quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Céu de nuvens cinza
Sento no banco azul
Passado sem carro
Galhos na janela
Como tambor afinado
Ônibus vazio

Velho lobo do mar

Me lembro de quando era menino
E via as ondas no mar
Que desciam e subiam sem parar
Incansavelmente
E incansavelmente
Não parava de me perguntar:
- Por que é que não param de dançar?
- Não se cansam de pular?

Hoje, velho
As ondas estão nas rugas de meu rosto
Impossibilitado de andar
Não vejo mais o mar
E sei por que nunca para de dançar

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Com o Sol morrendo
Morre mais este homem
Voa o pardal

Iki

Iki dizem todos
Depois da corda
E despertam todos
Em alegria

Dale chico!

Calma! Calma!
No se puedes caminar!
El tren estás lleno
Y La puerta se cerrará!

Castelo de cristal

Todo homem
Constrói seu castelo
Cristalizando sangue, suor e lágrimas
Que se derrete num simples dia de verão

Quando o homem irá dar-se conta
Que a simples choupana de palha
É o seu melhor abrigo para a chuva?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Lição de poesia

Por que compor poemas
Que falam apenas da beleza
Escamoteando debaixo da mesa
Um suposto monstrinho de borracha.
Se para que a luz possa surgir
Também há de surgir a sombra
E todas as criaturas sinistras
E demais imperfeitas.
Um poema pode ser
Um lamento
Uma dor na ferida
Desilusão nesta vida
Pode ser o remédio que cura
Amarga poção
Que desce queimando
Garganta profunda.

Um poema não precisa
Ser bom
Sê bom em sua construção
Deve ser transparente
E somar todos os sentimentos
Daqueles que choram
Um desesperado
Consolo que nunca chega.

Em silêncio padeço

Nenhuma explicação é necessária
Quando o coração é grande
Assim as palavras perdem sentido
Como que atiradas ao vento
Sem nenhum proveito
Mas ainda que nada se fale
No silêncio da palavra não dita
Repousa uma pergunta
Que não cessa de perguntar
Cuja resposta silencia-se
Nos lábios que deixaram de falar.

Fuga no bailado

Chora por mim
Argentina!
Que a dama que baila
Tenta fugir dos braços meus
Que rodopia em seus sapatos
De bico fino.
Seu vestido colado ao corpo
Delgado como uma gazela
De rosto pálido e boca carmim

Chora por mim
Argentina!
Que a miséria te persegue
No subúrbio de Buenos Aires
De jovens enlouquecidos
Que não trabalham
Que não estudam
Que morrem entorpecidos
Da fumaça ácida dos cigarrilhos

Chora por mim
Argentina!
Porque o tempo passou
E não há mais motivo
Para sorrir.

Mas continua bailando
Para espantar o medo
Dos fantasmas do passado
Que novamente assombram
Os transeuntes de Corrientes.

Quando inútil se torna

Como que o tempo parasse
Por algum tempo
E nada mais acontecesse
Em nossas vidas inúteis
Que fosse realmente
De alguma utilidade.
Que futilidade seria
Empinar quadrados
Senão fosse apenas
Por divertimento.
Se um dia a vida
Servisse para alguma
Causa útil
Inútil seria compor
Poesias
Que de útil nada
Teria.
Se as revoluções
Fossem úteis
Não redundariam
Em fracassos.
Se o amor tivesse
Algo de útil
Não seria amor.
Nem a felicidade
Seria possível
Que de palavra bonita
Não passa de um projeto
Que não se realiza.

Mas infinitamente
Se vive
Na mais infinita
Inutilidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sem nada mais segurar

Em cada abandono
Mais a vida se amplia
Em cujo chão que piso
Não preciso de apoio.

Só preciso dos olhos largos
Da mulher que veste branco
A me dar o beijo frio
Em cada despedida.

Rodopia a dançarina
Numa caixinha de música
Que pára de rodopiar
Quando acaba a corda.

Para que chorar
A fuga do canarinho
Se nada pode ser
Definidamente prisioneiro.

Antes do temporal
Recolho nas mãos
As margaridinhas
De centro amarelado.

Passou Jurema
Passou Iracema
A vida passou...

O herói de minha vida

Nenhum drama se compara
Com o drama que acontece
Na vida irreal das aparências
Das formas e conteúdos
De uma vida vivida agora!

Só resta a beleza
Das contradições e sonhos roubados
De um herói que morre
No final.

Acima da nuvens

Mais vale um sorriso
Diante das intempéries
De um amor que se realiza
Apenas
Bem acima das nuvens
Onde o vento é mais ligeiro
Mais azul é o oxigênio
Mais fluido o pensamento.

Nas ondas mais baixas
Só se for um amor
Ainda impregnado
Da lama de um pântano
Que nunca deixa de produzir
Uma febre insana.

Mais vale um sorriso!

Felicidade fugidia

Felicidade é uma nuvem que passa
Passageira de um rabo de vento
Ligeiro às vezes
Demorado às vezes
Às vezes nem percebido
Perseguido e não encontrado
Fugidio diante de nossa vontade
De detê-la demoradamente
Em nossas mãos.

Mas o que as minhas mãos
Seguram?
Nem mesmo o vento!

Um amor de verdade

Dos amores sonhados
Sonhou todos
E quando acordou
Nada mais havia
Senão uma saudade
Imensa de uma felicidade
Que apenas foi sonhada.

Não queira mais sonhar
Fincou os pés no chão
E rogou:
Quero um amor de verdade
Pode ser gordo
Pode ser calvo
Pode ser feio
Pode ser aloprado.

Depois que este amor
Apareceu
Parou de sonhar:
Não se arrumou mais
E passou a viver
Com aquele como fosse
O mais esperado
Dos príncipes encantados.

Ao soprar do vento

Um guizo pendurado na janela
Anuncia:
Kin... kin...

E quanto mais o vento sopra
Fica no ouvido aquele som
Sempre igual
Sem nada inovar
Sem desanimar
Insistentemente
De maneira agradável
De imensa simplicidade
Uma música que nunca morre
Seja na tristeza
Seja na alegria
Seja no encontro
Seja na despedida
Toda vez que soprar o vento

Um guizo pendurado na janela
Anuncia:
Kin... kin...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A tatuagem

Uma tatuagem não pode ser
Removida sem causar cicatrizes.
Uma tatuagem envelhece
Cada vez mais na pele
Impregnada de sujeira
Que por fim definha
E toda ilustração
Antes bela cada vez mais
Velha há de se tornar.

O esquecimento

Acontecimentos que quero
Esquecer de uma só vez.
Só fica a minha vontade
Sem importância alguma
Se a vontade do esquecimento
É a de não ser esquecido.

Chove lá dentro

Nas águas que descem
Quero me afogar
Chuva que chove devagar
Além das persianas de minha janela
Além das pestanas de minha face
Assim serei liquefeito
Desmanchando toda mágoa
Que carrego numa bolsa abaixo
Dos olhos em que navego.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Os demônios vulcânicos que não passam

Como posso me livrar dos demônios
Do passado
Se constantemente surgem do nada
Com suas caras maravilhosas
Bovinas e transparentes como vidro
Refletindo a minha cara
Refletindo todas caras que passaram
Pela minha vida
Eu também a vida de todas elas
Com toda insanidade do fogo
De um vulcão derramando pela borda
Uma lava que a tudo transforma.

Certa vez visitei o vulcão de Asso
No arquipélago japonês
Queimava enxofre que nos pulmões
Queimava mais ainda
E lacrimejava as pupilas vermelhas
E vi o inferno fervendo abaixo
Em rios que a tudo queimava
E queimou a minha alma
Mas nunca o vulcão explodia
Mas fervia sem que ninguém
Pudesse ver
Por um momento pensei:
Sou vulcão que vive
Em terras em que não nasci
Sou o vulcão que internamente
Um caldeirão cheio de metal derretido
Não pode mais esfriar.
Esta é minha condição
Combustível desta existência
Que acende uma lamparina
Perdida na escuridão.
Mas não clareia tudo
Esconde mais do que revela
E nas sombras se mostra
Toda a beleza e feiúra.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Começar de novo

Pouco me importa se as ruas
Estão sujas
Se meus sapatos furaram
Se minhas calças puíram
Nada mais me importa
Realmente
Senão uma barra de chocolate
Amargo
Para iniciar uma caminhada nova
Não muito diferente da antiga
Em repetidos tropeços
Em volteios repetidos
Como redemoinho
Um biruta ao sabor do vento.

A linguagem do silêncio

Nenhuma afirmativa pode ser
Conclusiva
Pois nada explica
Aquilo que explicação não havia.
Se explicação fosse necessária
Se alguma palavra dita fosse possível
Ainda assim
Nada se comparava com o silêncio
Que diz tudo
Sem palavra alguma.

Há um tempo que
Por uma necessidade desenfreada
As palavras dizem a verdade
Que somente as palavras podem
Dizer.

Há um tempo que
Nenhuma palavra mais serve
Para compor um sentimento
Pois sentimento algum cabe
Dentro de uma palavra.

Quando as palavras cessarem
De seus significados mais lestos
Então somente os sentimentos
Mais verdadeiros do que qualquer
Palavra reinarão entre as partes.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Olhos que acendiam

Aqueles imensos olhos
deixaram de brilhar
para que pudessem ver
sem os colírios da ilusão.
Meus olhos um tanto pequenos
não precisam de colírio
para ver na ilusão
com tamanho brilho.
Faíscam a cada momento
por desespero de um amor
perdido.

Poema para ser esquecido

Compor poema
só se for nas areias
de uma praia solitária
só para as ostras e caranguejos
apagado num instante
pelas ondas em rebentação.

Um poema
por mais belo que seja
pudesse ser apagado em seguida
para que a vida desse
vida em cada despedida.

Nenhum poema
deve ser declamado
mais de uma vez
Nenhum poema
deve ser lido
mais de uma vez
para que outro poema
seja em seguida.
Um poema só se eterniza
no momento que é escrito.
Se o poema é de Eliza
que Eliza seja eterna
nas mãos do poeta.
Mas se for de Fabiana
de Ana
de Marialva
ou Suzana pouco importa
o nome
o sobrenome
que seja aquela que no poema
se faz.

Letargia dos dias sem fim

Com imensa letargia os dias avançam
nos primeiros dias de janeiro.
Por algum tempo os ventos da calmaria
não fazem mover moinhos.

Diante de mim uma imagem de Buda
calmamente me vislumbra
num sorriso que acalma e incomoda.
Sorriso de bronze que permanece
pela eternidade assombrando.
Nada mais importa neste momento
se vier a morte que seja branda
como a poeira que se assenta e levanta
pelo chão de madeira carcomida.

Os amigos que tive ontem
seguiram seus caminhos
Os amores que tive ontem
distanciados em gelo ficaram
Nem mesmo uma lembrança
restou senão as ruínas de um terremoto
que continua causando sinistros.

Por um momento apenas o silêncio
das paredes impregnadas de fuligens
dos incêndios que trouxeram abaixo
os sentimentos mais baixos da esperança
perdida numa batalha sem causa alguma.
Ainda que nenhuma causa seja aparente
o corpo dolorido pelas chuvas da estação
quer descanso numa cabana solitária
distante das vozes atravessadas
das baitacas em festiva festança.

Assim que a noite se debruça
as estrelas são companheiras
faiscando uma energia que não acende toda
a imensidão deste lençol em furos.
Assim beberei da lua todo seu mel
e embriagar-me-ei como um tolo
que satisfaz ao rir de si.
Dos vapores que se assentam farei meu leito
para acalentar em sonhos
esta vontade imensa de continuar sonhando
antes que lá adiante ofusque uma luz incômoda
do sol que mais engana
do que as noites de insônia.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O homem que carregava

Subia, todo dia
Após descer
Naquela melancolia
Carregava aquele carro imenso
E me dava impressão que era para se comparar
Ao cristo salvador
Que também carregou o homem

Mas aquele homem que não carregava homem
Descia e subia todo dia
Carregando metal
Papelão, jornal
Sem distinção de raça, credo
Só carregava
Subindo a ladeira
Com a esperança de um dia
Se salvar e salvar à todos

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Tudo se tornou metal

Um sininho tocava
Metalicamente
Blem blem...

Metalicamente
Os corpos se mexiam.

Metalicamente
Se vivia nestes tempos.

Tempos metálicos
Em que não se sofria mais
Pois os corações metálicos
Estavam protegidos
Dos agentes externos
Que internamente provocariam
Ferrugens.

Assim todos estavam salvos
Neste mundo metálico.
Mas o que poderia nos salvar
Do metal que tornou nosso coração?

Talvez um pouco de oxidação.

Um inquietante calor

Trata-se apenas de inquietações
Que corrói fundo este corpo em brasa
Uma necessidade de inundar com suas águas
As planícies de um arrozal em pencas
Que diante do sol começa a amarelar.

Não se pode aquietar
As lavas que vertem das paredes
De um vulcão prestes
A qualquer momento
Tingir o céu de rubra cor
E o azul será tingido
Em infinitas pinceladas.

Sou uma montanha que finge
Que dorme
Que dorme também
Toda minha dor.

O bloco de notas

O “bloco de notas” é uma das condições essenciais para fazer qualquer coisa de válido.
Habitualmente, este bloco só é mencionado depois da morte do poeta; durante anos arrasta-se no pó, é publicado com as obras póstumas e muito depois das “obras terminadas”. Mas para o escritor, esse bloco é tudo.

MAIAKOVSKI. Vladimir, Poética – como fazer versos, São Paulo: Global Editora, 1991, pp.24,25

Sensation

Je ne parlerai pas
Je ne penserai rien.
Mais un amour immense
Entrera dans mon âme.

Arthur Rimbaud

Sonhos da ascensorista

Em carreira meteórica subiu na vida
Todo dia subia trinta e três andares
Dentro de uma caixa metálica
Anunciando cada andar que parava
Serviços médicos e dentários
Salas de advogados e produtores de imagem
Imagine aquela mulher vinda do sertão
Acabou por conseguir uma vaga
De ascensorista de um prédio na Paulista
Como uma comissária de bordo
Uniforme completo azul celeste
E lenço amarrado no pescoço
Não usava luvas
Os olhos levemente pintados a rímel
Uma boca suavemente cor de rosa
Sua pele queimada pelo sol
De outras terras dos canaviais
Quando terminava o turno da manhã
Retornava para casa
Mais de duas horas de coletivo
Com baldeação em Santo Amaro
Levando no rosto o sorriso
De serviço realizado
Quando tirava férias queria voltar logo
Voltar a subir rapidamente
Para o ponto mais alto
E de lá vislumbrar a cidade toda
Que era sua
Um dia teve que se aposentar
Nunca mais tomou um elevador
Nunca mais retornou onde trabalhou
Quase a metade de sua vida
Nada mais sabia fazer do que
Subir os trinta e três andares
Num passe de mágica
Num aperto de botões
E comandar a vida de todos
Passageiros
Numa viagem de primeira classe
Por alguns minutos
Alguns minutos suficientes
Para fazer dela
A dona do destino
Para o ponto mais alto
Para o ponto mais baixo
Subindo e descendo.
Um dia deixou de subir
E em seu lugar apresentou
Sua filha mais nova
Que passou a fazer o mesmo
Que sua mãe fazia.
Subir na vida!

As prisões de janeiro

Algo de estranho acontece em janeiro
Algo de totalmente inerte em corpo fechado
Nem chega a incomodar a chuva
Nem o vento sopra mais como antes
E o tempo fechado dorme pela tarde adentro.

Uma incerteza ainda acontece esparramando
Caudalosamente pelas ruas uma bruma quente
De um sopro que vem de dentro
Das frinchas de um mármore eterno
Que resiste a qualquer molde do formão.

Com lentidão a roda do moinho se move
No embate das serrilhadas roldanas
Rebentando as nozes de suas carapaças
Duras como as cascas que nos envolve.

Por um momento o ser da morte
Descansa com a esperança de novamente
Repetir o movimento de sempre
Sem hesitação de trás para frente.

Sem conhecer a liberdade
Apenas continua a esmagar
Com os pés nus a uva do tempo.

Sem conhecer a liberdade
Esmaga com os próprios pés
Qualquer possibilidade de amar.

Com o tempo que passa
Cada vez mais resistentes são
As correntes presas nos pés e nas mãos.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A verdade do poema

Que diferença pode haver
Entre o poema escrito neste momento
E a vida vivida no instante do agora?
Se a vida é vivida dentro do poema
Que me importa aquilo que se forma
Fora dele.
Se realmente se escreve poema
Sem nenhum conteúdo de vida
Deixa de ser poema.
Se um poeta não vive o poema escrito
Deixa de viver a vida vivida
Pois poema não prescreve da vida
E viver poeticamente
Viver intensamente a vida presente
Com sua mais extrema contradição
De uma luz que pisca na escuridão
De uma beleza na maior das feiúras
De uma tristeza imensa
Que jaz diante de uma cabana
Perdida no deserto de nossa existência.
Compor é viver
Somente os poetas podem falar da vida
Pois viveram suficientemente todas as dores
Dos desencontros das almas queridas
Mas ainda podem sorrir
De pura ironia
Seu próprio desprezo pela seriedade
De uma vida vivida pela metade.

Um caso de amor

Desde que a conheci
Nunca mais ela me deixou
Meio tímida foi chegando
E de maneira singela
Estendeu seus braços de polvos
Sufocando-me de tamanha emoção
Nunca conheci ninguém igual.
Chama-se Hipertensão.
Conheci muitas
Algumas foram especiais
Algumas foram esquecidas
Algumas tentei esquecer
Foi em vão
Mas Hipertensão
Esta veio para ficar.
Ainda que me esqueça dela
De mim ela mais se esquecerá!

O cigano caminha

Pudesse ser como um cigano
Sem amarras com nenhum ser humano
Como este que me encontro
Pelas ruas de meu bairro.

Nem seu nome sei
Nem sei onde vive

Mas por onde passa brilha
Seus colares de matéria plástica
Seus óculos sem lente alguma
Seus lenços coloridos.

Um demônio errante caminha
Um santo também caminha
Uma freira
Uma faxineira.

Mas por onde passa brilha
Meu amigo cigano!

O esquecimento do eu

O instante do auto-esquecimento, no qual o sujeito submerge na linguagem, não consiste no sacrifício do sujeito ao Ser. Não é um instante de violência, nem sequer de violência contra o sujeito, mas um instante de reconciliação: a linguagem fala por si mesma apesar quando deixa de falar como algo alheio e se torna a própria voz do sujeito. Onde o eu se esquece na linguagem, ali ele está inteiramente presente; senão a linguagem, convertida em abracadabra sacralizado, sucumbira à reificação, como ocorre no discurso comunicativo.

ADORNO. Theodor, Notas de Literatura I, São Paulo: Livraria Duas Cidades, Editora 34, 2008, p. 75

Sem mudança alguma

Novos tempos chegam
Ao alvorecer do Ano Novo
Nada de novo mais
Do que um dia após o outro.
Naquele vão do viaduto
Naquele mesmo canto
Um casal de mendigos
Que sempre morou
No mesmo canto
Continuam morando
Como nada realmente
Mudasse.

Um casal de mendigos
Que sempre morou...

Retorno à terra natal

Quando retorno ao passado
Retorno à minha terra natal
Em que não reconheço mais
As ruas em que andei a procura
De qualquer sinal de minha existência
Senão uma rua que não existe mais
De uma poeira que foi varrida
De uma memória esquecida
Por não fazer história.
Somente meus pais me esperam
Com saudade do filho que se foi
Se fazer em outras terras
Apenas o aconchego de seus corpos
Esmaecidos pelo tempo
Duros o ano inteiro
Me abrigam por um momento.
Quando o Ano Novo se faz
É tempo de se recolher
Nos porões profundos da memória
Tão profundos que nenhum luz
Pode se encontrada.
E como é agradável
Fechar os olhos e ver.

Rodopiando na roda-gigante

Num desses parques de diversão
Certa vez vi um na Amazônia
De minha infância havia muitos
De minha cidade natal
Havia lá num canto a roda-gigante
Nem tão grande assim
Sem nenhum charme de outrora
Sem charme algum
Velho e carcomido pelo sal
Da maresia que vinha com o vento
Desta vez era véspera de ano novo
Não uma data qualquer
Mas fiquei com uma vontade imensa
Na roda-gigante girar por um instante
Um pouco que fosse seria o suficiente
Fiquei de longe espreitando
Se ia
Se não ia
Rodar na roda-gigante que lá de cima
Enxergaria toda a cidade e o mar e as montanhas
Poderia ver o mundo de uma outra forma
Em panorâmica que jamais se veria
Se não fosse a mágica da roda-gigante.
Mas meus pés fincaram raízes
Nenhum avanço se deu
Em direção da roda-gigante
Que rodava
Que rodava
Os olhos que rodavam
Sempre em redemoinho
Num sonho rodava
Por um momento rodava
Por uma vida inteira rodava
Como que nunca mais fosse parar
Rodava como a própria vida rodava
E como invejei aqueles que rodavam
Na roda-gigante
Entorpecidos que estavam
Por uma felicidade momentânea
Por um momento eternizado
No rodar apenas
Da roda-gigante.
Quando parou ainda a felicidade
Existia no rosto daquele homem
Que rodou sem medo algum de enlouquecer
No rodar apenas
Da roda-gigante.
Daquele que ficou fora
Com medo de rodar
Rodopiava como pudesse ficar
Fora da roda-gigante.
E rodopiou junto
à roda-gigante.
Os rojões explodiam anunciando
Ano Novo!
Tudo mudou
Ao rodar apenas
Da roda-gigante.

Uma vida passageira

Tudo passa
O ano velho passa
Uma mulher gorda passa
Uma mulher magra passa
Todos os sonhos passam
Menos passa esta dor no pé direito
Que me visita três vezes por ano
E deixa um rastro de um passo
Arrastado num chinelo quase sem sola
Se a uva passa fosse apenas passado
O que passa neste coração maltrapilho
Que nada mais aprendeu
Nesta vida revirada e mal vivida
Que passou num instante...
Por isso gostamos dos filmes antigos
Daqueles em que as loiras falsas
São mais verdadeiras enfiadas
Em suas saias rodadas.
Um filme passa
E sentimo-nos felizes
Como se passasse ainda diante
De nossos olhos extasiados
Com vontade de abarcar o mundo
De um sonho que resiste em passar inteiro
Que nunca termina
De um filme
Que nunca termina.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A história de meia vida

A cada dia de vida João colocava um tijolo no monte
Sem deixar passar um dia se quer
Os tijolos foram amontoados
E como não podia ser diferente
Um dia ele parou e reparou
Que na sua frente havia erguido um castelo

Chegava a ser assustador
João tinha medo de sua própria criação
De entrar e não saber o que encontrar
De deixar tudo o que conhecia do lado de fora
E passar pela porta sem ao menos olhar para trás

De forma tão repentina
Aquele sonho se transformou em realidade
E logo em incertezas
Que o apavoravam

Mas apesar disso
Muito estava em jogo
Não só para ele, mas por todos

Então, sem estremecer
Muito menos exitar

João se foi

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Acabou

Os livros se esgotaram
As palestras se encerraram
Os professores foram demitidos
As escolas fecharam
Os cursos foram concluídos
E os debates se calaram

Não há mais lugar para eu buscar
Não há mais lugar para eu fugir
Do real aprendizado
sentado

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Varais coloridos

Acima daquela linha da cidade
As pessoas penduram suas roupas
Coloridas
E outras descoloradas
Num varal em frente das casas
Sem pudor algum
Como tudo fosse permitido
Por um momento pensei
Usar roupas coloridas
Não ficaram bem!
Nunca fiz parte daquele mundo
Foi tão somente um delírio
Pois não posso ser alguém
Com camisas amarelas
Calças azuis.

Minhas roupas sempre foram
Negras.

Nada mais sobrou da areia

Tudo passou como tempestade
Deixando pelo caminho coqueiros pelo chão
Tudo foi destruição
De um castelo de areia
Que parecia indestrutível
Uma fortaleza em que o menino
Construiu com outras mãos
Pequenas de uma menina.

Nada mais sobrou
E a menina se foi
Brincar em outras praias.

Nunca mais se ouviu falar dela
Mas o menino continua ainda
Construindo castelos de areia
Mesmo sabendo que a qualquer momento
Vem uma onda maior
E nada mais sobrará
Nenhum castelo
Somente areia
Como sempre foi...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Um sorriso endurecido

Quando o sorriso não sai
Senão uma expressão apenas
De uma dor escondida por detrás
De uma face que não esconde mais
Tamanho desalento
Continuamos fazendo de conta
Que nada mais nos afeta realmente
Que nada tem importância mais
Que tudo mais não passa de passatempo
E passado para trás já fomos
Com outros igualmente perdedores.

Se ainda assim o sorriso surgir
Será menos de alegria
Será de saudade de um dia
Ter conhecido Mariana.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A chuva

A chuva é o choro do mundo
Choros de alegria e tristeza
Que alimentam os vegetais
E banham os animais

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O diabo e o sexo

foto: Bruno Mitih

Casa de Moacir, artista nativo da cidade de São Jorge, interior de Goiás. Tem como temas centrais religião, sexo e demônios.

Pessach

O que se passa
Quando aquilo que passa
Passa sem pedir passagem;
Passa sem sobre passo
Sobre um passageiro
Que, de tantos passos,
Tropeçou no calço
Quando, no encalço do tempo,
(Que passava apressado)
Observava a paisagem
Passando despreocupada,
Como sinfonia de um compasso
Que gira, traço após traço,
Um mundo tão abstrato
Que parecia nunca passar.

O que se há de passar
Quando todo esse espaço
Infinito porém escasso
Eterno, conquanto fugaz.
Quando todo esse paradoxo
De uma eternidade passageira
Que relutamos em aceitar
Finalmente resolver passar?

Sem olhar

Me embriagando da cor da uva
No céu pintado, percebido de repente
Num mundo frenético
Que nem sequer olhava
Aquele rubro cair solar
Nem sequer olhava
A nuvem dançando
Nem sequer olhava
Um pássaro pousando
Nem sequer olhava
O dia passando

Comparar e sentir

Ver e olhar
Sentir
Viver é, único momento
Impossível de ser achatado
Em palavras, curtas e insignificantes

Palavras são comparadas
Em seu universo dual
Vivências são comparadas
Em um limitador dual

Neste poema em caso
Limitador fenomenal
Da vivência

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um presente de aniversário

Que posso lhe dar
Se não nada mais tenho
Tenho amor em meu coração
Nada muito interessante
Tenho um desespero inquietante
Nada muito interessante
Posso revirar meus bolsos
E tirar lá do fundo
Um mundo inteiro que inventei
Figurinhas do mundo animal
Uma vassoura de bruxa em miniatura
Uma moeda furada que nada vale
Um pedaço de rapadura.

Tudo isso posso lhe dar
Com todo o encantamento
Que ainda ofusca meus olhos
Enche um alforje que levo a tiracolo.

Que passa em minha frente

Cada vez que me encontro
Com as mulheres que conheci
Cada vez mais o devaneio se esvai
Como uma névoa que sobe e passa
Toda beleza se fora em instantes
Toda formosura não passa de uma lembrança
Melhor se fosse se não as encontrasse mais
Mas ainda assim não seria uma solução
Pois também a frescura de minha idade
Não passaria de uma ilusão.

Contando os dedos

Amigos
Contamos nas pontas do dedo
Assim disse certa vez um amigo.
Cada vez mais
Os números diminuíram
Sem que os dedos diminuíssem.

Para não desesperar
Cortemos os dedos
Ou paremos de contar.

Tomando bebedeiras

Meu amigo mais velho se foi
Tomou todas as bebedeiras
E não se arrependeu!

Nunca tomei bebedeiras
E continuo vivo
Apesar da hipertensão
Apesar do colesterol
Mas me arrependo
De não vivido ainda o suficiente.
Como invejo meu amigo mais velho
Só meus versos me consolam...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Apenas um único caminho

Nenhum caminho conduz
Naquilo que possa negar a vida
Pelo contrário todas as vidas
Caminham juntas em cruzada
Ainda que possam dizer o contrário.
Neste derradeiro caminhar
Nunca avançamos
Nunca recuamos.
Sem que pudéssemos dar
Um passo sequer
Onde o caminho não leva.
Caminhamos juntos
Sempre na mesma direção!

Calar é preciso

Quando as explicações são precisas
Toda confusão também é possível
Se as palavras não conseguem expressar
Um emaranhado de pontos vermelhos
Num céu infinitamente azul.

Algumas coisas não precisam
De explicação que nada explica
Além de dizer o mais obvio
Das futilidades.
Mas quando se cala e sorri
Nada mais diz
Do que toda a verdade
Que não necessita de explicações.

Um total desconhecimento

Quem diante de mim se encontra
Se nunca te encontrei antes
Se nunca te vi antes
Mas seu sorriso parece ter sentido
Em outros momentos vividos
Num sonho qualquer
De outro que tenha sonhado.
Nem sei como se chama
Como se a chama se incendiasse
Em instantes sem provocação
E reconhecesse um pouco que fosse
De uma emoção que se fora
Soprada em direção em que
Não mais me encontro.
Se uma alegria momentânea
Me assalta a alma desarmada
Em seguida uma tristeza profunda
Inunda toda experiência
Das emoções sentidas.

Quem diante de mim se encontra
Não sei seu nome
Mas seu sorriso...

Simplesmente fazemos

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Todas as pedras levadas morro acima
Todas as tardes sem que um minuto sequer
Parasse de mover as pernas
Seria a prova de fraqueza
Diante das incertezas
De um trabalho inútil.

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Como inútil podia ser o vôo do pássaro
Que cruza num instante o cinza do céu
Como inútil podia ser a dança flamenga
Numa tarde ensolarada
Numa taberna à beira da estrada.

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Os amores vivenciados não deixam saudades
Que se apagam no passado
Os rastros que se perdem na água
Do pato que nadou neste instante.

Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Se nada disso fizesse
Todas as coisas inúteis
Teria-me esquecido de viver.

Das águas profundas

Desconheço totalmente o que se oculta
Abaixo das águas profundas de um poço sem fundo
Que existe no quintal amplo de minha existência
Quisera me perder num salto sem retorno
Mas meus pés não cedem um milímetro sequer.
Não por falta de coragem
Apenas pelas amarras que me atam
Numa emaranhada trama da vida
Em que sou apenas figurante.
Mas quanto mais me afasto daquele lugar
Mais me encontro em lugar algum
Por isso continuo a viver fora das águas
Ansiando todavia escorregar água adentro.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O urubu

Mamãe, quando eu crescer quero ser um urubu
Ser a sombra negra de asas abertas lá no alto
Ter a morte como vida e a vida, como morte
Ser o verso brutal da ausência
que a tudo espia lá do céu
E em círculos, ser a espera
a espera do inevitável, o certo.

Mamãe é isto o que eu quero ser,
a sombra magra de um anjo
Quero ser a noite estampada
na face luminosa do céu risonho
Ser o amor universal
pairando sobre o destino grato

Mamãe, isso é tudo,
mas se isto eu não for
e me acontecer de ser poeta
por favor me aceite

Esquelético e de andar desequilibrado.
Com a voz louca de milênios de gerações doentias.

Solitário no interior do ovo cósmico,
a estremecer com a explosão da energia galvânica
e a cegar com a luminosidade
nauseante dos raios gama.

Deixa-me perdido, e aflito,
Deixa-me entristecido assim para eu ser poeta

⎯ Poeta Grande


(homenagem a Augusto dos Anjos)








.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Canção do mendigo

Que existe de excepcional afinal
Se abaixo do mesmo viaduto
Passe ano todo engano
O mesmo mendigo continua
Naquele exato ponto
Sem se importar com o passar do tempo
Passado e presente de pouca importância
Para o mendigo de sempre
Que vive tão somente
Momento presente
Um cão sua companhia
Nada mais precisa
Até que a mulher se fora
E assim se consola
Tomando tragadas que consome
De cirrose hepática
Suas tripas já totalmente
Deterioradas.
Nem isso é motivo
Para morrer agora!
Por teimosia não morre
Não se morre no abandono
Mas se morre por falta de amor
Por isso continua ele
Amando as mulheres que teve
Que vivem agora
Todas elas num sonho
Sonhado pelo mendigo
Sonhado agora.

A arte subversiva

Parece-me bastante possível sustentar que a função da literatura como força geratriz digna de prêmio consiste precisamente em incitar a humanidade a continuar a viver; em aliviar as tensões da mente, em nutri-la, e nutri-la, digo-o claramente, com a nutrição de impulsos.
Esta concepção talvez inquiete os amantes da ordem. Assim como muitas vezes os inquieta a boa literatura. Consideram-na perigosa, caótica, subversiva.

POUND. Ezra, A arte da poesia – Ensaios escolhidos, São Paulo, Cultrix, Edusp, 1976, p.32

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Antes

Por favor me desconheça. É muito?
Nem sei mais. Mas faça esse favor
queira assim desde já ⎯ ouça
nem mesmo os relógios sabem do tempo
nem eu poderia pedir nada mais valioso

Me desconheça sempre antes da intenção
É pedir muito? Me olhe não me olhe assim
Não seja espelho, antes vidro, antes brisa

.

domingo, 28 de novembro de 2010

A beleza é de outro lugar

Nenhuma reconciliação é possível
Se impossível fosse viver sem beleza
Ainda que toda atenção fosse dada
Naquilo que fosse útil.

Nada mais inútil que o esforço
Em buscar uma felicidade
Que deixou de existir num mundo
Em que nenhuma beleza fosse mais
Possível.

Nenhum lugar para o amor
Cujo preço é padecer de um sentimento
Sem lugar neste mundo.
Somente existe nos corações
Dos tolos e doentes
Que vivem para sofrer.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O terceiro olho

Três segredos eu contei sem você chegar
⎯ os meus olhos fosforescentes ⎯
três chances de escapar da vida eram
três vezes, três vezes eu sorri sem boca

.assim foi

e senti o tempo vibrando minhas mãos secas
Sete flores em vão eu colhi com estes olhos sem você
⎯ e no fundo, no-fundo-no-fundo, o por-do-sol é como
piche sobre carvão ⎯ sim
foram três segredos sem ouvidos
foram três chances ao pó
e seguir alegre estrada era
arribar em bando dentro da ventania
sumindo cintilante sob o sol frio

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pergunta

Quando será que virá o desapego das antigas formas mistificadas para uma resignificação da realidade? Será que nessa mudança a realidade poderá ser percebida sem a conformação imposta pela cultura?

domingo, 21 de novembro de 2010

A cultura é instrumento necessário e limitador da interpretação dos fenômenos.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um canto por Haiti

O que acontece nas terras do Haiti
O que acontece com as mulheres do Haiti
Senão a de continuarem a morrer
E seus filhos também
Enquanto nada mais se faz
Senão uma nota lacônica no jornal
Sem nenhum pudor
Como nada mais tivesse acontecido
Um pouco acima da linha do Equador.

Como nada mais importasse
Os olhos estão cegos para ver
Os ouvidos surdos para escutar
E o coração?
Parou de tocar
Como nada mais importasse
Com as mulheres do Haiti
Magras e sem brilho nos olhos
Que amaram seus homens
Que amaram seus filhos
Que não são amados por ninguém.

O que acontece nas terras do Haiti
Ninguém sabe
Ninguém toma conhecimento
Nem ao menos se importam
Que morrem
E devem ser enterrados
Pelos seus próprios mortos.

Ouçam o lamento
Das mulheres do Haiti
Ouçam
Apenas ouçam aqueles
Que tiverem ouvidos para isso.
Ainda assim
As mulheres do Haiti
Sorriem seus dentes brancos
Pois mais do que elas
Quem necessita de ajuda
São os que não estão no Haiti.

Bendito Haiti!
Dos deuses da África.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Palavras vazias 02

De beleza inigualável
De consoantes alinhas
A vogais desenhadas
Contínuas sem menor objetivo
Seguidas do pior significado
Sem dado
Sem nada
Se algo pra querer
Ser e escrever
Letras e letras costuradas
Atrás, umas das outras
Sem fio
Sem fio da meada
Sem nada
Vazia
Apenas bonita
E de que me adianta
Palavras vazias
Se elas nada preenchem
E sim são preenchidas com as idéias
Da mente
Que cada um tem uma
De forma diferente
Que completa
O vazio
Como a água que
Completa um rio

Um poema sujo

O que pode ser mais maldito
Do que a sinceridade das palavras
Dessas que saem espontaneamente
Que assustam
Que acusam
Que nos arrependemos depois
Por causa de toda a verdade
Afinal vivemos para mentir
E por isso medimos as palavras
E mentimos para nós mesmos
O desprezo de nossos sentimentos
Aqueles mais profundos
Alguns imundos
Sujos e carnais
Porque bonito é ser espiritual
Como no mundo dos anjos
Que não amam mais
Nem odeiam
Apenas obedecem.

Redemoinho de nossas vidas

Continuamos repetindo o mesmo
Movimento circular de sempre
Sem nunca sair do lugar
Rodopiando em roda
Até cansar as pernas
E quando cansamos
Paramos e ficamos pensando
Do erro que cometemos antes.

Num outro ponto
Novamente damos início ao
Movimento circular de sempre
Pensando fazer alguma coisa nova
Mas velho ficou antes de começar
Achando que antes erramos
Mas fazemos o mesmo
O mesmo de antes.

E assim vivemos
Repetindo sempre
Em redemoinho sempre!

Claridade ofuscante

Muitas vezes temos que
Fechar os olhos
Pois a claridade ofusca
E quando fechamos
Uma nova claridade
Clareia intensamente
O que antes escurecia
De podermos enxergar
De outra forma
Com as lamparinas internas
Sem medo de ocultar
Nenhum ser das sombras
Que saem das regiões cavernosas
Carregando suas armas
Uma imensa rede de pesca
E deixamos nos pescar
Sem medo de morrer na praia
E se morrermos sempre estaremos
Em nossa casa.
De onde nunca saímos
Nem nascemos.
Apenas seduzidos por uma fresta
De luz exterior
De uma luz interior
De uma luz qualquer
Caímos na ilusão
Pois luz
É mais escuridão
Que todo nosso raciocínio
Possa ter.
E quando pensamos
Clareamos a nossa mente
Para não enxergar mais
E toda confusão se torna
Latente.

domingo, 14 de novembro de 2010

Um poema irônico

Nada mais pode ser resgatado
De um tempo que ficou atrasado
Senão a imagem desfocada
De uma miopia sentimental
Que carece de óculos de grau.

Quando menos se espera
A poeira de uma saudade imensa
Chega de mansinho
Bem devagarzinho
E se instala em feridas ainda
Mal fechadas
Nunca resolvidas.

Nada mais resta do que sentir a dor
E perder-se em cada gemido
Silenciosamente sentido
Mas mostrando na cara
Um sorriso irônico de si mesmo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sensação de impotência

Sensação de impotência

É de impotência a sensação
De, após caminhar um dia
Com uma miríade de sentimentos
E de experiências
Não poder mover um dedo se quer
Em pro da verdade
Em prol do meu juramento

É de impotência a sensação
Sentar e somente assistir
Sem poder jogar
E marcar pontos para ambos os lados
E marcar sorrisos em ambas as faces

É tão difícil
Entender
Viver e conviver
Ainda mais sem poder
Dissolver o sofrimento
Incrustados não sei onde

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Corpo

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro. Edições Graal. 1979. p. 22.

O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as idéias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência, está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Cada um, cada coisa

Cada coisa em seu lugar
Cada cueca na gaveta
Cada um em seu lugar
Cada verso em cada linha.
Cada coisa que se vê...
Cada um com seus ''pobrema''
Cada ator em sua cena,
Cadê minhas cuecas na gaveta?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O esquecimento

Somente com o tempo
Traz novamente um vendaval
Cálido que cicatriza as velhas feridas
E cobre com bálsamo do esquecimento
Sem ficar nenhum escombro
Das ruínas que um dia fora civilização.
Onde o amor era lei
Mas por um desatino
Tornou-se bandido
Que na calada da noite
Roubava dos corações solitários
Um amor ainda não sentido.
O amor é uma impossibilidade
Num mundo que nega totalmente
As contravenções provocadas
Por uma vida injusta
Em que os pés pisam o concreto
Seco das lápides.

domingo, 17 de outubro de 2010

浄賢

Quando se tem os olhos transparentes
A mente permanece como um calmo lago
Imenso, eterno e imperturbável
E, nessa quietude, não há julgamentos
Na ausência de julgamentos, não surge a dualidade
Na não-dualidade, há apenas a sabedoria
Apenas a sabedoria existe
Sabedoria límpida e imaculada
Sabedoria pura.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Esperança também cansa

A esperança parece morrer jamais
Ainda que possamos desconfiar dela
Até mesmo contrariá-la por algum momento
Sempre ela retorna
Como retorna também o sorriso
Antes desaparecido da cara de tolo
Que pensa ser alguém especial.

Somente os tolos têm esperanças
Porque negam as relações interesseiras
Daqueles que sentem um medo profundo
De suas próprias emoções descontroladas
De um amor não resolvido
De uma vida em descaminho.

A esperança é uma droga que ingerimos
Para não morrermos de tédio.

Pela esperteza alguns morrem

Os espertos que me perdoem
Dessas de sobressair sozinho
Correr na dianteira como passarinho
Pode ser um grande desastre.

Quem anda na frente
Atrás de si uma multidão
Rola como rolo de compressão
Esmagando quem adiante se encontra.

Os espertos estão fadados
A serem atropelados.
Os espertos são tolos
Que pensam serem melhores
Do que os outros.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Expectativa infinita

Essa expectativa infinita
Foi derrubada pela música que meus ouvidos queriam escutar
Da sua boca fina
Poética e sábia
Que iluminou uma selva de conturbações
Abrindo caminha para eu enxergar
Que ela estava ali, sempre
No mesmo lugar
E que era eu que não sabia nem ler
Nem ver
Nem escutar

Acordes em desordem

Essas pequenas mãozinhas que escrevem
São fantoches de um mundo flutuante
Que não é habitado por ninguém
Só imaginado por alguém

Seus textos só são meros nomes
Enfileirados
Formando acordes
Desafinados

Que insistem em dizer que é verdade
Toda essa falsidade
De um mundo em desordem
Querendo impor ordem

Pois seus textos são só meros nomes
Enfileirados
Formando acordes
Desafinados

Que escrevem
Flutuantes
Por ninguém
Para alguém

Viver para perder

Você venceu
Ainda que use todos os argumentos
Ainda que use as armas que me restaram
Desarmado fiquei
Pois nenhuma arma é eficaz
Diante das falta de emoção
Desta armadura que traz
Envolta em seu corpo
Que rebenta as flechas envenenadas
Que um tolo ainda arremessa
Sabendo não ter efeito
Todo esforço só pode ser em vão
Toda paixão é uma batalha perdida
Num campo em que deita o trigo
Conforme a vontade do vento
Apenas do vento
Que brinca num passatempo
Qualquer
Sem respeitar a fraqueza
Dos eternos sonhadores
Que nada querem
Senão a liberdade de sonhar
Sem impedimento
Sem documento
Sem lei e sem rei
Numa terra de ninguém.

Insano momento insano

Ele atacou no interior
do interior
Das entranhas, viscerais
Sem deixar o controle
Nas mãos normais

Quem é ele não se pergunta
E sim de onde é ele
Que aferroa
Esquenta o sangue
Os olhos cegam
O corpo cai e definha
E a mente sai
Mansinha
Que no incontrole diz: saia! Não me atazane mais!
E então quer destruir o instante
E acreditando que é ali parada a sua salvação

Oh mente envenenada e inútil!
Que mal sabe o fim que terá
Se assim continuar
Embebedando e alimentando
Esse ser vulgar

domingo, 10 de outubro de 2010

L'Habanera

L’amour est enfant de Boheme
Il n’a jamais, jamais connu de lois
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Si je t’aime, prend garde a toi
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Mais, si je t’aime
Si je t’aime, prend garde toi
Si tu ne m’aime pas
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Mas, si je t’aime
Si je t’aime, prend garde a toi.

L’oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l’aile et s’envola...

Carmen, de Georges Bizet

A modelo

O corpo macerado da modelo
Que revela nas profundas
Estradas da vida
De veias entrecortadas
A idade passando num instante
Não causa maior espanto.

Até mesmo a decrepitude
Da epiderme flácida
Possui em si mesmo
Uma beleza plástica
Que pára no tempo.

A crueldade da carne
Em constante transformação
De massa incerta que
Modelada nas mãos do artista
Ganha vivacidade por um momento
Para morrer no momento seguinte.

As lembranças insignificantes

Numa casa velha abandonada
Vivem minhas lembranças
Que se pudesse esquecê-las
E por mais que tentasse assim fazer
Nada aconteceria
Como pudesse mudar
O que já fora escrito
Por mim mesmo.
Como podemos jogar fora
Os encontros realizados
Os desencontros mal colocados
Em minha insignificante
Existência.
O que sobraria
Se nem lembranças pudesse haver
Mais
Numa caixinha de música
A tocar solenemente uma valsa
E uma bailarina dançar
A morte do cisne.

A reação química

Nem tudo o que o espírito reflete
O corpo sente
Pois o corpo possui sua própria linguagem
E se comunica com outro corpo
E sente o calor deste
Quando o que mais importa
É sanar a necessidade
Daquele corpo carente
Do atrito inquietante dos pelos eriçados
Do choque elétrico
Da reação química
Que explode como as bombas
De uma noite de são joão.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os pecadores vão ao inferno

Os santos vão para o céu
Porque durante a vida
Nada fizeram de mal
E viveram completamente
Envoltos na própria ignorância
Sem provar o doce
Sem provar o salgado
Nem souberam o que era azul
Nunca olharam para o abismo profundo
Nem amaram suficientemente.

Mas outros
De pouca moderação vivida
Viveram intensamente os sentimentos
Mais profundos
Desceram ao abismo e queimaram no inferno
Sofreram horrores
Amaram intensamente as mulheres
De todas as procedências.

Não poderão jamais viver no céu
Devido sua monotonia insuportável
Para os de espírito irascível.
Rebelde a tal ponto que não suportariam
Toda ordem estabelecida
Nem a higiene dos anjos de branco
Cheirando ainda o perfume das lavanderias
De segunda mão.

Em silêncio

Por falar em amor
Melhor seria nada falaria
Que pudesse ser
Contravenção
Por si só
O silêncio
Sem explicação
Assim falaria
Sem fala alguma
Pela eternidade.

Vida não mais vivida

Que mistério te envolve
Que procura ocultar seu coração
Seja por precaução
Seja por medo de si própria
Uma modéstia sem razão alguma
Simplesmente para sobreviver
Às tempestades repentinas
Capazes de destruir os alicerces
Tão bem fincadas duma segurança
Contrária às aventuras libertinas
Do artista que procura todas as emoções
Para inventar a vida.

Não a sua
Sua vida não é inventada
Sua vida é uma trilha formada
Pelas condições das adversidades
Dadas pelo outro.

A tua é a vida
Do outro.
Por isso não pode viver
Sua própria vida.

A liberdade do poeta

Todos os poetas, porém, julgam que aquele que está deitado na erva ou numa encosta solitária, com o ouvido à escuta, aprende algo do que se passa entre o céu e a terra. E se experimentam ternas comoções, os poetas supõem sempre que a própria natureza está apaixonada por eles.
E que se lhe acerca o ouvido a murmurar coisas secretas e palavras carinhosas. Disso se gabam e se gloriam, perante todos os mortais. Existem tantas coisas entre o céu e a terra que só ao poetas sonharam.
E mormente no céu: porque todos os deuses, são símbolos e artifícios de poeta.

NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p. 106.

Luz e mistério

Composição: Beto Guedes / Caetano Veloso

Oh! Meu grande bem
Pudesse eu ver a estrada
Pudesse eu ter
A rota certa que levasse até
Dentro de ti

Oh! meu grande bem
Só vejo pistas falsas
É sempre assim
Cada picada aberta me tem mais
Fechado em mim

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Doçura de luz
Amargo e sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Oh grande mistério, meu bem, doce luz
Abrir as portas desse império teu
E ser feliz

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Uma canção triste

Numa velha canção
Do cancioneiro japonês
Que ouvi criança
Dizia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.

Nada sabia daquilo
Apenas ouvia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.

Muito tempo depois
Ouvia com nostalgia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.

Ainda não entendo
Estas palavras
Mas
Em minha súbita melancolia
Apenas ouço bater
Em meu ouvido esquerdo
Esta canção de infância:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.

Nos tempos do pica-pau

Minha musa de infância
Daquelas que anunciavam
Os desenhos do pica-pau
Apareceu num jornal de recordações.
Fiquei entusiasmado
Fiquei feliz
Para vê-la novamente.

Era outra pessoa
Totalmente diferente da outra
Nada lembrava aquela
Que usava mini-saia
Exibindo suas pernas grossas
Mas agora era
Uma velha senhora
De cabelos grisalhos
De pele enrugada
Que cuidava dos netos.
Fiquei assustado
Fiquei arrepiado
Não era ela.

O tempo passara
Maltratando a saúde
E pouco a pouco deteriorando
A pele aveludada
De pelos eriçados
De cor de trigo maduro.

O tempo tinha passado
A musa tinha passado
Eu também tinha passado
Menos a memória
Na qual ainda vivia
A jovem menina
Anunciando a próxima atração.

Vem pica-pau
Vem....

domingo, 3 de outubro de 2010

Morrer no silêncio

Nenhuma palavra a mais
Para ser dito
Maldito seria se
Uma palavra que seja
Fosse dito
Nesta hora inoportuna
Um sussurro que fosse
Levantaria poeira
Turvando toda a transparência
De seus olhos atlânticos
Em que naveguei pela primeira vez
E sofri a maresia
E por pouco não fui devorado
Pelas bruxas de Circe.

Não diga nada
As águas se tornam calmas
E até perigosas.

Não diga nada
As crianças que dormem à noite
Não devem ser importunadas.

Não diga nada...

Amar para morrer

Amar e desaparecer: são coisas que andam a par há eternidades. Querer amar é também estar pronto a morrer. Assim vos falo eu, covardes.

NIEZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.102.

Salvando os monstros...

É preciso igualmente que esqueça a sua vontade de herói; deve ser para mim um homem elevado, e não só sublime; até o éter deveria elevar esse homem sem vontade. Venceu monstros, adivinhou enigmas; mas precisava também salvar os seus monstros e os seus enigmas; precisava transformá-los em filhos divinos.
O seu conhecimento ainda não aprendeu a sorrir e a não ter inveja, a onda da sua paixão ainda se não acalmou na beleza.
Não é certamente na sociedade que se deve calar e submergir o seu desejo, mas na beleza.

NIETZSCHE. Friedrich. Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.98,99.

Contradição da vida

A vida do homem é uma tentativa aleatória. Ela só é um fenômeno monstruoso. Por causa de seus números e de sua exuberância. É tão fugitiva, tão imperfeita, que a existência de seres e seu desenvolvimento parece um prodígio.

JUNG. Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões, RJ: Editora Nova Fronteira, 2006, p.24