Olhar distante
Olhar concentrado
Tudo passa e nada vê
Mas tudo vê, do que se passa
Amores eternos
De uma noite apenas
Amizades breves
Vidas longas
Tudo passa,
As tristezas e a solidão
Como as ondas
Como os ventos
Só resta aquilo não vivo
(Que o que é vivo passa, também)
O corpo de pedra
Guarda do herói adorado
Apenas os olhos brilhantes
Da triste esperança
Que assombra eternamente
O (bobo) amante abandonado.
terça-feira, 24 de maio de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Sabe
Quando a árvore libera
no útero da ventania
a última folha
que desce ao fundo
como uma pedra achatada
caída num lago escuro
e lá coberto de outras
tantas formas secas,
se estreitando e a crepitar no
passo da raposinha de olhos grandes
sabe
quando de tão seca
quebrar seja a última paz
e em tantos cacos e nervuras
chegar o pó - que a espera.
e de uma única face com a terra
regar com lágrimas que ouvem...
...
o pó se irmanando ao pó
no breu mais escuro que olhos vagos,
apenas o cheiro fresco se suba propagando
nos redemoinhos tão comuns...
— quando alcançar
e este, for a mensagem que
mora entre o olor e o vento — esta
será a casa - a realização
no útero da ventania
a última folha
que desce ao fundo
como uma pedra achatada
caída num lago escuro
e lá coberto de outras
tantas formas secas,
se estreitando e a crepitar no
passo da raposinha de olhos grandes
sabe
quando de tão seca
quebrar seja a última paz
e em tantos cacos e nervuras
chegar o pó - que a espera.
e de uma única face com a terra
regar com lágrimas que ouvem...
...
o pó se irmanando ao pó
no breu mais escuro que olhos vagos,
apenas o cheiro fresco se suba propagando
nos redemoinhos tão comuns...
— quando alcançar
e este, for a mensagem que
mora entre o olor e o vento — esta
será a casa - a realização
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Imaculado
Branco no Arouche
são aves encardidas
Mas
Atrás da Sé estátuas
prostitutas em alvíssimos panos
Mas
lá na República
o pequenino Raul
enteado de Negro João
ainda não sabe que é branco
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Com frio na alma
Nestas noites de grande frio
as artérias congelam-se
sem que possamos
esquentar a sola dos pés
endurecidos
nas botinas de couro cru.
Se pudéssemos esquentar
um pouco que fosse
uma porção que fosse
de nossos corações
o frio não seria tamanho
como diz a moça do tempo.
as artérias congelam-se
sem que possamos
esquentar a sola dos pés
endurecidos
nas botinas de couro cru.
Se pudéssemos esquentar
um pouco que fosse
uma porção que fosse
de nossos corações
o frio não seria tamanho
como diz a moça do tempo.
Minha velha casa
Onde antes havia
alegria das crianças
nada mais se ouve
pois crianças não há
cresceram e se foram.
Em cada canto se ouve
uma voz que antes havia
silenciosa marcada nas paredes
como um fantasma
apagado no tempo.
Agora
ressoa como um murmúrio
uma voz rouca
sem força
quase desfalecida.
É voz de meu pai
que nunca foi de falar muito
nem contou histórias heróicas
mas de todas as histórias ouvidas
a história dele
é a mais bonita.
Nem por isso será eu
a contar!
alegria das crianças
nada mais se ouve
pois crianças não há
cresceram e se foram.
Em cada canto se ouve
uma voz que antes havia
silenciosa marcada nas paredes
como um fantasma
apagado no tempo.
Agora
ressoa como um murmúrio
uma voz rouca
sem força
quase desfalecida.
É voz de meu pai
que nunca foi de falar muito
nem contou histórias heróicas
mas de todas as histórias ouvidas
a história dele
é a mais bonita.
Nem por isso será eu
a contar!
Mensagem sem carteiro
Quantas cartas escreveu
em vão escreveu
pois destinatário não havia
poderia ter sido Juliana
mas também Fabiana
quem sabe Filomena
poderia ser a faxineira
a lavadeira de roupa
Maria das Dores
também
Maria dos Prazeres
nada disso havia
Por fim sem que alguém
pudesse receber
queimou todas as cartas
passou um tempo sem escrever
depois veio a tristeza
seguida de imensa solidão.
Para vencer a solidão
mais uma vez
passou a escrever
cartas que nunca foram
enviadas.
Enquanto escrevia
em todas elas via
uma cara nova
que só havia em
suas cartas.
em vão escreveu
pois destinatário não havia
poderia ter sido Juliana
mas também Fabiana
quem sabe Filomena
poderia ser a faxineira
a lavadeira de roupa
Maria das Dores
também
Maria dos Prazeres
nada disso havia
Por fim sem que alguém
pudesse receber
queimou todas as cartas
passou um tempo sem escrever
depois veio a tristeza
seguida de imensa solidão.
Para vencer a solidão
mais uma vez
passou a escrever
cartas que nunca foram
enviadas.
Enquanto escrevia
em todas elas via
uma cara nova
que só havia em
suas cartas.
Onde estará Ana Maria
Foi Ana Maria
a mulher de minha vida
com ela aprendi a ler italiano
aprendi a comer macarronada
com ela fiz a primeira comunhão.
Um dia Ana Maria se encheu
se foi como chegou
não deixou endereço
não falou se voltaria.
Mas continuo me encontrando
com Ana Maria
não mudou sequer
um gesto sequer
sequer deixou de falar
comigo.
Ana Maria vive
num aquário bem fundo
numa caverna funda
de uma sombra
que pensei ser eu.
a mulher de minha vida
com ela aprendi a ler italiano
aprendi a comer macarronada
com ela fiz a primeira comunhão.
Um dia Ana Maria se encheu
se foi como chegou
não deixou endereço
não falou se voltaria.
Mas continuo me encontrando
com Ana Maria
não mudou sequer
um gesto sequer
sequer deixou de falar
comigo.
Ana Maria vive
num aquário bem fundo
numa caverna funda
de uma sombra
que pensei ser eu.
Da terra em que nasci
Sempre quis sair daqui
ir para outras terras
onde o sonho tivesse vez
onde pudesse escrever
umas letrinhas fora de linha
andar pelas ruas quando
a vontade chegasse
e descansar numa mesa
de bar.
Sempre quis sair daqui
mas nunca dei um passo
sequer
da terra em que nasci
onde a vida sonhada
é viver
e querer sair.
Como podemos sair
se nada se encontra fora
como se o fora pudesse
existir?
ir para outras terras
onde o sonho tivesse vez
onde pudesse escrever
umas letrinhas fora de linha
andar pelas ruas quando
a vontade chegasse
e descansar numa mesa
de bar.
Sempre quis sair daqui
mas nunca dei um passo
sequer
da terra em que nasci
onde a vida sonhada
é viver
e querer sair.
Como podemos sair
se nada se encontra fora
como se o fora pudesse
existir?
A vida balançava
Numa cadeira de balanço
o tempo passava
enquanto passava a mão
nos pelos de um gato
enquanto tramava a vida
num longo bordado
que nunca acabava.
Num certo momento
veio a dor nas costas
veio também a hipertensão
veio uma vontade grande
de não fazer nada
apenas deixar a cadeira
balançar.
o tempo passava
enquanto passava a mão
nos pelos de um gato
enquanto tramava a vida
num longo bordado
que nunca acabava.
Num certo momento
veio a dor nas costas
veio também a hipertensão
veio uma vontade grande
de não fazer nada
apenas deixar a cadeira
balançar.
Encontrando demônios
Que demônios
encontrarei pelo caminho
serão alados
serão enrabados
pouco importa o que sejam.
Poderei tomá-los como mestres
aprenderei a arte da tolerância
ainda que tenha o corpo surrado
não revidarei
assim em poucos instantes
nada mais poderá incomodar
que de cansados
quedarão sentados
não haverá vitorioso
nem perdedor
apenas a sublime contemplação
de um rio correndo rápido
sem que um seixo sequer
deposite limbo.
Serei totalmente livre
passeando pelos campos
de vegetação rasteira
sentindo o vento no rosto
batendo com as mãos
no trigo amarelando
diante do sol rebentando
as cabeças de cabaça.
Se o céu parecer nublado
não me importa
Se as águas inundarem os arrozais
não me importa
Por onde a vista alcança
sempre haverá uma luz radiante.
encontrarei pelo caminho
serão alados
serão enrabados
pouco importa o que sejam.
Poderei tomá-los como mestres
aprenderei a arte da tolerância
ainda que tenha o corpo surrado
não revidarei
assim em poucos instantes
nada mais poderá incomodar
que de cansados
quedarão sentados
não haverá vitorioso
nem perdedor
apenas a sublime contemplação
de um rio correndo rápido
sem que um seixo sequer
deposite limbo.
Serei totalmente livre
passeando pelos campos
de vegetação rasteira
sentindo o vento no rosto
batendo com as mãos
no trigo amarelando
diante do sol rebentando
as cabeças de cabaça.
Se o céu parecer nublado
não me importa
Se as águas inundarem os arrozais
não me importa
Por onde a vista alcança
sempre haverá uma luz radiante.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Companheiros de outras horas
Onde andarão afinal
Meus velhos companheiros?
Um se tornou dentista
Outro funileiro
Marinheiro
Cozinheiro
Um deles foi ser professor
Aquele outro morreu morto
De um tiro que levou
Não de um ladrão qualquer
Foi de um marido enciumado
Que lhe roubou a mulher
Mais um outro foi-se embora
Em outras terras bem distantes
Onde o sol nasce primeiro
Onde o mar se move por inteiro
De mim que me resta dizer
Não sei no que me tornei
Sou uma pergunta sem resposta
Um caminho sem retorno
Um verso que ausente espera
Um momento para se por dentro.
Meus velhos companheiros?
Um se tornou dentista
Outro funileiro
Marinheiro
Cozinheiro
Um deles foi ser professor
Aquele outro morreu morto
De um tiro que levou
Não de um ladrão qualquer
Foi de um marido enciumado
Que lhe roubou a mulher
Mais um outro foi-se embora
Em outras terras bem distantes
Onde o sol nasce primeiro
Onde o mar se move por inteiro
De mim que me resta dizer
Não sei no que me tornei
Sou uma pergunta sem resposta
Um caminho sem retorno
Um verso que ausente espera
Um momento para se por dentro.
O homem debaixo
Ninguém se importa mais
Se o homem debaixo da ponte
Sente frio
Se o homem debaixo da ponte
Sente alguma coisa.
De todos os homens
Quem não sente coisa
Alguma
São homens e mulheres
Que não têm preocupação
Com que outros sentem
Pois todos têm a liberdade
De sentir
Frio
Ou ainda assim
Calor
Das paredes de suas casas.
Somente o homem
Debaixo da ponte continua
Sentindo frio
Que faz tremer
Que faz bater os dentes
Do mesmo homem
Debaixo da ponte.
Se o homem debaixo da ponte
Sente frio
Se o homem debaixo da ponte
Sente alguma coisa.
De todos os homens
Quem não sente coisa
Alguma
São homens e mulheres
Que não têm preocupação
Com que outros sentem
Pois todos têm a liberdade
De sentir
Frio
Ou ainda assim
Calor
Das paredes de suas casas.
Somente o homem
Debaixo da ponte continua
Sentindo frio
Que faz tremer
Que faz bater os dentes
Do mesmo homem
Debaixo da ponte.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
O homem que vendia
De longe se ouvia
Aqui
De longe vinha
Devagarinho
Era o homem que vendia
Biscoitos de polvilho
Era um homem preto
Era um biscoito branco
Era o homem que tocava
Uma flautinha de plástico
Era o menino que corria
Ligeiro com suas pernas de asas
De tanto fugir das reguadas
Das freiras de manto negro.
Menino que não existe mais
Homem que nem sei onde anda
Se morreu não anda mais
Se vivo ficou
Em outra vila pode estar
A vender biscoitos de polvilho?
Aqui
De longe vinha
Devagarinho
Era o homem que vendia
Biscoitos de polvilho
Era um homem preto
Era um biscoito branco
Era o homem que tocava
Uma flautinha de plástico
Era o menino que corria
Ligeiro com suas pernas de asas
De tanto fugir das reguadas
Das freiras de manto negro.
Menino que não existe mais
Homem que nem sei onde anda
Se morreu não anda mais
Se vivo ficou
Em outra vila pode estar
A vender biscoitos de polvilho?
Ao fundo do vale
Que pode mais incomodar
Do que uma ruga que não estava
Perdida em qualquer canto
De uma cara antes lisa
Mas veio uma chuva de granizo
E cavou fundo uma vala
Que escorre lágrimas
Por não ter vivido.
Não é o tempo que passa
Não é a vida que passa
Quem passa é o trem da zona leste
Que não atrasa mais
Um minuto sequer.
Do que uma ruga que não estava
Perdida em qualquer canto
De uma cara antes lisa
Mas veio uma chuva de granizo
E cavou fundo uma vala
Que escorre lágrimas
Por não ter vivido.
Não é o tempo que passa
Não é a vida que passa
Quem passa é o trem da zona leste
Que não atrasa mais
Um minuto sequer.
domingo, 15 de maio de 2011
O mundo gira
Gira o pião
Giramundo
Gira todo mundo
Girassol
Gira a vida
Gira a roda
Roda gira
Rosamundo
Bem imundo
Bem no fundo
Deste mundo
Raimundo
Era o nome
Que faltava
Que faltava
Neste verso
Que termina
Desde já.
Giramundo
Gira todo mundo
Girassol
Gira a vida
Gira a roda
Roda gira
Rosamundo
Bem imundo
Bem no fundo
Deste mundo
Raimundo
Era o nome
Que faltava
Que faltava
Neste verso
Que termina
Desde já.
O esquecimento possível
Alguns acontecimentos
Das partes compartilhadas
Não se esquecem.
Apenas fingimos
Que o esquecimento
Seja uma condição possível?
Das partes compartilhadas
Não se esquecem.
Apenas fingimos
Que o esquecimento
Seja uma condição possível?
Dia da Mãe Preta
As mães pretas continuam
A amamentar em suas tetas
Uma infinidade de meninos
Sedentos de leite gorduroso.
Podem negar
Podem desmentir
Podem falar mal
Afinal todos querem
No estadual
No federal
Mamar continuamente
Até que a mãe preta
Seque totalmente.
A amamentar em suas tetas
Uma infinidade de meninos
Sedentos de leite gorduroso.
Podem negar
Podem desmentir
Podem falar mal
Afinal todos querem
No estadual
No federal
Mamar continuamente
Até que a mãe preta
Seque totalmente.
Silêncio que fala
Ainda que nada diga
Nada parece ser mais
Significativo que este imenso
Vazio
Ausente de palavras
Em que cada nada
Pode ser possível
Uma infinidade de sentidos
Cuja representação
Nunca poderá ser.
Ainda que a simpatia exista
Distante fica
Um olhar rápido
Fugidio e imediato
Como faísca se vai
Riscando a superfície lisa
De um mármore.
Como nunca te conheci
Como agora
Agora é apenas um instante
Que foi embora
Deixando atrás uma poeira
Fina que se acumula
No mais fundo poço
De uma existência fugaz
Que ninguém acredita mais.
Nada parece ser mais
Significativo que este imenso
Vazio
Ausente de palavras
Em que cada nada
Pode ser possível
Uma infinidade de sentidos
Cuja representação
Nunca poderá ser.
Ainda que a simpatia exista
Distante fica
Um olhar rápido
Fugidio e imediato
Como faísca se vai
Riscando a superfície lisa
De um mármore.
Como nunca te conheci
Como agora
Agora é apenas um instante
Que foi embora
Deixando atrás uma poeira
Fina que se acumula
No mais fundo poço
De uma existência fugaz
Que ninguém acredita mais.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Carta para a mariposa marrom
Olá borboleta marrom. Quer ser minha amiga?
É que ontem eu te vi na parede da sala e hoje na parede do corredor. Acho que você deve gostar desta casa e ainda mais de paredes brancas, né?
Como? Você não é uma borboleta?
Ah! Uma mariposa!
Senhora mariposa, tenho duas gatas em casa. Sei que a relação das mariposas com os gatos não é muito boa, mas pode ficar tranqüila que estas duas são preguiçosas.
Bom, fique a vontade que a casa é sua.
Pouse onde bem entender.
A história do cachorro
Todo dia uma história diferente
Contada pela matéria amorfa
Do que um dia foi um canino
E agora se desfaz
No canto de uma avenida
Que foi palco de sua travessia
Para outro lugar
Que faz a mente do homem
Divagar devagar
Nas sombras de uma dúvida
Que nem mesmo o cachorro
Jamais saberá
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Treze
Quero gatos pretos,
E uma escada bem grande
Pra passar por debaixo
Com sapatos trocados
Andando de costas
Com crucifixo invertido
No peito estampado
E uma escada bem grande
Pra passar por debaixo
Com sapatos trocados
Andando de costas
Com crucifixo invertido
No peito estampado
Hanami
As flores de sakura em Fukushima irão florescer?
Como será o rosado florescer perfumado delas?
Como será o rosado florescer perfumado delas?
domingo, 8 de maio de 2011
Sopra a brisa fria
Nestas noites infinitas
De outono
Fundo cinza de um céu
Prestes a desabar
Sobre os nossos ombros
Pesado seria se não pudéssemos
Suportar a mais leve dor
De uma ilusão que se acende
Numa chama
De uma estrela perdida
Prestes a congelar-se.
Todo fogo
Em pouco tempo
Há de se apagar
E assim a vida
Continua numa marcha
Em que conduz
Não a minha vida
Mas a minha estrada
Incerta
E insegura
Mais do que nunca.
Diante a incerteza
Como é fresca a brisa
Que roça em meus pelos
Em todos os meus cabelos
Que outrora havia.
De outono
Fundo cinza de um céu
Prestes a desabar
Sobre os nossos ombros
Pesado seria se não pudéssemos
Suportar a mais leve dor
De uma ilusão que se acende
Numa chama
De uma estrela perdida
Prestes a congelar-se.
Todo fogo
Em pouco tempo
Há de se apagar
E assim a vida
Continua numa marcha
Em que conduz
Não a minha vida
Mas a minha estrada
Incerta
E insegura
Mais do que nunca.
Diante a incerteza
Como é fresca a brisa
Que roça em meus pelos
Em todos os meus cabelos
Que outrora havia.
sábado, 7 de maio de 2011
Rua só
Sou eu que caminho a rua
Ou a rua que me caminha?
Na noite escura
Das poucas luzes amareladas
Onde o vento gelado do outono
Me faz só
Da solidão que não sei se é minha
Ou se é da rua
Ou a rua que me caminha?
Na noite escura
Das poucas luzes amareladas
Onde o vento gelado do outono
Me faz só
Da solidão que não sei se é minha
Ou se é da rua
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Olhos atlânticos
Por aqueles olhos
Imensos
Um mar inteiro inundou
Com o azul translúcido
Afogou-me.
Quero para mim
Somente para mim
Nenhum outro me serve
Se assim for meu destino
Mal destino
Que perdeu tudo que tinha
Pelos olhos que não merecia.
Imensos
Um mar inteiro inundou
Com o azul translúcido
Afogou-me.
Quero para mim
Somente para mim
Nenhum outro me serve
Se assim for meu destino
Mal destino
Que perdeu tudo que tinha
Pelos olhos que não merecia.
O esquecimento que não acontece
Por um momento
O esquecimento é a solução
Como pudéssemos ignorar
Os fatos
Os retratos
Como pudéssemos simplesmente
Fechar os olhos
Para não ver
Mas quando mais fecho os olhos
Outros olhos abrem-se
E nada mais pode ser ocultado
Neste jogo de minha infância
Jogo de esconde-esconde
Em que o escondido sempre
Perde
Pois não há esconderijo
Suficiente
Na face da terra
Que possa servir de abrigo.
Sem que o esquecimento
Seja possível
Nem abandonado
Conviver com a lembrança
Sem muita atenção
Não ignorado
Não valorizado
Viver num fingimento
De que o rosto conhecido
Não passa de desconhecido
Nos torna atores de uma vida a toa
Palhaços de um espetáculo
Em que ninguém mais ri
Sendo que esta existência
Perdera totalmente a graça.
O esquecimento é a solução
Como pudéssemos ignorar
Os fatos
Os retratos
Como pudéssemos simplesmente
Fechar os olhos
Para não ver
Mas quando mais fecho os olhos
Outros olhos abrem-se
E nada mais pode ser ocultado
Neste jogo de minha infância
Jogo de esconde-esconde
Em que o escondido sempre
Perde
Pois não há esconderijo
Suficiente
Na face da terra
Que possa servir de abrigo.
Sem que o esquecimento
Seja possível
Nem abandonado
Conviver com a lembrança
Sem muita atenção
Não ignorado
Não valorizado
Viver num fingimento
De que o rosto conhecido
Não passa de desconhecido
Nos torna atores de uma vida a toa
Palhaços de um espetáculo
Em que ninguém mais ri
Sendo que esta existência
Perdera totalmente a graça.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Rodopia em redemoinho
Meu irmão jogava pião
Que rodopiava
De uma corda esticada
E em alta velocidade
Que rodopiava
Furando o chão
O chão de terra e areia
E a vida também girava
E os olhos giravam
Sem se deter num ponto sequer
Todas as cores
Todos os sabores
Amores profanos
Insanos alguns
Malditos outros
Benditos nenhum.
Assim a vida passava
Na calçada passava
A menina que se tornou
Mulher
O menino continuou
Menino
Só não aprendeu
A jogar pião.
Até mesmo o amor passado
Não há de retornar
Apenas passado
Uva passa passada
Por falta de opção.
Por fim rodopia
Nada fica
Como nunca ficou
Um sinal apenas
Dos passos dos pés
Pisados na areia fria.
Que rodopiava
De uma corda esticada
E em alta velocidade
Que rodopiava
Furando o chão
O chão de terra e areia
E a vida também girava
E os olhos giravam
Sem se deter num ponto sequer
Todas as cores
Todos os sabores
Amores profanos
Insanos alguns
Malditos outros
Benditos nenhum.
Assim a vida passava
Na calçada passava
A menina que se tornou
Mulher
O menino continuou
Menino
Só não aprendeu
A jogar pião.
Até mesmo o amor passado
Não há de retornar
Apenas passado
Uva passa passada
Por falta de opção.
Por fim rodopia
Nada fica
Como nunca ficou
Um sinal apenas
Dos passos dos pés
Pisados na areia fria.
Ainda que seja assim
Qualquer amor que fosse
Poderia ser pequeno
Menor ainda
Poderia ser gordo
Desajeitado
E aleijado
Vagabundo
E enjeitado
Desde que fosse
Alguém que fosse
Somente para ela.
Poderia ser pequeno
Menor ainda
Poderia ser gordo
Desajeitado
E aleijado
Vagabundo
E enjeitado
Desde que fosse
Alguém que fosse
Somente para ela.
Cinco de maio
Carpas dançam no vento
Pai e filhos lá no alto
Mãe enrolando moti
--
Semana de folga
Luzes apagadas
Luto dourado
Pai e filhos lá no alto
Mãe enrolando moti
--
Semana de folga
Luzes apagadas
Luto dourado
terça-feira, 3 de maio de 2011
De onde vem esta canção
Num canto da noite
Um solitário homem da rua
Sem família
Sem amigos sequer
Apenas um cão
O acompanhava
Na mão um pandeiro
De couro ressecado
Uma canção sem nome
Cantava
E tocava seu instrumento
E um sorriso nascia
De sua face entristecida
Cantava a saudade
De uma tal de Mariazinha
“Mariazinha onde andará
Quem sabe numa nuvem
Quem sabe na cauda do vento
Não importa onde andará
Mariazinha agora você é minha...”
Um solitário homem da rua
Sem família
Sem amigos sequer
Apenas um cão
O acompanhava
Na mão um pandeiro
De couro ressecado
Uma canção sem nome
Cantava
E tocava seu instrumento
E um sorriso nascia
De sua face entristecida
Cantava a saudade
De uma tal de Mariazinha
“Mariazinha onde andará
Quem sabe numa nuvem
Quem sabe na cauda do vento
Não importa onde andará
Mariazinha agora você é minha...”
Assim o inverno chega
Ainda que o frio congele meus ossos
E minha boca endureça
Em algum canto de minha existência
Uma pequena chama tremeluzente
Há de afastar o fantasma da solidão.
Diante deste calor
Possam aconchegar-se
Aqueles isentos de amigos
Ou dos amigos que se foram
Das mulheres que se foram
E foram também todos os sonhos
Num relance rápido e sinuoso
De uma vida que se extingue
Em cada noite de sono.
Esta vida cuja chama
Alimenta um pavio curto
Cada vez mais sem combustível
Azeite que umedece os lábios
De fala suave
Dos beijos que foram do passado.
E minha boca endureça
Em algum canto de minha existência
Uma pequena chama tremeluzente
Há de afastar o fantasma da solidão.
Diante deste calor
Possam aconchegar-se
Aqueles isentos de amigos
Ou dos amigos que se foram
Das mulheres que se foram
E foram também todos os sonhos
Num relance rápido e sinuoso
De uma vida que se extingue
Em cada noite de sono.
Esta vida cuja chama
Alimenta um pavio curto
Cada vez mais sem combustível
Azeite que umedece os lábios
De fala suave
Dos beijos que foram do passado.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Temores que me perseguem
De todos os santos que havia
Havia um
Que causava uma inquietação
Seu corpo flechado
Agonizante delirava
Enquanto o sangue jorrava
De suas feridas.
Até a ferida que havia
Em meu joelho esquerdo
De uma ralada no asfalto
Num carrinho de rolimã
Não doía tanto assim.
O que doía mais
Era o olhar de Margarida
Mulata que cuidava de mim
Em desaprovação
Às minhas faltas nas aulas
De religião.
O que temia mais
Não era ir para o inferno
Que nunca entendi bem
O que temia era morrer
E não ter onde ir.
Havia um
Que causava uma inquietação
Seu corpo flechado
Agonizante delirava
Enquanto o sangue jorrava
De suas feridas.
Até a ferida que havia
Em meu joelho esquerdo
De uma ralada no asfalto
Num carrinho de rolimã
Não doía tanto assim.
O que doía mais
Era o olhar de Margarida
Mulata que cuidava de mim
Em desaprovação
Às minhas faltas nas aulas
De religião.
O que temia mais
Não era ir para o inferno
Que nunca entendi bem
O que temia era morrer
E não ter onde ir.
Viagem ao longe
Se tivesse que me ir
Para um lugar distante
De meus amigos não me despediria
De meus inimigos
Quem sou eu para ter inimigos?
Iria sem despedida
Iria para as areias do Deserto de Gobi
Onde o calor ainda brilharia
Sobre os cristais aos pés dos camelos
Estes continuariam caminhando
Sem se deter jamais
Cujos rastros logo apagariam
E logo seria esquecido
Livre para alcançar a estrela
Do oriente
Atrás de uma duna
Sonhada sem nunca ter saído
Daqui.
De onde nunca arredei pé.
Para um lugar distante
De meus amigos não me despediria
De meus inimigos
Quem sou eu para ter inimigos?
Iria sem despedida
Iria para as areias do Deserto de Gobi
Onde o calor ainda brilharia
Sobre os cristais aos pés dos camelos
Estes continuariam caminhando
Sem se deter jamais
Cujos rastros logo apagariam
E logo seria esquecido
Livre para alcançar a estrela
Do oriente
Atrás de uma duna
Sonhada sem nunca ter saído
Daqui.
De onde nunca arredei pé.
Minha flauta de plástico
Mais importante do que viver
É aprender a tocar flauta.
Nunca toquei nada
Nunca pintei nada
Mas tive amores
Grandes e passageiros
Pequenos e sorrateiros
Por estar preocupado demais
Nestes assuntos do coração
Esqueci-me de viver.
Se pelo menos tivesse
Aprendido a toca flauta
Minha solidão seria companheira
De uma música inventada na hora
Uma nota de jazz de um negro
Enchendo as bochechas de um sopro
Capaz de encher meus pulmões de vida
A vida é uma nota de jazz
Breve
Imensamente breve e bela
Soprada com toda a energia.
É aprender a tocar flauta.
Nunca toquei nada
Nunca pintei nada
Mas tive amores
Grandes e passageiros
Pequenos e sorrateiros
Por estar preocupado demais
Nestes assuntos do coração
Esqueci-me de viver.
Se pelo menos tivesse
Aprendido a toca flauta
Minha solidão seria companheira
De uma música inventada na hora
Uma nota de jazz de um negro
Enchendo as bochechas de um sopro
Capaz de encher meus pulmões de vida
A vida é uma nota de jazz
Breve
Imensamente breve e bela
Soprada com toda a energia.
Passou mais rápido
Quanto tempo perdi
Procurando por algo
Que sempre tive e não sabia
Quanto tempo perdi
Estudando economia
E gastei tudo que tinha
Num bar de esquina
Quanto tempo perdi
Perseguindo as andorinhas
Que assim bateram asas
E se foram sem olhar para trás.
E a felicidade não passava
De pura fantasia
Confete atirado num carnaval
Passado
Quando percebi
Nada mais restava
Do que o vapor de uma
Chaleira levantando a tampa
E apagando a chama.
E a vida se foi
E não vivi.
Procurando por algo
Que sempre tive e não sabia
Quanto tempo perdi
Estudando economia
E gastei tudo que tinha
Num bar de esquina
Quanto tempo perdi
Perseguindo as andorinhas
Que assim bateram asas
E se foram sem olhar para trás.
E a felicidade não passava
De pura fantasia
Confete atirado num carnaval
Passado
Quando percebi
Nada mais restava
Do que o vapor de uma
Chaleira levantando a tampa
E apagando a chama.
E a vida se foi
E não vivi.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Espelho de bolso
No espelho de bolso
Tenho um rostinho
Com que gosto de conversar
É sempre ele que eu clamo
Quando quero chorar
Ou é pra ele que eu peço
Pra ajeitar meu sorriso
Ou cutucar meu dente do siso
Que também dói no rostinho
Do meu pequeno espelhinho
Tenho um rostinho
Com que gosto de conversar
É sempre ele que eu clamo
Quando quero chorar
Ou é pra ele que eu peço
Pra ajeitar meu sorriso
Ou cutucar meu dente do siso
Que também dói no rostinho
Do meu pequeno espelhinho
Lua
Pela noite sigo com os olhos
Caçando a beleza outonal
Formosura que brilha linda no céu
Com formas delirantemente prateadas
Se esconde lá
Se esconde cá entre as nuvens
Fazendo proposital charme
Que enlouquece a vista
Confunde a língua e o pensar
Deixando as ferramentas do homem
Incapazes de compor
Poemas sobre sua beleza
Redonda e prateada
Lá se foi novamente, entre as nuvens!
Caçando a beleza outonal
Formosura que brilha linda no céu
Com formas delirantemente prateadas
Se esconde lá
Se esconde cá entre as nuvens
Fazendo proposital charme
Que enlouquece a vista
Confunde a língua e o pensar
Deixando as ferramentas do homem
Incapazes de compor
Poemas sobre sua beleza
Redonda e prateada
Lá se foi novamente, entre as nuvens!
terça-feira, 19 de abril de 2011
Haikus
Trânsito infernal
Borboleta no vento
Radial Leste
(dedicado à todos os amigos do templo)
Na calçada, ali
Amiguinho sem dono
Gatinho morto
Agora ou jajá?
Ansiedade grande
Final de aula
Você já chegou?
Passou o tempo, nem vi:
Cabelo branco
Olhos nos olhos,
Esfrega, insinua:
gato quer leite.
Jardim já seco
Borboleta laranja
Caneta e papel.
(dedicado aos amigos do Muro, borboletas laranja num jardim já seco)
Borboleta no vento
Radial Leste
(dedicado à todos os amigos do templo)
Na calçada, ali
Amiguinho sem dono
Gatinho morto
Agora ou jajá?
Ansiedade grande
Final de aula
Você já chegou?
Passou o tempo, nem vi:
Cabelo branco
Olhos nos olhos,
Esfrega, insinua:
gato quer leite.
Jardim já seco
Borboleta laranja
Caneta e papel.
(dedicado aos amigos do Muro, borboletas laranja num jardim já seco)
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Negra neve
No campo coberto de neve, disse o escaravelho à garça branca: gostaria de viver num certo lugar, nem futuro, nem passado, num lugar que é quando não estou aqui. A garça disse: é aí que vivo. E sem hesitar sorveu o pequeno inseto através de seu bico comprido e o digeriu. Mas antes, a paisagem engoliu a garça.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Jogos da vida
Aprendi a jogar amarelinha
Perdia sempre.
Aprendi a jogar bate-caixinha
Perdia sempre.
Aprendi a jogar xadrez
Perdia sempre.
Aprendi a jogar esgrima
Perdia sempre.
Aprendi a jogar jogos do amor
Continuei perdendo.
A vida é um eterno jogo
Que se joga para perder...
Perdia sempre.
Aprendi a jogar bate-caixinha
Perdia sempre.
Aprendi a jogar xadrez
Perdia sempre.
Aprendi a jogar esgrima
Perdia sempre.
Aprendi a jogar jogos do amor
Continuei perdendo.
A vida é um eterno jogo
Que se joga para perder...
Jogos evitados
Se os olhos cruzassem Tudo seria revelado. Mas nenhuma revelação Seria capaz de suplantar Tamanha sedução Do próprio segredo!
Silenciosamente
Quando nada mais temos Que dizer Então podemos mais uma vez Silenciar nossas bocas. Só não podemos Silenciar o fogo que arde Nos olhos Que sempre quer dizer algo.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Cansei, cansei-me e cansei-vos
E eu,
sempre tão disposto,
sempre tão ávido
(de estudar, aprender, ouvir)
sempre tão observador
Cansei, e pior:
Cansei-me de tanto ser
Sempre tão disposto e ávido.
Cansei, cansei-me e cansei a outros
Com meus apontamentos, críticas e sugestões
(tomadas por bravatas baratas de esquerda barata)
Qual a razão de tudo? Pecha de bravateiro?
Volto ao axioma:
Cansei-me, logo calo-me.
Só agora, enfastiado e farto de estar cansado,
Cansei-me do silêncio.
Diabos! Pro inferno as sugestões e o mero silêncio!
Nem raiva, nem depressão, sequer uma bufada de indignação...
Quero aprender latim, e falar sozinho uma língua morta!
Que diferença fará? Não sei... mas fará.
Nojo e desprezo são negativos? Depende.
Alegria e aceitação são positivos? Depende.
Seja o que for, que não seja impositivo...
E eu,
que sempre soube finalizar meus escritos,
Este não sei como acabar.
Que seja.
sempre tão disposto,
sempre tão ávido
(de estudar, aprender, ouvir)
sempre tão observador
Cansei, e pior:
Cansei-me de tanto ser
Sempre tão disposto e ávido.
Cansei, cansei-me e cansei a outros
Com meus apontamentos, críticas e sugestões
(tomadas por bravatas baratas de esquerda barata)
Qual a razão de tudo? Pecha de bravateiro?
Volto ao axioma:
Cansei-me, logo calo-me.
Só agora, enfastiado e farto de estar cansado,
Cansei-me do silêncio.
Diabos! Pro inferno as sugestões e o mero silêncio!
Nem raiva, nem depressão, sequer uma bufada de indignação...
Quero aprender latim, e falar sozinho uma língua morta!
Que diferença fará? Não sei... mas fará.
Nojo e desprezo são negativos? Depende.
Alegria e aceitação são positivos? Depende.
Seja o que for, que não seja impositivo...
E eu,
que sempre soube finalizar meus escritos,
Este não sei como acabar.
Que seja.
domingo, 3 de abril de 2011
Louco e presidente
No cortejo
De um ex-vice
Ex-vivo
Presidente da república
Aquele homem
Isolado na multidão urbana
Num dançar louco e frenético
Nas músicas dos automóveis
Nunca viu aquele presidente
Que nunca viu aquele homem
De um ex-vice
Ex-vivo
Presidente da república
Aquele homem
Isolado na multidão urbana
Num dançar louco e frenético
Nas músicas dos automóveis
Nunca viu aquele presidente
Que nunca viu aquele homem
sexta-feira, 1 de abril de 2011
sábado, 19 de março de 2011
Irrealidade da vida
Quando acordo
E meus olhos sentem
O brilho do sol
Cada vez mais
Os meus olhos ficam
Cegos
Por um exagero
De informações visuais
Que numa confusão
Confundem
E perdido dentro delas
Sou apenas uma borboleta
Passando diante
De um bosque em floração.
Quando acordo
Um exagero de realidade
Queima pelo asfalto
Numa tarde de verão
Levantando vapores
De um petróleo viscoso
Que gruda em minhas botas.
Quando acordo
Deixo uma outra realidade
Menos impossível de ser vivida
Em que outro ser
Caminha feliz e na liberdade
Habita seu mundo idílico.
E meus olhos sentem
O brilho do sol
Cada vez mais
Os meus olhos ficam
Cegos
Por um exagero
De informações visuais
Que numa confusão
Confundem
E perdido dentro delas
Sou apenas uma borboleta
Passando diante
De um bosque em floração.
Quando acordo
Um exagero de realidade
Queima pelo asfalto
Numa tarde de verão
Levantando vapores
De um petróleo viscoso
Que gruda em minhas botas.
Quando acordo
Deixo uma outra realidade
Menos impossível de ser vivida
Em que outro ser
Caminha feliz e na liberdade
Habita seu mundo idílico.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Perigos da vida
Uma falta de consistência
Nos passos em que afundo
Mais fundo no barro da existência
Meus pés enfiados em botas
Que esmagam meus calos
Mal formados
Cuja calosidade maltrata
Este corpo em decadência.
Firmar os pés
Onde firmeza alguma
Tem qualquer validade
Como a pisar em nuvens
Nenhuma solidez acontece.
Viver
É correr riscos
De um mundo cada vez mais
Desconhecido
Em que somente os sonhos
São possíveis
Diante da impossibilidade
De uma vida concreta
Em vias de concreto
E cimento armado
Que de duro trincou
Ao menor abalo
De um terremoto de emoções.
Nos passos em que afundo
Mais fundo no barro da existência
Meus pés enfiados em botas
Que esmagam meus calos
Mal formados
Cuja calosidade maltrata
Este corpo em decadência.
Firmar os pés
Onde firmeza alguma
Tem qualquer validade
Como a pisar em nuvens
Nenhuma solidez acontece.
Viver
É correr riscos
De um mundo cada vez mais
Desconhecido
Em que somente os sonhos
São possíveis
Diante da impossibilidade
De uma vida concreta
Em vias de concreto
E cimento armado
Que de duro trincou
Ao menor abalo
De um terremoto de emoções.
Ainda um sonho
Não sei que imagem são estas
Serão estas de um jogo eletrônico
Dessas que brincam as crianças?
Que enfrentam monstros espaciais
Godzilas que chegam do mar
E em instantes destroem a cidade
De Tóquio.
Não se acredita jamais
Que as águas vindas do mar
Possam de fato
Tornar a terra mar
Arrastando barcos
Das casas que havia
Nada mais havia mais
Do que escombros arqueológicos
Do que foi um dia
Uma vila de pescador.
Minha oração é vazia
Silenciosa neste instante
Minha oração é passageira
Como passageira é a vida.
Serão estas de um jogo eletrônico
Dessas que brincam as crianças?
Que enfrentam monstros espaciais
Godzilas que chegam do mar
E em instantes destroem a cidade
De Tóquio.
Não se acredita jamais
Que as águas vindas do mar
Possam de fato
Tornar a terra mar
Arrastando barcos
Das casas que havia
Nada mais havia mais
Do que escombros arqueológicos
Do que foi um dia
Uma vila de pescador.
Minha oração é vazia
Silenciosa neste instante
Minha oração é passageira
Como passageira é a vida.
Problema do outro
Uma enxurrada avança pelas terras
Uma enxurrada revela tensões
Descobrindo por onde passa
Um sentimento de medo
De ser engolido de repente
Pelo desconhecido fluido líquido
Que mata e faz nascer também
Um ato de complacência
E de tamanha intolerância
Que na indiferença
Nada mais faz do que
Nada fazer
Enquanto os mortos enterram
Seus mortos em covas rasas
Deixando com que uma maré negra
Penetre pelos arrozais
Nas frinchas da terra salgada
Para que nunca mais
Possa ser cultivada.
Mas a vida continua
Para os que perderam casas
Mas a vida continua
Para os que perderam filhos
Continua inclusive para os que
Leram jornais e telegramas
E minimizaram a dor
Pois a dor sempre foi a do outro.
Uma enxurrada revela tensões
Descobrindo por onde passa
Um sentimento de medo
De ser engolido de repente
Pelo desconhecido fluido líquido
Que mata e faz nascer também
Um ato de complacência
E de tamanha intolerância
Que na indiferença
Nada mais faz do que
Nada fazer
Enquanto os mortos enterram
Seus mortos em covas rasas
Deixando com que uma maré negra
Penetre pelos arrozais
Nas frinchas da terra salgada
Para que nunca mais
Possa ser cultivada.
Mas a vida continua
Para os que perderam casas
Mas a vida continua
Para os que perderam filhos
Continua inclusive para os que
Leram jornais e telegramas
E minimizaram a dor
Pois a dor sempre foi a do outro.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Lembranças difíceis de apagar
Tão rápido
Como uma onda no mar
As manchetes já são poucas
Que restaram
Penduradas nos varais
Das bancas de jornal
Que vai caindo também
Da lembrança de alguns
Que pra lá nunca foram
E nunca pensam em ir
Mas ainda hoje
Mesmo que aqui dia
E lá noite
A lágrima ainda é mais salgada
A chuva é mais gelada
E o alimento escasso
Em um corpo
Que ficará marcado
Para jamais esquecer
terça-feira, 15 de março de 2011
Todos se foram
Quantas cegonhas tsuru
Terei que dobrar
Para um pouco que seja
Seja para sanar a dor
Daqueles que viveram
Para contar esta história.
O mar veio por terra
E de terra nada mais sobrou
Da terra tudo levou
Para o fundo do mar.
Agora vivem todos
Num castelo de conchas
Para nunca mais voltar.
Terei que dobrar
Para um pouco que seja
Seja para sanar a dor
Daqueles que viveram
Para contar esta história.
O mar veio por terra
E de terra nada mais sobrou
Da terra tudo levou
Para o fundo do mar.
Agora vivem todos
Num castelo de conchas
Para nunca mais voltar.
Agitação do mar
Havia naquele dia
Uma agitação desigual
Anormal para os padrões
Normais da movimentação
Do mar
Que tomado de fúria
Voltou-se contra os homens
Que frágeis pereceram
Afogados
Para não contar a história.
Uma agitação desigual
Anormal para os padrões
Normais da movimentação
Do mar
Que tomado de fúria
Voltou-se contra os homens
Que frágeis pereceram
Afogados
Para não contar a história.
A morte que vem do mar
Ainda que procure manter-me
Distante
Das águas que por lá passaram
Levando barcos e sereias
Por cima de suas ondas
Nunca fiquei tão próximo
Em meu silêncio
Que tudo desconversa
Para não se tragado de vez
Pelos redemoinhos
Que agitam minha consciência.
Meus olhos nunca choraram tanto
Pelas mulheres que afogaram
Seus corpos pesados de encantamento
Seus filhos que nunca serão adultos
Pelo impedimento de terem em suas bocas
O gosto do sal.
Todos os sonhos se foram
Numa maré negra de destruição.
Após a desdita nada mais resta
Do que enterrar em fossa funda
Os destroços de uma vida tranqüila.
Distante
Das águas que por lá passaram
Levando barcos e sereias
Por cima de suas ondas
Nunca fiquei tão próximo
Em meu silêncio
Que tudo desconversa
Para não se tragado de vez
Pelos redemoinhos
Que agitam minha consciência.
Meus olhos nunca choraram tanto
Pelas mulheres que afogaram
Seus corpos pesados de encantamento
Seus filhos que nunca serão adultos
Pelo impedimento de terem em suas bocas
O gosto do sal.
Todos os sonhos se foram
Numa maré negra de destruição.
Após a desdita nada mais resta
Do que enterrar em fossa funda
Os destroços de uma vida tranqüila.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Lá de longe
Um homem que caminha pela vida
E deixa a vida caminhar por ele
Sem as preocupações
Suas marcas tatuadas na pele
Pode fechar os olhos primários
Que jamais se perderá
Com os olhos verdadeiros
Guiados por aqueles
Que mesmo longe
Estarão sempre ao seu lado
E deixa a vida caminhar por ele
Sem as preocupações
Suas marcas tatuadas na pele
Pode fechar os olhos primários
Que jamais se perderá
Com os olhos verdadeiros
Guiados por aqueles
Que mesmo longe
Estarão sempre ao seu lado
Não mais Pacífico
Para alguns foi um dia normal
Para mim foi quando as terras e as águas
Levaram, não só meus sonhos
Mas o de muitas outras pessoas
E tão logo são enfeites nas páginas dos jornais
E tão logo são semblantes cabisbaixos
Vagando pela cidade desnuda
Que é mostrada sem pudor
Pela grande mãe sem misericórdia
Para mim foi quando as terras e as águas
Levaram, não só meus sonhos
Mas o de muitas outras pessoas
E tão logo são enfeites nas páginas dos jornais
E tão logo são semblantes cabisbaixos
Vagando pela cidade desnuda
Que é mostrada sem pudor
Pela grande mãe sem misericórdia
domingo, 13 de março de 2011
Em profundo silêncio
Ainda que meu rosto
Nada mais revele
Do que um semblante
Branco e ignorante
Minha alma chora
Pelos mortos
E pelos vivos que sofrem
Tamanha destruição.
Uma parte de mim
Também morre
Nas águas em tamanha
Violência.
Em meu silêncio
A pulsão do coração
A dobrar repetidamente
Uma oração.
Nada mais revele
Do que um semblante
Branco e ignorante
Minha alma chora
Pelos mortos
E pelos vivos que sofrem
Tamanha destruição.
Uma parte de mim
Também morre
Nas águas em tamanha
Violência.
Em meu silêncio
A pulsão do coração
A dobrar repetidamente
Uma oração.
A invasão das águas
Que as almas levadas
Pelas águas do Pacífico
A inundar as terras baixas
Encontrem paz
Nas espumas do mar
E voltem novamente
A mergulhar nas profundezas
E silenciosas águas
Da inconsciência
Tranqüilas e escuras
Compartilhando com os peixes
Um eterno sono
E assim possam sonhar
E assim possam viver.
Pelas águas do Pacífico
A inundar as terras baixas
Encontrem paz
Nas espumas do mar
E voltem novamente
A mergulhar nas profundezas
E silenciosas águas
Da inconsciência
Tranqüilas e escuras
Compartilhando com os peixes
Um eterno sono
E assim possam sonhar
E assim possam viver.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Acalanto sujo
Lambida de cachorro
unhada de barata
banho da chuva
beijo de sarjeta
Aqui, onde caiu a calçada
- que onde não havia -
Nessa cabeça esponjosa
mendigo e amanheço.
Sento
Como e
Durmo mendigo
Bebo.
Vagueio
(horas)
.
unhada de barata
banho da chuva
beijo de sarjeta
Aqui, onde caiu a calçada
- que onde não havia -
Nessa cabeça esponjosa
mendigo e amanheço.
Sento
Como e
Durmo mendigo
Bebo.
Vagueio
(horas)
.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O home que gostava de ficar
Era um homem que gostava de viajar
Viajava, viajava
Sempre observando por onde passava
Olhava tudo, cheirava e tateava
Gostava muito de viajar
Mas, mais do que de viajar,
Gostava de ficar
Pra onde ele fosse
Onde quer que ele viaja-se
Lá, pra sempre, ele ficava
Até o final do infinito
Ele permanecia no mesmo lugar
E assim em todos os lugares em que ia
Chegava e ficava para sempre
Até mesmo para onde ele nunca foi,
Já estava lá para todo o sempre
Isso por que gostava de viajar
E mais do que isso,
Gostava de ficar
domingo, 20 de fevereiro de 2011
As mariposas
Por todo meu caminho
Eram muitas as mariposas mortas
Que nunca foram enterradas
Pois as mariposas não precisam
De uma morada no fundo da terra.
Elas moram todas elas na noite mais escura
Do fundo de minha alma.
Eram muitas as mariposas mortas
Que nunca foram enterradas
Pois as mariposas não precisam
De uma morada no fundo da terra.
Elas moram todas elas na noite mais escura
Do fundo de minha alma.
As palavras mudas
Toda formalidade das formas possíveis
Do encontro dos olhos
Que dizem algo diferente
Do que demonstram ser
Para que assim um jogo
De palavras não ditas
Possa parecer uma emoção
Que por pura convenção
Procura-se ocultar
Mas que as partes conhecem
Uma brincadeira de esconder
Diante de uma platéia
Que nada faz do que
Desconfiar.
Do encontro dos olhos
Que dizem algo diferente
Do que demonstram ser
Para que assim um jogo
De palavras não ditas
Possa parecer uma emoção
Que por pura convenção
Procura-se ocultar
Mas que as partes conhecem
Uma brincadeira de esconder
Diante de uma platéia
Que nada faz do que
Desconfiar.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
O lírico é sempre social
Essa universalidade do teor lírico, contudo, é essencialmente social. Só entende aquilo que o poema diz quem escuta, em sua solidão, a voz da humanidade; mais ainda, a própria solidão da palavra lírica é pré-traçada pela sociedade individualista e, em última análise, atomística, assim como, inversamente, sua capacidade de criar vínculos universais.
ADORNO.T,Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p.67
ADORNO.T,Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p.67
Noites de fevereiro
Bem a noite chega
Uma canção espanta a melancolia
Destes tempos de incerteza
Em que fevereiro muito mais
Incomoda a alma pequena.
Se fosse marinheiro não seria
Se fosse cavaleiro não seria
Solitária alma pequena.
Mas as sombras são bons amigos
Para quem queda na quietude
E por pouco não cai em sono profundo
Em que o mundo é boa morada
Para os que não perderam a esperança
E assim esperam sem se deter
Nunca
Nem com a calmaria
Nem os tufões o amedrontam
Mas medo tem
Dos amores de Maria.
Uma canção espanta a melancolia
Destes tempos de incerteza
Em que fevereiro muito mais
Incomoda a alma pequena.
Se fosse marinheiro não seria
Se fosse cavaleiro não seria
Solitária alma pequena.
Mas as sombras são bons amigos
Para quem queda na quietude
E por pouco não cai em sono profundo
Em que o mundo é boa morada
Para os que não perderam a esperança
E assim esperam sem se deter
Nunca
Nem com a calmaria
Nem os tufões o amedrontam
Mas medo tem
Dos amores de Maria.
O poema lírico e o univesal
Não que aquilo que o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquilo que todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volanté de tous, não é a da mera comunicação daquilo que os outros simplesmente não são capazes de comunicar. Ao contrário, o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal por tornar manifesto algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido, anunciado desse modo, por antecipação, algo de um estado em que nenhum universal ruim, ou seja, no fundo algo particular, acorrente o outro, o universal humano.
ADORNO.T, Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p66.
ADORNO.T, Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p66.
Mensagem de outro
Algumas frases ditas
Estas mesmas
Escritas nas paredes
Sujas e imundas das ruas
Podem ser de serventia
Não uma filosofia barata
Um filosofema apenas.
Dizia aquela
Com todas as letras
E malditas profecias:
“Recordar é sofrer
Esquecer é viver”
Como que falasse
Justamente a mim.
Sem justificativas
Dizia a mim mesmo
Para que viver
Se o sofrimento
É uma condição
Da própria recordação.
Que serve o sofrimento
Se o esquecimento
Se tornar um acontecimento
Vulgar?
Sofremos porque a dor
Incomoda menos
Muito menos
Do que a indiferença
Diante daquilo que não
Pode ser esquecido.
Estas mesmas
Escritas nas paredes
Sujas e imundas das ruas
Podem ser de serventia
Não uma filosofia barata
Um filosofema apenas.
Dizia aquela
Com todas as letras
E malditas profecias:
“Recordar é sofrer
Esquecer é viver”
Como que falasse
Justamente a mim.
Sem justificativas
Dizia a mim mesmo
Para que viver
Se o sofrimento
É uma condição
Da própria recordação.
Que serve o sofrimento
Se o esquecimento
Se tornar um acontecimento
Vulgar?
Sofremos porque a dor
Incomoda menos
Muito menos
Do que a indiferença
Diante daquilo que não
Pode ser esquecido.
Poesia se torna arte
É isso o que se deve esperar, e até a mais simples reflexão caminha nesse sentido. Pois o teor (Gehalt) de um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, estas só se tornam artísticas quando, justamente em virtude da especificação que adquirem ao ganhar forma estética, conquistam sua participação no universal.
ADORNO.T, Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p.66
ADORNO.T, Teoria Estética, Lisboa: Edições 70, 1982, p.66
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Garota trovão
Aquela sim era uma rapariga teimosa
Que falava contra
Ia de frente
Sem se importar com coisas
E nada a tirava de seu rumo
De palavreado forte
Esgrimava tudo e todos que
Tentavam um ponto
Contra seus atos
Que também não tinham nada de calmos
Alarmantes, estrondosos e repentinos
Trovão! Sim, trovão!
Deveria se chamar trovão
Ou ao menos ganhar um apelido carinhoso
Que se seria aceito, já é outra estória!
Que me leva a escrever
Pergunto-me às vezes
Que motivo tenho
Se motivo realmente tenho
Em compor poesia
Se realmente aquilo que escrevo
Seja poesia
Se não for nenhuma diferença
Pode ser uma palavra diferente
Um mundo diferente
Por estar cansado de viver
Neste mundo tão igual
Em que todos pensam igual
Igualmente nada fazem
Do que o que sempre fizeram
Sem nada muito original.
Queria escrever sobre um mundo
Diferente
Em que todos pudessem viver
E falar
E cantar
E dançar
Sem nada ganhar por isso.
Queria escrever sobre a angústia
Que sinto
De continuamente mastigar a mesma
Massa plástica com gosto de frambroesa.
Queria escrever sobre a tristeza
Dos amigos partindo sem despedida
Das meninas que se tornaram mulheres
E não querem mais brincar
O jogo da amarelinha.
Tenho motivo demais
De continuar escrevendo
Pois um incômodo ligeiro
Incomoda meu pé enfiado
Num sapato com pedra.
Que motivo tenho
Se motivo realmente tenho
Em compor poesia
Se realmente aquilo que escrevo
Seja poesia
Se não for nenhuma diferença
Pode ser uma palavra diferente
Um mundo diferente
Por estar cansado de viver
Neste mundo tão igual
Em que todos pensam igual
Igualmente nada fazem
Do que o que sempre fizeram
Sem nada muito original.
Queria escrever sobre um mundo
Diferente
Em que todos pudessem viver
E falar
E cantar
E dançar
Sem nada ganhar por isso.
Queria escrever sobre a angústia
Que sinto
De continuamente mastigar a mesma
Massa plástica com gosto de frambroesa.
Queria escrever sobre a tristeza
Dos amigos partindo sem despedida
Das meninas que se tornaram mulheres
E não querem mais brincar
O jogo da amarelinha.
Tenho motivo demais
De continuar escrevendo
Pois um incômodo ligeiro
Incomoda meu pé enfiado
Num sapato com pedra.
Um sonho real demais
Alguém me disse
Que uma tristeza sente
Imensa tristeza sempre
Quando o sonho acaba
E vem o dia
E a luz que cega
A janela aberta
Que mais cega do que
Revela
Um mundo totalmente
Às avessas
Daquele mundo
Em que sonhava
Em que vivia livremente
E podia amar livremente
E se sentia gente.
Imensa era a tristeza dela
Só de pensar que era
Tão somente um sonho
Um sonho que não era
Realidade.
Mas esta realidade dura
Engessada e impura
Se põe como a verdade
Em que toda falsidade
Se torna norma comum
Pelo fato dos olhos enxergarem
Pelo fato dos ouvidos ouvirem
Sem saber que nada enxergam
Sem saber que nada ouvem
Que todos os sentidos mais grosseiros
Nada sentem do que um falso sentido.
No sonho
Justamente no sonho
Todas as possibilidades acontecem
Toda ordem é estabelecida
Nem precisa de polícia
Não há batedor de carteira
Todas as mulheres são livres
E suas bocas sedentas de outras bocas
Para alimentarem-se de pão e de amor.
Imensa era a tristeza de saber
Que o sonho acabou?
Mas quem pode afirmar
Que não se trata de outro sonho
O sonho desta vida
De olhos arregalados
E um susto no rosto.
Que uma tristeza sente
Imensa tristeza sempre
Quando o sonho acaba
E vem o dia
E a luz que cega
A janela aberta
Que mais cega do que
Revela
Um mundo totalmente
Às avessas
Daquele mundo
Em que sonhava
Em que vivia livremente
E podia amar livremente
E se sentia gente.
Imensa era a tristeza dela
Só de pensar que era
Tão somente um sonho
Um sonho que não era
Realidade.
Mas esta realidade dura
Engessada e impura
Se põe como a verdade
Em que toda falsidade
Se torna norma comum
Pelo fato dos olhos enxergarem
Pelo fato dos ouvidos ouvirem
Sem saber que nada enxergam
Sem saber que nada ouvem
Que todos os sentidos mais grosseiros
Nada sentem do que um falso sentido.
No sonho
Justamente no sonho
Todas as possibilidades acontecem
Toda ordem é estabelecida
Nem precisa de polícia
Não há batedor de carteira
Todas as mulheres são livres
E suas bocas sedentas de outras bocas
Para alimentarem-se de pão e de amor.
Imensa era a tristeza de saber
Que o sonho acabou?
Mas quem pode afirmar
Que não se trata de outro sonho
O sonho desta vida
De olhos arregalados
E um susto no rosto.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Amor de minha vida
Alguns vivem de amor
Outros vivem de feijão
Outros ainda vivem de filosofia
Pensei que vivia dos três motivos
Nenhum outro haveria de ser
Mas errei.
Vivo agora por causa
De um único ser
Minha vida só se explica
Se existir em minha vida
Losartana Potássica.
Este é o nome
Suave e doce.
Se ela se for
O que será de minha vida?
Não existiria
Só sei que não existiria.
Outros vivem de feijão
Outros ainda vivem de filosofia
Pensei que vivia dos três motivos
Nenhum outro haveria de ser
Mas errei.
Vivo agora por causa
De um único ser
Minha vida só se explica
Se existir em minha vida
Losartana Potássica.
Este é o nome
Suave e doce.
Se ela se for
O que será de minha vida?
Não existiria
Só sei que não existiria.
Como fogo ardo
Fevereiro nunca acaba
Minha febre nunca acaba
Que ferve em minha alma
Como um caldeirão em brasa
Um ferreiro malhando bigorna
De uma barra quase derretendo
Numa alquimia líquida
Sem deixar uma pedra fria
Que logo em fogo em fogo forma.
Como acabar com o fogo
Se de fogo fui formado
Sou o fogo que arde
Na epiderme de um louco
Que bebe poesia
Que come poeira.
Minha febre nunca acaba
Que ferve em minha alma
Como um caldeirão em brasa
Um ferreiro malhando bigorna
De uma barra quase derretendo
Numa alquimia líquida
Sem deixar uma pedra fria
Que logo em fogo em fogo forma.
Como acabar com o fogo
Se de fogo fui formado
Sou o fogo que arde
Na epiderme de um louco
Que bebe poesia
Que come poeira.
Por falar demais
Nem uma palavra a mais
Qualquer palavra que fosse
Nada mais seria do que
Uma grande mentira.
Por isso as palavras
Não são necessárias
Para falar
Nem o olhar é necessário
Para olhar
Não se fala
Não se olha
Para falar diretamente
Para olhar diretamente
No mais profundo abismo
Do entendimento humano
Seria desumano se não fosse
Assim.
Quanto mais tentamos
Uma vez
Duas ou três
Enganar a nós mesmos
Enganar os outros
Logo somos pegos
Cometendo o erro mais
Banal
E só nos resta uma vergonha
De estar sempre rodeando
Em constante redemoinho
Um joão bobo da existência
Pantaleão que desejava
Ser sério
Mas de sério
Nem o amor de Iracema.
Qualquer palavra que fosse
Nada mais seria do que
Uma grande mentira.
Por isso as palavras
Não são necessárias
Para falar
Nem o olhar é necessário
Para olhar
Não se fala
Não se olha
Para falar diretamente
Para olhar diretamente
No mais profundo abismo
Do entendimento humano
Seria desumano se não fosse
Assim.
Quanto mais tentamos
Uma vez
Duas ou três
Enganar a nós mesmos
Enganar os outros
Logo somos pegos
Cometendo o erro mais
Banal
E só nos resta uma vergonha
De estar sempre rodeando
Em constante redemoinho
Um joão bobo da existência
Pantaleão que desejava
Ser sério
Mas de sério
Nem o amor de Iracema.
Na calada da noite
Ao avançar da noite funda
Num vale profundo de todo sono
Sorrateiramente chega
Uma patrulha de assalto
E logo vai carregando na surdina
Tudo o que o mendigo tinha
Suas roupas velhas
Seu colchão e cobertor
Nada mais tinha do que isso
Mas daquele mendigo não levou
A noite quente de verão
O calor da rua que ainda
Esquentava um corpo de ossos
Que doía no chão duro.
Não levou a liberdade
Do mendigo
Nem sua dignidade de ser
Apenas mendigo.
Num vale profundo de todo sono
Sorrateiramente chega
Uma patrulha de assalto
E logo vai carregando na surdina
Tudo o que o mendigo tinha
Suas roupas velhas
Seu colchão e cobertor
Nada mais tinha do que isso
Mas daquele mendigo não levou
A noite quente de verão
O calor da rua que ainda
Esquentava um corpo de ossos
Que doía no chão duro.
Não levou a liberdade
Do mendigo
Nem sua dignidade de ser
Apenas mendigo.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Queria andar de bicicleta
Queria andar de bicicleta
Como todos os outros meninos
Que zombavam de sua cara
Queria andar de bicicleta
Pra poder ir onde pudesse
Pra poder querer ir aonde quisesse
Mas não sabia nem montar
Tanto que, quando foi sozinho
Se esborrachou todo
Com marcas que foram junto com ele
Aonde ele fosse
Só quando já grande
Resolveu se reconciliar
Com a magrela traiçoeira
Que não mantinha equilibrada
A auto-estima do rapaz
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
O motorista amado
Todos os dias
Ela esperava no mesmo ponto
O mesmo ônibus
Com o mesmo motorista
Mas nunca chegou a entrar.
Tinha medo que seu coração
Fosse guiado para longe
E que assim
Nunca encontraria o caminho de volta
E pior ainda
Se a passagem fosse cobrada
Pagando uma viagem desconhecida
Por isso tudo
Resolveu ficar ali
Sentada
Esperando o ônibus passar
E ir embora
Fazendo essa viagem
Só em pensamentos
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Um castelo em ruínas
Quando vejo o castelo em ruínas
Quanta tristeza me traz
Nada mais resta do que
Um passado que deixou de existir.
Em meio aos muros numa noite
Tenebrosa ainda a lua passeia
Revelando sombras
Escondendo formas.
Os guerreiros que lá lutaram
Morreram todos
Com seus corpos cobertos
Por armaduras
Nas cabeças os elmos
Lanças partidas.
Por um momento
Num sonho novamente
De seus túmulos levantam-se
Os guerreiros do passado
E disparam em seus cavalos
Para nunca mais pararem.
Quisera estar entre eles
Trincando nos dentes
Um ramo de hortelã
Ao cruzar defronte
Da Ursa Maior
No céu noturno de fevereiro.
Quanta tristeza me traz
Nada mais resta do que
Um passado que deixou de existir.
Em meio aos muros numa noite
Tenebrosa ainda a lua passeia
Revelando sombras
Escondendo formas.
Os guerreiros que lá lutaram
Morreram todos
Com seus corpos cobertos
Por armaduras
Nas cabeças os elmos
Lanças partidas.
Por um momento
Num sonho novamente
De seus túmulos levantam-se
Os guerreiros do passado
E disparam em seus cavalos
Para nunca mais pararem.
Quisera estar entre eles
Trincando nos dentes
Um ramo de hortelã
Ao cruzar defronte
Da Ursa Maior
No céu noturno de fevereiro.
Sou a contramão da vida
Alguns nasceram para ser
Santo
Outros nem tanto
De santo nada tinham
De um amigo que tinha
De criança queria ser
Santo
Quanta santidade havia
Naquela alma pequenina.
Quanto a mim nada queria
Nem ser santo
Nem ser demônio
Quis ser um dia poeta
Quanto li Manuel Bandeira
E de bandeira levantada
Comecei a compor.
Parei de compor para ganhar
A vida
Perdi toda a vida fazendo asneiras
Do lado de cá
Do lado de lá
Perdi o amor de Maria Luiza
Ganhei o amor de Maria Padilha
E tudo ficou na mesma.
Como invejo meu velho amigo
Que de criança queria ser
Apenas Santo!
Que me resta de mim
Nem poeta fui suficiente
Nem presidente
Sou o lamento que restou
No assobio de um negro
De uma banda de jazz.
Monótono e que faz
Chorar.
Santo
Outros nem tanto
De santo nada tinham
De um amigo que tinha
De criança queria ser
Santo
Quanta santidade havia
Naquela alma pequenina.
Quanto a mim nada queria
Nem ser santo
Nem ser demônio
Quis ser um dia poeta
Quanto li Manuel Bandeira
E de bandeira levantada
Comecei a compor.
Parei de compor para ganhar
A vida
Perdi toda a vida fazendo asneiras
Do lado de cá
Do lado de lá
Perdi o amor de Maria Luiza
Ganhei o amor de Maria Padilha
E tudo ficou na mesma.
Como invejo meu velho amigo
Que de criança queria ser
Apenas Santo!
Que me resta de mim
Nem poeta fui suficiente
Nem presidente
Sou o lamento que restou
No assobio de um negro
De uma banda de jazz.
Monótono e que faz
Chorar.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Filósofo de fila
Embora todos sentem em fila
A numeração não está na ordem
Quanto tempo deve passar
Quanto tempo já passou
Neste lugar onde a lógica...
- Opa, chegou minha vez.
O domador
Se fosse um domador
Seria de palavras
Pois nem o leão, o urso e o macaco
Escapariam
Das frases certeiras
E acrobatas
Disparadas num caderno
Chuva de verão
Tampado pelas gotas
Some o horizonte
-
Canários em bando
Voando em disparada
Onde vão pousar?
-
Ouço as palmas
Das folhas que balançam
Brisa de verão
-
Risada singela
Daquele homem grande
Calor do verão
-
Chuva de verão
Cai rápida e certeira
Embaça meus óculos
-
Chove em fevereiro
Rio de rua é como
Rio de matagal
-
Rio da calçada
Que acumula as folhas
Da chuva rápida
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Sem graça alguma
Para quê usar óculos de grau
Se sem grau algum podemos ver
Numa fresta da janela a claridade
Inundando toda a sala em que
Qualquer lembrança não passa
De uma névoa que se abaixa.
Assim que a poeira abaixa
Vem uma tristeza
Pelo fim da ilusão
Pelo fim de toda verdade.
Atravessa neste momento
Um carro alegórico
Que por fim nada tem
De graça!
Se sem grau algum podemos ver
Numa fresta da janela a claridade
Inundando toda a sala em que
Qualquer lembrança não passa
De uma névoa que se abaixa.
Assim que a poeira abaixa
Vem uma tristeza
Pelo fim da ilusão
Pelo fim de toda verdade.
Atravessa neste momento
Um carro alegórico
Que por fim nada tem
De graça!
Quanto coisa no coração!
Dor, alegria, saudade
Glória, coragem e medo...
Amor, mas amor com saudade
Daqueles que dóem gostoso
Com vontade de chorar escondido,
Por trás de olhos serenos.
Tentar esquecer a saudade, a dor,
O medo, a mágoa, a alegria, o desejo,
Abraço mais ainda todos eles;
Saudades de vocês, dela e dos bichos.
Saudades do medo da altura,
Do medo dos helicópteros em rasante
Do meu medo olhando a calma de vocês,
Sentados, eretos, respirando,
Rochas firmes num rio caudaloso:
As águas passam furiosas à nossa volta,
E eu me seguro como posso!
Virar peixe e nadar e me salvar,
Ou morrer afogado como homem?
Dor, alegria, saudade
Glória, coragem e medo...
Amor, mas amor com saudade
Daqueles que dóem gostoso
Com vontade de chorar escondido,
Por trás de olhos serenos.
Tentar esquecer a saudade, a dor,
O medo, a mágoa, a alegria, o desejo,
Abraço mais ainda todos eles;
Saudades de vocês, dela e dos bichos.
Saudades do medo da altura,
Do medo dos helicópteros em rasante
Do meu medo olhando a calma de vocês,
Sentados, eretos, respirando,
Rochas firmes num rio caudaloso:
As águas passam furiosas à nossa volta,
E eu me seguro como posso!
Virar peixe e nadar e me salvar,
Ou morrer afogado como homem?
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Quero ir para longe
Por um longo tempo
Para o Deserto de Gobi
Pensei me ir para sempre
Levando comigo apenas
A roupa do corpo
Um saco de lembranças
Logo esquecidas
Não para começar
Uma nova vida
Nem uma vida já começada
Mas apenas para sentir
O vento soprando
Por cima da areia
Apagando de vez
Os passos deixados
E alguns tropeços
Amores não realizados
Amores que não passaram
De uma noite de verão!
Para o Deserto de Gobi
Pensei me ir para sempre
Levando comigo apenas
A roupa do corpo
Um saco de lembranças
Logo esquecidas
Não para começar
Uma nova vida
Nem uma vida já começada
Mas apenas para sentir
O vento soprando
Por cima da areia
Apagando de vez
Os passos deixados
E alguns tropeços
Amores não realizados
Amores que não passaram
De uma noite de verão!
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Um rosto duro
Como posso fingir
Um sorriso que deixou
De existir
Se não existe mais motivo
Nem para o sorriso
Nem para o encontro
Que não se repetiu.
Um sorriso que deixou
De existir
Se não existe mais motivo
Nem para o sorriso
Nem para o encontro
Que não se repetiu.
Sino da igrejinha
Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Alguém acaba de nascer
Assim acaba de anunciar
Numa praça foi ao encontro
De Maria das Dores
De Xico dos Prazeres
Que numa vendinha
Vendia velas e doces de abóbora
Para a alegria das crianças
Em dia de Cosme e Damião.
Mas o palhaço de um circo esfarrapado
Que instalou-se num terreno abandonado
Está apaixonado pela dançarina
Que nada quer senão
Um príncipe encantado.
Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Começa o espetáculo!
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Alguém acaba de nascer
Assim acaba de anunciar
Numa praça foi ao encontro
De Maria das Dores
De Xico dos Prazeres
Que numa vendinha
Vendia velas e doces de abóbora
Para a alegria das crianças
Em dia de Cosme e Damião.
Mas o palhaço de um circo esfarrapado
Que instalou-se num terreno abandonado
Está apaixonado pela dançarina
Que nada quer senão
Um príncipe encantado.
Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Começa o espetáculo!
Quando o mundo pára
Ao cair da noite
Um gole apenas de café amargo.
Por cima das ruínas o vento passeia
Sem levantar poeira
E num silêncio demorado
Faz do tempo um tempo parado.
E parados ficamos sem que nada
Mais aconteça.
Acontecimentos que se foram
Confundem-se com acontecimentos
Do agora que nada acontece.
Assim a cidade dorme
Para que a vida aconteça
Nos sonhos em que
O impossível se torna a ordem
Sem pecado algum
Sem culpa
E a sinceridade se torna a ordem
Com toda a verdade
Com toda a disposição.
Um gole apenas de café amargo.
Por cima das ruínas o vento passeia
Sem levantar poeira
E num silêncio demorado
Faz do tempo um tempo parado.
E parados ficamos sem que nada
Mais aconteça.
Acontecimentos que se foram
Confundem-se com acontecimentos
Do agora que nada acontece.
Assim a cidade dorme
Para que a vida aconteça
Nos sonhos em que
O impossível se torna a ordem
Sem pecado algum
Sem culpa
E a sinceridade se torna a ordem
Com toda a verdade
Com toda a disposição.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
a casa do desapego
* última poesia
ou inacabada
Quando você vier à esta casa
vai encontrar o tempo puindo farrapos,
será claro como o vento, será sempre dia e
haverá paredes brancas se desfazendo em cal
Ainda estarei aqui...
Não estarei lá, mas te digo já, pode entrar...
Haverá vultos - impressões, marcas de corpos
- Não se assuste com os tacos gastos
Quando você vier estarei à sua espera e ainda que você me veja terei saído em viagem longa e sob as sombras do nosso jardim de folhas verdes seguindo o caminho sempre longe-longe
vai encontrar o tempo puindo farrapos,
será claro como o vento, será sempre dia e
haverá paredes brancas se desfazendo em cal
Ainda estarei aqui...
Não estarei lá, mas te digo já, pode entrar...
Haverá vultos - impressões, marcas de corpos
- Não se assuste com os tacos gastos
Quando você vier estarei à sua espera e ainda que você me veja terei saído em viagem longa e sob as sombras do nosso jardim de folhas verdes seguindo o caminho sempre longe-longe
Sem cigarra
Mesmo no calor
Essa noite é sem cigarra
Que tanto trabalhou ontem
Hoje trocou seu turno
Com o guarda noturno
Que continuou a zumbizar
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