sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Um rosto duro

Como posso fingir
Um sorriso que deixou
De existir
Se não existe mais motivo
Nem para o sorriso
Nem para o encontro
Que não se repetiu.

Sino da igrejinha

Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Alguém acaba de nascer
Assim acaba de anunciar
Numa praça foi ao encontro
De Maria das Dores
De Xico dos Prazeres
Que numa vendinha
Vendia velas e doces de abóbora
Para a alegria das crianças
Em dia de Cosme e Damião.

Mas o palhaço de um circo esfarrapado
Que instalou-se num terreno abandonado
Está apaixonado pela dançarina
Que nada quer senão
Um príncipe encantado.

Quando toca o sino
Da capela da Vila Esperança
Blém... blém... blém...
Começa o espetáculo!

Quando o mundo pára

Ao cair da noite
Um gole apenas de café amargo.
Por cima das ruínas o vento passeia
Sem levantar poeira
E num silêncio demorado
Faz do tempo um tempo parado.
E parados ficamos sem que nada
Mais aconteça.
Acontecimentos que se foram
Confundem-se com acontecimentos
Do agora que nada acontece.
Assim a cidade dorme
Para que a vida aconteça
Nos sonhos em que
O impossível se torna a ordem
Sem pecado algum
Sem culpa
E a sinceridade se torna a ordem
Com toda a verdade
Com toda a disposição.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

a casa do desapego
* última poesia
ou inacabada

Quando você vier à esta casa
vai encontrar o tempo puindo farrapos,
será claro como o vento, será sempre dia e
haverá paredes brancas se desfazendo em cal

Ainda estarei aqui...

Não estarei lá, mas te digo já, pode entrar...
Haverá vultos - impressões, marcas de corpos
- Não se assuste com os tacos gastos

Quando você vier estarei à sua espera e ainda que você me veja terei saído em viagem longa e sob as sombras do nosso jardim de folhas verdes seguindo o caminho sempre longe-longe

Sem cigarra

Mesmo no calor
Essa noite é sem cigarra
Que tanto trabalhou ontem
Hoje trocou seu turno
Com o guarda noturno
Que continuou a zumbizar

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Olhos sem colírio

Um olhar perdido no tempo
Isento de qualquer brilho
Não olha para lugar algum.

Não olha para poder ver
Aquelas formas abissais
Que habitam a casa vizinha
Mais ao fundo do corredor.

Acabou a música

Houve um dia em que
Na mesma dança dançava
Um casal que não se deixavam
Um minuto sequer
Não perdendo sequer
Um volteio
Um rodopio
Até que um dia
A corda quebrou
E a caixinha de música
Parou de funcionar.

Nunca mais dançaram
E depois de algum tempo
Largada num canto qualquer
Acabou no esquecimento.
Cigarra canta
Como geladeira velha
Soando no verão

-

Rosa flor
Com pássaro de madeira
Disputa espaço

domingo, 30 de janeiro de 2011

Trigos ressecados

Pelos trigais amarelados
Ao sabor do vento
Os ramos deitam num instante.

Os ramos que colhi
Nunca a ti entreguei
Secaram-se completamente
Num vaso abandonado
Num canto da estante.

Vida fingida

Os olhos que não se cruzam
Cruzaram um dia!
Os olhos que não se cruzam
Fingem apenas!

A vida é todo fingimento
Pelo medo de que
Numa esquina mais escura
Um ladrão sorrateiro
Uma mulher da lua
Roube o coração.

Quisera ser um esquecido

Como invejo o amigo que esquece
Que pode dormir que logo esquece
Que vive seu dia e tão logo esquece
Sem que nenhum fantasma da memória
Venha a lhe perturbar o sono
Venha a lhe perturbar o dia
Que cada sofrimento sentido
Que de imediato é esquecido.

Meu sofrimento é outro:
É que não esqueço!
Ainda que tente a todo custo
É que não esqueço!

As tardes mais escuras

Nunca mais seus olhos de vidro
Brilharam novamente
Assim nenhuma luz refletiu mais
E sem luz
Em escuridão completa ficou
As plantas deixaram de crescer
As flores deixaram de perfumar
Mas ainda assim a vida continuou
Sem a presença da bailarina
Que dançava uma dança inventada
Naquela hora
E a música inventada numa gaita
Inflada nos pulmões.
Os palhaços perderam a graça
E tristes encolheram-se num canto
Mas ainda assim a vida continuou
Pois o artista equilibrista não perde a pose
E na corda bamba da vida balança
O suficiente para despertar o riso
De um menino que não se retirou
De uma platéia cansada de sofrer.

Os males do Amor

Um cão de três cabeças
Guarda a porta de Hades
Para que nenhum demônio
Fuja e ponha o mundo
De ponta cabeça.

Um dia a corrente rebentou
E Cérbero se pôs a vagar
Pelas noites e uivar para a lua.
Todo o Terror debandou-se afora
E todo o Amor se pôs a corromper
Em completa liberdade os homens sedentos
De Amor pelas mulheres sedentas também.
Embriagaram-se pelas vinhas de Dioniso
Ao som melífluo da flauta de Pã
Enquanto as bacantes dançavam
Em êxtase e o mundo foi povoado.

Mas os deuses temerem
E mandaram lanceiros para
Por ferros em Terror
E Amor também sucumbiu
E Loucura também foi presa
Toda Música parou de tocar
Sem dança alguma
As dançarinas se retiraram
E novamente a ordem prevaleceu.
Cérbero capturado foi posto em correntes
Em cravos fincados numa rocha
Vulcânica selada pela lava seca.

Nunca mais o Amor habitou a Terra
Nem o Céu
Pois Amor foi enclausurado
Em Hades
Para que a Loucura não mais
Perdurasse em toda a Terra.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Marcada a ferro e ponta

Aquelas meninas fora de casa
Não moravam com seus pais
Se tinham pais não se sabia
O que tinham feito não se sabia
Estavam todas isoladas
Tinham no corpo uma marca
Uma tatuagem funda
Que nunca mais seria apagada
Uma tatuagem funda
De uma carência sentida
Marcada na brancura da pele
Que não poderia ser mais escondida

O ser da salvação

Mil sãos os braços de Kannon
Para mil seres salvar
Minha imagem de Kannon
Tem apenas dois braços
E apenas uma mão
Para salvar desta vez
Mil e um seres!

Sinto-me como a própria
Kannon de uma mão só.

Jogar para perder

Jogo da amarelinha
Nunca joguei
Jogo da amarelinha
Que continuo jogando
Jogar para ganhar
Não mais
Apenas jogamos
E perdemos
E continuamos jogando
E ganhamos
Para continuar jogando
E perdemos
Para continuar jogando
E perdemos
Mais perdemos que ganhamos
Mas ainda assim
Respiramos
E jogamos numa perna só
Trocamos de perna
Cansamos
Caímos e nos levantamos
Caímos no inferno
E perdemos
Chega um tempo
Em que perder ou ganhar
Não importa mais
Só queremos jogar
Só queremos viver
Só queremos amar
Sem ser correspondido
Mas continuamos
Tentando!

Flores secas

Rosas vermelhas ficaram
De uma vez secando
Rosas que não mandarei
A qualquer uma que seja
Portadora de um sentimento
Insano.
Rosas que ficaram na memória
Que cada vez mais vai
Se enevoando.

Janeiro de nossas vidas

Apenas neste momento
O som cortante de uma serra
Que corta uma tábua de construção
E faz esticar ainda mais
Janeiro que insiste em ficar
Nestes dias passageiros
Em que as folhas de verão
Despencam cada vez mais
Pelas ruas da Consolação
Nem os garis trabalharam tanto
Que suas vassouras desgastaram-se
De tanto serem esfregadas
No piche das ruas asfaltadas
Em tamanha desolação.
Ainda janeiro não se foi
Não sinto saudades
Nem sinto o vapor em meu rosto
Mais
De uma época em que
Quase o tempo parou!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Silêncio ao cair da noite

Pelas ruas escuras
Os mendigos silenciam-se
Sem que ninguém se dê conta disso
Nem se importam com isso
Como que isso fosse realmente
Importante?

Por isso o que mais choca
Não é o mendigo
Mas o silêncio do mendigo
Que nada mais quer
Senão ficar pela noite toda
Em completo silêncio
Por isso o que mais choca
Neste poeta que toca
Não é o mendigo
Nem o silêncio do mendigo
É a ausência de uma palavra
Que pudesse expressar
Um pouco que fosse
O próprio silêncio
Que nada mais precisa
Senão calar-se para poder
Dizer algo que fosse
Verdadeiramente
Uma verdade sem engano.

Um choro que não choro mais

Ainda em meus ouvidos
Ecoa cortante
O choro das cigarras
Ecoa cortante
O choro das mulheres solitárias.

Mas quanto a mim
Por muito parei de chorar
E uma tristeza à toa
Visita-me sem convite algum
E se retira também
Quando lhe apetece
E se vai após tomar
O chá da tarde!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vejo da janela
A cidade com biscoitos
Férias de verão

-

Noite se prolonga
Entre passado e presente
Amigos de escola

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Saudade

Tempo que foi e ainda é
Saudade que é só depois que foi...
Pensar, e se não pensar também:
Saudade ainda assim.
Faz já bastante tempo,
Ilusão de agora há pouco...
Tempo passado, e saudade tão viva...
As vozes, os risos, as palavras, o canto,
Tudo tão vivo em meus ouvidos, olhos, nariz,
Tudo tão... tão... vazio. Sem formas?
Sim.
Sem olhos, ouvidos, nariz e tudo o mais.
Apenas ilusão, a ilusão da lembrança.
Sentado, no exílio, mas sentado.
Bato os sinos e os tambores numa floresta
Que som eles fazem?
Não sei, não ouço.
Queimo incensos
Que cheiro tem?
Não sei, não sinto.
Acendo velas
Qual é a sua cor, a sua luz?
Não sei, não vejo.
Mas forma é vazio,
E vazio é forma,
Gashô!

Chuva

Eu fecho as janelas
E mesmo assim
A chuva não para de cair!

As janelas se fecham
Os pingos morrem lá fora
O trem não para

-

Acima da chuva
Os raios cortam o céu
Abaixo da chuva

-

Na mesma chuva
Fazia dia e noite
Quantos trovões!

domingo, 23 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Crescem as unhas
E plantas nas paredes
Dia de verão

-

Corto as unhas
E a plantas nas paredes
Chuva de verão

-

Mãe, filho e gato
No caminho que se cruzam
Noite de verão

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pernas inquietas
E com fones nos ouvidos
Metrô a noite
Tortuosa é a árvore
Como plantada invertida
Tarde de verão
Céu de nuvens cinza
Sento no banco azul
Passado sem carro
Galhos na janela
Como tambor afinado
Ônibus vazio

Velho lobo do mar

Me lembro de quando era menino
E via as ondas no mar
Que desciam e subiam sem parar
Incansavelmente
E incansavelmente
Não parava de me perguntar:
- Por que é que não param de dançar?
- Não se cansam de pular?

Hoje, velho
As ondas estão nas rugas de meu rosto
Impossibilitado de andar
Não vejo mais o mar
E sei por que nunca para de dançar

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Com o Sol morrendo
Morre mais este homem
Voa o pardal

Iki

Iki dizem todos
Depois da corda
E despertam todos
Em alegria

Dale chico!

Calma! Calma!
No se puedes caminar!
El tren estás lleno
Y La puerta se cerrará!

Castelo de cristal

Todo homem
Constrói seu castelo
Cristalizando sangue, suor e lágrimas
Que se derrete num simples dia de verão

Quando o homem irá dar-se conta
Que a simples choupana de palha
É o seu melhor abrigo para a chuva?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Lição de poesia

Por que compor poemas
Que falam apenas da beleza
Escamoteando debaixo da mesa
Um suposto monstrinho de borracha.
Se para que a luz possa surgir
Também há de surgir a sombra
E todas as criaturas sinistras
E demais imperfeitas.
Um poema pode ser
Um lamento
Uma dor na ferida
Desilusão nesta vida
Pode ser o remédio que cura
Amarga poção
Que desce queimando
Garganta profunda.

Um poema não precisa
Ser bom
Sê bom em sua construção
Deve ser transparente
E somar todos os sentimentos
Daqueles que choram
Um desesperado
Consolo que nunca chega.

Em silêncio padeço

Nenhuma explicação é necessária
Quando o coração é grande
Assim as palavras perdem sentido
Como que atiradas ao vento
Sem nenhum proveito
Mas ainda que nada se fale
No silêncio da palavra não dita
Repousa uma pergunta
Que não cessa de perguntar
Cuja resposta silencia-se
Nos lábios que deixaram de falar.

Fuga no bailado

Chora por mim
Argentina!
Que a dama que baila
Tenta fugir dos braços meus
Que rodopia em seus sapatos
De bico fino.
Seu vestido colado ao corpo
Delgado como uma gazela
De rosto pálido e boca carmim

Chora por mim
Argentina!
Que a miséria te persegue
No subúrbio de Buenos Aires
De jovens enlouquecidos
Que não trabalham
Que não estudam
Que morrem entorpecidos
Da fumaça ácida dos cigarrilhos

Chora por mim
Argentina!
Porque o tempo passou
E não há mais motivo
Para sorrir.

Mas continua bailando
Para espantar o medo
Dos fantasmas do passado
Que novamente assombram
Os transeuntes de Corrientes.

Quando inútil se torna

Como que o tempo parasse
Por algum tempo
E nada mais acontecesse
Em nossas vidas inúteis
Que fosse realmente
De alguma utilidade.
Que futilidade seria
Empinar quadrados
Senão fosse apenas
Por divertimento.
Se um dia a vida
Servisse para alguma
Causa útil
Inútil seria compor
Poesias
Que de útil nada
Teria.
Se as revoluções
Fossem úteis
Não redundariam
Em fracassos.
Se o amor tivesse
Algo de útil
Não seria amor.
Nem a felicidade
Seria possível
Que de palavra bonita
Não passa de um projeto
Que não se realiza.

Mas infinitamente
Se vive
Na mais infinita
Inutilidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sem nada mais segurar

Em cada abandono
Mais a vida se amplia
Em cujo chão que piso
Não preciso de apoio.

Só preciso dos olhos largos
Da mulher que veste branco
A me dar o beijo frio
Em cada despedida.

Rodopia a dançarina
Numa caixinha de música
Que pára de rodopiar
Quando acaba a corda.

Para que chorar
A fuga do canarinho
Se nada pode ser
Definidamente prisioneiro.

Antes do temporal
Recolho nas mãos
As margaridinhas
De centro amarelado.

Passou Jurema
Passou Iracema
A vida passou...

O herói de minha vida

Nenhum drama se compara
Com o drama que acontece
Na vida irreal das aparências
Das formas e conteúdos
De uma vida vivida agora!

Só resta a beleza
Das contradições e sonhos roubados
De um herói que morre
No final.

Acima da nuvens

Mais vale um sorriso
Diante das intempéries
De um amor que se realiza
Apenas
Bem acima das nuvens
Onde o vento é mais ligeiro
Mais azul é o oxigênio
Mais fluido o pensamento.

Nas ondas mais baixas
Só se for um amor
Ainda impregnado
Da lama de um pântano
Que nunca deixa de produzir
Uma febre insana.

Mais vale um sorriso!

Felicidade fugidia

Felicidade é uma nuvem que passa
Passageira de um rabo de vento
Ligeiro às vezes
Demorado às vezes
Às vezes nem percebido
Perseguido e não encontrado
Fugidio diante de nossa vontade
De detê-la demoradamente
Em nossas mãos.

Mas o que as minhas mãos
Seguram?
Nem mesmo o vento!

Um amor de verdade

Dos amores sonhados
Sonhou todos
E quando acordou
Nada mais havia
Senão uma saudade
Imensa de uma felicidade
Que apenas foi sonhada.

Não queira mais sonhar
Fincou os pés no chão
E rogou:
Quero um amor de verdade
Pode ser gordo
Pode ser calvo
Pode ser feio
Pode ser aloprado.

Depois que este amor
Apareceu
Parou de sonhar:
Não se arrumou mais
E passou a viver
Com aquele como fosse
O mais esperado
Dos príncipes encantados.

Ao soprar do vento

Um guizo pendurado na janela
Anuncia:
Kin... kin...

E quanto mais o vento sopra
Fica no ouvido aquele som
Sempre igual
Sem nada inovar
Sem desanimar
Insistentemente
De maneira agradável
De imensa simplicidade
Uma música que nunca morre
Seja na tristeza
Seja na alegria
Seja no encontro
Seja na despedida
Toda vez que soprar o vento

Um guizo pendurado na janela
Anuncia:
Kin... kin...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A tatuagem

Uma tatuagem não pode ser
Removida sem causar cicatrizes.
Uma tatuagem envelhece
Cada vez mais na pele
Impregnada de sujeira
Que por fim definha
E toda ilustração
Antes bela cada vez mais
Velha há de se tornar.

O esquecimento

Acontecimentos que quero
Esquecer de uma só vez.
Só fica a minha vontade
Sem importância alguma
Se a vontade do esquecimento
É a de não ser esquecido.

Chove lá dentro

Nas águas que descem
Quero me afogar
Chuva que chove devagar
Além das persianas de minha janela
Além das pestanas de minha face
Assim serei liquefeito
Desmanchando toda mágoa
Que carrego numa bolsa abaixo
Dos olhos em que navego.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Os demônios vulcânicos que não passam

Como posso me livrar dos demônios
Do passado
Se constantemente surgem do nada
Com suas caras maravilhosas
Bovinas e transparentes como vidro
Refletindo a minha cara
Refletindo todas caras que passaram
Pela minha vida
Eu também a vida de todas elas
Com toda insanidade do fogo
De um vulcão derramando pela borda
Uma lava que a tudo transforma.

Certa vez visitei o vulcão de Asso
No arquipélago japonês
Queimava enxofre que nos pulmões
Queimava mais ainda
E lacrimejava as pupilas vermelhas
E vi o inferno fervendo abaixo
Em rios que a tudo queimava
E queimou a minha alma
Mas nunca o vulcão explodia
Mas fervia sem que ninguém
Pudesse ver
Por um momento pensei:
Sou vulcão que vive
Em terras em que não nasci
Sou o vulcão que internamente
Um caldeirão cheio de metal derretido
Não pode mais esfriar.
Esta é minha condição
Combustível desta existência
Que acende uma lamparina
Perdida na escuridão.
Mas não clareia tudo
Esconde mais do que revela
E nas sombras se mostra
Toda a beleza e feiúra.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Começar de novo

Pouco me importa se as ruas
Estão sujas
Se meus sapatos furaram
Se minhas calças puíram
Nada mais me importa
Realmente
Senão uma barra de chocolate
Amargo
Para iniciar uma caminhada nova
Não muito diferente da antiga
Em repetidos tropeços
Em volteios repetidos
Como redemoinho
Um biruta ao sabor do vento.

A linguagem do silêncio

Nenhuma afirmativa pode ser
Conclusiva
Pois nada explica
Aquilo que explicação não havia.
Se explicação fosse necessária
Se alguma palavra dita fosse possível
Ainda assim
Nada se comparava com o silêncio
Que diz tudo
Sem palavra alguma.

Há um tempo que
Por uma necessidade desenfreada
As palavras dizem a verdade
Que somente as palavras podem
Dizer.

Há um tempo que
Nenhuma palavra mais serve
Para compor um sentimento
Pois sentimento algum cabe
Dentro de uma palavra.

Quando as palavras cessarem
De seus significados mais lestos
Então somente os sentimentos
Mais verdadeiros do que qualquer
Palavra reinarão entre as partes.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Olhos que acendiam

Aqueles imensos olhos
deixaram de brilhar
para que pudessem ver
sem os colírios da ilusão.
Meus olhos um tanto pequenos
não precisam de colírio
para ver na ilusão
com tamanho brilho.
Faíscam a cada momento
por desespero de um amor
perdido.

Poema para ser esquecido

Compor poema
só se for nas areias
de uma praia solitária
só para as ostras e caranguejos
apagado num instante
pelas ondas em rebentação.

Um poema
por mais belo que seja
pudesse ser apagado em seguida
para que a vida desse
vida em cada despedida.

Nenhum poema
deve ser declamado
mais de uma vez
Nenhum poema
deve ser lido
mais de uma vez
para que outro poema
seja em seguida.
Um poema só se eterniza
no momento que é escrito.
Se o poema é de Eliza
que Eliza seja eterna
nas mãos do poeta.
Mas se for de Fabiana
de Ana
de Marialva
ou Suzana pouco importa
o nome
o sobrenome
que seja aquela que no poema
se faz.

Letargia dos dias sem fim

Com imensa letargia os dias avançam
nos primeiros dias de janeiro.
Por algum tempo os ventos da calmaria
não fazem mover moinhos.

Diante de mim uma imagem de Buda
calmamente me vislumbra
num sorriso que acalma e incomoda.
Sorriso de bronze que permanece
pela eternidade assombrando.
Nada mais importa neste momento
se vier a morte que seja branda
como a poeira que se assenta e levanta
pelo chão de madeira carcomida.

Os amigos que tive ontem
seguiram seus caminhos
Os amores que tive ontem
distanciados em gelo ficaram
Nem mesmo uma lembrança
restou senão as ruínas de um terremoto
que continua causando sinistros.

Por um momento apenas o silêncio
das paredes impregnadas de fuligens
dos incêndios que trouxeram abaixo
os sentimentos mais baixos da esperança
perdida numa batalha sem causa alguma.
Ainda que nenhuma causa seja aparente
o corpo dolorido pelas chuvas da estação
quer descanso numa cabana solitária
distante das vozes atravessadas
das baitacas em festiva festança.

Assim que a noite se debruça
as estrelas são companheiras
faiscando uma energia que não acende toda
a imensidão deste lençol em furos.
Assim beberei da lua todo seu mel
e embriagar-me-ei como um tolo
que satisfaz ao rir de si.
Dos vapores que se assentam farei meu leito
para acalentar em sonhos
esta vontade imensa de continuar sonhando
antes que lá adiante ofusque uma luz incômoda
do sol que mais engana
do que as noites de insônia.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O homem que carregava

Subia, todo dia
Após descer
Naquela melancolia
Carregava aquele carro imenso
E me dava impressão que era para se comparar
Ao cristo salvador
Que também carregou o homem

Mas aquele homem que não carregava homem
Descia e subia todo dia
Carregando metal
Papelão, jornal
Sem distinção de raça, credo
Só carregava
Subindo a ladeira
Com a esperança de um dia
Se salvar e salvar à todos

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Tudo se tornou metal

Um sininho tocava
Metalicamente
Blem blem...

Metalicamente
Os corpos se mexiam.

Metalicamente
Se vivia nestes tempos.

Tempos metálicos
Em que não se sofria mais
Pois os corações metálicos
Estavam protegidos
Dos agentes externos
Que internamente provocariam
Ferrugens.

Assim todos estavam salvos
Neste mundo metálico.
Mas o que poderia nos salvar
Do metal que tornou nosso coração?

Talvez um pouco de oxidação.

Um inquietante calor

Trata-se apenas de inquietações
Que corrói fundo este corpo em brasa
Uma necessidade de inundar com suas águas
As planícies de um arrozal em pencas
Que diante do sol começa a amarelar.

Não se pode aquietar
As lavas que vertem das paredes
De um vulcão prestes
A qualquer momento
Tingir o céu de rubra cor
E o azul será tingido
Em infinitas pinceladas.

Sou uma montanha que finge
Que dorme
Que dorme também
Toda minha dor.

O bloco de notas

O “bloco de notas” é uma das condições essenciais para fazer qualquer coisa de válido.
Habitualmente, este bloco só é mencionado depois da morte do poeta; durante anos arrasta-se no pó, é publicado com as obras póstumas e muito depois das “obras terminadas”. Mas para o escritor, esse bloco é tudo.

MAIAKOVSKI. Vladimir, Poética – como fazer versos, São Paulo: Global Editora, 1991, pp.24,25

Sensation

Je ne parlerai pas
Je ne penserai rien.
Mais un amour immense
Entrera dans mon âme.

Arthur Rimbaud

Sonhos da ascensorista

Em carreira meteórica subiu na vida
Todo dia subia trinta e três andares
Dentro de uma caixa metálica
Anunciando cada andar que parava
Serviços médicos e dentários
Salas de advogados e produtores de imagem
Imagine aquela mulher vinda do sertão
Acabou por conseguir uma vaga
De ascensorista de um prédio na Paulista
Como uma comissária de bordo
Uniforme completo azul celeste
E lenço amarrado no pescoço
Não usava luvas
Os olhos levemente pintados a rímel
Uma boca suavemente cor de rosa
Sua pele queimada pelo sol
De outras terras dos canaviais
Quando terminava o turno da manhã
Retornava para casa
Mais de duas horas de coletivo
Com baldeação em Santo Amaro
Levando no rosto o sorriso
De serviço realizado
Quando tirava férias queria voltar logo
Voltar a subir rapidamente
Para o ponto mais alto
E de lá vislumbrar a cidade toda
Que era sua
Um dia teve que se aposentar
Nunca mais tomou um elevador
Nunca mais retornou onde trabalhou
Quase a metade de sua vida
Nada mais sabia fazer do que
Subir os trinta e três andares
Num passe de mágica
Num aperto de botões
E comandar a vida de todos
Passageiros
Numa viagem de primeira classe
Por alguns minutos
Alguns minutos suficientes
Para fazer dela
A dona do destino
Para o ponto mais alto
Para o ponto mais baixo
Subindo e descendo.
Um dia deixou de subir
E em seu lugar apresentou
Sua filha mais nova
Que passou a fazer o mesmo
Que sua mãe fazia.
Subir na vida!

As prisões de janeiro

Algo de estranho acontece em janeiro
Algo de totalmente inerte em corpo fechado
Nem chega a incomodar a chuva
Nem o vento sopra mais como antes
E o tempo fechado dorme pela tarde adentro.

Uma incerteza ainda acontece esparramando
Caudalosamente pelas ruas uma bruma quente
De um sopro que vem de dentro
Das frinchas de um mármore eterno
Que resiste a qualquer molde do formão.

Com lentidão a roda do moinho se move
No embate das serrilhadas roldanas
Rebentando as nozes de suas carapaças
Duras como as cascas que nos envolve.

Por um momento o ser da morte
Descansa com a esperança de novamente
Repetir o movimento de sempre
Sem hesitação de trás para frente.

Sem conhecer a liberdade
Apenas continua a esmagar
Com os pés nus a uva do tempo.

Sem conhecer a liberdade
Esmaga com os próprios pés
Qualquer possibilidade de amar.

Com o tempo que passa
Cada vez mais resistentes são
As correntes presas nos pés e nas mãos.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A verdade do poema

Que diferença pode haver
Entre o poema escrito neste momento
E a vida vivida no instante do agora?
Se a vida é vivida dentro do poema
Que me importa aquilo que se forma
Fora dele.
Se realmente se escreve poema
Sem nenhum conteúdo de vida
Deixa de ser poema.
Se um poeta não vive o poema escrito
Deixa de viver a vida vivida
Pois poema não prescreve da vida
E viver poeticamente
Viver intensamente a vida presente
Com sua mais extrema contradição
De uma luz que pisca na escuridão
De uma beleza na maior das feiúras
De uma tristeza imensa
Que jaz diante de uma cabana
Perdida no deserto de nossa existência.
Compor é viver
Somente os poetas podem falar da vida
Pois viveram suficientemente todas as dores
Dos desencontros das almas queridas
Mas ainda podem sorrir
De pura ironia
Seu próprio desprezo pela seriedade
De uma vida vivida pela metade.

Um caso de amor

Desde que a conheci
Nunca mais ela me deixou
Meio tímida foi chegando
E de maneira singela
Estendeu seus braços de polvos
Sufocando-me de tamanha emoção
Nunca conheci ninguém igual.
Chama-se Hipertensão.
Conheci muitas
Algumas foram especiais
Algumas foram esquecidas
Algumas tentei esquecer
Foi em vão
Mas Hipertensão
Esta veio para ficar.
Ainda que me esqueça dela
De mim ela mais se esquecerá!

O cigano caminha

Pudesse ser como um cigano
Sem amarras com nenhum ser humano
Como este que me encontro
Pelas ruas de meu bairro.

Nem seu nome sei
Nem sei onde vive

Mas por onde passa brilha
Seus colares de matéria plástica
Seus óculos sem lente alguma
Seus lenços coloridos.

Um demônio errante caminha
Um santo também caminha
Uma freira
Uma faxineira.

Mas por onde passa brilha
Meu amigo cigano!

O esquecimento do eu

O instante do auto-esquecimento, no qual o sujeito submerge na linguagem, não consiste no sacrifício do sujeito ao Ser. Não é um instante de violência, nem sequer de violência contra o sujeito, mas um instante de reconciliação: a linguagem fala por si mesma apesar quando deixa de falar como algo alheio e se torna a própria voz do sujeito. Onde o eu se esquece na linguagem, ali ele está inteiramente presente; senão a linguagem, convertida em abracadabra sacralizado, sucumbira à reificação, como ocorre no discurso comunicativo.

ADORNO. Theodor, Notas de Literatura I, São Paulo: Livraria Duas Cidades, Editora 34, 2008, p. 75

Sem mudança alguma

Novos tempos chegam
Ao alvorecer do Ano Novo
Nada de novo mais
Do que um dia após o outro.
Naquele vão do viaduto
Naquele mesmo canto
Um casal de mendigos
Que sempre morou
No mesmo canto
Continuam morando
Como nada realmente
Mudasse.

Um casal de mendigos
Que sempre morou...

Retorno à terra natal

Quando retorno ao passado
Retorno à minha terra natal
Em que não reconheço mais
As ruas em que andei a procura
De qualquer sinal de minha existência
Senão uma rua que não existe mais
De uma poeira que foi varrida
De uma memória esquecida
Por não fazer história.
Somente meus pais me esperam
Com saudade do filho que se foi
Se fazer em outras terras
Apenas o aconchego de seus corpos
Esmaecidos pelo tempo
Duros o ano inteiro
Me abrigam por um momento.
Quando o Ano Novo se faz
É tempo de se recolher
Nos porões profundos da memória
Tão profundos que nenhum luz
Pode se encontrada.
E como é agradável
Fechar os olhos e ver.

Rodopiando na roda-gigante

Num desses parques de diversão
Certa vez vi um na Amazônia
De minha infância havia muitos
De minha cidade natal
Havia lá num canto a roda-gigante
Nem tão grande assim
Sem nenhum charme de outrora
Sem charme algum
Velho e carcomido pelo sal
Da maresia que vinha com o vento
Desta vez era véspera de ano novo
Não uma data qualquer
Mas fiquei com uma vontade imensa
Na roda-gigante girar por um instante
Um pouco que fosse seria o suficiente
Fiquei de longe espreitando
Se ia
Se não ia
Rodar na roda-gigante que lá de cima
Enxergaria toda a cidade e o mar e as montanhas
Poderia ver o mundo de uma outra forma
Em panorâmica que jamais se veria
Se não fosse a mágica da roda-gigante.
Mas meus pés fincaram raízes
Nenhum avanço se deu
Em direção da roda-gigante
Que rodava
Que rodava
Os olhos que rodavam
Sempre em redemoinho
Num sonho rodava
Por um momento rodava
Por uma vida inteira rodava
Como que nunca mais fosse parar
Rodava como a própria vida rodava
E como invejei aqueles que rodavam
Na roda-gigante
Entorpecidos que estavam
Por uma felicidade momentânea
Por um momento eternizado
No rodar apenas
Da roda-gigante.
Quando parou ainda a felicidade
Existia no rosto daquele homem
Que rodou sem medo algum de enlouquecer
No rodar apenas
Da roda-gigante.
Daquele que ficou fora
Com medo de rodar
Rodopiava como pudesse ficar
Fora da roda-gigante.
E rodopiou junto
à roda-gigante.
Os rojões explodiam anunciando
Ano Novo!
Tudo mudou
Ao rodar apenas
Da roda-gigante.

Uma vida passageira

Tudo passa
O ano velho passa
Uma mulher gorda passa
Uma mulher magra passa
Todos os sonhos passam
Menos passa esta dor no pé direito
Que me visita três vezes por ano
E deixa um rastro de um passo
Arrastado num chinelo quase sem sola
Se a uva passa fosse apenas passado
O que passa neste coração maltrapilho
Que nada mais aprendeu
Nesta vida revirada e mal vivida
Que passou num instante...
Por isso gostamos dos filmes antigos
Daqueles em que as loiras falsas
São mais verdadeiras enfiadas
Em suas saias rodadas.
Um filme passa
E sentimo-nos felizes
Como se passasse ainda diante
De nossos olhos extasiados
Com vontade de abarcar o mundo
De um sonho que resiste em passar inteiro
Que nunca termina
De um filme
Que nunca termina.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A história de meia vida

A cada dia de vida João colocava um tijolo no monte
Sem deixar passar um dia se quer
Os tijolos foram amontoados
E como não podia ser diferente
Um dia ele parou e reparou
Que na sua frente havia erguido um castelo

Chegava a ser assustador
João tinha medo de sua própria criação
De entrar e não saber o que encontrar
De deixar tudo o que conhecia do lado de fora
E passar pela porta sem ao menos olhar para trás

De forma tão repentina
Aquele sonho se transformou em realidade
E logo em incertezas
Que o apavoravam

Mas apesar disso
Muito estava em jogo
Não só para ele, mas por todos

Então, sem estremecer
Muito menos exitar

João se foi

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Acabou

Os livros se esgotaram
As palestras se encerraram
Os professores foram demitidos
As escolas fecharam
Os cursos foram concluídos
E os debates se calaram

Não há mais lugar para eu buscar
Não há mais lugar para eu fugir
Do real aprendizado
sentado

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Varais coloridos

Acima daquela linha da cidade
As pessoas penduram suas roupas
Coloridas
E outras descoloradas
Num varal em frente das casas
Sem pudor algum
Como tudo fosse permitido
Por um momento pensei
Usar roupas coloridas
Não ficaram bem!
Nunca fiz parte daquele mundo
Foi tão somente um delírio
Pois não posso ser alguém
Com camisas amarelas
Calças azuis.

Minhas roupas sempre foram
Negras.

Nada mais sobrou da areia

Tudo passou como tempestade
Deixando pelo caminho coqueiros pelo chão
Tudo foi destruição
De um castelo de areia
Que parecia indestrutível
Uma fortaleza em que o menino
Construiu com outras mãos
Pequenas de uma menina.

Nada mais sobrou
E a menina se foi
Brincar em outras praias.

Nunca mais se ouviu falar dela
Mas o menino continua ainda
Construindo castelos de areia
Mesmo sabendo que a qualquer momento
Vem uma onda maior
E nada mais sobrará
Nenhum castelo
Somente areia
Como sempre foi...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um sorriso endurecido

Quando o sorriso não sai
Senão uma expressão apenas
De uma dor escondida por detrás
De uma face que não esconde mais
Tamanho desalento
Continuamos fazendo de conta
Que nada mais nos afeta realmente
Que nada tem importância mais
Que tudo mais não passa de passatempo
E passado para trás já fomos
Com outros igualmente perdedores.

Se ainda assim o sorriso surgir
Será menos de alegria
Será de saudade de um dia
Ter conhecido Mariana.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A chuva

A chuva é o choro do mundo
Choros de alegria e tristeza
Que alimentam os vegetais
E banham os animais

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O diabo e o sexo

foto: Bruno Mitih

Casa de Moacir, artista nativo da cidade de São Jorge, interior de Goiás. Tem como temas centrais religião, sexo e demônios.

Pessach

O que se passa
Quando aquilo que passa
Passa sem pedir passagem;
Passa sem sobre passo
Sobre um passageiro
Que, de tantos passos,
Tropeçou no calço
Quando, no encalço do tempo,
(Que passava apressado)
Observava a paisagem
Passando despreocupada,
Como sinfonia de um compasso
Que gira, traço após traço,
Um mundo tão abstrato
Que parecia nunca passar.

O que se há de passar
Quando todo esse espaço
Infinito porém escasso
Eterno, conquanto fugaz.
Quando todo esse paradoxo
De uma eternidade passageira
Que relutamos em aceitar
Finalmente resolver passar?

Sem olhar

Me embriagando da cor da uva
No céu pintado, percebido de repente
Num mundo frenético
Que nem sequer olhava
Aquele rubro cair solar
Nem sequer olhava
A nuvem dançando
Nem sequer olhava
Um pássaro pousando
Nem sequer olhava
O dia passando

Comparar e sentir

Ver e olhar
Sentir
Viver é, único momento
Impossível de ser achatado
Em palavras, curtas e insignificantes

Palavras são comparadas
Em seu universo dual
Vivências são comparadas
Em um limitador dual

Neste poema em caso
Limitador fenomenal
Da vivência

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um presente de aniversário

Que posso lhe dar
Se não nada mais tenho
Tenho amor em meu coração
Nada muito interessante
Tenho um desespero inquietante
Nada muito interessante
Posso revirar meus bolsos
E tirar lá do fundo
Um mundo inteiro que inventei
Figurinhas do mundo animal
Uma vassoura de bruxa em miniatura
Uma moeda furada que nada vale
Um pedaço de rapadura.

Tudo isso posso lhe dar
Com todo o encantamento
Que ainda ofusca meus olhos
Enche um alforje que levo a tiracolo.

Que passa em minha frente

Cada vez que me encontro
Com as mulheres que conheci
Cada vez mais o devaneio se esvai
Como uma névoa que sobe e passa
Toda beleza se fora em instantes
Toda formosura não passa de uma lembrança
Melhor se fosse se não as encontrasse mais
Mas ainda assim não seria uma solução
Pois também a frescura de minha idade
Não passaria de uma ilusão.

Contando os dedos

Amigos
Contamos nas pontas do dedo
Assim disse certa vez um amigo.
Cada vez mais
Os números diminuíram
Sem que os dedos diminuíssem.

Para não desesperar
Cortemos os dedos
Ou paremos de contar.

Tomando bebedeiras

Meu amigo mais velho se foi
Tomou todas as bebedeiras
E não se arrependeu!

Nunca tomei bebedeiras
E continuo vivo
Apesar da hipertensão
Apesar do colesterol
Mas me arrependo
De não vivido ainda o suficiente.
Como invejo meu amigo mais velho
Só meus versos me consolam...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Apenas um único caminho

Nenhum caminho conduz
Naquilo que possa negar a vida
Pelo contrário todas as vidas
Caminham juntas em cruzada
Ainda que possam dizer o contrário.
Neste derradeiro caminhar
Nunca avançamos
Nunca recuamos.
Sem que pudéssemos dar
Um passo sequer
Onde o caminho não leva.
Caminhamos juntos
Sempre na mesma direção!

Calar é preciso

Quando as explicações são precisas
Toda confusão também é possível
Se as palavras não conseguem expressar
Um emaranhado de pontos vermelhos
Num céu infinitamente azul.

Algumas coisas não precisam
De explicação que nada explica
Além de dizer o mais obvio
Das futilidades.
Mas quando se cala e sorri
Nada mais diz
Do que toda a verdade
Que não necessita de explicações.

Um total desconhecimento

Quem diante de mim se encontra
Se nunca te encontrei antes
Se nunca te vi antes
Mas seu sorriso parece ter sentido
Em outros momentos vividos
Num sonho qualquer
De outro que tenha sonhado.
Nem sei como se chama
Como se a chama se incendiasse
Em instantes sem provocação
E reconhecesse um pouco que fosse
De uma emoção que se fora
Soprada em direção em que
Não mais me encontro.
Se uma alegria momentânea
Me assalta a alma desarmada
Em seguida uma tristeza profunda
Inunda toda experiência
Das emoções sentidas.

Quem diante de mim se encontra
Não sei seu nome
Mas seu sorriso...

Simplesmente fazemos

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Todas as pedras levadas morro acima
Todas as tardes sem que um minuto sequer
Parasse de mover as pernas
Seria a prova de fraqueza
Diante das incertezas
De um trabalho inútil.

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Como inútil podia ser o vôo do pássaro
Que cruza num instante o cinza do céu
Como inútil podia ser a dança flamenga
Numa tarde ensolarada
Numa taberna à beira da estrada.

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Os amores vivenciados não deixam saudades
Que se apagam no passado
Os rastros que se perdem na água
Do pato que nadou neste instante.

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Se nada disso fizesse
Todas as coisas inúteis
Teria-me esquecido de viver.

Das águas profundas

Desconheço totalmente o que se oculta
Abaixo das águas profundas de um poço sem fundo
Que existe no quintal amplo de minha existência
Quisera me perder num salto sem retorno
Mas meus pés não cedem um milímetro sequer.
Não por falta de coragem
Apenas pelas amarras que me atam
Numa emaranhada trama da vida
Em que sou apenas figurante.
Mas quanto mais me afasto daquele lugar
Mais me encontro em lugar algum
Por isso continuo a viver fora das águas
Ansiando todavia escorregar água adentro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O urubu

Mamãe, quando eu crescer quero ser um urubu
Ser a sombra negra de asas abertas lá no alto
Ter a morte como vida e a vida, como morte
Ser o verso brutal da ausência
que a tudo espia lá do céu
E em círculos, ser a espera
a espera do inevitável, o certo.

Mamãe é isto o que eu quero ser,
a sombra magra de um anjo
Quero ser a noite estampada
na face luminosa do céu risonho
Ser o amor universal
pairando sobre o destino grato

Mamãe, isso é tudo,
mas se isto eu não for
e me acontecer de ser poeta
por favor me aceite

Esquelético e de andar desequilibrado.
Com a voz louca de milênios de gerações doentias.

Solitário no interior do ovo cósmico,
a estremecer com a explosão da energia galvânica
e a cegar com a luminosidade
nauseante dos raios gama.

Deixa-me perdido, e aflito,
Deixa-me entristecido assim para eu ser poeta

⎯ Poeta Grande


(homenagem a Augusto dos Anjos)








.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Canção do mendigo

Que existe de excepcional afinal
Se abaixo do mesmo viaduto
Passe ano todo engano
O mesmo mendigo continua
Naquele exato ponto
Sem se importar com o passar do tempo
Passado e presente de pouca importância
Para o mendigo de sempre
Que vive tão somente
Momento presente
Um cão sua companhia
Nada mais precisa
Até que a mulher se fora
E assim se consola
Tomando tragadas que consome
De cirrose hepática
Suas tripas já totalmente
Deterioradas.
Nem isso é motivo
Para morrer agora!
Por teimosia não morre
Não se morre no abandono
Mas se morre por falta de amor
Por isso continua ele
Amando as mulheres que teve
Que vivem agora
Todas elas num sonho
Sonhado pelo mendigo
Sonhado agora.

A arte subversiva

Parece-me bastante possível sustentar que a função da literatura como força geratriz digna de prêmio consiste precisamente em incitar a humanidade a continuar a viver; em aliviar as tensões da mente, em nutri-la, e nutri-la, digo-o claramente, com a nutrição de impulsos.
Esta concepção talvez inquiete os amantes da ordem. Assim como muitas vezes os inquieta a boa literatura. Consideram-na perigosa, caótica, subversiva.

POUND. Ezra, A arte da poesia – Ensaios escolhidos, São Paulo, Cultrix, Edusp, 1976, p.32

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Antes

Por favor me desconheça. É muito?
Nem sei mais. Mas faça esse favor
queira assim desde já ⎯ ouça
nem mesmo os relógios sabem do tempo
nem eu poderia pedir nada mais valioso

Me desconheça sempre antes da intenção
É pedir muito? Me olhe não me olhe assim
Não seja espelho, antes vidro, antes brisa

.

domingo, 28 de novembro de 2010

A beleza é de outro lugar

Nenhuma reconciliação é possível
Se impossível fosse viver sem beleza
Ainda que toda atenção fosse dada
Naquilo que fosse útil.

Nada mais inútil que o esforço
Em buscar uma felicidade
Que deixou de existir num mundo
Em que nenhuma beleza fosse mais
Possível.

Nenhum lugar para o amor
Cujo preço é padecer de um sentimento
Sem lugar neste mundo.
Somente existe nos corações
Dos tolos e doentes
Que vivem para sofrer.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O terceiro olho

Três segredos eu contei sem você chegar
⎯ os meus olhos fosforescentes ⎯
três chances de escapar da vida eram
três vezes, três vezes eu sorri sem boca

.assim foi

e senti o tempo vibrando minhas mãos secas
Sete flores em vão eu colhi com estes olhos sem você
⎯ e no fundo, no-fundo-no-fundo, o por-do-sol é como
piche sobre carvão ⎯ sim
foram três segredos sem ouvidos
foram três chances ao pó
e seguir alegre estrada era
arribar em bando dentro da ventania
sumindo cintilante sob o sol frio

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pergunta

Quando será que virá o desapego das antigas formas mistificadas para uma resignificação da realidade? Será que nessa mudança a realidade poderá ser percebida sem a conformação imposta pela cultura?

domingo, 21 de novembro de 2010

A cultura é instrumento necessário e limitador da interpretação dos fenômenos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um canto por Haiti

O que acontece nas terras do Haiti
O que acontece com as mulheres do Haiti
Senão a de continuarem a morrer
E seus filhos também
Enquanto nada mais se faz
Senão uma nota lacônica no jornal
Sem nenhum pudor
Como nada mais tivesse acontecido
Um pouco acima da linha do Equador.

Como nada mais importasse
Os olhos estão cegos para ver
Os ouvidos surdos para escutar
E o coração?
Parou de tocar
Como nada mais importasse
Com as mulheres do Haiti
Magras e sem brilho nos olhos
Que amaram seus homens
Que amaram seus filhos
Que não são amados por ninguém.

O que acontece nas terras do Haiti
Ninguém sabe
Ninguém toma conhecimento
Nem ao menos se importam
Que morrem
E devem ser enterrados
Pelos seus próprios mortos.

Ouçam o lamento
Das mulheres do Haiti
Ouçam
Apenas ouçam aqueles
Que tiverem ouvidos para isso.
Ainda assim
As mulheres do Haiti
Sorriem seus dentes brancos
Pois mais do que elas
Quem necessita de ajuda
São os que não estão no Haiti.

Bendito Haiti!
Dos deuses da África.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Palavras vazias 02

De beleza inigualável
De consoantes alinhas
A vogais desenhadas
Contínuas sem menor objetivo
Seguidas do pior significado
Sem dado
Sem nada
Se algo pra querer
Ser e escrever
Letras e letras costuradas
Atrás, umas das outras
Sem fio
Sem fio da meada
Sem nada
Vazia
Apenas bonita
E de que me adianta
Palavras vazias
Se elas nada preenchem
E sim são preenchidas com as idéias
Da mente
Que cada um tem uma
De forma diferente
Que completa
O vazio
Como a água que
Completa um rio

Um poema sujo

O que pode ser mais maldito
Do que a sinceridade das palavras
Dessas que saem espontaneamente
Que assustam
Que acusam
Que nos arrependemos depois
Por causa de toda a verdade
Afinal vivemos para mentir
E por isso medimos as palavras
E mentimos para nós mesmos
O desprezo de nossos sentimentos
Aqueles mais profundos
Alguns imundos
Sujos e carnais
Porque bonito é ser espiritual
Como no mundo dos anjos
Que não amam mais
Nem odeiam
Apenas obedecem.

Redemoinho de nossas vidas

Continuamos repetindo o mesmo
Movimento circular de sempre
Sem nunca sair do lugar
Rodopiando em roda
Até cansar as pernas
E quando cansamos
Paramos e ficamos pensando
Do erro que cometemos antes.

Num outro ponto
Novamente damos início ao
Movimento circular de sempre
Pensando fazer alguma coisa nova
Mas velho ficou antes de começar
Achando que antes erramos
Mas fazemos o mesmo
O mesmo de antes.

E assim vivemos
Repetindo sempre
Em redemoinho sempre!