Todas as noites acontece
Num tanque atrás do muro
Uma rã começa a coaxar
Vem outra e continua
Em segundos todo o tanque
É apenas o coaxar
De infinitas rãs
Que revelam olhos grandes
Seus pulmões se estufando
Com toda a força reclamam
De suas existências.
Aquelas rãs vivem nas águas
De nossa existência
Nos planos mais profundos
Com todos os fantasmas
Que jamais mostram a cara.
As rãs são a nossa cara
Que se oculta.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
A estrela cadente
Ninguém mais acredita
No poder latente
De uma estrela cadente.
Ainda que esteja lá
Nada peço mais
Mas fico feliz
De apenas ver adiante
A estrela cadente
Trazendo alguma notícia
De que o amor é importante
Entre iguais e diferentes
Em qualquer circunstância
Seja no céu como na terra
Também no inferno.
Os demônios também amam
E acreditam piamente
Na estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem mais olhos
Nem coração
Para a estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem tempos mais...
No poder latente
De uma estrela cadente.
Ainda que esteja lá
Nada peço mais
Mas fico feliz
De apenas ver adiante
A estrela cadente
Trazendo alguma notícia
De que o amor é importante
Entre iguais e diferentes
Em qualquer circunstância
Seja no céu como na terra
Também no inferno.
Os demônios também amam
E acreditam piamente
Na estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem mais olhos
Nem coração
Para a estrela cadente.
Infeliz daquele que
Não tem tempos mais...
Ser jogador de xadrez
Nunca aprendi direito
A jogar xadrez
Daquilo que aprendi
Num tabuleiro de xadrez
Há muito esqueci
Não sei o que fazer
Com o cavalo
Com o peão.
Mas um dia joguei xadrez
Joguei e perdi
Nunca mais joguei
Mas continuei perdendo
Nos outros jogos da vida
Perdi o coração amoroso
De antes
Perdi enfim a inocência
De que ganhar era importante
Mas perder era sublime.
Perdi a minha vida
Toda ela inteirinha
Num tabuleiro de xadrez.
Só não perdi a tristeza
De que perder
Perde-se a razão de ser
Portanto nada sou
Do que uma fumaça
Que insiste em não desaparecer.
A jogar xadrez
Daquilo que aprendi
Num tabuleiro de xadrez
Há muito esqueci
Não sei o que fazer
Com o cavalo
Com o peão.
Mas um dia joguei xadrez
Joguei e perdi
Nunca mais joguei
Mas continuei perdendo
Nos outros jogos da vida
Perdi o coração amoroso
De antes
Perdi enfim a inocência
De que ganhar era importante
Mas perder era sublime.
Perdi a minha vida
Toda ela inteirinha
Num tabuleiro de xadrez.
Só não perdi a tristeza
De que perder
Perde-se a razão de ser
Portanto nada sou
Do que uma fumaça
Que insiste em não desaparecer.
Sem certeza alguma
Toda decisão que tomar
Qualquer que ela seja
Em nenhum momento
Quero justificar
Pois careço de certeza
E sem certeza alguma
Posso viver livremente
Errando às vezes
Errando muitas vezes
Mas sobretudo
Experimentando
A doçura do mel silvestre
O amargo do chocolate
Rindo na alegria
Chorando também
Quando o choro vier
Para me fazer mais humano
Que certeza alguma tem
Daquilo que faça
Daquilo que deixou de fazer
E sem certeza alguma
Apenas diz
- Não sei!
E por não saber
Tem todas as possibilidades
De ser feliz
Neste exato lugar
Neste tempo inexato
De qualquer certeza.
Qualquer que ela seja
Em nenhum momento
Quero justificar
Pois careço de certeza
E sem certeza alguma
Posso viver livremente
Errando às vezes
Errando muitas vezes
Mas sobretudo
Experimentando
A doçura do mel silvestre
O amargo do chocolate
Rindo na alegria
Chorando também
Quando o choro vier
Para me fazer mais humano
Que certeza alguma tem
Daquilo que faça
Daquilo que deixou de fazer
E sem certeza alguma
Apenas diz
- Não sei!
E por não saber
Tem todas as possibilidades
De ser feliz
Neste exato lugar
Neste tempo inexato
De qualquer certeza.
O mundo lá fora
Pude sair
E vi que o vento sopra
Que o céu estava lá em cima
Junto com todos os pássaros
O vento era fresco
Rápido e objetivo em sua meta
Apenas soprar
Os seres do mundo
Diferente de mim
Que não sei ser assim
Objetivo e decidido como o vento
Sou o cata vento e não o vento
Saí das quatro paredes
Além da porta
E da vista da janela
Que como um quadro animado
Passava todo o tempo
Ilusões que mantinha em minha mente
Sempre tive vontade de saber
Se estas ilusões eram ilusões
Ou se eram reais ilusões
Sempre quis
Agora que posso estar aqui fora
Não sei o que fazer
Com tanta coisa
Nem com o vento
Ou com o Sol
Agora que posso estar aqui fora
Que devia estar correndo
Que devia estar soprando
Que devia estar sendo
Apenas
Não sei ser aqui fora
Estou como estava outrora
Com paredes invisíveis
No meu mundo fechado
E vi que o vento sopra
Que o céu estava lá em cima
Junto com todos os pássaros
O vento era fresco
Rápido e objetivo em sua meta
Apenas soprar
Os seres do mundo
Diferente de mim
Que não sei ser assim
Objetivo e decidido como o vento
Sou o cata vento e não o vento
Saí das quatro paredes
Além da porta
E da vista da janela
Que como um quadro animado
Passava todo o tempo
Ilusões que mantinha em minha mente
Sempre tive vontade de saber
Se estas ilusões eram ilusões
Ou se eram reais ilusões
Sempre quis
Agora que posso estar aqui fora
Não sei o que fazer
Com tanta coisa
Nem com o vento
Ou com o Sol
Agora que posso estar aqui fora
Que devia estar correndo
Que devia estar soprando
Que devia estar sendo
Apenas
Não sei ser aqui fora
Estou como estava outrora
Com paredes invisíveis
No meu mundo fechado
Fuga que não acontece
Quer que eu vá distante
Ainda que fuja de onde estou
Que fuja das amarras amorosas
Que a todo instante me afligem
Nunca sai de onde estou
Nem um passo mais longe
Foi dado
E continuo amarrado
Nos cordéis invisíveis
Da existência.
Brincadeira dos deuses
Bufões na verdade.
Ainda que acredite que
Possa mudar meu destino
Meus braços
E pernas
São pontos de amarras
De um titereiro que
Se esconde por detrás
Da cortina inconsciente
Que ninguém tem controle.
Não fugir do ponto
Pode ser o encontro
De todos meus anjos
E demônios.
Mais dos demônios
Que anjos.
Ainda que fuja de onde estou
Que fuja das amarras amorosas
Que a todo instante me afligem
Nunca sai de onde estou
Nem um passo mais longe
Foi dado
E continuo amarrado
Nos cordéis invisíveis
Da existência.
Brincadeira dos deuses
Bufões na verdade.
Ainda que acredite que
Possa mudar meu destino
Meus braços
E pernas
São pontos de amarras
De um titereiro que
Se esconde por detrás
Da cortina inconsciente
Que ninguém tem controle.
Não fugir do ponto
Pode ser o encontro
De todos meus anjos
E demônios.
Mais dos demônios
Que anjos.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
O termo do sereno
Se quisesse morrer
eu o faria,
e com presteza.
Tiraria primeiro todos os pés, apoios
suporte, bases, sapatas e fincas
Arrancaria o telhado da casa
telha por telha enfim todo madeirame
Desnecessária, a viga central seria
retirada sem demora, sem pressa
Enfim quando só restasse a pele oca
e todo vão fosse preenchido pelas estrelas celestes
Toda porta seria livre para escancarar, bater
fechar, ranger ou entreabrir fosse a hora que fosse
Então em cada rachadura consciente brotariam dentes
de leão - os convidados de honra!
Os tijolos livres para retornarem ao pó, ao pó retornariam
E os limos já não encontrariam obstáculos - limos não temem
E quando os meus olhos fossem os da natureza
eu gritaria: mãe! E mãe nenhuma viria
e nu, nu e tranquilo, tranquilo como a água
que lavaria o chão até tão puro ser só água o chão
aí, os pés encharcados,
abertos ou fechados
os olhos,
seria o mesmo
e uma profunda paz seria o ser de tudo
até acordar
no sofá da sala
com os sons da rua
eu o faria,
e com presteza.
Tiraria primeiro todos os pés, apoios
suporte, bases, sapatas e fincas
Arrancaria o telhado da casa
telha por telha enfim todo madeirame
Desnecessária, a viga central seria
retirada sem demora, sem pressa
Enfim quando só restasse a pele oca
e todo vão fosse preenchido pelas estrelas celestes
Toda porta seria livre para escancarar, bater
fechar, ranger ou entreabrir fosse a hora que fosse
Então em cada rachadura consciente brotariam dentes
de leão - os convidados de honra!
Os tijolos livres para retornarem ao pó, ao pó retornariam
E os limos já não encontrariam obstáculos - limos não temem
E quando os meus olhos fossem os da natureza
eu gritaria: mãe! E mãe nenhuma viria
e nu, nu e tranquilo, tranquilo como a água
que lavaria o chão até tão puro ser só água o chão
aí, os pés encharcados,
abertos ou fechados
os olhos,
seria o mesmo
e uma profunda paz seria o ser de tudo
até acordar
no sofá da sala
com os sons da rua
quarta-feira, 21 de julho de 2010
O tempo que segura
Corre, corre!
Passa o tempo
Correndo continuo,
Esperando pelo tempo
Que termina tarde
Sem dó
Mas sem maldade
Só por segurar o tempo
Que eu espero
Pra poder, com alegria
Te encontrar
Uma vez mais
Passa o tempo
Correndo continuo,
Esperando pelo tempo
Que termina tarde
Sem dó
Mas sem maldade
Só por segurar o tempo
Que eu espero
Pra poder, com alegria
Te encontrar
Uma vez mais
terça-feira, 20 de julho de 2010
Um vendaval passageiro
Para quê chorar!
Diante do castelo de areia
Num repente vem a onda ligeira
E põe tudo abaixo.
Para quê chorar
Se o balão de gás se foi
Ao vento arrastado adiante
Se tudo que se constrói
Fadado está a se destruir
Se tudo que começa
Um dia vai acabar
O amor poderá acabar
Ou simplesmente cair na descrença.
Para quê chorar!
Nem mesmo o choro é duradouro
Uma fumaça que se desfaz
Em instantes
Diante de tamanha incerteza
Na incerteza de viver amanhã
Só resta contemplar a lua
Lua congelada
Que parece não mudar nunca
Senão os olhos de quem vê
Congelando a imagem
Como fosse possível tamanha
Heresia!
Para quê chorar
Sem cair no papel ridículo
De ser apenas humano
E que sonha
Por um momento
Da eterna presença
De uma presença possível.
Diante do castelo de areia
Num repente vem a onda ligeira
E põe tudo abaixo.
Para quê chorar
Se o balão de gás se foi
Ao vento arrastado adiante
Se tudo que se constrói
Fadado está a se destruir
Se tudo que começa
Um dia vai acabar
O amor poderá acabar
Ou simplesmente cair na descrença.
Para quê chorar!
Nem mesmo o choro é duradouro
Uma fumaça que se desfaz
Em instantes
Diante de tamanha incerteza
Na incerteza de viver amanhã
Só resta contemplar a lua
Lua congelada
Que parece não mudar nunca
Senão os olhos de quem vê
Congelando a imagem
Como fosse possível tamanha
Heresia!
Para quê chorar
Sem cair no papel ridículo
De ser apenas humano
E que sonha
Por um momento
Da eterna presença
De uma presença possível.
Quando surge a virtude
Meus irmãos, estai atentos às ocasiões em que o vosso espírito quer falar em símbolos: assistis então à origem da vossa virtude.
Então é quando o vosso corpo se elevou e ressuscitou; então arrebata o espírito com os seus transportes para que se faça criador e apreciador e amante, benfeitor de todas as coisas. Quando o nosso coração se agita, amplo e cheio, como o grande rio, bênção e perigo dos ribeirinhos, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando vos elevais acima do louvor e da censura, e quando a vossa vontade, como vontade de um homem que ama e quer mandar em todas as coisas, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando desprezais o que é agradável, a cama fofa, e quando nunca vos credes repousar, então assistis à origem da vossa virtude.
Verdadeiramente é um novo bem e mal!
Verdadeiramente é um novo murmúrio profundo e a voz de um manancial novo!
Essa nova virtude é poder: um pensamento reinante e um torno desse pensamento uma alma sagaz: um sol dourado, e em torno dele a serpente do conhecimento.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.70
Então é quando o vosso corpo se elevou e ressuscitou; então arrebata o espírito com os seus transportes para que se faça criador e apreciador e amante, benfeitor de todas as coisas. Quando o nosso coração se agita, amplo e cheio, como o grande rio, bênção e perigo dos ribeirinhos, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando vos elevais acima do louvor e da censura, e quando a vossa vontade, como vontade de um homem que ama e quer mandar em todas as coisas, então assistis à origem da vossa virtude.
Quando desprezais o que é agradável, a cama fofa, e quando nunca vos credes repousar, então assistis à origem da vossa virtude.
Verdadeiramente é um novo bem e mal!
Verdadeiramente é um novo murmúrio profundo e a voz de um manancial novo!
Essa nova virtude é poder: um pensamento reinante e um torno desse pensamento uma alma sagaz: um sol dourado, e em torno dele a serpente do conhecimento.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.70
Alegria
Foto: Bruno MitihMulher pendurada pela pele dos joelhos, se diverte em apresentação pública de suspensão corporal durante a Virada Cultural em São Paulo.
Piiiii!
Ta ta ta ta!
Bateria!
Guitarra!
Baixo!
Guitarra!
Bateriaaaa!
Guitarraaaa guitaraaaa!
Baixo!
Bateriaaa!!
Ãm?
Não ouço nada!
Agora meu ouvido faz piiiii!
Bateria!
Guitarra!
Baixo!
Guitarra!
Bateriaaaa!
Guitarraaaa guitaraaaa!
Baixo!
Bateriaaa!!
Ãm?
Não ouço nada!
Agora meu ouvido faz piiiii!
Levantar e comprar pão
Levantar e comprar pão
Difícil tarefa,
Que a gente faz
Mesmo que no começo
A gente não queira
Levantar e comprar pão
Que depois a gente descobre
Que o Sol está lá fora
E que as árvores estão lá fora
E que o coco do cachorro está lá fora
Levantar e comprar pão
É descobrir que a gente por ir andando
E que o mundo está andando
Sem parar
E que parado estamos nós
Quando não queremos ir comprar pão
Difícil tarefa,
Que a gente faz
Mesmo que no começo
A gente não queira
Levantar e comprar pão
Que depois a gente descobre
Que o Sol está lá fora
E que as árvores estão lá fora
E que o coco do cachorro está lá fora
Levantar e comprar pão
É descobrir que a gente por ir andando
E que o mundo está andando
Sem parar
E que parado estamos nós
Quando não queremos ir comprar pão
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Um louco que morreu
Havia um louco
Que caminhava naquela rua
Catava tocos de cigarros acesos
E fumava o resto
Aspirando fundo do que restava
Fumaça e desilusão
Mas não cansava de caminhar
Quando chegava até a esquina
Dava uma volta e retornava
Incansavelmente durante horas
Um dia inteiro
Sem perturbar ninguém
Sem conversar
Com sorriso idiota na cara
Sorria para as mulheres que passavam
Que mudavam de calçada
Para não se encontrar
Com o louco Ferrinho
Era o seu nome.
Um dia Ferrinho não mais apareceu
Será que morreu?
Será que foi carregado em camisa de força
Não se sabe nada
Ninguém tomou conhecimento
Nem sentiram sua falta
Um ano passou
Dois se passaram
Mais outro
E caiu no esquecimento
Como nunca tivesse havido
Alguém como ele.
Sorria para as mulheres que passavam.
Que caminhava naquela rua
Catava tocos de cigarros acesos
E fumava o resto
Aspirando fundo do que restava
Fumaça e desilusão
Mas não cansava de caminhar
Quando chegava até a esquina
Dava uma volta e retornava
Incansavelmente durante horas
Um dia inteiro
Sem perturbar ninguém
Sem conversar
Com sorriso idiota na cara
Sorria para as mulheres que passavam
Que mudavam de calçada
Para não se encontrar
Com o louco Ferrinho
Era o seu nome.
Um dia Ferrinho não mais apareceu
Será que morreu?
Será que foi carregado em camisa de força
Não se sabe nada
Ninguém tomou conhecimento
Nem sentiram sua falta
Um ano passou
Dois se passaram
Mais outro
E caiu no esquecimento
Como nunca tivesse havido
Alguém como ele.
Sorria para as mulheres que passavam.
Os carteiros resfriaram-se
- Para quem mandarei
As cartas de amor sem destino?
Simplesmente por escrever
Para escapar de uma solidão
Em cuja multidão ninguém mais
Quer saber de coisas tão simples
Como receber mensagens.
Os ouvidos congelaram-se
Diante do rigor de um inverno
Que depois de sua passagem
Todos os fios ficaram interrompidos
Todos os carteiros resfriaram-se
E os corações também
- Para quem mandarei
As cartas de amor sem destino?
Como não há mais ninguém
Destino-as para mim mesmo.
As cartas de amor sem destino?
Simplesmente por escrever
Para escapar de uma solidão
Em cuja multidão ninguém mais
Quer saber de coisas tão simples
Como receber mensagens.
Os ouvidos congelaram-se
Diante do rigor de um inverno
Que depois de sua passagem
Todos os fios ficaram interrompidos
Todos os carteiros resfriaram-se
E os corações também
- Para quem mandarei
As cartas de amor sem destino?
Como não há mais ninguém
Destino-as para mim mesmo.
domingo, 18 de julho de 2010
Onde Felicidade se esconde?
Por todas as partes procurei
Incansavelmente procurei
Pela Felicidade.
Em nenhum lugar estava ela
Nem no fundo do mar estava
Entre as algas perguntei
Onde ficava Felicidade
Ninguém sabia dela
Onde habitava
Não seria um peixe?
Nenhum peixe chamava-se
Felicidade.
Fui para as montanhas
Entre os pinheiros perguntei
Onde ficava Felicidade
O vento soprava neste momento
E disse desconhecer Felicidade.
Desacreditado estava
Que Felicidade não existia
Em nenhuma parte
Deste mundo
Deste imenso mundo
Nem abaixo do mar
Nem no alto das montanhas.
Felicidade era apenas
Um sonho
De um mundo distante
Em que os homens eram livres
Também eram as mulheres
E por serem livres
Podiam se amar
Sem nenhum impedimento
Assim Felicidade chegava
Inaugurando a liberdade.
Mas ninguém quer a liberdade
Mas quer Felicidade
Como que Felicidade fosse dada
De maneira limitada
Talvez em futuro próximo
Que nunca mais chega
E assim se torna apenas
Mais um projeto que não
Se completa
Ou seja
No fundo do mar
No alto das montanhas
Mas se ela realmente existe
Que seja agora!
Antes que ela seja passageira
Tão rápida que não percebemos
Que Felicidade pode ser
Todo momento
Mas ninguém consegue
Segurá-la por muito tempo.
Incansavelmente procurei
Pela Felicidade.
Em nenhum lugar estava ela
Nem no fundo do mar estava
Entre as algas perguntei
Onde ficava Felicidade
Ninguém sabia dela
Onde habitava
Não seria um peixe?
Nenhum peixe chamava-se
Felicidade.
Fui para as montanhas
Entre os pinheiros perguntei
Onde ficava Felicidade
O vento soprava neste momento
E disse desconhecer Felicidade.
Desacreditado estava
Que Felicidade não existia
Em nenhuma parte
Deste mundo
Deste imenso mundo
Nem abaixo do mar
Nem no alto das montanhas.
Felicidade era apenas
Um sonho
De um mundo distante
Em que os homens eram livres
Também eram as mulheres
E por serem livres
Podiam se amar
Sem nenhum impedimento
Assim Felicidade chegava
Inaugurando a liberdade.
Mas ninguém quer a liberdade
Mas quer Felicidade
Como que Felicidade fosse dada
De maneira limitada
Talvez em futuro próximo
Que nunca mais chega
E assim se torna apenas
Mais um projeto que não
Se completa
Ou seja
No fundo do mar
No alto das montanhas
Mas se ela realmente existe
Que seja agora!
Antes que ela seja passageira
Tão rápida que não percebemos
Que Felicidade pode ser
Todo momento
Mas ninguém consegue
Segurá-la por muito tempo.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Esquecimento que não esquece
Nenhum esquecimento se dá
Quando a alma pequena não quer
Ainda que tentasse a todo custo
Custoso seria esperar por tamanho
Desprendimento.
Fiz tudo para esquecer aquela
Mas ela não sai de meu pensamento
Nem de meu corpo maltratado
Pelo tempo malfadado da indecisão
Por isso parei
Nada mais fiz
Senão fazer as pazes comigo mesmo
E aceitá-la como o meu destino
O destino também dela
Rodando na contramão.
Quando a alma pequena não quer
Ainda que tentasse a todo custo
Custoso seria esperar por tamanho
Desprendimento.
Fiz tudo para esquecer aquela
Mas ela não sai de meu pensamento
Nem de meu corpo maltratado
Pelo tempo malfadado da indecisão
Por isso parei
Nada mais fiz
Senão fazer as pazes comigo mesmo
E aceitá-la como o meu destino
O destino também dela
Rodando na contramão.
A força da paixão
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias. Fostes da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtude, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
NIETZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.43
Dantes tinhas no teu antro cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
NIETZSCH. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 2000, p.43
Fuga dos demônios
Em minha casa todas as feras
Os demônios mais funestos
Que um dia puderam enganar
O cão de três cabeças que guardava
A entrada do portal de madeira pesada
Passaram a destruir o mundo
De toda mentira
E assim as torres de areia
Desabaram sem sustentação
E as mulheres correram para a fonte
Lavando suas caras da falsa imagem
E livres puderam caminhar
E livres puderam viver suas vidas
E assumir de vez os amores abandonados
Que sempre esperaram
Pela aproximação
Do amor passado.
Os demônios mais funestos
Que um dia puderam enganar
O cão de três cabeças que guardava
A entrada do portal de madeira pesada
Passaram a destruir o mundo
De toda mentira
E assim as torres de areia
Desabaram sem sustentação
E as mulheres correram para a fonte
Lavando suas caras da falsa imagem
E livres puderam caminhar
E livres puderam viver suas vidas
E assumir de vez os amores abandonados
Que sempre esperaram
Pela aproximação
Do amor passado.
As bonecas russas
Tal quais as bonecas russas
Dessas que encaixam uma na outra
Uma pequena
Outra média
Uma maiorzinha
Uma grande
E outra gigante
Cada uma é diferente da outra
Em personalidade
Cuja máscara coloca
Temporariamente
Para em seguida ser substituída
Em toda a cara
Em todo o corpo
Se pequena
Tornou-se maior
A grande sobre a pequena
Uma maior ainda
Sobre as duas menores
Em instantes aquelas
Vão sendo cobertas
Como não existissem mais
Como não tivessem mais
Cara
Nem corpo
Nem idéias
Nem amores passados
Nem história
Podemos ser a boneca de hoje
Que tem dentre si as outras
Que querem sair
Se pudessem sair
Somente na calada da noite
Em forma de sonho
Para desaparecer
Quando se faz dia
Como boneca dona de si
Acreditamos que nada mais
Existe
Do que si
Ou descaradamente fingimos
Qualquer conhecimento
De causa conhecida.
Ainda haverá um dia
Que a boneca grande
Cairá
Partirá a sua cara de pau
E de dentro todas as outras
Surgirão exigindo vingança
Por terem sido devorados
Como Saturno seus filhos.
Dessas que encaixam uma na outra
Uma pequena
Outra média
Uma maiorzinha
Uma grande
E outra gigante
Cada uma é diferente da outra
Em personalidade
Cuja máscara coloca
Temporariamente
Para em seguida ser substituída
Em toda a cara
Em todo o corpo
Se pequena
Tornou-se maior
A grande sobre a pequena
Uma maior ainda
Sobre as duas menores
Em instantes aquelas
Vão sendo cobertas
Como não existissem mais
Como não tivessem mais
Cara
Nem corpo
Nem idéias
Nem amores passados
Nem história
Podemos ser a boneca de hoje
Que tem dentre si as outras
Que querem sair
Se pudessem sair
Somente na calada da noite
Em forma de sonho
Para desaparecer
Quando se faz dia
Como boneca dona de si
Acreditamos que nada mais
Existe
Do que si
Ou descaradamente fingimos
Qualquer conhecimento
De causa conhecida.
Ainda haverá um dia
Que a boneca grande
Cairá
Partirá a sua cara de pau
E de dentro todas as outras
Surgirão exigindo vingança
Por terem sido devorados
Como Saturno seus filhos.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Afinal todos fingimos
Alguns fingem amor
Que não existe
Só para incomodar.
Alguns fingem não existir
Um amor que detesta fingir
Só para acomodar.
E continuamos a fingir
Que amamos
E continuamos a fingir
Que não amamos
Só para contrariar
Por medo de sermos nós mesmos
Fingimos que somos o outro
Controlado nas emoções
Do descontrolado que somos
Que temos vergonha
De nossa própria natureza.
Fingimos tanto
Que acreditamos
Em nosso fingimento.
Fingimos enfim que
Somos capazes de compor poesia
Mas a minha é bem outra coisa
Que finge ser poesia
Que não engana quem escreve
Que finge que não escreve
Senão versos malditos
Dos que sofrem na carne
A dor do sofrimento
Dos amores perdidos
Que perdidos não necessitam
De fingimento.
Que não existe
Só para incomodar.
Alguns fingem não existir
Um amor que detesta fingir
Só para acomodar.
E continuamos a fingir
Que amamos
E continuamos a fingir
Que não amamos
Só para contrariar
Por medo de sermos nós mesmos
Fingimos que somos o outro
Controlado nas emoções
Do descontrolado que somos
Que temos vergonha
De nossa própria natureza.
Fingimos tanto
Que acreditamos
Em nosso fingimento.
Fingimos enfim que
Somos capazes de compor poesia
Mas a minha é bem outra coisa
Que finge ser poesia
Que não engana quem escreve
Que finge que não escreve
Senão versos malditos
Dos que sofrem na carne
A dor do sofrimento
Dos amores perdidos
Que perdidos não necessitam
De fingimento.
Fingimos para não sofrer
De certo fingimos o tempo todo
Fingimos que somos os donos do tempo
Fingimos que nada nos atinge
Nem as feridas mal curadas ainda
De uma possível separação
Enfim fingimos para não sofrer
Dos amores que somente se realizam
Ao entardecer
Nunca fingimos tanto
Para não sofrer
E mostramos uma cara
Sem nenhuma impressão que possa
Revelar o que vai profundamente
No coração
Lá onde um caldeirão ferve
Toda condição humana
Suas misérias mais ignóbeis
Em que a felicidade
Passageira
Não necessita
De nenhum fingimento.
Fingimos que somos os donos do tempo
Fingimos que nada nos atinge
Nem as feridas mal curadas ainda
De uma possível separação
Enfim fingimos para não sofrer
Dos amores que somente se realizam
Ao entardecer
Nunca fingimos tanto
Para não sofrer
E mostramos uma cara
Sem nenhuma impressão que possa
Revelar o que vai profundamente
No coração
Lá onde um caldeirão ferve
Toda condição humana
Suas misérias mais ignóbeis
Em que a felicidade
Passageira
Não necessita
De nenhum fingimento.
O medo do encontro
Nenhuma xícara de chá
Poderá acabar com este frio
Que não apenas é do pé e da mão
Mais do que isso
O que esfria é o coração
Diante de tamanha indiferença
Das carências mais elementares
Numa solidão consentida
Na casa vazia
Entregue apenas aos fantasmas
Que assombram minha existência
Dos sonhos em que o encontro
Se dá a todo instante
E nenhum impedimento
Suficiente era vontade
De se perder nos jogos do amor
E perder era a condição da existência
Do encontro que se realizava
Sem nenhum medo
Somente quando o medo chegasse
Então sobremaneira o desencontro
Haveria de ser novamente
Uma banalização
E o amor seria banido
Para sempre.
Poderá acabar com este frio
Que não apenas é do pé e da mão
Mais do que isso
O que esfria é o coração
Diante de tamanha indiferença
Das carências mais elementares
Numa solidão consentida
Na casa vazia
Entregue apenas aos fantasmas
Que assombram minha existência
Dos sonhos em que o encontro
Se dá a todo instante
E nenhum impedimento
Suficiente era vontade
De se perder nos jogos do amor
E perder era a condição da existência
Do encontro que se realizava
Sem nenhum medo
Somente quando o medo chegasse
Então sobremaneira o desencontro
Haveria de ser novamente
Uma banalização
E o amor seria banido
Para sempre.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Eu só amo!
Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.
Amo aqueles de grande desprezo, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.
Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para sucumbir e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer ele sucumbir.
Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem, e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu fim.
Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é a vontade de extinção e uma seta do desejo.
Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e não viver mais.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 200, p.27.
Amo aqueles de grande desprezo, porque são os grandes adoradores, as setas do desejo ansiosas pela outra margem.
Amo os que não procuram por detrás das estrelas uma razão para sucumbir e oferecer-se em sacrifício, mas se sacrificam pela terra, para que a terra pertença um dia ao super-homem.
Amo o que vive para conhecer, e que quer conhecer, para que um dia viva o Super-homem, porque assim quer ele sucumbir.
Amo o que trabalha e inventa, a fim de exigir uma morada ao Super-homem, e preparar para ele a terra, os animais e as plantas, porque assim quer o seu fim.
Amo o que ama a sua virtude, porque a virtude é a vontade de extinção e uma seta do desejo.
Amo o que faz da sua virtude a sua tendência e o seu destino, pois assim, por sua virtude, quererá viver ainda e não viver mais.
NIETZSCHE. Friedrich, Assim falou Zaratustra, São Paulo: Martin Claret, 200, p.27.
Existência no mundo flutuante
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Como podemos construir
Castelos de areia sem que
Chegue o demônio
Sua legião de malfeitores
E ponham o castelo a fragmento
Nem o choro será capaz
De reconstruí-lo de novo
Um choro incontido que
Nada serve
Senão para a tristeza
Ser amiga companheira
Em tempos de tempestade.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Ainda que pensemos
Que os pés criaram raízes
O terreno pantanoso
Mal sustenta nossos sonhos
Que se desfazem como fumaças
Em sua existência fugaz.
Dos amores que encontramos
Grandes e pequenos
Secretos e passionais
Alguns marginais
Desde o começo estão fadados
A desaparecer
Sem tempo suficiente
Para se viver.
E solitários ficamos
Olhando acima as nuvens
Formando desenhos vários
São formas de cascatas
De imensos animais pré-históricos
Que diante de nossos olhos
Deixam de ser aquilo
Que os nossos olhos viram.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Num soprar do vento
As nuvens também se vão
Se a nuvem da felicidade havia
Em instantes se desfazia
Mais rápido ainda que o orvalho
Desprendendo do galho
E correr na correnteza lépida
De um regato para o mar.
Nunca pára de rodar
Ao sabor do vento que não cessa
O moinho de nossa existência.
O redemoinho em insistente
Movimento monótono
Do eixo rangendo na madeira seca.
Só resta apenas contemplar
Nada mais
O movimento circular se
Repetindo.
Tomado ao relento.
Como podemos construir
Castelos de areia sem que
Chegue o demônio
Sua legião de malfeitores
E ponham o castelo a fragmento
Nem o choro será capaz
De reconstruí-lo de novo
Um choro incontido que
Nada serve
Senão para a tristeza
Ser amiga companheira
Em tempos de tempestade.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Ainda que pensemos
Que os pés criaram raízes
O terreno pantanoso
Mal sustenta nossos sonhos
Que se desfazem como fumaças
Em sua existência fugaz.
Dos amores que encontramos
Grandes e pequenos
Secretos e passionais
Alguns marginais
Desde o começo estão fadados
A desaparecer
Sem tempo suficiente
Para se viver.
E solitários ficamos
Olhando acima as nuvens
Formando desenhos vários
São formas de cascatas
De imensos animais pré-históricos
Que diante de nossos olhos
Deixam de ser aquilo
Que os nossos olhos viram.
Uma xícara de chá
Tomado ao relento.
Num soprar do vento
As nuvens também se vão
Se a nuvem da felicidade havia
Em instantes se desfazia
Mais rápido ainda que o orvalho
Desprendendo do galho
E correr na correnteza lépida
De um regato para o mar.
Nunca pára de rodar
Ao sabor do vento que não cessa
O moinho de nossa existência.
O redemoinho em insistente
Movimento monótono
Do eixo rangendo na madeira seca.
Só resta apenas contemplar
Nada mais
O movimento circular se
Repetindo.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Perdido sempre
Foi numa feira
Dessas que vendem frutas
Que me perdi
Tinha cinco ou menos
Ainda
Não sabia mais
Onde estava a minha avó
Pela primeira vez
Olhei para cima
Ao invés do céu
Vi cabeças desfilando
Cabeças vindo
Cabeças indo
Uma multidão
Até que o homem que
Vendia não sei o quê
Me parou
Me recolheu
E esperei minha avó chegar
Não demorou muito
Ela chegou
Mas a minha esperança
Era de ficar eternamente
Perdido
Na liberdade de caminhar
Olhando para cima.
Pois se felicidade existe
Existe acima de nossas cabeças.
Dessas que vendem frutas
Que me perdi
Tinha cinco ou menos
Ainda
Não sabia mais
Onde estava a minha avó
Pela primeira vez
Olhei para cima
Ao invés do céu
Vi cabeças desfilando
Cabeças vindo
Cabeças indo
Uma multidão
Até que o homem que
Vendia não sei o quê
Me parou
Me recolheu
E esperei minha avó chegar
Não demorou muito
Ela chegou
Mas a minha esperança
Era de ficar eternamente
Perdido
Na liberdade de caminhar
Olhando para cima.
Pois se felicidade existe
Existe acima de nossas cabeças.
Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo?
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem e Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, pp.55,56
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo?
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem e Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, pp.55,56
Idílio em Paris
Era de criança que João Paulo
Pela primeira vez encontrou-se
Com Maria Rosa
Foi num galpão aos fundos da casa
Que trocaram o primeiro beijo.
Gostaram
Cresceram por algum tempo
Continuaram juntos
Na escola juntos
Também juntos nas festas de junho
E separaram-se
Nunca mais se viram
Nunca mais se falaram
João Paulo foi morar nos confins
Maria Rosa foi a Paris
Foi nas ruas de Paris
Que reencontraram-se
A juventude tinha ido
E chegado a dor nas juntas
Um tinha conhecido outras mulheres
Outros homens na vida dela
E não ficaram com ninguém
João Paulo nada disse
Nem disse Maria Rosa
Que somente olharam nos olhos
Um nos olhos do outro
Sorriram e as mãos enlaçaram-se
Sempre estiveram juntos
E juntos continuariam
Desde que cada um seguisse
Seu caminho
E lá foi João Paulo para Sumatra
Para nunca mais se encontrarem.
Pela primeira vez encontrou-se
Com Maria Rosa
Foi num galpão aos fundos da casa
Que trocaram o primeiro beijo.
Gostaram
Cresceram por algum tempo
Continuaram juntos
Na escola juntos
Também juntos nas festas de junho
E separaram-se
Nunca mais se viram
Nunca mais se falaram
João Paulo foi morar nos confins
Maria Rosa foi a Paris
Foi nas ruas de Paris
Que reencontraram-se
A juventude tinha ido
E chegado a dor nas juntas
Um tinha conhecido outras mulheres
Outros homens na vida dela
E não ficaram com ninguém
João Paulo nada disse
Nem disse Maria Rosa
Que somente olharam nos olhos
Um nos olhos do outro
Sorriram e as mãos enlaçaram-se
Sempre estiveram juntos
E juntos continuariam
Desde que cada um seguisse
Seu caminho
E lá foi João Paulo para Sumatra
Para nunca mais se encontrarem.
domingo, 11 de julho de 2010
Maçã vermelha
Assim repetirei
Uma maçã vermelha
A ti oferecerei
Como sempre fiz
Uma outra maçã
Continuarei lhe dando
Um pé inteiro se for preciso
Enquanto aceitar
O que de melhor lhe
Possa dar
As maçãs das festas juninas
Mais vermelhas do que nunca
Nunca a maçã foi a mais desejada
Do que Eva na descoberta de que era
Mulher!
Uma maçã vermelha
A ti oferecerei
Como sempre fiz
Uma outra maçã
Continuarei lhe dando
Um pé inteiro se for preciso
Enquanto aceitar
O que de melhor lhe
Possa dar
As maçãs das festas juninas
Mais vermelhas do que nunca
Nunca a maçã foi a mais desejada
Do que Eva na descoberta de que era
Mulher!
Esta chama que resiste
Uma vontade me arrasta
Para outras plagas
Talvez nas montanhas
Do Himalaia
Desde que seja distante
E possa descansar
Nas geleiras
E possa esfriar
Um tanto que seja
O incêndio que me assola
O coração.
Se todo o gelo fosse suficiente
Restaria ainda
Uma chama ainda
Que não se apagaria.
Para outras plagas
Talvez nas montanhas
Do Himalaia
Desde que seja distante
E possa descansar
Nas geleiras
E possa esfriar
Um tanto que seja
O incêndio que me assola
O coração.
Se todo o gelo fosse suficiente
Restaria ainda
Uma chama ainda
Que não se apagaria.
Criando encontros
Foi num encontro
De olhares
Já se conheciam
Ficaram juntos
Amaram
E às vezes
Brigaram
Suas diferenças
Um dia ela se foi
Neste momento
Ele desapareceu
Ele que era uma criação
Dela
Ela que era uma criação
Dele
Somente existiam
Juntos.
O amor também
Deixou de existir
E tudo ficou como antes
Como nunca tivesse
Existido realmente.
De olhares
Já se conheciam
Ficaram juntos
Amaram
E às vezes
Brigaram
Suas diferenças
Um dia ela se foi
Neste momento
Ele desapareceu
Ele que era uma criação
Dela
Ela que era uma criação
Dele
Somente existiam
Juntos.
O amor também
Deixou de existir
E tudo ficou como antes
Como nunca tivesse
Existido realmente.
Amor recriado
Ainda vive dentro de mim
Um ser solitário que sofre
As mazelas da vida
Que por viver nas sombras
Não necessita fechar os olhos
Para poder enxergar
Uma nuvem de tempestade
Carregada de todo o furor
Das paixões desencadeadas
No calor dos encontros
Em instantes se desfazer
E ele nada fazer
Do que esperar
Uma nova forma se formar
E se desfazer de novo
Nem o amor pode ser permanente
Mas pode ser inventado
Eternamente
Para se desfazer sempre
E se fazer de novo.
Um ser solitário que sofre
As mazelas da vida
Que por viver nas sombras
Não necessita fechar os olhos
Para poder enxergar
Uma nuvem de tempestade
Carregada de todo o furor
Das paixões desencadeadas
No calor dos encontros
Em instantes se desfazer
E ele nada fazer
Do que esperar
Uma nova forma se formar
E se desfazer de novo
Nem o amor pode ser permanente
Mas pode ser inventado
Eternamente
Para se desfazer sempre
E se fazer de novo.
sábado, 10 de julho de 2010
O tempo passageiro
De repente passou
Nada mais passou
Do que um sonho
Fugaz e ligeiro
As águas passadas
De meu pensamento
Mas ainda assim
Me alimento desta paisagem
Não que viva no passado
Vivo no presente de uma imagem
Que pode passar
Mas cuja passagem
Leva uma eternidade
As areias demorando
Para escoar na canaleta
De uma ampulheta
Como demora
Para passar
Como demora
A vida passar
E a morte que não chega
Se tenho na memória
Uma ilusão qualquer
Que não passa de fumaça
Como demora
Para passar
Como demora
O orvalho cair
Uma ruga surgir
Num instante
De passagem
Como demora!
Nada mais passou
Do que um sonho
Fugaz e ligeiro
As águas passadas
De meu pensamento
Mas ainda assim
Me alimento desta paisagem
Não que viva no passado
Vivo no presente de uma imagem
Que pode passar
Mas cuja passagem
Leva uma eternidade
As areias demorando
Para escoar na canaleta
De uma ampulheta
Como demora
Para passar
Como demora
A vida passar
E a morte que não chega
Se tenho na memória
Uma ilusão qualquer
Que não passa de fumaça
Como demora
Para passar
Como demora
O orvalho cair
Uma ruga surgir
Num instante
De passagem
Como demora!
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Maior certeza
A vida é breve como
As relvas de verão.
Escrevi seu nome várias vezes
Nas areias
Mas as ondas
Levaram.
O amor é como as pegadas
De um pássaro
Nas nuvens se
Transformando.
As relvas de verão.
Escrevi seu nome várias vezes
Nas areias
Mas as ondas
Levaram.
O amor é como as pegadas
De um pássaro
Nas nuvens se
Transformando.
sábado, 3 de julho de 2010
As folhas secas
Ainda que varra as folhas secas
Não me canso de varrê-las
E novamente centenas de outras
Delas forram o meu chão.
Nem por isso tenho que deixar
De limpar quantas vezes for preciso
Para que num instante
Despenquem num relance
Todas as folhas deste inverno.
Se tenho que limpar minha mente
Destas ervas daninhas da ilusão
Ilusão maior é esta limpeza
Que nunca se livra das impurezas
Dos amores passageiros
Eternamente presentes.
Sem nunca parar de limpar
Mais que limpa a rua suja
Das folhas secas e caídas
De seus galhos suspensos.
Pudesse eu também
Desprender como folhas secas
Uma tristeza sem motivo
Mas que resiste em acabar.
Um balanço ligeiro
Um volteio e logo surgem
Folhas secas espalhadas.
Não me canso de varrê-las
E novamente centenas de outras
Delas forram o meu chão.
Nem por isso tenho que deixar
De limpar quantas vezes for preciso
Para que num instante
Despenquem num relance
Todas as folhas deste inverno.
Se tenho que limpar minha mente
Destas ervas daninhas da ilusão
Ilusão maior é esta limpeza
Que nunca se livra das impurezas
Dos amores passageiros
Eternamente presentes.
Sem nunca parar de limpar
Mais que limpa a rua suja
Das folhas secas e caídas
De seus galhos suspensos.
Pudesse eu também
Desprender como folhas secas
Uma tristeza sem motivo
Mas que resiste em acabar.
Um balanço ligeiro
Um volteio e logo surgem
Folhas secas espalhadas.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Viajante do mar
Como invejo os marinheiros
Que nunca se fixam em portos algum
Preferem enfrentar as ondas bravias
Do que a maresia das terras firmes.
Quem fica nestas praias
Em que somente a onda vem beijar
As pernas da bela caiçara
Não pode se apaixonar
Pelas sereias do mar.
Onde quer que se vá
Em cada porto haverá
Uma esperança renascendo
Um poema sendo inventado
Diante de tamanho deslumbramento.
Que nunca se fixam em portos algum
Preferem enfrentar as ondas bravias
Do que a maresia das terras firmes.
Quem fica nestas praias
Em que somente a onda vem beijar
As pernas da bela caiçara
Não pode se apaixonar
Pelas sereias do mar.
Onde quer que se vá
Em cada porto haverá
Uma esperança renascendo
Um poema sendo inventado
Diante de tamanho deslumbramento.
Nada mais para se dizer
Passados alguns anos
Reencontraram-se
Mas o fogo de antes
Incandessente era
Tornou-se indiferente
Um olhou para o outro
Não se conheciam mais
Nada havia de comum mais
Nem mesmo a amizade
Havia lugar.
Como não tinham
O que falar
Inventaram falas
E falaram de um grande
Amor vivido
Não por eles
Era o amor de suas memórias
Que ficou como fagulhas
De um pirilampo que dança
Sobre os campos da ilusão.
De repente dos rostos fechados
Um leve sorriso acendeu lá no canto
Dos lábios antes secos
E dos olhos lágrimas rasgaram
Fundo a face agora enrugada.
O amor somente existe
Na lembrança passageira
Do orvalho se desfazendo.
Enxugaram as lágrimas
E como nada mais tinham a dizer
Cada um foi para um lado.
Reencontraram-se
Mas o fogo de antes
Incandessente era
Tornou-se indiferente
Um olhou para o outro
Não se conheciam mais
Nada havia de comum mais
Nem mesmo a amizade
Havia lugar.
Como não tinham
O que falar
Inventaram falas
E falaram de um grande
Amor vivido
Não por eles
Era o amor de suas memórias
Que ficou como fagulhas
De um pirilampo que dança
Sobre os campos da ilusão.
De repente dos rostos fechados
Um leve sorriso acendeu lá no canto
Dos lábios antes secos
E dos olhos lágrimas rasgaram
Fundo a face agora enrugada.
O amor somente existe
Na lembrança passageira
Do orvalho se desfazendo.
Enxugaram as lágrimas
E como nada mais tinham a dizer
Cada um foi para um lado.
Minha vida inteira
Ainda ontem sonhei comigo
hoje também sonhei -
Ainda sou o meu maior sonho
Sonho o sonho sonhando acordado
quando acordo
caio em mim
então sou a crise
crise da existência
existência de fausto
Sei que amanhã sonharei comigo
outra vez, fico tranquilo
mas isto me preocupa
Ainda sou o meu maior sonho
e amanhã ainda serei este sonho
inútil quebrar o espelho
Inútil flertar com a morte no mais louco dos prazeres
porque de manhã outra vez terei sonhado comigo -
Ainda sou o meu maior sonho
hoje também sonhei -
Ainda sou o meu maior sonho
Sonho o sonho sonhando acordado
quando acordo
caio em mim
então sou a crise
crise da existência
existência de fausto
Sei que amanhã sonharei comigo
outra vez, fico tranquilo
mas isto me preocupa
Ainda sou o meu maior sonho
e amanhã ainda serei este sonho
inútil quebrar o espelho
Inútil flertar com a morte no mais louco dos prazeres
porque de manhã outra vez terei sonhado comigo -
Ainda sou o meu maior sonho
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Quando a noite cai
Um gato solitário
Por cima dos telhados
Espia
A noite revelar os amores
Fáceis das panças avançadas
Que na simplicidade dos encontros
Basta uma roda de comida
Regada a bobagem.
Um gato solitário
Por cima dos telhados
Espia...
Por cima dos telhados
Espia
A noite revelar os amores
Fáceis das panças avançadas
Que na simplicidade dos encontros
Basta uma roda de comida
Regada a bobagem.
Um gato solitário
Por cima dos telhados
Espia...
Uma onda na areia
Porque escrever o seu nome
Por sobre a areia de uma praia
Se por um momento qualquer
Sem nenhum pudor e constrangimento
Vem uma onda rasteira
E quando se retira não deixa
Um sinal sequer de sua existência?
Em instantes vai toda uma vida
De encontrar a pessoa
Para somente escrever o nome dela
Nas areias de uma praia
E no quebrar das ondas
Sorrateira ela vem e apaga
O meu nome também.
Por sobre a areia de uma praia
Se por um momento qualquer
Sem nenhum pudor e constrangimento
Vem uma onda rasteira
E quando se retira não deixa
Um sinal sequer de sua existência?
Em instantes vai toda uma vida
De encontrar a pessoa
Para somente escrever o nome dela
Nas areias de uma praia
E no quebrar das ondas
Sorrateira ela vem e apaga
O meu nome também.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Que tudo passe
Junho passa
E passageira passa
E passa já tarde demais
Até o amor do passado passa
Por um triz passa com mãos dadas
Com um passageiro de uma lotação de passagem.
Como me fartei de junho
Que não deixará nenhuma saudade!
Comemorarei outras datas que não seja junho.
E passageira passa
E passa já tarde demais
Até o amor do passado passa
Por um triz passa com mãos dadas
Com um passageiro de uma lotação de passagem.
Como me fartei de junho
Que não deixará nenhuma saudade!
Comemorarei outras datas que não seja junho.
Ilusão que foi passageira
O que restou do tempo
Na caída da areia afunilando
No cristal
Senão uma memória
Que aparece
Que desaparece
Sem se dar conta
De sua própria inconstância
Cujo passado é o presente
Apenas na mente passageira
Numa bola de sabão que teima
Sair ilesa numa provável explosão.
Até mesmo Joaninha
Que amava Tenório
Que amava Joaninha
Passados vinte anos
Trocou Tenório por
Mário Ferreira dos Santos
Que surgiu do nada
Nadando contra as ondas.
Mas Tenório continua a amar
Joaninha de vinte anos atrás.
Na caída da areia afunilando
No cristal
Senão uma memória
Que aparece
Que desaparece
Sem se dar conta
De sua própria inconstância
Cujo passado é o presente
Apenas na mente passageira
Numa bola de sabão que teima
Sair ilesa numa provável explosão.
Até mesmo Joaninha
Que amava Tenório
Que amava Joaninha
Passados vinte anos
Trocou Tenório por
Mário Ferreira dos Santos
Que surgiu do nada
Nadando contra as ondas.
Mas Tenório continua a amar
Joaninha de vinte anos atrás.
terça-feira, 29 de junho de 2010
A espera
Aquela moça da janela
Esperava a chegada de alguém
Nunca deixou de esperar
Se era primavera
Esperava as flores florescerem
Se era inverno
Que as flores caíssem dos galhos
Passava a vida toda esperando
Sem que ninguém chegasse.
Um dia chegou
Não se importou com sua aparência
Se era cego de um olho
Se era coxo de uma perna
Foi com esse mesmo
Que ela se casou.
Esperava a chegada de alguém
Nunca deixou de esperar
Se era primavera
Esperava as flores florescerem
Se era inverno
Que as flores caíssem dos galhos
Passava a vida toda esperando
Sem que ninguém chegasse.
Um dia chegou
Não se importou com sua aparência
Se era cego de um olho
Se era coxo de uma perna
Foi com esse mesmo
Que ela se casou.
Sem grandes sonhos
A felicidade pode ser
Assim:
Uma tarde domingueira
Enquanto passa a vida
Um prato de macarronada
Enquanto a morte não chega
Sem inovação alguma
Enquanto cada vez mais
As barrigas vão se alargando
E de repente
Alguém grita
É golllll.
A felicidade pode ser
Assim:
Um álbum de figurinhas.
Assim:
Uma tarde domingueira
Enquanto passa a vida
Um prato de macarronada
Enquanto a morte não chega
Sem inovação alguma
Enquanto cada vez mais
As barrigas vão se alargando
E de repente
Alguém grita
É golllll.
A felicidade pode ser
Assim:
Um álbum de figurinhas.
Ao cair da noite impura
Um corpo que caminha
Pela cidade
As ruas não testemunham mais
Suposta insanidade
Dos rostos de vidro
Isentos de qualquer expressão.
E quando a noite chega
Trazendo uma bruma venenosa
De gases carbonizados
Dos fósseis que se estendem
Pelo granito polido pelas rodas
De carroceiros levando
Papelões sem nenhuma serventia
Senão para a decomposição
Mais profundo fica o abismo
Do homem desamparado
Circunvizinho à rocha cujo
Limbo antes verde ressecou.
Ainda que se procure
Seja nos sinais de trânsito
Nos grafites das paredes
Nenhum significado capaz
De salvar da própria destruição
Uma vida que deixou de ter
Sentido capaz de suportar
A angústia em deparar que
Qualquer expectativa
Será em vão.
Indiferente a tudo
Mas como nada mais tivesse
Importância
Continuam comendo
Nas praças de alimentação
Aumentando cada vez mais
Uma desilusão de um amor antigo
Por isso cada vez mais
Ingerem calorias
A fim de esquecer tamanha contradição
De uma vida vivida em revés.
Pela cidade
As ruas não testemunham mais
Suposta insanidade
Dos rostos de vidro
Isentos de qualquer expressão.
E quando a noite chega
Trazendo uma bruma venenosa
De gases carbonizados
Dos fósseis que se estendem
Pelo granito polido pelas rodas
De carroceiros levando
Papelões sem nenhuma serventia
Senão para a decomposição
Mais profundo fica o abismo
Do homem desamparado
Circunvizinho à rocha cujo
Limbo antes verde ressecou.
Ainda que se procure
Seja nos sinais de trânsito
Nos grafites das paredes
Nenhum significado capaz
De salvar da própria destruição
Uma vida que deixou de ter
Sentido capaz de suportar
A angústia em deparar que
Qualquer expectativa
Será em vão.
Indiferente a tudo
Mas como nada mais tivesse
Importância
Continuam comendo
Nas praças de alimentação
Aumentando cada vez mais
Uma desilusão de um amor antigo
Por isso cada vez mais
Ingerem calorias
A fim de esquecer tamanha contradição
De uma vida vivida em revés.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Sem nada mais fazer
Nenhuma dúvida pode ser
Mais incômoda do que
A dúvida da própria dor
Em tempos de indecisão.
Joana foi trabalhar
Cremilda batalhar
Para sustento de sua vida.
Se tivesse um papel em branco
Comporia uma poesia
Dessas sem rima precisa
Apenas para atormentar
Aqueles que seguem regras
Demasiadamente precisas.
Mas nada disso disponho
Só tenho uma vontade imensa
De sussurrar numa rachadura
De uma parede abandonada
Um nome qualquer que seja
Pode ser Maria
Josefina ou Filomena
Desde que não existam.
Mais incômoda do que
A dúvida da própria dor
Em tempos de indecisão.
Joana foi trabalhar
Cremilda batalhar
Para sustento de sua vida.
Se tivesse um papel em branco
Comporia uma poesia
Dessas sem rima precisa
Apenas para atormentar
Aqueles que seguem regras
Demasiadamente precisas.
Mas nada disso disponho
Só tenho uma vontade imensa
De sussurrar numa rachadura
De uma parede abandonada
Um nome qualquer que seja
Pode ser Maria
Josefina ou Filomena
Desde que não existam.
domingo, 27 de junho de 2010
Tempos de jogo
Entre os abrigados
Debaixo de um viaduto
O mesmo mendigo de sempre
A mendiga também de sempre
Nada mudou em suas vidas
Senão a bandeirola que tremula
Bandeira verde e amarela
Em tempos de jogos
Quando a bola rola e a multidão
Em festa grita gol.
Será que eles comemoram
E fazem festa?
Como que a festa fosse
Deles também?
Debaixo de um viaduto
O mesmo mendigo de sempre
A mendiga também de sempre
Nada mudou em suas vidas
Senão a bandeirola que tremula
Bandeira verde e amarela
Em tempos de jogos
Quando a bola rola e a multidão
Em festa grita gol.
Será que eles comemoram
E fazem festa?
Como que a festa fosse
Deles também?
Os riscos da vida
Endurecer as palavras
Pode ser uma medida de prevenção
Sem se deixar
Escorrer pela correnteza
Das indecisões das emoções
Mais profundas.
Deixamos de cair nas malhas
De uma aranha prestes a atacar
Com o doce veneno que mata
A cada momento
De maneira suave e lenta.
Ainda que amor seja decadência
Quanto maior o perigo
Não como deixar de provar
Um gosto amargo na boca.
Pode ser uma medida de prevenção
Sem se deixar
Escorrer pela correnteza
Das indecisões das emoções
Mais profundas.
Deixamos de cair nas malhas
De uma aranha prestes a atacar
Com o doce veneno que mata
A cada momento
De maneira suave e lenta.
Ainda que amor seja decadência
Quanto maior o perigo
Não como deixar de provar
Um gosto amargo na boca.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Audiência
enquanto a seleção joga os desabrigados
esperam em fila a hora de o albergue abrir
a cidade está deserta, todos em frente à tv
mas na fila do albergue não tem tv
e ninguém tem nem rádio de pilha
o albergue fica incrustado num viaduto
sobre a avenida de seis pistas
enquanto a seleção joga os homens da fila
olham pacientes a avenida vazia lá embaixo
esperam em fila a hora de o albergue abrir
a cidade está deserta, todos em frente à tv
mas na fila do albergue não tem tv
e ninguém tem nem rádio de pilha
o albergue fica incrustado num viaduto
sobre a avenida de seis pistas
enquanto a seleção joga os homens da fila
olham pacientes a avenida vazia lá embaixo
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O pássaro
Em minha janela pousou
Um pássaro
E de seu bico
Frágil passou a bicar
O vidro translúcido
Que reverberou...
- Vai-te embora
Pássaro de mau agouro
Deixe meu amor em paz.
Um pássaro
E de seu bico
Frágil passou a bicar
O vidro translúcido
Que reverberou...
- Vai-te embora
Pássaro de mau agouro
Deixe meu amor em paz.
Cegonha de papel
Uma cegonha de origami
Não faz a dor passar
Duas cegonhas de origami
Não fazem a dor passar
Mas enquanto a dor não passa
As mãos hábeis vão confeccionando
Cegonhas após cegonhas
Até chegar a mil cegonhas
Sem que a dor passe
Não se desiste de dobrar
Um papel atrás do outro
Origami de papel
Sem se importar
Que a dor nunca vai passar
Mas em momento algum
Parou de dobrar
Um origami atrás do outro
Origami de papel
Sem perder a esperança
Sem a esperança que a dor passe
Apenas dobrar papel
Sem mais nada esperar
Origami de papel
Cegonha de papel.
Não faz a dor passar
Duas cegonhas de origami
Não fazem a dor passar
Mas enquanto a dor não passa
As mãos hábeis vão confeccionando
Cegonhas após cegonhas
Até chegar a mil cegonhas
Sem que a dor passe
Não se desiste de dobrar
Um papel atrás do outro
Origami de papel
Sem se importar
Que a dor nunca vai passar
Mas em momento algum
Parou de dobrar
Um origami atrás do outro
Origami de papel
Sem perder a esperança
Sem a esperança que a dor passe
Apenas dobrar papel
Sem mais nada esperar
Origami de papel
Cegonha de papel.
Felicidade
A Cláudia disse que já havia
deixado pra lá a busca da felicidade.
Disse isso fazendo um gesto largo com a mão
e sorriu.
deixado pra lá a busca da felicidade.
Disse isso fazendo um gesto largo com a mão
e sorriu.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
O saci da parede
Aquele mesmo casal
De mendigos
Ganhou um novo amigo
Na parede de seu quarto avenida
Estampado estava
Um negro retinto
Saci era o seu nome
Em nenhum momento
Reclama
Do que quer que seja
Faça dia faça noite
Saci os protege
Dos olhares maliciosos
Saci é fiel...
Que nada promete
Nem neste mundo
Nem no outro
Imundo é a mente
Dos insensatos
Que não acreditam
No saci
Em sua total inutilidade
Que da parede
Não sai
Não abandona
Mendigos e sábios
Marginais e poetas
Que se encantam
Do bailado perneta
Do saci.
De mendigos
Ganhou um novo amigo
Na parede de seu quarto avenida
Estampado estava
Um negro retinto
Saci era o seu nome
Em nenhum momento
Reclama
Do que quer que seja
Faça dia faça noite
Saci os protege
Dos olhares maliciosos
Saci é fiel...
Que nada promete
Nem neste mundo
Nem no outro
Imundo é a mente
Dos insensatos
Que não acreditam
No saci
Em sua total inutilidade
Que da parede
Não sai
Não abandona
Mendigos e sábios
Marginais e poetas
Que se encantam
Do bailado perneta
Do saci.
Ilusão de areia
Para quê construir
Castelos de areia?
Se uma onda ligeira
Vem e a tudo derruba
Em instantes apenas
Sem que ninguém se dê conta.
Quando um castelo de areia
Uma onda derruba
Novamente um novo castelo
De areia
Começam a levantar
Desafiando a onda
Que traiçoeira chega
No começo devagarzinho
Ninguém percebe
Nem o menino que levanta
O castelo de areia
Nem a menina que brinca
Com seu balde de areia
Mas de tanto derrubar
Desistem definitivamente
O menino
A menina
Sem castelo algum
Cada um vai para o seu lado
Pois a brincadeira acabou
E como nada tivesse acontecido
Vem a onda ligeira
Não deixando vestígio algum
Que um dia houve na areia
Um castelo de areia
Um menino
Uma menina.
Castelos de areia?
Se uma onda ligeira
Vem e a tudo derruba
Em instantes apenas
Sem que ninguém se dê conta.
Quando um castelo de areia
Uma onda derruba
Novamente um novo castelo
De areia
Começam a levantar
Desafiando a onda
Que traiçoeira chega
No começo devagarzinho
Ninguém percebe
Nem o menino que levanta
O castelo de areia
Nem a menina que brinca
Com seu balde de areia
Mas de tanto derrubar
Desistem definitivamente
O menino
A menina
Sem castelo algum
Cada um vai para o seu lado
Pois a brincadeira acabou
E como nada tivesse acontecido
Vem a onda ligeira
Não deixando vestígio algum
Que um dia houve na areia
Um castelo de areia
Um menino
Uma menina.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Chegava o frio
Um homem que vi na rua
Mancava de uma perna
Fazia frio naquela tarde
Quanto mais mancava
O inverno chegava
Trazendo consigo
Um homem que mancava.
Mancava de uma perna
Fazia frio naquela tarde
Quanto mais mancava
O inverno chegava
Trazendo consigo
Um homem que mancava.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Como aves de arribação
Sempre fora de lugar
Onde quer que esteja
Em nenhum lugar estará
Sem lugar certo para morar
Em nenhuma parte do mundo
Se sentirá como seu lugar
Por isso estrangeiro será
Onde quer que esteja
Seja lá
Seja cá
Por isso resolveu caminhar
Onde pudesse levar
Suas botinas surradas
De tanto andar
Por todos os caminhos
Alguns aquáticos
Outros terráqueos
Sem parada alguma
Como aves de arribação
Fugindo do frio que faz
Durante o inverno
Procurando pelos campos
Mais quentes de verão
Mas verão algum dura para
Sempre
E lá se vão novamente
Como aves de arribação
Não dura para sempre também
O amor que esquentou
O último verão
Quando vem o frio
Nenhum amor se mantém
Quente o suficiente
E lá se vão novamente
Como aves de arribação.
Onde quer que esteja
Em nenhum lugar estará
Sem lugar certo para morar
Em nenhuma parte do mundo
Se sentirá como seu lugar
Por isso estrangeiro será
Onde quer que esteja
Seja lá
Seja cá
Por isso resolveu caminhar
Onde pudesse levar
Suas botinas surradas
De tanto andar
Por todos os caminhos
Alguns aquáticos
Outros terráqueos
Sem parada alguma
Como aves de arribação
Fugindo do frio que faz
Durante o inverno
Procurando pelos campos
Mais quentes de verão
Mas verão algum dura para
Sempre
E lá se vão novamente
Como aves de arribação
Não dura para sempre também
O amor que esquentou
O último verão
Quando vem o frio
Nenhum amor se mantém
Quente o suficiente
E lá se vão novamente
Como aves de arribação.
sábado, 19 de junho de 2010
Jogando bolinhas de gude
Bolinhas de gude
Estas eram as preferidas
De meu irmão.
Sozinho ele passava
Jogando
Bolinhas de gude.
Sem ninguém próximo
Passava as tardes
Jogando
Bolinhas de gude.
Que graça achava ele
Que graça haveria nas
Bolinhas de gude.
Mas isso não importava
Nem aquilo que eu achava
Porque ele passava
Jogando
Bolinhas de gude.
Assim passou a vida
Toda
Jogando
Bolinhas de gude
Sem se importar em crescer
Se resolvesse crescer
Ele pararia
Não jogaria mais
Bolinhas de gude.
Pararia de viver
Também
Para ele somente
Importava jogar
Bolinhas de gude.
Mas eu nada sabia
Das bolinhas de gude
Passei a vida toda
Sem jogar uma única partida
De bolinhas de gude.
Por isso não vivi
Como ele viveu.
Ah. Como invejo
Quem pode jogar
Bolinhas de gude.
Estas eram as preferidas
De meu irmão.
Sozinho ele passava
Jogando
Bolinhas de gude.
Sem ninguém próximo
Passava as tardes
Jogando
Bolinhas de gude.
Que graça achava ele
Que graça haveria nas
Bolinhas de gude.
Mas isso não importava
Nem aquilo que eu achava
Porque ele passava
Jogando
Bolinhas de gude.
Assim passou a vida
Toda
Jogando
Bolinhas de gude
Sem se importar em crescer
Se resolvesse crescer
Ele pararia
Não jogaria mais
Bolinhas de gude.
Pararia de viver
Também
Para ele somente
Importava jogar
Bolinhas de gude.
Mas eu nada sabia
Das bolinhas de gude
Passei a vida toda
Sem jogar uma única partida
De bolinhas de gude.
Por isso não vivi
Como ele viveu.
Ah. Como invejo
Quem pode jogar
Bolinhas de gude.
Sorriso estranho
O estranho sorriso na cara
De Monalisa
Será de alegria
Será de tristeza disfarçada?
O sorriso que não existe mais
Em minha cara
Será de alegria disfarçada
Será de tristeza mesmo?
De Monalisa
Será de alegria
Será de tristeza disfarçada?
O sorriso que não existe mais
Em minha cara
Será de alegria disfarçada
Será de tristeza mesmo?
Sem espantar a tristeza
Esta frieza dos modos presentes
Não serve para ocultar a lava
Que derrama pelas bordas a chama
Que incendeia a alma perene
De uma dor sentida
De um mundo cada vez mais
Irreal e que clama por uma alegria
Que não mais acontece.
Por cima das pedras o limbo
Surgiu em sua antiguidade
Em sua brutal natureza
Mantém toda sua dureza
Cristalina e tristemente sentida
O sopro do vento pelo deserto
Traz algum encantamento
Nas patas dos camelos
Que continuam a mastigar
Uma grama que não mais existe.
Não serve para ocultar a lava
Que derrama pelas bordas a chama
Que incendeia a alma perene
De uma dor sentida
De um mundo cada vez mais
Irreal e que clama por uma alegria
Que não mais acontece.
Por cima das pedras o limbo
Surgiu em sua antiguidade
Em sua brutal natureza
Mantém toda sua dureza
Cristalina e tristemente sentida
O sopro do vento pelo deserto
Traz algum encantamento
Nas patas dos camelos
Que continuam a mastigar
Uma grama que não mais existe.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Nada me tem, nem sou
Sou negro, sou pastor, nasci por aí
não tenho documento nem raça
nem casta, sou um cachorro preto
uma orelha cortada sem ponta
por baixo uma ferida aberta - sou pirata
a ponta branca de uma pata
a peste me ataca
deixando o pelo ralo
(o que me cura?)
moro num buraco de terra - sou vira-lata
estou vivo
e na trilha da montanha eu te acompanho
sou forte
sou pastor
sou um cão negro
sou sua sombra neste caminho sob o sol
nada mais me interessa
te acompanho
no caminho estreito
curvo e íngreme
me distancio e lá na frente
perto daquela nuvem
faço um cocô amarelo
sou cão
abano o rabo
deixo pendurada a língua no canto da boca
--
um espinho penetrando lento a carne
- uma dor me ataca no mais fundo do ouvido
balanço a cabeça violento
as orelhas batem - slept-slept
(só assim penso na cura)
me jogo no chão
solto ganidos
me arrasto com a cabeça
a se esconder no capim
até passar
até me deixar
até voltar
e então outra vez sou
- o cão negro
estou pronto
estou alerta
- sou todo atenção neste caminho -
e não precisa passar a mão na minha cabeça
afeto para mim é apenas a nossa presença - móvel
neste fim de terra e pedras
sou sombra e assim não vejo diferença
entre eu e você
quando você pensar em me acariciar
já sumi no caminho à sua volta
sou sombra de um ou de muitos
não importa, sou pastor, reuno
reuno a matilha nessa trilha de montanhas
assim sou feliz
sou cão
cão sem dono
não tenho documento nem raça
nem casta, sou um cachorro preto
uma orelha cortada sem ponta
por baixo uma ferida aberta - sou pirata
a ponta branca de uma pata
a peste me ataca
deixando o pelo ralo
(o que me cura?)
moro num buraco de terra - sou vira-lata
estou vivo
e na trilha da montanha eu te acompanho
sou forte
sou pastor
sou um cão negro
sou sua sombra neste caminho sob o sol
nada mais me interessa
te acompanho
no caminho estreito
curvo e íngreme
me distancio e lá na frente
perto daquela nuvem
faço um cocô amarelo
sou cão
abano o rabo
deixo pendurada a língua no canto da boca
--
um espinho penetrando lento a carne
- uma dor me ataca no mais fundo do ouvido
balanço a cabeça violento
as orelhas batem - slept-slept
(só assim penso na cura)
me jogo no chão
solto ganidos
me arrasto com a cabeça
a se esconder no capim
até passar
até me deixar
até voltar
e então outra vez sou
- o cão negro
estou pronto
estou alerta
- sou todo atenção neste caminho -
e não precisa passar a mão na minha cabeça
afeto para mim é apenas a nossa presença - móvel
neste fim de terra e pedras
sou sombra e assim não vejo diferença
entre eu e você
quando você pensar em me acariciar
já sumi no caminho à sua volta
sou sombra de um ou de muitos
não importa, sou pastor, reuno
reuno a matilha nessa trilha de montanhas
assim sou feliz
sou cão
cão sem dono
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Tocador de blues
De onde será que vem
O som de blues?
Do outro lado de minha casa
Em que casa se ouve
O som de blues?
Que traz uma tristeza profunda
Uma beleza tristemente
Tocada numa guitarra
Uma saudade de uma terra
Que não existe mais
De uma mulher que se foi
Para não retornar mais
Nada mais deixou
Somente uma chave
De porta alguma
Sem fechadura.
Para que serve uma chave
Se nada mais há para se abrir
Para que serve o som de blues
Senão para tornar a tristeza
Uma condição das perdas
Numa vida vivida para se perder.
O som de blues?
Do outro lado de minha casa
Em que casa se ouve
O som de blues?
Que traz uma tristeza profunda
Uma beleza tristemente
Tocada numa guitarra
Uma saudade de uma terra
Que não existe mais
De uma mulher que se foi
Para não retornar mais
Nada mais deixou
Somente uma chave
De porta alguma
Sem fechadura.
Para que serve uma chave
Se nada mais há para se abrir
Para que serve o som de blues
Senão para tornar a tristeza
Uma condição das perdas
Numa vida vivida para se perder.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Numa casa da periferia
Por entre os fios
Elétricos pude ver
A lua minguante
Quase desaparecendo
Num barco chinês
Que navegava
No grande mar do céu
Abaixo estava uma casa
Quase em ruínas
Num bairro da periferia
Longe da vista
Longe da Avenida Paulista
Tendo por céu
O mesmo céu
Que naquela paisagem
Uma solidão imensa
Pairava sobre a casa
Acima a lua minguante...
Elétricos pude ver
A lua minguante
Quase desaparecendo
Num barco chinês
Que navegava
No grande mar do céu
Abaixo estava uma casa
Quase em ruínas
Num bairro da periferia
Longe da vista
Longe da Avenida Paulista
Tendo por céu
O mesmo céu
Que naquela paisagem
Uma solidão imensa
Pairava sobre a casa
Acima a lua minguante...
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Na margem de cá
Caminhando com seu bordão
Lá vai Jizo acompanhado
De uma multidão de crianças
Todos o seguem
Beirando o grande rio
Um barqueiro vem chegando
Um passageiro vai passando
Sem nenhuma bagagem
Sem companhia alguma
Vai só para a outra margem
Deixando para trás
Amigos e inimigos
Mortos e vivos
Seu cachorro preferido
Na margem do lado de cá
Fazem as crianças castelos
De cascalhos molhados
Até que chegam os demônios
Uma turba deles armados
De ferros
E põem os castelos ao chão
Totalmente destruídos
Todos os sonhos
Brincadeiras e amores
Totalmente destruídos
Até que novamente chega
Jizo e começa a construir de novo
Um novo castelo de pedras
Até ser destruído de novo.
Lá vai Jizo acompanhado
De uma multidão de crianças
Todos o seguem
Beirando o grande rio
Um barqueiro vem chegando
Um passageiro vai passando
Sem nenhuma bagagem
Sem companhia alguma
Vai só para a outra margem
Deixando para trás
Amigos e inimigos
Mortos e vivos
Seu cachorro preferido
Na margem do lado de cá
Fazem as crianças castelos
De cascalhos molhados
Até que chegam os demônios
Uma turba deles armados
De ferros
E põem os castelos ao chão
Totalmente destruídos
Todos os sonhos
Brincadeiras e amores
Totalmente destruídos
Até que novamente chega
Jizo e começa a construir de novo
Um novo castelo de pedras
Até ser destruído de novo.
domingo, 13 de junho de 2010
Tristão e Isolda
Uma intranqüila tristeza
Fere a pedra por inteira
Um ferreiro bate o ferro
Um pintor pinta o sete
Um palhaço chora e
O circo pega fogo
Queimando toda a impressão
De que era apenas ilusão
O amor de Tristão e Isolda.
Por amor não se morre
Tem que padecer
Na imensa solidão
Do amor que nunca se teve
E na solidão encontrar
A amizade de uma sombra
Companheira nestes tempos
De insolação amorosa.
Fere a pedra por inteira
Um ferreiro bate o ferro
Um pintor pinta o sete
Um palhaço chora e
O circo pega fogo
Queimando toda a impressão
De que era apenas ilusão
O amor de Tristão e Isolda.
Por amor não se morre
Tem que padecer
Na imensa solidão
Do amor que nunca se teve
E na solidão encontrar
A amizade de uma sombra
Companheira nestes tempos
De insolação amorosa.
O casarão que havia
Onde antes havia
Uma construção nada mais
Há agora do que destruição
De um dia para o outro
Tudo virou escombro
E toda a história que havia
Naquele local
Desapareceu num soprar
De um vento rasteiro.
Os amores que lá havia
Inscrito nas paredes rabiscadas
Encontros e também
Desencontros
Nada mais resta
Não resta mais a memória
Que baixou como poeira
De concreto armado
De ferro contorcido
Tudo se foi
Em instantes.
Como nunca tivesse havido
Nem fotografia se tirou
Dos tempos que havia
Uma velha construção.
Uma construção nada mais
Há agora do que destruição
De um dia para o outro
Tudo virou escombro
E toda a história que havia
Naquele local
Desapareceu num soprar
De um vento rasteiro.
Os amores que lá havia
Inscrito nas paredes rabiscadas
Encontros e também
Desencontros
Nada mais resta
Não resta mais a memória
Que baixou como poeira
De concreto armado
De ferro contorcido
Tudo se foi
Em instantes.
Como nunca tivesse havido
Nem fotografia se tirou
Dos tempos que havia
Uma velha construção.
Viver em desilusão
Os cachorros vadios vagueiam
Indiferentes ao frio que esfria também
Do que resta de amor inventado
No último verão.
Não há mais tempo para viver
Se viver é correr contra o tempo
Se viver é morrer a cada minuto
De insolação desiludida
De uma realidade cada vez mais
Irreal em sua aparência.
Indiferentes ao frio que esfria também
Do que resta de amor inventado
No último verão.
Não há mais tempo para viver
Se viver é correr contra o tempo
Se viver é morrer a cada minuto
De insolação desiludida
De uma realidade cada vez mais
Irreal em sua aparência.
A frieza chega às pernas
Não é o frio das ruas
Que assusta
Nem o frio que sobe
Pelas pernas acima.
O que assusta é a frieza
Da total indiferença
Que anda pelas ruas
Sem se importar
Com o frio que assalta
Os corações de total frieza.
Como o frio incomoda
Meu corpo aquecido
Pelas blusas novas
E felpudas da ignorância.
Como detesto o calor
De minha blusa
Que mais frio produz
Em tempos que o frio
É apenas um detalhe
Dentre as prioridades!
Que assusta
Nem o frio que sobe
Pelas pernas acima.
O que assusta é a frieza
Da total indiferença
Que anda pelas ruas
Sem se importar
Com o frio que assalta
Os corações de total frieza.
Como o frio incomoda
Meu corpo aquecido
Pelas blusas novas
E felpudas da ignorância.
Como detesto o calor
De minha blusa
Que mais frio produz
Em tempos que o frio
É apenas um detalhe
Dentre as prioridades!
sábado, 12 de junho de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
quarta-feira, 9 de junho de 2010
O tempo parado
Nesta irreal realidade
Em que compartilhamos
Sentimentos comuns
A felicidade é um momento
Fugaz como as gotas de orvalho
Mas podem durar pela eternidade
Até que a água se desfaça em vapor
Como é longo o amor
Que desconhece o tempo passando
O tempo não passa
O tempo pára
Para os apaixonados
Que não fazem mais nada
Do que nada fazer
Enlouquecer de tanto
Sonhar por um momento!
Em que compartilhamos
Sentimentos comuns
A felicidade é um momento
Fugaz como as gotas de orvalho
Mas podem durar pela eternidade
Até que a água se desfaça em vapor
Como é longo o amor
Que desconhece o tempo passando
O tempo não passa
O tempo pára
Para os apaixonados
Que não fazem mais nada
Do que nada fazer
Enlouquecer de tanto
Sonhar por um momento!
terça-feira, 8 de junho de 2010
Cantor de rua
Ao lado da velha sinagoga
Encontrava-se o louco cantor
Que cantava o dia inteiro
Como cigarra até desabar
De uma alegria disfarçada
Da própria condição humana.
Sua canção não era de tristeza
Mas triste era a situação
Que para não enlouquecer
Do excesso de realidade
Cantava seu mundo encantado.
Encontrava-se o louco cantor
Que cantava o dia inteiro
Como cigarra até desabar
De uma alegria disfarçada
Da própria condição humana.
Sua canção não era de tristeza
Mas triste era a situação
Que para não enlouquecer
Do excesso de realidade
Cantava seu mundo encantado.
Melancolia diante do mundo
Contudo, além do riso jovial e do respeito, ainda se acha nesse sentido contraditório uma outra inpressão, pois, ao representar o elo perdido entre as forças intelectuais e sensíveis, o ingênuo também desperta uma certa melancolia com o estado real em que se encontram os homens em sociedade.
SCHILLER, Poesia ingênua e sentimental, São Paulo: Iluminuras, 1991, p.21
SCHILLER, Poesia ingênua e sentimental, São Paulo: Iluminuras, 1991, p.21
Amor além dos muros
Foi quando de repente
O ônibus parou naquele ponto
Saltaram as mulheres
Algumas muito jovens
Carregando sacolas com produtos
Havia de tudo
Havia refrigerantes
Havia bolachas
Havia cigarros
Havia também embalado
Em celofane vermelho e rosa
Uma caixa de amor
Era o dia das visitas
Das mulheres e filhas
Dos presidiários
Daquele mundo isolado
Uma ilha cercada por muros
Por fuzis e olhares desafiadores
Daqueles que tinham ainda
O direito de receber
A visita de seus amores.
O ônibus parou naquele ponto
Saltaram as mulheres
Algumas muito jovens
Carregando sacolas com produtos
Havia de tudo
Havia refrigerantes
Havia bolachas
Havia cigarros
Havia também embalado
Em celofane vermelho e rosa
Uma caixa de amor
Era o dia das visitas
Das mulheres e filhas
Dos presidiários
Daquele mundo isolado
Uma ilha cercada por muros
Por fuzis e olhares desafiadores
Daqueles que tinham ainda
O direito de receber
A visita de seus amores.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Canto das sereias
Por mares nunca navegados
Que poderá ser encontrado
Se nenhuma viagem aconteceu?
Sou Odisseu sendo encantado
Pelas sereias de canto solene
Devoradoras de homens
De suas almas mais profundas
Que a ninguém revela seus segredos
Seus medos mais insanos
O medo da solidão
Quem sabe o medo de perder a razão
Ao tomar da boca delas
O licor mais doce
Que leva ao arrependimento
De um dia ter visto
Ouvido a cantilena marítima
Do amor que a tudo arrebata
Breve amor
Que enfim mata
Todas as noites de verão.
Que poderá ser encontrado
Se nenhuma viagem aconteceu?
Sou Odisseu sendo encantado
Pelas sereias de canto solene
Devoradoras de homens
De suas almas mais profundas
Que a ninguém revela seus segredos
Seus medos mais insanos
O medo da solidão
Quem sabe o medo de perder a razão
Ao tomar da boca delas
O licor mais doce
Que leva ao arrependimento
De um dia ter visto
Ouvido a cantilena marítima
Do amor que a tudo arrebata
Breve amor
Que enfim mata
Todas as noites de verão.
Anjos Caídos
Ensaio fotográfico sobre evento de suspensão corporal durante a Virada Cultural de São Paulo, 2010. Clique em "Open publication" para ver em tela cheia. Fotos Bruno Mitih.
domingo, 6 de junho de 2010
Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem, Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005, p.87.
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
BANDEIRA. Manuel, Libertinagem, Estrela da Manhã, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005, p.87.
Acima das nuvens
Quando a noite dorme
Também dorme o viaduto
Que abaixo dele dorme
Um casal de mendigos
Um cachorro também dorme
E assim a noite esquenta-se
Até que a manhã chegue
Trazendo os primeiros raios do sol.
A noite é longa
Para os que não querem acordar.
A noite é longa
Para os sonhadores e loucos
Que se entregam desvairadamente
Na vontade de navegar sobre as nuvens
Onde existe felicidade
A felicidade somente existe
Acima das nuvens de nossa existência
Acima bem acima de nossa realidade
Existe apenas em nossos sonhos.
Também dorme o viaduto
Que abaixo dele dorme
Um casal de mendigos
Um cachorro também dorme
E assim a noite esquenta-se
Até que a manhã chegue
Trazendo os primeiros raios do sol.
A noite é longa
Para os que não querem acordar.
A noite é longa
Para os sonhadores e loucos
Que se entregam desvairadamente
Na vontade de navegar sobre as nuvens
Onde existe felicidade
A felicidade somente existe
Acima das nuvens de nossa existência
Acima bem acima de nossa realidade
Existe apenas em nossos sonhos.
A pele marcada
Nunca aprendi a empinar papagaios
Não subi aos céus para riscar o azul
Nem por isso fiquei triste
Pois aprendi geografia ao explorar
As formas generosas de Ana Maria
Com ela conheci o amor
Este irresponsável sentimento
Que machuca e causa sangramento
Sem que nos demos conta de nosso corpo
Cada vez mais marcado
Por unhas e dentes de um passado
Perdido no tempo.
Não subi aos céus para riscar o azul
Nem por isso fiquei triste
Pois aprendi geografia ao explorar
As formas generosas de Ana Maria
Com ela conheci o amor
Este irresponsável sentimento
Que machuca e causa sangramento
Sem que nos demos conta de nosso corpo
Cada vez mais marcado
Por unhas e dentes de um passado
Perdido no tempo.
Ao final do túnel
Sempre no mesmo ponto
Lá estava a velha na saída dos carros
Lá estava a velha no final do túnel
Nada pedia apenas sentada ficava
À espera dos carros que saíam
Às vezes paravam e davam algo
À velha que estava no final do túnel
Recebia com suas mãos crispadas
Um resto de pão
Um pouco de moedas
Um pouco de amor
De uma multidão desconhecida
Que por instantes viviam
A vida solitária
Da velha no final do túnel
Havia no final do túnel uma luz?
Não
Era apenas a velha
Que não incomodava
Que não atrapalhava
Nem vendia doces
Nem amendoim torrado
Nada vendia
Apenas a sua imagem
De velha no final do túnel
Ainda que fizesse frio
De lá ela não saía
Como uma estátua de mármore
Permanecia sentada e nada pedia
Mas quem a via dava
Qualquer coisa
Coisa alguma
Lá estava a velha no final do túnel.
Quem a viu jamais deixou de dar
Quem a viu nunca mais se esqueceu
De uma solidão profunda na profusão
De carros saindo ligeiro.
Lá estava a velha na saída dos carros
Lá estava a velha no final do túnel
Nada pedia apenas sentada ficava
À espera dos carros que saíam
Às vezes paravam e davam algo
À velha que estava no final do túnel
Recebia com suas mãos crispadas
Um resto de pão
Um pouco de moedas
Um pouco de amor
De uma multidão desconhecida
Que por instantes viviam
A vida solitária
Da velha no final do túnel
Havia no final do túnel uma luz?
Não
Era apenas a velha
Que não incomodava
Que não atrapalhava
Nem vendia doces
Nem amendoim torrado
Nada vendia
Apenas a sua imagem
De velha no final do túnel
Ainda que fizesse frio
De lá ela não saía
Como uma estátua de mármore
Permanecia sentada e nada pedia
Mas quem a via dava
Qualquer coisa
Coisa alguma
Lá estava a velha no final do túnel.
Quem a viu jamais deixou de dar
Quem a viu nunca mais se esqueceu
De uma solidão profunda na profusão
De carros saindo ligeiro.
Um vento passageiro
O tempo passou
O tempo da escola passou
Os amigos passaram
Passaram passarinhos
Um gato preto passou
Repentino o vento passageiro
De passagem passou a vida
A vida inteira passada
Num piscar
Num bater de asas
De uma mariposa moribunda
Também passou ligeiro
Minha juventude sonhadora
Meus sonhos passaram
Nem sonhos tenho mais
Esqueci de viver
Só me resta o consolo
Desta dor nas costas
Que mais forte se torna
Nas tardes frias e angustiantes
Dos tempos do agora.
O tempo da escola passou
Os amigos passaram
Passaram passarinhos
Um gato preto passou
Repentino o vento passageiro
De passagem passou a vida
A vida inteira passada
Num piscar
Num bater de asas
De uma mariposa moribunda
Também passou ligeiro
Minha juventude sonhadora
Meus sonhos passaram
Nem sonhos tenho mais
Esqueci de viver
Só me resta o consolo
Desta dor nas costas
Que mais forte se torna
Nas tardes frias e angustiantes
Dos tempos do agora.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
O amor de ontem
Uma possibilidade é sempre
Uma possibilidade de acontecer
Pode ser um encontro de olhos
Rápidos e fugazes
Como uma fumaça em desalinho
Rodopiando numa dança inventada
Exatamente naquele instante
Para nunca mais se repetir
Uma tacada de sorte
Para nunca mais se repetir
Um beijo dado no momento certo
Para nunca mais se repetir
Somente repetimos a esperança
De que o amor possa se repetir
E morremos de saudades
Dos amores passados
Que ficaram no passado
Mas continuam assombrando
E arranhando com suas unhas
De esmalte rubro e metálico
O presente que também passou.
Por isso a vida é um eterno
Passado passageiro e sonhado.
Uma possibilidade de acontecer
Pode ser um encontro de olhos
Rápidos e fugazes
Como uma fumaça em desalinho
Rodopiando numa dança inventada
Exatamente naquele instante
Para nunca mais se repetir
Uma tacada de sorte
Para nunca mais se repetir
Um beijo dado no momento certo
Para nunca mais se repetir
Somente repetimos a esperança
De que o amor possa se repetir
E morremos de saudades
Dos amores passados
Que ficaram no passado
Mas continuam assombrando
E arranhando com suas unhas
De esmalte rubro e metálico
O presente que também passou.
Por isso a vida é um eterno
Passado passageiro e sonhado.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Os demônios friorentos
Nada mais triste do que
O frio que endurece os membros
Até mesmo os demônios sentem
O frio
Que nos viadutos procuram calor
Numa fogueira improvisada
Numa bebida improvisada
Mas não consegue conter
A onda de frio
O frio das pessoas
Que não moram nas ruas.
O frio das pessoas
Que não tem olhos
Para os demônios da rua.
O frio que endurece os membros
Até mesmo os demônios sentem
O frio
Que nos viadutos procuram calor
Numa fogueira improvisada
Numa bebida improvisada
Mas não consegue conter
A onda de frio
O frio das pessoas
Que não moram nas ruas.
O frio das pessoas
Que não tem olhos
Para os demônios da rua.
Visão indiscreta
Pelas vilas da zona norte
Os varais estendem
As mais coloridas vestes
De cima e de baixo
Vermelhas e azuis
Sem nenhum pudor.
Toda e qualquer intimidade
Pode ser vista
Repartida pelos olhos
Curiosos do turista
Ocasional.
Os varais estendem
As mais coloridas vestes
De cima e de baixo
Vermelhas e azuis
Sem nenhum pudor.
Toda e qualquer intimidade
Pode ser vista
Repartida pelos olhos
Curiosos do turista
Ocasional.
Abaixo do viaduto
Num ponto da esquina
Num ponto abaixo do viaduto
Um mendigo habita a rua
Um mendigo e o seu cão
Repartem o mesmo espaço
Espaço de jornal e papelão
Faça frio
Faça chuva
Faça ventania
Nunca se separam
Um mendigo e o seu cão.
Num ponto abaixo do viaduto
Um mendigo habita a rua
Um mendigo e o seu cão
Repartem o mesmo espaço
Espaço de jornal e papelão
Faça frio
Faça chuva
Faça ventania
Nunca se separam
Um mendigo e o seu cão.
Ausência fria
Por baixo da mesa meus
Pés procuram pelos seus
Mas nada encontram
Senão uma ausência
De qualquer calor.
Pés procuram pelos seus
Mas nada encontram
Senão uma ausência
De qualquer calor.
Escrevo porque sou um desesperado...
Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e seu desespero. E agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui.
LISPECTOR. Clarice, A hora da estrela, Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1993, p.32
LISPECTOR. Clarice, A hora da estrela, Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1993, p.32
Assinar:
Postagens (Atom)





