pelos mares
Sem nunca encontrar
Porto seguro.

O Mendigo e a rosa

Naquele dia uma rosa vermelha
Era o que tinha o mendigo
Numa das mãos.
Para quê serve uma rosa vermelha
Para o mendigo
Que levava consigo
Numa das mãos?
Por que levava ele
Numa das mãos
Uma rosa vermelha?
Era apenas uma rosa vermelha
Sem nenhum outro significado
Senão a de ser
Apenas uma rosa vermelha.
Se fosse João
Seria diferente
Se fosse Carlão
Seria diferente
Mas era um mendigo
Aquele mesmo que mora
Num ponto da esquina
Fazendo as mesmas coisas
De sempre
Não fazendo nada
Senão sentado ao lado
Do mesmo cão
Na mesma cama suja
Feita de papelão.
O que incomodava
Era ver o mendigo
Carregando na mão
Uma rosa vermelha.
Justamente ele
Que não era
Era um mendigo apenas
Sem nome
Sem identidade
Nem era bom
Nem mal
Nem incomodava
Nem chamava
Atenção
Mas agora em todo mundo
Somente existia ele
O mendigo que levava
Uma rosa vermelha na mão.

Quando calar é necessário

Nada mais para falar
Nenhuma palavra a mais
Mas o sorriso continua
Brilhando num dente branco
Sem culpa alguma.

Há um momento em que as palavras
Não dizem mais
Portanto nada melhor
Do que se calar
Sem culpa alguma.

E neste silêncio
Nesta ausência total
De qualquer ruído
Todo sentido é possível
Sem culpa alguma.

E somente distante
Ficamos mais próximos
E somente calados
Ficamos mais falantes
E pela eternidade
Possamos viver
O momento que já se foi.

domingo, 12 de junho de 2011

Olhos que enxergam

Somente quando fecho os olhos
Fecho também todos os poros
Das impurezas radioativas
Que causam anemia profunda
Uma fraqueza que inunda
As artérias estreitas
Que em minha carne perfura
Como lanças.
Fecho os olhos para enxergar
Numa escuridão cada vez mais clara
Que mais revela do que oculta.

Nada mais além

Não podemos negar
Um sofrimento que há
Em cada coração perdido
Em cada rua desta cidade
Que não cansa de pulsar.

Não podemos negar
Um desencantamento
De um mundo cada vez mais
Petrificado no cimento armado
Dos punhos armados
E corações duros
De vidro e ferro.

Não podemos negar
Os desencontros amorosos
Que somente se realizam
No abismo mais escuro
Dos sonhos profundos.

Não podemos negar
A vontade da contravenção
Inibida e desprezada
Pela ordem vigente e prezada
Dos bons costumes.

Não podemos negar
A negação da liberdade
De expressão
Daquele verbo primitivo
Nascido dos instintos
Longitudinal dos intestinos.

Simplesmente
Não podemos negar.

Sem lugar à mesa

Não é o frio que me espanta
Nem é mesmo a noite vazia
Que desce com todo o seu peso
Em minha cabeça.

O que me espanta
É a total indiferença
Do amigo que falta à mesa.
E nos conformamos com a falta que faz
Da companhia que sempre repartia
Suas velhas memórias
Desencontros de uma vida
Que se realizou.

Memórias são também minhas
Que não morrerão tão cedo
Enquanto amigos reunirem-se
Numa esquina qualquer
Em volta de uma mesa
Só para compor
Poesia.
A vida é poesia
Que jamais morre!
A poesia sempre fica.

Cisnes no lago

Debaixo das árvores quase nuas
Longe das luzes da rua
Junto dos patos feios
Que cresceram e viraram cisnes negros
Nos banhamos no frio da noite
Esperando acordados
O Sol da manhã
Para esquentar o sangue vivo
Que esfriará mais uma vez
Com a sua morte

domingo, 5 de junho de 2011

Durante a friagem

Um vontade de chorar sinto
Quando sinto neste frio
A mãe preta amamentando
Uma criança preta de pedra
Naquela mesma praça
Em que as prostitutas
Cobriram todas as suas vergonhas
Com poucos panos que tinham.

Cobriram também
As tetas
A friagem que sentia
A mãe preta.

Sede de significados

Nunca aprendi a comer de hashi
Que num bar de esquina
Preferia ouvir rock’n roll
Só para ser diferente
Dos que gostavam de comer sushi.

Sempre errei na aritmética
Mas as letras tinham um mistério
Numa carteira carcomida pelo cupim
Em que risquei com um canivete
Meu primeiro poema.

Depois
Por falta de papel
Poderia escrever no corpo dela também
Um poema inteiro
Só para não perder o momento
Em que as palavras saltam
Sem impedimento algum.

Por isso as palavras
São contravenção!

sábado, 4 de junho de 2011

Um homem velho comeu um Bem-te-vi

quem poderia impedi-lo
— magro, vivaz e
sem paradeiro

os nós dos dedos
grossos os gravetos
da armadilha
a fome

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A loba de Roma

Quantas tetas tem o Estado
Nacional
Carreirista profissional
Jurídico e administrativo
Todos querem um pouco mais.

Pobre diabo vagabundo

Quando numa ladeira subia
Descia numa outra um mendigo
Maltrapilho que levava um saco.
Era frio esta tarde!

O mendigo que nada fazia
Apenas pedia
Um pouco de dinheiro
O suficiente para tomar banho
O pouco que ele pedia
Não tinha em meus bolsos
E mostrei o que tinha
E ele pediu
Foi quando disse:
Só tenho isso
Se lhe der isso
Nada mais tenho.
Era frio esta tarde!

O mendigo que nada tinha
Pedia
O outro que era eu
Do pouco que tinha
Se desse
Nada mais teria.

Continuei subindo a ladeira
O mendigo
Continuou descendo a ladeira
Sem fazer força alguma.

A pedra do tempo

Impregnado nas pedras lisas
O limbo se torna eterno
Como fosse parte daquela
Num jardim mal cuidado
Que não requer mais
Atenção alguma
Do que o tempo se passando
Em instantes
Numa batida do orvalho
Furando a argila
Num furo sem volta.

Sensação das tardes outonais

Chega um tempo em que estamos sós
Sem que algum motivo exista
Para incomodar
Nem mesmo incomoda a batida do martelo
Que penetra pela frieza da tarde outonal
Em nossas veias cada vez mais estreitas.

Que alívio é sentir o vento da liberdade
Alisando o rosto sujo de poeira
Que sopra insistentemente nesta cidade.
Perder-se no traçado destas ruas
E ir tecendo um tecido fino de sutilezas
Como uma aranha em sua lida
Tornando a vida mais intensa
Em cada esquina vivida intensamente
Todos os amores e dores sentidos.

Ainda vejo pelas ruas da existência
Pegadas orgânicas ainda frescas
Num caminhar errático que avança
Entre avanços e recuos
Numa direção que se repete
Por medo de uma direção diferente.

Quando se faz da solidão um amigo presente
Principalmente em tempos de viagens ao fundo
De uma galeria cheia de vitrines
Em que as atrações são personagens
Com rostos pintados e bocas vermelhas
Que dançam um folguedo conhecido
Podemos rir mais uma vez
Podemos chorar mais uma vez
Naquela platéia cheia
Mas apenas uma cadeira ocupada.

Somente aqueles que se perdem
Podem encontrar em qualquer lugar
Que seja
Que nunca saíram do lugar
Que sempre viveram
Na mesma casa de sempre
Um portão alto guardado
Por um único cadeado.

terça-feira, 31 de maio de 2011

De quem se perdeu na Paulista

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.

Em cada parada do farol
Também pára de bater
Batidas cardíacas
Em ritmo sincopado
Ritmo da própria cidade
Com todas as caras do mundo
Lá no fundo
Mais profundo
Desta alma solitária
Que vê sombras em cada esquina
Perdidas em cada tijolo que se levanta
Nos pés enfiados em botas de aço
Que calçam as moças de salto alto
E batom vermelho nas bocas.

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.
Que um dia perdi-me nas galerias
E perdi toda a minha vida
Procurando por um livro
Ainda não escrito.
Mas achei a alegria de continuar
Procurando
Pelas prateleiras da existência
Alguém que procura pelo mesmo livro.

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.
Quando se procura café amargo
Para adoçar a alma
Que não se cansa de procurar
Encontrando pelas esquinas
Aquilo que não se procura mais
Um amor que deixou de estar.

Nada mais existe de paulista
Do que a Avenida Paulista.
Nenhum ônibus atrasa
Nem o relógio daquele prédio
Atrasa
E cada vez ficamos mais velhos
E continuamos fazendo mesma coisa
Pensando fazer pela primeira vez
Mas a Paulista continua
Pulsando forte nas veias
De quem um dia nela se perdeu
Uma vida inteira.

Brinquedos de um dia

Houve um dia
Houve uma história
Uma hora em que
Brincamos com os mesmos
Brinquedos
Passou-se o tempo
E o brinquedo passou também
A vida passou
A juventude passou
Passou Iracema
Joana e Filomena
Passamos manteiga
Comemos bolacha maisena
E de repente num velho baú
Os brinquedos saíram de uma vez
Sem que ninguém mais brincasse
Ficaram ao relento
Para a posteridade
Calcificaram
Para que ninguém
Brincasse mais.
Mas um brinquedo ficou
Que guardo comigo
Esperando que um dia
Alguém se interesse também
Um brinquedo que brincamos
Um dia.

Um olhar não dado

Nenhuma maçã vermelha
Seja ela saborosa
Seja ela atraente
Será suficiente para
Demover um coração
Que não pode mais sofrer.
Quem provou uma vez
Outra vez não terá vez
Quem sabe ainda aconteça
Pois nenhuma certeza
Existe quando os olhares
Não podem mais dissimular
E todo olhar não dado
Esconde em si um turbilhão
Prestes a explodir.

Sonho

Quando sonho,
Sonho com a realidade
realidade e sonho...
Não sei se ao nascer, acordei de um sonho,
Ou comecei a sonhar
Pois ou sonho que fico acordado,
Ou acordo de um sonho!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Palavras fugazes

Que linguagem pode ser
Eficiente
Para dizer algo mais próximo
Daquilo que se pretender dizer
Se toda afirmativa
Pode ser falha
Se toda negativa
Pode ser falha
Assim deixemos
Que as palavras livremente
Digam o que somente as palavras
Possam dizer em total ambigüidade.

Uma porção de farofa

Naquela encruzilhada há
Uma travessa de farofa
Toda vez que passo por ela
Que lado devo ir?
O meu lado direito
É o esquerdo dela
O meu lado esquerdo
É o direito dela
Somente os meus pés sabem
Sem se importar
Se tenho tempo para pensar
E se penso muito
Nada mais faço
Do que continuar parado
Na mesma encruzilhada.

Ainda em meus ouvidos

Meus amigos se foram
Foi-se minha memória
Ana Maria é apenas um nome
Que outrora ouvi
Mas agora nem sei mais
Quem foi Ana Maria
Se foi uma figurinha
Esqueci
Se foi um retrato de folhinha
Esqueci
Talvez seja a marca de uma bolacha
Que sonoro ficou
Soando em meus ouvidos,

Que me importa se um dia
Ana Maria cruzou a minha vida.

Os olhos de peixe

Pela Avenida Paulista vivi
Em cada esquina vivi
Respirei todos os ares
E naveguei em todos os mares
Numa multidão de peixes
Esbugalhando os olhos
Arregaçando as asas
De uma gaivota sem rumo
Que perdeu as esperanças,

Mas continua vivendo
Por teimosia
Apenas por teimosia

terça-feira, 24 de maio de 2011

Azul-claro

Na esquina onde era não parar
sob uma sombra perfurada de árvores
- um fusca novo como se fosse
naquele lado calmo da rua.

Dentro, num olhar vago um homem velho
duas poças refletidas - viés de olhos

(Silêncio móvel)

- entre as mãos e o círculo volante,
bem segura, uma lata de cerveja. E é tudo
e isso é tudo pra quem passa...

八公

Olhar distante
Olhar concentrado
Tudo passa e nada vê
Mas tudo vê, do que se passa
Amores eternos
De uma noite apenas
Amizades breves
Vidas longas
Tudo passa,
As tristezas e a solidão
Como as ondas
Como os ventos
Só resta aquilo não vivo
(Que o que é vivo passa, também)
O corpo de pedra
Guarda do herói adorado
Apenas os olhos brilhantes
Da triste esperança
Que assombra eternamente
O (bobo) amante abandonado.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sabe

Quando a árvore libera
no útero da ventania
a última folha

que desce ao fundo
como uma pedra achatada
caída num lago escuro

e lá coberto de outras
tantas formas secas,
se estreitando e a crepitar no
passo da raposinha de olhos grandes

sabe

quando de tão seca
quebrar seja a última paz

e em tantos cacos e nervuras
chegar o pó - que a espera.
e de uma única face com a terra
regar com lágrimas que ouvem...

...

o pó se irmanando ao pó
no breu mais escuro que olhos vagos,
apenas o cheiro fresco se suba propagando
nos redemoinhos tão comuns...

— quando alcançar

e este, for a mensagem que
mora entre o olor e o vento — esta
será a casa - a realização

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Imaculado

Branco no Arouche
são aves encardidas
Atrás da Sé estátuas
prostitutas em alvíssimos panos

Mas
lá na República
o pequenino Raul
enteado de Negro João
ainda não sabe que é branco

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Com frio na alma

Nestas noites de grande frio
as artérias congelam-se
sem que possamos
esquentar a sola dos pés
endurecidos
nas botinas de couro cru.

Se pudéssemos esquentar
um pouco que fosse
uma porção que fosse
de nossos corações
o frio não seria tamanho
como diz a moça do tempo.

Minha velha casa

Onde antes havia
alegria das crianças
nada mais se ouve
pois crianças não há
cresceram e se foram.

Em cada canto se ouve
uma voz que antes havia
silenciosa marcada nas paredes
como um fantasma
apagado no tempo.

Agora
ressoa como um murmúrio
uma voz rouca
sem força
quase desfalecida.
É voz de meu pai
que nunca foi de falar muito
nem contou histórias heróicas
mas de todas as histórias ouvidas
a história dele
é a mais bonita.

Nem por isso será eu
a contar!

Mensagem sem carteiro

Quantas cartas escreveu
em vão escreveu
pois destinatário não havia
poderia ter sido Juliana
mas também Fabiana
quem sabe Filomena
poderia ser a faxineira
a lavadeira de roupa
Maria das Dores
também
Maria dos Prazeres
nada disso havia
Por fim sem que alguém
pudesse receber
queimou todas as cartas
passou um tempo sem escrever
depois veio a tristeza
seguida de imensa solidão.

Para vencer a solidão
mais uma vez
passou a escrever
cartas que nunca foram
enviadas.

Enquanto escrevia
em todas elas via
uma cara nova
que só havia em
suas cartas.

Onde estará Ana Maria

Foi Ana Maria
a mulher de minha vida
com ela aprendi a ler italiano
aprendi a comer macarronada
com ela fiz a primeira comunhão.
Um dia Ana Maria se encheu
se foi como chegou
não deixou endereço
não falou se voltaria.

Mas continuo me encontrando
com Ana Maria
não mudou sequer
um gesto sequer
sequer deixou de falar
comigo.
Ana Maria vive
num aquário bem fundo
numa caverna funda
de uma sombra
que pensei ser eu.

Da terra em que nasci

Sempre quis sair daqui
ir para outras terras
onde o sonho tivesse vez
onde pudesse escrever
umas letrinhas fora de linha
andar pelas ruas quando
a vontade chegasse
e descansar numa mesa
de bar.

Sempre quis sair daqui
mas nunca dei um passo
sequer
da terra em que nasci
onde a vida sonhada
é viver
e querer sair.

Como podemos sair
se nada se encontra fora
como se o fora pudesse
existir?

A vida balançava

Numa cadeira de balanço
o tempo passava
enquanto passava a mão
nos pelos de um gato
enquanto tramava a vida
num longo bordado
que nunca acabava.

Num certo momento
veio a dor nas costas
veio também a hipertensão
veio uma vontade grande
de não fazer nada
apenas deixar a cadeira
balançar.

Encontrando demônios

Que demônios
encontrarei pelo caminho
serão alados
serão enrabados
pouco importa o que sejam.

Poderei tomá-los como mestres
aprenderei a arte da tolerância
ainda que tenha o corpo surrado
não revidarei
assim em poucos instantes
nada mais poderá incomodar
que de cansados
quedarão sentados
não haverá vitorioso
nem perdedor
apenas a sublime contemplação
de um rio correndo rápido
sem que um seixo sequer
deposite limbo.


Serei totalmente livre
passeando pelos campos
de vegetação rasteira
sentindo o vento no rosto
batendo com as mãos
no trigo amarelando
diante do sol rebentando
as cabeças de cabaça.
Se o céu parecer nublado
não me importa
Se as águas inundarem os arrozais
não me importa
Por onde a vista alcança
sempre haverá uma luz radiante.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Companheiros de outras horas

Onde andarão afinal
Meus velhos companheiros?
Um se tornou dentista
Outro funileiro
Marinheiro
Cozinheiro
Um deles foi ser professor
Aquele outro morreu morto
De um tiro que levou
Não de um ladrão qualquer
Foi de um marido enciumado
Que lhe roubou a mulher
Mais um outro foi-se embora
Em outras terras bem distantes
Onde o sol nasce primeiro
Onde o mar se move por inteiro

De mim que me resta dizer
Não sei no que me tornei
Sou uma pergunta sem resposta
Um caminho sem retorno
Um verso que ausente espera
Um momento para se por dentro.

O homem debaixo

Ninguém se importa mais
Se o homem debaixo da ponte
Sente frio
Se o homem debaixo da ponte
Sente alguma coisa.

De todos os homens
Quem não sente coisa
Alguma
São homens e mulheres
Que não têm preocupação
Com que outros sentem
Pois todos têm a liberdade
De sentir
Frio
Ou ainda assim
Calor
Das paredes de suas casas.

Somente o homem
Debaixo da ponte continua
Sentindo frio
Que faz tremer
Que faz bater os dentes
Do mesmo homem
Debaixo da ponte.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O homem que vendia

De longe se ouvia
Aqui
De longe vinha
Devagarinho
Era o homem que vendia
Biscoitos de polvilho
Era um homem preto
Era um biscoito branco
Era o homem que tocava
Uma flautinha de plástico
Era o menino que corria
Ligeiro com suas pernas de asas
De tanto fugir das reguadas
Das freiras de manto negro.

Menino que não existe mais
Homem que nem sei onde anda
Se morreu não anda mais
Se vivo ficou
Em outra vila pode estar
A vender biscoitos de polvilho?

Ao fundo do vale

Que pode mais incomodar
Do que uma ruga que não estava
Perdida em qualquer canto
De uma cara antes lisa
Mas veio uma chuva de granizo
E cavou fundo uma vala
Que escorre lágrimas
Por não ter vivido.

Não é o tempo que passa
Não é a vida que passa
Quem passa é o trem da zona leste
Que não atrasa mais
Um minuto sequer.

domingo, 15 de maio de 2011

O mundo gira

Gira o pião
Giramundo
Gira todo mundo
Girassol
Gira a vida
Gira a roda
Roda gira
Rosamundo
Bem imundo
Bem no fundo
Deste mundo
Raimundo
Era o nome
Que faltava
Que faltava
Neste verso
Que termina
Desde já.

O esquecimento possível

Alguns acontecimentos
Das partes compartilhadas
Não se esquecem.
Apenas fingimos
Que o esquecimento
Seja uma condição possível?

Dia da Mãe Preta

As mães pretas continuam
A amamentar em suas tetas
Uma infinidade de meninos
Sedentos de leite gorduroso.
Podem negar
Podem desmentir
Podem falar mal
Afinal todos querem
No estadual
No federal
Mamar continuamente
Até que a mãe preta
Seque totalmente.

Silêncio que fala

Ainda que nada diga
Nada parece ser mais
Significativo que este imenso
Vazio
Ausente de palavras
Em que cada nada
Pode ser possível
Uma infinidade de sentidos
Cuja representação
Nunca poderá ser.

Ainda que a simpatia exista
Distante fica
Um olhar rápido
Fugidio e imediato
Como faísca se vai
Riscando a superfície lisa
De um mármore.

Como nunca te conheci
Como agora
Agora é apenas um instante
Que foi embora
Deixando atrás uma poeira
Fina que se acumula
No mais fundo poço
De uma existência fugaz
Que ninguém acredita mais.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Carta para a mariposa marrom

Olá borboleta marrom. Quer ser minha amiga?

É que ontem eu te vi na parede da sala e hoje na parede do corredor. Acho que você deve gostar desta casa e ainda mais de paredes brancas, né?

Como? Você não é uma borboleta?
Ah! Uma mariposa!

Senhora mariposa, tenho duas gatas em casa. Sei que a relação das mariposas com os gatos não é muito boa, mas pode ficar tranqüila que estas duas são preguiçosas.

Bom, fique a vontade que a casa é sua.
Pouse onde bem entender.

A história do cachorro

Todo dia uma história diferente
Contada pela matéria amorfa
Do que um dia foi um canino
E agora se desfaz
No canto de uma avenida
Que foi palco de sua travessia
Para outro lugar
Que faz a mente do homem
Divagar devagar
Nas sombras de uma dúvida
Que nem mesmo o cachorro
Jamais saberá

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Treze

Quero gatos pretos,
E uma escada bem grande
Pra passar por debaixo
Com sapatos trocados
Andando de costas
Com crucifixo invertido
No peito estampado

Lua cheia?

E na cidade grande
A única matilha que se ouve
É o vento

Hanami

As flores de sakura em Fukushima irão florescer?
Como será o rosado florescer perfumado delas?

domingo, 8 de maio de 2011

Sopra a brisa fria

Nestas noites infinitas
De outono
Fundo cinza de um céu
Prestes a desabar
Sobre os nossos ombros
Pesado seria se não pudéssemos
Suportar a mais leve dor
De uma ilusão que se acende
Numa chama
De uma estrela perdida
Prestes a congelar-se.

Todo fogo
Em pouco tempo
Há de se apagar
E assim a vida
Continua numa marcha
Em que conduz
Não a minha vida
Mas a minha estrada
Incerta
E insegura
Mais do que nunca.

Diante a incerteza
Como é fresca a brisa
Que roça em meus pelos
Em todos os meus cabelos
Que outrora havia.

Zoo

Sorvete gelado
Crianças correndo
Olhar mareado

sábado, 7 de maio de 2011

Rua só

Sou eu que caminho a rua
Ou a rua que me caminha?
Na noite escura
Das poucas luzes amareladas
Onde o vento gelado do outono
Me faz só
Da solidão que não sei se é minha
Ou se é da rua

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Olhos atlânticos

Por aqueles olhos
Imensos
Um mar inteiro inundou
Com o azul translúcido
Afogou-me.

Quero para mim
Somente para mim
Nenhum outro me serve
Se assim for meu destino
Mal destino
Que perdeu tudo que tinha
Pelos olhos que não merecia.

O esquecimento que não acontece

Por um momento
O esquecimento é a solução
Como pudéssemos ignorar
Os fatos
Os retratos
Como pudéssemos simplesmente
Fechar os olhos
Para não ver
Mas quando mais fecho os olhos
Outros olhos abrem-se
E nada mais pode ser ocultado
Neste jogo de minha infância
Jogo de esconde-esconde
Em que o escondido sempre
Perde
Pois não há esconderijo
Suficiente
Na face da terra
Que possa servir de abrigo.

Sem que o esquecimento
Seja possível
Nem abandonado
Conviver com a lembrança
Sem muita atenção
Não ignorado
Não valorizado
Viver num fingimento
De que o rosto conhecido
Não passa de desconhecido
Nos torna atores de uma vida a toa
Palhaços de um espetáculo
Em que ninguém mais ri
Sendo que esta existência
Perdera totalmente a graça.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Rodopia em redemoinho

Meu irmão jogava pião
Que rodopiava
De uma corda esticada
E em alta velocidade
Que rodopiava
Furando o chão
O chão de terra e areia
E a vida também girava
E os olhos giravam
Sem se deter num ponto sequer
Todas as cores
Todos os sabores
Amores profanos
Insanos alguns
Malditos outros
Benditos nenhum.

Assim a vida passava
Na calçada passava
A menina que se tornou
Mulher
O menino continuou
Menino
Só não aprendeu
A jogar pião.

Até mesmo o amor passado
Não há de retornar
Apenas passado
Uva passa passada
Por falta de opção.

Por fim rodopia
Nada fica
Como nunca ficou
Um sinal apenas
Dos passos dos pés
Pisados na areia fria.

Ainda que seja assim

Qualquer amor que fosse
Poderia ser pequeno
Menor ainda
Poderia ser gordo
Desajeitado
E aleijado
Vagabundo
E enjeitado
Desde que fosse
Alguém que fosse
Somente para ela.

Cinco de maio

Carpas dançam no vento
Pai e filhos lá no alto
Mãe enrolando moti

--

Semana de folga
Luzes apagadas
Luto dourado

Maio

Primavera adentro
Cerejeiras esverdeadas
Vento gelado

"- Ai que preguiça!"

Macunaima, ao nascer.

terça-feira, 3 de maio de 2011

De onde vem esta canção

Num canto da noite
Um solitário homem da rua
Sem família
Sem amigos sequer
Apenas um cão
O acompanhava
Na mão um pandeiro
De couro ressecado
Uma canção sem nome
Cantava
E tocava seu instrumento
E um sorriso nascia
De sua face entristecida
Cantava a saudade
De uma tal de Mariazinha
“Mariazinha onde andará
Quem sabe numa nuvem
Quem sabe na cauda do vento
Não importa onde andará
Mariazinha agora você é minha...”

Assim o inverno chega

Ainda que o frio congele meus ossos
E minha boca endureça
Em algum canto de minha existência
Uma pequena chama tremeluzente
Há de afastar o fantasma da solidão.

Diante deste calor
Possam aconchegar-se
Aqueles isentos de amigos
Ou dos amigos que se foram
Das mulheres que se foram
E foram também todos os sonhos
Num relance rápido e sinuoso
De uma vida que se extingue
Em cada noite de sono.

Esta vida cuja chama
Alimenta um pavio curto
Cada vez mais sem combustível
Azeite que umedece os lábios
De fala suave
Dos beijos que foram do passado.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Temores que me perseguem

De todos os santos que havia
Havia um
Que causava uma inquietação
Seu corpo flechado
Agonizante delirava
Enquanto o sangue jorrava
De suas feridas.

Até a ferida que havia
Em meu joelho esquerdo
De uma ralada no asfalto
Num carrinho de rolimã
Não doía tanto assim.

O que doía mais
Era o olhar de Margarida
Mulata que cuidava de mim
Em desaprovação
Às minhas faltas nas aulas
De religião.

O que temia mais
Não era ir para o inferno
Que nunca entendi bem
O que temia era morrer
E não ter onde ir.

Viagem ao longe

Se tivesse que me ir
Para um lugar distante
De meus amigos não me despediria
De meus inimigos
Quem sou eu para ter inimigos?
Iria sem despedida
Iria para as areias do Deserto de Gobi
Onde o calor ainda brilharia
Sobre os cristais aos pés dos camelos
Estes continuariam caminhando
Sem se deter jamais
Cujos rastros logo apagariam
E logo seria esquecido
Livre para alcançar a estrela
Do oriente
Atrás de uma duna
Sonhada sem nunca ter saído
Daqui.
De onde nunca arredei pé.

Minha flauta de plástico

Mais importante do que viver
É aprender a tocar flauta.

Nunca toquei nada
Nunca pintei nada
Mas tive amores
Grandes e passageiros
Pequenos e sorrateiros
Por estar preocupado demais
Nestes assuntos do coração
Esqueci-me de viver.

Se pelo menos tivesse
Aprendido a toca flauta
Minha solidão seria companheira
De uma música inventada na hora
Uma nota de jazz de um negro
Enchendo as bochechas de um sopro
Capaz de encher meus pulmões de vida

A vida é uma nota de jazz
Breve
Imensamente breve e bela
Soprada com toda a energia.

Passou mais rápido

Quanto tempo perdi
Procurando por algo
Que sempre tive e não sabia

Quanto tempo perdi
Estudando economia
E gastei tudo que tinha
Num bar de esquina

Quanto tempo perdi
Perseguindo as andorinhas
Que assim bateram asas
E se foram sem olhar para trás.
E a felicidade não passava
De pura fantasia
Confete atirado num carnaval
Passado
Quando percebi
Nada mais restava
Do que o vapor de uma
Chaleira levantando a tampa
E apagando a chama.
E a vida se foi
E não vivi.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Espelho de bolso

No espelho de bolso
Tenho um rostinho
Com que gosto de conversar
É sempre ele que eu clamo
Quando quero chorar
Ou é pra ele que eu peço
Pra ajeitar meu sorriso
Ou cutucar meu dente do siso
Que também dói no rostinho
Do meu pequeno espelhinho

Lua

Pela noite sigo com os olhos
Caçando a beleza outonal
Formosura que brilha linda no céu
Com formas delirantemente prateadas

Se esconde lá
Se esconde cá entre as nuvens
Fazendo proposital charme
Que enlouquece a vista

Confunde a língua e o pensar
Deixando as ferramentas do homem
Incapazes de compor
Poemas sobre sua beleza
Redonda e prateada

Lá se foi novamente, entre as nuvens!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Haikus

Trânsito infernal
Borboleta no vento
Radial Leste
(dedicado à todos os amigos do templo)

Na calçada, ali
Amiguinho sem dono
Gatinho morto

Agora ou jajá?
Ansiedade grande
Final de aula

Você já chegou?
Passou o tempo, nem vi:
Cabelo branco

Olhos nos olhos,
Esfrega, insinua:
gato quer leite.

Jardim já seco
Borboleta laranja
Caneta e papel.
(dedicado aos amigos do Muro, borboletas laranja num jardim já seco)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Negra neve

No campo coberto de neve, disse o escaravelho à garça branca: gostaria de viver num certo lugar, nem futuro, nem passado, num lugar que é quando não estou aqui. A garça disse: é aí que vivo. E sem hesitar sorveu o pequeno inseto através de seu bico comprido e o digeriu. Mas antes, a paisagem engoliu a garça.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Jogos da vida

Aprendi a jogar amarelinha
Perdia sempre.

Aprendi a jogar bate-caixinha
Perdia sempre.

Aprendi a jogar xadrez
Perdia sempre.

Aprendi a jogar esgrima
Perdia sempre.

Aprendi a jogar jogos do amor
Continuei perdendo.

A vida é um eterno jogo
Que se joga para perder...

Jogos evitados

Se os olhos cruzassem Tudo seria revelado. Mas nenhuma revelação Seria capaz de suplantar Tamanha sedução Do próprio segredo!

Silenciosamente

Quando nada mais temos Que dizer Então podemos mais uma vez Silenciar nossas bocas. Só não podemos Silenciar o fogo que arde Nos olhos Que sempre quer dizer algo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Cansei, cansei-me e cansei-vos

E eu,
sempre tão disposto,
sempre tão ávido
(de estudar, aprender, ouvir)
sempre tão observador
Cansei, e pior:
Cansei-me de tanto ser
Sempre tão disposto e ávido.
Cansei, cansei-me e cansei a outros
Com meus apontamentos, críticas e sugestões
(tomadas por bravatas baratas de esquerda barata)
Qual a razão de tudo? Pecha de bravateiro?
Volto ao axioma:
Cansei-me, logo calo-me.
Só agora, enfastiado e farto de estar cansado,
Cansei-me do silêncio.
Diabos! Pro inferno as sugestões e o mero silêncio!
Nem raiva, nem depressão, sequer uma bufada de indignação...
Quero aprender latim, e falar sozinho uma língua morta!
Que diferença fará? Não sei... mas fará.
Nojo e desprezo são negativos? Depende.
Alegria e aceitação são positivos? Depende.
Seja o que for, que não seja impositivo...
E eu,
que sempre soube finalizar meus escritos,
Este não sei como acabar.
Que seja.

domingo, 3 de abril de 2011

Louco e presidente

No cortejo
De um ex-vice
Ex-vivo
Presidente da república
Aquele homem
Isolado na multidão urbana
Num dançar louco e frenético
Nas músicas dos automóveis
Nunca viu aquele presidente
Que nunca viu aquele homem

sexta-feira, 1 de abril de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Irrealidade da vida

Quando acordo
E meus olhos sentem
O brilho do sol
Cada vez mais
Os meus olhos ficam
Cegos
Por um exagero
De informações visuais
Que numa confusão
Confundem
E perdido dentro delas
Sou apenas uma borboleta
Passando diante
De um bosque em floração.

Quando acordo
Um exagero de realidade
Queima pelo asfalto
Numa tarde de verão
Levantando vapores
De um petróleo viscoso
Que gruda em minhas botas.

Quando acordo
Deixo uma outra realidade
Menos impossível de ser vivida
Em que outro ser
Caminha feliz e na liberdade
Habita seu mundo idílico.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Perigos da vida

Uma falta de consistência
Nos passos em que afundo
Mais fundo no barro da existência
Meus pés enfiados em botas
Que esmagam meus calos
Mal formados
Cuja calosidade maltrata
Este corpo em decadência.

Firmar os pés
Onde firmeza alguma
Tem qualquer validade
Como a pisar em nuvens
Nenhuma solidez acontece.

Viver
É correr riscos
De um mundo cada vez mais
Desconhecido
Em que somente os sonhos
São possíveis
Diante da impossibilidade
De uma vida concreta
Em vias de concreto
E cimento armado
Que de duro trincou
Ao menor abalo
De um terremoto de emoções.

Ainda um sonho

Não sei que imagem são estas
Serão estas de um jogo eletrônico
Dessas que brincam as crianças?
Que enfrentam monstros espaciais
Godzilas que chegam do mar
E em instantes destroem a cidade
De Tóquio.

Não se acredita jamais
Que as águas vindas do mar
Possam de fato
Tornar a terra mar
Arrastando barcos
Das casas que havia
Nada mais havia mais
Do que escombros arqueológicos
Do que foi um dia
Uma vila de pescador.

Minha oração é vazia
Silenciosa neste instante
Minha oração é passageira
Como passageira é a vida.

Problema do outro

Uma enxurrada avança pelas terras
Uma enxurrada revela tensões
Descobrindo por onde passa
Um sentimento de medo
De ser engolido de repente
Pelo desconhecido fluido líquido
Que mata e faz nascer também
Um ato de complacência
E de tamanha intolerância
Que na indiferença
Nada mais faz do que
Nada fazer
Enquanto os mortos enterram
Seus mortos em covas rasas
Deixando com que uma maré negra
Penetre pelos arrozais
Nas frinchas da terra salgada
Para que nunca mais
Possa ser cultivada.

Mas a vida continua
Para os que perderam casas
Mas a vida continua
Para os que perderam filhos
Continua inclusive para os que
Leram jornais e telegramas
E minimizaram a dor
Pois a dor sempre foi a do outro.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lembranças difíceis de apagar

Tão rápido
Como uma onda no mar
As manchetes já são poucas
Que restaram
Penduradas nos varais
Das bancas de jornal
Que vai caindo também
Da lembrança de alguns
Que pra lá nunca foram
E nunca pensam em ir

Mas ainda hoje
Mesmo que aqui dia
E lá noite
A lágrima ainda é mais salgada
A chuva é mais gelada
E o alimento escasso
Em um corpo
Que ficará marcado
Para jamais esquecer

terça-feira, 15 de março de 2011

Todos se foram

Quantas cegonhas tsuru
Terei que dobrar
Para um pouco que seja
Seja para sanar a dor
Daqueles que viveram
Para contar esta história.

O mar veio por terra
E de terra nada mais sobrou
Da terra tudo levou
Para o fundo do mar.

Agora vivem todos
Num castelo de conchas
Para nunca mais voltar.

Agitação do mar

Havia naquele dia
Uma agitação desigual
Anormal para os padrões
Normais da movimentação
Do mar
Que tomado de fúria
Voltou-se contra os homens
Que frágeis pereceram
Afogados
Para não contar a história.

A morte que vem do mar

Ainda que procure manter-me
Distante
Das águas que por lá passaram
Levando barcos e sereias
Por cima de suas ondas
Nunca fiquei tão próximo
Em meu silêncio
Que tudo desconversa
Para não se tragado de vez
Pelos redemoinhos
Que agitam minha consciência.

Meus olhos nunca choraram tanto
Pelas mulheres que afogaram
Seus corpos pesados de encantamento
Seus filhos que nunca serão adultos
Pelo impedimento de terem em suas bocas
O gosto do sal.

Todos os sonhos se foram
Numa maré negra de destruição.
Após a desdita nada mais resta
Do que enterrar em fossa funda
Os destroços de uma vida tranqüila.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Lá de longe

Um homem que caminha pela vida
E deixa a vida caminhar por ele
Sem as preocupações
Suas marcas tatuadas na pele
Pode fechar os olhos primários
Que jamais se perderá
Com os olhos verdadeiros
Guiados por aqueles
Que mesmo longe
Estarão sempre ao seu lado

Não mais Pacífico

Para alguns foi um dia normal
Para mim foi quando as terras e as águas
Levaram, não só meus sonhos
Mas o de muitas outras pessoas

E tão logo são enfeites nas páginas dos jornais
E tão logo são semblantes cabisbaixos
Vagando pela cidade desnuda
Que é mostrada sem pudor
Pela grande mãe sem misericórdia

domingo, 13 de março de 2011

Em profundo silêncio

Ainda que meu rosto
Nada mais revele
Do que um semblante
Branco e ignorante
Minha alma chora
Pelos mortos
E pelos vivos que sofrem
Tamanha destruição.

Uma parte de mim
Também morre
Nas águas em tamanha
Violência.
Em meu silêncio
A pulsão do coração
A dobrar repetidamente
Uma oração.

A invasão das águas

Que as almas levadas
Pelas águas do Pacífico
A inundar as terras baixas
Encontrem paz
Nas espumas do mar
E voltem novamente
A mergulhar nas profundezas
E silenciosas águas
Da inconsciência
Tranqüilas e escuras
Compartilhando com os peixes
Um eterno sono
E assim possam sonhar
E assim possam viver.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Acalanto sujo

Lambida de cachorro
unhada de barata
banho da chuva
beijo de sarjeta

Aqui, onde caiu a calçada
- que onde não havia -
Nessa cabeça esponjosa
mendigo e amanheço.

Sento
Como e
Durmo mendigo
Bebo.

Vagueio

(horas)



.