Se tivesse que morrer agora
Seja de uma gripe espanhola
Seja de infra-estrutura
De hiper-inflação
Também de hipertensão
Como viveria meus últimos dias?
Afinal vivo meus últimos dias
Como vivo minhas últimas horas
No dia de hoje
Melhor
No dia de agora
Como se as horas
Não existissem mais.
Teria a coragem de viver a verdade
Ou me esconderia
Por detrás dos escudos da miséria
De uma mentira
Mentida para mim mesmo?
Para os outros.
Sempre as mentiras
São mais cômodas
Para se viver.
Sempre as verdades
São mais cômodas
Para se morrer.
Podemos viver
Como fôssemos morrer
A cada instante de nossa vida.
Os poetas morrem
Em seus versos
Morrem por dizer a verdade
E nada têm a perder.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Velhos e delinquentes
De repente deparamos
Que a juventude se fora
E continuamos agindo ainda
Como fôssemos delinqüentes juvenis
Em sua mais ampla irresponsabilidade
Social e política
Por medo de ver refletido no espelho
Uma face que deixou de ser nossa
Desconhecida
Destorcida de toda realidade
Que continua fingindo
Uma emoção que não é mais sua
Nem sua é a alegria
Disfarçada no canto da boca
Em riso amarelo
Que a ninguém mais engana.
Crescemos o suficiente
Para termos rugas
Só não temos
Não temos vergonha
Da farsa que continuamos
Representando
Como mal ator
Atrizes de um teatro mambembe
Para divertir
Os loucos livres de qualquer
Censura.
Que a juventude se fora
E continuamos agindo ainda
Como fôssemos delinqüentes juvenis
Em sua mais ampla irresponsabilidade
Social e política
Por medo de ver refletido no espelho
Uma face que deixou de ser nossa
Desconhecida
Destorcida de toda realidade
Que continua fingindo
Uma emoção que não é mais sua
Nem sua é a alegria
Disfarçada no canto da boca
Em riso amarelo
Que a ninguém mais engana.
Crescemos o suficiente
Para termos rugas
Só não temos
Não temos vergonha
Da farsa que continuamos
Representando
Como mal ator
Atrizes de um teatro mambembe
Para divertir
Os loucos livres de qualquer
Censura.
Dizer é calar pela eternidade
Por quantas vezes errei
Somente por falar demais
Quando a fala se fez necessária
Poderia ter me calado
E os excessos de uma palavra mal
Colocada
Evitaria mal estar em toda população
Ainda que a intenção fosse boa
Não foi bom o entendimento
Que de mal entendido
As bocas se calaram de vez
Tarde demais.
Mas no silêncio purificador
Nenhuma palavra vem a calhar
Que penetrando fundo
Lá no fundo da alma escura
Nenhuma luz é necessária
Nem nada
Apenas a síntese
Da união que dispensa
Qualquer explicação
Que não necessita
De palavra.
Somente por falar demais
Quando a fala se fez necessária
Poderia ter me calado
E os excessos de uma palavra mal
Colocada
Evitaria mal estar em toda população
Ainda que a intenção fosse boa
Não foi bom o entendimento
Que de mal entendido
As bocas se calaram de vez
Tarde demais.
Mas no silêncio purificador
Nenhuma palavra vem a calhar
Que penetrando fundo
Lá no fundo da alma escura
Nenhuma luz é necessária
Nem nada
Apenas a síntese
Da união que dispensa
Qualquer explicação
Que não necessita
De palavra.
domingo, 15 de agosto de 2010
A inutilidade do desespero
Não existe mais alegria
Nos olhos dela
Como outrora se fazia
Nem o brilho está mais presente
Quando se faz presente
Uma desconfiança atroz
Que percorre a linha do horizonte
Cada vez mais distante
Dos olhos que tanto
Queria bem.
Quando a inocência da alma
Perdida fica
Por causa estranha
Toda a vida se torna nublada
E nubla também toda a existência
Da alegria de viver.
Cada vez mais sozinho vai caminhando
Numa estrada de espinho
Tendo por companheira
A solitária sombra da noite
Fulguras de pirilampos
Ofuscando um sonho
Dentro de um sonho de outro.
Errantes somos passageiros
Do tempo
Que erramos na geografia
Que erramos na história
Sem encontrar o encontro
Que perdido ficou
Para trás.
Nem o choro mais consola
Diante da estupidez
Desta vida escrita num papel de seda
Desfazendo-se na correnteza
De nossa vida curta.
Nos olhos dela
Como outrora se fazia
Nem o brilho está mais presente
Quando se faz presente
Uma desconfiança atroz
Que percorre a linha do horizonte
Cada vez mais distante
Dos olhos que tanto
Queria bem.
Quando a inocência da alma
Perdida fica
Por causa estranha
Toda a vida se torna nublada
E nubla também toda a existência
Da alegria de viver.
Cada vez mais sozinho vai caminhando
Numa estrada de espinho
Tendo por companheira
A solitária sombra da noite
Fulguras de pirilampos
Ofuscando um sonho
Dentro de um sonho de outro.
Errantes somos passageiros
Do tempo
Que erramos na geografia
Que erramos na história
Sem encontrar o encontro
Que perdido ficou
Para trás.
Nem o choro mais consola
Diante da estupidez
Desta vida escrita num papel de seda
Desfazendo-se na correnteza
De nossa vida curta.
Experiência no dia-a-dia
“A expressão do que sentimos é o exercício que prova a vivacidade da alma e o amor que esta tem pelo mundo.”
E foi justamente essa
Que expressou o que tinha que expressar
De coração para coração
Pura expressão
Felicidade, alegria
Tristeza, melancolia
Frutos de um mesmo experimentar
Só a pureza da expressão
E nos versos a rimar
Da tentativa desprovida
De uma ousada vitória
Percorrendo o caminho dia-a-dia
E foi justamente essa
Que expressou o que tinha que expressar
De coração para coração
Pura expressão
Felicidade, alegria
Tristeza, melancolia
Frutos de um mesmo experimentar
Só a pureza da expressão
E nos versos a rimar
Da tentativa desprovida
De uma ousada vitória
Percorrendo o caminho dia-a-dia
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Conto retrato - O fim da infância
Ele já não enche mais a casa de alegria.
Naquele fim de tarde, entrou pela porta a fora
os olhos secos como vidro, as mãos trêmulas
cheiravam a gasolina, queria se esconder...
Naquele fim de tarde, entrou pela porta a fora
os olhos secos como vidro, as mãos trêmulas
cheiravam a gasolina, queria se esconder...
Compra-se de tudo
Tristes são os tempos
Que alegria se compra
Em farmácias
Como tudo pudesse
Ser comprado
Como prozac.
As amizades também
São compradas
Alguns compram
Até o amor
O amor de uma mulher loira
Que nada tem de loira
Que comprou a tintura
Numa loja de tintas.
Alguns compram horas
De alívio de consolo
Num divã do analista
Como que aquilo resolvesse.
Outros ainda
Visitam as mulheres das cartas
Dos guizos e guias coloridos
Como que pudessem comprar
A felicidade de suas vidas.
Tudo pode ser comprado
Menos a liberdade
De nada mais comprar
Mas pode ser negociado
Por algumas moedas...
E sem liberdade
Continuam comprando
Numa esquina qualquer
Suposta felicidade
Felicidade de comprar.
Que alegria se compra
Em farmácias
Como tudo pudesse
Ser comprado
Como prozac.
As amizades também
São compradas
Alguns compram
Até o amor
O amor de uma mulher loira
Que nada tem de loira
Que comprou a tintura
Numa loja de tintas.
Alguns compram horas
De alívio de consolo
Num divã do analista
Como que aquilo resolvesse.
Outros ainda
Visitam as mulheres das cartas
Dos guizos e guias coloridos
Como que pudessem comprar
A felicidade de suas vidas.
Tudo pode ser comprado
Menos a liberdade
De nada mais comprar
Mas pode ser negociado
Por algumas moedas...
E sem liberdade
Continuam comprando
Numa esquina qualquer
Suposta felicidade
Felicidade de comprar.
As legiões de baixo
Nada pode ser mais verdadeiro
Do que deixar as portas dos porões
Abertos e deixar sair legiões
De títeres manipulados por mãos
Invisíveis de um teatro ambulante
Parado em praça da Babilônia.
Serão estes malabaristas
Com suas bolas coloridas
Serão também feiticeiras
Cortando o céu em suas vassouras
E rindo de toda seriedade
Que supostamente
Existiria no mundo.
Nada mais risível do que
O sério de cara pintada
Numa maquilagem social
Artista social
Que equilibra numa corda bamba
Um equilibrista social
Que tenta ser sério
Quanto mais sério
Mais engraçado.
Que pode ser mais engraçado
Do que o terapeuta
Que vive da doença social
Imoral da classe média
Que na média nada cura
Nada sara
Pois nada há para sarar
Da paciente que pensa que cura
De uma doença que cura não há.
Temerosos sãos os demônios
Que põem o mundo ao avesso
Por isso devem ser presos
Novamente no porão
Como eles não existissem
Até que novamente
As portas sejam abertas
Para que alegria seja restabelecida
Dos arlequins e colombinas
Numa dança sobre as sombras
De uma ordem corrompida
Dos que fingem seriedade
Da moral e bons costumes
Da cultura elevada
Da religião institucional
Que teme
Que geme diante
Dos seres que habitam os porões
Profundos e frios
De toda existência
Acima e abaixo.
A verdade seja assim
Um pouco abaixo
Da linha do Equador.
Da cintura para baixo
Onde a vida se forma
E o prazer pela vida
Verdadeiramente vivida.
Do que deixar as portas dos porões
Abertos e deixar sair legiões
De títeres manipulados por mãos
Invisíveis de um teatro ambulante
Parado em praça da Babilônia.
Serão estes malabaristas
Com suas bolas coloridas
Serão também feiticeiras
Cortando o céu em suas vassouras
E rindo de toda seriedade
Que supostamente
Existiria no mundo.
Nada mais risível do que
O sério de cara pintada
Numa maquilagem social
Artista social
Que equilibra numa corda bamba
Um equilibrista social
Que tenta ser sério
Quanto mais sério
Mais engraçado.
Que pode ser mais engraçado
Do que o terapeuta
Que vive da doença social
Imoral da classe média
Que na média nada cura
Nada sara
Pois nada há para sarar
Da paciente que pensa que cura
De uma doença que cura não há.
Temerosos sãos os demônios
Que põem o mundo ao avesso
Por isso devem ser presos
Novamente no porão
Como eles não existissem
Até que novamente
As portas sejam abertas
Para que alegria seja restabelecida
Dos arlequins e colombinas
Numa dança sobre as sombras
De uma ordem corrompida
Dos que fingem seriedade
Da moral e bons costumes
Da cultura elevada
Da religião institucional
Que teme
Que geme diante
Dos seres que habitam os porões
Profundos e frios
De toda existência
Acima e abaixo.
A verdade seja assim
Um pouco abaixo
Da linha do Equador.
Da cintura para baixo
Onde a vida se forma
E o prazer pela vida
Verdadeiramente vivida.
Meu estranho amigo
Encontrei pelo caminho
Um demônio entristecido
Que pedia apenas um amigo
Qualquer um que fosse
Podia ser coxo
Podia ser cego
Mudo e surdo
Desde que fosse amigo.
Ninguém queria ser
Amigo dele
Quem perto dele chegasse
Atiravam pedras
Praguejavam
E cuspiam
Quase enojados.
Encontrei pelo caminho
Um demônio entristecido
Que pedia apenas um amigo.
Que podia fazer por ele
Que podia fazer por mim
Senão dar-lhe minha porção
De arroz e feijão.
Mas ele queria apenas
Conversar
Queria apenas um amigo
O que poderia conversar
Com um demônio.
Minha vida foi vazia
Sem nada especial
Pedia esmola pelos caminhos
Ninguém dava
Ninguém se importava
Apenas o demônio
Queria ser meu amigo.
Um demônio entristecido
Que pedia apenas um amigo
Qualquer um que fosse
Podia ser coxo
Podia ser cego
Mudo e surdo
Desde que fosse amigo.
Ninguém queria ser
Amigo dele
Quem perto dele chegasse
Atiravam pedras
Praguejavam
E cuspiam
Quase enojados.
Encontrei pelo caminho
Um demônio entristecido
Que pedia apenas um amigo.
Que podia fazer por ele
Que podia fazer por mim
Senão dar-lhe minha porção
De arroz e feijão.
Mas ele queria apenas
Conversar
Queria apenas um amigo
O que poderia conversar
Com um demônio.
Minha vida foi vazia
Sem nada especial
Pedia esmola pelos caminhos
Ninguém dava
Ninguém se importava
Apenas o demônio
Queria ser meu amigo.
Dia de ventania
Nem sempre é sexta-feira
Nem sempre é sexta-feira treze
Nem sempre é sexta-feira treze de agosto
Quando sopra o vento
E o movimento das rodas de vento
Novamente ventania se faz
Varrendo debaixo dos vales
Uma calmaria das batalhas perdidas
E que cadáveres de guerreiros ainda
Vestem suas armaduras
Protegendo-se dos ataques
Dos abutres com ânsia de carne humana
Que todo dia seja
Finalmente
Sexta-feira treze!
Nem sempre é sexta-feira treze
Nem sempre é sexta-feira treze de agosto
Quando sopra o vento
E o movimento das rodas de vento
Novamente ventania se faz
Varrendo debaixo dos vales
Uma calmaria das batalhas perdidas
E que cadáveres de guerreiros ainda
Vestem suas armaduras
Protegendo-se dos ataques
Dos abutres com ânsia de carne humana
Que todo dia seja
Finalmente
Sexta-feira treze!
Tormento
Isto eu não suporto
o silêncio, o intervalo, o imperfeito
eu não aceito. É pouco, é menos
que o desejo, pra mim
A fadiga dos meus olhos, o corte
nas pálpebras, os cilhos, o cansaço
da existência, sem parada, sem chão
uma tortura, uma vida, tormento
O que é isso? Agora é a alegria? Então
o que era se não era dor e sofrimento.
e eu não quero este silêncio, essa lágrima
por cair
o silêncio, o intervalo, o imperfeito
eu não aceito. É pouco, é menos
que o desejo, pra mim
A fadiga dos meus olhos, o corte
nas pálpebras, os cilhos, o cansaço
da existência, sem parada, sem chão
uma tortura, uma vida, tormento
O que é isso? Agora é a alegria? Então
o que era se não era dor e sofrimento.
e eu não quero este silêncio, essa lágrima
por cair
Caminhar preciso
Uma procura insana
Por aquilo que sem sei
Nem sei o que seja
Nem que seja algo procurado
Vivo ou morto
Por esta longa caminhada
De pés descalços
Em que caminhar se tornou
Uma alegria dos caminhantes
Se tornou
Um sufoco dos que
Caíram pelo próprio caminho.
Uma procura que
Após seu abandono
Quem sabe será
O encontro
Do que nunca saiu
Do lugar.
Por aquilo que sem sei
Nem sei o que seja
Nem que seja algo procurado
Vivo ou morto
Por esta longa caminhada
De pés descalços
Em que caminhar se tornou
Uma alegria dos caminhantes
Se tornou
Um sufoco dos que
Caíram pelo próprio caminho.
Uma procura que
Após seu abandono
Quem sabe será
O encontro
Do que nunca saiu
Do lugar.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Quando vem o silêncio
Quando se silencia
Pode ser qualquer coisa
Ou coisa alguma.
Antes mesmo da palavra
Ser criada
Mas se criada uma vez
Deixa a palavra para trás
Para novamente vir
O silêncio
E falar todas as línguas
Isento de uma língua que seja
Assim o entendimento
Se torna
A única palavra existente
Sem nada explicar.
Pode ser qualquer coisa
Ou coisa alguma.
Antes mesmo da palavra
Ser criada
Mas se criada uma vez
Deixa a palavra para trás
Para novamente vir
O silêncio
E falar todas as línguas
Isento de uma língua que seja
Assim o entendimento
Se torna
A única palavra existente
Sem nada explicar.
摂心
Selam-se os portões da mente.
Deste momento em diante, apenas o silêncio.
Apenas o silêncio é o caminho.
O silêncio do vento, das folhas farfalhando
O silêncio das crianças jogando bola na quadra do vizinho
O silêncio do louvor evangélico declamado com ardor
O silêncio do rádio fora de sintonia narrando o jogo do mundial
O silêncio da pressa urbana da cidade que não pára.
Apenas o silêncio.
Mu
Circunvendo as curvas da vida
Contornando as formas vazias
O que se encontra ali dentro?
O suspiro efêmero do agora
É o único remanescente
Do silencioso vento tempestuoso
Da insustável impermanência
L'Amore
L'Amore
È bello così
Lontano
Distratto
Muto
Disegnato
Impensato
Sognato
Immaginato
Fitizzio
Astratto
Semplice
Infondato
Senza rumore
Passionato
Senza parole
Cantato in silenzio
Senza fiato
Ballato nell'aria
Senza respiro
Macchiato per el sacro
L'Amore
È bello così
Oppure, sarà soltanto
Un'altra parola digesta
Rigettata per bocche sporche
Come tavola di primo ordine.
Reinado
Sentado entre orquídeas e papoulas
olhos longe, pupilas azuis
as mãos cravejadas de jóias
uma a tocar o solo a outra em gestos congelados
Mandava e desmandava o príncipe do sinal vermelho
Era a sujeira da praça-ilha no asfalto-mar
sujeito das bordas da cidade Não
Monarca absoluto daquilo que um dia
se convencionou chamar abandono
olhos longe, pupilas azuis
as mãos cravejadas de jóias
uma a tocar o solo a outra em gestos congelados
Mandava e desmandava o príncipe do sinal vermelho
Era a sujeira da praça-ilha no asfalto-mar
sujeito das bordas da cidade Não
Monarca absoluto daquilo que um dia
se convencionou chamar abandono
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Palavras fora de lugar
Tá tudo acabado
Como que tudo pudesse acabar
Por uma vontade insana
Pudesse ser tão simples assim.
Mas valeu pela intenção!
Como que tudo pudesse acabar
Por uma vontade insana
Pudesse ser tão simples assim.
Mas valeu pela intenção!
domingo, 8 de agosto de 2010
A imagem sem mão
A imagem de Kannon
Dourada que enfeita meu altar
Falta-lhe uma mão
Mesmo assim ela brilha
Toda sua beleza interior
E sem mão
Toda sua beleza exterior.
Em Kannon falta-lhe
Uma mão.
Em mim falta-me
Todo o brilho da compaixão.
E sem entendimento
Sofro as intempéries
Da paixão repentina
Da febre repentina
Que desnorteia
E derruba-me ao chão.
Dourada que enfeita meu altar
Falta-lhe uma mão
Mesmo assim ela brilha
Toda sua beleza interior
E sem mão
Toda sua beleza exterior.
Em Kannon falta-lhe
Uma mão.
Em mim falta-me
Todo o brilho da compaixão.
E sem entendimento
Sofro as intempéries
Da paixão repentina
Da febre repentina
Que desnorteia
E derruba-me ao chão.
A inutilidade da vida
As margaridas que tenho
Diante
Frescas e deslumbrantes
Em poucas horas
Nada mais serão
Do que flores secas
E serão
Totalmente descartadas
Desprezadas
Como inúteis.
Inútil também o poema
Que escrevo
Cuja beleza somente
Passageira
Quando escrevo
Sem nada ganhar
Sem nada agradar.
O teu nome que gravo
No tronco da bananeira
Para nada serve
Senão que serve
De alimento às larvas.
Ainda bem
Que nada serve
Para nada
Assim continuaremos
Fazendo aquilo
O que não serve para nada
Como condição da existência.
- E existir para que servirá
Afinal?
Diante
Frescas e deslumbrantes
Em poucas horas
Nada mais serão
Do que flores secas
E serão
Totalmente descartadas
Desprezadas
Como inúteis.
Inútil também o poema
Que escrevo
Cuja beleza somente
Passageira
Quando escrevo
Sem nada ganhar
Sem nada agradar.
O teu nome que gravo
No tronco da bananeira
Para nada serve
Senão que serve
De alimento às larvas.
Ainda bem
Que nada serve
Para nada
Assim continuaremos
Fazendo aquilo
O que não serve para nada
Como condição da existência.
- E existir para que servirá
Afinal?
sábado, 7 de agosto de 2010
Jogo da amarelinha
Por muito tentei em vão
Esquecer-me de ti
Esquecer que um dia
Experimentamos juntos
O jogo da amarelinha
Foi quando perdi
E nunca mais pude
Esquecer-me de ti
Você me ganhou
Você quis ir embora
Embora quisesse ficar
Você ficou
E procura me ignorar
Que nem estou aí
Mas nunca saí do lugar
Nem você!
Por que você vive
Em mim.
Esquecer-me de ti
Esquecer que um dia
Experimentamos juntos
O jogo da amarelinha
Foi quando perdi
E nunca mais pude
Esquecer-me de ti
Você me ganhou
Você quis ir embora
Embora quisesse ficar
Você ficou
E procura me ignorar
Que nem estou aí
Mas nunca saí do lugar
Nem você!
Por que você vive
Em mim.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Dos versos que construí
Sinceridade demais
Pode ser uma atitude
Nada recomendável
Um pouco de cinismo
Pode ser melhor
Num mundo de aparências
Cuja transparência
Tornou-se um impedimento.
Nada mais cínico
Do que o poeta
Que deseja agradar apenas
A desagradável sensação
De dizer
Aquilo que não disse
Seu coração.
Que triste quando
Poetas não mais disserem
Da magia transformadora
Dos versos
Inversos
À política do correto
Incorreto seria então
Construir a forma
Destruir toda hipocrisia
Da boca para fora.
Pode ser uma atitude
Nada recomendável
Um pouco de cinismo
Pode ser melhor
Num mundo de aparências
Cuja transparência
Tornou-se um impedimento.
Nada mais cínico
Do que o poeta
Que deseja agradar apenas
A desagradável sensação
De dizer
Aquilo que não disse
Seu coração.
Que triste quando
Poetas não mais disserem
Da magia transformadora
Dos versos
Inversos
À política do correto
Incorreto seria então
Construir a forma
Destruir toda hipocrisia
Da boca para fora.
Sem enxergar
Ofuscado por essa embriaguez
Meus olhos já não enxergam
Nem mais uma vez
Deixam de enxergar meu mundo
Pra enxergar o seu
Muito mais profundo
Que o meu
E mais bonito também
E é nesse instante que somos um
Ofuscados por esse sentimento
Não só nesse momento
Mas em qualquer um
Meus olhos já não enxergam
Nem mais uma vez
Deixam de enxergar meu mundo
Pra enxergar o seu
Muito mais profundo
Que o meu
E mais bonito também
E é nesse instante que somos um
Ofuscados por esse sentimento
Não só nesse momento
Mas em qualquer um
O serviço da poesia
Quando a explicação
Se torna desnecessária
Qualquer explicação que seja
Nada mais explica
Senão palavras postas
Fora de lugar.
Melhor se calar
E o silêncio nada explica
Senão o próprio silêncio
Em total harmonia
Com todos os contrastes.
Para os poetas passionais
Em que se expressar
É condição para se viver
Então morrer nas palavras
É viver na eternidade.
Mas este não merece a eternidade
Merece a palavra
Com toda ambigüidade
E confusão.
Se todos pudessem ler
Poesia
Apenas como poesia
Nenhuma confusão mais
Teria
Pois poesia é do espírito
Acima das nuvens
Bem acima
De todas as impurezas
Deste mundo
Confuso
Só a poesia cria ordem
Não do mundo
Mas
Da própria poesia
Que purifica a mente
De toda impureza
Que nunca mente
Nem finge
Que sente o palpitar
Constante do coração
Coração errante e desiludido.
Se torna desnecessária
Qualquer explicação que seja
Nada mais explica
Senão palavras postas
Fora de lugar.
Melhor se calar
E o silêncio nada explica
Senão o próprio silêncio
Em total harmonia
Com todos os contrastes.
Para os poetas passionais
Em que se expressar
É condição para se viver
Então morrer nas palavras
É viver na eternidade.
Mas este não merece a eternidade
Merece a palavra
Com toda ambigüidade
E confusão.
Se todos pudessem ler
Poesia
Apenas como poesia
Nenhuma confusão mais
Teria
Pois poesia é do espírito
Acima das nuvens
Bem acima
De todas as impurezas
Deste mundo
Confuso
Só a poesia cria ordem
Não do mundo
Mas
Da própria poesia
Que purifica a mente
De toda impureza
Que nunca mente
Nem finge
Que sente o palpitar
Constante do coração
Coração errante e desiludido.
Um gato apenas
Que sensação mais estranha
Foi esta
Em meu caminho de volta
Havia
Junto ao lixo atirado
Um gato morto.
Um gato amarelo
Que parecia dormir
Mas dormia para a eternidade
Que insensibilidade era
Esta de atirar fora
Um gato que morrera.
Que podia fazer agora
Diante daquele gato
Que não merecia tanto
Tamanho desprezo era
Atirado fora.
Me senti fora
Naquela hora
Que poderia fazer
Senão contemplar
Triste
Como um idiota
O gato
Atirado fora
E orar por ele
Era um gato apenas
Eu era
Um impotente apenas
Menor do que
Aquele gato.
Foi esta
Em meu caminho de volta
Havia
Junto ao lixo atirado
Um gato morto.
Um gato amarelo
Que parecia dormir
Mas dormia para a eternidade
Que insensibilidade era
Esta de atirar fora
Um gato que morrera.
Que podia fazer agora
Diante daquele gato
Que não merecia tanto
Tamanho desprezo era
Atirado fora.
Me senti fora
Naquela hora
Que poderia fazer
Senão contemplar
Triste
Como um idiota
O gato
Atirado fora
E orar por ele
Era um gato apenas
Eu era
Um impotente apenas
Menor do que
Aquele gato.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Não mais teu olhar
Aprendi a olhar o seu olhar
Depois de tanto te fazer chorar
Se orgulhar
E mergulhar num mundo de fantasias
Agora eu choro (até morrer)
Pelo tardio instante
Em que resolvi aprender
Que isso me sirva de lição
Agora que nada te faz me olhar
Busco um olhar só pra mim
Pra encher o vazio
Que fiz assim
Depois de tanto te fazer chorar
Se orgulhar
E mergulhar num mundo de fantasias
Agora eu choro (até morrer)
Pelo tardio instante
Em que resolvi aprender
Que isso me sirva de lição
Agora que nada te faz me olhar
Busco um olhar só pra mim
Pra encher o vazio
Que fiz assim
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
A mentira das palavras
Não devemos confundir
Os sentidos das palavras
Que podem ter outros sentidos
Do que aquele sentido
No calor do erro cometido.
Se as palavras pudessem falar
A verdade em sua totalidade
Ainda assim não falariam tudo
Pois a verdade não caberia totalmente
Numa palavra.
As palavras são sombras
Em que nos abrigamos
E acreditamos que podem
Revelar totalmente a verdade
Mas a verdade não pode ser dita
Nem explicada
Se explicada fosse
Deixaria de ser verdade
Pois a verdade é apenas sentida
Pois a verdade é apenas experimentada
E somente quem a experimentou
Se calou
Pois se falar
Será uma outra coisa
Muito além do que seja
Verdade.
A verdade não se diz
E quem disse já mentiu.
Os sentidos das palavras
Que podem ter outros sentidos
Do que aquele sentido
No calor do erro cometido.
Se as palavras pudessem falar
A verdade em sua totalidade
Ainda assim não falariam tudo
Pois a verdade não caberia totalmente
Numa palavra.
As palavras são sombras
Em que nos abrigamos
E acreditamos que podem
Revelar totalmente a verdade
Mas a verdade não pode ser dita
Nem explicada
Se explicada fosse
Deixaria de ser verdade
Pois a verdade é apenas sentida
Pois a verdade é apenas experimentada
E somente quem a experimentou
Se calou
Pois se falar
Será uma outra coisa
Muito além do que seja
Verdade.
A verdade não se diz
E quem disse já mentiu.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Ventos da radiação
Uma lembrança sinistra
É lembrança que não me abandona
Uma fuligem atômica se espalha
Toda vez que chega agosto
Novamente aquele cogumelo imenso
Se levanta e anuncia a morte
Diante do terror das virgens de pedra
Que arregalaram os olhos
Hiroshima desapareceu
Nagasaki desapareceu
E ninguém se lembra mais.
É lembrança que não me abandona
Uma fuligem atômica se espalha
Toda vez que chega agosto
Novamente aquele cogumelo imenso
Se levanta e anuncia a morte
Diante do terror das virgens de pedra
Que arregalaram os olhos
Hiroshima desapareceu
Nagasaki desapareceu
E ninguém se lembra mais.
Atropelamento do inseto
Pelos caminhos que percorro
Nada havia
Que fosse especial
A não ser que havia
Uma morte acidentada
De um inseto qualquer.
Pelos caminhos que percorro
Os homens morrem atropelados
Os insetos morrem atropelados
Sem distinção.
Pelos caminhos que percorro
Ninguém se importa mais
Com a morte anunciada
De alguns homens
De alguns insetos.
Pelos caminhos que percorro
Acabo matando
Muitos homens
Muitos insetos
Sem nenhum remorso.
Pelos caminhos que percorro
Morro toda vez que morrem
Homens
E insetos.
Morro para continuar caminhando.
Vivo para o caminho caminhar
Continuamente.
Nada havia
Que fosse especial
A não ser que havia
Uma morte acidentada
De um inseto qualquer.
Pelos caminhos que percorro
Os homens morrem atropelados
Os insetos morrem atropelados
Sem distinção.
Pelos caminhos que percorro
Ninguém se importa mais
Com a morte anunciada
De alguns homens
De alguns insetos.
Pelos caminhos que percorro
Acabo matando
Muitos homens
Muitos insetos
Sem nenhum remorso.
Pelos caminhos que percorro
Morro toda vez que morrem
Homens
E insetos.
Morro para continuar caminhando.
Vivo para o caminho caminhar
Continuamente.
Amor de passarinho
Quando era criança
Achei um passarinho
Nunca me senti tão feliz
Envolvi-o em minhas mãos
Estavam cheias de calor
Todo amor que tinha
Era na mão que sentia.
Não demorou muito
O passarinho morreu
Sufocado pelo meu amor
Minha mão sufocou
Meu primeiro amor.
Desde então venho
Matando amores de minha vida.
O que pode ser pior
Do que o amor?
Viver eternamente
Sem ter conhecido
Amor!
Achei um passarinho
Nunca me senti tão feliz
Envolvi-o em minhas mãos
Estavam cheias de calor
Todo amor que tinha
Era na mão que sentia.
Não demorou muito
O passarinho morreu
Sufocado pelo meu amor
Minha mão sufocou
Meu primeiro amor.
Desde então venho
Matando amores de minha vida.
O que pode ser pior
Do que o amor?
Viver eternamente
Sem ter conhecido
Amor!
Lição mal feita de poesia
Nem sei bem o que
É ser poeta
Palavra simpática
Para alguns
Algo de incomum
Que todos gostariam de ser
Alguns são integralmente
Poucos são os que vivem
Poesia.
Deixam se embriagar pelas
Emoções das palavras
Sentidas profundamente
Significadas profundamente
Seja nos perigos do amor
Seja na dor dos desatinados
Sem medo de enlouquecer
Dos desarranjos intestinais
Que a febre do calor
Pode provocar.
Nem sei se escrevo poesia
Escrevo qualquer outra coisa
Que pode ser poesia
Ou não
Que seja então coisa alguma
Desde que seja verdadeira
Não para o poeta apenas
- não para se vangloriar-
Que seja para quem vive
As agruras da vida
Em toda sua intensidade
Que no encontro do amor
Encontrou apenas
Desencontros
Mas não se aquietou.
Escrevo a desordem
De um final nem sempre feliz
Pois felicidade não passa
De uma ilusão construída
Na tela de televisão.
Escrever sobre a verdade
Pode libertar os fantasmas
Os demônios e as fadas.
Escrever poesia
Pode ser
Amar o reumatismo
Também amar a mulher
Que nunca se preocupou
Em ler poesia
Pois a vida é contradição
O amor é maldição
Que o poeta bem conhece.
É ser poeta
Palavra simpática
Para alguns
Algo de incomum
Que todos gostariam de ser
Alguns são integralmente
Poucos são os que vivem
Poesia.
Deixam se embriagar pelas
Emoções das palavras
Sentidas profundamente
Significadas profundamente
Seja nos perigos do amor
Seja na dor dos desatinados
Sem medo de enlouquecer
Dos desarranjos intestinais
Que a febre do calor
Pode provocar.
Nem sei se escrevo poesia
Escrevo qualquer outra coisa
Que pode ser poesia
Ou não
Que seja então coisa alguma
Desde que seja verdadeira
Não para o poeta apenas
- não para se vangloriar-
Que seja para quem vive
As agruras da vida
Em toda sua intensidade
Que no encontro do amor
Encontrou apenas
Desencontros
Mas não se aquietou.
Escrevo a desordem
De um final nem sempre feliz
Pois felicidade não passa
De uma ilusão construída
Na tela de televisão.
Escrever sobre a verdade
Pode libertar os fantasmas
Os demônios e as fadas.
Escrever poesia
Pode ser
Amar o reumatismo
Também amar a mulher
Que nunca se preocupou
Em ler poesia
Pois a vida é contradição
O amor é maldição
Que o poeta bem conhece.
Chinês escreve com água
Numa manhã, este ancião chinês resolveu compor poemas numa praça pública. Utilizou-se de um imenso pincel e molhando-o na água, passou a escrever. Poucos minutos depois, o sol fazia a sua parte: secava. Contei esta história a uma pessoa, que me disse: ele é louco! Será? Nada me sensibilizou tanto como esta imagem.Velho pingüim de geladeira
Para que serve um pingüim
De geladeira
Senão para tornar a geladeira
Mais gelada
Para se lembrar que na geladeira
Há um pingüim
Que não serve para nada.
Mas por que teria que servir
Para alguma coisa
Senão para ficar em pé
Sobre a geladeira
Somente pra isso.
Minha vida toda
Passei
Como um pingüim de geladeira
Enfeitando aqui
Quando enjoavam de mim
Trocavam por outro enfeite
Mais interessante
Do que o velho
Pingüim de geladeira
Que ficou ultrapassado
Cheio de manchas
Uma vez caiu
Quase quebrou
Mas o pingüim resistiu
A todas as pancadas
Batida e esculachos
E persistiu com o bico levantado
Mais alto que pode.
Para que serve a vida
Como um pingüim de geladeira
Para nada
Apenas para viver
Deixem o pingüim viver
Deixem a vida viver
Ainda que possa ser
Desprezada
Deixem viver
Ainda que possa ser
Apaixonada
E lubricamente desejada
Deixem viver
Deixem as prostitutas viverem
Também a freiras
Também a mulher solteira
Que vive de um amor
Totalmente impossível
Mas vive
Por causa dele.
Por ele se vive.
De geladeira
Senão para tornar a geladeira
Mais gelada
Para se lembrar que na geladeira
Há um pingüim
Que não serve para nada.
Mas por que teria que servir
Para alguma coisa
Senão para ficar em pé
Sobre a geladeira
Somente pra isso.
Minha vida toda
Passei
Como um pingüim de geladeira
Enfeitando aqui
Quando enjoavam de mim
Trocavam por outro enfeite
Mais interessante
Do que o velho
Pingüim de geladeira
Que ficou ultrapassado
Cheio de manchas
Uma vez caiu
Quase quebrou
Mas o pingüim resistiu
A todas as pancadas
Batida e esculachos
E persistiu com o bico levantado
Mais alto que pode.
Para que serve a vida
Como um pingüim de geladeira
Para nada
Apenas para viver
Deixem o pingüim viver
Deixem a vida viver
Ainda que possa ser
Desprezada
Deixem viver
Ainda que possa ser
Apaixonada
E lubricamente desejada
Deixem viver
Deixem as prostitutas viverem
Também a freiras
Também a mulher solteira
Que vive de um amor
Totalmente impossível
Mas vive
Por causa dele.
Por ele se vive.
Onde foram todos
Meus amigos de outrora
Onde estarão
Será que casaram
E não me convidaram
Será que morreram
E não me chamaram
Como podem morrer
Sem se despedirem
Dos outros amigos?
Como podem morrer sozinhos?
Quando percebo
Ninguém mais está
Ao meu lado.
Até mesmo a sombra
Desapareceu
Mas arrumei outras
Companhias
Algumas femininas
São as mais
Amorosas
Uma se chama melancolia
Outra se chama desolação
São companheiras
Quando a vida desce
A ribanceira
Para conhecer profundamente
A água tépida da lagoinha
E se acalmar
Com a carícia desimpedida
De uma brisa
Daquela que nunca nos deixou
Ainda que pudéssemos
Ter esquecido dela.
Tranqüilo é o sono
Da eternidade.
Onde estarão
Será que casaram
E não me convidaram
Será que morreram
E não me chamaram
Como podem morrer
Sem se despedirem
Dos outros amigos?
Como podem morrer sozinhos?
Quando percebo
Ninguém mais está
Ao meu lado.
Até mesmo a sombra
Desapareceu
Mas arrumei outras
Companhias
Algumas femininas
São as mais
Amorosas
Uma se chama melancolia
Outra se chama desolação
São companheiras
Quando a vida desce
A ribanceira
Para conhecer profundamente
A água tépida da lagoinha
E se acalmar
Com a carícia desimpedida
De uma brisa
Daquela que nunca nos deixou
Ainda que pudéssemos
Ter esquecido dela.
Tranqüilo é o sono
Da eternidade.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Anjos que não voavam
Ainda me visita
Quando menos se espera
Aquelas meninas vestidas de anjo
Que desfilavam numa procissão
Do deus morto.
Nunca acreditei que elas
Fossem anjos
Que pudessem voar
Com suas asas amarradas
Em suas costas.
Quem voava realmente
Era a minha imaginação
Quem voava era o passarinho
Livre para cair
De uma pedra que livremente
Acertou-o.
Não foi no passarinho
Foi em mim mesmo
Que passarinho
Ferido sangrou
E nunca mais pode
Voar.
Quando menos se espera
Aquelas meninas vestidas de anjo
Que desfilavam numa procissão
Do deus morto.
Nunca acreditei que elas
Fossem anjos
Que pudessem voar
Com suas asas amarradas
Em suas costas.
Quem voava realmente
Era a minha imaginação
Quem voava era o passarinho
Livre para cair
De uma pedra que livremente
Acertou-o.
Não foi no passarinho
Foi em mim mesmo
Que passarinho
Ferido sangrou
E nunca mais pode
Voar.
domingo, 1 de agosto de 2010
As dores da criação
Criar é a grande emancipação da dor e do alívio da vida; mas para o criador existir são necessárias muitas dores e transformações. Sim, criadores, é mister que haja na vossa vida muitas mortes amargas. Sereis assim os defensores e justificadores de tudo o que é perecível. Para o criador ser o filho que renasce, é preciso que queira ser a mãe com as dores da mãe.
Em verdade, o meu caminho atravessou cem almas, cem berços e cem dores de parto. Muitas vezes me despedi; conheço as últimas horas que desgarram o coração. Mas assim o que quer a minha vontade criadora, o meu destino. Ou, para dizer mais francamente: esse destino quer ser minha vontade. Todos os meus sentimentos sofrem em mim e estão aprisionados; mas o meu querer chega sempre como libertador e mensageiro de alegria.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.76.
Em verdade, o meu caminho atravessou cem almas, cem berços e cem dores de parto. Muitas vezes me despedi; conheço as últimas horas que desgarram o coração. Mas assim o que quer a minha vontade criadora, o meu destino. Ou, para dizer mais francamente: esse destino quer ser minha vontade. Todos os meus sentimentos sofrem em mim e estão aprisionados; mas o meu querer chega sempre como libertador e mensageiro de alegria.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.76.
As mazelas de agosto
Mal começa agosto
Que gosto estranho na boca
Como fosse uma gosma
De um fruto ainda não maduro.
Algo que preciso adoçar
Com o açúcar de sua boca
Seja em palavras suaves
Também seja pelo gosto de maçã
Dessas mergulhadas em caldo grosso.
Quem da macã uma vez provou
Nunca se esquecerá
Daquela sensação
De perdição
Que somente os cúmplices
Podem dizer
Algo.
Ou se calar.
E quem nunca se perdeu
Nas bravatas do amor
Ainda não viveu
Nenhum perigo
Suficientemente profundo
Que sangra a alma
Para nunca mais
Sarar.
Para quê sarar de algo sentido
Que torna a vida
Palatável
Um pouco do amargo
De uma dose de Fernet.
O amargo torna depois
Tudo muito doce.
O doce da maçã
De dá a vida
Que dá a morte.
Como é suave morrer
Em agosto!
Que gosto estranho na boca
Como fosse uma gosma
De um fruto ainda não maduro.
Algo que preciso adoçar
Com o açúcar de sua boca
Seja em palavras suaves
Também seja pelo gosto de maçã
Dessas mergulhadas em caldo grosso.
Quem da macã uma vez provou
Nunca se esquecerá
Daquela sensação
De perdição
Que somente os cúmplices
Podem dizer
Algo.
Ou se calar.
E quem nunca se perdeu
Nas bravatas do amor
Ainda não viveu
Nenhum perigo
Suficientemente profundo
Que sangra a alma
Para nunca mais
Sarar.
Para quê sarar de algo sentido
Que torna a vida
Palatável
Um pouco do amargo
De uma dose de Fernet.
O amargo torna depois
Tudo muito doce.
O doce da maçã
De dá a vida
Que dá a morte.
Como é suave morrer
Em agosto!
sábado, 31 de julho de 2010
Adoramos
Imensas tetas mornas
cheirando à leite e suor
Um vale que finda num delta
macio e aveludado, ondulante
Corpo imenso, imenso
lugar de acolhimento
perdição e reencontro
mistério do gozo eterno
Mulher de todos
encarna em nossas camas
o lugar da terra
em nossas bocas
companhia fêmea,
estranheza íntima
de tão clara, cega olhos e às vezes corações
essa mulher de todos nós
Eva única que nos pariu
Adoramos
cheirando à leite e suor
Um vale que finda num delta
macio e aveludado, ondulante
Corpo imenso, imenso
lugar de acolhimento
perdição e reencontro
mistério do gozo eterno
Mulher de todos
encarna em nossas camas
o lugar da terra
em nossas bocas
companhia fêmea,
estranheza íntima
de tão clara, cega olhos e às vezes corações
essa mulher de todos nós
Eva única que nos pariu
Adoramos
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Para quê crescer, menino!
Os homens jamais deveriam
Crescer
E perder a inocência
Como escrever poesias.
Quando se cresce nada disso
Tem valor
Nem tem valor
A amizade
Dos que compõem poesia
Nem choram mais
Endureceram seus corações
Justificam tudo em suas vidas
Como que isso justificasse algo
Sem que ninguém peça
Justificativa alguma.
Mas ainda assim justificam
A legítima defesa nos tribunais
A legítima causa em causa própria
E cada vez mais vão se aprofundando
Num pântano de ilusões
Com o corpo cada vez mais pesado
Das informações coletadas num manual
De sobrevivência financeira
De um cartão estourado de tanto
Comprar o que não precisa.
Para quê crescer
Pois o que aumenta é número do pé
Menos ainda a inteligência
Um peixinho dourado que satisfaz
Apenas com o mundo cercado
Em seu pequeno aquário.
Tudo que está fora dele
Para o peixinho dourado
É ilusão de sua mente.
Ilusão de que sempre estarão
No mesmo aquário de sempre.
Quando as escamas começarem a cair
As barbatanas a falhar
Então alguém lá de fora
Colocará descarga abaixo
O peixinho velho e doente
E um outro tomará seu lugar.
Crescer é uma grande ilusão
Mas estamos fadados a crescer
Para padecer para sempre
De nossa inocência
De escrever poesia.
Crescer
E perder a inocência
Como escrever poesias.
Quando se cresce nada disso
Tem valor
Nem tem valor
A amizade
Dos que compõem poesia
Nem choram mais
Endureceram seus corações
Justificam tudo em suas vidas
Como que isso justificasse algo
Sem que ninguém peça
Justificativa alguma.
Mas ainda assim justificam
A legítima defesa nos tribunais
A legítima causa em causa própria
E cada vez mais vão se aprofundando
Num pântano de ilusões
Com o corpo cada vez mais pesado
Das informações coletadas num manual
De sobrevivência financeira
De um cartão estourado de tanto
Comprar o que não precisa.
Para quê crescer
Pois o que aumenta é número do pé
Menos ainda a inteligência
Um peixinho dourado que satisfaz
Apenas com o mundo cercado
Em seu pequeno aquário.
Tudo que está fora dele
Para o peixinho dourado
É ilusão de sua mente.
Ilusão de que sempre estarão
No mesmo aquário de sempre.
Quando as escamas começarem a cair
As barbatanas a falhar
Então alguém lá de fora
Colocará descarga abaixo
O peixinho velho e doente
E um outro tomará seu lugar.
Crescer é uma grande ilusão
Mas estamos fadados a crescer
Para padecer para sempre
De nossa inocência
De escrever poesia.
Apenas catavam
Um mendigo catava
Um amor perdido
Na lata de lixo.
Um poeta catava
Num coração vazio
Fumaças do tempo.
Um amor perdido
Na lata de lixo.
Um poeta catava
Num coração vazio
Fumaças do tempo.
Menino cresça com calma
Menino cresça com calma
Pois árvore sem raiz não dá bons frutos
Nem cura a nossa alma
Da fome e dos sustos
Aprenda a sentir o tempo passar
Acariciando-te a cada segundo
Indo ao teu ouvido pra sussurrar
E te mostrar Deus e o mundo
Pois árvore sem raiz não dá bons frutos
Nem cura a nossa alma
Da fome e dos sustos
Aprenda a sentir o tempo passar
Acariciando-te a cada segundo
Indo ao teu ouvido pra sussurrar
E te mostrar Deus e o mundo
quinta-feira, 29 de julho de 2010
A falta que me faz
Quisera conhecê-la
Pois todo tempo que a conheço
Mal conheço um pouco que seja
Mal me dou conta que
Se parece tanto
Um tanto que seja
Com alguém que acalanto
Por isso me faz lembrar
Nesta sua presença
Um pouco que seja
Por isso te procuro minha senhora
Pois me evoca imagens
Que ainda me alimenta
Ainda que sofra a falta
Que me faz.
Pois todo tempo que a conheço
Mal conheço um pouco que seja
Mal me dou conta que
Se parece tanto
Um tanto que seja
Com alguém que acalanto
Por isso me faz lembrar
Nesta sua presença
Um pouco que seja
Por isso te procuro minha senhora
Pois me evoca imagens
Que ainda me alimenta
Ainda que sofra a falta
Que me faz.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Escritos na água
Cada vez mais frias
As noites que tenho apenas
A companhia de duas felinas
Que dormem o tempo todo
Sem se importarem
Com a minha sina solitária
Que procura escrever
Para não enlouquecer
De congestão por overdose
De uma emoção sentida
E esvaziou de repente
Todo calor que tinha
Neste coração em arritmia.
Escrevo
Principalmente num espelho
Poemas de consolo
Que somem em pouco tempo
Num espelho d‘água
De uma bacia.
As noites que tenho apenas
A companhia de duas felinas
Que dormem o tempo todo
Sem se importarem
Com a minha sina solitária
Que procura escrever
Para não enlouquecer
De congestão por overdose
De uma emoção sentida
E esvaziou de repente
Todo calor que tinha
Neste coração em arritmia.
Escrevo
Principalmente num espelho
Poemas de consolo
Que somem em pouco tempo
Num espelho d‘água
De uma bacia.
Os corvos daquela casa
Os corvos que pousavam naquela casa
Os meninos abaixo passavam
A atirar pedras
Até que a ave agourenta
Levantasse vôo.
Um dia
Os corvos não voltaram mais
E toda felicidade daquela casa
Não voltou mais.
Então passaram
A atirar pedras cada um nos outros
Para espantar de si todo o mau agouro.
Os meninos abaixo passavam
A atirar pedras
Até que a ave agourenta
Levantasse vôo.
Um dia
Os corvos não voltaram mais
E toda felicidade daquela casa
Não voltou mais.
Então passaram
A atirar pedras cada um nos outros
Para espantar de si todo o mau agouro.
Versos errados
Para quem mandarei
Os versos que posso compor
Se tivesse alguém
Faria os mais belos
Mas isento de alguém
Sou livre para compor
Da forma que me agrada
Pois não tem que agradar
Quem quer que seja
Então que seja totalmente
Errado nas dimensões
Sem versos trabalhados
Para nunca ser mandado.
Os versos que posso compor
Se tivesse alguém
Faria os mais belos
Mas isento de alguém
Sou livre para compor
Da forma que me agrada
Pois não tem que agradar
Quem quer que seja
Então que seja totalmente
Errado nas dimensões
Sem versos trabalhados
Para nunca ser mandado.
Como vento...
Quando a esperança morre
Junto a ela morremos
Pois nada mais pode alimentar
Este corpo vazio
De qualquer alegria
Ainda que seja uma alegria
Temporária
Que se desfaz
Como vento.
Até soprar de novo
E rodar o moinho de vento
E moer o trigo
E cozer o pão
E a alegria novamente
Retornar.
Junto a ela morremos
Pois nada mais pode alimentar
Este corpo vazio
De qualquer alegria
Ainda que seja uma alegria
Temporária
Que se desfaz
Como vento.
Até soprar de novo
E rodar o moinho de vento
E moer o trigo
E cozer o pão
E a alegria novamente
Retornar.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Escrevo na água
Nada que faça
Realmente se faça
Neste mundo de incertezas
Pode continuar existindo
Que como fumaça
Num curto espaço de tempo
Se desfaça e vire água.
Na água que escrevo
Os meus poemas de amor
Para existir somente
Naquele ato que componho.
Amor que como água
Evapora
E vira fumaça.
Realmente se faça
Neste mundo de incertezas
Pode continuar existindo
Que como fumaça
Num curto espaço de tempo
Se desfaça e vire água.
Na água que escrevo
Os meus poemas de amor
Para existir somente
Naquele ato que componho.
Amor que como água
Evapora
E vira fumaça.
domingo, 25 de julho de 2010
O drama da vida
Nunca imaginei que fosse assim
De todos os dramas
Daqueles que enchem os teatros
O meu fosse o mais interessante.
Sou o herói que morre no fim.
De todos os dramas
Daqueles que enchem os teatros
O meu fosse o mais interessante.
Sou o herói que morre no fim.
Uma questão de tempo
O que me agrada em ti
Não é a doçura de seus lábios
Mais do que isso
É o amargo
Desta espera
Que nunca termina!
Não é a doçura de seus lábios
Mais do que isso
É o amargo
Desta espera
Que nunca termina!
Palavras amorosas
Encontrei uma cigana
Que leu a minha mão
Nada de bom havia nela
Senão uma vida de desencontros
Por isso desconfio
Dos encontros
Enfim das palavras amorosas
Que ditas uma vez
Podem não se repetir.
Mas por uma crença
Infinita
Esperamos que aconteça
Até que a barba
Embranqueça
Até que a morte não nos
Visite.
Que leu a minha mão
Nada de bom havia nela
Senão uma vida de desencontros
Por isso desconfio
Dos encontros
Enfim das palavras amorosas
Que ditas uma vez
Podem não se repetir.
Mas por uma crença
Infinita
Esperamos que aconteça
Até que a barba
Embranqueça
Até que a morte não nos
Visite.
Silencia a noite
Sempre te vi
Nunca te conheci
Nem sei com quem falo
Se as palavras nada mais dizem
Do que apenas justificativas de algo
Sem grande importância
Se fossem importantes nem necessitariam
De justificativa alguma.
Preferia ficar calado
Por algum instante
Um instante de eternidade
E desta forma
Pudera ser desta forma
Poderia te conhecer
A sua forma
De ser
Quando as palavras
Cessassem
E a verdade fluiria
Das bocas fechadas
Dos olhos que diriam
Toda a verdade
Sem justificativa
Nem precisaria
De verbo
E os sujeitos
Desapareceriam
Totalmente.
Nunca te conheci
Nem sei com quem falo
Se as palavras nada mais dizem
Do que apenas justificativas de algo
Sem grande importância
Se fossem importantes nem necessitariam
De justificativa alguma.
Preferia ficar calado
Por algum instante
Um instante de eternidade
E desta forma
Pudera ser desta forma
Poderia te conhecer
A sua forma
De ser
Quando as palavras
Cessassem
E a verdade fluiria
Das bocas fechadas
Dos olhos que diriam
Toda a verdade
Sem justificativa
Nem precisaria
De verbo
E os sujeitos
Desapareceriam
Totalmente.
À margem esquerda
Certa feita acordei
Com o pé esquerdo
Depois cruzei
Com um gato preto
Nasci na esquerda
E nunca mais me redimi
Cresci torto e torto permaneci
Em tudo que fiz
Andei na contramão
Até poesia escrevi
Nas portas dos banheiros
Certa inquietação
Melancolia que me persegue
Que também me alimenta
Nos momentos em que
Retorno para a minha casa
Que nunca abandonei
Que me abriga dos raios solares
Me cega
Cega também quem tem olhos sensíveis
Por isso onde me habito
A noite é minha morada
Pois sou filho da noite
Sou a própria noite
Totalmente em trevas.
Com o pé esquerdo
Depois cruzei
Com um gato preto
Nasci na esquerda
E nunca mais me redimi
Cresci torto e torto permaneci
Em tudo que fiz
Andei na contramão
Até poesia escrevi
Nas portas dos banheiros
Certa inquietação
Melancolia que me persegue
Que também me alimenta
Nos momentos em que
Retorno para a minha casa
Que nunca abandonei
Que me abriga dos raios solares
Me cega
Cega também quem tem olhos sensíveis
Por isso onde me habito
A noite é minha morada
Pois sou filho da noite
Sou a própria noite
Totalmente em trevas.
Os olhos dela
Nunca pensei que pudesse
Um dia conhecê-la.
Demorou um pouco
Mas ela veio ao meu encontro
De maneira lenta
De forma sorrateira
Rasteira chegou
Nem ao menos perguntou
O meu nome
Nem eu sabia o dela
Mas era ela extremamente bela
Seus olhos mediterrâneos
Enormes e penetrantes
Que não resisti.
Depois fiquei sabendo
Seu nome
Hipertensão.
Sonoro
Sobretudo sonoro
E prometeu nunca me abandonar
E disse ao pé do ouvido:
- Nunca mais te deixarei.
Sempre a terei ao meu lado
Ela é a menina dos meus olhos
E os olhos dela
Imensos
Como os olhos dela!
Um dia conhecê-la.
Demorou um pouco
Mas ela veio ao meu encontro
De maneira lenta
De forma sorrateira
Rasteira chegou
Nem ao menos perguntou
O meu nome
Nem eu sabia o dela
Mas era ela extremamente bela
Seus olhos mediterrâneos
Enormes e penetrantes
Que não resisti.
Depois fiquei sabendo
Seu nome
Hipertensão.
Sonoro
Sobretudo sonoro
E prometeu nunca me abandonar
E disse ao pé do ouvido:
- Nunca mais te deixarei.
Sempre a terei ao meu lado
Ela é a menina dos meus olhos
E os olhos dela
Imensos
Como os olhos dela!
sábado, 24 de julho de 2010
O pássaro preso e o solto
Um pássaro que havia
Em uma gaiola de ouro
Cujo dono dava comida
Limpava o terreiro
Dava banho
Quando queria.
Um outro pássaro havia
Fora da gaiola de ouro
Totalmente livre
Sem dono
Sem deus
Sem demônio
Bebia da fonte fresca
Comia onde lhe apetecia
Mas não estava livre
Das pedradas
Da noite escura
Dos fios de alta tensão.
Alguns preferem
A prisão
E o conforto
E a comida.
Outros são ousados
Não nasceram
Para viver fechados
Em gaiolas de ouro.
Uns cultivam a própria mente
Outros são cultivados pela mente
Dos outros.
Em uma gaiola de ouro
Cujo dono dava comida
Limpava o terreiro
Dava banho
Quando queria.
Um outro pássaro havia
Fora da gaiola de ouro
Totalmente livre
Sem dono
Sem deus
Sem demônio
Bebia da fonte fresca
Comia onde lhe apetecia
Mas não estava livre
Das pedradas
Da noite escura
Dos fios de alta tensão.
Alguns preferem
A prisão
E o conforto
E a comida.
Outros são ousados
Não nasceram
Para viver fechados
Em gaiolas de ouro.
Uns cultivam a própria mente
Outros são cultivados pela mente
Dos outros.
Os versos terminais
Se tivesse que morrer
No momento seguinte
Que poema comporia
Que a vida não passa de um sonho
Que o amor é uma ilusão
Que toda beleza não passa
De uma grande farsa.
Seria um grande consolo
Morrer iludido
Mas nem isso realmente
Me consola
Pois continuo escrevendo
Versos de amor
Na correnteza de um rio
Um poeta pobre e louco
Que insiste em viver
Somente para escrever
Como isso fosse remédio
Para aliviar as suas dores.
No momento seguinte
Que poema comporia
Que a vida não passa de um sonho
Que o amor é uma ilusão
Que toda beleza não passa
De uma grande farsa.
Seria um grande consolo
Morrer iludido
Mas nem isso realmente
Me consola
Pois continuo escrevendo
Versos de amor
Na correnteza de um rio
Um poeta pobre e louco
Que insiste em viver
Somente para escrever
Como isso fosse remédio
Para aliviar as suas dores.
As flores passadas
As flores que não dei
Quando resolvi dar
Estavam já secas.
Totalmente secas
Que não serviam mais
Para despertar qualquer
Sensibilidade.
Por que não deparei antes
Que as flores tinham passado
Passado também o tempo
Em que o frescor das flores frescas
Eram belas e agradavam
Mas o que pode se esperar
Das flores que tinham passado
Sem o perfume de antes
Sem vida agora
Atirada na roda
De uma ceifadeira.
Quando resolvi dar
Estavam já secas.
Totalmente secas
Que não serviam mais
Para despertar qualquer
Sensibilidade.
Por que não deparei antes
Que as flores tinham passado
Passado também o tempo
Em que o frescor das flores frescas
Eram belas e agradavam
Mas o que pode se esperar
Das flores que tinham passado
Sem o perfume de antes
Sem vida agora
Atirada na roda
De uma ceifadeira.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
As rãs das águas profundas
Todas as noites acontece
Num tanque atrás do muro
Uma rã começa a coaxar
Vem outra e continua
Em segundos todo o tanque
É apenas o coaxar
De infinitas rãs
Que revelam olhos grandes
Seus pulmões se estufando
Com toda a força reclamam
De suas existências.
Aquelas rãs vivem nas águas
De nossa existência
Nos planos mais profundos
Com todos os fantasmas
Que jamais mostram a cara.
As rãs são a nossa cara
Que se oculta.
Num tanque atrás do muro
Uma rã começa a coaxar
Vem outra e continua
Em segundos todo o tanque
É apenas o coaxar
De infinitas rãs
Que revelam olhos grandes
Seus pulmões se estufando
Com toda a força reclamam
De suas existências.
Aquelas rãs vivem nas águas
De nossa existência
Nos planos mais profundos
Com todos os fantasmas
Que jamais mostram a cara.
As rãs são a nossa cara
Que se oculta.
A estrela cadente
Ninguém mais acredita
No poder latente
De uma estrela cadente.
Ainda que esteja lá
Nada peço mais
Mas fico feliz
De apenas ver adiante
A estrela cadente
Trazendo alguma notícia
De que o amor é importante
Entre iguais e diferentes
Em qualquer circunstância
Seja no céu como na terra
Também no inferno.
Os demônios também amam
E acreditam piamente
Na estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem mais olhos
Nem coração
Para a estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem tempos mais...
No poder latente
De uma estrela cadente.
Ainda que esteja lá
Nada peço mais
Mas fico feliz
De apenas ver adiante
A estrela cadente
Trazendo alguma notícia
De que o amor é importante
Entre iguais e diferentes
Em qualquer circunstância
Seja no céu como na terra
Também no inferno.
Os demônios também amam
E acreditam piamente
Na estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem mais olhos
Nem coração
Para a estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem tempos mais...
Ser jogador de xadrez
Nunca aprendi direito
A jogar xadrez
Daquilo que aprendi
Num tabuleiro de xadrez
Há muito esqueci
Não sei o que fazer
Com o cavalo
Com o peão.
Mas um dia joguei xadrez
Joguei e perdi
Nunca mais joguei
Mas continuei perdendo
Nos outros jogos da vida
Perdi o coração amoroso
De antes
Perdi enfim a inocência
De que ganhar era importante
Mas perder era sublime.
Perdi a minha vida
Toda ela inteirinha
Num tabuleiro de xadrez.
Só não perdi a tristeza
De que perder
Perde-se a razão de ser
Portanto nada sou
Do que uma fumaça
Que insiste em não desaparecer.
A jogar xadrez
Daquilo que aprendi
Num tabuleiro de xadrez
Há muito esqueci
Não sei o que fazer
Com o cavalo
Com o peão.
Mas um dia joguei xadrez
Joguei e perdi
Nunca mais joguei
Mas continuei perdendo
Nos outros jogos da vida
Perdi o coração amoroso
De antes
Perdi enfim a inocência
De que ganhar era importante
Mas perder era sublime.
Perdi a minha vida
Toda ela inteirinha
Num tabuleiro de xadrez.
Só não perdi a tristeza
De que perder
Perde-se a razão de ser
Portanto nada sou
Do que uma fumaça
Que insiste em não desaparecer.
Sem certeza alguma
Toda decisão que tomar
Qualquer que ela seja
Em nenhum momento
Quero justificar
Pois careço de certeza
E sem certeza alguma
Posso viver livremente
Errando às vezes
Errando muitas vezes
Mas sobretudo
Experimentando
A doçura do mel silvestre
O amargo do chocolate
Rindo na alegria
Chorando também
Quando o choro vier
Para me fazer mais humano
Que certeza alguma tem
Daquilo que faça
Daquilo que deixou de fazer
E sem certeza alguma
Apenas diz
- Não sei!
E por não saber
Tem todas as possibilidades
De ser feliz
Neste exato lugar
Neste tempo inexato
De qualquer certeza.
Qualquer que ela seja
Em nenhum momento
Quero justificar
Pois careço de certeza
E sem certeza alguma
Posso viver livremente
Errando às vezes
Errando muitas vezes
Mas sobretudo
Experimentando
A doçura do mel silvestre
O amargo do chocolate
Rindo na alegria
Chorando também
Quando o choro vier
Para me fazer mais humano
Que certeza alguma tem
Daquilo que faça
Daquilo que deixou de fazer
E sem certeza alguma
Apenas diz
- Não sei!
E por não saber
Tem todas as possibilidades
De ser feliz
Neste exato lugar
Neste tempo inexato
De qualquer certeza.
O mundo lá fora
Pude sair
E vi que o vento sopra
Que o céu estava lá em cima
Junto com todos os pássaros
O vento era fresco
Rápido e objetivo em sua meta
Apenas soprar
Os seres do mundo
Diferente de mim
Que não sei ser assim
Objetivo e decidido como o vento
Sou o cata vento e não o vento
Saí das quatro paredes
Além da porta
E da vista da janela
Que como um quadro animado
Passava todo o tempo
Ilusões que mantinha em minha mente
Sempre tive vontade de saber
Se estas ilusões eram ilusões
Ou se eram reais ilusões
Sempre quis
Agora que posso estar aqui fora
Não sei o que fazer
Com tanta coisa
Nem com o vento
Ou com o Sol
Agora que posso estar aqui fora
Que devia estar correndo
Que devia estar soprando
Que devia estar sendo
Apenas
Não sei ser aqui fora
Estou como estava outrora
Com paredes invisíveis
No meu mundo fechado
E vi que o vento sopra
Que o céu estava lá em cima
Junto com todos os pássaros
O vento era fresco
Rápido e objetivo em sua meta
Apenas soprar
Os seres do mundo
Diferente de mim
Que não sei ser assim
Objetivo e decidido como o vento
Sou o cata vento e não o vento
Saí das quatro paredes
Além da porta
E da vista da janela
Que como um quadro animado
Passava todo o tempo
Ilusões que mantinha em minha mente
Sempre tive vontade de saber
Se estas ilusões eram ilusões
Ou se eram reais ilusões
Sempre quis
Agora que posso estar aqui fora
Não sei o que fazer
Com tanta coisa
Nem com o vento
Ou com o Sol
Agora que posso estar aqui fora
Que devia estar correndo
Que devia estar soprando
Que devia estar sendo
Apenas
Não sei ser aqui fora
Estou como estava outrora
Com paredes invisíveis
No meu mundo fechado
Fuga que não acontece
Quer que eu vá distante
Ainda que fuja de onde estou
Que fuja das amarras amorosas
Que a todo instante me afligem
Nunca sai de onde estou
Nem um passo mais longe
Foi dado
E continuo amarrado
Nos cordéis invisíveis
Da existência.
Brincadeira dos deuses
Bufões na verdade.
Ainda que acredite que
Possa mudar meu destino
Meus braços
E pernas
São pontos de amarras
De um titereiro que
Se esconde por detrás
Da cortina inconsciente
Que ninguém tem controle.
Não fugir do ponto
Pode ser o encontro
De todos meus anjos
E demônios.
Mais dos demônios
Que anjos.
Ainda que fuja de onde estou
Que fuja das amarras amorosas
Que a todo instante me afligem
Nunca sai de onde estou
Nem um passo mais longe
Foi dado
E continuo amarrado
Nos cordéis invisíveis
Da existência.
Brincadeira dos deuses
Bufões na verdade.
Ainda que acredite que
Possa mudar meu destino
Meus braços
E pernas
São pontos de amarras
De um titereiro que
Se esconde por detrás
Da cortina inconsciente
Que ninguém tem controle.
Não fugir do ponto
Pode ser o encontro
De todos meus anjos
E demônios.
Mais dos demônios
Que anjos.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
O termo do sereno
Se quisesse morrer
eu o faria,
e com presteza.
Tiraria primeiro todos os pés, apoios
suporte, bases, sapatas e fincas
Arrancaria o telhado da casa
telha por telha enfim todo madeirame
Desnecessária, a viga central seria
retirada sem demora, sem pressa
Enfim quando só restasse a pele oca
e todo vão fosse preenchido pelas estrelas celestes
Toda porta seria livre para escancarar, bater
fechar, ranger ou entreabrir fosse a hora que fosse
Então em cada rachadura consciente brotariam dentes
de leão - os convidados de honra!
Os tijolos livres para retornarem ao pó, ao pó retornariam
E os limos já não encontrariam obstáculos - limos não temem
E quando os meus olhos fossem os da natureza
eu gritaria: mãe! E mãe nenhuma viria
e nu, nu e tranquilo, tranquilo como a água
que lavaria o chão até tão puro ser só água o chão
aí, os pés encharcados,
abertos ou fechados
os olhos,
seria o mesmo
e uma profunda paz seria o ser de tudo
até acordar
no sofá da sala
com os sons da rua
eu o faria,
e com presteza.
Tiraria primeiro todos os pés, apoios
suporte, bases, sapatas e fincas
Arrancaria o telhado da casa
telha por telha enfim todo madeirame
Desnecessária, a viga central seria
retirada sem demora, sem pressa
Enfim quando só restasse a pele oca
e todo vão fosse preenchido pelas estrelas celestes
Toda porta seria livre para escancarar, bater
fechar, ranger ou entreabrir fosse a hora que fosse
Então em cada rachadura consciente brotariam dentes
de leão - os convidados de honra!
Os tijolos livres para retornarem ao pó, ao pó retornariam
E os limos já não encontrariam obstáculos - limos não temem
E quando os meus olhos fossem os da natureza
eu gritaria: mãe! E mãe nenhuma viria
e nu, nu e tranquilo, tranquilo como a água
que lavaria o chão até tão puro ser só água o chão
aí, os pés encharcados,
abertos ou fechados
os olhos,
seria o mesmo
e uma profunda paz seria o ser de tudo
até acordar
no sofá da sala
com os sons da rua
quarta-feira, 21 de julho de 2010
O tempo que segura
Corre, corre!
Passa o tempo
Correndo continuo,
Esperando pelo tempo
Que termina tarde
Sem dó
Mas sem maldade
Só por segurar o tempo
Que eu espero
Pra poder, com alegria
Te encontrar
Uma vez mais
Passa o tempo
Correndo continuo,
Esperando pelo tempo
Que termina tarde
Sem dó
Mas sem maldade
Só por segurar o tempo
Que eu espero
Pra poder, com alegria
Te encontrar
Uma vez mais
terça-feira, 20 de julho de 2010
Um vendaval passageiro
Para quê chorar!
Diante do castelo de areia
Num repente vem a onda ligeira
E põe tudo abaixo.
Para quê chorar
Se o balão de gás se foi
Ao vento arrastado adiante
Se tudo que se constrói
Fadado está a se destruir
Se tudo que começa
Um dia vai acabar
O amor poderá acabar
Ou simplesmente cair na descrença.
Para quê chorar!
Nem mesmo o choro é duradouro
Uma fumaça que se desfaz
Em instantes
Diante de tamanha incerteza
Na incerteza de viver amanhã
Só resta contemplar a lua
Lua congelada
Que parece não mudar nunca
Senão os olhos de quem vê
Congelando a imagem
Como fosse possível tamanha
Heresia!
Para quê chorar
Sem cair no papel ridículo
De ser apenas humano
E que sonha
Por um momento
Da eterna presença
De uma presença possível.
Diante do castelo de areia
Num repente vem a onda ligeira
E põe tudo abaixo.
Para quê chorar
Se o balão de gás se foi
Ao vento arrastado adiante
Se tudo que se constrói
Fadado está a se destruir
Se tudo que começa
Um dia vai acabar
O amor poderá acabar
Ou simplesmente cair na descrença.
Para quê chorar!
Nem mesmo o choro é duradouro
Uma fumaça que se desfaz
Em instantes
Diante de tamanha incerteza
Na incerteza de viver amanhã
Só resta contemplar a lua
Lua congelada
Que parece não mudar nunca
Senão os olhos de quem vê
Congelando a imagem
Como fosse possível tamanha
Heresia!
Para quê chorar
Sem cair no papel ridículo
De ser apenas humano
E que sonha
Por um momento
Da eterna presença
De uma presença possível.
Quando surge a virtude
Meus irmãos, estai atentos às ocasiões em que o vosso espírito quer falar em símbolos: assistis então à origem da vossa virtude.
Então é quando o vosso corpo se elevou e ressuscitou; então arrebata o espírito com os seus transportes para que se faça criador e apreciador e amante, benfeitor de todas as coisas. Quando o nosso coração se agita, amplo e cheio, como o grande rio, bênção e perigo dos ribeirinhos, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando vos elevais acima do louvor e da censura, e quando a vossa vontade, como vontade de um homem que ama e quer mandar em todas as coisas, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando desprezais o que é agradável, a cama fofa, e quando nunca vos credes repousar, então assistis à origem da vossa virtude.
Verdadeiramente é um novo bem e mal!
Verdadeiramente é um novo murmúrio profundo e a voz de um manancial novo!
Essa nova virtude é poder: um pensamento reinante e um torno desse pensamento uma alma sagaz: um sol dourado, e em torno dele a serpente do conhecimento.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.70
Então é quando o vosso corpo se elevou e ressuscitou; então arrebata o espírito com os seus transportes para que se faça criador e apreciador e amante, benfeitor de todas as coisas. Quando o nosso coração se agita, amplo e cheio, como o grande rio, bênção e perigo dos ribeirinhos, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando vos elevais acima do louvor e da censura, e quando a vossa vontade, como vontade de um homem que ama e quer mandar em todas as coisas, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando desprezais o que é agradável, a cama fofa, e quando nunca vos credes repousar, então assistis à origem da vossa virtude.
Verdadeiramente é um novo bem e mal!
Verdadeiramente é um novo murmúrio profundo e a voz de um manancial novo!
Essa nova virtude é poder: um pensamento reinante e um torno desse pensamento uma alma sagaz: um sol dourado, e em torno dele a serpente do conhecimento.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.70
Alegria
Foto: Bruno MitihMulher pendurada pela pele dos joelhos, se diverte em apresentação pública de suspensão corporal durante a Virada Cultural em São Paulo.
Piiiii!
Ta ta ta ta!
Bateria!
Guitarra!
Baixo!
Guitarra!
Bateriaaaa!
Guitarraaaa guitaraaaa!
Baixo!
Bateriaaa!!
Ãm?
Não ouço nada!
Agora meu ouvido faz piiiii!
Bateria!
Guitarra!
Baixo!
Guitarra!
Bateriaaaa!
Guitarraaaa guitaraaaa!
Baixo!
Bateriaaa!!
Ãm?
Não ouço nada!
Agora meu ouvido faz piiiii!
Levantar e comprar pão
Levantar e comprar pão
Difícil tarefa,
Que a gente faz
Mesmo que no começo
A gente não queira
Levantar e comprar pão
Que depois a gente descobre
Que o Sol está lá fora
E que as árvores estão lá fora
E que o coco do cachorro está lá fora
Levantar e comprar pão
É descobrir que a gente por ir andando
E que o mundo está andando
Sem parar
E que parado estamos nós
Quando não queremos ir comprar pão
Difícil tarefa,
Que a gente faz
Mesmo que no começo
A gente não queira
Levantar e comprar pão
Que depois a gente descobre
Que o Sol está lá fora
E que as árvores estão lá fora
E que o coco do cachorro está lá fora
Levantar e comprar pão
É descobrir que a gente por ir andando
E que o mundo está andando
Sem parar
E que parado estamos nós
Quando não queremos ir comprar pão
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Um louco que morreu
Havia um louco
Que caminhava naquela rua
Catava tocos de cigarros acesos
E fumava o resto
Aspirando fundo do que restava
Fumaça e desilusão
Mas não cansava de caminhar
Quando chegava até a esquina
Dava uma volta e retornava
Incansavelmente durante horas
Um dia inteiro
Sem perturbar ninguém
Sem conversar
Com sorriso idiota na cara
Sorria para as mulheres que passavam
Que mudavam de calçada
Para não se encontrar
Com o louco Ferrinho
Era o seu nome.
Um dia Ferrinho não mais apareceu
Será que morreu?
Será que foi carregado em camisa de força
Não se sabe nada
Ninguém tomou conhecimento
Nem sentiram sua falta
Um ano passou
Dois se passaram
Mais outro
E caiu no esquecimento
Como nunca tivesse havido
Alguém como ele.
Sorria para as mulheres que passavam.
Que caminhava naquela rua
Catava tocos de cigarros acesos
E fumava o resto
Aspirando fundo do que restava
Fumaça e desilusão
Mas não cansava de caminhar
Quando chegava até a esquina
Dava uma volta e retornava
Incansavelmente durante horas
Um dia inteiro
Sem perturbar ninguém
Sem conversar
Com sorriso idiota na cara
Sorria para as mulheres que passavam
Que mudavam de calçada
Para não se encontrar
Com o louco Ferrinho
Era o seu nome.
Um dia Ferrinho não mais apareceu
Será que morreu?
Será que foi carregado em camisa de força
Não se sabe nada
Ninguém tomou conhecimento
Nem sentiram sua falta
Um ano passou
Dois se passaram
Mais outro
E caiu no esquecimento
Como nunca tivesse havido
Alguém como ele.
Sorria para as mulheres que passavam.
Os carteiros resfriaram-se
- Para quem mandarei
As cartas de amor sem destino?
Simplesmente por escrever
Para escapar de uma solidão
Em cuja multidão ninguém mais
Quer saber de coisas tão simples
Como receber mensagens.
Os ouvidos congelaram-se
Diante do rigor de um inverno
Que depois de sua passagem
Todos os fios ficaram interrompidos
Todos os carteiros resfriaram-se
E os corações também
- Para quem mandarei
As cartas de amor sem destino?
Como não há mais ninguém
Destino-as para mim mesmo.
As cartas de amor sem destino?
Simplesmente por escrever
Para escapar de uma solidão
Em cuja multidão ninguém mais
Quer saber de coisas tão simples
Como receber mensagens.
Os ouvidos congelaram-se
Diante do rigor de um inverno
Que depois de sua passagem
Todos os fios ficaram interrompidos
Todos os carteiros resfriaram-se
E os corações também
- Para quem mandarei
As cartas de amor sem destino?
Como não há mais ninguém
Destino-as para mim mesmo.
domingo, 18 de julho de 2010
Onde Felicidade se esconde?
Por todas as partes procurei
Incansavelmente procurei
Pela Felicidade.
Em nenhum lugar estava ela
Nem no fundo do mar estava
Entre as algas perguntei
Onde ficava Felicidade
Ninguém sabia dela
Onde habitava
Não seria um peixe?
Nenhum peixe chamava-se
Felicidade.
Fui para as montanhas
Entre os pinheiros perguntei
Onde ficava Felicidade
O vento soprava neste momento
E disse desconhecer Felicidade.
Desacreditado estava
Que Felicidade não existia
Em nenhuma parte
Deste mundo
Deste imenso mundo
Nem abaixo do mar
Nem no alto das montanhas.
Felicidade era apenas
Um sonho
De um mundo distante
Em que os homens eram livres
Também eram as mulheres
E por serem livres
Podiam se amar
Sem nenhum impedimento
Assim Felicidade chegava
Inaugurando a liberdade.
Mas ninguém quer a liberdade
Mas quer Felicidade
Como que Felicidade fosse dada
De maneira limitada
Talvez em futuro próximo
Que nunca mais chega
E assim se torna apenas
Mais um projeto que não
Se completa
Ou seja
No fundo do mar
No alto das montanhas
Mas se ela realmente existe
Que seja agora!
Antes que ela seja passageira
Tão rápida que não percebemos
Que Felicidade pode ser
Todo momento
Mas ninguém consegue
Segurá-la por muito tempo.
Incansavelmente procurei
Pela Felicidade.
Em nenhum lugar estava ela
Nem no fundo do mar estava
Entre as algas perguntei
Onde ficava Felicidade
Ninguém sabia dela
Onde habitava
Não seria um peixe?
Nenhum peixe chamava-se
Felicidade.
Fui para as montanhas
Entre os pinheiros perguntei
Onde ficava Felicidade
O vento soprava neste momento
E disse desconhecer Felicidade.
Desacreditado estava
Que Felicidade não existia
Em nenhuma parte
Deste mundo
Deste imenso mundo
Nem abaixo do mar
Nem no alto das montanhas.
Felicidade era apenas
Um sonho
De um mundo distante
Em que os homens eram livres
Também eram as mulheres
E por serem livres
Podiam se amar
Sem nenhum impedimento
Assim Felicidade chegava
Inaugurando a liberdade.
Mas ninguém quer a liberdade
Mas quer Felicidade
Como que Felicidade fosse dada
De maneira limitada
Talvez em futuro próximo
Que nunca mais chega
E assim se torna apenas
Mais um projeto que não
Se completa
Ou seja
No fundo do mar
No alto das montanhas
Mas se ela realmente existe
Que seja agora!
Antes que ela seja passageira
Tão rápida que não percebemos
Que Felicidade pode ser
Todo momento
Mas ninguém consegue
Segurá-la por muito tempo.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Esquecimento que não esquece
Nenhum esquecimento se dá
Quando a alma pequena não quer
Ainda que tentasse a todo custo
Custoso seria esperar por tamanho
Desprendimento.
Fiz tudo para esquecer aquela
Mas ela não sai de meu pensamento
Nem de meu corpo maltratado
Pelo tempo malfadado da indecisão
Por isso parei
Nada mais fiz
Senão fazer as pazes comigo mesmo
E aceitá-la como o meu destino
O destino também dela
Rodando na contramão.
Quando a alma pequena não quer
Ainda que tentasse a todo custo
Custoso seria esperar por tamanho
Desprendimento.
Fiz tudo para esquecer aquela
Mas ela não sai de meu pensamento
Nem de meu corpo maltratado
Pelo tempo malfadado da indecisão
Por isso parei
Nada mais fiz
Senão fazer as pazes comigo mesmo
E aceitá-la como o meu destino
O destino também dela
Rodando na contramão.
A força da paixão
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias. Fostes da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtude, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
NIETZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.43
Dantes tinhas no teu antro cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
NIETZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.43
Fuga dos demônios
Em minha casa todas as feras
Os demônios mais funestos
Que um dia puderam enganar
O cão de três cabeças que guardava
A entrada do portal de madeira pesada
Passaram a destruir o mundo
De toda mentira
E assim as torres de areia
Desabaram sem sustentação
E as mulheres correram para a fonte
Lavando suas caras da falsa imagem
E livres puderam caminhar
E livres puderam viver suas vidas
E assumir de vez os amores abandonados
Que sempre esperaram
Pela aproximação
Do amor passado.
Os demônios mais funestos
Que um dia puderam enganar
O cão de três cabeças que guardava
A entrada do portal de madeira pesada
Passaram a destruir o mundo
De toda mentira
E assim as torres de areia
Desabaram sem sustentação
E as mulheres correram para a fonte
Lavando suas caras da falsa imagem
E livres puderam caminhar
E livres puderam viver suas vidas
E assumir de vez os amores abandonados
Que sempre esperaram
Pela aproximação
Do amor passado.
As bonecas russas
Tal quais as bonecas russas
Dessas que encaixam uma na outra
Uma pequena
Outra média
Uma maiorzinha
Uma grande
E outra gigante
Cada uma é diferente da outra
Em personalidade
Cuja máscara coloca
Temporariamente
Para em seguida ser substituída
Em toda a cara
Em todo o corpo
Se pequena
Tornou-se maior
A grande sobre a pequena
Uma maior ainda
Sobre as duas menores
Em instantes aquelas
Vão sendo cobertas
Como não existissem mais
Como não tivessem mais
Cara
Nem corpo
Nem idéias
Nem amores passados
Nem história
Podemos ser a boneca de hoje
Que tem dentre si as outras
Que querem sair
Se pudessem sair
Somente na calada da noite
Em forma de sonho
Para desaparecer
Quando se faz dia
Como boneca dona de si
Acreditamos que nada mais
Existe
Do que si
Ou descaradamente fingimos
Qualquer conhecimento
De causa conhecida.
Ainda haverá um dia
Que a boneca grande
Cairá
Partirá a sua cara de pau
E de dentro todas as outras
Surgirão exigindo vingança
Por terem sido devorados
Como Saturno seus filhos.
Dessas que encaixam uma na outra
Uma pequena
Outra média
Uma maiorzinha
Uma grande
E outra gigante
Cada uma é diferente da outra
Em personalidade
Cuja máscara coloca
Temporariamente
Para em seguida ser substituída
Em toda a cara
Em todo o corpo
Se pequena
Tornou-se maior
A grande sobre a pequena
Uma maior ainda
Sobre as duas menores
Em instantes aquelas
Vão sendo cobertas
Como não existissem mais
Como não tivessem mais
Cara
Nem corpo
Nem idéias
Nem amores passados
Nem história
Podemos ser a boneca de hoje
Que tem dentre si as outras
Que querem sair
Se pudessem sair
Somente na calada da noite
Em forma de sonho
Para desaparecer
Quando se faz dia
Como boneca dona de si
Acreditamos que nada mais
Existe
Do que si
Ou descaradamente fingimos
Qualquer conhecimento
De causa conhecida.
Ainda haverá um dia
Que a boneca grande
Cairá
Partirá a sua cara de pau
E de dentro todas as outras
Surgirão exigindo vingança
Por terem sido devorados
Como Saturno seus filhos.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Afinal todos fingimos
Alguns fingem amor
Que não existe
Só para incomodar.
Alguns fingem não existir
Um amor que detesta fingir
Só para acomodar.
E continuamos a fingir
Que amamos
E continuamos a fingir
Que não amamos
Só para contrariar
Por medo de sermos nós mesmos
Fingimos que somos o outro
Controlado nas emoções
Do descontrolado que somos
Que temos vergonha
De nossa própria natureza.
Fingimos tanto
Que acreditamos
Em nosso fingimento.
Fingimos enfim que
Somos capazes de compor poesia
Mas a minha é bem outra coisa
Que finge ser poesia
Que não engana quem escreve
Que finge que não escreve
Senão versos malditos
Dos que sofrem na carne
A dor do sofrimento
Dos amores perdidos
Que perdidos não necessitam
De fingimento.
Que não existe
Só para incomodar.
Alguns fingem não existir
Um amor que detesta fingir
Só para acomodar.
E continuamos a fingir
Que amamos
E continuamos a fingir
Que não amamos
Só para contrariar
Por medo de sermos nós mesmos
Fingimos que somos o outro
Controlado nas emoções
Do descontrolado que somos
Que temos vergonha
De nossa própria natureza.
Fingimos tanto
Que acreditamos
Em nosso fingimento.
Fingimos enfim que
Somos capazes de compor poesia
Mas a minha é bem outra coisa
Que finge ser poesia
Que não engana quem escreve
Que finge que não escreve
Senão versos malditos
Dos que sofrem na carne
A dor do sofrimento
Dos amores perdidos
Que perdidos não necessitam
De fingimento.
Fingimos para não sofrer
De certo fingimos o tempo todo
Fingimos que somos os donos do tempo
Fingimos que nada nos atinge
Nem as feridas mal curadas ainda
De uma possível separação
Enfim fingimos para não sofrer
Dos amores que somente se realizam
Ao entardecer
Nunca fingimos tanto
Para não sofrer
E mostramos uma cara
Sem nenhuma impressão que possa
Revelar o que vai profundamente
No coração
Lá onde um caldeirão ferve
Toda condição humana
Suas misérias mais ignóbeis
Em que a felicidade
Passageira
Não necessita
De nenhum fingimento.
Fingimos que somos os donos do tempo
Fingimos que nada nos atinge
Nem as feridas mal curadas ainda
De uma possível separação
Enfim fingimos para não sofrer
Dos amores que somente se realizam
Ao entardecer
Nunca fingimos tanto
Para não sofrer
E mostramos uma cara
Sem nenhuma impressão que possa
Revelar o que vai profundamente
No coração
Lá onde um caldeirão ferve
Toda condição humana
Suas misérias mais ignóbeis
Em que a felicidade
Passageira
Não necessita
De nenhum fingimento.
O medo do encontro
Nenhuma xícara de chá
Poderá acabar com este frio
Que não apenas é do pé e da mão
Mais do que isso
O que esfria é o coração
Diante de tamanha indiferença
Das carências mais elementares
Numa solidão consentida
Na casa vazia
Entregue apenas aos fantasmas
Que assombram minha existência
Dos sonhos em que o encontro
Se dá a todo instante
E nenhum impedimento
Suficiente era vontade
De se perder nos jogos do amor
E perder era a condição da existência
Do encontro que se realizava
Sem nenhum medo
Somente quando o medo chegasse
Então sobremaneira o desencontro
Haveria de ser novamente
Uma banalização
E o amor seria banido
Para sempre.
Poderá acabar com este frio
Que não apenas é do pé e da mão
Mais do que isso
O que esfria é o coração
Diante de tamanha indiferença
Das carências mais elementares
Numa solidão consentida
Na casa vazia
Entregue apenas aos fantasmas
Que assombram minha existência
Dos sonhos em que o encontro
Se dá a todo instante
E nenhum impedimento
Suficiente era vontade
De se perder nos jogos do amor
E perder era a condição da existência
Do encontro que se realizava
Sem nenhum medo
Somente quando o medo chegasse
Então sobremaneira o desencontro
Haveria de ser novamente
Uma banalização
E o amor seria banido
Para sempre.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Eu só amo!
Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.
Amo aqueles de grande desprezo, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.
Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para sucumbir e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer ele sucumbir.
Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem, e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu fim.
Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é a vontade de extinção e uma seta do desejo.
Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e não viver mais.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 200, p.27.
Amo aqueles de grande desprezo, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.
Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para sucumbir e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer ele sucumbir.
Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem, e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu fim.
Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é a vontade de extinção e uma seta do desejo.
Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e não viver mais.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 200, p.27.
Existência no mundo flutuante
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Como podemos construir
Castelos de areia sem que
Chegue o demônio
Sua legião de malfeitores
E ponham o castelo a fragmento
Nem o choro será capaz
De reconstruí-lo de novo
Um choro incontido que
Nada serve
Senão para a tristeza
Ser amiga companheira
Em tempos de tempestade.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Ainda que pensemos
Que os pés criaram raízes
O terreno pantanoso
Mal sustenta nossos sonhos
Que se desfazem como fumaças
Em sua existência fugaz.
Dos amores que encontramos
Grandes e pequenos
Secretos e passionais
Alguns marginais
Desde o começo estão fadados
A desaparecer
Sem tempo suficiente
Para se viver.
E solitários ficamos
Olhando acima as nuvens
Formando desenhos vários
São formas de cascatas
De imensos animais pré-históricos
Que diante de nossos olhos
Deixam de ser aquilo
Que os nossos olhos viram.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Num soprar do vento
As nuvens também se vão
Se a nuvem da felicidade havia
Em instantes se desfazia
Mais rápido ainda que o orvalho
Desprendendo do galho
E correr na correnteza lépida
De um regato para o mar.
Nunca pára de rodar
Ao sabor do vento que não cessa
O moinho de nossa existência.
O redemoinho em insistente
Movimento monótono
Do eixo rangendo na madeira seca.
Só resta apenas contemplar
Nada mais
O movimento circular se
Repetindo.
Tomado ao relento.
Como podemos construir
Castelos de areia sem que
Chegue o demônio
Sua legião de malfeitores
E ponham o castelo a fragmento
Nem o choro será capaz
De reconstruí-lo de novo
Um choro incontido que
Nada serve
Senão para a tristeza
Ser amiga companheira
Em tempos de tempestade.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Ainda que pensemos
Que os pés criaram raízes
O terreno pantanoso
Mal sustenta nossos sonhos
Que se desfazem como fumaças
Em sua existência fugaz.
Dos amores que encontramos
Grandes e pequenos
Secretos e passionais
Alguns marginais
Desde o começo estão fadados
A desaparecer
Sem tempo suficiente
Para se viver.
E solitários ficamos
Olhando acima as nuvens
Formando desenhos vários
São formas de cascatas
De imensos animais pré-históricos
Que diante de nossos olhos
Deixam de ser aquilo
Que os nossos olhos viram.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Num soprar do vento
As nuvens também se vão
Se a nuvem da felicidade havia
Em instantes se desfazia
Mais rápido ainda que o orvalho
Desprendendo do galho
E correr na correnteza lépida
De um regato para o mar.
Nunca pára de rodar
Ao sabor do vento que não cessa
O moinho de nossa existência.
O redemoinho em insistente
Movimento monótono
Do eixo rangendo na madeira seca.
Só resta apenas contemplar
Nada mais
O movimento circular se
Repetindo.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Perdido sempre
Foi numa feira
Dessas que vendem frutas
Que me perdi
Tinha cinco ou menos
Ainda
Não sabia mais
Onde estava a minha avó
Pela primeira vez
Olhei para cima
Ao invés do céu
Vi cabeças desfilando
Cabeças vindo
Cabeças indo
Uma multidão
Até que o homem que
Vendia não sei o quê
Me parou
Me recolheu
E esperei minha avó chegar
Não demorou muito
Ela chegou
Mas a minha esperança
Era de ficar eternamente
Perdido
Na liberdade de caminhar
Olhando para cima.
Pois se felicidade existe
Existe acima de nossas cabeças.
Dessas que vendem frutas
Que me perdi
Tinha cinco ou menos
Ainda
Não sabia mais
Onde estava a minha avó
Pela primeira vez
Olhei para cima
Ao invés do céu
Vi cabeças desfilando
Cabeças vindo
Cabeças indo
Uma multidão
Até que o homem que
Vendia não sei o quê
Me parou
Me recolheu
E esperei minha avó chegar
Não demorou muito
Ela chegou
Mas a minha esperança
Era de ficar eternamente
Perdido
Na liberdade de caminhar
Olhando para cima.
Pois se felicidade existe
Existe acima de nossas cabeças.
Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo?
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem e Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, pp.55,56
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo?
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem e Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, pp.55,56
Idílio em Paris
Era de criança que João Paulo
Pela primeira vez encontrou-se
Com Maria Rosa
Foi num galpão aos fundos da casa
Que trocaram o primeiro beijo.
Gostaram
Cresceram por algum tempo
Continuaram juntos
Na escola juntos
Também juntos nas festas de junho
E separaram-se
Nunca mais se viram
Nunca mais se falaram
João Paulo foi morar nos confins
Maria Rosa foi a Paris
Foi nas ruas de Paris
Que reencontraram-se
A juventude tinha ido
E chegado a dor nas juntas
Um tinha conhecido outras mulheres
Outros homens na vida dela
E não ficaram com ninguém
João Paulo nada disse
Nem disse Maria Rosa
Que somente olharam nos olhos
Um nos olhos do outro
Sorriram e as mãos enlaçaram-se
Sempre estiveram juntos
E juntos continuariam
Desde que cada um seguisse
Seu caminho
E lá foi João Paulo para Sumatra
Para nunca mais se encontrarem.
Pela primeira vez encontrou-se
Com Maria Rosa
Foi num galpão aos fundos da casa
Que trocaram o primeiro beijo.
Gostaram
Cresceram por algum tempo
Continuaram juntos
Na escola juntos
Também juntos nas festas de junho
E separaram-se
Nunca mais se viram
Nunca mais se falaram
João Paulo foi morar nos confins
Maria Rosa foi a Paris
Foi nas ruas de Paris
Que reencontraram-se
A juventude tinha ido
E chegado a dor nas juntas
Um tinha conhecido outras mulheres
Outros homens na vida dela
E não ficaram com ninguém
João Paulo nada disse
Nem disse Maria Rosa
Que somente olharam nos olhos
Um nos olhos do outro
Sorriram e as mãos enlaçaram-se
Sempre estiveram juntos
E juntos continuariam
Desde que cada um seguisse
Seu caminho
E lá foi João Paulo para Sumatra
Para nunca mais se encontrarem.
domingo, 11 de julho de 2010
Maçã vermelha
Assim repetirei
Uma maçã vermelha
A ti oferecerei
Como sempre fiz
Uma outra maçã
Continuarei lhe dando
Um pé inteiro se for preciso
Enquanto aceitar
O que de melhor lhe
Possa dar
As maçãs das festas juninas
Mais vermelhas do que nunca
Nunca a maçã foi a mais desejada
Do que Eva na descoberta de que era
Mulher!
Uma maçã vermelha
A ti oferecerei
Como sempre fiz
Uma outra maçã
Continuarei lhe dando
Um pé inteiro se for preciso
Enquanto aceitar
O que de melhor lhe
Possa dar
As maçãs das festas juninas
Mais vermelhas do que nunca
Nunca a maçã foi a mais desejada
Do que Eva na descoberta de que era
Mulher!
Esta chama que resiste
Uma vontade me arrasta
Para outras plagas
Talvez nas montanhas
Do Himalaia
Desde que seja distante
E possa descansar
Nas geleiras
E possa esfriar
Um tanto que seja
O incêndio que me assola
O coração.
Se todo o gelo fosse suficiente
Restaria ainda
Uma chama ainda
Que não se apagaria.
Para outras plagas
Talvez nas montanhas
Do Himalaia
Desde que seja distante
E possa descansar
Nas geleiras
E possa esfriar
Um tanto que seja
O incêndio que me assola
O coração.
Se todo o gelo fosse suficiente
Restaria ainda
Uma chama ainda
Que não se apagaria.
Criando encontros
Foi num encontro
De olhares
Já se conheciam
Ficaram juntos
Amaram
E às vezes
Brigaram
Suas diferenças
Um dia ela se foi
Neste momento
Ele desapareceu
Ele que era uma criação
Dela
Ela que era uma criação
Dele
Somente existiam
Juntos.
O amor também
Deixou de existir
E tudo ficou como antes
Como nunca tivesse
Existido realmente.
De olhares
Já se conheciam
Ficaram juntos
Amaram
E às vezes
Brigaram
Suas diferenças
Um dia ela se foi
Neste momento
Ele desapareceu
Ele que era uma criação
Dela
Ela que era uma criação
Dele
Somente existiam
Juntos.
O amor também
Deixou de existir
E tudo ficou como antes
Como nunca tivesse
Existido realmente.
Amor recriado
Ainda vive dentro de mim
Um ser solitário que sofre
As mazelas da vida
Que por viver nas sombras
Não necessita fechar os olhos
Para poder enxergar
Uma nuvem de tempestade
Carregada de todo o furor
Das paixões desencadeadas
No calor dos encontros
Em instantes se desfazer
E ele nada fazer
Do que esperar
Uma nova forma se formar
E se desfazer de novo
Nem o amor pode ser permanente
Mas pode ser inventado
Eternamente
Para se desfazer sempre
E se fazer de novo.
Um ser solitário que sofre
As mazelas da vida
Que por viver nas sombras
Não necessita fechar os olhos
Para poder enxergar
Uma nuvem de tempestade
Carregada de todo o furor
Das paixões desencadeadas
No calor dos encontros
Em instantes se desfazer
E ele nada fazer
Do que esperar
Uma nova forma se formar
E se desfazer de novo
Nem o amor pode ser permanente
Mas pode ser inventado
Eternamente
Para se desfazer sempre
E se fazer de novo.
sábado, 10 de julho de 2010
O tempo passageiro
De repente passou
Nada mais passou
Do que um sonho
Fugaz e ligeiro
As águas passadas
De meu pensamento
Mas ainda assim
Me alimento desta paisagem
Não que viva no passado
Vivo no presente de uma imagem
Que pode passar
Mas cuja passagem
Leva uma eternidade
As areias demorando
Para escoar na canaleta
De uma ampulheta
Como demora
Para passar
Como demora
A vida passar
E a morte que não chega
Se tenho na memória
Uma ilusão qualquer
Que não passa de fumaça
Como demora
Para passar
Como demora
O orvalho cair
Uma ruga surgir
Num instante
De passagem
Como demora!
Nada mais passou
Do que um sonho
Fugaz e ligeiro
As águas passadas
De meu pensamento
Mas ainda assim
Me alimento desta paisagem
Não que viva no passado
Vivo no presente de uma imagem
Que pode passar
Mas cuja passagem
Leva uma eternidade
As areias demorando
Para escoar na canaleta
De uma ampulheta
Como demora
Para passar
Como demora
A vida passar
E a morte que não chega
Se tenho na memória
Uma ilusão qualquer
Que não passa de fumaça
Como demora
Para passar
Como demora
O orvalho cair
Uma ruga surgir
Num instante
De passagem
Como demora!
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Maior certeza
A vida é breve como
As relvas de verão.
Escrevi seu nome várias vezes
Nas areias
Mas as ondas
Levaram.
O amor é como as pegadas
De um pássaro
Nas nuvens se
Transformando.
As relvas de verão.
Escrevi seu nome várias vezes
Nas areias
Mas as ondas
Levaram.
O amor é como as pegadas
De um pássaro
Nas nuvens se
Transformando.
sábado, 3 de julho de 2010
As folhas secas
Ainda que varra as folhas secas
Não me canso de varrê-las
E novamente centenas de outras
Delas forram o meu chão.
Nem por isso tenho que deixar
De limpar quantas vezes for preciso
Para que num instante
Despenquem num relance
Todas as folhas deste inverno.
Se tenho que limpar minha mente
Destas ervas daninhas da ilusão
Ilusão maior é esta limpeza
Que nunca se livra das impurezas
Dos amores passageiros
Eternamente presentes.
Sem nunca parar de limpar
Mais que limpa a rua suja
Das folhas secas e caídas
De seus galhos suspensos.
Pudesse eu também
Desprender como folhas secas
Uma tristeza sem motivo
Mas que resiste em acabar.
Um balanço ligeiro
Um volteio e logo surgem
Folhas secas espalhadas.
Não me canso de varrê-las
E novamente centenas de outras
Delas forram o meu chão.
Nem por isso tenho que deixar
De limpar quantas vezes for preciso
Para que num instante
Despenquem num relance
Todas as folhas deste inverno.
Se tenho que limpar minha mente
Destas ervas daninhas da ilusão
Ilusão maior é esta limpeza
Que nunca se livra das impurezas
Dos amores passageiros
Eternamente presentes.
Sem nunca parar de limpar
Mais que limpa a rua suja
Das folhas secas e caídas
De seus galhos suspensos.
Pudesse eu também
Desprender como folhas secas
Uma tristeza sem motivo
Mas que resiste em acabar.
Um balanço ligeiro
Um volteio e logo surgem
Folhas secas espalhadas.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Viajante do mar
Como invejo os marinheiros
Que nunca se fixam em portos algum
Preferem enfrentar as ondas bravias
Do que a maresia das terras firmes.
Quem fica nestas praias
Em que somente a onda vem beijar
As pernas da bela caiçara
Não pode se apaixonar
Pelas sereias do mar.
Onde quer que se vá
Em cada porto haverá
Uma esperança renascendo
Um poema sendo inventado
Diante de tamanho deslumbramento.
Que nunca se fixam em portos algum
Preferem enfrentar as ondas bravias
Do que a maresia das terras firmes.
Quem fica nestas praias
Em que somente a onda vem beijar
As pernas da bela caiçara
Não pode se apaixonar
Pelas sereias do mar.
Onde quer que se vá
Em cada porto haverá
Uma esperança renascendo
Um poema sendo inventado
Diante de tamanho deslumbramento.
Nada mais para se dizer
Passados alguns anos
Reencontraram-se
Mas o fogo de antes
Incandessente era
Tornou-se indiferente
Um olhou para o outro
Não se conheciam mais
Nada havia de comum mais
Nem mesmo a amizade
Havia lugar.
Como não tinham
O que falar
Inventaram falas
E falaram de um grande
Amor vivido
Não por eles
Era o amor de suas memórias
Que ficou como fagulhas
De um pirilampo que dança
Sobre os campos da ilusão.
De repente dos rostos fechados
Um leve sorriso acendeu lá no canto
Dos lábios antes secos
E dos olhos lágrimas rasgaram
Fundo a face agora enrugada.
O amor somente existe
Na lembrança passageira
Do orvalho se desfazendo.
Enxugaram as lágrimas
E como nada mais tinham a dizer
Cada um foi para um lado.
Reencontraram-se
Mas o fogo de antes
Incandessente era
Tornou-se indiferente
Um olhou para o outro
Não se conheciam mais
Nada havia de comum mais
Nem mesmo a amizade
Havia lugar.
Como não tinham
O que falar
Inventaram falas
E falaram de um grande
Amor vivido
Não por eles
Era o amor de suas memórias
Que ficou como fagulhas
De um pirilampo que dança
Sobre os campos da ilusão.
De repente dos rostos fechados
Um leve sorriso acendeu lá no canto
Dos lábios antes secos
E dos olhos lágrimas rasgaram
Fundo a face agora enrugada.
O amor somente existe
Na lembrança passageira
Do orvalho se desfazendo.
Enxugaram as lágrimas
E como nada mais tinham a dizer
Cada um foi para um lado.
Minha vida inteira
Ainda ontem sonhei comigo
hoje também sonhei -
Ainda sou o meu maior sonho
Sonho o sonho sonhando acordado
quando acordo
caio em mim
então sou a crise
crise da existência
existência de fausto
Sei que amanhã sonharei comigo
outra vez, fico tranquilo
mas isto me preocupa
Ainda sou o meu maior sonho
e amanhã ainda serei este sonho
inútil quebrar o espelho
Inútil flertar com a morte no mais louco dos prazeres
porque de manhã outra vez terei sonhado comigo -
Ainda sou o meu maior sonho
hoje também sonhei -
Ainda sou o meu maior sonho
Sonho o sonho sonhando acordado
quando acordo
caio em mim
então sou a crise
crise da existência
existência de fausto
Sei que amanhã sonharei comigo
outra vez, fico tranquilo
mas isto me preocupa
Ainda sou o meu maior sonho
e amanhã ainda serei este sonho
inútil quebrar o espelho
Inútil flertar com a morte no mais louco dos prazeres
porque de manhã outra vez terei sonhado comigo -
Ainda sou o meu maior sonho
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Quando a noite cai
Um gato solitário
Por cima dos telhados
Espia
A noite revelar os amores
Fáceis das panças avançadas
Que na simplicidade dos encontros
Basta uma roda de comida
Regada a bobagem.
Um gato solitário
Por cima dos telhados
Espia...
Por cima dos telhados
Espia
A noite revelar os amores
Fáceis das panças avançadas
Que na simplicidade dos encontros
Basta uma roda de comida
Regada a bobagem.
Um gato solitário
Por cima dos telhados
Espia...
Uma onda na areia
Porque escrever o seu nome
Por sobre a areia de uma praia
Se por um momento qualquer
Sem nenhum pudor e constrangimento
Vem uma onda rasteira
E quando se retira não deixa
Um sinal sequer de sua existência?
Em instantes vai toda uma vida
De encontrar a pessoa
Para somente escrever o nome dela
Nas areias de uma praia
E no quebrar das ondas
Sorrateira ela vem e apaga
O meu nome também.
Por sobre a areia de uma praia
Se por um momento qualquer
Sem nenhum pudor e constrangimento
Vem uma onda rasteira
E quando se retira não deixa
Um sinal sequer de sua existência?
Em instantes vai toda uma vida
De encontrar a pessoa
Para somente escrever o nome dela
Nas areias de uma praia
E no quebrar das ondas
Sorrateira ela vem e apaga
O meu nome também.
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