Num desses parques de diversão
Certa vez vi um na Amazônia
De minha infância havia muitos
De minha cidade natal
Havia lá num canto a roda-gigante
Nem tão grande assim
Sem nenhum charme de outrora
Sem charme algum
Velho e carcomido pelo sal
Da maresia que vinha com o vento
Desta vez era véspera de ano novo
Não uma data qualquer
Mas fiquei com uma vontade imensa
Na roda-gigante girar por um instante
Um pouco que fosse seria o suficiente
Fiquei de longe espreitando
Se ia
Se não ia
Rodar na roda-gigante que lá de cima
Enxergaria toda a cidade e o mar e as montanhas
Poderia ver o mundo de uma outra forma
Em panorâmica que jamais se veria
Se não fosse a mágica da roda-gigante.
Mas meus pés fincaram raízes
Nenhum avanço se deu
Em direção da roda-gigante
Que rodava
Que rodava
Os olhos que rodavam
Sempre em redemoinho
Num sonho rodava
Por um momento rodava
Por uma vida inteira rodava
Como que nunca mais fosse parar
Rodava como a própria vida rodava
E como invejei aqueles que rodavam
Na roda-gigante
Entorpecidos que estavam
Por uma felicidade momentânea
Por um momento eternizado
No rodar apenas
Da roda-gigante.
Quando parou ainda a felicidade
Existia no rosto daquele homem
Que rodou sem medo algum de enlouquecer
No rodar apenas
Da roda-gigante.
Daquele que ficou fora
Com medo de rodar
Rodopiava como pudesse ficar
Fora da roda-gigante.
E rodopiou junto
à roda-gigante.
Os rojões explodiam anunciando
Ano Novo!
Tudo mudou
Ao rodar apenas
Da roda-gigante.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Uma vida passageira
Tudo passa
O ano velho passa
Uma mulher gorda passa
Uma mulher magra passa
Todos os sonhos passam
Menos passa esta dor no pé direito
Que me visita três vezes por ano
E deixa um rastro de um passo
Arrastado num chinelo quase sem sola
Se a uva passa fosse apenas passado
O que passa neste coração maltrapilho
Que nada mais aprendeu
Nesta vida revirada e mal vivida
Que passou num instante...
Por isso gostamos dos filmes antigos
Daqueles em que as loiras falsas
São mais verdadeiras enfiadas
Em suas saias rodadas.
Um filme passa
E sentimo-nos felizes
Como se passasse ainda diante
De nossos olhos extasiados
Com vontade de abarcar o mundo
De um sonho que resiste em passar inteiro
Que nunca termina
De um filme
Que nunca termina.
O ano velho passa
Uma mulher gorda passa
Uma mulher magra passa
Todos os sonhos passam
Menos passa esta dor no pé direito
Que me visita três vezes por ano
E deixa um rastro de um passo
Arrastado num chinelo quase sem sola
Se a uva passa fosse apenas passado
O que passa neste coração maltrapilho
Que nada mais aprendeu
Nesta vida revirada e mal vivida
Que passou num instante...
Por isso gostamos dos filmes antigos
Daqueles em que as loiras falsas
São mais verdadeiras enfiadas
Em suas saias rodadas.
Um filme passa
E sentimo-nos felizes
Como se passasse ainda diante
De nossos olhos extasiados
Com vontade de abarcar o mundo
De um sonho que resiste em passar inteiro
Que nunca termina
De um filme
Que nunca termina.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
A história de meia vida
A cada dia de vida João colocava um tijolo no monte
Sem deixar passar um dia se quer
Os tijolos foram amontoados
E como não podia ser diferente
Um dia ele parou e reparou
Que na sua frente havia erguido um castelo
Chegava a ser assustador
João tinha medo de sua própria criação
De entrar e não saber o que encontrar
De deixar tudo o que conhecia do lado de fora
E passar pela porta sem ao menos olhar para trás
De forma tão repentina
Aquele sonho se transformou em realidade
E logo em incertezas
Que o apavoravam
Mas apesar disso
Muito estava em jogo
Não só para ele, mas por todos
Então, sem estremecer
Muito menos exitar
João se foi
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Acabou
Os livros se esgotaram
As palestras se encerraram
Os professores foram demitidos
As escolas fecharam
Os cursos foram concluídos
E os debates se calaram
Não há mais lugar para eu buscar
Não há mais lugar para eu fugir
Do real aprendizado
sentado
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Varais coloridos
Acima daquela linha da cidade
As pessoas penduram suas roupas
Coloridas
E outras descoloradas
Num varal em frente das casas
Sem pudor algum
Como tudo fosse permitido
Por um momento pensei
Usar roupas coloridas
Não ficaram bem!
Nunca fiz parte daquele mundo
Foi tão somente um delírio
Pois não posso ser alguém
Com camisas amarelas
Calças azuis.
Minhas roupas sempre foram
Negras.
As pessoas penduram suas roupas
Coloridas
E outras descoloradas
Num varal em frente das casas
Sem pudor algum
Como tudo fosse permitido
Por um momento pensei
Usar roupas coloridas
Não ficaram bem!
Nunca fiz parte daquele mundo
Foi tão somente um delírio
Pois não posso ser alguém
Com camisas amarelas
Calças azuis.
Minhas roupas sempre foram
Negras.
Nada mais sobrou da areia
Tudo passou como tempestade
Deixando pelo caminho coqueiros pelo chão
Tudo foi destruição
De um castelo de areia
Que parecia indestrutível
Uma fortaleza em que o menino
Construiu com outras mãos
Pequenas de uma menina.
Nada mais sobrou
E a menina se foi
Brincar em outras praias.
Nunca mais se ouviu falar dela
Mas o menino continua ainda
Construindo castelos de areia
Mesmo sabendo que a qualquer momento
Vem uma onda maior
E nada mais sobrará
Nenhum castelo
Somente areia
Como sempre foi...
Deixando pelo caminho coqueiros pelo chão
Tudo foi destruição
De um castelo de areia
Que parecia indestrutível
Uma fortaleza em que o menino
Construiu com outras mãos
Pequenas de uma menina.
Nada mais sobrou
E a menina se foi
Brincar em outras praias.
Nunca mais se ouviu falar dela
Mas o menino continua ainda
Construindo castelos de areia
Mesmo sabendo que a qualquer momento
Vem uma onda maior
E nada mais sobrará
Nenhum castelo
Somente areia
Como sempre foi...
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Um sorriso endurecido
Quando o sorriso não sai
Senão uma expressão apenas
De uma dor escondida por detrás
De uma face que não esconde mais
Tamanho desalento
Continuamos fazendo de conta
Que nada mais nos afeta realmente
Que nada tem importância mais
Que tudo mais não passa de passatempo
E passado para trás já fomos
Com outros igualmente perdedores.
Se ainda assim o sorriso surgir
Será menos de alegria
Será de saudade de um dia
Ter conhecido Mariana.
Senão uma expressão apenas
De uma dor escondida por detrás
De uma face que não esconde mais
Tamanho desalento
Continuamos fazendo de conta
Que nada mais nos afeta realmente
Que nada tem importância mais
Que tudo mais não passa de passatempo
E passado para trás já fomos
Com outros igualmente perdedores.
Se ainda assim o sorriso surgir
Será menos de alegria
Será de saudade de um dia
Ter conhecido Mariana.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
A chuva
A chuva é o choro do mundo
Choros de alegria e tristeza
Que alimentam os vegetais
E banham os animais
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
O diabo e o sexo
foto: Bruno Mitih

Casa de Moacir, artista nativo da cidade de São Jorge, interior de Goiás. Tem como temas centrais religião, sexo e demônios.

Casa de Moacir, artista nativo da cidade de São Jorge, interior de Goiás. Tem como temas centrais religião, sexo e demônios.
Pessach
O que se passa
Quando aquilo que passa
Passa sem pedir passagem;
Passa sem sobre passo
Sobre um passageiro
Que, de tantos passos,
Tropeçou no calço
Quando, no encalço do tempo,
(Que passava apressado)
Observava a paisagem
Passando despreocupada,
Como sinfonia de um compasso
Que gira, traço após traço,
Um mundo tão abstrato
Que parecia nunca passar.
O que se há de passar
Quando todo esse espaço
Infinito porém escasso
Eterno, conquanto fugaz.
Quando todo esse paradoxo
De uma eternidade passageira
Que relutamos em aceitar
Finalmente resolver passar?
Sem olhar
Me embriagando da cor da uva
No céu pintado, percebido de repente
Num mundo frenético
Que nem sequer olhava
Aquele rubro cair solar
Nem sequer olhava
A nuvem dançando
Nem sequer olhava
Um pássaro pousando
Nem sequer olhava
O dia passando
Comparar e sentir
Ver e olhar
Sentir
Viver é, único momento
Impossível de ser achatado
Em palavras, curtas e insignificantes
Palavras são comparadas
Em seu universo dual
Vivências são comparadas
Em um limitador dual
Neste poema em caso
Limitador fenomenal
Da vivência
domingo, 5 de dezembro de 2010
Um presente de aniversário
Que posso lhe dar
Se não nada mais tenho
Tenho amor em meu coração
Nada muito interessante
Tenho um desespero inquietante
Nada muito interessante
Posso revirar meus bolsos
E tirar lá do fundo
Um mundo inteiro que inventei
Figurinhas do mundo animal
Uma vassoura de bruxa em miniatura
Uma moeda furada que nada vale
Um pedaço de rapadura.
Tudo isso posso lhe dar
Com todo o encantamento
Que ainda ofusca meus olhos
Enche um alforje que levo a tiracolo.
Se não nada mais tenho
Tenho amor em meu coração
Nada muito interessante
Tenho um desespero inquietante
Nada muito interessante
Posso revirar meus bolsos
E tirar lá do fundo
Um mundo inteiro que inventei
Figurinhas do mundo animal
Uma vassoura de bruxa em miniatura
Uma moeda furada que nada vale
Um pedaço de rapadura.
Tudo isso posso lhe dar
Com todo o encantamento
Que ainda ofusca meus olhos
Enche um alforje que levo a tiracolo.
Que passa em minha frente
Cada vez que me encontro
Com as mulheres que conheci
Cada vez mais o devaneio se esvai
Como uma névoa que sobe e passa
Toda beleza se fora em instantes
Toda formosura não passa de uma lembrança
Melhor se fosse se não as encontrasse mais
Mas ainda assim não seria uma solução
Pois também a frescura de minha idade
Não passaria de uma ilusão.
Com as mulheres que conheci
Cada vez mais o devaneio se esvai
Como uma névoa que sobe e passa
Toda beleza se fora em instantes
Toda formosura não passa de uma lembrança
Melhor se fosse se não as encontrasse mais
Mas ainda assim não seria uma solução
Pois também a frescura de minha idade
Não passaria de uma ilusão.
Contando os dedos
Amigos
Contamos nas pontas do dedo
Assim disse certa vez um amigo.
Cada vez mais
Os números diminuíram
Sem que os dedos diminuíssem.
Para não desesperar
Cortemos os dedos
Ou paremos de contar.
Contamos nas pontas do dedo
Assim disse certa vez um amigo.
Cada vez mais
Os números diminuíram
Sem que os dedos diminuíssem.
Para não desesperar
Cortemos os dedos
Ou paremos de contar.
Tomando bebedeiras
Meu amigo mais velho se foi
Tomou todas as bebedeiras
E não se arrependeu!
Nunca tomei bebedeiras
E continuo vivo
Apesar da hipertensão
Apesar do colesterol
Mas me arrependo
De não vivido ainda o suficiente.
Como invejo meu amigo mais velho
Só meus versos me consolam...
Tomou todas as bebedeiras
E não se arrependeu!
Nunca tomei bebedeiras
E continuo vivo
Apesar da hipertensão
Apesar do colesterol
Mas me arrependo
De não vivido ainda o suficiente.
Como invejo meu amigo mais velho
Só meus versos me consolam...
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Apenas um único caminho
Nenhum caminho conduz
Naquilo que possa negar a vida
Pelo contrário todas as vidas
Caminham juntas em cruzada
Ainda que possam dizer o contrário.
Neste derradeiro caminhar
Nunca avançamos
Nunca recuamos.
Sem que pudéssemos dar
Um passo sequer
Onde o caminho não leva.
Caminhamos juntos
Sempre na mesma direção!
Naquilo que possa negar a vida
Pelo contrário todas as vidas
Caminham juntas em cruzada
Ainda que possam dizer o contrário.
Neste derradeiro caminhar
Nunca avançamos
Nunca recuamos.
Sem que pudéssemos dar
Um passo sequer
Onde o caminho não leva.
Caminhamos juntos
Sempre na mesma direção!
Calar é preciso
Quando as explicações são precisas
Toda confusão também é possível
Se as palavras não conseguem expressar
Um emaranhado de pontos vermelhos
Num céu infinitamente azul.
Algumas coisas não precisam
De explicação que nada explica
Além de dizer o mais obvio
Das futilidades.
Mas quando se cala e sorri
Nada mais diz
Do que toda a verdade
Que não necessita de explicações.
Toda confusão também é possível
Se as palavras não conseguem expressar
Um emaranhado de pontos vermelhos
Num céu infinitamente azul.
Algumas coisas não precisam
De explicação que nada explica
Além de dizer o mais obvio
Das futilidades.
Mas quando se cala e sorri
Nada mais diz
Do que toda a verdade
Que não necessita de explicações.
Um total desconhecimento
Quem diante de mim se encontra
Se nunca te encontrei antes
Se nunca te vi antes
Mas seu sorriso parece ter sentido
Em outros momentos vividos
Num sonho qualquer
De outro que tenha sonhado.
Nem sei como se chama
Como se a chama se incendiasse
Em instantes sem provocação
E reconhecesse um pouco que fosse
De uma emoção que se fora
Soprada em direção em que
Não mais me encontro.
Se uma alegria momentânea
Me assalta a alma desarmada
Em seguida uma tristeza profunda
Inunda toda experiência
Das emoções sentidas.
Quem diante de mim se encontra
Não sei seu nome
Mas seu sorriso...
Se nunca te encontrei antes
Se nunca te vi antes
Mas seu sorriso parece ter sentido
Em outros momentos vividos
Num sonho qualquer
De outro que tenha sonhado.
Nem sei como se chama
Como se a chama se incendiasse
Em instantes sem provocação
E reconhecesse um pouco que fosse
De uma emoção que se fora
Soprada em direção em que
Não mais me encontro.
Se uma alegria momentânea
Me assalta a alma desarmada
Em seguida uma tristeza profunda
Inunda toda experiência
Das emoções sentidas.
Quem diante de mim se encontra
Não sei seu nome
Mas seu sorriso...
Simplesmente fazemos
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Todas as pedras levadas morro acima
Todas as tardes sem que um minuto sequer
Parasse de mover as pernas
Seria a prova de fraqueza
Diante das incertezas
De um trabalho inútil.
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Como inútil podia ser o vôo do pássaro
Que cruza num instante o cinza do céu
Como inútil podia ser a dança flamenga
Numa tarde ensolarada
Numa taberna à beira da estrada.
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Os amores vivenciados não deixam saudades
Que se apagam no passado
Os rastros que se perdem na água
Do pato que nadou neste instante.
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Se nada disso fizesse
Todas as coisas inúteis
Teria-me esquecido de viver.
Todas as pedras levadas morro acima
Todas as tardes sem que um minuto sequer
Parasse de mover as pernas
Seria a prova de fraqueza
Diante das incertezas
De um trabalho inútil.
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Como inútil podia ser o vôo do pássaro
Que cruza num instante o cinza do céu
Como inútil podia ser a dança flamenga
Numa tarde ensolarada
Numa taberna à beira da estrada.
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Os amores vivenciados não deixam saudades
Que se apagam no passado
Os rastros que se perdem na água
Do pato que nadou neste instante.
Bem que ouvi mas não dei ouvidos.
Se nada disso fizesse
Todas as coisas inúteis
Teria-me esquecido de viver.
Das águas profundas
Desconheço totalmente o que se oculta
Abaixo das águas profundas de um poço sem fundo
Que existe no quintal amplo de minha existência
Quisera me perder num salto sem retorno
Mas meus pés não cedem um milímetro sequer.
Não por falta de coragem
Apenas pelas amarras que me atam
Numa emaranhada trama da vida
Em que sou apenas figurante.
Mas quanto mais me afasto daquele lugar
Mais me encontro em lugar algum
Por isso continuo a viver fora das águas
Ansiando todavia escorregar água adentro.
Abaixo das águas profundas de um poço sem fundo
Que existe no quintal amplo de minha existência
Quisera me perder num salto sem retorno
Mas meus pés não cedem um milímetro sequer.
Não por falta de coragem
Apenas pelas amarras que me atam
Numa emaranhada trama da vida
Em que sou apenas figurante.
Mas quanto mais me afasto daquele lugar
Mais me encontro em lugar algum
Por isso continuo a viver fora das águas
Ansiando todavia escorregar água adentro.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O urubu
Mamãe, quando eu crescer quero ser um urubu
Ser a sombra negra de asas abertas lá no alto
Ter a morte como vida e a vida, como morte
Ser o verso brutal da ausência
que a tudo espia lá do céu
E em círculos, ser a espera
a espera do inevitável, o certo.
Mamãe é isto o que eu quero ser,
a sombra magra de um anjo
Quero ser a noite estampada
na face luminosa do céu risonho
Ser o amor universal
pairando sobre o destino grato
Mamãe, isso é tudo,
mas se isto eu não for
e me acontecer de ser poeta
por favor me aceite
Esquelético e de andar desequilibrado.
Com a voz louca de milênios de gerações doentias.
Solitário no interior do ovo cósmico,
a estremecer com a explosão da energia galvânica
e a cegar com a luminosidade
nauseante dos raios gama.
Deixa-me perdido, e aflito,
Deixa-me entristecido assim para eu ser poeta
⎯ Poeta Grande
(homenagem a Augusto dos Anjos)


.
Ser a sombra negra de asas abertas lá no alto
Ter a morte como vida e a vida, como morte
Ser o verso brutal da ausência
que a tudo espia lá do céu
E em círculos, ser a espera
a espera do inevitável, o certo.
Mamãe é isto o que eu quero ser,
a sombra magra de um anjo
Quero ser a noite estampada
na face luminosa do céu risonho
Ser o amor universal
pairando sobre o destino grato
Mamãe, isso é tudo,
mas se isto eu não for
e me acontecer de ser poeta
por favor me aceite
Esquelético e de andar desequilibrado.
Com a voz louca de milênios de gerações doentias.
Solitário no interior do ovo cósmico,
a estremecer com a explosão da energia galvânica
e a cegar com a luminosidade
nauseante dos raios gama.
Deixa-me perdido, e aflito,
Deixa-me entristecido assim para eu ser poeta
⎯ Poeta Grande
(homenagem a Augusto dos Anjos)


.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Canção do mendigo
Que existe de excepcional afinal
Se abaixo do mesmo viaduto
Passe ano todo engano
O mesmo mendigo continua
Naquele exato ponto
Sem se importar com o passar do tempo
Passado e presente de pouca importância
Para o mendigo de sempre
Que vive tão somente
Momento presente
Um cão sua companhia
Nada mais precisa
Até que a mulher se fora
E assim se consola
Tomando tragadas que consome
De cirrose hepática
Suas tripas já totalmente
Deterioradas.
Nem isso é motivo
Para morrer agora!
Por teimosia não morre
Não se morre no abandono
Mas se morre por falta de amor
Por isso continua ele
Amando as mulheres que teve
Que vivem agora
Todas elas num sonho
Sonhado pelo mendigo
Sonhado agora.
Se abaixo do mesmo viaduto
Passe ano todo engano
O mesmo mendigo continua
Naquele exato ponto
Sem se importar com o passar do tempo
Passado e presente de pouca importância
Para o mendigo de sempre
Que vive tão somente
Momento presente
Um cão sua companhia
Nada mais precisa
Até que a mulher se fora
E assim se consola
Tomando tragadas que consome
De cirrose hepática
Suas tripas já totalmente
Deterioradas.
Nem isso é motivo
Para morrer agora!
Por teimosia não morre
Não se morre no abandono
Mas se morre por falta de amor
Por isso continua ele
Amando as mulheres que teve
Que vivem agora
Todas elas num sonho
Sonhado pelo mendigo
Sonhado agora.
A arte subversiva
Parece-me bastante possível sustentar que a função da literatura como força geratriz digna de prêmio consiste precisamente em incitar a humanidade a continuar a viver; em aliviar as tensões da mente, em nutri-la, e nutri-la, digo-o claramente, com a nutrição de impulsos.
Esta concepção talvez inquiete os amantes da ordem. Assim como muitas vezes os inquieta a boa literatura. Consideram-na perigosa, caótica, subversiva.
POUND. Ezra, A arte da poesia – Ensaios escolhidos, São Paulo, Cultrix, Edusp, 1976, p.32
Esta concepção talvez inquiete os amantes da ordem. Assim como muitas vezes os inquieta a boa literatura. Consideram-na perigosa, caótica, subversiva.
POUND. Ezra, A arte da poesia – Ensaios escolhidos, São Paulo, Cultrix, Edusp, 1976, p.32
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Antes
Por favor me desconheça. É muito?
Nem sei mais. Mas faça esse favor
queira assim desde já ⎯ ouça
nem mesmo os relógios sabem do tempo
nem eu poderia pedir nada mais valioso
Me desconheça sempre antes da intenção
É pedir muito? Me olhe não me olhe assim
Não seja espelho, antes vidro, antes brisa
.
Nem sei mais. Mas faça esse favor
queira assim desde já ⎯ ouça
nem mesmo os relógios sabem do tempo
nem eu poderia pedir nada mais valioso
Me desconheça sempre antes da intenção
É pedir muito? Me olhe não me olhe assim
Não seja espelho, antes vidro, antes brisa
.
domingo, 28 de novembro de 2010
A beleza é de outro lugar
Nenhuma reconciliação é possível
Se impossível fosse viver sem beleza
Ainda que toda atenção fosse dada
Naquilo que fosse útil.
Nada mais inútil que o esforço
Em buscar uma felicidade
Que deixou de existir num mundo
Em que nenhuma beleza fosse mais
Possível.
Nenhum lugar para o amor
Cujo preço é padecer de um sentimento
Sem lugar neste mundo.
Somente existe nos corações
Dos tolos e doentes
Que vivem para sofrer.
Se impossível fosse viver sem beleza
Ainda que toda atenção fosse dada
Naquilo que fosse útil.
Nada mais inútil que o esforço
Em buscar uma felicidade
Que deixou de existir num mundo
Em que nenhuma beleza fosse mais
Possível.
Nenhum lugar para o amor
Cujo preço é padecer de um sentimento
Sem lugar neste mundo.
Somente existe nos corações
Dos tolos e doentes
Que vivem para sofrer.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
O terceiro olho
Três segredos eu contei sem você chegar
⎯ os meus olhos fosforescentes ⎯
três chances de escapar da vida eram
três vezes, três vezes eu sorri sem boca
.assim foi
e senti o tempo vibrando minhas mãos secas
Sete flores em vão eu colhi com estes olhos sem você
⎯ e no fundo, no-fundo-no-fundo, o por-do-sol é como
piche sobre carvão ⎯ sim
foram três segredos sem ouvidos
foram três chances ao pó
e seguir alegre estrada era
arribar em bando dentro da ventania
sumindo cintilante sob o sol frio
⎯ os meus olhos fosforescentes ⎯
três chances de escapar da vida eram
três vezes, três vezes eu sorri sem boca
.assim foi
e senti o tempo vibrando minhas mãos secas
Sete flores em vão eu colhi com estes olhos sem você
⎯ e no fundo, no-fundo-no-fundo, o por-do-sol é como
piche sobre carvão ⎯ sim
foram três segredos sem ouvidos
foram três chances ao pó
e seguir alegre estrada era
arribar em bando dentro da ventania
sumindo cintilante sob o sol frio
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Pergunta
Quando será que virá o desapego das antigas formas mistificadas para uma resignificação da realidade? Será que nessa mudança a realidade poderá ser percebida sem a conformação imposta pela cultura?
domingo, 21 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Um canto por Haiti
O que acontece nas terras do Haiti
O que acontece com as mulheres do Haiti
Senão a de continuarem a morrer
E seus filhos também
Enquanto nada mais se faz
Senão uma nota lacônica no jornal
Sem nenhum pudor
Como nada mais tivesse acontecido
Um pouco acima da linha do Equador.
Como nada mais importasse
Os olhos estão cegos para ver
Os ouvidos surdos para escutar
E o coração?
Parou de tocar
Como nada mais importasse
Com as mulheres do Haiti
Magras e sem brilho nos olhos
Que amaram seus homens
Que amaram seus filhos
Que não são amados por ninguém.
O que acontece nas terras do Haiti
Ninguém sabe
Ninguém toma conhecimento
Nem ao menos se importam
Que morrem
E devem ser enterrados
Pelos seus próprios mortos.
Ouçam o lamento
Das mulheres do Haiti
Ouçam
Apenas ouçam aqueles
Que tiverem ouvidos para isso.
Ainda assim
As mulheres do Haiti
Sorriem seus dentes brancos
Pois mais do que elas
Quem necessita de ajuda
São os que não estão no Haiti.
Bendito Haiti!
Dos deuses da África.
O que acontece com as mulheres do Haiti
Senão a de continuarem a morrer
E seus filhos também
Enquanto nada mais se faz
Senão uma nota lacônica no jornal
Sem nenhum pudor
Como nada mais tivesse acontecido
Um pouco acima da linha do Equador.
Como nada mais importasse
Os olhos estão cegos para ver
Os ouvidos surdos para escutar
E o coração?
Parou de tocar
Como nada mais importasse
Com as mulheres do Haiti
Magras e sem brilho nos olhos
Que amaram seus homens
Que amaram seus filhos
Que não são amados por ninguém.
O que acontece nas terras do Haiti
Ninguém sabe
Ninguém toma conhecimento
Nem ao menos se importam
Que morrem
E devem ser enterrados
Pelos seus próprios mortos.
Ouçam o lamento
Das mulheres do Haiti
Ouçam
Apenas ouçam aqueles
Que tiverem ouvidos para isso.
Ainda assim
As mulheres do Haiti
Sorriem seus dentes brancos
Pois mais do que elas
Quem necessita de ajuda
São os que não estão no Haiti.
Bendito Haiti!
Dos deuses da África.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Palavras vazias 02
De beleza inigualável
De consoantes alinhas
A vogais desenhadas
Contínuas sem menor objetivo
Seguidas do pior significado
Sem dado
Sem nada
Se algo pra querer
Ser e escrever
Letras e letras costuradas
Atrás, umas das outras
Sem fio
Sem fio da meada
Sem nada
Vazia
Apenas bonita
E de que me adianta
Palavras vazias
Se elas nada preenchem
E sim são preenchidas com as idéias
Da mente
Que cada um tem uma
De forma diferente
Que completa
O vazio
Como a água que
Completa um rio
De consoantes alinhas
A vogais desenhadas
Contínuas sem menor objetivo
Seguidas do pior significado
Sem dado
Sem nada
Se algo pra querer
Ser e escrever
Letras e letras costuradas
Atrás, umas das outras
Sem fio
Sem fio da meada
Sem nada
Vazia
Apenas bonita
E de que me adianta
Palavras vazias
Se elas nada preenchem
E sim são preenchidas com as idéias
Da mente
Que cada um tem uma
De forma diferente
Que completa
O vazio
Como a água que
Completa um rio
Um poema sujo
O que pode ser mais maldito
Do que a sinceridade das palavras
Dessas que saem espontaneamente
Que assustam
Que acusam
Que nos arrependemos depois
Por causa de toda a verdade
Afinal vivemos para mentir
E por isso medimos as palavras
E mentimos para nós mesmos
O desprezo de nossos sentimentos
Aqueles mais profundos
Alguns imundos
Sujos e carnais
Porque bonito é ser espiritual
Como no mundo dos anjos
Que não amam mais
Nem odeiam
Apenas obedecem.
Do que a sinceridade das palavras
Dessas que saem espontaneamente
Que assustam
Que acusam
Que nos arrependemos depois
Por causa de toda a verdade
Afinal vivemos para mentir
E por isso medimos as palavras
E mentimos para nós mesmos
O desprezo de nossos sentimentos
Aqueles mais profundos
Alguns imundos
Sujos e carnais
Porque bonito é ser espiritual
Como no mundo dos anjos
Que não amam mais
Nem odeiam
Apenas obedecem.
Redemoinho de nossas vidas
Continuamos repetindo o mesmo
Movimento circular de sempre
Sem nunca sair do lugar
Rodopiando em roda
Até cansar as pernas
E quando cansamos
Paramos e ficamos pensando
Do erro que cometemos antes.
Num outro ponto
Novamente damos início ao
Movimento circular de sempre
Pensando fazer alguma coisa nova
Mas velho ficou antes de começar
Achando que antes erramos
Mas fazemos o mesmo
O mesmo de antes.
E assim vivemos
Repetindo sempre
Em redemoinho sempre!
Movimento circular de sempre
Sem nunca sair do lugar
Rodopiando em roda
Até cansar as pernas
E quando cansamos
Paramos e ficamos pensando
Do erro que cometemos antes.
Num outro ponto
Novamente damos início ao
Movimento circular de sempre
Pensando fazer alguma coisa nova
Mas velho ficou antes de começar
Achando que antes erramos
Mas fazemos o mesmo
O mesmo de antes.
E assim vivemos
Repetindo sempre
Em redemoinho sempre!
Claridade ofuscante
Muitas vezes temos que
Fechar os olhos
Pois a claridade ofusca
E quando fechamos
Uma nova claridade
Clareia intensamente
O que antes escurecia
De podermos enxergar
De outra forma
Com as lamparinas internas
Sem medo de ocultar
Nenhum ser das sombras
Que saem das regiões cavernosas
Carregando suas armas
Uma imensa rede de pesca
E deixamos nos pescar
Sem medo de morrer na praia
E se morrermos sempre estaremos
Em nossa casa.
De onde nunca saímos
Nem nascemos.
Apenas seduzidos por uma fresta
De luz exterior
De uma luz interior
De uma luz qualquer
Caímos na ilusão
Pois luz
É mais escuridão
Que todo nosso raciocínio
Possa ter.
E quando pensamos
Clareamos a nossa mente
Para não enxergar mais
E toda confusão se torna
Latente.
Fechar os olhos
Pois a claridade ofusca
E quando fechamos
Uma nova claridade
Clareia intensamente
O que antes escurecia
De podermos enxergar
De outra forma
Com as lamparinas internas
Sem medo de ocultar
Nenhum ser das sombras
Que saem das regiões cavernosas
Carregando suas armas
Uma imensa rede de pesca
E deixamos nos pescar
Sem medo de morrer na praia
E se morrermos sempre estaremos
Em nossa casa.
De onde nunca saímos
Nem nascemos.
Apenas seduzidos por uma fresta
De luz exterior
De uma luz interior
De uma luz qualquer
Caímos na ilusão
Pois luz
É mais escuridão
Que todo nosso raciocínio
Possa ter.
E quando pensamos
Clareamos a nossa mente
Para não enxergar mais
E toda confusão se torna
Latente.
domingo, 14 de novembro de 2010
Um poema irônico
Nada mais pode ser resgatado
De um tempo que ficou atrasado
Senão a imagem desfocada
De uma miopia sentimental
Que carece de óculos de grau.
Quando menos se espera
A poeira de uma saudade imensa
Chega de mansinho
Bem devagarzinho
E se instala em feridas ainda
Mal fechadas
Nunca resolvidas.
Nada mais resta do que sentir a dor
E perder-se em cada gemido
Silenciosamente sentido
Mas mostrando na cara
Um sorriso irônico de si mesmo.
De um tempo que ficou atrasado
Senão a imagem desfocada
De uma miopia sentimental
Que carece de óculos de grau.
Quando menos se espera
A poeira de uma saudade imensa
Chega de mansinho
Bem devagarzinho
E se instala em feridas ainda
Mal fechadas
Nunca resolvidas.
Nada mais resta do que sentir a dor
E perder-se em cada gemido
Silenciosamente sentido
Mas mostrando na cara
Um sorriso irônico de si mesmo.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Sensação de impotência
Sensação de impotência
É de impotência a sensação
De, após caminhar um dia
Com uma miríade de sentimentos
E de experiências
Não poder mover um dedo se quer
Em pro da verdade
Em prol do meu juramento
É de impotência a sensação
Sentar e somente assistir
Sem poder jogar
E marcar pontos para ambos os lados
E marcar sorrisos em ambas as faces
É tão difícil
Entender
Viver e conviver
Ainda mais sem poder
Dissolver o sofrimento
Incrustados não sei onde
É de impotência a sensação
De, após caminhar um dia
Com uma miríade de sentimentos
E de experiências
Não poder mover um dedo se quer
Em pro da verdade
Em prol do meu juramento
É de impotência a sensação
Sentar e somente assistir
Sem poder jogar
E marcar pontos para ambos os lados
E marcar sorrisos em ambas as faces
É tão difícil
Entender
Viver e conviver
Ainda mais sem poder
Dissolver o sofrimento
Incrustados não sei onde
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Corpo
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro. Edições Graal. 1979. p. 22.
O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as idéias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência, está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo.
O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as idéias os dissolvem), lugar de dissociação do Eu (que supõe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpétua pulverização. A genealogia, como análise da proveniência, está portanto no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado de história e a história arruinando o corpo.
sábado, 30 de outubro de 2010
Cada um, cada coisa
Cada coisa em seu lugar
Cada cueca na gaveta
Cada um em seu lugar
Cada verso em cada linha.
Cada coisa que se vê...
Cada um com seus ''pobrema''
Cada ator em sua cena,
Cadê minhas cuecas na gaveta?
Cada cueca na gaveta
Cada um em seu lugar
Cada verso em cada linha.
Cada coisa que se vê...
Cada um com seus ''pobrema''
Cada ator em sua cena,
Cadê minhas cuecas na gaveta?
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O esquecimento
Somente com o tempo
Traz novamente um vendaval
Cálido que cicatriza as velhas feridas
E cobre com bálsamo do esquecimento
Sem ficar nenhum escombro
Das ruínas que um dia fora civilização.
Onde o amor era lei
Mas por um desatino
Tornou-se bandido
Que na calada da noite
Roubava dos corações solitários
Um amor ainda não sentido.
O amor é uma impossibilidade
Num mundo que nega totalmente
As contravenções provocadas
Por uma vida injusta
Em que os pés pisam o concreto
Seco das lápides.
Traz novamente um vendaval
Cálido que cicatriza as velhas feridas
E cobre com bálsamo do esquecimento
Sem ficar nenhum escombro
Das ruínas que um dia fora civilização.
Onde o amor era lei
Mas por um desatino
Tornou-se bandido
Que na calada da noite
Roubava dos corações solitários
Um amor ainda não sentido.
O amor é uma impossibilidade
Num mundo que nega totalmente
As contravenções provocadas
Por uma vida injusta
Em que os pés pisam o concreto
Seco das lápides.
domingo, 17 de outubro de 2010
浄賢
Quando se tem os olhos transparentes
A mente permanece como um calmo lago
Imenso, eterno e imperturbável
E, nessa quietude, não há julgamentos
Na ausência de julgamentos, não surge a dualidade
Na não-dualidade, há apenas a sabedoria
Apenas a sabedoria existe
Sabedoria límpida e imaculada
Sabedoria pura.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Esperança também cansa
A esperança parece morrer jamais
Ainda que possamos desconfiar dela
Até mesmo contrariá-la por algum momento
Sempre ela retorna
Como retorna também o sorriso
Antes desaparecido da cara de tolo
Que pensa ser alguém especial.
Somente os tolos têm esperanças
Porque negam as relações interesseiras
Daqueles que sentem um medo profundo
De suas próprias emoções descontroladas
De um amor não resolvido
De uma vida em descaminho.
A esperança é uma droga que ingerimos
Para não morrermos de tédio.
Ainda que possamos desconfiar dela
Até mesmo contrariá-la por algum momento
Sempre ela retorna
Como retorna também o sorriso
Antes desaparecido da cara de tolo
Que pensa ser alguém especial.
Somente os tolos têm esperanças
Porque negam as relações interesseiras
Daqueles que sentem um medo profundo
De suas próprias emoções descontroladas
De um amor não resolvido
De uma vida em descaminho.
A esperança é uma droga que ingerimos
Para não morrermos de tédio.
Pela esperteza alguns morrem
Os espertos que me perdoem
Dessas de sobressair sozinho
Correr na dianteira como passarinho
Pode ser um grande desastre.
Quem anda na frente
Atrás de si uma multidão
Rola como rolo de compressão
Esmagando quem adiante se encontra.
Os espertos estão fadados
A serem atropelados.
Os espertos são tolos
Que pensam serem melhores
Do que os outros.
Dessas de sobressair sozinho
Correr na dianteira como passarinho
Pode ser um grande desastre.
Quem anda na frente
Atrás de si uma multidão
Rola como rolo de compressão
Esmagando quem adiante se encontra.
Os espertos estão fadados
A serem atropelados.
Os espertos são tolos
Que pensam serem melhores
Do que os outros.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Expectativa infinita
Essa expectativa infinita
Foi derrubada pela música que meus ouvidos queriam escutar
Da sua boca fina
Poética e sábia
Que iluminou uma selva de conturbações
Abrindo caminha para eu enxergar
Que ela estava ali, sempre
No mesmo lugar
E que era eu que não sabia nem ler
Nem ver
Nem escutar
Foi derrubada pela música que meus ouvidos queriam escutar
Da sua boca fina
Poética e sábia
Que iluminou uma selva de conturbações
Abrindo caminha para eu enxergar
Que ela estava ali, sempre
No mesmo lugar
E que era eu que não sabia nem ler
Nem ver
Nem escutar
Acordes em desordem
Essas pequenas mãozinhas que escrevem
São fantoches de um mundo flutuante
Que não é habitado por ninguém
Só imaginado por alguém
Seus textos só são meros nomes
Enfileirados
Formando acordes
Desafinados
Que insistem em dizer que é verdade
Toda essa falsidade
De um mundo em desordem
Querendo impor ordem
Pois seus textos são só meros nomes
Enfileirados
Formando acordes
Desafinados
Que escrevem
Flutuantes
Por ninguém
Para alguém
São fantoches de um mundo flutuante
Que não é habitado por ninguém
Só imaginado por alguém
Seus textos só são meros nomes
Enfileirados
Formando acordes
Desafinados
Que insistem em dizer que é verdade
Toda essa falsidade
De um mundo em desordem
Querendo impor ordem
Pois seus textos são só meros nomes
Enfileirados
Formando acordes
Desafinados
Que escrevem
Flutuantes
Por ninguém
Para alguém
Viver para perder
Você venceu
Ainda que use todos os argumentos
Ainda que use as armas que me restaram
Desarmado fiquei
Pois nenhuma arma é eficaz
Diante das falta de emoção
Desta armadura que traz
Envolta em seu corpo
Que rebenta as flechas envenenadas
Que um tolo ainda arremessa
Sabendo não ter efeito
Todo esforço só pode ser em vão
Toda paixão é uma batalha perdida
Num campo em que deita o trigo
Conforme a vontade do vento
Apenas do vento
Que brinca num passatempo
Qualquer
Sem respeitar a fraqueza
Dos eternos sonhadores
Que nada querem
Senão a liberdade de sonhar
Sem impedimento
Sem documento
Sem lei e sem rei
Numa terra de ninguém.
Ainda que use todos os argumentos
Ainda que use as armas que me restaram
Desarmado fiquei
Pois nenhuma arma é eficaz
Diante das falta de emoção
Desta armadura que traz
Envolta em seu corpo
Que rebenta as flechas envenenadas
Que um tolo ainda arremessa
Sabendo não ter efeito
Todo esforço só pode ser em vão
Toda paixão é uma batalha perdida
Num campo em que deita o trigo
Conforme a vontade do vento
Apenas do vento
Que brinca num passatempo
Qualquer
Sem respeitar a fraqueza
Dos eternos sonhadores
Que nada querem
Senão a liberdade de sonhar
Sem impedimento
Sem documento
Sem lei e sem rei
Numa terra de ninguém.
Insano momento insano
Ele atacou no interior
do interior
Das entranhas, viscerais
Sem deixar o controle
Nas mãos normais
Quem é ele não se pergunta
E sim de onde é ele
Que aferroa
Esquenta o sangue
Os olhos cegam
O corpo cai e definha
E a mente sai
Mansinha
Que no incontrole diz: saia! Não me atazane mais!
E então quer destruir o instante
E acreditando que é ali parada a sua salvação
Oh mente envenenada e inútil!
Que mal sabe o fim que terá
Se assim continuar
Embebedando e alimentando
Esse ser vulgar
do interior
Das entranhas, viscerais
Sem deixar o controle
Nas mãos normais
Quem é ele não se pergunta
E sim de onde é ele
Que aferroa
Esquenta o sangue
Os olhos cegam
O corpo cai e definha
E a mente sai
Mansinha
Que no incontrole diz: saia! Não me atazane mais!
E então quer destruir o instante
E acreditando que é ali parada a sua salvação
Oh mente envenenada e inútil!
Que mal sabe o fim que terá
Se assim continuar
Embebedando e alimentando
Esse ser vulgar
domingo, 10 de outubro de 2010
L'Habanera
L’amour est enfant de Boheme
Il n’a jamais, jamais connu de lois
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Si je t’aime, prend garde a toi
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Mais, si je t’aime
Si je t’aime, prend garde toi
Si tu ne m’aime pas
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Mas, si je t’aime
Si je t’aime, prend garde a toi.
L’oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l’aile et s’envola...
Carmen, de Georges Bizet
Il n’a jamais, jamais connu de lois
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Si je t’aime, prend garde a toi
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Mais, si je t’aime
Si je t’aime, prend garde toi
Si tu ne m’aime pas
Si tu ne m’aime pas, je t’aime
Mas, si je t’aime
Si je t’aime, prend garde a toi.
L’oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l’aile et s’envola...
Carmen, de Georges Bizet
A modelo
O corpo macerado da modelo
Que revela nas profundas
Estradas da vida
De veias entrecortadas
A idade passando num instante
Não causa maior espanto.
Até mesmo a decrepitude
Da epiderme flácida
Possui em si mesmo
Uma beleza plástica
Que pára no tempo.
A crueldade da carne
Em constante transformação
De massa incerta que
Modelada nas mãos do artista
Ganha vivacidade por um momento
Para morrer no momento seguinte.
Que revela nas profundas
Estradas da vida
De veias entrecortadas
A idade passando num instante
Não causa maior espanto.
Até mesmo a decrepitude
Da epiderme flácida
Possui em si mesmo
Uma beleza plástica
Que pára no tempo.
A crueldade da carne
Em constante transformação
De massa incerta que
Modelada nas mãos do artista
Ganha vivacidade por um momento
Para morrer no momento seguinte.
As lembranças insignificantes
Numa casa velha abandonada
Vivem minhas lembranças
Que se pudesse esquecê-las
E por mais que tentasse assim fazer
Nada aconteceria
Como pudesse mudar
O que já fora escrito
Por mim mesmo.
Como podemos jogar fora
Os encontros realizados
Os desencontros mal colocados
Em minha insignificante
Existência.
O que sobraria
Se nem lembranças pudesse haver
Mais
Numa caixinha de música
A tocar solenemente uma valsa
E uma bailarina dançar
A morte do cisne.
Vivem minhas lembranças
Que se pudesse esquecê-las
E por mais que tentasse assim fazer
Nada aconteceria
Como pudesse mudar
O que já fora escrito
Por mim mesmo.
Como podemos jogar fora
Os encontros realizados
Os desencontros mal colocados
Em minha insignificante
Existência.
O que sobraria
Se nem lembranças pudesse haver
Mais
Numa caixinha de música
A tocar solenemente uma valsa
E uma bailarina dançar
A morte do cisne.
A reação química
Nem tudo o que o espírito reflete
O corpo sente
Pois o corpo possui sua própria linguagem
E se comunica com outro corpo
E sente o calor deste
Quando o que mais importa
É sanar a necessidade
Daquele corpo carente
Do atrito inquietante dos pelos eriçados
Do choque elétrico
Da reação química
Que explode como as bombas
De uma noite de são joão.
O corpo sente
Pois o corpo possui sua própria linguagem
E se comunica com outro corpo
E sente o calor deste
Quando o que mais importa
É sanar a necessidade
Daquele corpo carente
Do atrito inquietante dos pelos eriçados
Do choque elétrico
Da reação química
Que explode como as bombas
De uma noite de são joão.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Os pecadores vão ao inferno
Os santos vão para o céu
Porque durante a vida
Nada fizeram de mal
E viveram completamente
Envoltos na própria ignorância
Sem provar o doce
Sem provar o salgado
Nem souberam o que era azul
Nunca olharam para o abismo profundo
Nem amaram suficientemente.
Mas outros
De pouca moderação vivida
Viveram intensamente os sentimentos
Mais profundos
Desceram ao abismo e queimaram no inferno
Sofreram horrores
Amaram intensamente as mulheres
De todas as procedências.
Não poderão jamais viver no céu
Devido sua monotonia insuportável
Para os de espírito irascível.
Rebelde a tal ponto que não suportariam
Toda ordem estabelecida
Nem a higiene dos anjos de branco
Cheirando ainda o perfume das lavanderias
De segunda mão.
Porque durante a vida
Nada fizeram de mal
E viveram completamente
Envoltos na própria ignorância
Sem provar o doce
Sem provar o salgado
Nem souberam o que era azul
Nunca olharam para o abismo profundo
Nem amaram suficientemente.
Mas outros
De pouca moderação vivida
Viveram intensamente os sentimentos
Mais profundos
Desceram ao abismo e queimaram no inferno
Sofreram horrores
Amaram intensamente as mulheres
De todas as procedências.
Não poderão jamais viver no céu
Devido sua monotonia insuportável
Para os de espírito irascível.
Rebelde a tal ponto que não suportariam
Toda ordem estabelecida
Nem a higiene dos anjos de branco
Cheirando ainda o perfume das lavanderias
De segunda mão.
Em silêncio
Por falar em amor
Melhor seria nada falaria
Que pudesse ser
Contravenção
Por si só
O silêncio
Sem explicação
Assim falaria
Sem fala alguma
Pela eternidade.
Melhor seria nada falaria
Que pudesse ser
Contravenção
Por si só
O silêncio
Sem explicação
Assim falaria
Sem fala alguma
Pela eternidade.
Vida não mais vivida
Que mistério te envolve
Que procura ocultar seu coração
Seja por precaução
Seja por medo de si própria
Uma modéstia sem razão alguma
Simplesmente para sobreviver
Às tempestades repentinas
Capazes de destruir os alicerces
Tão bem fincadas duma segurança
Contrária às aventuras libertinas
Do artista que procura todas as emoções
Para inventar a vida.
Não a sua
Sua vida não é inventada
Sua vida é uma trilha formada
Pelas condições das adversidades
Dadas pelo outro.
A tua é a vida
Do outro.
Por isso não pode viver
Sua própria vida.
Que procura ocultar seu coração
Seja por precaução
Seja por medo de si própria
Uma modéstia sem razão alguma
Simplesmente para sobreviver
Às tempestades repentinas
Capazes de destruir os alicerces
Tão bem fincadas duma segurança
Contrária às aventuras libertinas
Do artista que procura todas as emoções
Para inventar a vida.
Não a sua
Sua vida não é inventada
Sua vida é uma trilha formada
Pelas condições das adversidades
Dadas pelo outro.
A tua é a vida
Do outro.
Por isso não pode viver
Sua própria vida.
A liberdade do poeta
Todos os poetas, porém, julgam que aquele que está deitado na erva ou numa encosta solitária, com o ouvido à escuta, aprende algo do que se passa entre o céu e a terra. E se experimentam ternas comoções, os poetas supõem sempre que a própria natureza está apaixonada por eles.
E que se lhe acerca o ouvido a murmurar coisas secretas e palavras carinhosas. Disso se gabam e se gloriam, perante todos os mortais. Existem tantas coisas entre o céu e a terra que só ao poetas sonharam.
E mormente no céu: porque todos os deuses, são símbolos e artifícios de poeta.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p. 106.
E que se lhe acerca o ouvido a murmurar coisas secretas e palavras carinhosas. Disso se gabam e se gloriam, perante todos os mortais. Existem tantas coisas entre o céu e a terra que só ao poetas sonharam.
E mormente no céu: porque todos os deuses, são símbolos e artifícios de poeta.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p. 106.
Luz e mistério
Composição: Beto Guedes / Caetano Veloso
Oh! Meu grande bem
Pudesse eu ver a estrada
Pudesse eu ter
A rota certa que levasse até
Dentro de ti
Oh! meu grande bem
Só vejo pistas falsas
É sempre assim
Cada picada aberta me tem mais
Fechado em mim
És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério
Doçura de luz
Amargo e sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração
És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério
Oh grande mistério, meu bem, doce luz
Abrir as portas desse império teu
E ser feliz
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Uma canção triste
Numa velha canção
Do cancioneiro japonês
Que ouvi criança
Dizia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Nada sabia daquilo
Apenas ouvia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Muito tempo depois
Ouvia com nostalgia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Ainda não entendo
Estas palavras
Mas
Em minha súbita melancolia
Apenas ouço bater
Em meu ouvido esquerdo
Esta canção de infância:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Do cancioneiro japonês
Que ouvi criança
Dizia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Nada sabia daquilo
Apenas ouvia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Muito tempo depois
Ouvia com nostalgia:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Ainda não entendo
Estas palavras
Mas
Em minha súbita melancolia
Apenas ouço bater
Em meu ouvido esquerdo
Esta canção de infância:
“A felicidade existe
Apenas acima das nuvens”.
Nos tempos do pica-pau
Minha musa de infância
Daquelas que anunciavam
Os desenhos do pica-pau
Apareceu num jornal de recordações.
Fiquei entusiasmado
Fiquei feliz
Para vê-la novamente.
Era outra pessoa
Totalmente diferente da outra
Nada lembrava aquela
Que usava mini-saia
Exibindo suas pernas grossas
Mas agora era
Uma velha senhora
De cabelos grisalhos
De pele enrugada
Que cuidava dos netos.
Fiquei assustado
Fiquei arrepiado
Não era ela.
O tempo passara
Maltratando a saúde
E pouco a pouco deteriorando
A pele aveludada
De pelos eriçados
De cor de trigo maduro.
O tempo tinha passado
A musa tinha passado
Eu também tinha passado
Menos a memória
Na qual ainda vivia
A jovem menina
Anunciando a próxima atração.
Vem pica-pau
Vem....
Daquelas que anunciavam
Os desenhos do pica-pau
Apareceu num jornal de recordações.
Fiquei entusiasmado
Fiquei feliz
Para vê-la novamente.
Era outra pessoa
Totalmente diferente da outra
Nada lembrava aquela
Que usava mini-saia
Exibindo suas pernas grossas
Mas agora era
Uma velha senhora
De cabelos grisalhos
De pele enrugada
Que cuidava dos netos.
Fiquei assustado
Fiquei arrepiado
Não era ela.
O tempo passara
Maltratando a saúde
E pouco a pouco deteriorando
A pele aveludada
De pelos eriçados
De cor de trigo maduro.
O tempo tinha passado
A musa tinha passado
Eu também tinha passado
Menos a memória
Na qual ainda vivia
A jovem menina
Anunciando a próxima atração.
Vem pica-pau
Vem....
domingo, 3 de outubro de 2010
Morrer no silêncio
Nenhuma palavra a mais
Para ser dito
Maldito seria se
Uma palavra que seja
Fosse dito
Nesta hora inoportuna
Um sussurro que fosse
Levantaria poeira
Turvando toda a transparência
De seus olhos atlânticos
Em que naveguei pela primeira vez
E sofri a maresia
E por pouco não fui devorado
Pelas bruxas de Circe.
Não diga nada
As águas se tornam calmas
E até perigosas.
Não diga nada
As crianças que dormem à noite
Não devem ser importunadas.
Não diga nada...
Para ser dito
Maldito seria se
Uma palavra que seja
Fosse dito
Nesta hora inoportuna
Um sussurro que fosse
Levantaria poeira
Turvando toda a transparência
De seus olhos atlânticos
Em que naveguei pela primeira vez
E sofri a maresia
E por pouco não fui devorado
Pelas bruxas de Circe.
Não diga nada
As águas se tornam calmas
E até perigosas.
Não diga nada
As crianças que dormem à noite
Não devem ser importunadas.
Não diga nada...
Amar para morrer
Amar e desaparecer: são coisas que andam a par há eternidades. Querer amar é também estar pronto a morrer. Assim vos falo eu, covardes.
NIEZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.102.
NIEZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.102.
Salvando os monstros...
É preciso igualmente que esqueça a sua vontade de herói; deve ser para mim um homem elevado, e não só sublime; até o éter deveria elevar esse homem sem vontade. Venceu monstros, adivinhou enigmas; mas precisava também salvar os seus monstros e os seus enigmas; precisava transformá-los em filhos divinos.
O seu conhecimento ainda não aprendeu a sorrir e a não ter inveja, a onda da sua paixão ainda se não acalmou na beleza.
Não é certamente na sociedade que se deve calar e submergir o seu desejo, mas na beleza.
NIETZSCHE. Friedrich. Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.98,99.
O seu conhecimento ainda não aprendeu a sorrir e a não ter inveja, a onda da sua paixão ainda se não acalmou na beleza.
Não é certamente na sociedade que se deve calar e submergir o seu desejo, mas na beleza.
NIETZSCHE. Friedrich. Assim falou Zaratrusta, São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.98,99.
Contradição da vida
A vida do homem é uma tentativa aleatória. Ela só é um fenômeno monstruoso. Por causa de seus números e de sua exuberância. É tão fugitiva, tão imperfeita, que a existência de seres e seu desenvolvimento parece um prodígio.
JUNG. Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões, RJ: Editora Nova Fronteira, 2006, p.24
JUNG. Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões, RJ: Editora Nova Fronteira, 2006, p.24
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Algo à espreita
Sem grandes alegrias
Caminha sorridente
O caminhante
Sem saber o que pode
Encontrar na próxima
Esquina de curva fechada.
Pode encontrar a morte
Nos lábios da mulher de branco
A qualquer momento.
Uma morte anunciada!
Nem temida
Nem buscada
Acontecida apenas.
Caminha sorridente
O caminhante
Sem saber o que pode
Encontrar na próxima
Esquina de curva fechada.
Pode encontrar a morte
Nos lábios da mulher de branco
A qualquer momento.
Uma morte anunciada!
Nem temida
Nem buscada
Acontecida apenas.
Lançando dados
Enquanto perder nos jogos da vida
For motivo de sofrimento
Sofremos por algum momento
Depois nada disso
Terá importância
Suficiente para mudar
Seja nosso bom humor
Seja nosso mau humor.
Perder pode ser
Apenas uma circunstância
De uma vida
Que pode ser tudo.
For motivo de sofrimento
Sofremos por algum momento
Depois nada disso
Terá importância
Suficiente para mudar
Seja nosso bom humor
Seja nosso mau humor.
Perder pode ser
Apenas uma circunstância
De uma vida
Que pode ser tudo.
Morrer de significação
Os poderosos mostram
Os dentes afiados e amedrontam
Aqueles que apenas se submetem
Sem desobediência alguma
E vivem sempre abaixando a cabeça
Pois precisam viver.
Os que não precisam viver
Estes vivem do perigo
E podem morrer
Por isso
Apenas por isso
Vivem intensamente
O momento vivido.
Os marinheiros vivem do mar
Como fossem morrer
Na próxima onda.
Os amantes vivem de seus amores
Como fossem morrer
No próximo encontro.
Mas aqueles que querem viver
Vivem com medo de morrer
Esquecendo-se que a vida é agora!
Os dentes afiados e amedrontam
Aqueles que apenas se submetem
Sem desobediência alguma
E vivem sempre abaixando a cabeça
Pois precisam viver.
Os que não precisam viver
Estes vivem do perigo
E podem morrer
Por isso
Apenas por isso
Vivem intensamente
O momento vivido.
Os marinheiros vivem do mar
Como fossem morrer
Na próxima onda.
Os amantes vivem de seus amores
Como fossem morrer
No próximo encontro.
Mas aqueles que querem viver
Vivem com medo de morrer
Esquecendo-se que a vida é agora!
Quando será
Quando será que eu vou me libertar destes grilhões da esperança
Desse fim de filme, desse final certo e correto?
Quando será que me liberto das amarras de querer chegar à algum lugar
Pois ando, ando e ando e mesmo sabendo que não há lugar para chegar
Continuo a procurar um uma forma, um final ou um lugar
Quando será que deixarei de perguntar quando
A procura de respostas que respondam o que a ilusão de esperança quer ouvir?
Querer conhecer pra poder querer chegar
O cúmulo da ganância é querer querer para querer
E assim se perpetuar, talvez até sem querer
Quando vou deixar de me agoniar
Pra poder parar de andar
Poder parar de perguntar e questionar
E para de esperar
Uma paisagem que já está aqui
E que na verdade só me resta
Olhar
Desse fim de filme, desse final certo e correto?
Quando será que me liberto das amarras de querer chegar à algum lugar
Pois ando, ando e ando e mesmo sabendo que não há lugar para chegar
Continuo a procurar um uma forma, um final ou um lugar
Quando será que deixarei de perguntar quando
A procura de respostas que respondam o que a ilusão de esperança quer ouvir?
Querer conhecer pra poder querer chegar
O cúmulo da ganância é querer querer para querer
E assim se perpetuar, talvez até sem querer
Quando vou deixar de me agoniar
Pra poder parar de andar
Poder parar de perguntar e questionar
E para de esperar
Uma paisagem que já está aqui
E que na verdade só me resta
Olhar
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Fugindo de nossos sonhos
Os musgos que encontrei
Pelo caminho
Meus pés se recusaram
A esmagar.
Mas se pudessem esmagar
Pesadelos de outros tempos
Ficaria sem histórias
Para contar.
Os pesadelos também são vividos
Como fossem verdade.
Pelo caminho
Meus pés se recusaram
A esmagar.
Mas se pudessem esmagar
Pesadelos de outros tempos
Ficaria sem histórias
Para contar.
Os pesadelos também são vividos
Como fossem verdade.
O nome é forma
O nome é a forma
De um conteúdo volátil
Que rápido se desfaz
Para poder se informar
Em uma mente
Sã, consciente
De um conteúdo volátil
Que rápido se desfaz
Para poder se informar
Em uma mente
Sã, consciente
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Uma vida monótona
Os perigos evitamos
Se realmente queremos.
Mas o que será da vida
Sem eles.
Será que a vida pode
Ser vivida
Sem eles?
Numa eterna repetição...
Se realmente queremos.
Mas o que será da vida
Sem eles.
Será que a vida pode
Ser vivida
Sem eles?
Numa eterna repetição...
Uma taça de veneno
Veneno algum é capaz
De fazer efeito para um coração endurecido
Que teme sofrer por um amor sincero
Desses que nada pedem em troca
Senão um olhar desarmado
Totalmente dado
Em todos os momentos da vida.
Nenhum veneno se compara
Com aquele que mata
Fulminantemente sem deixar pistas
É o perigo que ronda
É o perigo do amor sincero.
Cuidado amigo
Se quiser continuar vivo
Se afaste de qualquer possibilidade
De conhecer a morte que tem olhos de vidro.
De fazer efeito para um coração endurecido
Que teme sofrer por um amor sincero
Desses que nada pedem em troca
Senão um olhar desarmado
Totalmente dado
Em todos os momentos da vida.
Nenhum veneno se compara
Com aquele que mata
Fulminantemente sem deixar pistas
É o perigo que ronda
É o perigo do amor sincero.
Cuidado amigo
Se quiser continuar vivo
Se afaste de qualquer possibilidade
De conhecer a morte que tem olhos de vidro.
Companheiro de caminho
Das horas somadas
Juntas, trabalhadas
Moldando pensamentos
Em argila imaginária
Assim se cria laços
Abraços e apertos de mão
Conduzidos por um caminho
Onde nada é em vão
O caminho nunca é sabido
Sempre percebido
E nunca esperado
Somente experimentado
É amizade comandada
Pela luz, pela fala pela estrada
Caminhada e testada
Desde inicio a início
Juntas, trabalhadas
Moldando pensamentos
Em argila imaginária
Assim se cria laços
Abraços e apertos de mão
Conduzidos por um caminho
Onde nada é em vão
O caminho nunca é sabido
Sempre percebido
E nunca esperado
Somente experimentado
É amizade comandada
Pela luz, pela fala pela estrada
Caminhada e testada
Desde inicio a início
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Gentil companhia
Pelos caminhos desta vida
Cruzei infinitas vezes
Com a morte anunciando
Nem feia era ela
Nem bonita
Apenas gentil e convidativa
Muitas vezes a segui sozinho
Outras vezes junto
E por diversas vezes morri
Para nascer de novo
Todas as vezes que abandonei a mim
Todas as vezes que me senti abandonado
Era nesses instantes que ela aparecia
Para não me sentir tão solitário.
Cruzei infinitas vezes
Com a morte anunciando
Nem feia era ela
Nem bonita
Apenas gentil e convidativa
Muitas vezes a segui sozinho
Outras vezes junto
E por diversas vezes morri
Para nascer de novo
Todas as vezes que abandonei a mim
Todas as vezes que me senti abandonado
Era nesses instantes que ela aparecia
Para não me sentir tão solitário.
Silêncio da tarde
Sem nada falar
As palavras são ditas
Em toda sua verdade
Pois não economiza
No silêncio transparente
O movimento dos olhos
Que se cruzam por instantes
Como nada mais precisasse
Ser colocado em letra aberta.
E como o tempo demora
Para passar
Num eterno movimento
Quase parado no espaço
Infinito de nossa existência.
Só os olhos bastam
Revelando sua mais funda
Areia cristalina
Que nunca se turva.
As palavras são ditas
Em toda sua verdade
Pois não economiza
No silêncio transparente
O movimento dos olhos
Que se cruzam por instantes
Como nada mais precisasse
Ser colocado em letra aberta.
E como o tempo demora
Para passar
Num eterno movimento
Quase parado no espaço
Infinito de nossa existência.
Só os olhos bastam
Revelando sua mais funda
Areia cristalina
Que nunca se turva.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Primavera!
Alguma mudança acontece
Quando a primavera renasce
Por detrás dos muros caiados
Uma alegria sem nenhum sentido
Parece marcar a face antes crispada.
Se antes negava ternura
Ternura já terá.
Pois até a mais dura
Vaidade não terá validade
Em tempos que as cores
Todas elas
Amarelas e vermelhas
Mancharão de repente
O chão de toda gente.
Quando a primavera renasce
Por detrás dos muros caiados
Uma alegria sem nenhum sentido
Parece marcar a face antes crispada.
Se antes negava ternura
Ternura já terá.
Pois até a mais dura
Vaidade não terá validade
Em tempos que as cores
Todas elas
Amarelas e vermelhas
Mancharão de repente
O chão de toda gente.
domingo, 26 de setembro de 2010
Uma vida num jogo de cartas
Aquelas mulheres de saia rodada
Rodavam suas saias na porta da igreja
Oferecendo seus serviços para os
Necessitados de uma ajuda mágica.
Não apenas uma reza rápida para o santo
De fé de preferência.
As cartas das ciganas podiam revelar
Segredos ainda não revelados.
Nenhum destino poderia estar presente
Numa simples previsão da mulher do tempo
Pois sempre chove à tarde
Ainda que não devesse chover.
Se pudéssemos planejar nossas vidas
Que haveria de diferente
Abaixo do céu senão total indiferença.
E todos os sonhos não passariam
De sonhos já prontos.
Rodavam suas saias na porta da igreja
Oferecendo seus serviços para os
Necessitados de uma ajuda mágica.
Não apenas uma reza rápida para o santo
De fé de preferência.
As cartas das ciganas podiam revelar
Segredos ainda não revelados.
Nenhum destino poderia estar presente
Numa simples previsão da mulher do tempo
Pois sempre chove à tarde
Ainda que não devesse chover.
Se pudéssemos planejar nossas vidas
Que haveria de diferente
Abaixo do céu senão total indiferença.
E todos os sonhos não passariam
De sonhos já prontos.
Como bolhas de sabão
Se assumirmos nossa própria
Condição de bolhas de sabão
Que sopradas vão sempre subindo
Descendo também sem se importar
Refletindo o mundo inteiro
Seja azul seja negro seja vermelho
Até que venham as farpas da rosa
Fazendo explodir em pedaços de água
Cristalina mil partículas gasosas
Que me importa sua existência efêmera
Tão breve que nem deixa rastros
Pelo caminho onde passa.
Como bolhas de sabão
Vivemos os perigos da vida
Vivendo intensamente
E morrendo em cada esquina
Nos braços de uma mulher.
Ao tomarmos ciência
De que bolhas de sabão não são
Eternas
Eternas serão os momentos
Fugazes como gazes
Evaporando a cada instante.
Condição de bolhas de sabão
Que sopradas vão sempre subindo
Descendo também sem se importar
Refletindo o mundo inteiro
Seja azul seja negro seja vermelho
Até que venham as farpas da rosa
Fazendo explodir em pedaços de água
Cristalina mil partículas gasosas
Que me importa sua existência efêmera
Tão breve que nem deixa rastros
Pelo caminho onde passa.
Como bolhas de sabão
Vivemos os perigos da vida
Vivendo intensamente
E morrendo em cada esquina
Nos braços de uma mulher.
Ao tomarmos ciência
De que bolhas de sabão não são
Eternas
Eternas serão os momentos
Fugazes como gazes
Evaporando a cada instante.
sábado, 25 de setembro de 2010
Poesia para não morrer de tédio
Para quê compor tantos
Poemas?
Se a vida continua a mesma
Sem que o sofrimento diminua
Sem que o desencontro diminua
Sem que os amores possam
Novamente acontecer.
Talvez por isso
Talvez justamente por isso
Por isso que continuamos
Compondo poemas.
Não para mudar as coisas
Mas para não enlouquecer
Do excesso de realidade
Dura e cinzenta
Como as nossas cidades.
Poemas?
Se a vida continua a mesma
Sem que o sofrimento diminua
Sem que o desencontro diminua
Sem que os amores possam
Novamente acontecer.
Talvez por isso
Talvez justamente por isso
Por isso que continuamos
Compondo poemas.
Não para mudar as coisas
Mas para não enlouquecer
Do excesso de realidade
Dura e cinzenta
Como as nossas cidades.
Como valesse a pena
Nunca aprendi a comer com palitos
Que ainda incomodam nos dedos
Nunca aprendi a tabuada direito
Que ainda erra em meus cálculos
Nunca li a Divina Comédia inteiro
Por isso nada sei da vida
Da vida de Virgílio e Dante
Da minha? Nada muito interessante
Nada fiz do que valesse a pena
Senão três pontos no joelho
De um lombo que levei criança
E bati a cabeça e o coração
Foi aí que começou meu dilema
Perdi a razão de existir.
Perdi novamente outras vezes
Mas por uma teimosia insana
Continuo acreditando nas ondinas
Que poderão vir no próximo verão.
Que ainda incomodam nos dedos
Nunca aprendi a tabuada direito
Que ainda erra em meus cálculos
Nunca li a Divina Comédia inteiro
Por isso nada sei da vida
Da vida de Virgílio e Dante
Da minha? Nada muito interessante
Nada fiz do que valesse a pena
Senão três pontos no joelho
De um lombo que levei criança
E bati a cabeça e o coração
Foi aí que começou meu dilema
Perdi a razão de existir.
Perdi novamente outras vezes
Mas por uma teimosia insana
Continuo acreditando nas ondinas
Que poderão vir no próximo verão.
As cartas que escrevi
As cartas escritas jamais foram
Enviadas para um destino qualquer
Pois não havia um destinatário
Nenhum endereço
Que pudesse recebê-las.
Foram escritas para uma mulher
Que aparecia numa folhinha antiga
Que não se sabia quem era.
Nem se realmente existia.
Mas as cartas continuaram
Sendo escritas...
Enviadas para um destino qualquer
Pois não havia um destinatário
Nenhum endereço
Que pudesse recebê-las.
Foram escritas para uma mulher
Que aparecia numa folhinha antiga
Que não se sabia quem era.
Nem se realmente existia.
Mas as cartas continuaram
Sendo escritas...
Sem rumo na vida
Quanto maior a certeza de que
Não estamos vivendo um sonho
Mais caímos num buraco fundo
De total incerteza.
Se de fato a incerteza é palavra
Corrente navegando ao sabor do vento
Minha vida sopra de um canto para outro
Sem que alguém possa colocar em seu rumo
Sou vela desgovernada
Errando pelas águas desconhecidas
De uma mente enlouquecida
Pelas cores exageradas do arco-íris
Numa manhã de primavera.
Até o sorriso singelo da dama
Que carrega um alaúde laqueado
Que geme uma cantoria do passado
Não passa de um sonho
Que continua se repetindo...
Não estamos vivendo um sonho
Mais caímos num buraco fundo
De total incerteza.
Se de fato a incerteza é palavra
Corrente navegando ao sabor do vento
Minha vida sopra de um canto para outro
Sem que alguém possa colocar em seu rumo
Sou vela desgovernada
Errando pelas águas desconhecidas
De uma mente enlouquecida
Pelas cores exageradas do arco-íris
Numa manhã de primavera.
Até o sorriso singelo da dama
Que carrega um alaúde laqueado
Que geme uma cantoria do passado
Não passa de um sonho
Que continua se repetindo...
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
A vela
Ai, teus olhos negros!
Prometem prazeres,
Delícias, orgias...
Calafrios quentes em noites frias
Inculcam desejos loucos
Suspiros roucos
Ai, teus olhos negros!
Mexe em minha alma
Não!-revira com lança fria
Carrego os dardos de seus olhos,
Latejando, morena, ardidos
Carrego por todo o dia!
Quero seus olhos de bicho,
Quero os prazeres que me prometia!
Guardar paixão assim escondida,
É perigoso, como vela acesa em casa,
Que se esquecia...
Pode-se esquecer de fato,
Mas o incêndio retorna,
Calamitoso, exclamação que não se prenuncia!
Prometem prazeres,
Delícias, orgias...
Calafrios quentes em noites frias
Inculcam desejos loucos
Suspiros roucos
Ai, teus olhos negros!
Mexe em minha alma
Não!-revira com lança fria
Carrego os dardos de seus olhos,
Latejando, morena, ardidos
Carrego por todo o dia!
Quero seus olhos de bicho,
Quero os prazeres que me prometia!
Guardar paixão assim escondida,
É perigoso, como vela acesa em casa,
Que se esquecia...
Pode-se esquecer de fato,
Mas o incêndio retorna,
Calamitoso, exclamação que não se prenuncia!
A insânia
Uivam os cães, os lobos, os homens!
Uivem, oras!
Seus uivos, minhas gargalhadas
Que sinfonia aterradora!
A vida não é vida
Sem o tempero suave
Sutil
Frio e jamais vazio
O tempero da insânia!
Ocultar qual arma branca envenenada,
Qual adaga, faca, ou mesmo risada,
A pitada apimentada da insânia!
Ah, que são os comentários,
As análises,
Os postulados,
Os doutorados e doutrinas
AS DOUTRINAS, MEU DEUS!!
A sabedoria verdadeira é polvilhada de insânia,
Um leve sarcasmo,
Divertido e inócuo...
O diabo mental,
Desgrenhado, bem humorado e sagaz,
Apontando o dedo sujo e rindo desdentado... Maldito!!!
Se não contra as massas,
Contra a elite,
Sábios e ignorantes,
Pelo menos contra si mesma,
Coroada por uma autêntica gargalhada!
Uivem, oras!
Seus uivos, minhas gargalhadas
Que sinfonia aterradora!
A vida não é vida
Sem o tempero suave
Sutil
Frio e jamais vazio
O tempero da insânia!
Ocultar qual arma branca envenenada,
Qual adaga, faca, ou mesmo risada,
A pitada apimentada da insânia!
Ah, que são os comentários,
As análises,
Os postulados,
Os doutorados e doutrinas
AS DOUTRINAS, MEU DEUS!!
A sabedoria verdadeira é polvilhada de insânia,
Um leve sarcasmo,
Divertido e inócuo...
O diabo mental,
Desgrenhado, bem humorado e sagaz,
Apontando o dedo sujo e rindo desdentado... Maldito!!!
Se não contra as massas,
Contra a elite,
Sábios e ignorantes,
Pelo menos contra si mesma,
Coroada por uma autêntica gargalhada!
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
"Linda de morrer"
A poesia está morta
tira da cova outra artimanha
esta se alimenta da luz do caminho
e morre na ponta dos dedos
Ao contemplar a poesia
surge inevitável a mortualha, mas
se ainda há medo na noite escura, vai
colhe flores brancas antes de fechares os olhos
.
tira da cova outra artimanha
esta se alimenta da luz do caminho
e morre na ponta dos dedos
Ao contemplar a poesia
surge inevitável a mortualha, mas
se ainda há medo na noite escura, vai
colhe flores brancas antes de fechares os olhos
.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Alguns não passarão
Sempre os medíocres
Sempre os medíocres
Serão os vencedores!
Por isso a vida se tornou
Insuportável
Assim a vida passará
A boiada passará
Os cães passarão
Menos os perdedores
Que nunca estarão de acordo
Acordados num contrato social
Assinados abaixo
A própria condenação.
Perder para não perder
A dignidade de ser livre.
Sempre os medíocres
Serão os vencedores!
Por isso a vida se tornou
Insuportável
Assim a vida passará
A boiada passará
Os cães passarão
Menos os perdedores
Que nunca estarão de acordo
Acordados num contrato social
Assinados abaixo
A própria condenação.
Perder para não perder
A dignidade de ser livre.
Tempo sem coragem
Outrora amor havia
Havia coragem nos corações
Dos homens
Ternura havia nos corações
Das mulheres
Mas quando a ternura deixa
De existir
O mundo se torna
Inabitável
E a vida totalmente
Sem sentido algum
Só existirá o medo
De enfrentar seus próprios
Demônios voando em vassouras
Outras como ninfas devorando
Marinheiros sedentos de amor.
Mas o tempo dos heróis
Ficou na saudade
Os covardes venceram
E regozijam-se com os corvos
Que não se incomodam com os vivos
Só com os mortos.
Só estes.
Havia coragem nos corações
Dos homens
Ternura havia nos corações
Das mulheres
Mas quando a ternura deixa
De existir
O mundo se torna
Inabitável
E a vida totalmente
Sem sentido algum
Só existirá o medo
De enfrentar seus próprios
Demônios voando em vassouras
Outras como ninfas devorando
Marinheiros sedentos de amor.
Mas o tempo dos heróis
Ficou na saudade
Os covardes venceram
E regozijam-se com os corvos
Que não se incomodam com os vivos
Só com os mortos.
Só estes.
Pelos cães de Menelau
Começamos a ceder
Diante da insistência dos deuses
E passamos a ser menos homens
Pelo medo da vingança
Que possa nos recair
E submetidos à ordem superior
Admitimos que somos
Da ordem inferior
Que temerosos não vivemos
Totalmente livres
Nem queremos esta liberdade
Pois necessitamos
Insistentemente
De alguém que possa nos punir
E assim ficamos felizes
Súditos apenas da absurda
Condição humana.
Diante da insistência dos deuses
E passamos a ser menos homens
Pelo medo da vingança
Que possa nos recair
E submetidos à ordem superior
Admitimos que somos
Da ordem inferior
Que temerosos não vivemos
Totalmente livres
Nem queremos esta liberdade
Pois necessitamos
Insistentemente
De alguém que possa nos punir
E assim ficamos felizes
Súditos apenas da absurda
Condição humana.
Quando as palavras enganam
Que palavra pode ser mais
Verdadeira do que aquela que
Silencia nas bocas pálidas
Pois tudo aquilo que se diz
Pode ser mentira.
Qualquer afirmação pode ser
Negação de alguma coisa.
E ainda que possamos
Usar de toda sinceridade
Não será suficiente
Para dizer a verdade
Que prefere esconder-se
Ou ainda não ser dito.
Verdadeira do que aquela que
Silencia nas bocas pálidas
Pois tudo aquilo que se diz
Pode ser mentira.
Qualquer afirmação pode ser
Negação de alguma coisa.
E ainda que possamos
Usar de toda sinceridade
Não será suficiente
Para dizer a verdade
Que prefere esconder-se
Ou ainda não ser dito.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Sim
Ninguém segurou minhas pernas
quando a vontade me atravessou
e no outro lado da rua pedi
um copo de água ardente
Naquele lance do passado
minha voz nem sempre era
grave assim como hoje, mas aquilo eu
não sabia, eu aceitava
Sempre disseram sim
por trás do balcão fosco
tão solícitos, tão rudes
tão amigos, tão ingênuos
Sim. Sim sempre
Sempre há sim num balcão de bar
(Põe a mão e o copo bate o fundo,
o álcool estala doce até a tona)
Isto é assim de não segurar
o corpo vai que vai só - as lembranças
sem razão nem explicação, dócil
o corpo segue, difusa herança é a cabeça
Trago agora o copo para que me esqueça
e sinto só - o que morreu
Escondo a cara nua sobre a mesa
crente e cego de um segredo só meu
quando a vontade me atravessou
e no outro lado da rua pedi
um copo de água ardente
Naquele lance do passado
minha voz nem sempre era
grave assim como hoje, mas aquilo eu
não sabia, eu aceitava
Sempre disseram sim
por trás do balcão fosco
tão solícitos, tão rudes
tão amigos, tão ingênuos
Sim. Sim sempre
Sempre há sim num balcão de bar
(Põe a mão e o copo bate o fundo,
o álcool estala doce até a tona)
Isto é assim de não segurar
o corpo vai que vai só - as lembranças
sem razão nem explicação, dócil
o corpo segue, difusa herança é a cabeça
Trago agora o copo para que me esqueça
e sinto só - o que morreu
Escondo a cara nua sobre a mesa
crente e cego de um segredo só meu
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
A lua e o poeta
Assim que a noite vem depressa
Passamos a enxergar melhor
Pelas poças de lama refletida
A lua em toda a sua dimensão
E como bela ela aparece
E desaparece num balão de gás
Por detrás das nuvens em cortina
Não revelando sua face.
Mas quando a noite não vem
Então que a noite venha
Ao cessar a luz nos olhos batidos
E possamos mergulhar fundo
E encontrar novamente
A alegria de estar acompanhado
Seja pela lua
Que ainda não apareceu
Dócil e entregando-se inteira.
Passamos a enxergar melhor
Pelas poças de lama refletida
A lua em toda a sua dimensão
E como bela ela aparece
E desaparece num balão de gás
Por detrás das nuvens em cortina
Não revelando sua face.
Mas quando a noite não vem
Então que a noite venha
Ao cessar a luz nos olhos batidos
E possamos mergulhar fundo
E encontrar novamente
A alegria de estar acompanhado
Seja pela lua
Que ainda não apareceu
Dócil e entregando-se inteira.
Ouvidos cansados
De repente passei a não entender mais nada!
Todos aqueles sons e todas aquelas palavras
Vinham e simplesmente entravam sem bater
Meus ouvidos finalmente puderam descansar
Deste trabalho incessante de entender as coisas
Meus ouvidos sempre quiseram entender tudo
Mesmo quando nada era para ser entendido
Ele insistia em entender
Mas agora ele não entende mais nada
Melhor assim
Meus ouvidos deixam de entender
Para que Eu passe a entender as coisas
Todos aqueles sons e todas aquelas palavras
Vinham e simplesmente entravam sem bater
Meus ouvidos finalmente puderam descansar
Deste trabalho incessante de entender as coisas
Meus ouvidos sempre quiseram entender tudo
Mesmo quando nada era para ser entendido
Ele insistia em entender
Mas agora ele não entende mais nada
Melhor assim
Meus ouvidos deixam de entender
Para que Eu passe a entender as coisas
domingo, 19 de setembro de 2010
Que frio que sinto
Um pássaro estranho
Insiste em cantar
Um canto afinado e belo
Anunciando alguma coisa
Pelas manhãs de inverno.
Tempo em que todas as folhas
Despencam dos galhos e os galhos
Ficaram totalmente nus
E soprados pelo vento
Torcendo seus troncos
Tal qual um corcunda.
O inverno é um velho
Que caminha desconsolado
Pelas ruas solitárias
De minha cidade
Cidade que existe
Nos neurônios explodindo
De minha mente.
Todo frio que sinto
É na minha mente que sinto.
Sinto tanto a falta de uma
Mão quente que acalanta
E embriaga a pele ressecada
De tanta febre em vão.
Insiste em cantar
Um canto afinado e belo
Anunciando alguma coisa
Pelas manhãs de inverno.
Tempo em que todas as folhas
Despencam dos galhos e os galhos
Ficaram totalmente nus
E soprados pelo vento
Torcendo seus troncos
Tal qual um corcunda.
O inverno é um velho
Que caminha desconsolado
Pelas ruas solitárias
De minha cidade
Cidade que existe
Nos neurônios explodindo
De minha mente.
Todo frio que sinto
É na minha mente que sinto.
Sinto tanto a falta de uma
Mão quente que acalanta
E embriaga a pele ressecada
De tanta febre em vão.
Areia e desolação
Para quem uma vez
Num barco esteve
Não alcançou outro lado
Do outro lado do Estige
Não encontrou os amigos
Que se foram
Os amores que não se realizaram
Pois era em tempo errado
E somente em tempos errados
O amor acontece.
Se fosse fácil de acontecer
Nenhum amor aconteceria
E nada teria validade.
E por amor a pedra é encontrada
Dessas raras pepitas perdidas
No veio da terra cristalina
Por ser raro o amor se revela
Em toda a sua dificuldade
E quando se pensa que a tem
Temos apenas a ilusão de alguma
Posse
Passageira como areia que derrama
Numa velha ampulheta.
Areia que continua caindo
Não se detendo jamais
Para que as horas passem
Sem que ninguém possa detê-las.
Num barco esteve
Não alcançou outro lado
Do outro lado do Estige
Não encontrou os amigos
Que se foram
Os amores que não se realizaram
Pois era em tempo errado
E somente em tempos errados
O amor acontece.
Se fosse fácil de acontecer
Nenhum amor aconteceria
E nada teria validade.
E por amor a pedra é encontrada
Dessas raras pepitas perdidas
No veio da terra cristalina
Por ser raro o amor se revela
Em toda a sua dificuldade
E quando se pensa que a tem
Temos apenas a ilusão de alguma
Posse
Passageira como areia que derrama
Numa velha ampulheta.
Areia que continua caindo
Não se detendo jamais
Para que as horas passem
Sem que ninguém possa detê-las.
Batida do pandeiro
Numa rua desta cidade
Que ao entardecer
Cada vez mais frio se fazia
Nas calçadas havia
Um homem velho que tocava
Uma triste melodia
Em seu pandeiro surrado
Cantava um lamento qualquer.
Aquele lamento era
Também o lamento meu
Que por longo tempo
Ecoou nas paredes do ouvido
E vibrou uma tristeza infinita.
Era uma tarde de inverno!
Que ao entardecer
Cada vez mais frio se fazia
Nas calçadas havia
Um homem velho que tocava
Uma triste melodia
Em seu pandeiro surrado
Cantava um lamento qualquer.
Aquele lamento era
Também o lamento meu
Que por longo tempo
Ecoou nas paredes do ouvido
E vibrou uma tristeza infinita.
Era uma tarde de inverno!
sábado, 18 de setembro de 2010
Abismo de nossas vidas
Para onde arrastará
Seu pesado carrinho
Carregado de papelão
Subindo ladeira acima
Sem saída alguma.
Para que falar do catador
De papel
Se também carrego
Não apenas papel
Outros trecos mais pesados
Que pesa no corpo
Muito mais na alma.
Ao final da rua
Uma cancela quebrada
De outro lado o abismo
Fundo isento de salvação
Mas livre de todo medo
Pois nada mais há
Para se perder.
Seu pesado carrinho
Carregado de papelão
Subindo ladeira acima
Sem saída alguma.
Para que falar do catador
De papel
Se também carrego
Não apenas papel
Outros trecos mais pesados
Que pesa no corpo
Muito mais na alma.
Ao final da rua
Uma cancela quebrada
De outro lado o abismo
Fundo isento de salvação
Mas livre de todo medo
Pois nada mais há
Para se perder.
As flores secas
Para que servem as flores
Se não há ninguém
Para recebê-las.
Servem para enfeitar
As prateleiras empoeiradas
Dos livros que já li.
Ficarão por lá até que
As múmias surjam e façam
Companhia.
Dessas que podem saltar
Das páginas amareladas
Dos cantos ainda molhados
De restos de saliva.
Por fim aparecerão também
As bactérias que devorarão
Totalmente
Do pedaço daquela flor
Que por fim secou
Sem serventia alguma
Ficou apenas a intenção
De um dia ser dirigida
A alguém
Que nunca existiu
Melhor que fosse assim
Assim debaixo dos olhos
Como poeira
Caiu.
Se não há ninguém
Para recebê-las.
Servem para enfeitar
As prateleiras empoeiradas
Dos livros que já li.
Ficarão por lá até que
As múmias surjam e façam
Companhia.
Dessas que podem saltar
Das páginas amareladas
Dos cantos ainda molhados
De restos de saliva.
Por fim aparecerão também
As bactérias que devorarão
Totalmente
Do pedaço daquela flor
Que por fim secou
Sem serventia alguma
Ficou apenas a intenção
De um dia ser dirigida
A alguém
Que nunca existiu
Melhor que fosse assim
Assim debaixo dos olhos
Como poeira
Caiu.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Desolación
La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde
me ha arrojado la mar en su ola cae salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tiene su noche larga que cual madre me esconde.
El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanura blanca, de horizonte infinito,
miro morir inmensos ocasos dolorosos.
¿A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!
Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que son míos;
sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos.
Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.
Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no cuento los instantes,
porque la noche larga ahora tan sólo empieza.
Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que vine para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales;
¡siempre será su albura bajando de los cielos!
Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiado.
Gabriela Mistral (1889-1957) Prêmio Nobel em Literatura de 1951
me ha arrojado la mar en su ola cae salmuera.
La tierra a la que vine no tiene primavera:
tiene su noche larga que cual madre me esconde.
El viento hace a mi casa su ronda de sollozos
y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito.
Y en la llanura blanca, de horizonte infinito,
miro morir inmensos ocasos dolorosos.
¿A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido
si más lejos que ella sólo fueron los muertos?
¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto
crecer entre sus brazos y los brazos queridos!
Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto
vienen de tierras donde no están los que son míos;
sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos
y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos.
Y la interrogación que sube a mi garganta
al mirarlos pasar, me desciende, vencida:
hablan extrañas lenguas y no la conmovida
lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.
Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa;
miro crecer la niebla como el agonizante,
y por no enloquecer no cuento los instantes,
porque la noche larga ahora tan sólo empieza.
Miro el llano extasiado y recojo su duelo,
que vine para ver los paisajes mortales.
La nieve es el semblante que asoma a mis cristales;
¡siempre será su albura bajando de los cielos!
Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada
de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa;
siempre, como el destino que ni mengua ni pasa,
descenderá a cubrirme, terrible y extasiado.
Gabriela Mistral (1889-1957) Prêmio Nobel em Literatura de 1951
Última Esperança
Pássaros pretos
Pedido cumprido
Assim a mulher que queria
Um namorado pedia
Pode ser alguém que seja
Pode ser qualquer um
Pode ser aleijado
Caolho e vagabundo
Pode ser do outro mundo
Gordo e também imundo
Desde que seja meu.
Ela teve o que mereceu!
Era tudo aquilo
E outros adjetivos!
Um namorado pedia
Pode ser alguém que seja
Pode ser qualquer um
Pode ser aleijado
Caolho e vagabundo
Pode ser do outro mundo
Gordo e também imundo
Desde que seja meu.
Ela teve o que mereceu!
Era tudo aquilo
E outros adjetivos!
Tudo se perdeu na linha do trem
Uma imagem de Kanzen
Toda de porcelana negra
Toda compaixão presente
Todo amor que poderia dar.
Um trem atravessa atravancando
Numa linha férrea ao lado
Faz despencar em pedaços
Aquilo que antes era belo
Em põe em pedaços
Toda compaixão presente
Todo amor que poderia dar.
Tudo se perdeu em instantes
Todo amor que eu tinha se foi
Reduzido a cacos
Sem tristeza alguma
Sem alegria
Nem restou a lembrança
Que também se perdeu
Na linha do trem.
Toda de porcelana negra
Toda compaixão presente
Todo amor que poderia dar.
Um trem atravessa atravancando
Numa linha férrea ao lado
Faz despencar em pedaços
Aquilo que antes era belo
Em põe em pedaços
Toda compaixão presente
Todo amor que poderia dar.
Tudo se perdeu em instantes
Todo amor que eu tinha se foi
Reduzido a cacos
Sem tristeza alguma
Sem alegria
Nem restou a lembrança
Que também se perdeu
Na linha do trem.
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